Biografia dos Santos

Biografia pelo Vaticano

 

SOLENE RITO DE BEATIFICAÇÃO
DE TRÊS SERVOS DE DEUS:
DON LUIGI ORIONE
IRMÃ MARIA ANNA SALA
BÁRTOLO LONGO

HOMILIA DO PAPA JOÃO PAULO II

Domingo, 26 de Outubro de 1980

 Caríssimos Irmãos e Filhos

Gaudeamus omnes in Domino, hodie, diem festum celebrantes sub honore Beatorum nostrorum!” (Alegremo-nos todos no Senhor, hoje, ao celebrarmos o dia de festa em honra dos nossos Beatos).

(…)

3. A Suor Maria Anna Sala ensina-nos a heróica fidelidade ao particular carisma da vocação.

Tendo entrado para as Irmãs Marcelinas aos 21 anos, compreendeu que o seu ideal e a sua missão deviam ser unicamente o ensino, a educação, a formação das meninas na escola e na família.

A Irmã Maria Anna foi, simples e totalmente fiel ao carisma fundamental da sua Congregação. Três grandes lições brotam da sua vida e do seu exemplo: a necessidade da formação e da posse de um bom carácter, firme, sensível e equilibrado o valor santificante do empenho no dever assinalado pela obediência e a importância essencial da obra pedagógica.

A Irmã Maria Anna quis adquirir aptidões do mais alto grau, convencida que tanto se pode dar quanto se possui; e apaixonou-se do seu cargo de mestra, santificando-se no cumprimento do próprio trabalho quotidiano. Pôs em prática a mensagem de Jesus: “Quem é fiel no pouco também é fiel no muito” (Lc 16, 10). Aprendam da nova Beata, sobretudo as Religiosas, a estarem alegres e serem generosas no seu trabalho, embora oculto, monótono e humilde. Aprendam, todos aqueles que se dedicam à obra educativa, a não se amedrontarem nunca com as dificuldades dos tempos, mas a empenharem-se com amor, paciência e preparação, na sua tão importante missão, formando as almas e elevando-as aos supremos valores transcendentes. Particularmente hoje a Escola precisa de educadores prudentes, sérios, preparados, sensíveis e responsáveis.

Fonte:http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/homilies/1980/documents/hf_jp-ii_hom_19801026_beatificazioni_po.html

Biografia

«Nesse momento, diante do Senhor, correu um vento impetuoso e forte que fendia as montanhas e quebrava as rochas; mas o Senhor não estava naquele vento; ascendeu-se um fogo, mas o Senhor não estava no fogo. Depois do fogo, ouviu-se uma voz calma e suave. E Deus estava nesta voz doce e serena». (1a R. 19,11-13)O estilo de santidade de Ir. Marianna Sala nos sugere aquela voz calma e serena, na qual Deus estava presente. Para atingirmos tais alturas, para nos elevarmos a um alto nível espiritual, devemos começar pelos fundamentos da humildade. E, com humildade e confiança, irmos a Deus, que tudo pode! Eis a mensagem que Ir. Marianna Sala nos transmite com sua vida: um hino a Deus, urna oração contínua e um mergulho no mistério de Cristo que conheceu a humildade do sepulcro; um caminhar confiante, na certeza de ser amada por Deus, enquanto todo o seu ser possuía o Amor e cantava o Amor.

  Ir. Marianna deu o máximo de si, na observância religiosa e no apostolado, com um incomparável espírito de sacrifício, fazendo brilhar, porém sempre escondida, todos os dons da inteligência com que o Senhor a dotara, tornando-se educadora de valor. As alunas, ela deu não só a ciência necessária, num tempo em que a mulher se conservava afastada da cultura, mas deu também a sabedoria e o temor de Deus.

 Sem ostensiva tomada de partido, trabalhou sabiamente pela promoção da mulher, procurando dar-lhe urna cultura adequada e urna piedade baseada em seguros conhecimentos teológicos.

 Entre as alunas que deram testemunho dela, houve urna, Giuditta Alghisi, depois Montini, que foi a mãe de Paulo VI. Isto nos faz pensar no trabalho silencioso, porém grande, que as santas mães tiveram na formação de seus filhos. Ao lado das mães, as educadoras.

 Card. Pietro Palazzini

Os primeiros anos

 

As margens do rio Adda

Em Brivio, antigo subúrbio da alta Brianza, às margens do rio Adda, no território de Lecco, no dia 21 de abril de 1829, nasceu Maria Anna, a quinta de 8 filhos de Giovanni Maria Sala e Giovannina Comi.

Seu pai, homem de grande fé e trabalhador, comerciante de madeiras, possuía, no centro da cidade, urna casa cômoda, com entrada ampla, um pátio vasto e barulhento.

Nesta casa, Marianna nasceu e cresceu, como seus irmãos, no afeto do lar, num clima de paz e serenidade, alicerçada na fidelidade às tradições cristãs da numerosa família bem inserida na comunidade paroquial onde Giovanni Sala era sábio e prudente colaborador.

 Marianna foi levada à pia batismal, na paróquia vizinha, no dia do seu nascimento e ai recebeu aquele germe de vida divina, que amadureceu nela em fruto de santidade.

Na sua infância pura e simples, alimentou sua profunda piedade, com assíduo estudo das verdades da fé, sempre presentes em sua lúcida inteligência.

Particularmente caro à devoção de Marianna, quando criança, foi um pequeno santuário, oratório de São Leonardo, um pouco fora da cidade, onde se venerava urna imagem de Nossa Senhora, diante da qual os moradores de Brivio levavam as suas dores, as suas lágrimas, recébendo o conforto da esperança cristã e, não raro, graças importantes.

Diante desta imagem, Marianna e uma de suas irmãs se prostraram numa ardente prece, num momento de grande dor para o seu coração de criança: a enfermidade da mãe.

Enquanto as crianças rezavam – como mostra um quadro votivo da família Sala – a enferma se sentiu curada, com intima certeza de haver visto junto a si a Virgem Maria, abençoando-a.

Aluna das Marcelinas

Os pais de Marianna, conscientes da responsabilidade com relação aos filhos, ao mesmo tempo que, com o exemplo de urna vida integralmente cristã, preparavam os cidadãos da cidade celeste, olhavam com sábia providência os caminhos difíceis da cidade terrena, e eram abertos às conquistas do progresso, rico de novidades, na metade do seculo XIX.

Corria em Brivio a fama da recente fundação de um Instituto feminino – o das Marcelinas, aberto em Cernusco sul Naviglio, em 1838, pelo diretor espiritual do Seminário, o beato Luiz Biraghi.

  Cernusco sul Naviglio (Milão) primeiro Colégiodas Marcelinas

Objetivo do Instituto: educar, à luz da fé cristã, segundo programas sólidos de ensino, sem deixar de lado as atividades domésticas, as jovens de urna burguesia que se firmava, irreversivelmente, na vida civil.

Obtendo, imediatamente, amplo consentimento, as Marcelinas abriram em 1841, um segundo Colégio em Vimercate, na baixa Brianza.

Neste Colégio, Giovanni Maria Sala quis que suas filhas mais aptas, Marianna (1842), em seguida Genoveffa e Lúcia, completassem seus estudos.

Marianna distinguiu-se como aluna exemplar e em 1846 conseguiu, com ótimos resultados, o diploma de professora primária.

A vocação religiosa

No ativo recolhimento do Colégio, encontrou um tesouro superior àquele que os títulos de estudo lhe asseguravam: acolhera no coração o chamado de Cristo à vida consagrada, apostólica e evangelizadora, como suas educadoras, das quais admirara o zelo e a piedade, sob a orientação da Madre Videmari, fervorosa colaboradora do Fundador.

Ao chamado de Cristo, Marianna respondeu com o seu «SIM» de total devotamento, tendo, porém, que esperar dois anos antes de realizar seu desejo. A saúde da mãe, os afazeres do lar, a crise econômica, motivada pela falência do pai, exigiram de Marianna sua presença solicita e confortadora em casa. Sua mãe a considerava a melhor dos filhos; seu pai encontrava nela a força do perdão cristão e a coragem para retomar sua atividade.  

 Vimercate (Milão). Colegio das Marcellinas em Vimercate.

No dia 13 de fevereiro de 1848, Marianna voltou ao Colégio de Vimercate, como aspirante à vida religiosa.

Após o noviciado, teve a sorte de pronunciar os votos, por ocasião da aprovação canônica da Congregação: 13 de setembro de 1852.

O testemunho de vida

Começou, então, a vida da Irmã educadora, heróica na monótona fadiga do dia a dia, na observância regular que a levou, através de um exercício humilde e ininterrupto, às virtudes cristãs; à única e verdadeira realização da existência humana – a santidade. O campo de seu fecundo apostolado foram os Colégios de Cernusco, Milão, Via Amedei, Genova e, durante as férias de outono, Chambéry, na Savoia. Por fim Milão, na então casa geral de Via Quadronno.

A perfeita obediência de Irmã Marianna Sala não se manifestou só no acolhimento dócil dessas transferências, mas também na total dependência das Superioras e das coirmãs – parecia haver feito voto de obediência a todas as Irmãs, disse uma testemunha, e era disponível às alunas e aos que dela se aproximavam.

 Chambéry (Savoia-FR). Castelo dos Duques de Savóia.

«Vou já» – é a expressão de sua vida votada ao serviço. Um «vou já» que a levava a interromper até as mais importantes de suas ocupações, até as lições escrupulosamente preparadas, que não lhe deixava espaço nem para prolongados encontros com Cristo, ardente desejo de sua alma contemplativa.

Com aquele «Vou já» irmã Marianna Sala responder seu «sim» amoroso a Deus na humildade e na pobreza de quem deu tudo.

Tinha sempre consigo o Senhor: vivia sempre da presença de Deus, como do ar que se respira.

Percebiam-no também as alunas, quando ouviam em classe suas explicações, sempre marcadas por um profundo espirito de fé, que lhes atraiam a atenção e as comoviam, quando dela se aproximavam, na capela, no tempo das orações comunitárias; quando a viam passar, solicita pelos corredores do Colégio, preocupada com suas inúmeras incumbências ou quando a viam ajoelhada ao lado da cama nos últimos colóquios com Jesus Crucificado.

É uma Irmã extraordinária, diziam entre si;

É uma santa, ousavam afirmar alguns, naturalmente, depois de lhe haver notado a santidade, pondo-lhe à prova a paciência, a firmeza, a mansidão, a inexaurível capacidade de compreensão, de confiança, de esperança de amor, como costumam fazer as adolescentes de todos os tempos com professores e educadores. Irmã Marianna teve esses dons de verdadeira educadora, porque foi mansa na sua forte personalidade. E, dos mansos, teve a violência: a que conquista o reino.

Escrevia, em janeiro de 1869, à sua irmã, Ir. Genoveffa, também educadora Marcelina:

 Cara Genoveffa,

 Com a prontidão de sempre, respondo a sua cartinha que muito me agradou como também me agradou o santo que nela você incluiu. Agradeço muito a delicadeza que teve comigo. Lamento seu resfriado; espero que tenha juízo e procure livrar-se dele logo. Sim, mantenha-se com saúde, pois, com eia se cumpre melhor os deveres. Esteja sempre alegre e pense que Deus a ama verdadeiramente e ajudá-la-á, mais do que pensa, a instruir e educar bem suas alunas. Não considere inútil o cansaço sem fruto imediato; tenha paciência, que, com a ajuda de Deus, poderá ganhar muito, trabalhando na sua vinha. Quando acharmos que nosso trabalho supere nossas forças, não nos desanimemos, pois, então, teremos mais razões e quase um direito de esperar mais auxilio de Deus. Pois, se a vontade dos Superiores é para nós a vontade de Deus, devemos admitir que é Deus quem nos coloca naquela escola, naquela oficio, etc. Deus nunca no dará um peso superior às nossas forças; logo, é certo que, quanto major for a nossa insuficiência, major será também a sua ajuda, para que sua obra não fracasse.

 Coragem, pois, e alegria; esforcemo-nos para cumprir nossos deveres e pensemos que Cristo há de fazer sua parte e a fará como sempre.Eram as convicções profundas que sustentavam sua opção existencial, conhecia o peso do apostolado na escola, mas o amava porque ele a tornava colaboradora de Jesus Cristo.

 Escrevia a uma aluna:

 Sou-lhe gratíssima pela linda cartinha que me escreveu. Considero-a um feliz prenúncio de que, na entrada do novo ano escolar, terei em você uma das alunas que melhor saberá tornar suave o já agradável dever de educar. E verdade que pouco valho, mas esperemos que o, Senhor considere a boa vontade de me dedicar inteiramente ao seu bem e ao de todas as minhas queridas alunas. (5.10.1880).

 Irmã Marianna dedicava-se, incansavelmente, às suas alunas para que se tornassem não só cultas, mas também fortes na fé e em todas as virtudes cristãs, como a mulher forte, elogiada na Sagrada Escritura. E as encorajava nas dificuldades da vida:

 Coragem, minha Virginia, coragem e grande confiança em Deus, que sempre vela sobre você com um olhar de Pai amoroso. Ele nunca Me faltará; ajudá-la-á educar bem os queridos filhinhos que lhe confiou, qual depósito sagrado, reservando-lhe contudo, grande prêmio pelo que deles fizer para o céu e para a sociedade. Deus a sustentará nos momentos da prova; (…) se-lhe-á pródigo em conceder-lhe aquelas graças que mais deseja o coração de uma boa e virtuosa mãe de família. (a Virginia Limonta, 29.7.1877).

 Uma aluna declara no processo:

 Na educação das alunas tinha como único fim: formar verdadeiras cristãs que pudessem formar cristãmente as próprias famílias, difundindo o Reino de Deus.

 Urna outra acrescenta:

 O fim de todo seu ensinamento era formar as alunas, para que fossem mães de família verdadeiramente cristãs.

 Ir. Marianna tinha para com suas alunas um relacionamento de grande clareza, de lealdade, de sinceridade. Por ser verdadeira queria a verdade.

 As alunas entendiam-no e nutriam por ela urna sincera afeição. Que a afeição, por elas, fosse simples e autêntica, declara-o, surpreendentemente, a própria Ir. Marianna, numa carta que podemos considerar a mais significativa de seu epistolário: a da despedida da Superiora do Colégio de Genova, depois de ter recebido a obediência que a transferia para Milão:

 Milão, 1 de novembro de 1878

 Querida Superiora Catarina

 Recebi, ontem, a noticia da minha nova destinação. Eu estou ainda tão confusa que não sei exprimir o que ela produziu no meu espirito. Basta, o Senhor assim o quer; ele me ajudará.

 E aquela santa indiferença de que falávamos, quanto me falta para consegui-la! Envergonho-me de mim mesma. Enquanto me considerava pronta a qualquer sacrifício, na prática, a natureza ainda se ressente vivamente.

 Querida superiora, reze por mim (…).

 Eu a lembrarei, diariamente, junto ao Senhor, como único meio que me resta para compensá-la pelas múltiplas atenções e caridade que usou para comigo, que trarei, uma por uma, escritas no coração. Quantas vezes, talvez, a desgostei, principalmente com meu caráter selvagem e seco! Peço perdão à senhora e a todas as minhas boas irmãs pelas faltas cometidas para com todas. Cumprimente-as e diga-lhes que guardarei uma doce lembrança de todas.

 E as caras alunas? E as majores? Oh, se soubessem o quanto sinto a separação! Não sabia que as amava tanto! Querida Superiora, queira abraçá-las e dizer-lhes uma boa palavra por mim. Que o Senhor Me conceda um ano verdadeiramente abençoado, para a sua consolação e das Irmãs, especialmente das que se ocuparão mais delas.

 Devo terminar, embora tenha muito a dizer-lhe ainda. Fica para uma outra vez.

 Cumprimento-a e de novo Me agradeço. (…) recomendo-me às suas orações, para obter o auxilio no cumprimento da vontade de Deus.

 Creia-me sempre afetuosa e grata.

 Ir. Marianna Sala

 P.S. – Relendo a carta pareceu-me dar-lhe a impressão de que sofro muito aqui. Não, sinto a separação, mas Deus me ajuda. A Madre Superiora me trata com uma bondade acima do que mereço e as Irmãs se mostram verdadeiramente Irmãs. Deus me ajude a corresponder a tudo.

Seu sofrimento

Após o desabafo, embora controlado, de seus sentimentos, o post scriptum foi, da parte de Irmã Marianna, como um voltar a si, para não deixar pesar sobre os outros os próprios sofrimentos.

Era sempre assim. Só quem a observou, confirmando-o no processo, pôde intuir algo de sua participação no mistério da Cruz, ao qual Cristo chama os mais fiéis.

 

Milano, il Collegio di via Quadronno, dove mori la beata Maria Anna Sala.

Sem dúvida, foram-lhe causa de grandes sofrimentos não só as misérias humanas, diárias e inevitáveis da comunidade, sobre as quais passou sempre com inalterável paz, mas também as repreensões freqüentes e fortes da Madre Marina Videmari, de caráter forte e impulsivo, convencida, em boa fé, de que os santos devem ser provados.

Não lhe faltou o sofrimento físico. Uns oito anos antes da morte, quando Ir. Marianna estava na casa de Via Quadronno, em Milão, manifestou-se nela o mal que a levaria à morte: um tumor na garganta, externamente visível.

Uma echarpe preta, usada,. com desenvoltura, disfarçava as aparências, enquanto o sorriso imperturbável de seu rosto, após crises agudas de dor; que a constrangiam a interromper as aulas, fazia esquecer, a quem dela se avizinhasse, o quanto havia sofrido. Aliás, numa maravilhosa superação de si, ela se habituara a chamar, jocosamente, a horrível deformação do pescoço, seu colar de pérolas.

Nunca revelou angústia pelo mal, nem mesmo nos últimos meses de vida.

«Estou bem», escreveu a uma irmã, em 26 de julho de 1891.

Vivia o que afirmara, anos antes, com a lógica dos apaixonados pela Cruz:

Sirvamos o Senhor, com coragem, minha boa Genoveffa, ainda quando nos pede algum sacrifício, se assim se podem chamar as pequenas dificuldades que encontramos no caminho da virtude. Realmente, o que é o que sofremos nós em confronto com o que por nosso amor sofreu nosso amado Esposo? Aliás, não deveríamos antes alegrar-nos e agradecer-lhe, quando nos envia alguma ocasião de provar-lhe nosso amor e nossa fidelidade? Entreguemo-nos ao Senhor em tudo e por tudo, e Ele nos ajudará a nos
tornarmos santos (a Ir. Genoveffa, 16-10-1874).

Santificar-se foi, para Ir. Marianna, uma questão de verdade, de fidelidade, de coerência. Era seu compromisso de batizada e de consagrada, que viveu com aparente naturalidade, numa tensão ascética que se manifestou, não em atitudes extraordinárias, mas em exercícios contínuos das virtudes comuns.

Foi, porém, urna tensão atenuada pela alegre esperança do paraíso.
O seu desejo do céu, no qual sempre envolvia as alunas, parece ter-se tornado mais vivo e freqüente ao pressentir o fim de sua vida.

No dia 10 de agosto de 1891 escrevia a Annunciata Crosti:

Coragem e confiança, esteja certa de que rezo realmente por você e por seus caros. Você também diga algumas palavras, por mim, à Virgem, especialmente nestes dias em que nos preparamos para a bela solenidade da Assunção. Sursum corda! Nunca é demais o que se faz para ganhar o céu.

No outono de 1891, Ir. Marianna retomara suas numerosas e absorventes atividades e o ensino nas classes das maiores. Mas, após os primeiros dias de aula, foi obrigada a interromper o trabalho, recolhendo-se na enfermaria do colégio.

A doença venceu sua resistência física e moral. Passou quinze dias de sofrimento atroz.

Em 24 de novembro, enquanto as co-irmãs rezavam, na Capela, a Ladainha de Nossa Senhora, ela sentiu o esplendor da invocação «Regina Virginum» e, no leito de morte, urna beleza nova resplandecia em sua fisionomia, havendo desaparecido qualquer sinal do tumor.

Irmãs, alunas e ex-alunas divulgaram a fama de sua santidade. Umas, reconhecendo nela a religiosa exemplar, na fidelíssima observância das Regras; outras, lembrando, com o ensinamento impregnado de fé, o exemplo de vida, decisivo na formação da juventude.

O encontro casual de seus despojos intactos, em 1920, fez com que se voltasse a falar na, já esquecida, Ir. Marianna Sala. As ex-alunas se uniram às Marcelinas para pedirem a introdução da causa de beatificação e muitas testemunharam, no processo informativo, a heroicidade das virtudes.

Fonte: http://www.marcelline.org/sito-testi/beata-maria-anna-sala/p-og.htm

Biografia pelo Vaticano

PADRE LUÍS BIRAGHI (1801-1879)

Fundador das religiosas de Santa Marcelina

Nasceu em Vignate (Itália) a 2 de Novembro de 1801, quinto de oito filhos de Francisco e Maria Fini, agricultores.

De 1813 a 1825 fez os estudos de humanidade, filosofia e teologia respectivamente nos seminários de Castello (Lecco), de Monza e de Milão, distinguindo-se sempre. Como diácono, foi encarregado do ensino de letras nos seminários menores, cargo que lhe foi confirmado depois da ordenação presbiteral (28 de Maio de 1825) que ele desempenhou com paixão.

Em 1833 foi nomeado director espiritual do seminário maior:  cargo a que se dedicou com incansável caridade, exemplo vivo, para os seus clérigos, de amor a Cristo e à sua Igreja, de total dedicação e de obediência incondicionada.

Em 1841 o Cardeal Gaisruck quis que ele fizesse parte dos fundadores e redactores do periódico eclesiástico O Amigo Católico. O Pe. Biraghi empenhou-se nesta obra com fervoroso espírito de apostolado, no desejo de conduzir a Cristo a sociedade moderna, atraída por falazes ideologias e pela ilusória confiança no progresso.

Convencido de que a base da sociedade civil é a família e que o coração da família é a mulher, em 1838 abriu um colégio feminino onde as filhas da burguesia emergente podiam receber uma formação cultural e uma sólida educação cristã. O método educativo proposto por ele teve tanto sucesso que em 1841 o Pe. Biraghi abriu um segundo colégio em Vimercate.

Em 1855 obteve o placet governativo para a nomeação a doutor da Biblioteca Ambrosiana. Transcorreu o último período da sua vida nesse cargo, residindo com os Barnabitas de Santo Alexandre. Em 1873, foi nomeado Prelado doméstico por Pio IX. Celebrou o 50º aniversário da ordenação sacerdotal em 1875. Faleceu no dia 11 de Agosto.

Fonte:http://www.vatican.va/news_services/liturgy/saints/ns_lit_doc_20060430_biraghi_po.html

 

 

Biografia

O carisma de Santa Marcelina vive hoje na Congregação das Irmãs Marcelinas, fundada em 1838, em Cernusco sul Naviglio (Milão), pelo Beato Luis Biraghi. Ele, confiando àquelas ardorosas primeiras apóstolas a missão de “ENSINAR JESUS” na atividade educativa, quis que tivessem Marcelina como modelo, para serem, tal como sua protetora, sinal no tempo, de uma sede de Deus, que transfigura a vida e impele ao serviço dos irmãos. e educando mais com a força do amor e do exemplo, do que com muitas palavras.

O Beato Luigi Biraghi, nascido em Vignate (Milão), a 2 de novembro de 1801, foi sacerdote exemplar, sempre fiel a Cristo e à Igreja. Espiritual nos Seminários da Diocese milanesa instruiu e guiou os jovens que lhe foram confiados. Doutor e vice-prefeito da Biblioteca Ambrosiana, dedicou seus estudos ao serviço da fé. Faleceu em Milão, aos 11 de agosto de 1879.

SEU SEGREDO: Um grande amor a JESUS, centro de sua vida.

SUA MENSAGEM: “Ensinar JESUS mais com a força do exemplo do que com uma multidão de preceitos”. Diretor Espiritual nos Seminários da Diocese milanesa instruiu e guiou os jovens que lhe foram confiados. Doutor e vice-prefeito da Biblioteca Ambrosiana, dedicou seus estudos ao serviço da fé.

 

Fonte:http://www.marcelinas.org.br/fundadores.asp?are_cod_id=1

 

 Marcelina nasceu em Roma, em 327, na ilustre família dos Ambrosiis, sob o Império de Constantino Magno. Em uma época de profundas mutações culturais, a família de Marcelina era aberta à religião cristã. Sua parente Santa Sotera, morreu mártir, sob o imperador Dioclesiano.

 

O pai Ambrósio era prefeito romano e governou as Gálias (França). Ao ser eleito Governador das Gálias, em Treviri, para lá se transferiu com a esposa e dois filhos, Marcelina e Sátiro. Nos anos 340, nasceu o terceiro filho Ambrósio.Marcelina desfrutou, em Treviri, dias serenos, mas aos 13 anos de idade, com a morte precoce do pai, voltou para Roma, com a família. Antes dos 20 anos, perde também a mãe, ficando com a total responsabilidade da educação dos irmãos. Em Roma, Sátiro e Ambrósio, foram confiados aos melhores mestres, dedicando-se com sucesso, a estudos jurídicos.Jovem, bonita, rica, nobre, Marcelina tem muitos pretendentes, mas… em seu coração nasce o desejo de se consagrar a Deus, permanecendo virgem.

 Na Roma corrupta e pagã, era muito difícil compreender que uma jovem renunciasse à sua principesca fortuna e a um ilustre casamento. O povo não estava acostumado a essas idéias de pureza, bem-aventurança, vida nova, que Jesus trouxera ao mundo… Agora isto era confessado publicamente.E bem ali, naquela época, em fase difícil da história, a semente de Cristo planta-se na vida de Marcelina: ela quer ser d’Ele.

 Para buscar coragem, visita muitas vezes as catacumbas dos cristãos que morreram pela Fé. Lá se sente consolada e compreendida. Marcelina tem a convicção de que Deus a quer para si. Deve ser coerente com a voz que fala mais forte dentro dela.Retira-se, então, para um lugar tranqüilo, na vila de Cernusco, perto de Milão e em contato com a natureza, decide: Farei o que Jesus disser… Na noite de Natal do ano 353, aos 25 anos, recebe, das mãos do Papa Libério, o véu da consagração total. Sua decisão abala os habitantes dos palácios. Seus amigos não conseguem captar toda a dimensão do mistério…E os espectadores descobrem que o novo tempo, iniciado por JESUS CRISTO, está vivo e palpitante nesta jovem. é chegado o tempo em que a liberdade se faz nova. é a história da Boa Nova, que renasce. Marcelina, entregando-se deste modo a Deus, demonstra que é livre de tudo. Os que se entregam a Deus, colocam-se imediatamente a serviço dos irmãos.Marcelina intensifica a oração e o estudo das Sagradas Escrituras e acolhe, em sua casa, muitas companheiras, desejosas de serem orientadas no conhecimento do Senhor e de participarem, com ela, do socorro aos pobres e sofredores.

Ao mesmo tempo, não descuidou da educação humana e cristã dos dois irmãos, logo solicitados para importantes cargos públicos.Em 372, Ambrósio foi eleito Governador em Milão. Sátiro foi nomeado para uma Prefeitura. Dois anos depois, chega a clamorosa notícia da eleição popular de Ambrósio para ser Bispo de Milão. Para auxiliar o irmão em sua nova missão, Marcelina não hesitou em acompanhá-lo na sede milanesa.Marcelina foi, para Ambrósio e Sátiro, conselheira e mestra e continuou sua vida comunitária com as companheiras virgens que, com ela, vieram de Roma.Embora no silêncio de sua vida recolhida, desenvolveu um apostolado eclesial participando das ansiedades e solicitudes do Bispo Ambrósio, orientando-o a lutar corajosamente em defesa da justiça e da fé, a descobrir no mundo, os sinais da esperança.

Ambrósio teve grande estima por ela e propôs seu exemplo a muitas jovens que eram também chamadas por Deus a uma dedicação total. Marcelina pôde assistir seu irmão até o fim, na rápida enfermidade que lhe abriu as portas do céu, na madrugada do sábado santo, no dia 4 de abril de 397. Ela morreu poucos meses depois, a 17 de julho e foi sepultada em Milão, na Basílica Santambrosiana. A voz do povo a proclamou santa.Na mesma vila de Cernusco, onde Marcelina partiu para a casa do Pai, teve início a Congregação das IRMãS MARCELINAS, fundada pelo Beato Luigi Biraghi, sob a proteção da Santa.

Conforme o seu exemplo, a nova Congregação propõe-se a orientar, formar, educar os jovens e todos os que lhe são confiados, no caminho do amor, “ensinando-lhes Jesus”.

Realizam-se assim as palavras do Papa Libério: “Muitas jovens te seguirão…”

 Fonte:http://www.marcelinas.org.br/texto_dir.asp?are_cod_id=5

 

    

SECRETÁRIO DE ESTADO
À REPÚBLICA DO PERU

 HOMILIA DO CARDEAL TARCISIO BERTONE
NA CELEBRAÇÃO EUCARÍSTICA
NO SANTUÁRIO DE SANTA ROSA DE LIMA

 
   

Chimbote, 31 de Agosto de 2007

 Queridos irmãos e irmãs!

“O reino dos céus é semelhante a um grau de mostarda… é a mais pequena de todas as sementes, mas, depois de crescer, torna-se a maior planta do horto” (Mt 13, 31-32). Na página evangélica, que a liturgia nos propõe na festa de Santa Rosa de Lima, Jesus compara o reino dos céus a um grão de mostarda, uma das sementes mais pequeninas, mas que, quando germina, se torna uma árvore frondosa e até alcança a altura de três metros. Não há proporção entre a pequenez da semente e o desenvolvimento sucessivo da planta com as flores e os frutos que produz, e não nos é difícil compreender, através desta metáfora, o ensinamento que o Senhor nos quer dar. De facto, assim como se observa uma clara desproporção entre uma árvore alta que cresce de uma semente muito pequena, também existe uma desproporção lógica entre os limites do homem e os prodígios de santidade que a Graça divina realiza nele. A vida dos santos e o caminho da Igreja ao longo dos séculos não são porventura um testemunho contínuo desta acção misteriosa do Senhor? Todos nós somos pequenas sementes a vicissitude humana e espiritual de Santa Rosa é muito eloquente a este propósito e Deus, dos nossos limites, pode fazer surgir prodígios maravilhosos de bondade e de amor. Eis a santidade: obra gratuita do Omnipotente Criador, quando encontra correspondência humilde e fiel na criatura humana.

Mas podemos acrescentar mais uma consideração. Nestes nossos tempos estamos justamente preocupados porque alguns cristãos abandonam a Igreja atraídos pelas chamadas das seitas ou seduzidos pela miragem do hedonismo moderno e por uma cultura que, acentuando a autonomia do homem, acaba por propor um humanismo sem Deus ou até contra Deus. Que fazer? O texto evangélico indica-nos um caminho a percorrer: cada instrumento pastoral e missionário é útil para uma acção apostólica mais incisiva, mas o que mais conta é que cada um de nós seja a semente boa que, graças à ajuda divina, é capaz de produzir certamente frutos abundantes.

Os cristãos são chamados a testemunhar com o seu exemplo a pertença convicta a Cristo e à sua Igreja. Assim tornam-se fermento de santidade. Afirma-o claramente Jesus que, no mesmo trecho do Evangelho de Mateus, identifica o reino dos céus, mais do que com uma pequena semente, com o fermento que faz levedar a massa. “O reino dos céus diz Ele é semelhante ao fermento… misturado em três medidas de farinha, até que tudo esteja fermentado” (13, 33). Para ter bom pão não serve simplesmente outro pão mesmo que seja fresco; é necessário o fermento que, quando se coloca na farinha, dá lugar a um fenómeno quase mágico: a massa cresce até sair do recipiente. É a força da vida, da qual o fermento é portador.

Um autor cristão dos primeiros séculos, de nome Orígenes, oferece um interessante comentário desta breve parábola. Identifica as “três medidas de farinha”, das quais o Evangelho fala, com os elementos da pessoa humana corpo, alma, espírito que para levedar, isto é, para se elevar, precisam do Espírito Santo. Também aqui podemos fazer uma aplicação muito actual. Hoje é frequente a tentação de um gnosticismo moderno que concebe a religião quase como uma opção individual e privada de modo intimista. Mas se é verdade que a fé é antes de tudo amizade íntima com Cristo, se é autêntica, esta fé só pode ser “contagiosa”, renovando a sociedade e até a criação, porque toda a criação pertence ao projecto da salvação. O cristão não deve contentar-se com ser “pão bom”, mas é necessário que seja fermento de santidade.

Foi esta a experiência de Isabel Flores y de Oliva, cognominada Rosa devido ao frescor do seu rosto. Mesmo sendo proveniente de uma família nobre de imigrantes espanhóis que se estabeleceram no Peru, não hesitou arregaçar as mangas quando os seus familiares, por uma série de desventuras, se encontraram em dificuldade económica. Desde a adolescência optou por seguir Jesus com íntimo arrebatamento, inscrevendo-se na Ordem Terciária dominicana e tomando como modelo e guia espiritual Catarina de Sena. Dedicada ao cuidado dos pobres e aos trabalhos ordinários que uma dona de casa é chamada a desempenhar quotidianamente, impôs-se um regime de vida austero que se distinguia por uma extraordinária penitência.

Com 23 anos fechou-se numa cela com apenas dois metros quadrados, que se fez construir pelo irmão no jardim de casa e da qual saía só para ir às funções religiosas. E era precisamente nesta angusta e voluntária prisão que transcorria a maior parte dos seus dias em contemplação, em intimidade com o seu Senhor. Como a Catarina de Sena, também a ela foi concedida a graça mística de participar fisicamente na paixão de Jesus, que tinha elegido como seu Esposo, e por 15 anos teve que atravessar a dura experiência interior da ausência de Deus, aquelas dores do espírito que São João da Cruz, o reformador do Carmelo, chama a “noite escura”.

Portanto, a vida de Rosa foi escondida e no sofrimento a qual, condescendendo ao Espírito Santo, alcançou o vértice alto da santidade. A mensagem que continua a comunicar aos devotos que a invocam como protectora não só peruanos e do continente latino-americano, mas de todo o mundo, expressa-se numa das misteriosas mensagens que recebeu do Senhor. “Todos sabemos confiou-lhe Jesus que a graça segue a tribulação; saibam que sem o peso das aflições não se alcança o vértice da graça; compreendam que tanto mais cresce a intensidade dos sofrimentos, tanto mais aumenta a medida dos carismas. Ninguém erre nem se engane; esta é a única verdadeira escada do paraíso, e sem a cruz não há outro caminho pelo qual subir ao céu”.

Palavras que fazem pensar imediatamente nas exigentes condições que o próprio Jesus apresenta aos seus discípulos: “Se alguém quiser vir após Mim, renegue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me… Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro se, depois, perde a sua alma? O que poderá o homem dar em troca da sua alma?” (Mt 16, 34-37). Encontra-se precisamente aqui o paradoxo evangélico, a verdadeira sabedoria da cruz, o escândalo da cruz. “Porque a linguagem da Cruz escreve São Paulo aos Coríntios é loucura para os que se perdem, e poder de Deus para os que se salvam, isto é, para nós” (1 Cor 1, 18). Ajude-nos Santa Rosa a abraçar com confiança a cruz como ela fez, também quando isto exige sofrimentos e aparentes insucessos. Num dos seus escritos lemos: “Ninguém se lamentaria da cruz dos sofrimentos, que o destino lhe dá, se conhecesse com que balanças são pesados na distribuição entre os homens”.

A sua breve existência faleceu com apenas 32 anos foi marcada por numerosas provas e sofrimentos mas, ao mesmo tempo, foi toda permeada de amor a Cristo e de grande serenidade. Pode-se dizer que em Santa Rosa se manifestou o poder da Graça divina: quanto mais o homem é frágil e confia em Deus, tanto mais encontra n’Ele conforto e experimenta a força renovadora do seu Espírito. A primeira leitura do Livro do Eclesiástico convida-nos a viver no abandono humilde e confiante no Senhor: “Na tua actividade escreve o autor sagrado sê modesto, serás amado pelo homem e agradável a Deus”, e acrescenta: “É grande o poder do Senhor, mas é pelos humildes que ele é honrado” (3, 19-21). “No dia da tribulação Deus recordar-se-á de ti” (cf. 3, 17).

No dia da sua festa, Santa Rosa recorda-nos que Deus é bom e misericordioso, nunca abandona os seus filhos no momento da prova e da necessidade; convida-nos a ter sempre confiança n’Ele e a ser simples e humildes. A simplicidade e a humildade são virtudes que devemos aprender a praticar se quisermos seguir Jesus. Ele repete aos seus amigos: “Vinde a Mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e aliviar-vos-ei. Tomai sobre vós o Meu jugo, e aprendei de Mim, que sou manso e humilde de coração” (Mt 11, 28-29).

Santa Rosa respondeu a este convite com uma consciência plena e disponível; deixou-se abraçar por Deus, na certeza de estar nas mãos de um Pai, amparada por uma intensa piedade eucarística e mariana. O amor à Eucaristia estimulou-a a permanecer abraçada ao tabernáculo para o defender das invasões dos calvinistas holandeses que assediavam a cidade de Lima. E recorria constantemente a Maria Santíssima, que invocava sobretudo sob o título de “Rainha do Rosário”.

Aliás, como sabeis, foi precisamente a virgem do Rosário que lhe indicou a forma de vida através da qual se teria consagrado para sempre a Jesus na Ordem terciária dominicana. De facto, aconteceu que quando a família se resignou à sua recusa do matrimónio, Rosa entrou no mosteiro de Santa Clara.

Contudo não tinha a certeza total de que esta fosse a opção justa e quando, acompanhada pelo irmão, deixou a casa para ir definitivamente para o mosteiro, deteve-se diante da “sua” Nossa Senhora. Rezou intensamente e apercebeu-se que se tornou pesada como o chumbo: nem o irmão, nem o sacristão a conseguiram erguer. E só quando prometeu a Nossa Senhora que voltava para casa, a Virgem sorriu-lhe e Rosa pôde erguer-se facilmente. Convenceu-se então que podia chegar a Jesus através do amor materno da Virgem Maria. Viveu assim consagrando-se toda a Jesus e a Maria; quando faleceu tinha sobre os lábios, como últimas palavras: “Jesus, Jesus, Jesus, esteja sempre comigo”.

Queridos irmãos e irmãs, agradeço ao Senhor que me oferece a possibilidade de terminar a minha permanência na República do Peru com esta peregrinação aos pés de Santa Rosa, excelsa filha da vossa Nação, nesta bonita Igreja na qual estão conservadas as suas relíquias. Depois de ter tido a honra de inaugurar o Congresso Eucarístico nacional no sábado passado, 25 de Agosto, pude presidir esta manhã à solene celebração de encerramento. O Congresso Eucarístico foi um acontecimento muito significativo e importante e de singular graça e bênção para todos. Por isto gostaria mais uma vez de dar graças ao Senhor. Sinto também a profunda necessidade de agradecer a Deus porque durante esta visita pude conhecer melhor a profundidade da fé das comunidades cristãs e o acolhimento cordial do povo peruano.

No momento em que me despeço do vosso bonito País com esta Celebração Eucarística, invoco sobre todos e cada um a protecção de Santa Rosa e a ajuda materna de Maria, tão venerada em todas as partes do País. A vós peço uma recordação na oração por mim, mas sobretudo pelo Santo Padre Bento XVI, que segue com solicitude paterna e afecto a vida e o caminho da Igreja e da nação peruana. Possa a República do Peru perseverar e crescer numa fé firme e cheia de alegria, na concórdia e na paz, sob o olhar abençoador do Señor de los milagros, da Virgem Santa e de Santa Rosa.

El Señor de los milagros, a Virgem Santa e Santa Rosa estejam particularmente próximos de quantos sofrem pelo terramoto que se verificou recentemente e cujas consequências ainda são muito vivas. Conservarei no coração as emoções e os sentimentos vividos nestes dias e continuarei a recordar-vos todos ao Senhor. No final desta minha visita, queridos irmãos e irmãs, rezemos pelos defuntos, pelos feridos, pelas famílias que ficaram sem casa; rezemos por todo o povo peruano para que saiba superar unido também esta prova para construir com esperança o próprio futuro, confiando sempre na ajuda divina. A palavra do Senhor repetiu-nos isto há pouco: “No dia da tribulação Deus recordar-se-á de ti” (Ecli 3, 17). Com esta esperança certa celebramos o sacrifício divino, fonte e ápice da vida da Igreja e do mundo remido pela cruz de Cristo.

Amém!

Fonte:http://www.vatican.va/roman_curia/secretariat_state/card-bertone/2007/documents/rc_seg-st_20070830_s-rosa-lima_po.html

Vida de Santa Rosa de Lima

Nascimento

Era um dia de Julho na cidade de Lima. O sol escondia-se atrás do espesso lençol de névoa que cobre geralmente o litoral do Peru e do Chile, de Junho a Setembro. Maria de Oliva Flores arrepiou-se toda ao sair para o vasto jardim nos fundos de sua casa. Dias como aquele, sem o brilho do sol, não lhe agradavam. O ar estava pesado e úmido e ela se sentia sonolenta o dia todo. – Mariana! Você está aí? Do outro lado do jardim, fora do alcance da vista, dentre as árvores e as flores, veio uma voz de menina.

 – Si, senhora. Estou com Isabelinha.

 Maria de Oliva enveredou por uma estreita passagem, curvando a cabeça ao passar sob uma copada figueira. Já devia saber onde estavam. Depois do lanche, Mariana, a criadinha indígena, ia sempre para aquele sítio com a pequerrucha da família Flores. Desde os três meses de idade, Isabel se tornara definitivamente a favorita de Mariana. Maria apressou os passos ao avistar Mariana sentada ao lado do berço da criança. Com um sorriso de orgulho a iluminar-lhe o rosto, ela afastou a coberta rendada e contemplou a filhinha.

– Mariana, já tive muitos filhos, mas creio que Isabel é o mais lindo de todos. Que lindos cabelos negros, e que olhos! E estas facezinhas tão rosadas!…

A indiazinha sorriu e seus dentes brancos fulguraram no bronzeado da face.

– Isabel parece uma flor, senhora. É tão, boazinha! Nunca vi bebê tão amável.

– Parece uma flor, Mariana? Que flor?

– Uma rosa, senhora. Uma linda rosa. Olhe agora mesmo para ela, está sorrindo para nós como se compreendesse o que estamos dizendo. Maria de Oliva quedou um momento. Aquela criança nascera há três meses, a 30 de Abril, festa de S. Catarina de Sena. A 25 de Maio fora batizada pelo padre Antônio Polanco, na igreja de S. Sebastião, e recebera o nome de Isabel, para agradar a avó, Isabel de Herrera, mãe de Maria Oliva. Mas conviria esse nome realmente à criança? Não seria melhor chamá-la Rosa, conforme a flor a que tanto se assemelhava? Mariana vivia atarefada. A família Flores não era abastada, e, com vários filhos a alimentar e vestir, Gaspar Flores só podia manter uma criada. E isto, para Mariana, significava pouco tempo de folga. Para ela, isso era o menos e agora que a Isabelinha viera, era mesmo bom fazer parte da família Flores.

– Quando este bebê crescer, será a moça mais bonita de Lima, – disse Mariana. – Ela nos trará felicidade.

– Podemos aproveitar isso, – suspirou Maria. – As vezes é uma luta bem difícil chegar ao fim. Esperemos que Rosa despose um homem rico.

– Rosa, senhora?

– Isso mesmo. Não vou mais chamá-la Isabel. Rosa lhe calha muito melhor. Estou certa de que a avó não se há de importar se mudarmos o nome. Isabel Herrera, no entanto, importou-se. Seu orgulho fora extremamente lisonjeado, quando Maria batizara assim a linda filhinha, e ela recusou-se a ouvir falar em mudança.

– Ela foi batizada Isabel, Maria. Por que você quer agora alterar as coisas?

– Porque eu acho que o nome de Rosa lhe vai muito melhor. Mamãe, por favor, não oponha dificuldades!Isabel Herrera tinha um gênio inflamável.- Dificuldades? Que está você dizendo? O nome da menina é Isabel, e pronto.

– E’ Rosa!

– E’ Isabel!

– Rosa, estou lhe dizendo!

– Isabel!

Às vezes Gaspar Flores perdia a paciência com sua mulher e sua sogra.

– Chamem a criança como quiserem – implorava mas deixem um homem ter um pouco de paz em sua própria casa. Por favor! Passou-se um ano, passaram-se dois, quatro e ainda a menina Flores continuava o centro de amarga contenda. “E’ na verdade muita tolice – diziam os vizinhos. Esta pobre criança tem receio de responder quando a chamam Rosa porque desagrada à avó. E não sabe o que fazer quando alguém a chama Isabel, porque então é a mãe que fica zangada. Por que o Gaspar não impõe sua autoridade?” Mas Gaspar era impotente. Pouco podia fazer com sua esposa, e muito menos com a sogra.

– Deus nos acuda, – implorava ele muitas vezes. Maria de Oliva era dada a súbitos impulsos de energia, e um dia resolveu ensinar a menina a ler e escrever.

– Rosa, estás quase com cinco anos. Eu acho que podias aprender o alfabeto. Olha – esta letra é A. Esta aqui é B. E aqui está o C. E’ muito simples.

Rosa achou uma folha de papel e uns pedaços de giz de cor. Ia ser muito bom! Bernardina, a irmã mais velha, sabia tudo a respeito da leitura e escrita. O mesmo se podia dizer de Joana, de André, de Antônio e de Mateus. Até o Fernando de sete anos sabia escrever seu nome muito bem. Talvez, pensou Rosa, ela pudesse pegar os irmãos e irmãs se trabalhasse com afinco. Entretanto, depois de meia hora a copiar letras, os dedos de Rosa começaram a ficar duros.- Estás cansada e eu também – decidiu Maria Oliva.

 – Amanhã teremos outra lição. Agora quero que me prometas uma coisa.

– Sim, mamãe!

– Não vais atender a nenhum outro nome senão Rosa. Não… não importa que tua avó fique aborrecida. Teu nome é Rosa Flores e nenhum outro. Compreendeste? Rosa acenou com a cabeça. A discórdia por causa de seu nome sempre a entristecera. Detestava ver as pessoas- questionarem, especialmente sua mãe e sua avó. Desde que podia lembrar-se, entretanto, tinha sempre havido discussões entre as duas. Mesmo apesar de Maria insistir em ter tido certa vez urna visão, na qual lhe aparecera uma linda rosa escarlate sobre o berço de Rosa, Isabel Herrera não lhe dava crédito.

 – Essa rosa era um sinal do Céu, ordenando-me que mudasse o nome da menina – dizia Maria Oliva. – Estou absolutamente convencida disso.

– Um sinal do céu, com efeito! – exclamava a velha senhora. – Não foi mais que produto da sua imaginação!

Em breve Maria cansou-se de ensinar sua filha a ler e escrever. Não tinha muita paciência, nem mesmo nas melhores ocasiões. E ninguém havia que se interessasse pelo grande desejo de aprender que a criança demonstrava.

– Você é apenas uma menininha – consolou-a um dia Mariana. – Há muito tempo para aprender leitura e escrita. Pelo que se aproveita, a gente pode ser bem feliz sem saber nenhuma das duas coisas. Só existe uma coisa realmente importante.

– O quê? – perguntou Rosa, interessada.

– Saber o que é bom e fazê-lo. Você nunca terá verdadeira dificuldade se se lembrar disto, meu bem. As palavras de Mariana agradaram a Rosa e frequentemente revolvia-as na mente. Deus era bom. Quanto mais alguém pensava nele, tanto mais chegava a conhecê-lo. Depois disto, ser bom e fazer o bem era a coisa mais simples do mundo. Contudo seria bonito saber algumas coisas de modo a ser útil às outras pessoas.

– Vou rezar – disse a si mesma a menina. – Já que ninguém tem tempo de me ensinar, vou pedir a Deus que me ensine. Ele pode fazer tudo, não pode?

Maria Oliva possuía em seu quarto uma imagem do Menino Jesus. Conforme o costume no Perú, a estatueta tinha um vestido próprio, de veludo vermelho orlado de ouro. Todos os dias Rosa ajoelhava-se diante da imagem e dizia uma oração.

 “Senhor, ajudai-me a conhecer-vos e amar-vos” – rezava ela, fervorosamente. – E, por favor, ensinai-me a ler e escrever”.

 Maria de Oliva nada sabia dessas oraçõezinhas de Rosa. Múltiplos afazeres a absorviam na direção daquela casa enorme, e às vezes o trabalho deixava-a fatigada e amargurada. “Não será sempre assim – pensava ela. – Algum dia a criança se há de casar, talvez muito bem. Então poderei fazer as coisas com mais sossego”. Uma manhã estava Maria amassando o pão. A cozinha estava quente e enfumaçada e o que ela não sentia era disposição para conversar. – Não me amoles agora – disse, ao ver Rosa escancarar a porta. Vai brincar com Fernando até à hora do jantar. – Mas, mamãe, a senhora não quer saber duma coisa maravilhosa? Eu sei ler e escrever!

 Maria de Oliva bateu a enorme montanha de massa em sua frente. – Não deves andar inventando histórias – ralhou. Já não és um bebê, e deves saber que contar mentira é pecado.

– Não estou contando mentira, mamãe. Eu sei ler e escrever. E’ sério, de verdade. Olhei Maria deu uma olhadela ao papel que Rosa lhe estendia. Estava coberto de palavras, claramente escritas com letra grande e redonda. Para uma criança de cinco anos, a letra era muito boa.

– Alguém andou te ajudando, – disse ela um pouco ríspida. – Teu pai ou tua avó.

Rosa sacudiu a cabeça:

– Ninguém me ajudou, mamãe. Só o pequeno Menino Jesus. A senhora está sempre tão ocupada e eu não queria aborrecê-la, então pedi a ele para me ajudar. E ele ajudou.

Um pouco do sangue fugiu do rosto aquecido de Maria.

– Vai buscar-me um livro. – ordenou severamente. Qualquer livro. Veremos já se estás dizendo a verdade.Em poucos minutos Rosa estava de volta com um enorme volume verde.

– Olhe, mamãe, há quatro palavras escritas em letras de ouro na capa.

Posso ler todas elas.Maria de Oliva olhou. Se esta sua filha estava dizendo mesmo a verdade…

– Bem, quais são estas quatro palavras?

Rosa sorriu. Era um dia esplêndido aquele, de que ela se lembraria enquanto vivesse. As quatro palavras douradas da capa do livro verde eram SANTA CATARINA DE SENA.

Dentro do livro havia muitas outras palavras, contando a história e a vida da grande santa italiana, cuja festa se celebrava no dia em que Rosa nascera. E ela sabia ler todas aquelas palavras.

Fonte:Mary Fabyan Windeatt. Santa Rosa de Lima. O anjo dos Andes.

Era um dia de Julho na cidade de Lima. O sol escondia-se atrás do espesso lençol de névoa que cobre geralmente o litoral do Peru e do Chile, de Junho a Setembro. Maria de Oliva Flores arrepiou-se toda ao sair para o vasto jardim nos fundos de sua casa. Dias como aquele, sem o brilho do sol, não lhe agradavam. O ar estava pesado e úmido e ela se sentia sonolenta o dia todo. – Mariana! Você está aí? Do outro lado do jardim, fora do alcance da vista, dentre as árvores e as flores, veio uma voz de menina.

 

– Si, senhora. Estou com Isabelinha.

 

Maria de Oliva enveredou por uma estreita passagem, curvando a cabeça ao passar sob uma copada figueira. Já devia saber onde estavam. Depois do lanche, Mariana, a criadinha indígena, ia sempre para aquele sítio com a pequerrucha da família Flores. Desde os três meses de idade, Isabel se tornara definitivamente a favorita de Mariana. Maria apressou os passos ao avistar Mariana sentada ao lado do berço da criança. Com um sorriso de orgulho a iluminar-lhe o rosto, ela afastou a coberta rendada e contemplou a filhinha.

– Mariana, já tive muitos filhos, mas creio que Isabel é o mais lindo de todos. Que lindos cabelos negros, e que olhos! E estas facezinhas tão rosadas!…

A indiazinha sorriu e seus dentes brancos fulguraram no bronzeado da face.

– Isabel parece uma flor, senhora. É tão, boazinha! Nunca vi bebê tão amável.

– Parece uma flor, Mariana? Que flor?

– Uma rosa, senhora. Uma linda rosa. Olhe agora mesmo para ela, está sorrindo para nós como se compreendesse o que estamos dizendo. Maria de Oliva quedou um momento. Aquela criança nascera há três meses, a 30 de Abril, festa de S. Catarina de Sena. A 25 de Maio fora batizada pelo padre Antônio Polanco, na igreja de S. Sebastião, e recebera o nome de Isabel, para agradar a avó, Isabel de Herrera, mãe de Maria Oliva. Mas conviria esse nome realmente à criança? Não seria melhor chamá-la Rosa, conforme a flor a que tanto se assemelhava? Mariana vivia atarefada. A família Flores não era abastada, e, com vários filhos a alimentar e vestir, Gaspar Flores só podia manter uma criada. E isto, para Mariana, significava pouco tempo de folga. Para ela, isso era o menos e agora que a Isabelinha viera, era mesmo bom fazer parte da família Flores.

– Quando este bebê crescer, será a moça mais bonita de Lima, – disse Mariana. – Ela nos trará felicidade.

– Podemos aproveitar isso, – suspirou Maria. – As vezes é uma luta bem difícil chegar ao fim. Esperemos que Rosa despose um homem rico.

– Rosa, senhora?

– Isso mesmo. Não vou mais chamá-la Isabel. Rosa lhe calha muito melhor. Estou certa de que a avó não se há de importar se mudarmos o nome. Isabel Herrera, no entanto, importou-se. Seu orgulho fora extremamente lisonjeado, quando Maria batizara assim a linda filhinha, e ela recusou-se a ouvir falar em mudança.

– Ela foi batizada Isabel, Maria. Por que você quer agora alterar as coisas?

– Porque eu acho que o nome de Rosa lhe vai muito melhor. Mamãe, por favor, não oponha dificuldades!Isabel Herrera tinha um gênio inflamável.- Dificuldades? Que está você dizendo? O nome da menina é Isabel, e pronto.

– E’ Rosa!

– E’ Isabel!

– Rosa, estou lhe dizendo!

– Isabel!

Às vezes Gaspar Flores perdia a paciência com sua mulher e sua sogra.

– Chamem a criança como quiserem – implorava mas deixem um homem ter um pouco de paz em sua própria casa. Por favor! Passou-se um ano, passaram-se dois, quatro e ainda a menina Flores continuava o centro de amarga contenda. “E’ na verdade muita tolice – diziam os vizinhos. Esta pobre criança tem receio de responder quando a chamam Rosa porque desagrada à avó. E não sabe o que fazer quando alguém a chama Isabel, porque então é a mãe que fica zangada. Por que o Gaspar não impõe sua autoridade?” Mas Gaspar era impotente. Pouco podia fazer com sua esposa, e muito menos com a sogra.

– Deus nos acuda, – implorava ele muitas vezes. Maria de Oliva era dada a súbitos impulsos de energia, e um dia resolveu ensinar a menina a ler e escrever.

– Rosa, estás quase com cinco anos. Eu acho que podias aprender o alfabeto. Olha – esta letra é A. Esta aqui é B. E aqui está o C. E’ muito simples.

Rosa achou uma folha de papel e uns pedaços de giz de cor. Ia ser muito bom! Bernardina, a irmã mais velha, sabia tudo a respeito da leitura e escrita. O mesmo se podia dizer de Joana, de André, de Antônio e de Mateus. Até o Fernando de sete anos sabia escrever seu nome muito bem. Talvez, pensou Rosa, ela pudesse pegar os irmãos e irmãs se trabalhasse com afinco. Entretanto, depois de meia hora a copiar letras, os dedos de Rosa começaram a ficar duros.- Estás cansada e eu também – decidiu Maria Oliva.

 – Amanhã teremos outra lição. Agora quero que me prometas uma coisa.

– Sim, mamãe!

– Não vais atender a nenhum outro nome senão Rosa. Não… não importa que tua avó fique aborrecida. Teu nome é Rosa Flores e nenhum outro. Compreendeste? Rosa acenou com a cabeça. A discórdia por causa de seu nome sempre a entristecera. Detestava ver as pessoas- questionarem, especialmente sua mãe e sua avó. Desde que podia lembrar-se, entretanto, tinha sempre havido discussões entre as duas. Mesmo apesar de Maria insistir em ter tido certa vez urna visão, na qual lhe aparecera uma linda rosa escarlate sobre o berço de Rosa, Isabel Herrera não lhe dava crédito.

 

– Essa rosa era um sinal do Céu, ordenando-me que mudasse o nome da menina – dizia Maria Oliva. – Estou absolutamente convencida disso.

– Um sinal do céu, com efeito! – exclamava a velha senhora. – Não foi mais que produto da sua imaginação!

Em breve Maria cansou-se de ensinar sua filha a ler e escrever. Não tinha muita paciência, nem mesmo nas melhores ocasiões. E ninguém havia que se interessasse pelo grande desejo de aprender que a criança demonstrava.

– Você é apenas uma menininha – consolou-a um dia Mariana. – Há muito tempo para aprender leitura e escrita. Pelo que se aproveita, a gente pode ser bem feliz sem saber nenhuma das duas coisas. Só existe uma coisa realmente importante.

– O quê? – perguntou Rosa, interessada.

– Saber o que é bom e fazê-lo. Você nunca terá verdadeira dificuldade se se lembrar disto, meu bem. As palavras de Mariana agradaram a Rosa e frequentemente revolvia-as na mente. Deus era bom. Quanto mais alguém pensava nele, tanto mais chegava a conhecê-lo. Depois disto, ser bom e fazer o bem era a coisa mais simples do mundo. Contudo seria bonito saber algumas coisas de modo a ser útil às outras pessoas.

– Vou rezar – disse a si mesma a menina. – Já que ninguém tem tempo de me ensinar, vou pedir a Deus que me ensine. Ele pode fazer tudo, não pode?

Maria Oliva possuía em seu quarto uma imagem do Menino Jesus. Conforme o costume no Perú, a estatueta tinha um vestido próprio, de veludo vermelho orlado de ouro. Todos os dias Rosa ajoelhava-se diante da imagem e dizia uma oração.

 

“Senhor, ajudai-me a conhecer-vos e amar-vos” – rezava ela, fervorosamente. – E, por favor, ensinai-me a ler e escrever”.

 

Maria de Oliva nada sabia dessas oraçõezinhas de Rosa. Múltiplos afazeres a absorviam na direção daquela casa enorme, e às vezes o trabalho deixava-a fatigada e amargurada. “Não será sempre assim – pensava ela. – Algum dia a criança se há de casar, talvez muito bem. Então poderei fazer as coisas com mais sossego”. Uma manhã estava Maria amassando o pão. A cozinha estava quente e enfumaçada e o que ela não sentia era disposição para conversar. – Não me amoles agora – disse, ao ver Rosa escancarar a porta. Vai brincar com Fernando até à hora do jantar. – Mas, mamãe, a senhora não quer saber duma coisa maravilhosa? Eu sei ler e escrever!

 

Maria de Oliva bateu a enorme montanha de massa em sua frente. – Não deves andar inventando histórias – ralhou. Já não és um bebê, e deves saber que contar mentira é pecado.

– Não estou contando mentira, mamãe. Eu sei ler e escrever. E’ sério, de verdade. Olhei Maria deu uma olhadela ao papel que Rosa lhe estendia. Estava coberto de palavras, claramente escritas com letra grande e redonda. Para uma criança de cinco anos, a letra era muito boa.

– Alguém andou te ajudando, – disse ela um pouco ríspida. – Teu pai ou tua avó.

Rosa sacudiu a cabeça:

– Ninguém me ajudou, mamãe. Só o pequeno Menino Jesus. A senhora está sempre tão ocupada e eu não queria aborrecê-la, então pedi a ele para me ajudar. E ele ajudou.

Um pouco do sangue fugiu do rosto aquecido de Maria.

– Vai buscar-me um livro. – ordenou severamente. Qualquer livro. Veremos já se estás dizendo a verdade.Em poucos minutos Rosa estava de volta com um enorme volume verde.

– Olhe, mamãe, há quatro palavras escritas em letras de ouro na capa.

Posso ler todas elas.Maria de Oliva olhou. Se esta sua filha estava dizendo mesmo a

verdade…

– Bem, quais são estas quatro palavras?

Rosa sorriu. Era um dia esplêndido aquele, de que ela se lembraria enquanto vivesse. As quatro palavras douradas da capa do livro verde eram SANTA CATARINA DE SENA.

Dentro do livro havia muitas outras palavras, contando a história e a vida da grande santa italiana, cuja festa se celebrava no dia em que Rosa nascera. E ela sabia ler todas aquelas palavras.

 

II. VINDE, ESPIRITO SANTO

Grande excitação produziu no lar dos Flores a notícia de que Rosa aos cinco anos aprendera a ler e escrever. Ninguém, entretanto, parecia inclinado a crer que o Menino Jesus fora o professor.

– Algumas crianças têm imaginação demais, declarou Maria Oliva.

-Receio que nossa Rosa seja uma delas.

– Você quer dizer Isabel, não é? – disse sua mãe incisivamente.

 -Pois é este o seu nome verdadeiro. Quanto a mim, sinto que algo de verdade

pode haver no que ela diz. Afinal, quem pode dizer o que Deus fará por uma criança que o ama?

Com o passar dos meses o incidente foi ficando quase esquecido. Se alguém

o lembrava, diziam que era menos uma questão de oração que de habilidade natural. Rosa era uma criança inteligente. Ela pegara a leitura e a escrita simplesmente, por si mesma, do mesmo modo que aprendera música.

 

Não sabia ela tocar pequenas melodias na guitarra e na harpa? Não a tinham

ouvido cantar seus próprios versos, lá embaixo no fundo do jardim, quando ela julgava não haver ninguém por perto? Era tudo tão simples. Realmente, não houvera milagre nenhum. A menina era brilhante mesmo por natureza.

 

Rosa, no entanto, sabia a verdade. Por si ela nada era.

 

 – Deus é que era tudo. Nunca esqueceria isto. Pedir-lhe-ia o auxílio toda a vida. Ele havia de ouví-la, como o fizera no caso de aprender a ler e escrever, exatamente porque ela era tão fraca e desamparada. O tempo continuou a passar imperturbável. Rosa completou seu sexto aniversário, o oitavo, o nono, o décimo. Onze eram então os filhos da família Flores. A vasta casa, na rua de S. Domingos, era um lugar onde não havia solidão. Gaspar Flores, que viera de Porto Rico para Lima, havia alguns anos, estava achando difícil manter sua numerosa família.

Tinha, naturalmente, um emprego: por algum tempo fora encarregado de fazer armas de fogo e outras para os destacamentos do exército real da Espanha, estacionados em Lima. Era uma posição vantajosa, que lhe fora concedida por D. André Furtado de Mendoza, vice-rei do Peru. Mas que de cuidados não davam onze crianças! Quanto custava alimentá-las e vesti-las!

 

Um dia em 1597, Gaspar chamou sua mulher. Tinham-Ihe oferecido uma oportunidade: ficar encarregado de uma mina de prata em Quivi, pequena cidade nas montanhas não longe de Lima.

 

– Pode-se ganhar mais na mineração que em qualquer outra coisa, – disse ele a Maria. – Vou a Quivi e ficarei lá alguns meses para ver como vão as coisas. Se eu não gostar do trabalho, poderei sempre voltar ao antigo emprego.

– Você está certo?

Gaspar riu-se.

– Claro que estou certo. Todo mundo sabe que as espadas e espingardas que

faço são as melhores que se pode encontrar no Peru. Maria pensou muito tempo sobre a novidade. Por fim informou Gaspar que ela o acompanharia a Quivi.

– Será esplêndido viver nas montanhas, – disse. – Estamos todos precisando uma mudança da vida na cidade. O homem franziu os sobrolhos:

– Suponha que este negócio não dê bom resultado?

– Não acaba você de dizer que fabrica as melhores espingardas e espadas?

Que o vice-rei está satisfeito com o trabalho que você faz? Tolice, Gaspar. Vou tratar de arrumar as coisas. E assim sucedeu que a família Flores disse adeus à enorme casa solarenga em Lima, e partiu para Quivi. Rosa; então com onze anos, estava muito excitada com a mudança. Pela primeira vez na vida estava ela junto às grandes montanhas que se elevavam no fundo de sua cidade natal. Algumas milhas a oeste, o Pacífico rolava suas águas verdes, que vinham quebrar-se em branca espuma na extensão infindável de areia. A medida que se adiantavam na viagem, pequenas aldeias de índios surgiam à vista: casas feitas de barro marrom claro, cobertas de telhas vermelhas e amarelas.

 

Fernando, o irmão preferido de Rosa, estava também Interessado nos novos panoramas. Agradavam-lhe os esquisitos animais que os índios utilizavam – as lhamas com seus longos pescoços, as pequenas e sedosas vicunhas, as alpacas com seu pelo castanho. Esses estranhos animais podiam ser vistos por toda parte, pastando nos declives verdejantes dos Andes, ou levando carga para seus donos índios.

 

– Eu gostava de ter uma lhama – disse Fernando à irmã. – Eu podia ensinar-lhe uns truques e Mariana cortar-lhe o pelo para tecer roupas bonitas e quentes. Com isso papai havia de poupar um pouco de dinheiro. Rosa concordou. Fernando sempre tinha boas idéias.

 

– Talvez eu também pudesse fazer alguma coisa para ajudar. Que poderia ser?…

O garoto franziu a testa. Não havia muita coisa que uma menina peruana pudesse fazer. As filhas das melhores famílias ou se casavam ou entravam para um convento. Nunca se dispunham a um modo de vida pelos próprios recursos.

– Por que preocupar-se com estas coisas? Mamãe diz que você, quando crescer, vai casar-se com um homem rico -afirmou ele, com a ponderação de seus treze anos. As lágrimas afluíram aos olhos escuros de Rosa.

 

– Eu não quero casar-me, Fernando. O que eu quero é ficar em casa e ser útil a todos.

 

O menino deu uma risada. Tinha orgulho daquela irmãzinha, mesmo quando ela dizia, às vezes, coisas sem pé nem cabeça. Quivi possuía uma igrejinha, e a família Flores foi visitá-la logo depois de sua chegada. Encontraram o pároco, padre Francisco Gonzales, muito agitado. Acabava de receber o aviso de que o Arcebispo de Lima viria para dar o sacramento da Crisma.

 

– Eu gostava de ter uma lhama ,- disse Fernando à irmã.

– Esplêndido – exclamou Maria de Oliva. – Tenho uma filhinha que ainda não foi crismada. Vamos começar a prepará-la.

– Espero que ela saiba suas orações – disse Fernando. – Você sabe, Rosa?…

– Fernando, não apoquente sua irmã – ralhou Maria de Oliva. – E’ claro que Rosa saberá seu catecismo. Eu mesma vou cuidar disso. Assim Rosa passou a estudar diariamente seu catecismo. Era um livrinho escrito pelo próprio Arcebispo, e impresso em 1584, o primeiro volume que saiu à luz do dia na América do Sul. O exemplar de Rosa era escrito em espanhol, mas o bondoso Arcebispo compilara também um em quichua e outro em aimará, dialetos comuns entre os indígenas.

 

Aqueles que conheciam o Arcebispo Turíbio estavam absolutamente certos de

que ele era um santo. Seu nome por extenso era Turíbio Afonso de Mogrovejo, e chegara a Lima em 1581 para ser o segundo Arcebispo da cidade. Como o primeiro Arcebispo, o famoso dominicano Jerônimo de Loaysa, Turibio era espanhol. A residência episcopal ficava perto da catedral, do outro lado da Praça das Armas. Esta praça constituía o mais belo parque de Lima. Aí o povo passava muitas horas apreciando as flores variegadas e gozando a sombra das graciosas palmeiras. Mas sempre que viam o Arcebispo sair do palácio, todos acorriam para receber a bênção. Mendigos e aleijados, principalmente, eram mais pressurosos, pois em tempos anteriores as orações do bom homem tinham operado maravilhas em favor dos pobres e doentes.

Francisco Pizarro chefiara esses recém-chegados, e com ele viera a desgraça para os nativos. Viram-se despojados de suas terras e forçados a trabalhar nas minas, percebendo salários miseráveis. Padres franciscanos e dominicanos seguiram as pisadas de Pizarro, trazendo o grande dom da fé, mas os índios não compreendiam que o soldado espanhol representava uma coisa e o padre, outra bem diferente. Para a maioria dos indígenas, um espanhol era algo a temer e desconfiar, fosse qual fosse o nome que exibisse.

 

Foi uma surpresa para Rosa ver que era ela a única menina na igreja no dia da Crisma. Havia, entretanto, dois garotinhos, e as três crianças ajoelharam-se no santuário aos pés do Arcebispo de Lima. O sol inundava o pequeno templo, rebrilhando na mitra dourada do Arcebispo e arrancando cintilações do magnífico anel que ele usava na mão direita. Que dia maravilhoso aquele! E que pena que o povo de Quivi não o compreendesse.

 

Pelo direito, pensava Rosa, a igreja devia estar repleta. O Arcebispo era de pequena estatura, delgado e contava cinqüenta e nove anos. Sentou-se numa cadeira em frente aos três pequerruchos ajoelhados e explicou o ato que ia realizar-se: O Espírito Santo, a terceira Pessoa da Santíssima Trindade, ia descer em suas almas. Aí permaneceria enquanto aquelas almas não ofendessem seriamente a Deus. E ficaria para sempre, não ficaria?

– Para sempre, disseram os dois rapazinhos.

– Para sempre, eternamente, disse Rosa.

O Arcebispo sorriu, e o mesmo fez o padre Francisco Gonzales, que estava de pé ao lado deles, muito atento, revestido do hábito da Ordem dos mercedários. Então o Arcebispo rezou em latim, enquanto o padre Francisco foi a uma mesinha e trouxe um pratinho com óleo de oliva e bálsamo. Rosa ajoelhou-se perto do pratinho de óleo. Este santo óleo fora bento na última quinta-feira santa para ser usado na administração do sacramento da Confirmação. Era o crisma.

 

Fora da igreja rodavam as carroças nas ruas pedregosas. Vendedores ambulantes apregoavam suas mercadorias e as crianças indígenas riam e brincavam. No interior, porém, a cena era bem diferente. De pé, em frente do altar, o Arcebispo Turibio rezava em voz alta “Enchei-os com o espírito de vosso temor, e assinalai-os com o sinal da cruz de Cristo, em vossa misericórdia, para a vida eterna. Pelo mesmo Senhor nosso, Jesus Cristo, vosso Filho, que convosco vive e reina em unidade com o mesmo Espírito Santo, Deus, por todos os séculos dos séculos. Amém”.

 

Mergulhou, então, a ponta do polegar direito no Crisma e traçou o sinal da Cruz na fronte de cada um dos meninos: Rosa ergueu a cabeça quando se lhe aproximou o Arcebispo. O Espírito Santo estava prestes a vir sobre ela. Havia de trazer-lhe força e coragem para ser uma boa e verdadeira cristã.

 

 

“Rosa, assinalo-te com o sinal da Cruz, e confirmo-te com o crisma da salvação. Em nome do Padre e do Filho e do Espírito Santo. Amém”. Terminara. A criança levantou os olhos para o rosto amável do Arcebispo. “A paz seja contigo”, murmurou ele, e deu-lhe um tapazinho, de leve, na face.

 

III. O SEGREDO

Havia uma eclosão de felicidade no coração de Rosa, quando ela finalmente deixou a igreja. Era, enfim, um soldado de Cristo. Daí em diante ela podia crescer, auxiliada por quatro maravilhosos sacramentos.

– E meu nome agora é mesmo Rosa, mamãe?

Maria de Oliva sorriu:

– E’ sim. O próprio Arcebispo acaba de dar-te este nome. Então, não seria mais Isabel, de modo algum. Rosa riu satisfeita e pegou a mão de sua mãe. Que bonito que era o mundo! Que bom estar viva, com as três Pessoas da Santíssima Trindade na alma! Mas, de repente, o sorriso desapareceu do rosto da menina. A seus pés na grande praça desabrigada de Quivi, dezenas de índios, com suas roupas de colorido brilhante, agrupavam-se ameaçadores, berrando imprecações.

 

– Olha os cristãos! – gritavam. – Eles pensam que o Deus deles está na igreja!

– Cristãos, cristãos! – vociferam outros. – Cambada de loucos!

Rosa fitou-os admirada. Seria possível que aquela gente estivesse zombando dela?

– Eles estão falando a nosso respeito, mamãe?

Maria acenou que sim.

– Pagãos excomungados! Não conhecem nada melhor. Vamos embora, Rosa, antes que eles comecem alguma desordem. Palavra que tal coisa nunca aconteceria em Lima! Pelo menos lá temos leis e ordem. Mãe e filha desceram apressadamente os degraus da igreja, mas, antes que atingissem o último, um grande clamor levantou-se da multidão. O Arcebispo Turíbio chegara á porta da igreja, e ai parara olhando a multidão aglomerada na praça. Seu rosto estava pálido e triste.

– Meus filhos, por que agis desta maneira? – exclamou ele cheio de tristeza. -Não ouvistes que só os cristãos adoram o verdadeiro Deus?

Que ele está agora esperando por vós, aqui, nesta igreja? Que ele tornará vossas almas brancas e limpas como a neve nos Andes?

– Qual! – berrou um velho. – És um espanhol! Um espanhol narigudo! Não gostamos de ti. Vai-te embora para tua cidade!

– Espanhol narigudo! – entoou um grupo de crianças, e a turba pegou o grito:

– Espanhol narigudo! Vai embora para a tua cidade!

 

Rosa mal podia crer em seus ouvidos.A praça inteira regorgitava então de índios, que gargalhavam e faziam troça do bom Arcebispo. Uma mulher agarrou um cesto e o colocou na cabeça à guisa de mitra. Logo os que a rodeavam curvaram-se até ao chão, fazendo o sinal da cruz, à medida que ela fingia abençoá-los. De pé no alto da escadaria da igreja, o Arcebispo contemplava em silêncio aquele tumulto. O padre Francisco, que o seguira, sacudiu a cabeça.

 

 – Esforcei-me duramente por convertê-los, Excelência. Ah! que se vai fazer. Quivi nada mais é que uma cidadezinha perdida nestas montanhas. Há dezenas de outras, todas cheias de indígenas que insistem em que o seu deus é o sol, do qual fazem imagem de ouro e o adoram dia e noite. O Arcebispo fez um gesto de concordância. Suas feições tornaram-se subitamente severas e Rosa estremeceu ao vê-lo descer as escadas e avançar para a turba zombadora. Sua mão não se levantava na atitude usual de bênção, mas, ao contrário, apontava para o céu de um modo terrível.

 

– Desgraçados! – bradou o Arcebispo. – Vossa cidade só será poupada à destruição durante três anos. Mais do que isso, não vivereis para insultar os servos de Deus!

 

– Ha, ha! – escarneceu o povo, fazendo roda para dançar em volta do Arcebispo. – Nosso Deus é o sol – cantaram; – nossa cidade santa é Cuzco. Vocês, espanhóis, nos roubaram nosso ouro e nossa prata. Não acreditamos no que vocês nos dizem!

 

 

Rosa e sua mãe seguiram receosas esquivando-se à multidão, e entraram na rua que conduzia à sua casa. Podiam ainda ouvir os gritos e insultos dos índios, mas já não lhes viam as faces escarninhas. Ficava apenas a lembrança da cena, e as palavras assustadoras que o Arcebispo proferira. Semanas decorriam, e Rosa pensava freqüentemente no dia de sua Confirmação. Pouco a pouco enchia-lhe o coração o anseio de fazer alguma coisa pelas almas ignorantes dos indígenas. Mas o quê? Ela só tinha onze anos e era uma menina. Bem que Fernando tinha razão. Os homens e os rapazes podiam lançar-se ao mundo e ser úteis, mas que reservava o futuro para uma peruanazinha? Casamento, talvez… Ou a vida religiosa…”Não quero nenhum dos dois”, pensou Rosa.

 

Um dia acudiu-lhe uma idéia. Estivera, provavelmente, aninhada no fundo do cérebro desde os primeiros anos, e o problema dos índios pagãos fizera-a vir à tona.

 

“Se não posso fazer grandes coisas, não custa tentar fazer bem as pequenas, – disse a si mesma – Posso ser paciente nas pequenas dificuldades, e oferecê-las a Deus em união com as que seu Filho teve neste mundo. Deste modo elas terão merecimento, e talvez até eu salve uma ou duas almas”.

 

Era uma idéia maravilhosa, e Rosa jamais a esqueceu. Se cortava o dedo, não se lamentava. Um corte no dedo pouca importância tem, mas podia significar muito se ela oferecesse a Deus a dor.

 

“Dar-lhe-ei também toda a minha felicidade – pensou. – Dar-lhe-ei tudo”.

Assim escoaram-se os dias. A ninguém contou Rosa o seu segredo, mas Fernando, que, dos irmãos e irmãs, era-lhe o mais chegado, suspeitou alguma coisa.

– O que é que a torna tão feliz? – perguntou curioso.

– Será porque você gosta de morar em Quivi, Rosa? Será por isto que está sempre cantando, quando pensa que ninguém a vê?

O rubor afluiu ao rosto da menina.

– Talvez, – sorriu ela.

Fernando lançou um olhar penetrante à irmã e começou a apontar um pedaço

de pau.

– Se você gosta tanto de Quivi, talvez seja melhor eu não estragar seu prazer. Entretanto, ontem à noite, depois que papai chegou da mina, eu ouvi alguma coisa. Adivinhe o quê? Rosa sentou-se muito quieta. Aí estava uma ocasião de oferecer a Deus outro sacrifíciozinho. Curiosidade insatisfeita era em si pouca coisa, mas, junta aos sofrimentos de Jesus, assumia de repente grande valor.

Podia ajudar algum pecador ignorado; podia aliviar uma alma do Purgatório. Fernando parou de desgastar seu pedaço de pau.

 

– Que há com você? – inquiriu ele. – Está com um olhar esquisito, assim como se estivesse rezando… Não está interessada no que papai disse?

Rosa sorriu.

– Claro que estou interessada. Desculpe se fiz você pensar que eu não estava prestando atenção.

– Ora, está bem. Eu só queria contar que nós vamos voltar para Lima.

O pessoal todo.

– Voltar para Lima?…

– Sim. Papal não está satisfeito na mina de prata. Ele diz que uma porção de índios morre todos os dias porque têm de trabalhar demais. Pior ainda, algumas das crianças estão morrendo de fome, porque os donos das minas não dão bastante comida ao povo. As coisas vão de mal , a pior. Foram as próprias palavras de papai. Os olhos da menina encheram-se de lágrimas.

“Não podemos fazer algo” – pensava ela de vez em quando. – “Senhor, não posso ajudar de algum modo?”. Apesar, porém, de muito rezar, a, menina, na impotência de seus onze anos, não conseguia descobrir um meio material de socorrer os milhares de índios e negros desamparados. Tudo que podia fazer era continuar a oferecer a Deus Pai pequenos sacrifícios, unindo-os aos sofrimentos de Cristo na terra e pedindo-lhe que abençoasse os nativos tão pobres e ignorantes Uma manhã, pouco depois do regresso a Lima, estava Rosa no jardim, nos fundos da casa. Dias antes recebera licença dos pais de levar flores para vender no mercado. Isto rendia algum dinheiro, dissera a mãe, e o trabalho não era pesado demais. Rosa era dotada de notável perícia com plantas e flores, e o jardim de Gaspar floria como nunca.

 

– Olá – irrompeu subitamente uma voz – esta atarefada senhorita é Rosa Flores?

– A menina ergueu os olhos dós molhos de violetas que estivera arrumando e ergueu-se.

– Doutor João! Que prazer ver o senhor!

O Doutor João Pérez de Zumeta pôs no chão o volumoso embrulho que trazia.

– Sua mãe disse que eu a encontraria aqui. Como vai a minha amiguinha depois da estada em Quivi?

– Bem, obrigada, Doutor.

– Com certeza?

Rosa deu uma risada alegre.

– Oh! com toda a certeza. O senhor sabe, Doutor, que eu agora estou fazendo negócios? Negócio de flores. Ontem no mercado algumas de minhas rosas foram vendidas por um preço excelente. O Dr. João sorriu e sentou-se num pequeno banco de pedra.

– Mariana já me deu estas boas noticias. Mas não foi por causa de negócios que eu vim vê-la, Rosa. Sua mãe chamou-me aqui para eu ter uma conversa com você. Parece que ela está um pouco preocupada. Rosa arregalou seus olhos escuros.

– Preocupada? Por minha causa? Mas que fiz eu, Doutor João? Não posso imaginar…

– Ela me disse que você não come nem o bastante para manter um passarinho. Mais ainda, que você não dorme direito, pois todas as noites, quando pensa que ninguém está vigiando, você pula da cama para rezar.

Rosa corou.

– Eu… eu sinto muito, – disse. – Pensei que ninguém soubesse disso.

O Doutor João contemplou a menina à sua frente.

– Você tem uma espécie de segredo, não é? – disse bondosamente.

-Não quer contá-lo a mim? Você sabe que pode ter confiança. Não tenho sido seu amigo desde quando você era. um bebezinho?Rosa meneou a cabeça.

– O senhor é tão bom, – murmurou vagarosamente. Talvez me compreenderá.

Então o homem e a criança sentaram-se no vasto jardim, onde as borboletas multicores adejavam ao sol, e nos grossos ramos das oliveiras, as pombinhas

de Fernando arrulhavam docemente. . .

– Então, – disse o médico, – você vai contar-me o que há.

Rosa respirou fundo e revelou seu segredo.

– Eu só quero salvar almas, centenas e centenas de almas, e o único meio que conheço é rezar e sofrer. Não está certo, Doutor João?

 

IV. OUTRA VISITA

 

O Doutor João ouviu com interesse a sua amiguinha; nada, porém, do que ela dizia lhe mudaria a opinião. Salvar almas era sem dúvida. Uma belíssima obra, mas meninas de onze anos precisam bastante alimento e, pelo menos, dez horas de sono cada noite.

 

– Você me faz lembrar alguém que encontrei há pouco tempo, – disse ele. -E’ um rapazinho mais velho do que você, tem mais ou menos dezoito anos, suponho. Mas o caso é que ele tem a mesma idéia. Deseja salvar as almas dos pecadores: índios, pretos, gente branca, todo mundo. Rosa arregalou os olhos negros.

 

– Um menino? – murmurou. – Eu não o conheço. Conheço?

 

O Doutor meneou a cabeça.

– Provavelmente não. Ele se chama Martim de Porres. Atualmente seu pai é governador do Panamá, mas a mãe dele é uma pobre preta, e mora com Dona Francisca Velez, perto da igreja de S. Lázaro.

 

Rosa ficou quieta. Martim! Ela tinha ouvido esse nome em algum lugar. Não tinha um dos padres da igreja dominicana?…

 

– Martim costumava servir de assistente ao meu velho amigo, o Dr. Marcelo de Rivero – continuou o Doutor João. Estes três últimos anos, entretanto, ele esteve ajudando os padres dominicanos em seu convento.

Ele é apenas um auxiliar terceiro, nem chega a ser Irmão leigo, mas muito

útil também, pelo que se conta.Rosa fez um sinal de aprovação.

– Espero que ele salve muitas almas – disse suavemente.

– Doutor João, o mundo precisa de tanta oração! Se o senhor tivesse visto aqueles pobres índios pagãos em Quivi…O médico levantou-se do rústico banco de pedra.

– Esses índios devem ter impressionado profundamente a você, minha menina. Mas não pode estar a pensar neles todo o tempo. Olhe… trouxe-lhe um presentinho. Tinha que chegar-lhe às mãos um destes dias.

 

O presente era um grande pacote que o Dr. João trouxera para o jardim. Rosa olhava ansiosa, enquanto ele desembrulhava. – E’ uma roseirinha! – exclamou. – O’ Doutor! E’ branca?… quero dizer, dá rosas brancas’!’

O Doutor sorriu.

 

– Assim me disseram. Uma amiga trouxe-ma ontem, de sua terra em Limatambo. Imaginei que você gostasse de possuí-la, pois vejo que está no negócio de flores.

 

Rosa exultou. O Doutor era mesmo o mais amável dos homens. Fora sempre um bom amigo para ela, até naquele dia terrível em que lhe cortara a unha do polegar porque estava se arruinando. Ela tinha então só três anos, mas a lembrança daquela faca afiada estava ainda fresca em sua memória. – Uma roseira branca era mesmo o que eu queria disse ela radiante.

 

-Mariana sempre diz que as damas ricas mandam seus criados escolher rosas

brancas no mercado. Muito obrigada, Doutor João.

 

O médico sorriu.

– Não há de que, minha menina. E agora tudo que eu desejo de você é que me prometa cuidar de sua saúde. Promete? Vai deixar de pensar tanto nos pecadores, e mais em você mesma?

 

 

Rosa riu francamente.

– Eu não fico doente, Doutor. Agora que eu tenho este jardim para cuidar, não há nem tempo para ficar doente. Além das flores, tenho as hortaliças e ervas para cuidar, e também as fruteiras. E’ um bocado de trabalho. Mas sou tão feliz, Doutor João. Enfim encontrei um jeito de ser útil à família. Quando, entretanto, ficou outra, vez sozinha, Rosa suspirou acabrunhada. Então a mamãe estava preocupada por causa dela, mamãe achava que ela passava muito tempo rezando.

“Não é”, – disse consigo a menina. – “Ninguém pode rezar demais”.

E ela sentou-se pensativa no banco de pedra. O sol inundava de luz e calor o jardim e as pombinhas arrulhavam satisfeitas, mas no coração de Rosa começou a brotar uma leve tristeza. Ainda se alguém da família compreendesse… Mas nenhum deles se incomodava muito com salvar almas.

 

E o que é pior: se bem que nada se dissera recentemente, Rosa sabia que o dinheiro proveniente da venda das flores era apenas o suficiente para .saldar algumas contas. Dentro de cinco ou seis anos, portanto, esperava-se que ela fizesse algo, mais. do que cultivar frutos e flores para vender em Lima: a. expectativa era que ela se casasse com um espanhol portador de bom nome e sólida fortuna. Muitos havia então na cidade – rapazes cujos pais tinham deixado a Espanha em busca de riquezas nas minas dos Andes.

 

Lima borboleta preta e branca adejou levemente sobre a roseira a seus pés e Rosa esqueceu seus pesares. Que linda criatura, essa borboleta alvinegra; cujas asas brilhantes como veludo cintilavam ao sol.

 

“Talvez um dia eu possa usar também um vestido preto e branco”, -pensou. – “Esse menino de quem o Doutor João me falou – o Martim, ele deve usar uma roupa assim, se vive no convento dos dominicanos.

 

Mas uma menina não podia viver em .S. Domingos – só padres dominicanos e irmãos- leigos e auxiliares da ordem terceira como Martim. “Além disso, eu, não quero ser freira”, – pensou Rosa. — “O que eu desejo é viver aqui em casa e salvar almas, rezando”.

Subitamente, quebrou-se o silêncio no jardim. Os passos apressados de Mariana ressoaram na aléia, acompanhados do ranger de suas sandálias vermelhas.

 

– Senhorita Rosa! Sua mãe quer que venha já para dentro. Há uma pessoa que quer vê-la. A menina sentiu o coração confranger-se-lhe no peito. Raro era o dia em que não aparecessem algumas senhoras em visita a Maria de Oliva, e sempre era exigida a presença de Rosa, para tocar guitarra, cantar algumas canções, e entreter os visitantes. Não seria mau, se ao menos aquelas damas fossem tão sensatas e compreendedoras como o Doutor João. Mas elas esgotavam o tempo conversando e tagarelando sobre as coisas mais tolas. E às vezes eram bem pouco amáveis a respeito de outras senhoras ausentes. – Eu ia mesmo plantar esta roseira, Mariana. Mas irei imediatamente, se mamãe realmente precisa de mim.

 

A moça indígena, adivinhando-lhe os pensamentos, não disfarçou o riso:

– Não precisa sentir-se tão mal. A visita de sua mãe é Dona Maria de Quinhones.

– Dona Maria?

– Isso mesmo. Não faz muito tempo que ela esteve aqui.

Os olhos negros de Rosa iluminaram-se. Oh! isto era outra coisa! Dona Maria, a sobrinha do Arcebispo Turíbio, era uma pessoa amabilíssima.

 

Apesar de possuir uma bela casa e muitos servos, era muito humilde, e todos os dias, a despeito de todos os seus deveres sociais, conseguia tempo para fazer uma visita a Nosso Senhor no Santíssimo Sacramento.

 

– Estou contente que seja ela, – disse Rosa simplesmente. – Irei logo; Mariana. Somente tenho que limpar-me um pouco primeiro. Estive plantando violetas, e minhas mãos estão sujas. Mariana concordou.

 

– Trate de pôr seu vestido novo, o azul, – preveniu. E antes de apresentar-se a D. Maria, desça à cozinha. Tenho uma linda flor vermelha para lhe colocar nos cabelos.

Pouco depois Rosa entrava na sala de visitas, que era a da da frente. Seus longos cabelos negros tinham sido alisado cuidadosamente e presa ao lado ostentava-se uma papoula rubra. O vestido azul de seda era da última moda para meninas da sua idade: comprido até aos pés com um cinto estreito de prata das famosas minas de Potosi. Calçava sandálias entretecidas com pelo de lhama.

 

Maria de Oliva exultou de orgulho quando Rosa entrou na sala.

– Ora, aqui está ela, por fim, Dona Maria. Que diz de sua aparência?

Dona Maria de Quinhones sorriu e abriu os braços.

– Minha querida, acho que ela está maravilhosa!

Rosa atravessou lentamente a sala em direção à grande cadeira perto da janela, onde D. Maria estava sentada. Trajava um vestido de seda cinzento e, protegendo-lhe os cabelos, um véu de rendas. Brilhavam-lhe nos dedos vários anéis e do pescoço pendia-lhe uma preciosa corrente de ouro com uma cruzinha de diamantes. Rosa sentou-se num banquinho perto da visitante.

 

– Estou muito contente que a Sra. tenha .vindo – disse com simplicidade, olhando para o rosto bondoso da dama. Maria de Oliva fez um sinal de aprovação.

– Dona Maria só pode dispensar-nos hoje alguns minutos, Rosa. Ela vai ao seminário levar algum mantimento para os estudantes.

– Você gostaria de vir comigo, meu bem?

A menina aquiesceu pressurosamente. Conhecia algo do seminário, se bem que nunca tivesse lá estado. Havia muitos anos que o Arcebispo Turíbio o fundara para os jovens que desejassem ser padres seculares. Fora os vários conventos, como o de S. Francisco e o de S. Domingos, não tinha havido até então, em toda a América do Sul, seminário algum para candidatos ao sacerdócio.

– Eu gostaria de ir com a senhora, Dona Maria. Posso ir, mamãe?

– Claro que sim, minha filha. Mas primeiro toca alguma coisa na tua guitarra para Dona Maria. Faz muito tempo que ela não te ouve. E enquanto tocas, vou ver se há um bolo para mandar ao seminário. A guitarra pendia da parede, no lugar de costume. Rosa foi buscá-la e afinou as cordas.

– Compus um pequeno cântico outro dia – explicou com acanhamento à visitante. – Não é grande coisa. Dona Maria fez um sinal de aprovação.

– Deixe-me ouvi-lo: Sempre gostei de suas canções, Rosa. A menina sentou-se, apoiou o instrumento no colo e começou a cantar.

– Meu querido Senhor, quanto é bom ver nas flores, e no verde sombrio

da copada oliveira, Toda a vossa beleza. Como é doce saber Que abençoar-me quereis, E o meu coração De alegrias encher!

 

Um sorriso aflorou aos lábios de Dona Maria. Que criança encantadora e tão bem educada: Não admira que todo mundo lhe predisse um grande futuro. Seria difícil encontrar em todo o Peru mocinha mais graciosa e prendada.

 

“Ela não é só inteligente”, pensava Dona Maria. “Tem qualquer coisa que a distingue do comum das crianças. Posso vê-lo nos olhos. O que lhe reservará a vida?” Os dedinhos finos de Rosa feriram um acorde final. – Pronto. – disse à visitante. – É apenas um pequeno cântico, como os outros todos.

– Uma pequena oração, talvez.

– Acho que sim, Dona Maria. Reinava doce tranqüilidade na espaçosa sala de visitas. A mulher contemplou carinhosamente a menina e comentou:

 

– Você pensa muito em Nosso Senhor, não é, Rosa?

– Penso, – concordou Rosa quase num murmúrio. Ele se interessa sempre por nós, jovens ou velhos, ricos ou pobres. Se nos esforçarmos por ser bons, Ele está sempre em nosso coração. Querida Dona Maria, as únicas horas em que sou realmente feliz, é quando me lembro de pensar n’Ele no fundo do meu coração, para que me ajude a chegar a Ele no céu.

 

V. DUAS HISTÓRIAS

 

A visita ao seminário era interessante, dias Dona Maria de Quinhones não se demorou, pois, como fez saber a Rosa, tinha outros lugares aonde ir.

– As Irmãs do Convento da Encarnação?

– Isso mesmo. Depois, talvez, teremos tempo de ir ao Convento da Conceição. E ao da Trindade também.

A carruagem de Dona Maria rodou ligeira pelas ruas estreitas. Rosa seguia com interesse as cenas animadas que se, lhe deparavam; no entanto, não eram os edifícios majestosos nem os inúmeros jardins multicores que lhe chamavam em primeiro lugar a atenção. O que lhe prendia o olhar era o povo nas ruas – aleijados, mendigos e criancinhas esfarrapadas. Havia tantos! E parecia terem esquecido até de sorrir. Dona Maria lançou um olhar rápido à sua companheirazinha.

 

– Adivinho o que está pensando, meu bem.

 

Os olhos escuros da menina brilharam.

 

– Estava pensando que, se eu fosse um rapaz, iria amanhã para S. Domingos a fim de ser padre e fazer alguma coisa por toda essa pobre gente. Quantos deles nada sabem de Deus, Dona Maria. E não há padres bastante aqui no Peru, para ensinar-lhes. E’ uma pena, não é?

A dama concordou.

– E’ mesmo, minha filha. Mas, diga-me, por que você gostaria de ser dominicana? Por que não franciscana, ou jesuíta, ou agostiniana?

Rosa sorriu. Tanta gente estava sempre perguntando a mesma coisa.

 – E’ por causa de Santa Catarina de Sena, Dona Maria. Ela era terceira dominicana. E que pessoa extraordinária! Nós temos em casa um livro que conta a respeito dela. Já o li tantas vezes que acho que sei, de cor todas as palavras.

– Eu também li sobre ela. Não há dúvida que era uma pessoa extraordinária. Mas era uma terciária e passava seus dias no mundo, nem nunca entrou para um convento.

– Eu sei, Dona Maria. Ela pertencia à Ordem terceira. dominicana.

Deve ser uma vida encantadora, já que ela gostou tanto.

– É uma vida penosa, minha filha. E’ necessária uma graça especial para tornar-se santa, vivendo no mundo.Rosa deu uma risada.

– Eu vou experimentar, Dona Maria. Não quero casar-me nem entrar para um convento. Pedi a S. Catarina que me ajude a ser como ela. A senhora vê, quando eu tinha cinco anos…

– Que houve?

– Ora, parece uma história muito tola, pois eu era então muito pequena.

Dona Maria animou-a com um sorriso.

– Você me conta a sua história e depois eu lhe conto a minha. Enquanto

isso teremos chegado ao mosteiro da Encarnação. Mas, naturalmente, se

você quer guardar segredo…Rosa sacudiu a cabeça.

– Não é tão importante. Além disso, quando eu ficar mais velha e toda gente esperar que eu me case, terei de explicar por que não posso. Portanto, eu conto primeiro à senhora. Sei que me compreende.

– Obrigada, meu bem. Respeitarei sua confidência.

– Foi numa tarde em que eu e Fernando estávamos brincando no jardim,

 -começou Rosa. – Nesse tempo eu tinha cinco anos e ele, sete. Mariana tinha acabado de lavar-me os cabelos e eu estava satisfeita de ver como eles brilhavam ao sol. Eram mais sedosos e cheios de cachinhos. Eu estava orgulhosa de meus cachos, Dona Maria.

 

– Não há dúvida de que eram bonitos. Mas Fernando começou a caçoar de mim. Fez de conta que era um padre pregando um sermão, e pôs-se a falar sobre a loucura de ser alguém orgulhoso de suas roupas e aparências. Dizia que, por essas coisas é que ia tanta gente para o inferno.. Eu , me sentara a ouvi-lo, e ele subitamente. apanhou um punhado de lixo e atirou-o sobre meus cabelos limpos. “Não precisa mais ficar tão orgulhosa”, exclamou.

 

No primeiro momento fiquei mesmo zangada com Fernando. Depois, porém, meditei e conclui que ele tinha razão. Não devemos, realmente, ser tão convencidos por causa de nossa aparência, ou por termos dinheiro, saúde ou educação. E’ claro que ele estava só brincando, nem nunca pensou que eu o levasse a sério. Mas eu o levei, e então toda gente ficou zangada comigo.

– Por quê, minha filha?

– Porque eu decidi cortar meus cachos, como fez S. Catarina quando era uma menina; assim eu não ficaria mais orgulhosa de minha aparência. Dona Maria não pôde deixar de rir.

– Sua mãe nunca me falou nisso, e é com satisfação que vejo que o seu cabelo cresceu novamente. E’ de fato uma cabeleira bonita.

– Obrigada, Dona Maria. Há mais ainda na minha história. A senhora imagine, quando cortei meus cabelos, prometi a Nosso Senhor que o amaria sempre, mais do que a qualquer pessoa e qualquer coisa. Eu tinha só cinco anos, mas sabia que tudo que eu desejava na vida era servi-lo e trabalhar por sua glória aqui na terra. Eu não queria nem marido, nem lar, nem filhos – só Ele.

– Compreendo…

– Mamãe, naturalmente, não sabe nada disso, e com certeza vai ficar muito zangada quando eu lho disser. Mas é assim, Dona Maria. E ninguém poderá fazer-me mudar de opinião. Pertenço a Deus, para sempre.

Dona Maria sorriu.

– E’ uma história adorável – murmurou brandamente. – E estou certa de que, algum dia, terá um esplêndido final. Não fique, porém, surpreendida se for um pouco diferente do que você planejou.

– Diferente?

– Sim. Quando você .crescer, pode achar que sua vocação é para freira, e não terceira .dominicana como S. Catarina. Afinal, considerando os dons que Deus lhe concedeu, talvez seja mais acertado servi-lo na vida religiosa do que no mundo.

– Talvez, Dona Maria. Mas agora eu acho que não. A nobre senhora contemporizou.

– Bem, veremos. Agora vou eu contar-lhe a minha história. Estamos quase no convento da Encarnação e desejo que você a ouça antes de entrarmos. – Oh! sim, Dona Maria. Eu tinha quase esquecido que a senhora também tem uma história para contar. A dama recostou-se nas almofadas da carruagem e começou.

 

– Foi a 6 de Janeiro de 1535, que D. Francisco Pizarro fundou nossa cidade de Lima. Você o sabe tão bem como eu, Rosa. E sabe também que; ele foi assassinado por seus inimigos em 1541. Pois bem, alguns anos depois as coisas andaram atrapalhadas no Peru. Alguns dos sequazes de Pizarro quiseram governar o país, e instigaram o povo a revoltar-se contra o dirigente legal, o rei da Espanha. Um desses rebeldes era o capitão Francisco Hernandez de Giron. No entanto, o prenderam finalmente e o executaram a 9 de Dezembro de 1554. Puseram-lhe o corpo num saco e, amarrado a um cavalo, o arrastaram pelas ruas de Lima.

– Que coisa horrorosa!

– Isso mesmo. Queriam com isto escarmentar a outros que talvez quisessem revoltar-se contra o rei da Espanha. Entretanto, quem mais sofreu com esse espetáculo foi a esposa do capitão, Dona Mência. Ela assistiu a todo o terrível castigo – até ao dilaceramento do corpo de seu esposo pelas pedras das ruas. Passaram-se semanas inteiras até que se lhe atenuasse a lembrança daquelas cenas. Por fim comunicou a sua mãe, D. Leonor Portocarrero, que desejava passar o resto de seus dias rezando pela alma do capitão Francisco. Ainda que ele tivesse morrido como um criminoso comum, talvez a misericórdia divina o tivesse livrado do inferno. Ele podia estar até então no purgatório, sofrendo por seus pecados e clamando por orações de seus amigos.

 

– Que fez ela, então, Dona Maria?

– Dona Leonor concordou, pois ela também tinha desejado devotar-se à oração. Foram, portanto, visitar o Padre André, prior do convento dos agostinianos, que ficava perto. Contaram-lhe a respeito do infeliz capitão, e explicaram-lhe que desejavam ser freiras, e passar o resto de seus dias rezando pela alma de seu marido e genro. Rosa interrompeu sorrindo.

– E ele consentiu, Dona Maria? Ajudou-as a fundar em Lima o primeiro convento para senhoras?

Dona Maria mirou sua companheira.

– Você sabe esta história tão bem como eu, Rosa! Por que não me disse?

– Porque eu gosto de ouvir a senhora falar. A senhora torna tudo tão interessante. Realmente, eu não conheço a história toda. Essa parte do corpo do pobre capitão arrastado pelas ruas, por exemplo.

– Bem, é verdade. Como é certo também que Dona Leonor e Dona

Mência receberam o hábito agostiniano das mãos do padre André e iniciaram a vida religiosa em sua própria casa. Isto foi aí por 1558. Algumas pessoas não aprovaram de modo algum a idéia. Achavam que as duas senhoras deviam esperar até terem mais dinheiro e benfeitores. Mas, você compreende, era preciso não esquecer a alma do capitão.

– Elas não tiveram de esperar muito tempo para terem um convento de verdade, não foi?

– Três anos apenas. Lá está ele nesta rua, minha filha, – o Convento da Encarnação. Foi construido em 1561.

 

As torres do mosteiro erguiam-se em frente das visitantes, e o carro seguia ao longo do muro de adobes que separava da rua o jardim. Rosa virou-se para sua companheira, enquanto o carro se dirigia para o portão principal. – Lima tem sido a primeira em muitas coisas, Dona Maria. No outro dia papai estava nos contando que nossa universidade é a primeira de toda a América, e foi fundada no convento dos dominicanos a 12 de Maio de 1551 pelo padre Tomás de San Martin.

– Ha, ha, você gosta mesmo dos dominicanos, Rosa. Está sempre a cantar-lhes os louvores.

– Mas é verdade, Dona Maria. A Universidade de S. Marcos foi a primeira…

– Não esqueça o seminário que acabamos de visitar. E’ um pioneiro também. E temos o primeiro hospital Sant’Ana.

– Fundado por um dominicano, Dona Maria, em 1549. A senhora não esqueceu que nosso primeiro Arcebispo, Jerônimo de Loaysa, pertencia à família de S. Domingos…

A dama levantou as mãos em cômico desespero.

– Vamos, minha filha. Você sabe mais do que eu a respeito da história de Lima.

Rosa tomou o cesto de mantimentos que D. Maria trouxera para as freiras. Enquanto seguia sua amiga em direção ao pesado portão de madeira, acudiu-lhe uma idéia esplêndida. Quem sabe, Lima seria a primeira em mais alguma coisa – o primeiro lugar das Américas a possuir um santo canonizado!

“Talvez o próprio tio de D. Maria, o Arcebispo Turibio”, pensou ela. “E’ um homem tão santo!”

 

VI. UM SANTO VEM A LIMA

 

Passaram-se tempos. Na tarde de 23 de Agosto de 1601 vigília da festa de S. Bartolomeu – Mariana, a criada índia, voltava pela rua de S. Domingos, trauteando uma animada canção. De manhã, bem cedo, deixara ela a casa de seu amo Gaspar, com dois enormes cestos de flores. Os cestos voltavam vazios, e na bolsa tilintavam as moedas de prata. Fora um dia dos melhores no mercado. Cada uma das flores alcançara excelente preço.

 

 – Aposto que não há ninguém como a senhorita Rosa, quando se trata de cultivar flores, – pensava ela. – Sua mãe vai ficar bem satisfeita com o resultado de hoje. Quando, porém, Mariana abriu a porta de trás e percorreu a vasta habitação não viu sinal nem de Maria Oliva nem das crianças. Não havia em casa ninguém a quem pudesse contar as boas novas. “Agora me lembro”, resmungou, “a família toda foi à igreja dos franciscanos. Aquele novo pregador, padre Francisco Solano, prega lá hoje. Já começam a chamar o bom homem de “São Francisco”, por causa das coisas extraordinárias que tem feito”. Mariana tirou o largo chapéu de palha e dirigiu-se para a cozinha. Dai a poucos minutos ela teria de começar o jantar. O dia já ia declinando -aquele raro dia de sol, pois em Lima no mês de Agosto poucos dias de sol havia. Nisto a cidade não se parecia nada com Arequipa e Cuzco, outras cidades peruanas lá em cima, sobre os Andes. Em Agosto, geralmente, a costa é úmida e nevoenta, enquanto nas montanhas o sol brilha esplêndido dia após dia.

 

“Faço fogo num instante e isso há de ajudar a livrar da friagem da noitinha”. – disse Mariana para si. – “Quanto a este dinheiro, é melhor colocá-lo num lugar seguro. E’ a maior quantia que deram até hoje as flores da senhorita Rosa”.

 

Um canto melodioso interrompeu Mariana no seu cuidado de recontar e guardar as moedas de prata. Alguém estava cantando lá no fundo do jardim, e intercalando as notas suaves da canção percebia-se o trilo argentino de um rouxinol. Mariana largou o dinheiro e precipitou-se para a porta na ponta dos pés. Ouviam-se distintamente as palavras do cântico:

 

Tu cantas a teu Criador,

Eu canto ao meu Amor.

Para ambos nós é deleite

Louvar do Céu o Senhor!

 

“Então a senhorita Rosa estava aqui o tempo todo” pensou Mariana. -“Eu devia ter adivinhado. Ela passa todo o tempo livre naquele nicho que construiu”.

 

Não levou muito tempo e o fogo brilhou na grande lareira. Mariana deu uma corrida ao poço perto da porta dos fundos, encheu de água a chaleira e pô-la ao fogo para ferver. Rosa ainda estava cantado, acompanhada pelo rouxinol, quando ela, finalmente, se meteu pelo caminho areento, em direção ao fundo do jardim. O céu estava escurecendo, e uma leve brisa soprava através dos galhos das árvores altas. Mariana teve u m arrepio.

 

– D. Rosa! Está na hora de aprontar a janta!

 

Não houve resposta. A pobre mulher deu um suspiro e pôs-se a procurar o caminho na escuridão cada vez mais densa. O jardim da família Flores, cheio de arbustos e flores, era um lugar muito agradável de dia, mas à noite o caso era diferente. As grandes folhas pendentes das bananeiras pareciam torcidas e ameaçadoras. As oliveiras e figueiras apareciam sombrias e estranhas. Muitas vezes Maria de Oliva se queixara de que o jardim não era lugar seguro à noite.

 

Rosa, entretanto, não se amedrontava pela escuridão. Três anos antes, quando ela tinha apenas onze anos, construíra com suas próprias mãos um pequeno oratório num sítio distante o mais possível da casa. Era, na verdade, uma espécie de cabana feita de ramos e galhos curvados; no interior pusera um altarzinho com um crucifixo e velas. O oratoriozinho, dissera ela á família, era um bom lugar para se trabalhar e rezar.

 

“A maior parte das meninas de quinze anos – pensava Mariana – andam ansiosas por se divertirem. D. Rosa é o contrário. Seu maior cuidado são ainda as almas, como salvá-las do inferno, como tornar-se mais agradável a Deus – aí está o que lhe enche os pensamentos”.

 

Estava tão escuro como úmido, quando, por fim, Mariana parou. Lá, escondido entre as bananeiras, descobriu ela o oratoriozinho de Rosa. Alarmado, o rouxinol soltou ainda uma nota. Mariana afastou para um lado a folhagem de um galho.

– Senhorita Rosa! Não sabe que pode apanhar um resfriado mortal, sentada aí nesse lugar úmido? Então não pode rezar em outro lugar qualquer?

Da sombra de sua ermidazinha veio o riso claro de Rosa. Era um riso musical, quente e melodioso, e no mesmo instante Mariana se arrependeu de ter falado tão asperamente.

– Estou muito bem, Mariana. O passarinho e eu…

– Bem que eu ouvi. Mas está na hora de jantar. Seria melhor guardar suas cantigas para amanhã.

Rosa abandonou o acanhado abrigo.

– Acho que está esfriando, Mariana. Não o tinha percebido, pois estive tão ocupada a tarde toda. Primeiro costurei um pouco. Depois, quando ficou escuro demais, o passarinho veio e…

Mariana deu uma olhadela no oratório. Uma cruz de madeira estava encostada na parede. Era da altura de Rosa. A boa criada sentiu calafrio, ao verificar que Rosa estivera fazendo outras coisas, além de costurar e cantar hinos. Uma parte da tarde ela passara carregando a pesada cruz pelo jardim, em lembrança da caminhada dolorosa de Nosso Senhor ao Calvário. Era um exercício que ela praticara alguns anos – um método especial de fazer a Via Sacra, quando se achava sozinha.

– Vamos embora, D. Rosa. Eu preciso de ajuda no jantar.

A menina acenou que sim e pegou um pano grande de linho. Era uma toalha de altar que Maria de Oliva lhe pedira para embainhar. O trabalho estava pronto desde cedo.

No caminho para casa, Rosa notou alguém andando na cozinha, perto da janela.

– Mamãe deve ter voltado já da igreja, – disse.

– Não havia de me admirar, D. Rosa. Ela foi há tanto tempo.

Provavelmente o Padre Francisco pregou outro de seus lindos sermões.

– Ele deve ser maravilhoso!

– Daqui a pouco saberemos. Mas não corra dessa maneira! Pode tropeçar numa pedra!

Rosa aquiesceu. A escuridão, que enchia todo o jardim, pouco lhe importava. Conhecia palmo a palmo o lugar. Entretanto, diminuiu os passos. Não seria caridoso deixar Mariana descobrir sozinha o caminho naquelas trevas.

– Eu gostaria de ter ido à igreja esta tarde, Mariana. Todo mundo em Lima fala sobre a santidade do Padre Francisco. Ele é missionário há onze anos, e dizem que tem convertido milhares de índios.

– Então, por que não foi ouvi-lo?

– Eu tinha que embainhar esta toalha para mamãe.

– Ora, minha filha, isso podia esperar, e sua mãe só teria de ficar muito contente…

– Eu quis fazer um pequeno sacrifício.

– Sacrifício! Dona Rosa, se eu escuto outra vez esta palavra . . .

– Não fique zangada, Mariana. Eu gosto de fazer sacrifícios. E’ a minha maneira de ser útil aos outros. As vezes penso que é para isto que nasci -para que possa rezar e sofrer pelos outros.

– Se fizer sacrifícios demais, não há de durar muito neste mundo.

Rosa esboçou um sorriso.

– Não me importa. Sei que ficarei quanto tempo Deus quiser. E agora, Mariana, vou contar-lhe um segredo.

– O quê?

– Amanhã é a festa de S. Bartolomeu…

– Isto não é segredo.

– Não, mas o que vou dizer é. Quando eu morrer, acho que vai ser na festa de S. Bartolomeu. Todos os anos, quando se aproxima o 24 de Agosto, eu fico tão animada. O’ Mariana, deve ser esplêndido viver no Céu e ver Deus para sempre.

– Dona Rosa, não deve dizer tais coisas.

– E por que não? Muita gente fica esperando ansiosa o dia do aniversário, mas para mim acho mais grato prever e ansiar pelo dia da morte. E’ com efeito um grande dia, Mariana. O dia em que começa a verdadeira vida.

A índia fez um grande sinal da cruz.

– Não deixe sua mãe ouvir essas esquisitices de morrer no dia de S. Bartolomeu. Não lhe agradaria nada, dona Rosa. Além disso, não é correto fazer a gente pensar que a senhora conhece o futuro. Isso compete a Deus.

Rosa acenou com a cabeça, concordando.

– Foi ele quem me disse – explicou simplesmente.

E era verdade. Muitas vezes, no âmago de sua alma, Rosa ouvia coisas espantosas. Uma vez era Nosso Senhor que lhe falava, outras era a Virgem Maria, ou então S. Catarina de Sena. E sempre davam-lhe a entender que os homens e mulheres devem fazer penitência por seus pecados. Pois uma alma com uma manchinha, embora insignificante, não pode entrar no Céu. Ou o pecador satisfaz por si mesmo, no purgatório ou neste mundo, ou alguém em lugar dele: e era isto que Rosa entendia com ser útil aos outros.

 

“Eu quero satisfazer pelos pecados dos outros”, dizia ela; “Senhor, dizei-me o que quereis que eu faça”. Mariana e sua patroazinha atingiam já a porta dos fundos, quando um grito as fez estacar subitamente. Por cima do alto muro de tijolos que resguardava da rua o jardim dos Flores, viera o grito lamentoso de uma mulher oprimida pelo sofrimento. Rosa perscrutou ansiosa a escuridão.

 

– Deve ser alguém ferido, Mariana. O grito veio exatamente do portão.

– Mãe de Deus, filha, não vá ver o que é. Nada há que dizer, seja lá o que for.

– Mas não podemos ficar aqui sem fazer nada.

Rosa pôs-se a correr em direção ao portão, e logo outro grito atravessou a noite. Ouvindo o distúrbio, Maria de Oliva abriu a janela da cozinha.

– Que está acontecendo ai fora, Mariana? Por que não está aprontando o jantar?

A criada juntou as mãos nervosamente.

– Dona Rosa saiu à rua, senhora. Ela… ela pensa que há alguém ferido.

– Saiu à rua! A esta hora?

No mesmo instante o portão abriu-se rangendo nos gonzos e uns passinhos leves ecoaram na areia do caminho.

– Está tudo bem, mamãe. Esta pobre mulher deu uma queda e feriu-se no joelho.

Maria de Oliva inclinou-se para fora da janela, e ficou quase sem fala ao ver Rosa caminhando vagarosamente para casa e ajudando uma índia que se lhe

apoiava ao ombro.

– Ela está meio morta de fome, e machucada, mamãe. E está com frio, também.

 

Maria de Oliva olhou desalentada para o jardim escurecido. A maior parte dos índios em Lima era uma gente suja. Muitos eram doentes, e Rosa não só tocava com suas mãos num deles, mas, pelo visto, ia conduzir a criatura para dentro de casa. A índia estava ferida – vá lá, mas então que fosse para o hospital de Sant’Ana, no outro lado da cidade. Jerônimo de Loaysa, o primeiro Arcebispo, tornara-o acessível a qualquer índio doente.

 

Maria estava quase dominada de impaciência e aborrecimento. Algo, entretanto, a retinha no íntimo, e pela primeira vez na vida, ela não encontrava palavra para desabafar. Uma hora antes estivera ouvindo o sermão de um frade franciscano. Fora um sermão sobre a caridade. O padre Francisco Solano, de volta de seus recentes trabalhos missionários no Paraguai e na Argentina, não poupara os ouvintes. Não tinha palavras dulçorosas para o egoísmo.

 

“Ou amais ou não amais o vosso próximo”, dissera ele. “Ou nele vedes Nosso Senhor Jesus Cristo ou vosso próprio orgulho. E aquilo que vedes é que indica se ides para o Céu ou para o Inferno. O’ meus irmãos! Não vos desvieis jamais de um homem porque é pobre, porque é ignorante, porque tem a pele de outra cor que a vossa! Lembrai-vos, é bem possível que vos estejais desviando de Deus”.

 

Maria de Oliva saiu da janela e foi abrir a porta da cozinha. – Traz a mulher para dentro – murmurou. – Ao menos podemos dar-lhe uma boa refeição.

 

VII. UM AMIGO NA NECESSIDADE

 

Quando Rosa ficou mais crescida, obteve do pai permissão para cuidar de outras mulheres pobres e doentes. Uma sala especial foi reservada para essas infelizes. Recebeu o título de “Enfermaria”, e em pouco tempo tornou-se um verdadeiro refúgio para as pobres doentes de Lima. Passados meses, vários índios começaram a propalar que tinham sido curados na “Enfermaria”, especialmente depois de Rosa ter-lhes deixado segurar a estatuazinha do Menino Jesus. Aquela estatueta, insistiam eles, era milagrosa, e a própria Rosa referia-se a ela como ao “Doutorzinho”. Apesar da popularidade da filha entre os pobres de Lima, Maria de Oliva perdia às vezes a calma, quanto ao número de casos na “Enfermaria”.

 

– Não haverá hospitais bastantes em Lima para que nossa casa se transforme também num? – perguntou certo dia a seu marido. – Há o de Sant’Ana, o de Santo André, o de São Lázaro! Com efeito, Gaspar, não vejo motivo por que Rosa há de manter aqui estas mulheres. Isto me põe doente!

 

Gaspar Flores limitou-se a sorrir. Raro era o dia em que, sua enérgica esposa não se queixasse de alguma coisa.

 

– Temos uma casa enorme, Maria. Certamente Rosa pode usar uma sala para sua caridade.

 

– Caridade! Gaspar, podes compreender isto no ano de 1606? Rosa tem vinte anos e ainda não se casou. Então não tenho direito de reclamar, vendo-a gastar horas e horas com doentes índios e negros? Por que não há de ela interessar-se em travar conhecimento com algum jovem distinto? – Que adiantaria isso? Sabes o que ela nos disse.

 

A sombra de um desgosto toldou o rosto de Maria. Então Gaspar acreditava realmente que sua filha não poderia casar-se nunca, porque se prometera a Deus quando tinha cinco anos. Que absurdo! Nenhuma criança de cinco anos

entende essas coisas.

 

– Se Rosa não se casar, eu morrerei de vergonha, declarou ela, decisivamente. – Todo mundo já começa a falar. Dizem que há qualquer coisa de errado nela, que ela é esquisita…

 

Gaspar soltou um suspiro. Rosa fora sempre diferente de seus outros filhos. Mesmo quando pequenina tinha coisas que o deixavam intrigado. As histórias que ela contava, por exemplo. Seria possível que o Menino Jesus lhe ensinara a ler e escrever? Que ela via o Anjo da Guarda? Que a Virgem Maria lhe aparecia freqüentemente, enquanto ela trabalhava no jardim?

 

– Talvez seja a vontade de Deus que Rosa entre para um convento –disse ele, reatando a conversa. – Ao menos um de nossos onze filhos devemos à vida religiosa, Maria. Rosa está bem adequada, ao que me parece…

 

– A menina entra para o convento, mas só passando sobre o meu cadáver – anunciou amargada a esposa. – Durante anos tenho colocado todas as minhas esperanças num bom casamento para ela. Achas que vou me deixar agora desapontar?

 

Ora, pensou Gaspar, que adianta discutir? Nos vinte e nove anos de vida conjugal Maria fizera sempre o que queria. Muitos havia em Lima, entretanto, que concordavam com Gaspar, declarando que Rosa possuía todas as qualidades de uma vocação religiosa. E por acaso, entre estes contava-se o tesoureiro da cidade, D. Gonçalo de Massa.

 

Natural de Burgos, na Espanha, D. Gonçalo chegara em Lima em 1601, e pouco depois travara conhecimento com a família Flores. A despeito de sua riqueza e alta linhagem, era um homem extremamente humilde, e seus servos negros e índios consideravam-se felizes de trabalhar em casa dele. Não ouvia D. Gonçalo cada manhã a missa numa das igrejas da cidade? E não dera ordens que nenhum pobre fosse jamais despedido de sua porta sem ter a fome saciada? E quanto a sua esposa, Dona Maria de Usátegui – onde se encontraria mais fiel cristã?

 

Na manhã em que Gaspar e sua mulher discutiam o futuro de Rosa, D. Gonçalo estava a caminho da igreja dos dominicanos para ouvir a missa. Era segunda-feira de Páscoa, uma brilhante e alegre manhã em fins de Março. Enquanto a carruagem rodava ligeira pelas ruas estreitas, D. Gonçalo ria-se, imaginando a recepção que o aguardava. Como sempre, era esperado por um bando de crianças, garotos esfarrapados, que sabiam que ele lhes trazia sempre, numa bolsa, um punhado de moedas de prata. Reboavam os gritos de boas-vindas, à aproximação do veículo, e ansiosos, os pequenos se precipitavam para o bom homem.

 

– Deus vos abençoe, meus amiguinhos – gritava ele, espalhando pelo ar uma chuva de moedas. – João, cuidado com os cavalos, não atropeles a criançada.

– Si, senhor – sorria o cocheiro índio.

 

Mas nem ele nem os cavalos precisavam de recomendação para andar com cautela. Já sabiam o que os esperava quando D. Gonçalo saía para a missa de manhã.

 

A carruagem chegara quase à igreja, quando os grandes sinos da catedral começaram subitamente a soar. O dobre solene e pesado anunciava que a morte viera para alguma pessoa importante. Logo outros sinos juntaram suas vozes à fúnebre música. De todos os cantos da cidade ressoavam as graves badaladas, num contraste flagrante com os repiques exultantes de Páscoa, no

dia anterior.

 

D. Gonçalo quedou-se atento nas almofadas de sua bela viatura. “E’ o meu velho amigo, o Padre João de Lorenzana, que morreu!”, pensou ele. “Por que não fui vê-lo ontem como tinha planejado? Não me faltava tempo, ainda que fosse domingo de Páscoa”.

 

Agora era tarde. E, enquanto a carruagem enveredava por uma rua lateral, D. Gonçalo murmurou uma ligeira prece pelo bondoso Padre dominicano, que fora seu confessor. Aí brilharam-lhe os olhos ao divisar uma figura familiar que descia a rua – o santo negro, Martim de Porres.

 

Martim fora a princípio um simples terceiro auxiliar em S. Domingos. Três anos antes, contudo, em obediência aos pedidos de seus superiores, ele se tornara Irmão leigo. A maior parte de seus vinte e sete anos ele os despendera ajudando os desafortunados de Lima. Pouco importava se os infelizes eram ricos ou pobres, espanhóis, índios ou negros. A caridade do Irmão Martim desconhecia limites. Um dia não se passava, em que as maravilhas operadas por suas orações faltassem a algum indivíduo ou lar da cidade.

 

– Deus seja louvado! – exclamou D. Gonçalo. – Justamente a pessoa que eu queria ver. João, deixa-me aqui, e conduz o carro para casa. Desejo falar ao Irmão Martim.

 

– Si, senhor – concordou sorridente o índio.

 

O Irmão dominicano vinha andando vagarosamente, a cabeça inclinada e movendo os lábios em oração. Vestia um hábito branco remendado sob um velho capote preto. Do braço pendia-lhe um cesto de mantimentos. Um cãozinho castanho, a cauda ereta, trotava-lhe satisfeito no encalço.

 

– Espere um instante, Martim!

 

O religioso virou-se e olhou.

 

– Bom dia, Excelência. Que as bênçãos desta santa Páscoa permaneçam convosco para sempre.

 

D. Gonçalo estendia-lhe nervosamente a mão.

 

– Irmão Martim, será que estes sinos estão dobrando pelo Padre João de Lorenzana? Terá o bom homem nos deixado?

 

Aos lábios do Irmão aflorou um sorriso.

– Estive com o Padre João esta manhã. Ele já não está doente.

– Não está mais doente? Mas não é possível! Semana passada ele estava às portas da morte.

– Ele se levantará amanhã.Dom Gonçalo ficou estarrecido.

– Então os sinos estão tocando por outra pessoa?

– Sim, Excelência. Acaba de chegar uma mensagem de Sana. O Arcebispo Turíbio faleceu lá há quatro dias.

– Não pode ser…

– Expirou na tarde de Quinta-feira Santa – informou calmamente o Irmão Martim. – Se bem que nenhuma mensagem pudesse ter chegado aqui, até hoje, muita gente já adivinhou a verdade. As Irmãs do convento da Encarnação, por exemplo, viram na quinta-feira passada uma cruz brilhante no

céu. Nessa noite havia, também, um eclipse da lua. As Irmãs acreditam que estes eram sinais de que o Senhor chamara a si o Arcebispo.

 

Nesse ínterim o contínuo badalar dos sinos trouxera para a rua centenas de pessoas. E quando a noticia se espalhou de que o querido Arcebispo estava morto, muitos romperam em pranto. Que fariam sem o bondoso homem que, durante vinte e cinco anos, fora o seu pastor espiritual? que partilhara com os pobres todos os seus bens mundanos?

 

D. Gonçalo deixou escapar um suspiro.

– Estive em Callao toda a semana passada, Martim. Estava lá um navio chegado da Espanha e eu tinha ordem de inspecionar a carga. Mas não tenho escusa para minha ignorância a respeito do Arcebispo. Hoje de manhã minha filha Micaela tentou dizer-me alguma coisa sobre aqueles sinais no céu.

 

Deus me perdoe! Eu estava muito apressado para ouvi-la.Martim sorriu. – Acho que sei por que, Excelência. Queríeis assistir à missa na igreja dos Dominicanos… Vejo, porém, que vos estou atrasando…

 

D. Gonçalo meneou a cabeça.

– Não, Martim. Tenho algum tempo ainda. Mas você… vai a algum

lugar com este cesto de víveres?

O religioso concordou com um gesto da cabeça.

– Há na próxima rua uma pobre mulher leprosa. Quereis fazer uma oração para que ela melhore de saúde?

D. Gonçalo não pôde deixar de achar graça. O Irmão Martim tinha um jeito especial de fazer suas obras de caridade, e sempre pedia aos outros que rezassem por seus protegidos doentes. Quando estes apareciam subitamente curados, atribuía o fato extraordinário à bondade das outras pessoas. As vezes até dizia que o caso era devido a algum novo remédio.

“Ela estaria melhor num convento – pensou D. Gonçalo.

-Provavelmente a única coisa que a impede é o fato de sua família ser pobre. Precisam do dinheiro que ela ganha na venda de flores. Além disso, Gaspar Flores é muito pobre para dar um dote à filha.

 

Subitamente uma idéia surgiu no espírito de D. Gonçalo. Não poderia ele ajudar? Como homem de alta influência política não lhe faltava dinheiro nem prestígio. Seria coisa de nonada para ele, providenciar para que Rosa tivesse um dote adequado e que a família recebesse uma espécie honrosa de auxílio.

“Vou fazê-lo! – disse a si mesmo. – Será realmente um prazer ajudar a menina”.

 

E, enquanto considerava a parte que estava para representar na vida daquela

jovem, D. Gonçalo sentiu-se inundado de uma grande onda de felicidade. Mas quando ele oferecesse a Rosa a possibilidade de ser freira, qual dos cinco conventos de Lima ela escolheria? divagava ele. – Talvez o mais recente, o convento franciscano de Santa Clara, que o bom Arcebispo (Deus tenha sua alma!) fundara dois meses antes…

 

Quanto mais examinava a idéia, melhor lhe parecia. A vida de uma pobre clarissa era dura, mas Rosa com certeza sabia suportar o sofrimento. De acordo com sua esposa, raro era o dia em que a menina não tivesse algum sacrifício, aceito alegremente, a oferecer a Deus.

 

“Uma vez no convento – devaneava o bom homem ao menos uma tribulação lhe será poupada. A mãe pode querer casa-la com alguém que não seja digno

dela… “

 

De repente soaram as campainhas, e D. Gonçalo olhou para o altar com ar de culpado. “Que se passa comigo? censurou-se. – Não prestei a menor atenção a esta Missa… “

VIII. ADEUS A S. DOMINGOS

Dom Gonçalo não era o único a imaginar que seria bom para Rosa ser uma pobre clarissa. Sua velha amiga, Dona Maria de Quinhones, tivera a mesma idéia desde os tempos em que ajudara seu tio, o Arcebispo Turíbio, a fundar o convento franciscano de Santa Clara.

 

– Por que não queres ser freira? – perguntou ela um dia, em que as duas conversavam sentadas no jardim de Gaspar. – Imaginas a paz que terias no convento! Pensa na felicidade de te dares inteiramente a Deus! Minha querida, D. Gonçalo contou-me tudo. Se é questão do dote, ou de como tua família se há de avir sem o dinheiro que rendem tuas flores, não te preocupes um momento. Dom Gonçalo providenciará sobre tudo.Rosa abanou a cabeça.

 

– Ele quer que eu seja clarissa – disse ela lentamente. – E a senhora tem a mesma idéia. O’ Dona Maria, não sei o que fazer! A dama sorriu, pois sabia qual era a dificuldade. Há muito tempo, Rosa dera seu coração à Ordem de S. Domingos e, no entanto, não havia em Lima freiras desta Ordem.

 

– Tens agora vinte anos. Se estás realmente certa de que não queres casar-te…

– Estou bem certa, Dona Maria.

– Então, por que esperar? Se fosse vontade de Deus que sejas dominicana, Ele teria, sem dúvida, providenciado a isto, fazendo que houvesse aqui um convento de dominicanas.

– Santa Catarina não era freira. Talvez eu pudesse ser uma Terceira Dominicana, assim como ela.

– E viver no mundo? Põe de lado esses desentendimentos. Rosa, meu bem, há muito tempo de te fiz ver como é difícil levar no mundo vida de solteira. E’ necessária uma graça especial. Com a inclinação que Deus te deu para a oração e o sacrifício… bem, não posso evitar de pensar que pertences ao convento.

– De Santa Clara?

– Naturalmente o Convento de Santa Clara me é muito caro ao coração.

Mas há quatro outros em Lima. Não gostaria de ser agostiniana? O convento da Encarnação é o primeiro para mulheres do Novo Mundo. Seria grande honra ser lá aceita, Rosa.

 

A mocinha suspirou. Realmente, não faria tanta diferença. Tão bem pode-se servir a Deus sob a Regra de S. Agostinho ou S. Clara como sob a de S. Domingos. Entretanto, por que todo o seu ser clamava para ser dominicana? Por que, desde sempre tomara S. Catarina por especial modelo? Até as alvinegras borboletas do jardim paterno

 

-sempre as preferira a quaisquer outras porque lhe lembravam as cores do hábito dominicano. Semanas passaram-se, e finalmente Rosa confiou a Fernando que tomara uma resolução. Se D. Gonçalo ainda quisesse proporcionar-lhe o dote, ela entraria para o convento agostiniano da Encarnação.

 

– Agostiniana?! Mas o que fez você mudar de idéia, Rosa? Eu pensei que você não queria entrar para o convento.

– Chiu… Fernando! Não precisa espalhar isso para ninguém.

– Quer dizer que não disse a papai nem mamãe?

Rosa acenou afirmativamente.

– Não, – disse pausadamente. – Até agora só o meu confessor em S. Domingos sabe da minha resolução, o Padre Alonso Velasquez.

– E que acha ele?

– Não disse muita coisa; apenas me deu a bênção e algumas palavras de aviso.

O jovem contemplou pensativo a irmã. Melhor do que ninguém na família, sabia ele quão fielmente ela se dedicara à oração e às boas obras. Fora sempre assim, mesmo quando eram pequeninos. E agora via-a prestes a fazer o maior de todos os sacrifícios.

– Alguma coisa o entristece, Fernando.

– Não é bem isso. Mas vou perdê-la, Rosa. Não posso imaginar o que será vir para casa e não encontrar você por aí. Você sempre esteve aqui quando eu precisava. Agora, quando eu quiser falar-lhe, haverá grades de permeio; outras freiras, quem sabe, estarão ouvindo o que eu disser. E’ assim que é nos conventos, não é?

– Chiu!… Alguém pode ouvir…

– E o que tem isso? Afinal vai-se saber.

– Eu quisera poder contá-lo a todo o mundo, agora mesmo – exclamou Rosa. – Mas o Padre Alonso me diz que guarde segredo. Até de papai e mamãe. A propósito, você quer fazer-me um favor?

– O quê?

– A Madre Abadessa espera-me no Convento, no domingo que vem, à tarde. Você quer me levar, Fernando? Eu não posso ir sozinha. O rapaz fez um gesto de aquiescência. O costume espanhol não permitia que moça alguma de boa família andasse pelas ruas desacompanhada. Muitas vezes tivera ele de acompanhar Rosa à igreja ou a algum convento.

 

– Claro que levo – disse ele imediatamente. – Talvez seja uma boa ação

que vá ficar gravada na história. O resto da semana Rosa andou muito ocupada, e não foi só com flores. De vez em quando dedicava-se a trabalho de agulha e bordado. Algumas senhoras abastadas eram suas freguesas e o dinheiro que lhe rendiam estas atividades eram de grande auxilio à casa. “Não será muito diferente quando eu tiver ido embora”, dizia ela para si, “graças a D. Gonçalo. Que faria eu sem um amigo tão bom? Não só me deu um dote, mas ainda prometeu olhar pela família e cuidar que tudo continue normalmente. O’ Senhor! eu vos agradeço por D. Gonçalo.

 

Abençoai todos os seus dias!”. Na hora combinada, domingo à tarde, Fernando e Rosa dirigiram-se para o Mosteiro da Encarnação. Difícil foi para a jovem sair sem despedir-se de seus pais, irmãos e irmãs, e de Mariana. Mas tinha de ser assim. O padre Alonso Velasquez receava os argumentos que haviam de chover se as intenções de Rosa fossem conhecidas pela família. Quando o portão de madeira se fechou atrás deles, Rosa virou-se para seu irmão preferido:

 

– Espero que tudo isto seja a vontade de Deus, Fernando.

– E o que mais podia ser?

– Eu não estou tentando fugir a dificuldades.

– Claro que não! Muito mais você está assumindo, com entrar para o convento.

A jovem caminhava silenciosa pelas ruas, olhando pela última vez as acanhadas casas de adobe, os mendigos, os garotos indígenas brincando. Subitamente um cão branco e preto disparou brincalhão na direção dela. Fernando estendeu instintivamente o braço para protegê-la. – Cuidado, Rosa. Ele pode mordê-la… E não está muito limpo…

– Oh! ele não morderia ninguém, Fernando. E’ apenas um cachorrinho. Mas, que interessante! ele é preto e branco.

– Preto e branco! Lá começa você outra vez; ainda pensando nos dominicanos!

Rosa deu uma risada.

– Nem por isso, Fernando. Mas estou com vontade, se houver tempo bastante…

– De que?

– De ir a S. Domingos para uma última visita.

O rapaz concordou.

– Está bem. Acho que podemos dispor de alguns minutos.

No interior da igreja dos dominicanos os dois irmãos separaram-se. Fernando permaneceu no fundo do templo, enquanto sua irmã prosseguia pela ala direita até à capela do Rosário. Aí ajoelhou-se ante o altar dourado dedicado a Nossa Senhora e uma vez ainda ofereceu-se como serva à Bemaventurada Mãe e a Seu Filho.

 

– Ajudai-me a ser boa – implorou ela. – Mãe queridíssima, tende piedade dos pobres, dos ignorantes, dos sofredores! Pedi a Santo Agostinho que rogue por mim, a fim de que eu possa salvar muitas almas, como freira em sua santa Ordem. À medida que os minutos passavam, Fernando se tornava inquieto. Rosa estava esquecendo que prometera ficar somente um pouco na igreja dos

dominicanos. A Madre abadessa das agostinianas dissera-lhe que estivesse no

convento a tempo das vésperas, e se quisessem chegar na hora, teriam. que

andar depressa.  Ele deslizou para fora do último banco em que estivera sentado e dirigiu-se rapidamente para a irmã.

– Rosa, está na hora de sairmos.

A jovem levantou os olhos para ele. Suas faces estavam quase descoradas e

uma expressão de espanto transparecia-lhe nos olhos arregalados:

– Fernando, alguma coisa aconteceu! Não posso mover-me. E’ como se

meus joelhos estivessem colados ao chão.

– O quê!?

– Sério! Desde que me ajoelhei tive que permanecer no mesmo lugar. Há uma força estranha retendo-me aqui.

O rapaz olhou-a assombrado. Que acontecera? Estaria sua irmã atacada de

alguma doença esquisita? Ou estaria ela com alguma brincadeira? Um olhar, porém, a seu rosto empalidecido, convenceu-o de que ela dizia a verdade. Algo misterioso acontecera na capela de Nossa Senhora. Realmente, Rosa não podia levantar-se.

 

– Eu a ajudo, – disse ele com voz trêmula. – Pegue aqui o meu braço. Mas anda depressa com isso. Algumas pessoas na igreja já estão esquecendo suas orações. Daqui a pouco estaremos rodeados de uma multidão para ver o que há.

 

Rosa agarrou-se ao braço do irmão, mas nem o esforço combinado dos dois adiantou. Diante do altar da Senhora do Rosário, cheio de flores e tremeluzentes círios, continuou Rosa presa, de joelhos. Fernando olhou em volta, como a procurar auxílio. Que haviam de fazer? Aquela hora as freiras já estariam no convento à espera da nova Irmã. Mandariam talvez até um recado à casa dos Flores para saber por que ela não teria vindo. Se tal acontecesse, os planos de Rosa deixariam de ser segredo.

 

– Faça uma oração ou qualquer coisa, – disse o rapaz aflito. – Deve haver um jeito de livrar você. Rosa ergueu o olhar para a imagem de Nossa Senhora. Ocorreu-lhe subitamente que talvez Deus não a quisesse como agostiniana. Quem sabe fizera ele um milagre para provar a D. Gonçalo e aos outros que o lugar dela era no mundo e não num convento. Talvez – ó feliz idéia! –isso significava que, afinal, ela devia ser uma terciária dominicana!

 

– Querida Mãe, eu não serei freira se esta não é a vontade de Deus,

-disse com simplicidade. – Voltarei para casa e viverei com minha família. Lá farei o possível para bem servi-l’O. Somente, por favor, deixe-me levantar-me.

 

Bem não terminara estas palavras, Rosa sentiu que podia ficar de pé. Cheio de assombro, viu-a o irmão de pé a seu lado. “Mas que aconteceu, Rosa? Afinal, como pôde você levantar-se?” Os negros olhos da donzela brilhavam.

 

– Foi ela, Fernando – a Mãe Santíssima! Ela não quer que eu vá para o mosteiro esta tarde. Ela quer que eu vá para casa. Ouvi sua voz em meu coração. O moço meneou a cabeça. Que havia de dizer a madre abadessa? E D. Gonçalo de Massa?…

 

IX. UMA FILHA DE S. DOMINGOS

 

Foi poucas semanas depois, a 10 de Agosto, festa de S. Lourenço, que Rosa ingressou na Ordem dominicana como terciária. Seu rosto tinha uma expressão radiante, quando ela ajoelhou-se na capela do Rosário em S. Domingos e ouviu seu confessor, o padre Alonso Velasquez, iniciar a cerimônia da recepção:

 

– “O’ Senhor Jesus Cristo, que te dignaste revestir o aspecto mortal de nossa humanidade, suplicamos-te que, em tua grande misericórdia, te seja agradável abençoar estas vestes indicadas pelos santos Padres para serem usadas como sinal de inocência e humildade, a fim de que aquela revestida destas vestes seja digna de revestir-se de Ti, Cristo Nosso Senhor”.

 

Rosa contemplou o hábito que o padre Alonso abençoava. Era o hábito dominicano de lã branca, estendido então sobre o altar – o mesmíssimo modelo usado por Santa Catarina de Sena e outras santas almas. Daí a poucos minutos passaria ela a usar o alvo vestido ao invés das belas roupas escolhidas por sua mãe.

 

O bom Deus abençoava uma pobre menina peruana com a vocação terciária

dominicana. Dai a pouco já não estaria ela sozinha na tarefa de salvar a sua alma e a alma dos outros. As orações dos dominicanos -padres, freiras, irmãos leigos, outros terciários – em toda parte se juntariam às suas de um modo especial.

 

Rosa fechou os olhos inundada de felicidade, enquanto o padre Alonso a aspergia com água benta e continuava a oração:

 

– “Asperja-te também o Senhor com o hissopo, a ti que vais ser agora revestida com o nosso hábito, para que sejas purificada, e assim limpa e mais branca do que a neve possas aparecer externamente”.

 

Maria de Oliva, ajoelhada a poucos passos, enxugou as lágrimas. Não era aquilo exatamente que ela planejara para sua filhinha favorita – uma vida no mundo como membro leigo de uma Ordem religiosa. Entretanto, que podia ela fazer? A menina recusava-se absolutamente a qualquer idéia de casamento. O que lhe interessava era salvar almas.

 

“Talvez ela mude de idéia daqui a algum tempo”, – disse a mãe para si, entre soluços. – Talvez depois de alguns meses ela achará muito dura a vida de terciária.

 

Mas Rosa de Santa Maria, a nova filha de S. Domingos, sentia-se mais feliz do que nunca. Por fim palmilhava a mesma senda escolhida por Santa Catarina de Sena cerca de duzentos e cinqüenta anos antes. Até D. Gonçalo estava satisfeito, à medida que os meses passaram, de que Rosa tivesse escolhido o caminho certo. Embora outros homens e mulheres fossem chamados à vida religiosa, sua vocação era para tornar-se uma santa no mundo. Jamais a instigaria ele a ser freira em qualquer dos cinco conventos de Lima.”Deus confiou a esta menina uma tarefa especial” pensou D. Gonçalo.

 

-“Ela será um modelo para todos que devem alcançar a perfeição sem o auxílio do claustro”.

 

A 10 de Agosto de 1607, Rosa voltou à capela do Rosário na igreja de S. Domingos. Terminara seu ano de prova como terciária. Quereria ela continuar aquela vida? perguntou o padre Alonso Velasquez. Queria ela fazer uma promessa de viver de acordo com as regras da Ordem dominicana, até à morte?

 

A jovem, então com 21 anos, não teve a menor dúvida quanto à sua vocação, e, como Rosa de Santa Maria, fez a necessária promessa. Tornara-se efetivamente membro da Ordem dominicana. Tempos passaram-se. Quanto às aparências exteriores Rosa parecia ter mudado muito pouco: continuava a viver sossegadamente em casa, cultivando suas flores e fazendo os finos lavores de agulha para as ricas senhoras de Lima. Uma mudança, entretanto, surgira. Pouco a pouco, recebendo devotamente a santa Eucaristia, suportando com paciência dificuldades e aflições, a filha de Gaspar estava tornando-se lentamente mais semelhante a Cristo. As vezes, quando sua mãe ralhava, que ela tomava pouco cuidado com a saúde, ela respondia gentilmente:

 

– A senhora e eu viveremos tanto tempo quanto Deus quiser, mamãe. Quando o trabalho que Ele nos deu estiver terminado então poderemos preocupar-nos com nossa saúde.

– Quem então vai pensar sobre isto? – perguntou Maria rispidamente.

-Será muito tarde!

Rosa alisou as pregas de seu lanoso hábito branco.

– Querida mamãe, a vida é, na verdade, muito simples, quando nos lembrarmos apenas que somos servas – servas de Deus e de nossos semelhantes.

– Servas! Quem está querendo ser serva? Rosa, este modo de falar é desagradável. Se for assim, um negro ou um índio vale tanto como um homem branco. E uma pessoa rica e educada não é melhor do que um ignorante mendigo! E dizer que você fala deste modo, depois de tudo que fiz por você!…

Rosa respirou.

– Mamãe, por favor, não se zangue! Eu estou só tentando ajudar um pouco. Afinal, se nós realmente acreditamos que Deus é nosso Pai e Seu Filho, nosso Irmão…

– Chega de sermão, senhorita! Desde que você é terceira, ficou piedosa de mais para mim. Só quero que se lembre disto: Não me fale mais em ser serva. Seu pai pode ser pobre, mas pertence a uma boa família. E eu também!

 

O fracasso desta e outras conversações provaram a Rosa o que ela sempre soubera, isto é, que o consolo para um coração solitário pode ser encontrado na oração. Na oração, a fraca natureza humana eleva-se em busca de Deus e com seu auxílio torna-se forte. Aflições de toda espécie, quando a Ele oferecidas em união com os sofrimentos que seu Filho padeceu na terra, transformam-se em merecimentos de incalculável valor. Este era um dos motivos de haver na terra tanta tristeza: sem dores, bem poucas almas jamais pensariam em voltar-se para Deus.

 

“Todo mundo quer ser feliz”, – pensava Rosa muitas vezes. – “Para isto fomos criados. Como é difícil, porém, lembrar-nos que só o maior dos bens – o próprio Deus – pode satisfazer-nos”. No Domingo de Ramos do ano de 1610, Rosa, então com vinte e quatro anos de idade, dirigiu-se à igreja de S. Domingos para assistir à S. Missa. A cerimônia era longa, com a bênção dos ramos e a procissão no interior do templo, antes do Santo Sacrifício. Enquanto dois irmãos leigos terminavam a distribuição das palmas bentas ao povo, o coro rompeu num hino triunfante e todos se apressaram para tomar parte na procissão. Rosa hesitou. Por um motivo ou outro ela fora esquecida na distribuição dos ramos viridentes. Somente ela, de toda gente na igreja, não recebera a palma benta.

 

“Por quê?” – pensou ela. – Dar-se-á o caso de não ser eu digna de seguir com os outros?” Afastou, entretanto, essa idéia de desapontamento. Teria sido apenas um descuido. O Irmão estivera muito atarefado para notá-la. Não haveria também motivo por que ela não se reunisse à procissão. Embora não tivesse uma palma para levar, podia lembrar-se do primeiro domingo de ramos, quando Nosso Senhor entrara em Jerusalém entre aclamações de seus jubilantes seguidores. Quando o coro terminou o cântico e a longa fila de povo voltou aos lugares, Rosa lançou um rápido olhar à capela do Rosário. Como amava aquela imagem de Nossa Senhora com o Menino! Aqui, quatro anos antes, recebera da Mãe Bem-aventurada a aprovação à sua vocação para a Ordem Terceira dominicana.

 

Naquela tarde domingueira, em que ela se vira forçada a permanecer de joelhos, uma voz falara em seu coração, e a voz lhe dissera que o trabalho de sua salvação não devia ser feito num mosteiro. Pelo contrário, havia de ficar no mundo – havia de ser uma santa no ambiente cotidiano.

 

“Querida Mãe, obrigada mais uma vez por deixar-me ser uma terciária dominicana”, – murmurou ela. – “E não estou triste porque o Irmão esqueceu-se de dar-me uma palma benta. A palma que eu na verdade desejo é uma que jamais murchará, aquela que dais aos bem-aventurados no céu”.

 

Enquanto Rosa suspirava esta pequena oração, viu maravilhada que a Mãe bendita sorria e virava-se .amorosamente para a Criança em seus braços. Ninguém mais na igreja apinhada viu o milagre, nem ouviu as palavras que o Menino então proferiu – palavras que ecoaram no coração da jovem como a mais doce música:

 

“Rosa de meu coração, sê minha esposa!”. Rosa, entretanto, viu e ouviu e seu coração encheu-se de pura alegria. Deus a abençoara novamente com outro dom maravilhoso! Na igreja que ela tanto amava Ele lhe dizia que ela estava realmente contada entre as eleitas!

“E’ demais para mim!” – murmurou. – “Não sou digna de tanto amor!”.

Sabia, contudo, que não se enganara sobre a visão. Ela, uma pobre menina do Peru, escolhida desde a eternidade para pertencer a Deus, para ser uma de suas amigas bem amadas e para sempre! Já lera a respeito de favores tais concedidos a outros, incluindo sua amada padroeira, Santa Catarina de Sena. Agora, por um milagre da graça, a honra inigualável também lhe era dada.

 

O resto do dia, Rosa não pôde pensar em outra coisa. Quando Fernando lhe observou que parecia felicíssima, ela concordou com um aceno. – E’ bem verdade, estou felicíssima. E tenho outro favor a pedir. O rapaz riu-se francamente.

– Aposto que você quer que eu a leve a algum lugar.

– Não. Desejo somente que você mande fazer um anel para mim.

– Um anel? Você quer uma jóia.

– Isto mesmo. Mas não da loja. Apenas um anel simples, desenhado por você. Fernando, você fará isso para mim? E’ de fato muito importante.

O rapaz perscrutou a fisionomia ansiosa da irmã, e compreendeu que algo fora do comum acontecera. Durante anos e anos Rosa pensara constantemente nas outras pessoas rezando por elas, ajudando-as quando estavam doentes, cuidando que o pobre tivesse todas as flores e frutos que ela podia poupar do jardim. Chegara finalmente a vez em que ela desejava alguma coisa para si.

 

– Naturalmente, eu arranjo um anel para você. Quer um de ouro ou de prata? E qual é a sua pedra preferida?

Rosa hesitou. Ambos aqueles metais eram comuns no Peru, como também diamantes e esmeraldas, que se encontravam em abundância nas minas dos Andes. Ela podia realmente possuir um lindo anel e sem muita despesa.

– Eu gostaria de um anel de ouro, Fernando, mas sem pedra alguma. Só um aro simples.

– E que tal um lema gravado? Umas poucas palavras no lado externo, e isto pode ser feito facilmente.

– Que palavras você sugere?

O moço pensou um momento:

– Que acha destas: “Rosa de meu Coração, sê minha esposa”? O coração da moça transbordou. Ela nem podia conter sua grande emoção. Sem imaginá-lo, o irmão fora divinamente inspirado a escolher -as mesmas palavras que ela ouvira na igreja, as palavras que lhe dirigira naquela manhã o próprio Menino Jesus.

– Então, o que há? Não gosta da minha idéia?

– Admirável, Fernando! Não posso imaginar nada que mais me agrade.

– Ora, viva! Teremos um anel bem simples feito especialmente para você, com aquelas palavras gravadas na face externa. Conheço também o joalheiro indicado para o trabalho – um velho amigo meu que não tem tido muitas encomendas ultimamente. Rosa sorriu agradecida.

– Ele pode fazer o anel já?

– Claro que pode. Em dois dias provavelmente. Vou vê-lo amanhã e levarei um esboço do que queremos.

 

Quando ficou novamente só, Rosa dirigiu-se a seu oratoriozinho nos fundos do jardim. Era um sitio sempre sossegado e aprazível. Só muito raramente passava alguém da família entre as bananeiras, pois havia muitas aranhas e mosquitos, diziam. Além disso o sol a custo penetrava o emaranhado da vegetação e galhadas, de modo que o lugar ficava escuro e sombrio. Rosa, no entanto, nada receava de aranhas e mosquitos. Nunca esses insetos a tinham incomodado, e pareciam antes pressurosos de demonstrar-lhe amizade. Sempre que ela recitava o rosário ou suas outras orações os mosquitos zumbiam amigavelmente. Era quase como se eles também rezassem:

 

Quanto às aranhas, interrompiam suas vagueações e tecelagem para continuá-las quando a amiguinha dava por terminada sua conversa com Deus. Rosa, entretanto, nem cogitava desses insetos quando entrou em seu oratório. Pensava antes na graça maravilhosa que lhe fora dada aquela manhã na igreja dos dominicanos. E havia, naturalmente, o anel – o lindo anel de ouro que ela usaria sempre para lembrar-se que pertencia a Nosso Senhor. Como poderia esquecer isto?

 

“E’ domingo de Ramos, – pensou. – Se meu anel estiver pronto quarta-feira, talvez o padre Alonso possa colocá-lo no sacrário na Quinta-feira Santa. Seria esplêndido”.

 

Sim, seria esplêndido. Mas extraordinário também. Com certeza teria de haver um bocado de explicações para que o confessor entendesse. “Farei o que puder”, – resolveu ela consigo. – “Nosso Senhor está escondido no Sacrário na Quinta-feira Santa, e eu quero que meu anel esteja com ele nessa ocasião. No domingo de Páscoa, quando ele volta cheio de glória, eu receberei o anel e usá-lo-ei até à morte”.

 

 

 

X. A EREMITA

 

Na manhã de 14 de Julho, poucos meses depois de Rosa ter recebido o anel de ouro, os sinos de Lima plangiam sua música fúnebre pela cidade. O santo missionário franciscano, padre Francisco Solano, morrera. Maria de Oliva murmurou uma breve oração, ao ouvir os fúnebres sons.

 

– Era melhor irmos logo ao convento dos franciscanos, Mariana. Estou certa de que haverá milagres por lá, hoje. Pegue todos os nossos rosários e medalhas. Poderemos tocar com eles o corpo do padre Francisco e guardá-los como relíquias. A índia concordou com um aceno. Tanto a ama como a serva avaliavam a perda. O padre Francisco era na verdade um santo. Anos atrás, em 1589, quando ele viera a primeira vez ao Novo Mundo, naufragara com seus companheiros nas costas da Colômbia. Durante semanas o pequeno grupo de náufragos vagueara pelas florestas litorâneas sem encontrar viva alma. Em breve alguns dos homens sucumbiram ao comer plantas venenosas, e o desespero apoderou-se do resto. Somente o padre Francisco conservou-se calmo. Insistiu com seus companheiros que permanecessem perto da costa. Outro barco, assegurou-lhes, chegaria em breve do Panamá e os levaria a salvo ao Peru.

 

– Eu me lembro quando ele finalmente chegou a Lima, – disse Mariana vagarosamente, – Ficamos tão desapontadas quando ele insistiu em deixar-nos quase imediatamente… Ah, senhora, ele já estava debilitado de tanto labutar, e no entanto não vacilou em andar mil e quatrocentas milhas, através de montanhas e selvas, para ir em missão à Argentina.

– E fez essa caminhada duas vezes, Mariana. Não esqueça isto.

 – Sim, senhora; onze anos mais tarde, quando seu duro labor entre os índios terminara. Que boa alma ele era! Bem, vou buscar os rosários e medalhas.

 

Lá fora, no jardim, entre suas amadas arvores e flores, Rosa pensava também no padre Francisco. Jamais esqueceria aquele dia de Dezembro de 1604 em que o frade, revestido do burel pardo, pregara o famoso sermão na praça do mercado. Ela tinha então dezoito anos. Agora, seis anos depois, sua memória estava ainda vívida.

 

“Ele disse ao povo que fizesse penitência. – lembrava-se. – Repetiu que Deus destruiria Lima se não cessassem de ofendê-lo. Havia, aquela noite, bastantes padres para ouvir quem quisesse confessar-se. Inimigos se reconciliavam, bens roubados eram restituídos aos donos, três mil casamentos se celebraram. Ah, querido padre Francisco, dá-me um pouco daquele zelo pelas almas, que tão sinceramente possuías!” Depois de dizer sua breve oração, Rosa encaminhou-se pela vereda que conduzia ao fundo do jardim. Aí esperava-a uma figura familiar.

– Dona Maria! Oh! não esperava vê-la esta manhã!

Dona Maria de Usátegui, esposa de D. Gonçalo, abraçou Rosa afetuosamente.

– Minha querida, eu vim de mansinho pelo portão do lado. Sua mãe ainda não sabe que eu estou aqui. Quero dizer uma palavrinha a você somente.

– As crianças não estão outra vez doentes?…

– Não, não. Estão muito bem. Rosa, meu bem, você gostaria de morar com D. Gonçalo e eu? Ser como uma filha nossa…

A moça olhou com estranheza a visita.

– Não compreendo…

– Claro que você não compreende. Mas meu marido e eu ternos certeza de que você seria mais feliz conosco. Pois que sua mãe não pode entender a espécie de vida que você deseja, e que ela não se sentiu feliz em ver você entrar na Ordem terceira de S. Domingos…

 

A jovem riu-se. Ninguém perceberia que as palavras de D. Maria feriram-na como uma faca. Era bem verdade! Maria de Oliva não perdia uma oportunidade para demonstrar sua reprovação a terciárias dominicanas.

– Mamãe ainda não compreende. Acha difícil crer que eu continue a ser a mesma, debaixo deste hábito branco.

– Exatamente. Eu e meu marido já lhe ouvimos algumas criticas. Querida amiguinha, nós temos uma casa enorme, e muitos bens deste mundo. Por que

não vem morar conosco? As crianças ficariam tão contentes!…

O resto daquele dia, e nos dias seguintes, Rosa ponderou o amável oferecimento de Dona Maria de Usátegui. Por fim decidiu recusar.

 

Embora Maria de Oliva freqüentemente achasse defeitos na vida de terciária

dominicana, com tantas orações e sacrifícios, à qual sua filha se dedicara, Rosa sabia que suas aflições podiam transformar-se em grandes méritos.

 

“Há muito tempo – pensava – ofereci-me para rezar e sofrer pelos outros. Amado Senhor, não me deixeis fugir de qualquer pena agora. Que a falta de compreensão de Mamãe sirva para unir-me mais estreitamente a vós. Que isto contribua para fazer-me santa”.

 

Passaram-se semanas, com sua incessante rotina de atividades comuns. Sempre vestida com o imaculado hábito de terceira, coberta com o véu, Rosa cuidava de suas flores e ervas, e se aplicava em suas finas costuras e bordados. Andava completamente alheia aos rumores que se espalhavam pela cidade de que ela era tão santa como aqueles grandes servos de Deus, o Arcebispo Turíbio, o padre Francisco Solano e o irmão Martim de Porres.

 

Dificilmente se passava um dia em que homens e mulheres não viessem pedir-lhe orações, consultá-la sobre um ou outro assunto, tocar sua famosa imagem do Menino Jesus, o “Pequeno Doutor” como ela dizia.

 

– Rosa é outra Santa Catarina de Sena, – dizia um ao outro.- Jejua o tempo todo. Dorme somente, duas horas por noite. Devotou-se inteiramente à salvação dos pecadores.

 

Casualmente, entretanto, algo de tudo isto chegou aos ouvidos da donzela. Foi logo procurar sua mãe com um estranho pedido. Queria permissão para ser uma eremita no jardim. Se ela se isolasse do mundo, se raramente aparecesse nas ruas, talvez o povo se esquecesse dela. Visto, porém, que o oratoriozinho que construíra quando criança, no fundo, entre as bananeiras, estava quase em ruínas, seria necessário fazer outro. E este segundo eremitério tinha de ser feito com material durável, com uma porta que se pudesse trancar.

Maria de Oliva recusou-se a ouvir qualquer sugestão. Já era bem desagradável ver sua linda filha num hábito religioso, saber que ela havia desprezado para sempre a oportunidade de ter um marido e filhos. Mas que fosse viver como eremita numa casinha de barro no fundo do jardim! – isso nunca!

 

Quatro anos se passaram. Rosa não perdeu a esperança de possuir sua casinha de adobes. Finalmente, assediada pelos rogos do padre Alonso, Dona Maria de Usátegui e D. Gonçalo, Maria de Oliva deu o sim desejado. Sim – Rosa podia enclausurar-se como um eremita, se o padre Alonso achava isso um gesto adequado. Podia recusar as visitas. Podia arruinar a saúde passando horas num cubículo úmido.

 

– Mamãe, como poderei jamais agradecer-lhe? – exclamou a jovem. – Eu o desejo há tanto tempo!

 

Maria suspirou ao contemplar sua filha então com vinte e quatro anos. Ainda era bonita, mas tão magrinha… O hábito branco não conseguia ocultar que durante anos Rosa vinha levando uma vida dificílima.

 

– As vezes não posso compreender por que você não entrou para um convento, minha filha. Que outra moça em Lima reza tanto como você? Rosa sorriu, lembrando-se daquela tarde de domingo, quando uma força misteriosa a mantivera de joelhos em frente da Virgem do Rosário.

 

– Nunca tive vocação para freira, mamãe. Peço-lhe que acredite. E por favor, reze para que eu sirva bem a Deus, como eremita.

 

– Rezarei, – disse a mãe tristemente. – Mas lembre-se disto: se não fosse porque o padre Alonso achou que era direito, eu nunca teria dado consentimento. E’… é uma vida muito esquisita para uma moça.

 

Nos dias seguintes Rosa e Fernando estiveram muito ocupados. Escolheram um local para. o eremitério, desta vez pegado à casa e batido pelo sol. Uma área de um metro e meio por um metro e vinte, foi traçada no chão e perto, à mão, amontoaram grosseiros tijolos de adobe, de cor marrom clara e leves.

 

– Fernando, que faria eu sem você? – disse a donzela, enquanto se aprestavam na construção da cela. – Você tem sido sempre tão bonzinho para mim, desde pequeninos.

 

– Ora, não é lá grande trabalho construir este quartinho, Rosa. O que me preocupa é como você vai conseguir viver numa casinha tão acanhada. Não podíamos fazê-la um bocadinho maior?

 

A jovem sacudiu a cabeça:

– Eu a quero bem pequena para não haver lugar para visitas. E só uma janelinha.

– E a porta? Como vai ser?

– Meu plano para a porta é especial. Tem de ser bem baixa, o bastante para uma pessoa passar engatinhada. Você compreende, quanto menor e menos confortável fizermos esta cela, tanto menos pessoas quererão vir ver-me.

 

O rapaz sorriu. Era verdade, sem dúvida. Quase nenhum dos conhecidos de

sua mãe, por exemplo, haviam de querer passar de joelhos, arrastando-se,

por uma portinhola.

 

– Diga-me como você a quer, e será assim, Rosa. Quero que tenha felizes recordações de mim, quando vier morar neste eremiteriozinho.

– Recordações? Você não vai embora, Fernando!?

– Vou, sim. Vou para o Chile no mês que vem.

– Negócios?

– Não. Tenciono entrar para o exército. Afinal de contas, tenho trinta anos, e é tempo de fixar-me em algum lugar.

Rosa abafou sua surpresa e desapontamento. Esse irmão querido falava a verdade. Muitos homens da idade dele já estavam casados, tinham um lar e família próprios… No entanto ela teria saudades dele…

 

– Rezarei por você todos os dias – disse ela gentilmente.

– Não importa onde você vá, minhas preces o seguirão. Tenho certeza que você gostará de viver no Chile. Você casar-se-á com uma bela moça… e terá uma linda filhinha…

– De que está você falando? – perguntou Fernando incrédulo.

– E você vai dar o meu nome à meninazinha. Ela se chamará Maria Rosa.

– Bem, – disse Fernando com uma risada cordial. Uma coisa está certa do que você diz: se eu tiver uma filha, há de se chamar como você. Quem sabe… talvez algum dia ela até visite esta ermida.

 

Rosa olhou-o sorrindo. Embora não estivesse adivinhando, seu irmão dizia a verdade. Um dia Maria Rosa viria, evidentemente, a Lima, e seria uma célebre menina.

 

Mais uns dias de trabalheira e o eremitério de adobe estava pronto. A criançada dos Flores divertiu-se um bocado engatinhando para dentro e para fora, pela portinhola, e trepando numa cadeira a fim de espiar pela janelinha que dava para o jardim. Amigos e vizinhos e até alguns padres vieram ver a casinha de adobe construida por Rosa e Fernando. Alguns chegaram a medir o

espaço ocupado, duvidando dos próprios olhos.

 

– Metro e meio de comprimento, um metro e vinte de largura, nem dois metros de altura! – exclamou assombrado o padre Velasquez. – Rosa, isto é pequeno demais!

 

– Padre, é bastante grande para Nosso Senhor e eu. Acho que serei muito feliz aqui.

 

Dona Maria de Usátegui que, entre os visitantes, também examinava o eremitério, pôs afetuosamente a mão no ombro da donzela.

 

– O convite ainda está de pé – murmurou. – Eu e meu marido ainda desejamos que você venha morar conosco. Avise-nos se mudar de idéia.

 

Rosa acenou que sim. Dom Gonçalo e Dona Maria eram tão bons amigos… Ela sabia que ambos preocupavam-se com sua saúde, com a vida árdua a que se dedicara.

 

– Não esquecerei vosso convite, – respondeu, -nem a vossa bondade. Agradeço a ambos por tudo, Dona Maria. Rosa começou a morar no eremiteriozinho, mas não abandonou sua costura, seu bordado e o cultivo de suas flores e ervas. Quando caía a noite encerrava-se no cubículo e entregava-se á oração. Aí, rodeada do silêncio e da escuridão do jardim, dava largas a seu coração em louvores e pedidos.

 

Estes atos estavam agradando a Deus, pois Ele inundou de inúmeras graças a alma da nova eremita. Aparecia-lhe freqüentemente como uma criancinha, encorajando-a a continuar em sua difícil vocação. Ensinou-lhe a nada recear enquanto depositasse n’Ele toda a confiança.

 

Nestas ocasiões Rosa pensava que morreria de pura felicidade. Que maravilha é a vida! dizia a si mesma. Qualquer alma, não importa a sua fraqueza, pode ser útil a seus semelhantes. Tudo necessário é pensar em Deus e em sua bondade. Virá, então, tal propensão de ser como Ele, de partilhar de sua verdade e beleza, que a alma não pode evitar que sua covardia se transforme em coragem, e começa a assemelhar-se a Deus. Devido a isto, arde em grande amor pelas outras almas, desejando que elas compartilhem também de sua felicidade.

 

“E’ como um mendigo que finalmente ficasse rico”, refletia Rosa.

 

Enquanto é pobre, arreceia-se das outras pessoas, tem de si próprio um baixo conceito, sabendo que não fará jamais alguma coisa de grande aos olhos do mundo. (Ama vez, porém, que enriquece, muda-se tudo. Seu corpo definhado pela fome torna-se forte. Verifica que os outros olham para ele, e encontra uma verdadeira felicidade em fazê-los participar de sua riqueza.

 

 

Numa tarde de verão, Maria de Oliva saiu à procura de sua filha. O sol estava ardente e o jardim ostentava o colorido das flores que Rosa cuidava carinhosamente. Mas o rosto da mulher ensombrava-se de aborrecimento, enquanto se encaminhava para a pequenina ermida de adobe.

 

– Rosa! Estás aí?

Não houve resposta. Maria vislumbrou alguém movendo-se entre as fruteiras, e apressou-se naquela direção. Com certeza, Rosa estava colhendo laranjas que Mariana levaria ao mercado no dia seguinte. – Rosa! Estás surda? Não me ouviste chamar-te?

A jovem descansou no chão um cesto quase cheio dos apetitosos frutos.

– Quer alguma coisa, mamãe?

– Naturalmente. Dona Isabel de Mejía veio ver-me e contou uma coisa

que me aborreceu terrivelmente.

– Sua mãe não está doente outra vez?!

– Claro que não. Eu é que estou doente. Rosa, é verdade que disseste às pessoas que vai haver um convento de freiras dominicanas em Lima? E que dona Lúcia de la Daga será a primeira prioreza?

 

Um sorriso aflorou à face da moça.

– Sim, mamãe. E ele se chamará Mosteiro de Santa Catarina, em louvor de Santa Catarina de Sena.

A voz de Maria estava áspera.

– Dona Lúcia é uma senhora casada e muito feliz, com cinco filhinhos adoráveis. Por que hás de andar espalhando esses rumores de que ela vai ser

freira?…

– Mas é verdade, mamãe. Vai haver um Mosteiro de Santa Catarina, e dona Lúcia irá para lá com sua irmã Clara. O padre Luís de Bilbao celebrará a primeira missa…

 

– Com que então, estás virando profeta, não é? Que sabes do futuro?

Estás é perdendo o senso, desde que te meteste nessa mal-aventurada ermida.

 

Rosa baixou os olhos. Como havia ela de fazer sua mãe compreender que as notícias a respeito de Santa Catarina lhe tinham sido dadas na oração?

 

Que sua amada amiga e padroeira, Santa Catarina de Sena, viera em pessoa contar-lhe do novo mosteiro?

– Sinto muito, mamãe. Não imaginei que a senhora ficasse tão aborrecida com o que eu disse a Dona Isabel.

– E não havia de ficar aborrecida? Que é que Dona Lúcia vai pensar de mim? E seu marido? Vê bem, disseste afinal de contas que o bom homem vai morrer… e os cinco filhinhos também. De outro modo, como poderia Dona Lúcia entrar para um convento?

Rosa sorriu levemente.

– Por favor, mamãe, não fique zangada. Tudo vai acontecer exatamente como eu disse.

– Chega! – exclamou Maria. – Daqui a pouco estarás contando a todo mundo que tua própria mãe vai fundar um convento. E eu não quero estas conversas. E’ bastante desagradável.

A moça olhou o anel de ouro que Fernando lhe dera havia quatro anos.

Lágrimas brilharam-lhe nos olhos.

– A senhora não vai fundar um convento, mamãe, mas entrar num, algum dia. Dona Lúcia lhe dará o hábito dominicano em Santa Catarina. A senhora será muito feliz lá, e eu prometo-lhe vir buscá-la quando a senhora estiver pronta para morrer.

XI. UM NOVO LAR

Maria estava indignada às palavras de Rosa. Ela, uma freira dominicana? Nunca! Entretanto a jovem terciária recusava ouvir os protestos de sua mãe. Um dia, quando o mosteiro de Santa Catarina fosse uma realidade, Maria de Oliva iria até lá e pediria o hábito dominicano, e lá haveria de passar seus últimos anos no serviço do Senhor. Passaram-se meses e Rosa continuava sua vida de eremita. As vezes, entretanto, confiava a alguma de suas amigas que seu desejo maior era ser mártir.

 

“Se eu fosse homem, não quereria outra coisa senão ser missionário”, confessou ela a Francisca de Montoya, uma moça de sua idade. “Imagine

quantos missionários têm ido diretamente para o céu só porque morreram às

mãos dos selvagens”.

 

Francisca sentiu um arrepio. Embora pertencesse também à Ordem terceira

de S. Domingos, sempre achara difícil a prática de mortificações, ainda as menores. Evidentemente suas visitas à Rosa afetavam-na bastante. Havia tanto mosquito no jardim de Gaspar Flores. Eles enchiam a acanhada ermida e Francisca sempre saia de lá crivada de dolorosas picadas.

– Eu nunca serei bastante corajosa para desejar a morte de mártir,

-suspirou. – Nem posso suportar as picadas destes seus mosquitos.

Rosa sorriu.

– E não obstante você ainda vem ver-me, Francisca. Como explica isto, se tem tanto medo de sofrer?

– Mas isto é diferente! Você não sabe como me sinto melhor depois de uma conversa com você. Sou tão grata que você me permita vir, Rosa, ainda que realmente você não queria aborrecer-se com visitas. Há uma coisa, porém, que me deixa maravilhada.

– O quê?

– Por que os mosquitos não picam sua mãe? Nem dona Maria de Usátegui? Ou a você?

– Porque nós prometemos nunca ofender estes pequeninos hóspedes.

– Hóspedes? E’ assim que vocês chamam esses insetos abomináveis. Rosa meneou a cabeça.

– Suponhamos que você também faça esta promessa, Francisca. Então eles não a incomodarão mais.

A visitante olhou desolada para seu braço. Lá estavam já três marcas vermelhas.

– Se eu pudesse ter um pouco de paz quando venho ver você, eu prometeria

qualquer coisa.

– Ora bem. Ofereça o sofrimento destas três picadas pelas pobres almas, em honra da Santíssima Trindade. E então faça a promessa.

Francisca não pôde deixar de rir.

– Não matarei nunca mais nenhum de seus hóspedes, – disse ela com firmeza. – Espero que eles entendam o que estou dizendo.

Rosa sorriu. Claro que as criaturinhas entendiam. Dai em diante Francisca de Montoya seria outra pessoa que poderia visitar, sem tribulações, a ermida de adobe.

A 30 de Abril de 1615, Rosa completava vinte e nove anos. Algumas semanas mais tarde ficou surpreendida ao encontrar seu jardinzinho rodeado por uma multidão excitada. Mulheres choravam; homens, maridos e filhos, estavam pálidos de medo. Chegara a notícia de que uma frota de piratas holandeses estava ancorada em frente ao porto de Calau. Este porto, a dez milhas de Lima, era então quase indefeso, e provavelmente os recém-chegados iniciariam a qualquer momento a invasão.

– Rosa, você deve rezar muito, – exclamou D. Gonçalo de Massa. –

Os holandeses querem apoderar-se de nosso ouro e prata, de nossos escravos e até de nossos filhos.

– Eles são calvinistas – acrescentou sua mulher, Dona Maria.

 -Pensam que é seu dever matar todo católico que encontrem.

O doutor João del Castilho, um dos melhores médicos de Lima,concordou:

– Primeiro, eles incendiarão as igrejas. Têm um verdadeiro ódio ao Santíssimo Sacramento, Rosa. Já cometeram terríveis ultrajes em outras cidades. Minha querida, você rezará como nunca, não é? Rosa saíra da ermida. O jardim estava repleto de gente, e o temor estampava-se em todas as faces.

 

– De certo que rezarei, – disse ela sossegada. – Mas não há motivo para alarmar-se. Os holandeses não tentarão desembarcar em Callao, nem tampouco incendiarão a cidade.

 

Em vão Dom Gonçalo descreveu os abomináveis feitos dos piratas no Panamá e outras colônias espanholas. Rosa insistia em que, durante a noite, a esquadra inimiga levantaria ferros e se afastaria de Callao. A multidão, porém, não podia crer em suas palavras, e por fim ela acedeu em rezar pela salvação de Lima, pedindo a proteção especial de Santa Maria Madalena, cuja festa ocorria no dia seguinte.

 

Toda a noite a cidade se preparou para o esperado ataque. Correios chegavam

de Callao com as últimas noticias. Ofícios especiais foram determinados às igrejas. O povo acorria ansioso aos confessionários. O acontecimento lembrava as mesmas cenas de onze anos atrás, quando, a um sermão do Padre Francisco, se tinham convertido inumeráveis pecadores. O medo e a ansiedade

enchiam todos os corações, espanhóis, negros, índios. Ninguém se lembrava de dormir aquela noite. Ao invés de ir para a cama dirigiam-se, como rebanhos, às igrejas, ou seguiam as várias procissões do Santíssimo Sacramento, que desfilavam pelas ruas sombrias.

 

Com permissão do Padre Alonso Velasquez, Rosa deixou sua ermida tranqüila, e apressou-se para São Domingos em companhia de algumas amigas. Seu coração oscilava entre dois desejos. Se aos holandeses fosse permitido saquear a cidade, ela poderia ter oportunidade de morrer mártir. Já que isto lhe era negado, milhares de vidas seriam salvas.

 

A custo conseguiu um lugar na capela de S. Jerônimo na igreja dominicana, e aí ajoelhou-se, sorrindo ao pensamento de alcançar a. coroa do martírio e ir diretamente para o céu. Se os holandeses viessem, ela, certamente, não faria o menor esforço para esconder-se. Empunhando o rosário, daria a vida em defesa do Santíssimo Sacramento. Quando surgiu a cinzenta madrugada, a cena era bem diferente daquela da noite anterior. O povo cantava nas ruas, fora-se a ansiedade e o temor de algumas horas antes. A última mensagem de Callao anunciava que durante a noite os navios holandeses tinham levantado a âncora, e estavam fora de vista.

 

– E’ um milagre! – disse a seu esposo dona Maria de Usátegui. – Estou certa que nossa Rosa é responsável. Dom Gonçalo, não acha também que ela possa ter oferecido sua vida a fim de poupar Lima à destruição?

 

Dom Gonçalo concordou.

– Não me surpreenderia, – disse ele. – Ela tem mais coragem e caridade que qualquer outra moça que eu conheço.

 

Outros havia que partilhavam a mesma opinião. Naquele momento, como acompanhamento ao repicar festivo dos sinos, vibrava pelo ar um só grito:

 

“As orações de Rosa Flores nos salvaram da desgraça!”.

Em companhia de sua mãe e das amigas, Rosa seguiu vagarosamente para casa. Sentia-se cansada e um tanto confusa. Por que havia o povo de pensar que suas preces fossem tão poderosas. Não compreendiam que sua salvação era devida apenas à misericórdia de Deus? Ela, Rosa Flores, era menos que pó, e indigna de qualquer honra.

 

“Alegro-me, porém, que tenhais salvado a cidade, Senhor!” – pensou ela. – “E não estou muito triste porque não me concedestes o martírio. Afinal de contas, dais a cada um urna espécie de martírio neste mundo. E’ bastante uma sorte comum, sem espadas, sem balas, sem fogo – nada mais que nossas pequenas aflições e contrariedades. Se as suportarmos alegremente, podemos agradar-vos como os santos mártires”.

 

Foi poucos dias depois que o padre Alonso Velasquez veio ao eremitério de sua jovem amiga. Trazia algumas notícias muito especiais. Rosa estava para deixar a casa de seus pais ” e ir morar com Dom Gonçalo e sua esposa. Dona Maria fora vê-lo recentemente e assegurara-lhe que a saúde de Rosa estava declinando, que a vida de eremita era excessivamente dura para ela.

 

– Você tem sorte que Dona Maria e Dom Gonçalo pensem tanto em você, – disse o padre Alonso. – São gente muito rica e seu único desejo é ver você forte e bem. Terá um esplêndido lar em casa deles. Rosa não pôde ocultar sua perturbação.

 

– Mas como posso deixar minha própria família, padre? – Meus pais já não são jovens. Eles precisam de mim.

O sacerdote sorriu.

– Você sabe o que é obediência, Rosa? E’ meu desejo que você acabe com essa vida de dureza. Eu quero que vá para a casa dos Massas e tente recuperar a saúde.

Rosa permaneceu silenciosa. Como membro da família dominicana devia obediência a seus superiores. Se o padre Alonso achava melhor para ela viver em outra parte, não competia a ela escolher e sim fazer o que lhe era ordenado.

– Irei, – respondeu. – Mas não estou realmente doente, padre. Nosso Senhor deu-me ainda dois anos mais para servi-lo.

 

– Você viverá mais do que isto, minha filha, se tomar cuidado consigo. De agora em diante vai pensar mais em sua saúde.Assim Rosa foi morar com Dom Gonçalo e Dona Maria. Desde o começo ela declarou aos dois bondosos amigos que desejava apenas um simples quartinho e que era seu desejo ser útil, cuidando das crianças.

 

Micaela e Beatriz, as filhas mais velhas do casal, esforçaram-se para que a hóspede se sentisse como hóspede de honra, e que não era necessário ocupar-se em trabalho algum em seu novo lar. Pouco conseguiram, entretanto. Havia muito que Rosa se, apaixonara pela humildade.

 

– Ela é na verdade uma santa – disse Micaela à sua irmã. – Não me surpreenderia vê-la canonizada logo após a morte.

 – Somos realmente felizes em tê-la aqui conosco, observou Beatriz.

-Algum dia esta nossa casa será famosa. Virá gente de todo o mundo só para ver o quartinho em que Rosa viveu.

 

Dona Maria concordou.

– Não se passa um dia sem que eu agradeça a Deus por permitir que ela entrasse em nossa intimidade. Contudo, ela me preocupa um pouco…

– Porque ela diz que vai morrer daqui a dois anos? No dia de S. Bartolomeu?…

– Exatamente. Ela terá então trinta e um anos. E’ muito cedo para que ela nos deixe.

D. Gonçalo animou a esposa:

– Com boa alimentação e bastante repouso, o caso será diferente, Maria. Olhe o seu pai. Tem noventa e três anos. Se Rosa puxar a ele, ficará conosco ainda muito, muito tempo..

Assim escoaram-se o dias. Rosa tinha saudades de sua celazinha no umbroso jardim, mas andava sempre ocupada. Durante anos tinha-se apurado em trabalhos de agulha, e no solar dos Massa continuou essa atividade, fazendo roupas para as crianças pequenas e toalhas para os altares de várias igrejas. De vez em quando entretinha a família e os servos, tocando harpa, citara, ou guitarra. Sua voz bem timbrada, doce e clara, deixava todos enlevados.

 

O padre Alonso insistira em que ela não se cansasse com excessos de orações e sacrifícios demasiados, de modo que Rosa levava agora uma vida mais aliviada. Nunca esqueceu, porém, que se dedicara à salvação de almas. Nem uma hora se passava, que não oferecesse uma curta oração pelos pecadores. Uma de suas favoritas era o inicio do Salmo 69: “Vinde, Senhor, em meu auxílio, apressai-vos em socorrer-me”. Numerosas eram também as jaculatórias que proferia, pois tomavam pouco tempo para dizer e eram ricas de indulgências.

 

A maior, entretanto, era o Santo Sacrifício da Missa – a mais importante oração. Quando era uma eremita no jardim de seu pai, recebera uma graça maravilhosa: tivera o privilégio de assistir em espírito, através da janelinha de sua cela, a todas as missas celebras nas igrejas de Lima.

 

Transformada em membro da família de Dom Gonçalo, a preciosa graça continuava, e a jovem terceira dominicana sempre aplicava o mérito daquelas missas ao bem do próximo. Às vezes Dona Maria olhava sua hóspede um tanto assombrada. Era uma grande honra ter Rosa morando em sua casa, mas, também, um pouco amedrontador. A moça fazia milagres tão abertamente, conversava com os santos e os anjos, e as pessoas acorriam constantemente à porta, pedindo orações e anunciando curas de várias espécies, e esses clientes não eram só pobres e ignorantes. Havia entre eles, por exemplo, nada menos que o Prior do convento dominicano de Santa Maria Madalena, o padre Bartolomeu Martinez. Este santo sacerdote insistia em que fora curado de grave moléstia porque Rosa oferecera algumas preces por ele a S. Domingos. Havia também o caso de Maria Eufêmia de Pareja e seu filho Roderico. Embora a mãe tivesse sempre desejado que seu filho fosse padre jesuíta, Roderico mostrara pouca inclinação para a vida religiosa. A medida que o tempo passava, Maria Eufêmia se convencia tristemente da verdade: o que interessava ao rapaz eram os prazeres do mundo. Finalmente, ela foi ter com Rosa. Indubitavelmente, se a santa jovem rezasse nessa intenção, Roderico receberia a graça da vocação religiosa.

 

“E foi o que aconteceu – rememorava Dona Maria. – De uma hora para outra o rapaz reformou-se, e decidiu ser padre, se bem que na Ordem Franciscana, e não na Companhia de Jesus. Hoje, é o orgulho de sua mãe. Creio que nunca deixará de ser grata pelas orações de Rosa”.

 

Decorriam os meses e Dona Maria observava de perto sua querida hóspede. A jovem apresentava boa aparência, mas havia nela qualquer coisa que preocupava a dona da casa. Estava-se então no ano de 1617. Seria certo que Deus a chamaria em breve para o Céu?

 

“Não posso suportar a idéia de perdê-la”, pensava a boa mulher. “Ela tornou-se como filha para mim”. Rosa entristeceu-se ao pesar da sua mãe adotiva. Numa manhã de Abril aproximou-se dela humildemente:

– Dona Maria, quando eu estiver para morrer, serei atormentada por uma sede horrível. Quer dar-me água, então, quando eu a pedir?

A velha senhora tremeu num arrepio.

– Naturalmente, minha filha. Mas não falemos de morrer. Você está gozando muito mais saúde aqui, ultimamente.

Rosa sorriu.

– Há mais uma coisa. Eu desejo que somente a senhora e minha mãe preparem meu corpo para a sepultura.

Dona Maria fitou-a estarrecida e logo desatou em pranto. A festa de S. Bartolomeu estava tão perto… Quatro meses apenas…

– Não diga tal coisa, – implorou. – A vida não será a mesma se você nos deixar, Rosa.

Os receios da boa senhora começaram, entretanto, a desvanecer-se com a chegada do verão. Rosa estava a personificação da saúde. Até o padre Alonso concordou em que ela parecia muito bem.

– Eu a devia ter mandado para cá há muito tempo, disse a Dona Maria.

– A vida que ela levava em casa era por demais penosa. Dona Maria meneou a cabeça, confirmando.

– O sr. tem razão, padre Alonso. A criada dos Flores, Mariana, esteve aqui há dias. O que não me contou ela dos sacrifícios e orações de Rosa! Ainda não compreendo como alguém possa fazer tanto. O sacerdote sorriu.

– Tem sido assim anos e anos, Dona Maria; desde que Rosa tinha onze anos e viu com seus próprios olhos o paganismo que reina entre os índios andinos. Nessa ocasião ela ouviu o arcebispo Turibio profetizar que Quivi seria destruída. Bem sei o que aquelas palavras significaram para ela. E depois, vieram o terremoto e as enchentes de 1601 e ela jamais esqueceu as centenas de pessoas que pereceram miseravelmente em Quivi como castigo pela zombaria ao Arcebispo e à fé que ele tentou levar-lhes. Desde então toda a vida ela tem dedicado à salvação das almas por meio de orações e sofrimentos.

 

Aconselhada pelo sacerdote dominicano a não se preocupar quanto à profecia de Rosa sobre a morte próxima, Dona Maria e toda a família respiraram mais aliviados. E quando, em fins de Julho, Rosa pediu permissão para visitar sua ermitagem no jardim, não acharam nada de extraordinário nisto.

 

Durante a noite de primeiro de Agosto, porém, toda a casa despertou sobressaltada pelos gritos dolorosos que vinham de seu quarto. Dona Maria precipitou-se e foi encontrar sua hóspede atacada de doença mortal. Mal podia respirar e todo o corpo estava paralisado.

 

Imediatamente a aflita mulher mandou chamar o doutor João del Castillo e vários sacerdotes conhecidos de Rosa. Dom Gonçalo tentou consolar a esposa, mas ela agarrou-se-lhe aos braços desnorteada.

 

– Ela vai morrer, Gonçalo, e nada há que possamos fazer por ela! O tesoureiro da cidade de Lima, cuja fortuna e alta posição davam-lhe importância e notoriedade em todo o Peru, mal podia controlar sua própria aflição. Naqueles dois últimos anos, desde que viera morar com eles, Rosa parecia tão bem disposta e feliz. Vinha, agora, de súbito, esta calamidade, este espetáculo aflitivo, de uma mulher tão jovem, tão bela, a deixar este mundo tão precocemente.

 

– Ela descansará melhor, agora que o padre João de Lorenzana a ungiu, -pensou ele. – Quem sabe, se cuidarmos dela com toda a solicitude… Rosa, porém, apenas sorriu levemente ao ver os inúmeros remédios que traziam no afã de salvar-lhe a vida.

 

Um dia úmido de Agosto sucedeu ao outro, e ela continuava repetindo que o dia de S. Bartolomeu seria o último para ela na terra. Os mortais sofrimentos que lhe afligiam o corpo não podiam ser mitigados. Eram parte do pagamento ainda requerido para salvar do inferno certas almas. Foi na véspera da festa do Apóstolo que ela estendeu a mão enfraquecida.

 – Posso ver meus pais, Dona Maria? Eu queria dizer-lhes adeus. E quero pedir perdão a todos desta casa, por qualquer dificuldade que eu tenha causado.

A senhora acedeu pressurosamente. Maria de Oliva já lá estava, e os criados foram enviados com uma cadeira confortável a fim de trazerem o velho Gaspar Flores então com noventa e cinco anos.

 

Pelo dia em fora, toda sorte de visitantes desfilaram para dentro e para fora do quartinho de Rosa – homens e mulheres de quem fora tão amiga, outros médicos chamados na esperança de que a pudessem ajudar, sacerdotes das várias Ordens religiosas, todos impelidos pelo desejo de contemplar aquela jovem cuja fama de santa enchera toda a cidade. Somente Dona Maria de Usátegui, o rosto banhado em pranto, recusava-se a abandonar-lhe a cabeceira. Rosa começou a pedir água, porém os médicos disseram que ela não podia beber.

 

– Mas eu prometi! Eu prometi! – exclamava Dona Maria, lembrando-se daquele dia de Abril em que Rosa profetizara que havia de sofrer sede.

-Não posso faltar à minha promessa!

– Chiu!, – murmurou Dom Gonçalo. – Água pode fazê-la sofrer mais!

Quando se aproximava a meia noite, Rosa lançou um olhar às pessoas ajoelhadas no quarto. O palor mortal de seu rosto desaparecera e assumira um

aspecto mais belo que nunca.

 

– Por favor, não fiquem tristes porque vou deixa-los, murmurou.

 -Este é realmente um dia de felicidade!

– Rosa, minha querida, por que não me esforcei mais por compreender você? Perdoa-me, filha, a minha cegueira…

De um canto do quarto veio o murmúrio das vozes de Dom Gonçalo, sua mulher e das crianças que rezavam as orações pelos moribundos. Perto da porta aglomerava-se um grupo de negros, em cujas faces tisnadas rebrilhavam

as lágrimas. Rosa sorriu ainda uma vez a seus amigos; em seguida baixou os olhos para o crucifixo que o padre Alonso lhe dera.

– Jesus, ficai comigo…, – disse baixinho.

Rapidamente, Maria de Oliva levantou-se e agarrou uma vela acesa. Por alguns instantes permaneceu contemplando a frágil figura estirada no leito, e então falou, e sua voz era surpreendentemente calma:

– Está… está tudo terminado.

Todos se precipitaram para frente, e como a sinal dado, ecoaram de longe os sons dos sinos através da tranqüila escuridão. Meia-noite! A festa de S. Bartolomeu! E em cada convento de Lima, padres e freiras iniciavam o novo dia, cantando as orações litúrgicas em honra do Apóstolo.

Maria virou-se para seus companheiros. Havia um estranho olhar de contentamento em seu rosto cansado.

– Minha filhinha foi para o Céu! – disse tranqüilamente.

 

XII. O ORGULHO DO PERU

 

A madrugada veio encontrar as ruas de Lima repletas de gente que se apressava para a casa de Dom Gonçalo. A notícia da morte de Rosa espalhara-se como um incêndio e havia uma corrida ansiosa para conseguir relíquias. Entre os primeiros a chegar estava Alfonsa Serrano, íntima amiga da morta.

 

– Ontem à noite Rosa apareceu-me – declarou ela excitada. – Eu estava profundamente adormecida. De repente, pouco depois da meia noite, uma luz brilhante iluminou meu quarto. E no meio da luz vi Rosa, vestida como terceira dominicana, e brilhando como o sol. Ela disse-me que acabava de entrar no Paraíso.

 

O padre Alonso Velasquez, juntamente com outros visitantes, ouviu interessado o que Alfonsa contava. A moça fora uma das mais íntimas amigas de Rosa, e tinham feito uma combinação anos antes: aquela que morresse primeiro apareceria à outra, a fim de encorajá-la a continuar a vida de orações e boas obras.

 

– Parece que Rosa cumpriu a palavra, – disse sorrindo o padre. – Ela falecera poucos minutos antes de contar-lhe a respeito das belezas do Céu. Do mesmo modo apareceu também a várias outras pessoas, entre as quais, o doutor João del Castillo.

 

A manhã toda foi uma peregrinação em fila ao quartinho em que Rosa falecera, e, o que é mais estranho, ninguém se sentia triste. A visita da jovem morta, seu rosto mais belo do que jamais o tinham visto, enchia todos de alegria. Pairava no ar um estranho perfume, como de rosas e lírios recentemente colhidos, e que se sentia em toda a casa, mas especialmente junto do corpo.

 

– Não compreendo – disse Maria de Oliva ao padre Alonso. – Não vem, com certeza, daquela simples grinalda de flores que lhe pusemos sobre a cabeça!

– E’ um milagre, senhora – replicou o sacerdote. – E’ este o modo que Deus está escolhendo para patentear-nos a santidade de Rosa. A medida que os homens passavam e a casa se apinhava de gente, Dona Maria era assediada de pedidos para que mostrasse o que pertencera à querida morta. Atendendo, pôs à vista dos visitantes a estatueta milagrosa do Menino Jesus, “O Doutorzinho”, juntamente com o rosário, alguns quadros de santos e outros objetos. Havia também uma carta que Rosa escrevera a Dona Maria alguns anos atrás. Estava assinada “Rosa de Santa Maria”, o nome tão querido à filha de Gaspar, e que ela tomara no dia em que se tornara terceira dominicana.

Ao olhar a carta, Maria de Oliva lembrava-se daquela noite em que encontrara sua filha desfalecendo de fome na celazinha do jardim. No momento quis mandar Mariana ao armazém próximo comprar chocolate e açúcar com que fazer uma bebida reconfortante, mas Rosa pediu que não o fizesse. Em poucos minutos, afirmava, uma criada da casa dos Massa chegaria com o chocolate quente, já preparado, pois ela pedira ao seu Anjo da guarda que avisasse Dona Maria do súbito ataque de fraqueza que a acometera. “E assim aconteceu”, pensava a mãe. “Daí a pouco, àquela hora da noite, bateram ao portão do jardim. Quando fui abri-lo, lá encontrei a criada com um bule de prata cheio de delicioso chocolate. No dia seguinte ela escreveu esta carta a Dona Maria, agradecendo a gentileza”.

 

Finalmente D. Gonçalo pediu permissão para falar.

– Eu sempre soube que Rosa era uma santa, padre João, Agora quer ter a bondade de olhar isto?

O sacerdote virou-se para pegar o papel que D. Gonçalo lhe apresentava. Era um documento assinado por Rosa no leito de morte, pedindo aos padres de S. Domingos que lhe concedessem uma esmola: ser enterrada dentro do claustro

do seu convento.

– Estou certo que todas as Ordens religiosas em Lima desejariam possuir este santo corpo – apressou-se em explicar D. Gonçalo. – A fim de evitar dificuldades, eu disse a Rosa que seria um ato de humildade pedir ela a seus superiores na Ordem dominicana que lhe concedessem uma sepultura.

 

O padre João de Lorenzana examinou cuidadosamente o papel. Não havia dúvida quanto à autenticidade da assinatura de Rosa. – São quase quatro horas, – disse ele. – Acho que seria melhor levar o corpo agora para S. Domingos. Há muita gente aglomerada aqui. Na igreja haveria mais espaço.

 

Assim, pela última vez, Rosa foi acompanhada pelas ruas de Lima. A multidão era tal, e tão ansiosa por obter relíquias, que os soldados do Vice-rei, que tinham estado de guarda à casa dos Massa, tiveram que abrir caminho para a procissão. Em toda parte – dos balcões, das janelas, do limiar das portas – homens, mulheres, tentavam uma última vista à santa filha de Gaspar. O ar ressoava de exclamações pedindo a bênção da jovem lá do seu lugar no Paraíso. Nem causou a menor estranheza que os seis homens que carregavam o esquife fossem membros da “Audiência”, esse importantíssimo grupo de homens que assistiam o Vice-Rei no governo.

 

Sabiam que nada era bom demais para “La Rosita”, a Rosinha de todos, que se tornara o orgulho não só de Lima mas de todo o Peru. Lentamente foi a procissão coleando pelas ruas em direção à igreja dos dominicanos. Desaparecera a distinção usual de classes e raças. Nobres espanhóis marchavam lado a lado com mendigos índios. Escravos negros acotovelavam ilustrados professores. Realmente, tão densa era a multidão que Bartolomeu Lobo Guerrero, sucessor de Turíbio como Arcebispo de Lima, vira-se impossibilitado de chegar à casa de D. Gonçalo para presidir a procissão. A carruagem teve de fazer uma volta e ele foi esperar o corpo na igreja.

 

Aí foram colocados os santos despojos, numa elevada plataforma perto do presbitério. Um pequeno espaço foi reservado para que os doentes pudessem aproximar-se e implorar a cura. Logo se espalhou a notícia de que o corpo estava quente e flexível, como se ainda conservasse vida. E um grito maravilhado levantou-se quando a capela do Rosário, onde Rosa tanto gostava de rezar, foi vista banhada duma luz gloriosa e sobrenatural. “Outro milagre”, pensou o padre Luís de Bilbao, confessor de Rosa durante catorze anos. “A própria Mãe de Deus presta homenagem à nossa amiguinha”.

 

Devido ao costume peruano de fazer o enterro poucas horas depois da morte, aprestaram-se os preparativos para conduzir Rosa ao claustro do convento onde já se preparara a sepultura. Tal, porém, foi o protesto do povo que ainda não conseguira uma relíquia, que o Arcebispo consentiu em protelar o funeral. Seria realizado no dia seguinte, disse ele. Entretanto, o corpo permaneceria onde estava, de modo que todos pudessem venerá-lo com a devida devoção. Ficaria em exposição toda a noite na capela do noviciado.

 

Os planos do Arcebispo sofreriam, porém, uma mudança. Quando veio a madrugada, e o corpo voltou à igreja pública, o povo de Lima recusou separar-se de Rosa. Tão alto foi o coro de lacrimosas orações que os celebrantes do funeral mal se podiam ouvir. O Bispo de Guatemala, D. Pedro de Valência; nem podia crer no que via. Como se poderia realizar as cerimônias se continuasse aquele borborinho?

 

Finalmente veio outra ordem: o funeral seria adiado por mais vinte e quatro horas. A esta boa nova uma onda de alívio percorreu a multidão reunida na igreja. O povo gritava de júbilo. Havia agora uma oportunidade de conseguir um pedaço do branco hábito de lã que revestia o corpo da querida morta, ou mesmo uma das belas rosas que lhe rodeavam a fronte. Com o perpassar das horas, a excitação atingia o máximo. Todo mundo sabia que vários inválidos tinham ficado curados ao tocar o santo corpo. Um deles, um rapaz negro de dom anos, estava especialmente em foco. Nascera com os pés tão aleijados que nunca lhe fora possível andar. O mais que podia era arrastar-se sobre os joelhos. Impelido por sua grande fé no poder da intercessão de Rosa junto de Deus, tentara uma vez e outra alcançar o elevado estrado em que jazia o corpo, e insinuara-se em baixo, atrás das dobras do negro estofo de veludo ricamente decorado. Nem rogos nem ameaças conseguiram afastá-lo de seu refúgio. Por fim, “La Rosita”, ouviu-lhe as preces. Concedeu-lhe o uso normal dos pés, de modo que ele podia andar, correr, saltar como os outros meninos de sua idade.

 

– Olha o garoto agora! – dizia Dom Gonçalo à esposa. – Já viste tanta alegria no rosto de uma criança? Vê, está positivamente radiante. Está até ajudando outras pessoas a chegarem perto do corpo. Dona Maria concordou. Ela nunca duvidara que Rosa era uma santa. Agora, todo mundo concordava com ela, e no intimo de seu coração cantou um comovido Te Deum.

 

Entretanto o Arcebispo Bartolomeu Lobo Guerrero afligia-se, pois as horas passavam. Procurou, por fim, o prior de S. Domingos.

– Quantas vezes já vestiu novo hábito no corpo? perguntou. – Quatro ou cinco?

– Seis vezes, excelência. Tem havido incontáveis pedidos de pedaços do hábito como relíquia. Muita gente traz até tesouras escondidas na manga e nem os soldados do Vice-rei conseguem impedi-las de se aproximarem do corpo.

XIII. HEROÍNAS DE PRETO E BRANCO

Nos meses seguintes à sua morte, a fama de Rosa Flores espalhou-se por toda a América do Sul. Dia após dia, centenas de pessoas vinham a S. Domingos perdir-lhe orações. Visto terem os santos restos sido sepultados dentro do claustro solene do convento, mulher alguma tinha permissão de entrar para rezar à beira da sepultura. Afinal, incapaz de recusar os pedidos dos amigos da santa, o Arcebispo consentiu que o corpo fosse removido para a igreja pública. Nesta cerimônia, realizada a 19 de Março de 1619, cerca de dezenove anos depois da morte de Rosa, os restos mortais foram colocados numa urna dourada e depositados em um nicho próximo ao altar-mor.

 

O novo sítio, porém, tinha muitos inconvenientes. O povo ia e vinha continuamente pelo santuário, mesmo durante o santo Sacrifício da Missa. Por fim, as relíquias foram outra vez removidas, para a capela de Santa Catarina de Sena uma capelinha do lado da epístola do altar-mor. Os anos passaram e Maria de Oliva considerava com admiração a mudança que se operava em sua posição social… Tornara-se uma pessoa importante; raro era o dia em que não viesse alguém tributar-lhe honra, congratular-se com ela pelo fato de ser a mãe de uma santa. Muitos até deixavam consideráveis esmolas em agradecimento por algum favor alcançado pela intercessão de Rosa.

 

No entanto, não se tornou soberba. Seu caráter sofrera uma reforma notável desde a morte de Rosa, e era difícil crer que fosse a mesma pessoa que certa vez ridicularizara a Regra da Ordem terceira dominicana, e se deixara dominar pela raiva quando lhe fora dito que terminaria seus dias usando o hábito da família de S. Domingos.

“Deus me perdoe meus inumeráveis pecados” – pensava ela muitas vezes.

“Querida Rosa, roga por tua pobre mãe”.

A 10 de Fevereiro de 1624, a população de Lima afluiu para assistir à dedicação de um novo convento de mulheres o sexto a ser construído na cidade. Era o mosteiro de Santa Catarina, anunciado por Rosa quando ainda vivia como eremita no jardim de seu pai. Era o primeiro convento de freiras dominicanas a ser fundado em Lima, e as lágrimas corriam livremente pelas faces de Maria, enquanto assistia à Missa oferecida na nova capela. Sua filha bem-aventurada tinha razão. O padre Luís de Bilbao estava celebrando a primeira missa, e daí a alguns minutos Dona Lúcia de la Daga, cujo marido e cinco filhos tinham morrido alguns anos antes, acompanhada de sua jovem irmã Clara, ajoelhar-se-ia para receber o hábito dominicano.

 

Quatro anos depois, o mosteiro de Santa Catarina abrigava cento e quarenta e cinco freiras, número que em breve elevou-se a trezentos. Muitos padres explicavam o grande número de vocações, dizendo que aquelas que já viviam dentro dos muros de Santa Catarina, acreditavam que Rosa Flores estava entre elas. Sentiam que ela as ajudava com suas orações, que as tornaria santas. Que admiração que o convento florescesse? Não era só Santa Catarina de Sena a amiga especial e protetora; Rosa também cuidava do bem-estar da casa.

 

Urna tarde, logo depois das vésperas cantadas pelas irmãs de Santa Catarina, uma jovem irmã leiga procurou a prioreza, outrora Dona Lúcia de la Daga, agora Madre Lúcia da Santíssima Trindade. A jovem religiosa tinha um ar aflito.

– A irmã Maria está pior, Madre. Está chamando pela senhora a tarde toda.

A prioreza olhou-a surpreendida.

– Mas ela estava muito melhor esta manhã, irmã. O doutor João de Tejada mo afirmou.

A irmã leiga suspirou.

– Ela já passou dos setenta, Madre, e não é muito forte. Acho melhor a senhora vir já.

 

Assim Madre Lúcia encaminhou-se para a pequena cela onde a velha irmã jazia doente. Famosa em todo o Peru como mãe de Rosa Flores, a irmã Maria de Santa Maria era freira em Santa Catarina desde 1629. Mas fazia apenas quatro anos, e certamente a boa senhora não ia morrer ainda. A irmã Maria, entretanto, pensava de outro modo. Quando a porta se abriu e a prioreza se dirigiu rapidamente para seu lado, ela ergueu-se fracamente sobre um braço:

– Querida Madre Lúcia, Rosa disse-me que viria buscar-me quando eu morresse. Acho que será hoje à noite. A prioreza tateou nervosamente seu rosário. A irmã leiga tinha razão; a irmã Maria piorara desde a manhã. Seu rosto enrugado estava pálido e a respiração ofegante.

– Mas, querida irmã, não deve dizer tal coisa. Por que não pedir a Rosa que a cure? Ela já a ajudou antes tantas vezes.

– A cura? Para que havia eu de desejá-la? Estou velha, e pouco útil aos outros. Meu marido está morto, meu filho Fernando, minha Rosinha

 – ah! só quero ir para o céu, ser feliz com esses meus queridos!

 

Houve silêncio no quartinho, enquanto a doente reclinava novamente no travesseiro. Madre Lúcia contemplou-lhe as feições cansadas e mil lembranças lhe tumultuaram na memória. Os muros de Santa Catarina pareciam desfazer-se e ela voltava a ser uma jovem mulher, a esposa feliz de Antônio Perez de Monteja. Subitamente uma voz de menina ecoou-lhe aos ouvidos:

 

“Tudo isto passará, Dona Lúcia. Vosso esposo e filhos morrerão. Fundareis o mosteiro de Santa Catarina com vossa enorme fortuna. Minha própria mãe buscará e receberá de vossas mãos o hábito dominicano”. Como, então, estas palavras lhe pareceram impossíveis, naquele tempo distante em 1614. No entanto, tudo aquilo que Rosa havia predito era agora realidade. Antônio estava morto, bem como seus quatro filhos e sua filha. Gaspar Flores fora chamado para o descanso eterno e no mosteiro de Santa Catarina louvava-se a Deus, dia e noite.

De repente a enferma abriu os olhos.

– Rosa… Rosa… Onde estás?

Madre Lúcia estendeu a mão confortadora.

– Está tudo bem, minha querida. Rosa está no Céu. Não se lembra?

Ela vai ser canonizada pelo Santo Padre.

A irmã Maria meneou a cabeça.

– Eu me refiro à minha neta, Madre Lúcia. Podia eu ver Maria Rosa outra vez? Ela… ela me faz lembrar tanto a minha Rosinha…

A prioreza acenou afirmativamente.

– Claro que pode ver Maria Rosa. E chamarei também as outras, se quiser.

– Para rezar um pouco? Ah, sim, eu gostaria. Daí a pouco as irmãs estavam reunidas. A maioria ajoelhou-se no corredor, do lado de fora do quarto da irmã Maria, enquanto algumas rodearam o leito da moribunda. Todas, exceto uma, traziam o hábito branco da Ordem dominicana. Era uma menina de quinze anos, trajada com um simples

 

vestido preto. Era Maria Rosa Flores, cujo pai, Fernando, falecera quando ela era ainda pequena. Ao morrer-lhe a mãe, D. Francisco Lasso de la Vega, governador do Chile, enviara-a à sua avó, e, quando esta entrara para o convento de Santa Catarina, acompanhara-a.

 

A prioresa contemplou-a afetuosamente, quando ela entrou no quarto. Era uma linda menina, o retrato de sua santa tia, apenas com uma ligeira diferença, uma interessante marca de nascença em uma das faces  – uma minúscula rosa vermelha, o que sempre despertara grande curiosidade. Era como se Rosa Flores tivesse assinalado a filha de seu irmão preferido, um sinal que indicava ser a pequena sobrinha uma alma já escolhida de Deus.

– Entre, minha querida. A irmã Maria deseja falar-lhe. Maria Rosa dirigiu-se vagarosamente para o leito, com os olhos abertos de súbito receio.

– A senhora não vai morrer, vovó!? Não vai deixar-me sozinha. . .A irmã Maria sorriu à expressão ansiosa da menina.

– Acho que sim, meu bem. Mas não se preocupe. Estas boas religiosas cuidarão de você.

Maria Rosa caiu de joelhos. Não devia chorar. A vovó ia para o Céu.

Não sabiam todos em Lima que Rosa a guiaria diretamente ao trono de Deus?

– A senhora… a senhora não se esquecerá de mim?

– Esquecer você? Claro que não.

– Mas a senhora não podia viver um pouco mais, vovó? Não podia esperar até me ver vestida com o hábito dominicano?

A moribunda sorriu.

– Não, filhinha. Eu assistirei à feliz cerimônia lá do Céu. Ah!

não imagina que sorte a sua de ter, tão jovem, compreendido o valor de uma vocação religiosa. Sabe o que esta velha tola disse quando Rosa lhe anunciou que morreria como dominicana?

A mocinha acenou que sim, pois ouvira a história muitas vezes. Maria de Oliva afirmara que entraria num convento só depois de ter visto um elefante voar.

– Sim, vovó, eu me lembro. Mas a senhora não deve fatigar-se.

Experimente dormir um pouco. A senhora deu um profundo suspiro.

– Você tem razão, criança. Estou fatigada. Mas não vá embora. Fique aqui a meu lado.

Maria Rosa pôs a mão sobre a mão da avó, e por algum tempo reinou profundo silêncio. Subitamente a irmã Maria fez um esforço para falar. A superiora deu logo um passo para a frente…

– Que é, minha querida irmã?

– Peça às outras que comecem a rezar, sim? Eu . . . eu não tenho

mais muito tempo de vida.

A fundadora do convento de Santa Catarina saiu na ponta dos pés e da porta toda aberta deu um sinal. Imediatamente as religiosas no corredor e dentro do quarto começaram a cantar o “Salve Regina”, o velho cântico entoado pelos dominicanos sempre que um confrade está morrendo. Assim que a doce melodia vibrou pelo ar, uma campainha tilintou à distância. Pela última vez o capelão trazia o Sagrado Viático à mãe de Rosa Flores. A irmã Maria sorriu. Seus olhos, nos quais fulgia um brilho diferente, estavam fixos em alguma distante visão.

– Espere Rosa, – murmurou – ainda não.

Madre Lúcia reprimiu as lágrimas. Sentia-se, de repente, estranhamente feliz. Pairava no ar uma doce fragrância, aquele mesmo perfume que enchia a igreja de S. Domingos quando o corpo de uma santa descansava entre os altos e fúnebres círios. E embora não pudesse contemplar a visão, da qual gozava a velha irmã no limiar da morte, a prioresa não tinha a menor dúvida: uma santa viera cumprir uma santa promessa.

Fonte:MARY FABYAN WINDEATT. SANTA ROSA DE LIMA. 1586 – 1617.O ANJO DOS ANDES

 

HOMILIA DO PAPA JOÃO PAULO II
NO ENCONTRO COM OS FIÉIS
DA PARÓQUIA ROMANA
 DE SÃO JOÃO NEPOMUCENO NEUMANN

15 de Dezembro de 2002

1.  “Irmãos,  andai  sempre  alegres” (1 Ts 5, 16). Este convite do apóstolo Paulo aos fiéis de Tessalónica, há pouco ouvido na nossa assembleia, exprime bem o clima da liturgia de hoje. De facto, hoje é o terceiro domingo do Advento, chamado tradicionalmente domingo “Gaudete“, da palavra latina com que começa a Antífona de Entrada.

Alegrai-vos sempre no Senhor”. Perante as inumeráveis dificuldades da vida, as incertezas e o medo para o futuro, a tentação do desencorajamento e da desilusão, a Palavra de Deus volta sempre a propor-nos o “anúncio alegre” da salvação:  o Filho de Deus vem curar “as chagas dos corações despedaçados” (cf. Is 61, 1). Que esta alegria, prenúncio da alegria do Natal já próximo, possa encher o coração de cada um de nós e todos os âmbitos da nossa existência.

2. Caríssimos Irmãos e Irmãs da Paróquia de São João Nepomuceno Neumann:  sede bem-vindos! É bom encontrar-vos ao aproximarem-se as festividades natalícias. O Natal, como nós sabemos, é um festa sentida de modo particular pelas famílias e pelas crianças, e vós sois uma Paróquia composta de muitas famílias jovens.

Dirijo-vos a todos vós a minha mais cordial saudação. Saúdo o Cardeal Vigário, o Bispo Auxiliar do Sector Oeste, o vosso Pároco, Padre Danilo Bissacco e os seus Vigários, aos quais está confiado o cuidado da comunidade. Agradeço a quantos, em vosso nome, quiseram exprimir-me sentimentos de afecto e de comunhão no início da celebração. Através de vós aqui presentes, desejo fazer chegar uma palavra de sentida proximidade aos cerca de dez mil residentes no território da Paróquia.

Reunidos à volta da Eucaristia, facilmente damos conta de que a missão de cada comunidade é a de levar a mensagem do amor de Deus a todos os homens. Eis a razão por que é importante que a Eucaristia seja o coração da vida dos fiéis, como acontece hoje para a vossa Paróquia, ainda que nem todos os membros tenham podido participar pessoalmente.

3. Fundada há dois anos, a vossa comunidade não dispõe ainda de um centro de culto apropriado. Precisamente neste terceiro domingo do Advento, a diocese celebra o Dia de oração e de sensibilização para que todas as zonas da Cidade, especialmente as da periferia, tenham uma igreja com as estruturas necessárias para o desenrolar normal das actividades litúrgicas, de formação e pastorais.

Desejo que, o mais rápido possível, se possa realizar este projecto também para vós, sem, todavia, perder o estilo missionário que nestes anos tornou viva e dinâmica a vossa família paroquial.

Conheço as dificuldades com que, em cada dia, ela tem de se confrontar. A antiga Borgata Fogaccia, actualmente mais conhecida como Borgata Montespaccato, onde a Paróquia está situada, é uma zona densamente povoada, com construções feitas sem um plano regular, privada de estruturas sociais, onde é notável a presença de imigrados extra-comunitários assim como de pessoas à procura de uma ocupação estável.

4. Todavia, não temos necessidade de perder a coragem. De resto, à vossa jovem comunidade não falta a iniciativa, graças também aos queridos Padres Redentoristas que, como verdadeiros filhos de Santo Afonso, no ano do Grande Jubileu, aceitaram ocupar-se de vós. Mas, na pobreza de estruturas e no cansaço de cada dia, vós já prestais atenção a quem se encontra em dificuldade.
Continuai neste caminho, carísssimos Irmãos e Irmãs. Sobretudo, prestai atenção às crianças e adolescentes, não deixando faltar-lhes a atenção, amizade e confiança. Defendei as famílias, em particular as jovens e as pobres ou em dificuldade.

Proteja-vos, caríssimos, o vosso celeste Padroeiro, São João Nepomuceno Neumann, por muitos talvez menos conhecido do que o que ele merecia. Esta grande figura de Bispo missionário, extraordinãrio pioneiro do Evangelho na América do Norte em meados do século dezanove, nos breves anos da sua existência, gastou-se pelo Senhor, pela Igreja e pelo povo que lhe estava confiado. Imitai o seu zelo pelo anúncio do Evangelho e o ardente amor pela Igreja e pelo próximo necessitado.

5. “Preparai o caminho do Senhor” (Jo, 1, 23). Acolhamos este convite do Evangelista! A aproximação do Natal estimula-nos a uma atitude mais vigilante de espera do Senhor que vem, enquanto a liturgia de hoje nos apresenta João Baptista como exemplo a imitar.

Volvamos, por fim, o nosso olhar para Maria, “causa” da nossa verdadeira e profunda alegria, para que obtenha para cada um de nós a alegria que vem de Deus e que ninguém nos poderá tirar. Amen!

Fonte: http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/homilies/2002/documents/hf_jp-ii_hom_20021215_parish-nepomuceno_po.html

1. O estudante na Europa

João Nepomuceno Neumann nasceu a 28 de março de 1811 — naquele ano Quinta-Feira Santa — em Prachatitz, cidade da Boêmia. Seu pai, natural da Baviera, tinha uma pequena fábrica de meias e sou-be conquistar um posto de honra na cidade por sua honradez e operosidade. Ocupou várias vezes car-gos públicos no município; especialmente recebeu gerais aplausos como “Pai dos pobres”. Como tal soube por meios acertados e brandos pôr termo á mendicidade pública.

O Senhor abençoou com 6 filhos o seu lar de cristão zeloso. Três entre eles abraçaram o estado religioso. Um irmão do nosso Venerável fez-se Irmão leigo na Congregação do SS Redentor; uma irmã chegou a ser Superiora Geral do Instituto das Irmãs de Caridade de S Carlos Borromeu.

“Nossa educação, dizia Neumann, foi feita segundo as antigas máximas católicas; nossos pais eram ótimos cristãos. O pai depois de feita a oração da manhã ocupava-se em vigiar e guiar os oficiais e operários durante o resto do dia. A mãe todos os dias ia á Missa, levando sempre consigo, ora um ora outro dos filhos. Comungava freqüentemente e aos jejuns da Igreja ajuntava os de sua devoção. O filho que a acompanhasse ao terço ou á Missa ganhava uma moeda ou qualquer outro mimo.”

Vigiava a Providencia pela vida de nosso Joãozinho. Tendo apenas três anos caiu numa cova de quinze pés de profundidade sem sofrer a menor lesão.

Era rigorosa a educação que o Sr. Neumann dava aos seus filhos. Certa vez Joãozinho pregou-lhe uma pequena mentira. O castigo foi severo. “Este castigo me foi salutar — adverte o Venerável — por-que desde então guardei-me de faltar á verdade.” Muitos anos depois, sendo Bispo, ao visitar seus pais, lembrou-lhes o castigo sofrido e agradeceu ao velho Neumann o rigor que então usara.

Aos sete anos entrou nosso Joãozinho para a escola municipal. Devido a seu talento precoce e grande amor ao estudo aprendeu logo a ler e escre-ver. — Herdara de seu pai, diz ele, pronunciado a-mor pelos livros, a ponto de consagrar-lhes o tempo que outros passavam brincando ou caçando passa-rinhos.

“Minha mãe ralhava comigo chamando-me de maluco pelos livros.” Com o tempo os pais tiveram que lhe comprar um armário onde o diligente leitor ia enfileirando seus livros, como um general os seus soldados. Mas João não se contentava com o ler; refletia, procurava aprofundar o que havia lido. Vá o seguinte caso como prova. João dormia no mesmo quarto com Wenceslau. Certa noite vem este quei-xar-se com a mãe de que o irmão não o deixava dormir. E logo vai a mãe para o quarto resolvida a aplicar umas chineladas no pequeno desordeiro. Chega-se á cama do filho e este a desarma com uma pergunta á queima-roupa: “Mamãe, como é possível que a terra se sustente no ar sem cair?”

A conduta do menino era, do contrario, exem-plar. O caminho mais curto da escola para casa a-travessava a praça publica. Para não ser testemu-nha dos jogos barulhentos dos meninos que por lá tumultuavam, tomava nosso Joãozinho outro trajeto mais comprido. Gostava de brincar, mas fazia-o com meninos escolhidos, no pátio de sua casa. Seu pro-fessor de religião passou-lhe o seguinte elogio:

“Desde criança João excitava minha admiração e muitas vezes lembrava-me das palavras: ‘O que virá a ser este menino um dia?’ Foi sempre um discípulo tão dócil que a conselho meu, lhe entregou o mestre, ainda na classe inferior, a vigilância dos pequenos alunos.”

Um rasgo formoso de caridade derrama luz sobre esta época. Encontrou-se um dia com um me-nino pobre que, de porta em porta, ia tirando esmo-las as quais depositava num saquinho de pano. Ao vê-lo assim enterneceu-se Joãozinho e disse com visíveis mostras de compaixão: “Oh! si eu tivesse um saquinho como este para ajudar o pobrezinho! Ga-nharia então o dobro da esmola”.

Com sete anos confessou-se pela primeira vez. Dois anos depois recebia o sacramento da Con-firmação e, com licença especial de seu catequista, aproximou-se no ano seguinte da santa mesa. Já então sabia todo o seu catecismo maior. Daí em di-ante desejava receber o pão dos anjos seguidamen-te, graça que lhe foi concedida pelo confessor. Nos últimos tempos de escola ajudava a Missa todos os dias. Fazia-o com muito respeito respondendo corre-tamente ao sacerdote. Nunca tomava café ao ir para a igreja. Assim não poucas vezes ficava em jejum até o meio dia.

Aos doze anos foi João para Budweis afim de freqüentar o celebre liceu da cidade. Padeceu muito neste colégio. Vejamos como nô-lo conta: “Tínhamos um professor que, sobre ser o velho e bonachão, se dava muito á bebida. Não íamos adiante nos estu-dos; e, pior ainda, me ia esquecendo das cousas ensinadas pelo catequista (seu professor de latim). No terceiro ano o referido professor apresentou-se

 

embriagado aos exames e foi dispensado do cargo. Pouco depois punha termo á vida. Seu sucessor era tão sábio como severo, querendo repetir num se-mestre as matérias de dois anos e meio. Cousa me-ramente impossível para a maioria dos alunos, vicia-dos pela vadiação nos tempos do predecessor! Mui-tos foram então os reprovados. Mais do que isso sofri com as exigências descabidas do professor de religião. Era o pedantismo e aridez em pessoa. Fazia questão de cada palavrinha e como não tivesse eu boa memória para guardá-las todas, eram-me mo-destíssimas as aulas de religião.”

No fim do quarto ano João voltou para casa triste, desanimado. Pensava seriamente em largar dos estudos. Caro custou á sua boa mãe é ás irmãs convencê-lo para que os continuasse. Deixou-se persuadir, voltando para o colégio em Budweis. Houve então radical mudança em tudo; foram rápi-dos seus progressos nas ciências. São unânimes seus condiscípulos em afirmar que Neumann se des-tacava entre todos os outros. Ele próprio nos diz: “Durante os dois anos de filosofia operou-se em mim uma notável mudança. Havia uma dúzia de estudan-tes muito afeiçoados a diversas ciências, o que nos levava, nas horas e dias de recreio, a mutuas comu-nicações nos diversos ramos. De grande auxilio nos foi neste estudo a amável condescendência dos pa-dres Cistercienses, nossos professores de filosofia. Deixei-me arrastar demasiadamente nestes dois a-nos pelo amor ás ciências naturais. Preocupava-me com a história natural, física, geologia, astronomia, álgebra, geometria e trigonometria, matérias que antigamente me não sorriam muito.”

Seus condiscípulos louvam sobre tudo seus conhecimentos, tão vastos como sólidos, na astro-nomia e botânica. Dedicava-se alem disso ao estudo das línguas modernas, particularmente da francesa e italiana. “Dotado de excelente talento, observa um dos seus colegas, era Neumann ao mesmo tempo mui estudioso. Nos passeios levava sempre um livro consigo; nunca o vi ocioso.” Outro fala-nos do ótimo microscópio, com que Neumann admirava na cre-mação visível a grandeza e onipotência de Deus, e das acertadas palavras que então usava para des-pertar os mesmos pensamentos nos outros.

Neumann conhecia todos os clássicos, como nô-lo garantem eles.

 

Escreve o apostolo S. Paulo que a piedade para tudo é útil; e que nos alcança as bênçãos do Senhor na presente e na vindoura vida. Nosso estu-dante compreendeu o alcance destas palavras e soube harmonizar a piedade com os estudos. São muitos e preciosos os testemunhos referentes a tal verdade. Impossível seria reuni-los todos na presen-te brochura. Conta um de seus colegas ter visto, numa das visitas que lhe fazia, o livro da Imitação de Cristo ao lado do globo celeste feito pelo dotado alu-no. Outro companheiro inseparável era o “Guia dos pecadores” de Luiz de Granada, que João lia com assiduidade. A oração, a leitura espiritual, a freqüên-cia dos sacramentos, eram os meios que empregava para livrar-se dos grandes perigos que ameaçam a mocidade.

Ouçamos suas interessantes declarações: “Era meu cuidado tirar o maior proveito possível da Santa Comunhão. Lembrando-me da piedade pre-senciada em casa dos pais e da devoção com que minha mãe se preparava para recebê-la, procurava imitá-la no fervor. Assim livrei-me de muitos pecados e perigos geralmente fatais para tantos moços. Nes-te tempo ouvia missa todos os dias e, pela tarde, visitava alguma das igrejas, o que faziam também diversos dos meus companheiros.”

A isso juntava Joãozinho diversas mortifica-ções. “Desde muito cedo — escreve padre Berger, sobrinho do Venerável e autor de uma biografia sua — compreendeu ao clarão da graça ser de absoluta necessidade a mortificação dos sentidos para quem deseja progredir na virtude. Aos 16 anos alimentava-se só uma vez por dia; pela manhã e pela tarde con-tentava-se com um simples pedaço de pão seco.

Uma vez terminados os estudos em Budweis, precisava decidir-se nosso moço sobre a vocação que devia seguir. Desde pequeno pensava e deseja-va ser padre e unicamente neste intuito havia come-çado os estudos. Agora, porém, na hora de decisão veio-lhe a tentação. Refere-nos ele que, de 89 a 90 pretendentes ao estudo de teologia, somente 20 po-diam ser aceitos no seminário maior. O medo de ser rejeitado despertou-lhe o desejo de se dedicar á me-dicina. O pai concordava; não assim a mãe. Insistiu com o filho para que solicitasse a admissão no Se-minário.

Neumann obedeceu e, contra toda a expecta-tiva, foi aceito mesmo na falta de qualquer recomen-dação alheia. “Daí em diante — escreve — sumiu a tentação de estudar medicina; renunciei até por completo e sem muito custo a diversos estudos favo-ritos, como física, astronomia, etc.”

Em novembro de 1831 começou Neumann o estudo de teologia, continuando-o com ótimos resultados.Andavam tão contentes com ele os professores, que logo no primeiro ano lhe fizeram conferir as ordens menores.

No principio do segundo ano Deus revelou a seu servo a vocação que o esperava no futuro. “No segundo ano de teologia — conta-nos o Venerável — comecei a ler publicações da sociedade de S. Leopoldo. As cartas do padre Barága, e de outros missionários na América do Norte, agradavam-me extraordinariamente. Passeando um dia ás margens do Moldava com um condiscípulo nos veio o pensa-mento de uma atividade apostólica na América, de-pois que houvéssemos terminado os estudos em Budweis. Minha resolução, a partir deste momento, era tão firme e decidida que já não pensava em ou-tras cousa.”

Tudo quanto nosso seminarista empreendia tinha então em vista sua ida para América, sua vida de missionário nas remotas regiões do Novo Mundo. Para melhor aprender as línguas modernas, máxime o francês e inglês, pediu admissão no Seminário Ar-quiepiscopal de Praga, para onde costumava o Bis-po de Budweis mandar os seus melhores alunos. Lá acharia facilidade no estudo porque podia freqüentar ás aulas da Universidade. Alcançou o que pedira. Teve, no entanto, desiludidas suas esperanças. Na Universidade não se ensinava o inglês. Neumann teve que aprendê-lo sozinho. Sobre a pronuncia consultava alguns trabalhadores ingleses de certa fabrica. Alem disso proibira o exmo. sr. Arcebispo que os alunos assistissem ás aulas de francês. O único remédio era estudá-lo sem mestre. Foi o que fez. Continuava ao mesmo tempo o estudo do italia-no, traduzindo para o alemão o belo livro de S. Afon-10

so “Caminho da salvação”. Diz o padre Berger ter Neumann estudado também o espanhol, chegando a ler os escritos de Santa Teresa e as cartas de S Francisco Xavier; no original espanhol. Uma antolo-gia composta por ele naquele tempo enche 38 ca-dernos. Veja-se pois qual não devia ter sido a cultura de seu espírito e a grandeza de seus conhecimen-tos. Antes de embarcar para América Neumann en-tendia nada menos que oito línguas.

Mais uma dificuldade veio ajuntar-se ás que já existiam. Campeava na Universidade de Praga — como aliás nas outras também — o josefismo, irmão mais velho do galicanismo. Era justamente o mal reinante na infeliz Áustria. Já S Clemente Maria tive-ra seus atritos com a tal fiscalização do imperador sacristão.

— Eu não podia aceitar doutrinas que ao meu ver eram opostas aos ensinamentos da Santa Madre Igreja, escreve-nos Neumann. A maioria dos alunos seguia as opiniões dos professores daí resultando para nosso seminarista maus quartos de horas, fre-qüentes dissabores e contrariedades. Até desprezos e humilhações não lhe foram poupados. Nas suas “Memórias” lamenta-se ele do grande “isolamento em que vivia”.

— Todos me desprezam — são suas palavras — como realmente mereço; todos fogem de mim. Os maus, porque não posso concordar com seus pla-nos; os bons porque procuram os perfeitos. Estou só, desprezado pelos homens, cheio de pecados, em tua casa ó Senhor, Bem Supremo. Quisera abo-minar os prazeres do mundo e os celestes os não mereço. Minha vida é sem alegrias.” Mostram-nos estas palavras, e outras mais de seu diário, que

 

Deus o experimentava com provas interiores, duvi-das, perplexidades. Para cúmulo dos males não ti-nha com quem se abrir. “Porque não me ouves quando te invoco? — escreve triste. Que farei, meu Deus, sem fé, sem caridade, sem esperança? A quem me dirigir, si Deus está irritado contra mim?” Eram terríveis os assaltos das tentações: “Meu Je-sus — exclama — si queres que me assaltem as horríveis tentações contra fé, derrama sobre mim toda sua amargura mas não permitas que eu caia.” Tais palavras lembram idênticos sofrimentos de S Francisco de Sales quando estudava em Paris.

Suas “Memórias” revelam-nos a seriedade com que procurava chegar á perfeição cristã. É co-movedor o tom de humildade na acusação de suas mais insignificantes faltas. Predomina, como senti-mento, a dor dos pecados. Por causa deles derra-mava muitas lagrimas, impunha-se severas peniten-cias, buscava meios de oferecer satisfação a Deus pelas menores transgressões de sua santa lei.

Concordam com o referido os testemunhos de seus condiscípulos. “Era muito viva a sua fé — diz um — e como conseqüência disso admirávamos sua sincera piedade. Em segredo praticava muitas morti-ficações, principalmente nos últimos anos de seus estudos. Passava horas muitas em oração, mesmo nas noites frias de inverno. Sinceramente obedecia aos Superiores, sem contudo adulá-los ou aviltar-se.” Outro colega conta que Neumann passava noi-tes inteiras rezando, sobretudo nos dias de comu-nhão. Refere também que em 1835 o real e imperial governo perguntou si, entre os seminaristas de Pra-ga, não havia algum bom conhecedor de varias lín-guas que se prestasse a aceitar o posto de secretario numa importante embaixada. As vistas de todos caíram naturalmente sobre Neumann. Mas ele ne-nhum passo deu para alcançar a importante e hono-rifica colocação. O motivo — como o disse mais tar-de — era a firme resolução de ir quanto antes para América do Norte.

Aos 8 de julho de 1835 deixou Neumann o seminário de Praga e voltou para Prachatitz. Voltou desconsoladíssimo. Porque? Porque esperava cele-brar sua Missa Nova antes de embarcar para a Amé-rica e assim dar aos seus pais a benção de primici-ante. O céu havia determinado o contrario. Enquanto eram ordenados seus colegas, a ele adiaram a or-denação. Qual o motivo de tal excepcional medida? Claramente nô-lo não diz Neumann no seu diário. Verdade é que sua diocese de Budweis tinha muito clero naquela época. Parece, no entanto, não ter sido este o único motivo e que a principal razão se deva achar na prevenção do Reitor do seminário e de alguns professores do Seminário contra o semi-narista que não partilhava as idéias errôneas, em voga nas preleções. Também não aprovavam o pla-no de apostolado na América. Neumann resolvido a seguir sua vocação se decide a deixar a pátria mes-mo antes de ter recebido as ordens sacras. Todavia não pôde fazê-lo logo. Durante a semana que pre-cedeu a viagem multiplicou os exercícios de piedade e penitencia, fez devotas peregrinações aos santuá-rios de Nossa Senhora para obter a proteção de Deus e de sua Santíssima Mãe. Seu coração sensí-vel padeceu muito ao declarar o plano aos pais. A generosa mãe concordou logo; o pai, apesar de dar seu consentimento não se mostrou lá muito contente estabelecendo como condição que partisse o filho sem despedidas formais da família.

Angariada a soma necessária por uma coleta entre os sacerdotes — pois João não queria ser pe-sado aos seus — deixou Prachatitz a 8 de fevereiro de 1836. Sabe Deus os sentimentos que tumultua-vam no coração delicado de filho tão amoroso para com os seus. De outro lado a fé lhe mostrava as al-mas imortais que estavam á sua espera na América. De Budweis escreveu uma carta saudosa aos seus: “Minha partida rápida e prematura — escreve — não teve outro fim que o de diminuir a dor da separação. Suportai, queridos pais, com paciência o golpe que Deus desfere contra vós. Quanto maior é aqui neste mundo o sofrimento, tanto maior será também nosso gozo no céu.” Seu itinerário levou-o por Linz, Muni-que, Strassburg e Paris. Nesta cidade passou a Se-mana Santa, abismando-se nas meditações dos mis-térios da redenção. Desejava Neumann ter em mãos, antes de embarcar, um documento autentico que lhe garantisse a admissão em alguma diocese da América. Seria prolixo referir aqui todos os pas-sos que deu para alcançar tal documento. Suas es-peranças dirigiam-se para a diocese de Filadélfia. Ouviu falar que o Bispo desta diocese estava em viagem pela Europa. Durante a viagem, mais tarde, ficou sabendo que o exmo. sr. Bispo — Francisco Patrício Kenrick — não precisava de padres ale-mães. Estava longe de adivinhar que 15 anos depois seria também não padre, mas Bispo em Filadélfia.

Suas vistas caíram então sobre a diocese de Vincennes, cujo Bispo viajava pela Europa. Esperou por três semanas em Paris a resposta do prelado. Mas esta nunca chegava. Vendo então que seus recursos financeiros se iam, não teve remédio senão seguir viagem. A 20 de abril, a bordo do veleiro “Eu-ropa” deixou o Havre com o coração mais tempestu-oso do que o mar. Duvidas, ânsias, temores, o agita-vam. Estava resolvido a viver na América como um ermitão para fazer penitencia pelos seus pecados e dos outros, caso nenhum Bispo o quisesse receber.

Na travessia, que durou 40 dias, Neumann teve ocasião de ver como a Providencia zelava por ele. Num dia de tormenta quando todos os passagei-ros se achavam nos seus camarotes, ficou sozinho no convés do navio, recostado no parapeito, todo perdido nas suas meditações. De repente volta a si, como que impelido por força irresistível, deixa o lu-gar e eis que imediatamente cai com enorme estron-do uma trave sobre o sitio que havia deixado. Disso se aproveitou para renovar sua confiança e ganhar nova coragem para as dificuldades que o esperas-sem.

O velho Horácio falava da “dura navis”, navio inco-modo, por causa das muitas privações a que estão sujeitos os passageiros. Neumann teve ensejo de isso constatar e sentir. O capitão nos seus modos era tudo, menos cortês e polido; os 200 passageiros na maioria protestantes divertiam-se á custa do po-bre padre. Nosso seminarista tinha de viajar de ter-ceira classe por serem poucos os recursos de que dispunha.

2. O missionário na América

No dia da Santíssima Trindade encostava o veleiro “Europa” no porto de Nova Iorque. Nosso passageiro só conseguiu desembarcar quatro dias depois. De-sejoso de saudar a Jesus Sacramentado pôs-se a percorrer as intermináveis ruas de Nova Iorque em busca de uma igreja católica, não ligando importân-cia ao aguaceiro que caía. Foram inúteis seus esfor-ços; só no dia seguinte pôde encontrar a catedral católica.

O sacerdote alemão Raffeiner apresentou-o ao Bispo Dubois, que fora de si de contente — pois precisava com urgência de um padre alemão — o recebeu de braços abertos, garantindo a Neumann ordena-lo brevemente, depois que vira os seus do-cumentos.

Realmente aos 19 de junho de 1836 foi orde-nado subdiácono, a 24 diácono e a 25 presbítero. Sua Missa Nova celebrou-a a 26 de junho na igreja dos alemães de S. Nicolau. Nela deu a primeira co-munhão a 30 meninos por ele mesmo preparados para esta solenidade. Dois dias depois partia o neo-sacerdote para seu posto na região do rio Niágara, não longe da celebre cachoeira do mesmo nome. Numa carta dirigida á sua família escrevia: “Ao ver antigamente o quadro representando a afamada ca-choeira de Niágara, nunca aí alguém se imaginou que eu havia de ser vigário nas suas vizinhanças. Estando bom o tempo chego a ouvir o seu soturno ruído com o fragor de uma saraivada distante.” Afir-ma-se que Neumann jamais foi ver o grandioso fe-nômeno da natureza, sacrifício voluntário tanto mai-or, quanto mais pronunciado era seu amor por seme

lhantes maravilhas. De viagem para sua paróquia parou nosso vigário alguns dias em Rochester para anunciar a palavra de Deus e administrar os sacra-mentos a alguns católicos alemães, havia tempo pri-vados de todo auxilio sacerdotal. Aí batizou a primei-ra criança em sua vida e logo escreveu no diário: “Si a criança que hoje batizei morrer na graça de Deus, oh, então minha viagem para a América tem sido abundantemente recompensada, ainda que não consiga eu realizar mais nada no futuro.”

Dispôs a Providencia que em Rochester se encon-trasse pela vez primeira, com um redentorista, o pa-dre Prost, cuja amabilidade o deixou encantado. Em Búfalo encontrou-se com o virtuoso padre Alexandre Pax, que daí em diante foi sempre seu paternal ami-go. Somente a morte devia desatar os laços desta santa amizade entre tão zelosos sacerdotes.

Padre Pax acompanhou o novel vigário até Williamsville, sua nova residência, sita a umas qua-tro léguas ao norte de Búfalo. Largo, extenso campo se abria aos olhos do jovem vigário. Além de Willi-amsville, precisava atender a varias outras estações bem distantes uma da outra. A mais remota era Niágara a 17 léguas de sua residência.

Em todas essas estações não havia igreja. Um miserável galpão fazia suas vezes. A igreja de Williamsville estava em construção, não tinha ainda nem piso nem teto quando lá chegou Neumann. “A igreja de Lancaster é mais um galpão que um templo — escreve ele. Pregando depois da Missa ao con-templar a humildade de Jesus que se digna habitar numa choça mais que miserável, não pude conter as lagrimas e os soluços obrigaram-me a interromper o sermão.” 17

No começo de 1837 mudou-se Neumann para Nordbusch, onde havia uma capela de madeira e ao lado um pobre casebre do mesmo material. Era a residência do vigário, “o paço paroquial”. Aí recebeu a visita do seu Bispo no verão do mesmo ano. Vinha o Bispo acompanhado do padre Prost nosso conhe-cido. O prelado alegrou-se muito com o bem feito pelo zeloso vigário. Em verdade era bem difícil a a-ção pastoral naquelas paragens incultas. Aos do-mingos e dias de festa nosso vigário celebrava o santo sacrifício em duas estações.

O trajeto de uma a outra fazia-o a pé, levando nas costas os pertences necessários ao culto. Suce-dia freqüentes vezes ser chamado para doentes mal terminava as sagradas funções. Ao anoitecer voltava á casa, alquebrado de cansaço, em jejum não raras vezes. Hoje era o suor que o banhava como recom-pensa de uma caminhada no sol a pino, amanhã a chuva se encarregava de enlameá-lo e lavá-lo no seu aguaceiro. Numa dessas jornadas através de florestas e pântanos, teve os pés tão feridos que im-possível lhe foi continuar a viagem. Deitou-se triste e desanimado, rezando para que Deus mandasse seus anjos em seu auxilio. E Deus os mandou na forma de índios. Chegam-se a ele, inesperadamente, alguns índios. Padre Neumann começa a recear por sua vida. Mas os pobres índios vendo que se tratava do “roupeta negra”, aproximam-se com respeito, es-tendem diante dele a pele de búfalo, colocam-no em cima e levam-no assim até a casa paroquial.

Outra ocasião o surpreendeu nos pântanos uma horrível tempestade; noite escura cercava-o, perdido no lodaçal. Neumann não sabia para onde dirigir seus passos. Em transe tão doloroso encomenda-se a Deus e eis que divisa, ao longe, o bru-xulear de fraca luz. Para lá se dirige, chegando a uma pobre choça em que, estendido no chão, jazia agonizante um velhinho, sem outra companhia que a da pequena filha, a única que lhe restava no mundo. Foi grande o consolo do velho irlandês ao ver o pa-dre. Neumann deu-lhe os últimos sacramentos e confortou-o corporalmente com um trago de vinho de missa. Na manhã seguinte o enfermo estava fora de perigo. Deus havia ouvido as preces do seu servo a lhe pedir a saúde para o pobre pai, único arrimo para a inocência da filhinha que ficaria só no mundo, caso viesse ele a falecer.

Diga-se de passagem que o zeloso vigário se condoia das privações a que estavam sujeitos os emigrantes europeus na América. Essa pobre gente ia fazer a vida e muitas vezes a perdia, sem falar do grande abandono religioso numa região tão grande e tão desprovida de sacerdotes. Por isso Neumann procurava ajuntar ervas, que conhecia medicinais, para curar os seus paroquianos. Chegou mesmo a manusear compendio de medicina para os casos mais urgentes. Queria valer ao próximo, aos colonos da América. Botânico como era, arrumou uma bela coleção de plantas medicinais, mandando outra para Munique.

O sr. Schimidt, que hospedava o vigário con-seguiu, que aceitasse um cavalo para as suas lon-gas viagens. Foi isso o começo de uma serie de a-venturas para nosso vigário, novato na arte de mon-tar. O cavalo era novo, manhoso, mal amansado. Um dia o vigário vai montar. Por infelicidade põe o pé direito no estribo esquerdo, o cavalo parte logo, só restando ao cavaleiro o remédio de terminar a

 

ginástica e assentar-se na sela de costas para a ca-beça do animal. Estranhando o cavaleiro, o cavalo dispara e tê-lo-ia atirado ao chão si não fosse a in-tervenção de uns viajantes que o cercaram. Falava-se da inteligência do animal que parecia estudar as ocasiões de envergonhar o vigário, expondo-o á ri-sada dos transeuntes. Muitas vezes empacava no meio da estrada sem que Neumann o pudesse tocar adiante. Apeava-se então no meio da lama e puxava o manhoso animal pela rédea. Encontrando um tron-co de arvore montava novamente e de novo o cavalo fazia suas artes. Por fim o vigário tomava o saco nas costas e caminhava na frente do animal indócil. As-sim mesmo louvava sempre o seu “companheiro de viagem”. Quando parava para tomar uma merenda qualquer, repartia-a com ele. Certa vez um ferreiro vendo as manhas do cavalo se ofereceu a curá-lo disso. “Não quero que judies do meu bom compa-nheiro, disse-lhe Neumann. Nós dois nos entende-mos muito bem.” Qual nada. O ferreiro pulou em ci-ma e mal dera uma voltas quando o cavalo o atira ao chão, quebrando-lhe um braço.

Outra vez o atento botânico caminhava a ca-pricho do cavalo, olhando muito para as plantas á beira do caminho. De repente avista uma flor bem rara. Apeia-se e sem fazer caso do pântano, vai cui-dadosamente por cima de uns troncos e consegue apanhá-la. Volta radiante de contentamento, fazendo planos sobre o achado quando o cavalo, esticando o pescoço por sobre o ombro do vigário, lhe abocanha a flor. Muito mortificado com a gulodice do animal, nisso viu no entanto Neumann uma permissão da Providencia para exercê-lo na paciência.

Prodigalizava especiais cuidados aos meni-nos. Nas estações levantava escolas para eles não contente com as igrejas que tinha de construir. Onde faltava professor ele mesmo se encarregava de en-siná-los, durante semanas ou meses inteiros. Apren-diam a ler, escrever e decoravam o Catecismo. Á semelhança do Divino Mestre atraía as crianças; quando o viam chegar corriam pressurosas a seu encontro com toda algazarra própria da idade. Os aplicados recebiam medalhas e terços.

De quem menos cuidava o vigário era de sua própria pessoa. Particularmente sua cozinha sofria com este descuido. Não tendo criado, por ser pobre, atendia em pessoa ao serviço da casa. Em Nord-busch tomou um menino de dez anos para lhe vigiar a casa durante as ausências longas e freqüentes. É pois fácil de imaginar qual teria sido a cozinha do vigário em tais circunstancias. Apenas uma vez por semana se via sair a fumaça pela chaminé. Si algu-ma alma compassiva perguntava de que vivia, retru-cava Neumann: “Pão com queijo é alimento são e nutritivo”. O pequeno guarda era bem arguto para pregar peças ao vigário. Certa vez mandaram-lhe uma suculenta sopa. Enquanto comiam diz o peque-no: “Sr. vigário, si agora parar de comer, dormirá muito bem nesta noite.” Era isso alusão a uma frase que Neumann costumava repetir quando a fome o apertava. A saúde ressentiu-se das privações, cain-do bem doente o desamparado vigário. A caridade de uma boa alma valeu-lhe em tal transe.

Muito melhorou a situação quando em 1839 veio seu irmão Wenceslau fazer-lhe companhia. Su-as voltas á casa eram então mais confortadas por-que encontrava o que comer e roupa fresca para mudar. Além disso seu irmão auxiliava-o no ensino dos meninos em três a quatro lugares.

Não pequenos dissabores causavam ao vigá-rio uns taverneiros que procurando só o dinheiro a-briam suas vendas para toda sorte de diversões. Teve que aturar insultos, maus tratos e mesmo a-meaças de morte por indivíduos dados aos vícios. Numa das localidades havia uma bodega perto da igreja. Musica e canto, danças e jogo formavam o acompanhamento ás palavras do vigário na igreja, distraindo e escandalizando os fieis. As freqüentes exortações, feitas com todo amor, de nada valeram. Porque anunciassem outra vez um grande baile para certa festa na referida casa, ameaçou Neumann de abandonar a localidade caso se realizasse o projeta-do baile. Realmente no dia aprazado, em frente á casa do vigário viram um carro para carregar seus livros e trastes. Não foi pequeno o susto do povo até então descrente que executasse sua ameaça. Pedi-ram-lhe para ficar, visto que se desistiria do baile escandaloso. O “digam ao povo que fico” prendeu-se desta vez á renuncia completa do divertimento. O taverneiro teve de retirar-se do lugar.

Da mesma forma as seitas tão numerosas na América exerceram a paciência do vigário. Por des-prezo e aludindo á sua pequena estatura chama-vam-no de “vigarinho”. Certo dia, em pleno vigor de inverno, precisava nosso homem ir a um lugar dis-tante para celebrar a Santa Missa. No caminho en-contra-se com um carro onde ia uma família menoni-ta. Os hereges convidaram-no a subir. Apenas o ti-nham lá dentro, começaram as tentativas de conver-tê-lo. Na despedida combinaram a realização de uma conferencia em casa do pregador da seita.

Chegado o dia e aberta a conferencia, perguntou Neumann si o Espírito Santo podia contradizer-se. Negaram-lhe tal possibilidade. Feito o que provou-lhes o vigário que as Bíblias se contradiziam. No de-curso da controvérsia os hereges afirmaram ter a iluminação do Espírito Santo. No auge da discussão levanta-se um deles e diz ser sua vida prova da ver-dade da afirmação feita. Pois antes de receber o Es-pírito Santo era um ladrão de cavalos e vacas, calo-teiro nos negócios, etc. Depois da conversão largara tudo isso.

— Ouvistes, senhores — replica Neumann — o pregador confessa ter sido ladrão de cavalos. Per-gunto-vos agora: “Já restituiu ele os cavalos rouba-dos?”

— Não, não; nada restituiu até hoje — foi a resposta geral. Continua roubando como dantes.

Chegada a tal ponto a conferencia, optaram os protestantes pela retirada e abandonaram a sala, um após outro. Daí em diante o “vigarinho” teve sos-sego. A muitos dos hereges teve o consolo de con-verter para a religião católica, êxito que mais se deve atribuir ás suas penitencias e orações que a outras diligencias.

No meio de seus contínuos trabalhos pela salvação do rebanho do Senhor em nada se descu-rava-se de sua própria santificação. Demonstram-no os propósitos que então tomou.

1. Quero antes de tudo rezar o Breviário todos os dias “de joelho e com devoção”, o mais possível na hora marcada;

2. Quero fazer pontualmente a preparação para a Santa Missa, assim como a ação de graças;

3. Quero comer só uma vez por dia, ao meio dia ou á noite;

4. Farei a visita ao Santíssimo todas as tar-des;

5. Hei de preparar-me melhor para os ser-mões;

6. Não falarei nunca sem necessidade e pie-dosa intenção; o mais possível nunca perderei a pa-ciência;

7. Vigiarei bem sobre os meus sentidos e pensamentos.

Julgando descobrir em si alguma vestígio de avareza, fez na véspera da festa de S. Pedro de Al-cântara o voto de pobreza e mais adiante lemos nos seus apontamentos; “A construção da escola (em Williamsville) correrá por minha conta. Por teu amor, ó Jesus, não quero reservar-me nada. O voto de po-breza que fiz secundará meus intentos e verei si foi sincero o meu propósito”. Comprou também com seu dinheiro os moveis para a escola

Chorava sempre seus pecados. Só Deus sa-be quantas lagrimas derramou e quantas austerida-des praticou por penitencia. “Sem cessar quero cho-rar meus pecados, mesmo que perca a luz dos o-lhos” — são palavras suas.

Não o havia abandonado o pensamento de internar-se num longínquo deserto. “Para fugir a ter-rível responsabilidade a respeito do meu rebanho — diz ele — julgava meu dever retirar-me a alguma remota soledade, onde pudesse levar uma vida ocul-ta e penitente, ou trabalhar como desconhecido jor-naleiro.”

Ao lado deste zelo e fervor, andava sua alma em trevas de desolação e muito sentia o santo vigário tal abandono. Como sacerdote não podia tolerar esta falta de luz, fazendo-se a si mesmo as mais amargas acusações de ter deixado ao Senhor, cor-rendo atrás de Baal.

Julgava-se a causa de todos os males que se faziam na paróquia. Daí a força dos pensamentos sobre a retirada para um deserto.

No entanto Deus estava preparando aquela alma para altos planos de sua Providencia. Queria tirá-lo do mundo e depois elevá-lo ao trono de bispo.

3. Missionário redentorista

As incessantes fadigas do apostolado haviam abalado a saúde de ferro do vigário. Pela Páscoa do ano de 1840 esteve durante três meses atacado por uma pertinaz febre intermitente. Logo que se resta-beleceu dirigiu-se a Rochester para passar alguns dias em companhia do Redentorista padre Senderl. Cada vez mais intimas iam se tornando essas rela-ções com os bons amigos Redentoristas. No outono do mesmo ano resolveu-se Neumann a entrar na Congregação.

Sobre a origem de sua vocação escreve ele o seguinte: “Durante quatro anos havia trabalhado pa-ra infundir nos meus paroquianos o mesmo fervor que havia notado nas paróquias de Rochester. De-balde. De um lado isso e de outro o natural desejo — ou melhor sobrenatural — de viver numa sociedade de sacerdotes, para não me achar tão sozinho entre os mil perigos do mundo, fizeram nascer em mim o desígnio de entrar na Congregação do Ss. Redentor. No mesmo dia 4 de setembro escrevi ao Superior padre Prost, pedindo a admissão. Recebi esta graça por carta do dia 16, na qual me vinha a ordem de partir para Pittsburg. Com a carta na mão participei ao exmo. sr. Bispo a resolução que tomara e pedi-lhe ao mesmo tempo a santa bênção. Com muito pesar e somente após demorados processos conce-deu-me finalmente as dimissórias.”

A 18 de outubro chegava padre Neumann a Pittsburg, recebendo a 29 de novembro o santo habi-to das mãos do padre Prost. Foi o primeiro noviço aceito na América do Norte. Feliz presságio! Um mês mais tarde batia á porta do convento um outro

 

moço: queria ser irmão leigo. Era Wenceslau o já conhecido cozinheiro, mestre-escola e sacristão do nosso padre. Esse irmão faleceu em 1896 depois de uma vida bem edificante. Os redentoristas, enviados pelo padre Passerat, exerciam seu ministério no No-vo Mundo desde o ano de 1832. Longe levaria referir as peripécias do começo. Não conseguiram fundar uma casa canônica e já pensavam em regressar pa-ra a Europa. Animou-os todavia o venerável velhinho e homem de Deus, padre Passerat, garantindo-lhe para o ano da canonização de Santo Afonso a fun-dação da primeira casa americana. E foi profeta. De fato em 1839 era canonizado Afonso de Liguori em Roma, e na América estabelecia-se a primeira co-munidade redentorista em Pittsburg.

Padre Neumann começou seu noviciado em Pittsburg e terminou em Baltimore. Não era possível a existência de um noviciado regular perante as ex-cepcionais condições, em que então se achava a Congregação na América. Seguidamente viam-se os Superiores obrigados a empregá-lo nos ministérios apostólicos. Seu Mestre tinha de se ausentar fre-qüente e demoradamente. Nos seus apontamentos diz-nos padre Neumann: “Naquele tempo não havia noviciado nem Mestre de noviços na América. Em troca havia muito trabalho. Eu fazia com os outros irmãos leigos as duas meditações de cada dia, os exames de consciência, a leitura espiritual, a visita ao Santíssimo e rezava o rosário: era tudo.” Mais tarde, como Bispo, escreveu a seu sobrinho recem-entrado para a Congregação: “Eu nunca fui um ver-dadeiro noviço. Pois quando entrei em nossa Con-gregação não havia nem noviciado nem Mestre de noviços na América do Norte. No entanto fiz as minhas experiências e fiquei conhecendo muitas tenta-ções com que o velho inimigo assalta os recrutas de Santo Afonso. As enfermidades da alma são tão numerosas como as do corpo e para perseverar não há meio melhor do que pedir á Senhora a santa per-severança, manifestando sempre, sem demora ao diretor espiritual as diversas tentações.”

O fervor do noviço supria á falta de um bom noviciado. Chegava ao heroísmo seu amor á pobre-za. Em Rochester alojava-se debaixo da escada com uma mezinha e fragílima cama. Tratava-o com dure-za o padre Mestre e repetidas vezes lhe dizia: “Volte para as suas estações; o sr.. não agüenta os incô-modos conosco.” O fervoroso noviço padecia muito com tal linguagem, mas calava suportando com pa-ciência todos esses tratos. Aos 16 de janeiro de 1842 foi Neumann admitido aos votos. Em verdade um homem novo — observa o cronista da casa, fa-zendo alusão ao nome do neo-professo.

Feita a profissão permaneceu Neumann em Baltimore para atender juntamente com o jovem pa-dre Frey aos quatro mil católicos alemães espalha-dos pela populosa cidade. Pastoreavam ao mesmo tempo umas dez estações situadas nos Estados de Maryland, Virginia e Pensylvania. A distancia de Bal-timore regulava 20, 10 até 40 léguas. Acostumado a esse gênero de apostolado visitava padre Neumann com freqüência os pobres e bons católicos, despre-zando os mil incômodos e privações inerentes na-quela época ás viagens longas.

Em março de 1844 foi nosso padre nomeado Superior da comunidade de Pittsburg. Como tal diri-giu a construção da formosa igreja gótica dedicada á Santa Filomena. Arcou sozinho com as despesas. “O

 

que então sofreu este santo homem — escreve pa-dre Seelos — só Deus sabe e no dia do juízo mani-festa-lo-á para gloria de seu servo. Aos sabidos era preciso fazer o pagamento dos operários, mas já nas sextas feiras não havia dinheiro algum, nem espe-rança de consegui-lo. E no entanto — cousa admirá-vel — sábado á noite estavam todos pagos.” No pri-meiro domingo de outubro de 1846, na festa do Ro-sário, foi solenemente inaugurada a magnífica igreja. Em seguida começou padre Neumann a construção de uma casa ampla para a comunidade.

O fervoroso Superior era incansável no con-fessionário, no púlpito, nas escolas. Para poupar a seus confrades tomava sobre si as molestas visitas aos enfermos, sobre tudo á noite. De manhã apare-cia sem falta para a meditação, mesmo quando ha-via saído de noite para distantes confissões.

“Morávamos, padre Neumann e eu — escreve o citado padre Seelos — no mesmo quarto, separa-dos apenas por uma cortina. Assim podia ouvi-lo rezar em voz baixa até tarde da noite. Dormia tão pouco que não compreendo como pudesse viver. Consagrava especiais cuidados ás escolas sabendo que delas dependia o futuro da religião católica nos Estados Unidos. Gostava de assistir ás aulas. Por-que faltasse apropriado livro para o ensino da religi-ão, compôs ele mesmo dois catecismos, um elemen-tar para os principiantes e outro maior para as clas-ses superiores. Sacrificou á sua composição as ho-ras destinadas ao sossego e repouso noturno. De ambos os livros foram feitas varias edições. Escre-veu também uma História Bíblica para o uso das escolas.

Como Superior não perdia padre Neumann de vista o principal fim do Instituto: as santas missões. Tomava parte nelas com muita freqüência. Nessas missões eram abundantes os trabalhos e mortifica-ções de toda espécie. Refere padre Seelos que em viagem a S. Vicente, aonde iam pregar uma missão, entraram numa hospedaria para passar a noite. Fo-ram mal recebidos e caro lhes custou obter uma ceia muito ordinária. Depois do que nem cama lhes de-ram; os pobres missionários tiveram que passar a noite sobre um banco. Padre Neumann passou a noite em oração e os copiosos frutos alcançados na missão foram o fruto desta prece.

Não poucas vezes serviu-se a Providencia do nosso padre para realizar admiráveis conversões. Sirva de prova o seguinte caso. Um pobre homem reduzido a maior miséria resolveu-se a passar com sua família para a seita protestante. Queria fazê-lo só por fora, para receber auxilio da seita. E assim fez. Os remorsos, porém, foram tamanhos que lhe tiraram por completo o sossego. Passa um dia diante da igreja dos redentoristas quando justamente padre Neumann celebrava a santa Missa. O canto solene do Kyrie chega ao ouvido do infeliz e comove-o pro-fundamente. Entra na igreja e quase sem saber co-mo adianta-se até a mesa da comunhão. Aí perma-neceu apoiado sobre sua bengala, observando as cerimônias. No momento em que o sacerdote parte a sagrada hóstia dá um grito e cai de joelhos soluçan-do. Terminada a Missa confessou-se com padre Neumann e disse-lhe que havia visto umas gotas de sangue no momento acima referido e ouvira as pala-vras: “Tu por tua apostasia me fizeste derramar este sangue.”

Querendo o Senhor enriquecer seu servo com novos méritos mandou-lhe uma gravíssima enfermi-dade. Atormentava-o uma tosse continua acompa-nhada de vômitos de sangue. O medico constatou pulmão atacado e declarou que o padre devia deixar Pittsburg. Por isso no mês de janeiro de 1847 muda-va-se o doente para Baltimore. Seu descanso não devia durar muito tempo.

Em fevereiro recebe uma carta da Europa pe-la qual ficava nomeado Vice-Provincial das casas da América. Possuía então a Congregação dez casas nos diversos Estados da federação americana. O total dos padres era de trinta. Como Vice-Provincial trabalhou muito para consolidar as fundações exis-tentes e abriu uma casa em Cumberland e outra se-gunda em Nova Iorque. Muito zelou pelas casas de formação” O noviciado e estudentado são as semen-teiras da Ordem, dá onde devem sair os missioná-rios. Si aí forem os jovens educados no espírito de Santo Afonso poderá a Congregação dar conta do seu fim.” Nomeou Mestre de noviços ao padre See-los, homem de altos espíritos e sólidas virtudes. So-bre a sua atividade apostólica em Baltimore escreve o seguinte á sua família: “Atendemos aqui a 3 esco-las e sempre se apresentam protestantes desejosos de instrução religiosa e admissão na Igreja Católica. Muitos mostram depois sua gratidão para com Deus, levando uma vida bem fervorosa e edificante, cousa que dificilmente se encontra na Europa. No ano pas-sado foram recebidos em nossa igreja 85 adultos. Um terço deles eram negros. Em Nova Orleans te-mos agora uma casa e por isso o recomecei a estu-dar o espanhol. Volto a ser aluno com 36 anos. Nun-ca se lembrou de dizer nas cartas que era Superior.

Em 1847 construiu uma nova escola em frente á nossa casa de Santo Afonso. Uma religiosa professora nessa escola escreve: “Devendo dirigir a escola de meninas no tempo em que o padre Neumann era Superior, tive muita ocasião de apreciar seus dotes e belas virtudes. Era um sólido catequista e grande amigo das crianças. O que mais eu admirava era sua calma e mansidão, ao par da constância em por ao alcance das pequenas cabeças as verdades da religião e lhes incutir princípios religiosos. Pude ob-servar a salutar impressão que causava nos maus alunos. Os pequenos pecadores confessavam es-pontaneamente seus pequenos furtos e mentiras.”

Durante sua estadia em Baltimore chegou a ser um verdadeiro pai para as comunidades religio-sas. As Irmãs Pretas que trabalhavam entre as cri-anças de sua cor, estavam prestes a se dissolverem. Nosso padre tomou a direção do Instituto, trabalhou como capelão, fez-se mestre dos orfãozinhos e pro-porcionou ás religiosas toda espécie de socorros. A associação refloresceu; o número das Irmãs aumen-tou de 3 a 16. Era também confessor extraordinário das Carmelitas e soube entusiasmá-las pela perfei-ção religiosa. Novo campo de atividade abriu-se para nosso Superior com a chegada das Irmãs de Nossa Senhora de Munique em 1847. As primeiras dificul-dades foram vencidas com seu eficaz auxilio; entre-gou a essas Irmãs três escolas e muito as recomen-dou aos senhores Bispos.

S. Paulo numa de suas cartas escreve que muito teve de sofrer por parte de falsos irmãos. O mesmo aconteceu a Neumann. Incluiu Deus ates sofrimentos em seus planos para mais e mais des-prender o seu servo das cousas deste vale de lagri

 

mas. Padre Neumann foi exonerado de seu cargo de Vice-Provincial como há tempo o havia desejado. Seu sucessor foi o celebre padre Bernardo Hafkens-cheid, missionário de nomeada. O novo Superior chegou a América a nove de janeiro de 49. Padre Neumann ficou em Baltimore como simples religioso contentíssimo por se achar livre de responsabilida-des. Assim mesmo teve de substituir ao padre Ber-nardo no posto de Provincial durante os seis meses que este gastou na viagem a Europa. Em 1851 no-mearam-no Reitor da nossa casa de Santo Afonso em Baltimore e Consultor do Provincial. Em todo es-se tempo deu constantes provas de humildade. Um dia — sendo ainda Vice-Provincial — chegou muito cedo a uma das casas, sem ser esperado. O portei-ro, postulante ainda, desconhecendo-o recebe com maus modos o visitante e o condena a esperar no saguão. Imaginava lidar com qualquer sacristão que vinha pedir emprestados os paramentos da casa. E saiu resmungando alto contra a curiosidade do ho-mem, em querer lhe saber o nome. Ficou muito cor-rido quando viu o padre Reitor ajoelhar-se e beijar a mão ao desconhecido sacristão atrevido. Padre Neumann consolou paternalmente ao aflito porteiro.

Sendo Reitor de Baltimore escolheu o quarto mais incomodo da casa, colocado em frente á porta de entrada. Queria estar logo ás ordens quando pre-cisassem de algum padre. Nas conversas nunca fez perceber a superioridade do seu talento ou de seu cargo. Nos assuntos de mais importância pedia sempre o parecer dos outros. Amante da observân-cia regular, traduziu do italiano as Regras do Instituto e as levava sempre consigo.

4. O Bispo incansável

No outono de 1851 assegurou o piedoso irmão Ata-násio que vivia na casa de Pittsburg ter visto a Neu-mann revestido de insígnias episcopais e rodeado de gloria. Padre Seelos então Reitor apressou-se em dar esta noticia ao padre Neumann que lhe respon-deu: “Diga ao bom irmão que si já não está louco, peça muito a Deus para que não chegue a tal ponto.”

Mas o louco tinha razão. Não tardou muito e estava realizada a piedosa visão do humilde leigo.

 

O exmo. sr. Kenrick, Bispo de Filadélfia, fora promovido para a sede arquiepiscopal de Baltimore e vinha todas as semanas ao convento dos padre redentoristas confessar-se com o Reitor Neumann. Numa dessas ocasiões disse a seu ilustre confessor: “Sei por informações particulares que o sr.. será no-meado Bispo da Filadélfia. Trate de arranjar uma mitra, meu padre.” Foi enorme o susto do confessor. Desejava sempre passar a vida num canto desco-nhecido e muito contra seu gosto o haviam feito Rei-tor e Vice-Provincial. Agora ainda mais essa; ser Bispo!

Ajoelhou-se diante do Arcebispo e derraman-do lagrimas pediu-lhe que dele se compadecesse impedindo tal nomeação. O prelado ficou comovido e prometeu fazer o possível para livrá-lo da mitra. Pa-dre Neumann escreveu incontinenti ao Procurador Geral em Roma rogando que pusesse em jogo todos os recursos ao seu alcance. Muito rezou e fez rezar. Mandou ás comunidades que pedissem a Deus para afastar de uma diocese americana uma enorme ca-lamidade. Os padres de Santo Afonso rezavam os 34 salmos penitenciais para não perderem o querido Reitor.

Tudo inútil. “Todas as nossas diligencias — escreveu-lhe padre Quéloz — não deram resultado” O Santo Padre respondeu aos pedidos na seguinte forma: “Trago em meu coração a todos os padres Redentoristas. Fizeram no caso o que Deus deles exige. Mas tenho confiança em Deus que me não engano para conhecer o que o bem da Igreja recla-ma, e o que pede o bem de Congregação em parti-cular. Aprovo pois os votos dos Cardeais e ordeno ao padre Neumann que aceite o bispado de Filadél-fia sub oboedientia formali, sem mais apelação.”

Entrando certo dia em sua pobre cela viu pa-dre Neumann reluzir sobre a mesa um anel e uma cruz peitoral. Na sua ausência tinham sido estes ob-jetos colocados no quarto pelo Arcebispo D. Kenrick. Entendeu logo o sentido de tudo. Estava nomeado Bispo. Passou a noite em oração.

No dia seguinte — 20 de março de 1852 — entregou-lhe o prelado a bula pontifícia com a ordem formal do Santo Padre. Logo no dia 28, depois de um retiro de oito dias, foi consagrado Bispo, na igreja de Santo Afonso em Baltimore. A participação do povo católico não podia ser maior. D. Kenrick foi o sagrante. Como lema tomou o novo Bispo as pala-vras: “Passio Christi conforta me.” Dois dias após a sagração partiu para Filadélfia.

A recepção do novo Bispo na estação da ci-dade episcopal foi singela e modesta. Não queriam os padres sabedores que eram da humildade do pre-lado, vexá-lo com pompas ruidosas e acertadamente empregaram o dinheiro arrecadado para isso em escolas católicas. Muito agradou ao Bispo tão feliz idéia e logo deu a seus padres os mais calorosos parabéns.

Uma das primeiras cousas do prelado foi ir á cadeia onde se achavam dois condenados á morte por homicídio praticado. Os pobres nada queriam saber de penitencia e reconciliação com Deus. Neumann gastou muito tempo para convencê-los, ora com energia ora com bondade, a que se prepa-rassem para a morte. Conseguiu-o finalmente. Am-bos morreram reconciliados com Deus.

Vivia exclusivamente para o rebanho que Deus lhe havia confiado. Fazia tudo para todos afim de ganhá-los para Nosso Senhor. Todos os domin-gos e dias de festa pregava em uma ou mais igrejas. Sem tardar começou a visita de sua enorme diocese. Anualmente visitava os lugares maiores; os menores de dois em dois anos. Convertia essas visitas em verdadeiras missões. Pois pregava, ouvia confis-sões, dava catecismo, e estava á disposição de quantos o procurassem. Era conhecido que o Bispo ouvia confissões em seis a sete línguas. Só para confessar uns velhos irlandeses, diocesanos seus, mas que não falavam o inglês aprendeu também o irlandês. Uma velha irlandesa depois de confessar-se com o Bispo foi toda contente dizer em casa: “Graças a Deus que temos agora um bispo de nossa terra.”

Pela iniciativa ou sob os auspícios do Prelado surgiram como por encanto novas igrejas e escolas em todos os cantos da diocese. Já no primeiro ano de governo pôde Neumann inaugurar e benzer cin-qüenta novas igrejas. Em 1857 podia escrever a seu velho pai: “Passei quase todo o verão em visitas pastorais que, apesar de todos os incômodos que

 

trazem, me deram muito consolo. Os católicos ga-nham cada vez mais coragem e mostram maior zelo pela nossa religião. Neste verão foram construídas 20 novas igrejas, custeadas todas pelas coletas nas respectivas freguesias. Há entre elas seis igrejas dos alemães. Aqui em Filadélfia estão construindo atu-almente quatro igrejas; a catedral é toda de pedra as outras são de tijolos. Em 1859 era inaugurada a be-líssima catedral. É uma das maiores dos Estados Unidos.Quanto ás escolas católicas declarou logo na sua primeira pastoral que formariam o objeto de sua solicitude principal. Somente duas escolas existiam quando chegou Filadélfia. Oito anos depois — ao fechar os olhos na morte — havia perto de cem es-colas. No ultimo ano de sua vida pôde dizer: “O céu tem abençoado visivelmente a obra das escolas pa-roquiais. Quase não há paróquia sem a sua. Para dirigi-las solicitou o concurso de varias Congrega-ções religiosas. Como não bastassem as então exis-tentes, fundou a conselho do Santo Padre, uma Congregação de Irmãs Terceiras de S. Francisco, dando-lhes para esse fim mui sabias constituições. Atualmente o Instituto conta com mais de quatro mil religiosas.

 

Algumas vezes necessitava vencer resistências e desunimos por parte dos vigários. Assim um dos vi-gários da sede episcopal não podia resolver-se a abrir a desejada escola, apesar das reiteradas or-dens do seu Bispo. Julgava que não era oportuno o momento e impossível a ereção da escola.

— Si tal vos parece, disse por fim o Bispo, saberei arranjar para a paróquia outro padre que julgue possível a realização do meu desejo.

 

Foi quanto bastou. A escola foi aberta e em pouco tempo contava com milhares de alunos. As famílias católicas secundaram as intenções do Pre-lado e em breve tempo viram-se despovoadas as escolas oficiais. A debandada chamou a atenção da opinião publica. Um dos jornais escreveu: “Lastima-mos que uma das confissões mais estimadas da nossa cidade (a população católica) tenha retirado sua confiança em nossas escolas. Devem existir muitos erros no nosso sistema; o governo terá que abrir um inquérito sobre o caso e remediar as faltas.”

Para meninas havia três colégios dirigidos pelas Irmãs da Visitação e pelas Damas do Sagrado Coração. Neumann conseguiu que fossem abertos mais outros três. Para meninos possuía a diocese três internatos. Fez abrir mais um. Gostava de visitar os alunos desses colégios e lhes falava do amor de Deus, da dedicação aos estudos. Tinha especial prezar em estimulá-los no estudo. Assim acontecia que cativos de sua afabilidade e sabedores dos seus profundos conhecimentos vinham os alunos expor ao “Bispo” problemas difíceis na solução. Um dia, ao entrar numa aula, deu com o professor e os alunos embaraçados por causa de uma afirmação feita pelo autor do compendio e o resultado obtido pela obser-vação no telescópio. Expuseram logo o caso ao Bis-po. Em poucas palavras e sorrindo lhes cortou o Bispo o nó da questão, dando-lhes o rumo a seguir. Outra vez era uma planta, da qual não se sabia des-cobrir o nome e a classificação. Monsenhor esclare-ceu a dificuldade e indicou o livro onde estava a indi-cação desejada.

Ao lado da catedral edificou um asilo para as crianças pobres. Seguidamente ia ver suas orfãzinh

 

as. Era isso um dia de festa, pois nunca vinha com as algibeiras vazias. Sua entrada punha aquela colméia de crianças em polvorosa. Cercado por elas falava-lhes do Pai que está nos céus, da sua bonda-de, das flores que criou para nossa alegria. E por aí começava. As crianças faziam-lhe uma infinidade de perguntas curiosas sobre o sol, a lua, as estrelas, as flores e os anjinhos. Neumann esquecia-se do mun-do e tornava a ser criança com aquele mundo infan-til.

O Bispo saía para confessar os pobres doen-tes. Mesmo á noite o viam dirigir-se á casa de um pobre moribundo, levando auxilio para o corpo e pa-ra a alma. No hospital, onde era visitante assíduo, parava á cabeceira de cada cama consolando os enfermos e animando-os á paciência. Não se esque-cia de recomendar ás Irmãs que vissem nos doentes a Jesus padecendo.

Cônscio da utilidade das Missões, tratou de mandar pregá-las desde o primeiro ano de seu governo. As-sistia devotamente ás pregações e exercícios da Missão para assim atrair as bênçãos de Deus sobre o povo por seu exemplo e oração.

Especial cuidado votava á formação dos futu-ros sacerdotes. Por isso fazia freqüentes instruções aos seminaristas sobre a teologia pastoral. Guarda-se ainda no seminário de Filadélfia um manuscrito que contem a explicação do Novo Testamento, escri-ta pelo Bispo. Ao chegar á sede encontrou apenas 40 seminaristas e cem padres, número certamente insuficiente para a vasta extensão da diocese. Neu-mann dirigiu-se a seus amigos na Europa para, por intermédio deles, conseguir bons sacerdotes ou teó-logos. Só em 1859 viu a realização de um sonho de 39

muitos anos: pôde inaugurar o seminário menor, destinado a meninos que se julgassem chamados para o sacerdócio. Daí tirou um bom e numeroso clero. O históriador Clarke afirma: “O seminário al-cançou sob o governo de Neumann tão grande pres-tigio como nunca dantes tivera.” O Santo Padre con-cedeu-lhe o privilegio de conferir o grau de doutor.

Seguindo o exemplo de Santo Afonso consa-grava Neumann a mais profunda veneração aos sa-cerdotes e trazia-os todos bem dentro do coração. Era em verdade o amigo mais dedicado deles todos. Obrigava-os a se cuidarem quando doentes, respon-dia imediatamente ás suas cartas e não recuava di-ante qualquer sacrifício para tirá-los de algum emba-raço ou torná-los contentes. Sua casa era o hotel dos padres que passavam pela cidade. Mas a isso unia também zelo pela disciplina e pelo fiel desem-penho dos deveres. Principalmente exigia que an-dassem sempre com o habito eclesiástico e não fre-qüentassem as estações de banho.

Todos os grandes e celebres Bispos na Santa Igreja jamais deixaram de consagrar dedicado amor ás Ordens religiosas. Também Neumann não se es-queceu de seguir essa tradição. Membro de uma Congregação religiosa não podia negar suas prefe-rências para os religiosos. Guardou como armas do bispado as próprias armas da Congregação. Usou, até o momento de ser censurado por diversos sa-cerdotes, o habito redentorista. Mas quando ia pas-sar uns dias com os seus confrades vestia de novo o habito de Santo Afonso.

Certo dia alguém teve a imprudência de lhe dizer que já não era redentorista. Neumann afligiu-se muito e propôs sua duvida ao Santo Padre Pio IX. Este o sossegou dizendo que possuía as virtudes de um bom religioso e que tinha parte nos méritos de seus confrades.

Seu amor não se limitava á Congregação de seus votos. Estendia-se a todas. Não se contentava com um interesse geral pela prosperidade dos insti-tutos religiosos, mas gostava de lhes mostrar essa grande afeição a cada passo, mesmo nas necessi-dades temporais. Ia muitas vezes presidir ás vesti-ções e profissões nos conventos. Era edificantíssima a piedade com que fazia todas as cerimônias. Suas palavras calavam nos corações e ainda mais acen-diam nas almas religiosas o amor pelo estado aben-çoado. Quando não podia assistir desculpava-se de moto tão atencioso que causava ótima impressão. Nas cartas ás Superioras de conventos repetia que nunca deviam deixar de recorrer a ele em qualquer embaraço. “Na hora em que a precisão bater em vosso convento — escrevia a uma Superiora — avi-sai-me sem demora. Pois ainda que pobre eu tam-bém saberei valer-vos, porque Deus não nos aban-donará.” Um dia, ao visitar um convento de irmãs, disse-lhe a Superiora: “Monsenhor, é-nos bem difícil a vida. Ora não temos carvão e ora temos carvão, mas não temos o que cozinhar.” O Bispo animou-a, mostrando-lhe o Crucifixo na parede e ajuntou riso-nhamente: “Sendo meu costume distribuir medalhas, quero hoje distribuir umas medalhas-yankees.” E dizendo assim, passou para as mãos da Superiora cinqüenta dólares ouro.

Todavia era seu maior cuidado que reinasse nas comunidades o verdadeiro espírito religioso. Procedia meticulosamente na escolha dos confesso-res para religiosas. Como Santo Afonso queria que as Irmãs educadoras fossem bem instruídas no livro do Crucificado. “O livro que mais deveis conhecer é o de vossas Regras; sendo fieis a Deus ele abenço-ará vossos trabalhos. Estou convencido que fará maior bem na classe uma Irmã que, possuindo me-nos ciência, tiver mais espírito de fidelidade a Deus.”

Por mais que Neumann trabalhasse para au-mentar o clero de sua diocese nunca diferiu por mui-to tempo a licença que algum padre pedia para en-trar num convento de religiosos. Estava convencido que Deus mandaria outro no lugar daquele que dei-xara o mundo para melhor servir a Nosso Senhor. Ia até mais longe. Muitas vezes nas conferencias aos jovens clérigos discorria sobre a sublimidade do es-tado religioso e animava-os a manifestarem algum desejo, que julgassem ter sobre este estado, prome-tendo de coração abençoar o eleito por Deus.

Parece inútil dizer que Neumann como Bispo ficou sendo o mesmo homem virtuoso, como no tempo de simples sacerdote e religioso. Todas as semanas ia ao convento dos Redentoristas para confessar-se. Uma vez por mês fazia um dia de reti-ro no convento de seus confrades. Nunca perdia os dez dias de retiro impostos pela Regra da Congre-gação. Não quis aceitar criados para a sua pessoa. Ele mesmo punha em ordem o quarto, limpava os sapatos e escovava as vestes. Tomava o café na sala de jantar e quando se julgava despercebido to-mava um pouco de água com um pedaço de pão. E era tudo. Depois de sua morte o confessor manifes-tou o seguinte: “D. Neumann praticava sem cessar as virtudes da abnegação e mortificação, mas de modo tão prudente e discreto que a ninguém vexava ou causava admiração. Ocultamente levava sempre

 

o cilício e macerava o corpo com uma disciplina de pregos as pontas. Graças a uma constante vigilân-cia dos sentidos e recolhimento de espírito, chegou a vedar ás paixões que lhe perturbassem a paz da alma cândida e pura. Alcançou alto grau de contemplação. Seguindo o exemplo de Santo Afonso fez o voto de não perder um momento de tempo e guar-dou-o fielmente até a morte. Mesmo nas viagens via-se-lhe com um livro nas mãos, ou então escutava-se-lhe falar de cousas divinas.” A piedade mostrava-se principalmente quando o Bispo celebrava a Santa Missa ou conferia algum sacramento.

Não teve sossego enquanto não introduziu na sua diocese a adoração das Quarenta Horas, o que até então não era usado na América do Norte.Deus mesmo se encarregou de guiá-lo nesta empre-sa. Há tempo lutava Neumann para convencer seus padres das vantagens deste piedoso exercício. Eles porém opinavam que seria para se temer mais a pro-fanação e desrespeito do Santíssimo Sacramento. O servo de Deus flutuava entre o ditame de seus con-selheiros e as aspirações de sua piedade quando resolveu o caso. Uma noite já havia escrito muito tempo no seu gabinete, quando se apaga a luz. Neumann acende outro toco de vela e continua o trabalho. O cansaço venceu-o e adormeceu. Quando acorda vê queimados os papeis que despachava, mas com as letras bem legíveis. Comovido cai de joelhos e ouviu no interior uma voz que lhe dizia: “Assim como a chama arde sem destruir e prejudicar as letras, assim eu distribuirei minhas graças no Santíssimo Sacramento sem prejuízo de minha hon-ra. Não temas, pois, uma profanação de meu Sa-cramento e não adies a execução de teu desígnio.” No mesmo dia escreveu Neumann o decreto ordenando o exercício das Quarenta Horas nas pa-róquias.

5. Viagem a Roma e últimos anos de vida

A convite do Santo Padre Pio IX, embarcou o Bispo Neumann em outubro para Europa. Era isso o ano de 1854. Queria ele assistir á solene declaração do dogma da Imaculada Conceição, ato que teve lugar a oito de dezembro do mesmo ano.

Em Roma hospedou-se o Prelado na casa dos seus confrades, em Monterone. Todos edifica-ram-se com seu espírito de pobreza e humildade. Saía quase sempre sem as insígnias de sua digni-dade, a pé sem fazer caso do tempo que reinava.

Sua extrema modéstia não impediu que sobre ele caíssem as vistas dos cardeais e do Papa. Pio IX convidou-o diversas vezes para audiências privadas e distinguiu-o ainda com mais outras atenções. A primeira vez que foi falar ao Papa este recebeu-o cheio de amabilidade e disse-lhe: “Monsenhor Neu-mann, bispo de Filadélfia! Então a obediência não vale mais que sacrifícios?” Escutou em seguida a relação que Neumann lhe fez sobre a diocese, deci-diu diversos casos difíceis e por fim conferiu-lhe a dignidade de prelado domestico de Sua Santidade e diversas faculdades e privilégios.

Aos 17 de dezembro escrevia monsenhor Neumann a um de seus padres: “É impossível des-crever-lhe a solenidade do dia oito deste mês. Não tenho nem tempo nem talento para tanto. Agradeço a Deus haver-me concedido, após tantas graças, esta de poder ser testemunha da festividade em Roma.” De Roma foi a Loreto celebrar a Santa Missa na Casa Santa. Fez a viagem á moda dos pobres peregrinos. Causou isso suma admiração a um se-nhor que o havia conhecido em Roma e agora o encontrava num pobre hotel de Ancona. Uma aventura esperava nosso homem. Não podendo ler o passa-porte escrito em inglês, queria um soldado austríaco levar a Neumann para o primeiro posto policial. Não teve ele outro recurso senão mostrar sua cruz de Bispo e o anel sagrado. Á vista disso declarou-se satisfeito o guarda da fronteira. Em Viena hospedou-se com os seus confrades na celebre igreja de Maria Stiegen.

Em Praga foi recebido pelo imperador Fer-nando que lhe fez o presente de mil florins para a construção da catedral em Filadélfia.

Seus padroeiros no céu não se esqueceram do humilde Bispo. Disso é prova o seguinte fato. Na viagem de Roma a Viena extraviara-se um cofrezi-nho que levava muitas e preciosas relíquias. Em vão mandou diversos telegramas da estação de Viena. Neste transe encomenda-se Neumann a Santo An-tônio, fazendo o voto de colocar sua imagem numa das igrejas de Filadélfia. Nem havia acabado a pro-messa quando se aproxima um jovem e lhe entrega amavelmente um volume, dizendo: “Aqui tem o ex-mo. sr. Bispo o procurado cofrezinho.” Neumann fi-cou algo admirado ao ouvir o titulo de Bispo porque viajava sem insígnia alguma. Quis recompensar o atencioso portador mas não o viu mais.

De Praga foi a Prachatitz para saudar a seu velho pai. Tencionava chegar sem ser esperado. Enganou-se no entanto. Adivinhando essa intenção, mandaram seus concidadãos um espião na frente para denunciar a partida e prevenir a chegada do Bispo. Assim teve soleníssima recepção, sendo le-vado á igreja matriz ao repique de sinos e estourar de morteiros. Depois de cantar o Te-Deum dirigiu Neumann algumas palavras a seus conterrâneos. Comovedor foi o encontro com o velho pai que cho-rava de alegria. Como um dos presentes lamentasse a ausência da mãe, observou Neumann: “Ela nos vê do céu e alegra-se conosco.” Permaneceu seis dias com os seus concidadãos.

No dia 9 de fevereiro, bem de madrugada, deixou ás escondidas sua terra natal, voltando para América. Passou por Paris e Liverpool chegando a Filadélfia a 28 de março de 1855.

Não podemos deixar sem menção um fato ocorrido em Munique que mostra claramente a hu-mildade do venerável Bispo. Parando alguns dias naquela cidade recebeu o convite para assistir ás exéquias solenes do Arcebispo, há pouco falecido. Á hora marcada entrou na sacristia um sacerdote de pequena estatura, com uma valise na mão, retiran-do-se para um canto onde se pôs a rezar o rosário. Era o Bispo Neumann. Enquanto rezava ouviu dizer aos padres vizinhos que se esperava o Bispo de Fi-ladélfia, que havia aceitado o convite. Teve então que abrir a valise e vestir-se como Bispo causando admiração a todos pela modéstia de seu procedi-mento.

De volta á sede episcopal continuou os traba-lhos com redobrado zelo. O peso da diocese já se lhe ia tornando cada vez mais sensível. Neumann queixa-se disso numa carta pelos fins de 1856: “Os trabalhos vão crescendo. Pois o numero dos católi-cos aumenta rapidamente e na mesma proporção me crescem os cuidados. Oxalá andassem todos os católicos fazendo progressos idênticos no amor de Deus. Estou sozinho nesse intrincado de tarefas. Por enquanto não estando a catedral em condições de

culto, não posso ocupar e sustentar a vários padres e por isso tenho que despachar pessoalmente as dispensas e atender a todos os negócios, a grandes e pequenos que me procuram, a clérigos e regula-res. Tudo isso me traz numa dobadoura desde sete da manhã até nova horas da noite. Á noite estou cansadíssimo, mas, graças a Deus, a saúde é boa e resistente. Penso também não andar muito longe o dia de me ver livre deste desterro.” Realmente seus pensamentos voltavam-se seguidos para solidão. Tinha saudades das viagens pelo ermo das florestas quando ia visitar os pobres católicos perdidos nas choupanas. Isso escreve numa carta. De fato ofere-ceu-se na reunião provincial dos Bispo em Baltimore para aceitar uma das novas dioceses então planeja-das. A Santa Sé não aceitou a oferta de Neumann e deu-lhe um Bispo coadjutor na pessoa de D. Frede-rico Jayme Wood. Dois anos mais tarde já sucedia ao servo de Deus na sede do bispado.

Grande dor estava reservada ao bondoso co-ração do Bispo. E essa veio-lhe com a horrível ca-tástrofe de 17 de julho de 1856. Segundo o costume iam as crianças de uma paróquia da cidade fazer uma excursão pelos campos. Eram acompanhadas pelo vigário e pelos professores. Desde as cinco ho-ras da manhã setecentas crianças, num ruído de andorinhas nas manhãs de primavera, tomaram o trem que as devia levar á desejada estação. A morte estava de ronda naquela região. Em desabalada ve-locidade vem do lado oposto um outro trem dando-se um formidável encontro, trepando as maquinas uma por cima da outra. Os carros ficaram espatifa-dos e sobre o montão de tábuas rebentou apavoran-te incêndio. Gritos e gemidos de toda espécie saíam

 

do meio das labaredas. Sessenta e quatro cadáve-res foram retirados dos escombros entre eles o do vigário, padre Sheridan. Os feridos eram oitenta e quatro. A cidade inteira caiu em profunda consterna-ção e muitas famílias vestiram luto pela morte de seus filhos. O pobre Bispo não o sentiu menos. Inter-rompeu imediatamente a visita pastoral para levar aos enlutados as palavras de consolo e conforto e aos feridos os socorros de seu ministério. Chorou com os desditosos pais e muito contribuíram suas palavras para alívio dos que Deus acabava de pro-var de modo tão rude.

Entretanto chegava também o fim da vida pa-ra o servo de Deus. Os receios expostos nas suas cartas iam tornar-se realidade. Estava próxima a ho-ra de sua recompensa. Alguns dias antes de morrer foi o Bispo, como de costume, confessar-se no con-vento de seus confrades. Enquanto esperava pelo padre Reitor encetou uma prosa com o irmão portei-ro.

— Irmão, qual a morte que o sr. preferiria ter uma vez? — disse-lhe Neumann.

— Eu prefiro morrer depois de uma doença suportada com paciência; morte repentina é cousa arriscada, retorquiu o irmão.

— Um cristão deve no entanto estar pronto para morrer a qualquer hora e muito mais ainda um religi-oso. Estando preparado, ganha mais com a morte rápida e poupa aos outros muito trabalho e a si mesmo muita ocasião de impaciência. Em todo caso é sempre melhor o gênero de morte que Deus envi-ar.

A um sobrinho que o acompanhava numa sa-ída disse: “Meu padre chegará a ter muita idade; eu não chegarei aos cinqüenta.” E como o companheiro contestasse tal afirmação, repetiu-lhe: “Pois há de ver; eu não chegarei aos cinqüenta.”

Os prognósticos do santo Bispo deviam se cumprir. Aos cinco de janeiro, véspera dos Santos Reis, sentiu-se indisposto. Não obstante procurou divertir os comensais contando-lhes uma curiosa anedota de sua vida passada. De tarde saiu de casa para assinar um documento de certa propriedade da diocese. Ao voltar para casa caiu por terra numa das ruas da cidade, vitimado por violento ataque de apo-plexia. Levaram-no para a casa mais próxima esten-deram-no sobre um tapete e tentaram reanimá-lo. Em vão. Quando chegou o secretario do bispado com os Santos Óleos, quase ao mesmo momento, já era tarde. João Nepomuceno Neumann, Bispo de Filadélfia estava morto.

O telegrafo espalhou célere a noticia pelos quatro cantos do país. Foi uma consternação geral e pro-funda. Todos sabiam que o Bispo se havia sacrifica-do pelo excesso de trabalho. O mesmo dizia o Vigá-rio Geral, testemunha ocular do continuo esforço do falecido. No começo não se queria dar credito á no-va tão triste, mas os contínuos dobres de sino e os anúncios nas igrejas convenceram o bom povo de Filadélfia. Na manhã da Epifania foi o corpo exposto na capela do bispado onde enorme multidão desfilou em visita ao querido prelado. No dia nove foi então o solene sepultamento. O corpo foi levado descoberto. Nunca Filadélfia vira cousa igual em grandiosidade. Na frente marchava um corpo de policia e uma com-panhia de soldados com a banda de musica. Vinham em seguida as sociedades literárias, vinte e sete confrarias e irmandades, treze sociedades vindas de

 

Baltimore, depois as escolas e orfanatos da cidade, os alunos do seminário maior e menor e uma cente-nas de padres. O que mais chamava a atenção da compacta multidão ao longo das ruas era o aspecto calmo e tranqüilo do falecido que parecia dormir. Após a Missa de corpo presente, falou aos fieis o exmo. D. Kenrick e entre palavras disse ele: “Si saís para um negocio pensai que talvez não voltareis vi-vos; quando vos acomodais á noite refleti que o dia seguinte poderá encontrar-vos já sem vida!” Com as primeiras palavras descrevia a morte do seu grande amigo Neumann e com as ultimas fazia uma profecia sobre sua morte. Realmente três anos mais tarde era D. Kenrick encontrado morto na cama, pela ma-nhã.

Colocaram o corpo do Bispo na cripta da igre-ja de S. Pedro. Até na morte ficou Neumann no meio de seus confrades, em cuja igreja se acha a referida cripta.

6. A glória depois da morte

Os grandes vultos da história profana morrem e levam sua grandeza. Com os santos de Deus co-meça a glória muitas vezes depois da morte. O mesmo se deu com Neumann. O povo fez justiça aos méritos do santo. Tornou-se celebre o seu se-pulcro, sendo muitos os que vinham pedir favores naquele lugar, e quis o céu atender a esses pedidos para mostrar a santidade do invocado.

Atesta um sacerdote altamente colocado que por diversas vezes se havia recomendado ao Servo de Deus sendo sempre atendido com prometido, mesmo nos negócios mais intrincados.

A Irmã Anselma da Congregação de Nossa Senhora era professora na escola paroquial de S. Pedro. Não podia continuar no cargo por causa da surdez. Mal ouvia suas co-irmãs quando falavam em voz alta e junto ao ouvido. Que fez? Apegou-se com o Servo de Deus. Sua classe era contígua á cripta de S. Pedro e todas as manhãs antes de começar a aula ia rezar diante do sepulcro de Neumann. E con-seguiu o que pedia. Durante cinco anos pôde dar as aulas, ouvindo perfeitamente as respostas das crian-ças. Mas (cousa curiosa) a surdez voltava logo de-pois das aulas, e quando a tiraram de professora por causa da idade perdeu a Irmã completamente a au-dição.

Uma senhora de Filadélfia que sofria de cha-gas abertas nos pés livrou-se delas pela intercessão de Neumann.

Animada com isso recorreu também ao mes-mo protetor uma menina de doze anos ameaçada de perder a vista. Começou logo uma novena, visitando diariamente o sepulcro do Bispo. Repetia mui-tas vezes: “Meu santo e bondoso Bispo curai-me para que eu possa voltar á escola!” Seus rogos in-fantis não foram em vão; realmente desapareceu o perigo e deram os médicos permissão para a criança voltar para a escola.

Um professor que perdera a fala, em conse-qüência de um ataque nervoso, recobrou-a na cripta do Servo de Deus. Da mesma forma uma pobre viú-va paralítica e doente de cancro e que já se resigna-ra a morrer encontrou no mesmo lugar nova espe-rança e saúde.

Pelos fins de 1897 vários jornais americanos trouxe-ram a seguinte noticia: “A sepultura do Bispo Neu-mann é visitada todos os dias por centenas de pes-soas, mesmo acatólicas. De dia para dia cresce seu numero. Tuberculosos e outros doentes são cura-dos, cegos recuperam a vista e andam os paralíti-cos. O céu parece querer confirmar a fama de santi-dade do humilde Bispo.”

A 15 de dezembro de 1895 o Papa Leão XIII assinou o decreto pelo qual ordenava a introdução do processo de beatificação do Venerável Bispo Neumann. Um novo decreto de Santa Sé a 11 de dezembro de 1921 declara como heróicas as virtu-des do Venerável.

Esperamos que Deus, o glorificador dos hu-mildes, conceda logo a seu Servo a mais elevada honra que é permitido alcançar na terra: a honra dos altares.

Quando foi da declaração da heroicidade das virtudes do Servo de Deus Bento XV pronunciou um longo discurso do qual extraimos diversos pontos.

“Todos nossos amados filhos devem tirar pro-veito do presente decreto pelo motivo da índole pró-pria que apresentam as virtudes do Venerável Neu-mann. Sobre esta índole se exagerou talvez a sim-plicidade pelos que julgavam não se poder reconhe-cer o grau heróico na virtude deste Servo de Deus, porque a seus olhos, as boas e santas obras feitas por Neumann são aquelas que todo zeloso missioná-rio, todo bom Bispo devem praticar. Mas nós dize-mos que, mesmo as mais simples obras, feitas com constante perfeição no meio de dificuldades inevitá-veis podem atingir o grau de heroismo de virtude na vida de qualquer santo. Na simplicidade destas o-bras descobrimos um forte argumento para dizer a todos os fieis de todo sexo e idade: “Vós estais obri-gados a imitar o Venerável Neumann!” Não se exige para tanto que sejam todos missionários, que abra-cem a carreira sacerdotal, que sejam Bispos de Fila-délfia e governem uma diocese, não. Requer-se que cada um seja homem de seu dever.

No meio desta simplicidade a admirável ativi-dade do homem de Deus! O extraordinário numero de igrejas erigidas e escolas abertas pelo missioná-rio e Bispo, unido ao numero muito maior de Missões pregadas de sacramentos administrados de visitas pastorais oportunamente realizadas: tudo isso fala muito alto em favor do humilde Neumann. Todavia se não mede o mérito de um homem de atividade, tanto pelo numero de suas ações, como na eficácia e estabilidade delas. Pois a verdadeira atividade não é um simples rumor, não é cousa de um dia; é obra que se desenvolve na hora presente sendo fruto do passado e devendo ser semente para o vindouro. Todos estes caracteres teve a atividade de Neumann. Antes de tudo preparou-a. Fale em seu favor o cuidado em aprender novas línguas, a insistência perante seu Bispo para trabalhar na América, a dili-gencia e paciência em se preparar e impressionar com o exemplo e palavra.

Não admira depois de tanta preparação o ex-traordinário resultado que conseguiu. Atribuíam-no ao desinteresse em procurar a gloria de Deus e a salvação das almas. Sua vida diz claramente em cada pagina qual foi a colheita que fez em todos os campos de atividade.

Em tudo isso não perdia de vista o futuro, tendo em mira a estabilidade das cousas. É claro que esta estabilidade depende do sentido pratico das cousas e das obras, de acordo e proporção com o valor objetivo de cada uma delas. É evidente que os bens espirituais merecem mais estima do que os bens materiais, merecendo portanto ser chamado mais ativo aquele que procura primeiro o progresso intelectual e moral em vez do bem estar físico e ma-terial do povo. A favor de Neumann falam as inuma-res escolas com que enriqueceu sua diocese. E es-colas abertamente católicas! Assim se mostrou ho-mem ativíssimo porque os meninos de hoje serão os homens de amanhã.

Como prova de nobreza e generosidade aí fica seu oferecimento para aceitar a novel diocese de Pottsville.

……………………………………………………………..

Seja a simplicidade heróica da vida e das ações de Neumann, eficaz estimulo para os que com ele têm comum a vocação de missionários; seja-o para os Bispos, que com Neumann têm comuns a dignidade e responsabilidade do altíssimo cargo, e seja-o tam-bém para a aqueles que em nossos dias se chamam propagandistas da ação católica. Queremo-los ati-vos, mas com aquela atividade que teve o Venerável Neumann e que foi tão admirável que se preparou com o estudo, se nutriu do zelo e desinteresse, sabi-amente foi dirigida para o fim e fecundada com in-comparável generosidade de espírito.

Sorri-nos a esperança de que será realizado esse nosso desejo pelos filhos de Santo Afonso que se apressarão em imitar o exemplo de seu Venerá-vel confrade, aumentando assim as glorias de sua benemérita Congregação.”

Fonte:Vida de João Nepómuceno Neumann. Bispo Redentorista da Filadélfia. Aparecida. 2004.p.1-55.

 

Biografia de São João de Deus

MENSAGEM DO PAPA JOÃO PAULO II
AO PRIOR-GERAL DA ORDEM HOSPITALEIRA
DE SÃO JOÃO DE DEUS NO PRIMEIRO CENTENÁRIO
 DO NASCIMENTO DE SÃO RICARDO PAMPURI

 Ao Reverendíssimo FR. PASCUAL PILES FERRANDO
Prior-Geral da Ordem Hospitaleira de São João de Deus

1. No centenário do nascimento de São Ricardo Pampuri, desejo dar graças ao Senhor por este Santo que honra essa Família religiosa. A presença das suas Relíquias no hospital dos Fatebenefratelli, na Ilha Tiberina, constitui a ocasião oportuna para repropor, a quantos trabalham no âmbito dessa estrutura hospitalar, o testemunho eloquente da sua vida, inteiramente impregnada do programa ascético do «ama nesciri et pro nihilo reputari». Tive a alegria de proclamar Beato em 1981, e Santo em 1989, esta límpida figura de homem do nosso tempo. Nele refulgem os traços da espiritualidade laical delineada pelo Concílio Ecuménico Vaticano II.

A sua existência terrena, contida no arco de apenas 33 anos, mostra como em breve tempo este jovem religioso soube alcançar o ápice da santidade. Nos primeiros anos de vida em Trivolzio e Torrino, durante os estudos secundários e universitários em Milão e Pavia, na frente ítalo-austríaca durante a primeira guerra mundial, e depois em Morimondo, como médico municipal, deixou em toda a parte vestígios de piedade e de amor pelos pobres. Sustentado pelo exemplo dos seus entes queridos e pelo convívio com piedosos e zelosos sacerdotes, empenhou-se em múltiplos campos de apostolado: foi sócio assíduo e generoso do Círculo Universitário e das Conferências de São Vicente de Paulo, presidente da Associação juvenil da Acção Católica, Terciário franciscano e animador incansável de iniciativas de formação espiritual e de caridade. Com a idade de 30 anos, entrou na Ordem dos Fatebenefratelli, de cujo carisma se tornou um dos intérpretes mais significativos.

2. «Bom Mestre, que devo fazer para alcançar a vida eterna?» (Mc 10, 17). Parece ser esta a pergunta que atravessa os pensamentos deste jovem, sempre em busca da perfeição cristã. «Falta-te apenas uma coisa: Vai, vende tudo o que tens, dá o dinheiro aos pobres e segue- Me» (Mc 10, 21). Ao convite do Senhor ele, dotado de fé e caridade profunda, respondeu com alegria, doando-se completamente a Cristo pobre, humilde e casto e entrando na Ordem dos Fatebenefratelli. Vítima de uma doença contraída em zona de guerra, ao abraçar o carisma de São João de Deus, conseguiu dar plenitude ao seu desejo de anunciar e testemunhar aos doentes o Evangelho de Cristo crucificado e ressuscitado.

Como o divino Mestre, sentiu a urgência do «deserto» e da oração (cf. Mc 1, 35) para depois poder servir os irmãos, especialmente os doentes e os sofredores. «Tenho necessidade de me recolher um pouco em mim mesmo na presença do Senhor, para que a minha alma não se torne insensível nem se perca em estéreis e prejudiciais preocupações externas», escrevia numa sua carta. Essa necessidade levava-o a viver constantemente unido ao Senhor, a deter-se por longo tempo diante do tabernáculo e a nutrir uma terna devoção pela Virgem. Na escola do Evangelho, tornou-se para quantos o conheceram e, sobretudo, para os seus assistidos um sinal vivo da misericórdia de Deus, sempre disponível a ver nos doentes o Cristo que sofre, a ajoelhar-se na soleira das casas onde reinava a dor e a partir apressado sem esperar nenhuma recompensa.

Tendo escolhido cumprir profundamente a vontade do Pai, à imitação do seu Senhor, viveu como acto supremo de obediência e de amor também a doença e a morte.

3. Como não acolher a mensagem contida no maravilhoso caminho de santidade de São Ricardo Pampuri, que essas celebrações centenárias repropõem de modo eloquente?

Aos Coirmãos da Ordem à qual pertencia, chamados a servir Cristo nos doentes, o testemunho deste jovem médico- cirurgião indica que a união com Deus deve alimentar constantemente a vida religiosa e a actividade apostólica. Aos leigos que trabalham nas estruturas hospitalares, São Ricardo Pampuri, médico apaixonado pela sua missão entre os doentes, propõe que amem a própria profissão e a vivam como vocação. Ele, que no cuidado dos que sofriam jamais separou ciência e fé, empenho civil e espírito apostólico, convida todos os agentes de saúde a terem sempre em conta a dignidade da pessoa humana, para exercerem o «dever quotidiano» com o espírito do bom Samaritano. O testemunho que deu na doença, que o levou à morte, encoraja todos os que sofrem a não perderem a confiança em Deus; antes, exorta-os a acolher também na prova o projecto de amor do Senhor.

Enquanto invoco a especial protecção de São Ricardo Pampuri, oro para que as celebrações jubilares do seu nascimento e o inteiro programa espiritual e cultural preparado para essa festividade, constituam para todos uma ocasião de renovado empenho na vida cristã, nas relações interpessoais e no serviço aos doentes.

Possam aqueles que visitam as Relíquias de São Ricardo Pampuri, com a radicalidade e generosidade por ele testemunhadas até à morte, seguir o exemplo de São João de Deus, Fundador dessa Ordem Hospitaleira.

Com estes bons votos, concedo-lhe, bem como aos Coirmãos, às Religiosas colaboradoras, aos Agentes de saúde e aos doentes uma especial Bênção Apostólica.

Vaticano, 22 de Outubro de 1997.

JOÃO PAULO II

Fonte:http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/speeches/1997/october/documents/hf_jp-ii_spe_19971022_pampuri_po.html

DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II
AOS CAPITULARES DA ORDEM HOSPITALEIRA
 DE SÃO JOÃO DE DEUS

Quinta-feira, 13 de Dezembro de 1979

 

Irmãos e filhos caríssimos

Agradeço de coração ao vosso Prior-Geral as fervorosas palavras que me dirigiu, e todos saúdo com paternal afecto, dando-vos as boas-vindas. Tenho o prazer de me encontrar convosco, dignos representantes da Ordem Hospitaleira de São João de Deus, mais conhecida (em Itália) com o nome de “Fatebenefratelli”, que na sua existência de vários séculos praticou não raras benemerências, quer no plano dum testemunho evangélico e eclesial propriamente dito, quer no plano dum precioso contributo para uma qualificação mais humana da vida.

Nestes dias, estais vós na conclusão dum Capítulo Geral extraordinário, decretado para estudar e definir o carisma específico da vossa Família religiosa, os seus grandes princípios inspiradores e os problemas actuais, relacionados com o exercício do vosso ministério. Sei que encontrastes não poucas dificuldades internas e externas à Ordem, e que formulastes também claras perspectivas de compromisso religioso e assistencial. Pois bem, aos vossos louváveis esforços tenho o gosto de assegurar o sustentáculo da minha aprovação e da minha oração ao Senhor.

Sobretudo não posso deixar de expressar-vos claramente a minha sincera complacência e o meu apreço por tudo quanto forma já o conteúdo de todos os dias dos vossos compromissos quer religiosos quer profissionais, que nunca se podem aliás separar, porque uns realizam-se mediante os outros. A uma coisa vos animo, porque urgente e actual, e, por outro lado, sem dúvida presente à vossa consciência e ao vosso sentido de responsabilidade: num tempo em que a vida do homem está infectada por vários factores de desumanização, sede vós os promotores e a garantia de níveis melhores e mais altos de humanidade. Vale isto particularmente no sector característico dos doentes e em geral dos que sofrem, aos quais, por consagração e instituição, dedicais o melhor de vós mesmos. Em certo sentido, diria que não há nada de mais humano que a dor, que revela a dimensão criatural profunda da existência terrena e oferece ocasião privilegiada para nos inclinarmos com amorosa condescendência sobre as carências dos irmãos necessitados. A situação destes, na verdade, não é tida nunca como facto indiferente e descurável; menos ainda deve ser considerada ou incómoda para o nosso viver sossegado ou superior às nossas possibilidades de assistência desvelada. O princípio bíblico que nos leva a gozar com quem goza e sofrer com quem sofre (Cfr. Sir 7, 34: Rom 12, 15), é, primeiro que tudo, estímulo para um comportamento altamente humano, feito de natural e espontânea participação nas experiências alheias e portanto sinal duma comunhão que enriquece seja quem a recebe seja quem a oferta.

Além disto, animo-vos a cultivar um testemunho cristão sempre transparente e fecundo, especialmente nos ambientes do vosso apostolado próprio. Uma relação puramente humana, mesmo com os doentes, arrisca-se a ficar estéril por falta de raízes e motivações profundas. Também a vossa profissionalidade é facto muito importante, e deverá ser o mais possível séria e actualizada. Mas se o vosso trabalho não é filtrado através da fé, está sempre em perigo de materializar-se e até mesmo perder aqueles elementos humanos de que falei acima. Bem sabeis e sempre devereis ter presente que, segundo Evangelho, quem serve o doente entra em contacto com o próprio Jesus (Cfr. Mt 25, 36.40), cuja força se revela totalmente na fraqueza, segundo a expressão do Apóstolo Paulo (2 Cor 12, 9). De facto foi mediante os Seus sofrimento que todos nós obtivemos por graça a salvação (Cfr. Heb 2, 10.18). Ora, que melhor oportunidade de evangelização se vos oferece, senão exactamente o descobrir a quem sofre o valor profundo da sua condição, que sem dúvida adquire sentido, valor e fecundidade, precisamente graças à conformação alegre e abençoada com a Cruz de Cristo (Cfr. Flp 3, 10-11; Rom 8, 17; 2 Cor 1, 5)? Assim o vosso trabalho, continuando a ser profissionalmente qualificado, pode transformar-se em autêntico apostolado.

Por meu lado, invoco de coração sobre vós copiosas graças celestiais. Seja o Senhor quem leve à plena maturidade tudo o que semeastes no vosso Capítulo, de maneira que produza frutos abundantes, dignos tanto do Evangelho que vos inspira, quanto do homem que servis.

Destes votos cordiais é penhor a especial Bênção Apostólica, que de boa vontade concedo a vós e a todos os beneméritos Religiosos da Ordem dos “Fatebenefratelli”.

Fonte:http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/speeches/1979/december/documents/hf_jp-ii_spe_19791213_fatebenefratelli_po.html

Vida de São João de Deus

CRONOLOGIA:

1495
Nasce S. João de Deus (João Cidade) em Montemor-o-Novo – Évora.

1503
Deixa a sua casa e fixa-se em Oropesa (Espanha).

1520
Morre o seu Pai num convento em Lisboa.

1523
Combate no Exército de Carlos V, na reconquista aos franceses de Fuenterrabia, nos Pirineus.

1524
Regressa a Oropesa.

1532
Novamente soldado. Agora em Viena contra os turcos.

1533
Regressa a Montemor-o-Novo. Segue para Sevilha.

1535
Dirige-se a Ceuta (portuguesa); trabalha na fortificação da cidade e ajuda uma família em extrema necessidade.

1538
Volta a Espanha e vende livros em Gibraltar. Transfere-se depois para Granada onde abre uma pequena livraria.

1539
Em 20 de Janeiro, durante o sermão da festa de S. Sebastião passa por uma crise de conversão que o leva ao hospital, dado como louco.

1539
No Outono funda um hospital na Rua Lucena.

1546
Recebe os primeiros discípulos: Antão Martin e Pedro Velasco

1547
Transfere o seu hospital para um edifício maior, antigo convento, na Encosta de Los Gomeles.

1548
Vai a Valladolid à corte pedir auxílio ao Príncipe Filipe (II).

1549
Salva os doentes do Hospital Real incendiado.

1550
A 8 de Março morre na Casa dos Pisas, em Granada.

Fonte:http://www.isjd.pt/

João nasceu na cidade de Montemor-o-Novo (Évora, Portugal), em 1495. Com oito anos de idade, juntamente com um clérigo que pernoitou em sua casa, foi para a Espanha e fixou-se em Oropesa (Toledo) ao serviço da família de Francisco Cid Maioral, que se dedicava à criação de gado. Acompanhado por essa família decorreu quase a metade da sua vida. João foi pastor durante quase vinte anos. Todos apreciavam o seu trabalho. Durante esse tempo foi amadurecendo o verdadeiro sentido da sua vida, passando pelas vicissitudes próprias da adolescência e juventude. Por duas vezes saiu de Oropesa e ambas para integrar contingentes militares. Em 1523 deslocou-se até à fronteira com a França, em Fuenterrabía. Nesta experiência, porém, não se saiu muito bem e chegou a estar condenado a morte. Regressou a Oropesa, vencido. Em 1532 seguiu para Viena (Áustria) para combater os Turcos. E já não voltaria mais a Oropesa. Ao regressar de Viena, de barco, entrou na Espanha pela Galiza, visitou o santuário de S. Tiago de Compostela e dirigiu-se à sua terra natal, Montemor-o-Novo, onde teve notícia da morte dos pais e não encontrou quase ninguém conhecido. Sentiu então, fortemente o chamado a seguir Jesus Cristo, dedicando-se aos pobres e aos doentes. Convidado a ficar, preferiu seguir de novo para Espanha, sem rumo definido, mas inquieto. Ficou alguns meses em Sevilha, depois Ceuta e Gibraltar, finalmente, Granada, onde se estabeleceu como livreiro.

Vendia livros de cavalaria, mas também de conteúdo e caráter religioso, pelos quais cobrava mais barato. Em 1537, escutando um sermão de S. João de Ávila no eremitério dos Mártires, sentiu-se profundamente tocado… saiu do eremitério aos gritos, dizendo-se grande pecador, atirando-se no chão e, destruiu a sua livraria…  Escolheu como guia espiritual S. João de Ávila. Foi em peregrinação ao Santuário da Virgem de Guadalupe, onde aproveitou para aprender algumas técnicas para cuidados básicos de saúde na escola de medicina dos monges e no regresso, passou por Baeza, onde permaneceu com o seu Mestre durante algum tempo. Depois voltou novamente para Granada, onde iniciou a sua atividade de ajuda aos pobres, doentes e necessitados, fundando um hospital bem diferente dos existentes. Começou do nada. Na cidade, todos pensavam que se tratava de uma nova forma de loucura. Mas, aos poucos compreenderam a sua verdadeira sensatez.

Trabalhava, pedia esmolas, recolhia os pobres, dedicava-se a eles… De início, sozinho; depois, progressivamente, foram unindo-se a ele outras pessoas, voluntários, benfeitores e os primeiros discípulos. Era muito original a maneira como pedia esmola, utilizando a expressão: “Irmãos fazei o bem a vós mesmos, ajudando aos pobres”. Foi pioneiro na história da humanidade ao separar os doentes por patologia e ao dar um leito para cada paciente. Foi um profeta da caridade.

Aos 43 anos vivia na cidade de Granada, tocado por Deus e pela situação de abandono e marginalização que viviam os pobres e os doentes, deu uma virada radical em sua vida e passou da compaixão à ação. Interiorizou a convicção de que qualquer mulher e qualquer homem eram seus irmãos e passou a viver para todos os que precisavam: “chagados, tolhidos, incuráveis, feridos, desamparados, tinhosos, loucos, prostitutas, mendigos, andarilhos, órfãos, pobres envergonhados… todos, aqui, tem um lugar” dizia João em uma de suas cartas.

 Por volta do ano 1539 fundou um hospital, inovador para a época, ao qual deu o nome de “Casa de Deus”, já que em cada paciente via o próprio Cristo. Nesta casa eram acolhidas todas as pessoas, sem distinção. Com a colaboração de alguns companheiros que se juntaram a ele, organizou a assistência conforme considerava que os pobres mereciam. O povo vendo tanta bondade nele começou a chamá-lo João de Deus, o Bispo de Tuy vendo que era verdade o que sobre João diziam, lhe mudou o nome de João Cidade para João de Deus. Convidava as pessoas a fazer o bem a si mesmas ajudando aos que mais precisavam, pois estava convicto de que quando alguém faz o bem aos outros é para si mesmo o bem maior. João de Deus pronunciava estas palavras com a autoridade de quem tinha feito a experiência. Ele se sentia o menor de todos e era feliz por sê-lo. Com a coragem dos profetas e uma postura de não-violência, denunciou as injustiças sociais, desmandos morais e a desumanização dos cuidados em hospitais. Foi voz para os fracos e excluídos em meio a uma sociedade marcada pelo egoísmo, fanatismo religioso e muitas injustiças. Resumimos a sua postura de acolhimento integral às pessoas com a palavra HOSPITALIDADE .

Ela era misericodiosa, solidária, holística, criativa, profética e geradoras de seguidores. Sua hospitalidade não conhecia fronteiras. Seu estilo atraiu muitos discípulos. Estes, ajudados por muitos, continuaram e ainda continuam o seu trabalho. Fundaram outros hospitais, embarcaram em muitas missões. Em 1572 o Papa reconheceu-os como Instituto Religioso para o carisma da Hospitalidade, considerando que, “era a flor que faltava no jardim da Igreja”. Hoje, os Irmãos de São João de Deus estão presentes nos cinco continentes em 50 países, com cerca de 300 obras apostólicas. São João de Deus é o patrono dos doentes, dos hospitais e dos enfermeiros. No dia 8 de Março de 1550, de joelhos, entregou a sua alma a Deus. Tinha nas mãos um crucifixo. Morreu como tinha vivido: de joelhos perante Deus, abraçando a cruz redentora de Cristo. João de Deus soube arriscar tudo pela causa que servia. Arriscou a saúde, a fama, a vida! A sua festa celebra-se no dia 8 de Março.

 É sabido que São João de Deus fazia o bem a todos quanto pudesse e até o que não pudesse. Seus inscritos e suas cartas relatam que ele se endividou a fim de poder acolher a todos que necessitassem e não lhes deixar faltar nada. Pedia esmolas dia e noite e dedicava a sua vida inteiramente ao próximo. Algumas histórias são contadas por terem um teor inusitado.Estão a seguir:

O MENDIGO QUE NÃO ERA POBRE:

 Ocorreu que um homem, desconfiado de João de Deus e da “loucura” com que dizia levar a sua vida – porque para muitos trata-se de verdadeira loucura abandonar a própria vida em favor dos outros – quis testar a João de Deus para saber se ele realmente usava as esmolas que conseguia para cuidar dos pobres. Ao ver João de Deus aproximar-se pelo caminho, deu-lhe uma esmola. Saiu dali apressadamente, vestiu-se de mendigo a fim de lhe testar a caridade e foi para a beira do caminho solicitar ajuda a São João de Deus. Qual não foi a surpresa do homem quando João de Deus tirou dos bolsos tudo o que tinha e entregou-lhe tudo sem hesitar. Com isso, o homem converteu-se, aderiu a causa do Santo e passou a ser Colaborador de sua obra.

AS CORTINAS QUE ALIMENTAM OS POBRES:

Certo dia, chegando João de Deus a casa de um rico, percebeu ele que as janelas de sua casa possuiam belas cortinas. Todas elas aveludadas e grossas. É sabido que na Espanha, assim como em toda Europa, os invernos são muito rigorosos e milhares de pessoas acabavam morrendo de frio por serem muito pobres. Os mesmos pobres os quais cuidava São João de Deus. Observando aquilo, João de Deus disse ao homem que enquanto as janelas de sua casa eram cobertas por cortinas luxuosas, com tecidos finos, os seus pobres morriam de frio por falta de roupas. O homem sentiu-se tão envergonhado com tal comentário, que mandou que fossem retiradas todas as cortinas da casa e serem entregues a João de Deus. Ao recebê-las, João de Deus agradeceu-lhe. E imediatamente perguntou ao homem se não gostaria de comprar as tais cortinas, pois estava precisando de dinheiro para os pobres.

ORAÇÃO A SÃO JOÃO DE DEUS Senhor, que inflamastes São João de Deus no fogo da caridade para que fosse na terra o Apóstolo dos pecadores, Socorro dos pobres e Saúde dos doentes; no céu o constituístes Alívio dos que sofrem, Padroeiro e Modelo dos profissionais de saúde. Concedei-nos, por sua intercessão, a graça que neste momento vos pedimos, prometendo imitá-lo nas suas virtudes, na construção do Vosso Reino de Paz, Justiça, Amor e Misericórdia. Por nosso Senhor Jesus Cristo Vosso Filho na unidade do Espírito Santo. Amém.

Fonte:http://www.ohbrasil.org.br/index.php?id=6

CARTA A LUÍS BAPTISTA

 1. Em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo e de Nossa Senhora, a Virgem Maria sempre intacta. Deus antes e acima de todas as coisas do mundo (1). Deus vos salve, meu irmão em Jesus Cristo e meu filho muito amado, Luís Baptista.

 2. Recebi uma carta vossa que me enviastes de Jaén, a qual me deu muito prazer e me causou muita satisfação; contristou-me no entanto a vossa dor de dentes, pois me penaliza todo o vosso mal e me regozijo com o vosso bem.

 3. Mandais-me dizer que não encontrastes aí o que procuráveis, e por outro lado dizeis-me que quereis ir a Valença ou não sei aonde. Não sei o que vos diga.

 4. É tão urgente que vos envie esta carta que a estou a escrever à pressa e quase nem tenho tempo de encomendar o assunto a Deus; no entanto é necessário encomendá-lo muito a Nosso Senhor Jesus Cristo e com mais vagar do que tenho agora.

 5. Vendo eu como sois muitas vezes tão fraco, particularmente no que respeita a mulheres, não sei que vos diga sobre mandar-vos vir para aqui; mesmo o Pedro não se foi embora,nem sei quando o fará; ele diz que quer ir, mas não sei ao certo quando será a partida.

 6. Se eu tivesse a certeza de que aqui aproveitaríeis para a vossa alma e para a de todos, mandar-vos-ia vir imediatamente; mas tenho medo que se dê o contrário. Parece-me que por agora seria melhor sujeitar-vos durante algum tempo a uma vida austera, até poderdes vir bem acostumado a trabalhos e dias de grandes reveses e a outros mais bem sucedidos. Por outro lado, parece-me que, se nessa viagem vos haveis de ir perder, seria muito melhor que voltásseis. Mas nisto só Deus é que sabe o que é melhor e mais acertado.

  7. Por isso me parece conveniente que, antes de deixar essa cidade, encomendeis muito o caso a Nosso Senhor Jesus Cristo e eu também aqui faça o mesmo. Para isso, escrevei-me muito a miúdo e pedi informações aos peregrinos que vão de um lado para o outro, e eles vos dirão como está essa terra de Valença. Se lá fordes, não deixeis de visitar o santo corpo de S. Vicente Ferrer.

 8. Parece-me que andais como barco sem remos (2), de modo que muitas vezes me deixais também na dúvida e como que desorientado, pois ambos, eu e vós, ficamos sem saber o que fazer. Mas como Deus é quem tudo sabe e pode remediar, Ele nos dê remédio e entendimento a todos. 9. Ora, como a mim me parece que andais como pedra movediça, será conveniente que procureis mortificar um pouco a vossa carne, levando vida difícil, com fome e sede, humilhações e cansaços, angústias, trabalhos e contrariedades. Tudo isto o deveis sofrer por Deus, pois, se para cá vierdes,tereis de passar tudo isto  por amor de Deus, e por tudo lhe haveis de dar muitas graças, tanto pelo bem como pelo mal (3). 10. Lembrai-vos de Nosso Senhor Jesus Cristo e da sua bendita Paixão pois retribuía com o bem o mal que Lhe faziam.

 Assim haveis de fazer vós, meu filho Baptista, para que, se vierdes para a casa de Deus, saibais conhecer o mal e o bem. Mas se vós de todo em todo soubésseis que com essa ida vos havíeis de perder, mais valeria voltar para aqui ou para Sevilha, para onde Nosso Senhor mais vos guiasse.

 11. Mas se vierdes para aqui, haveis de obedecer muito e trabalhar muito mais do que tendes trabalhado, e tudo em coisas de Deus, e desvelar-vos no serviço dos pobres. A casa está aberta para vós. Queria ver-vos chegar o melhor possível, como filho e irmão.

 12. É natural que me não compreendais bem nesta carta porque estou com muita pressa e não vos posso escrever mais longamente; mesmo não sei se o Senhor será servido que venhais já para esta casa ou se quererá que continueis a padecer por aí. Mas lembrai-vos de que, se vierdes, haveis de vir de verdade e vos haveis de guardar muito das mulheres (4) como do diabo.

13. Vai-se aproximando o tempo de escolherdes um estado de vida. Se vierdes para aqui, tendes de oferecer algum fruto a Deus e haveis de deixar a pele e as correias. Lembrai-vos de S. Bartolomeu, a quem esfolaram e levou a pele às costas. Se para cá vierdes, não há-de ser senão para trabalhar e não para folgar (5), pois ao filho mais querido é que se confiam os trabalhos mais difíceis.

 14. Quanto a virdes para aqui, fazei o que vos parecer melhor e Deus vos inspirar. Se por agora achardes melhor correr mundo, em busca de alguma acção em que melhor sirvais a Deus, falei tudo como Ele quiser e for servido, à semelhança daqueles que demandam as Índias à procura de fortuna. Mas fazei-o de modo que sempre me possais escrever de onde quer que vos encontreis.

 15. Todos os dias da vossa vida tende Deus diante dos olhos (6); ouvi sempre Missa inteira; confessai-vos com frequência, se for possível; não durmais nenhuma noite em pecado mortal.

 CARTAS 132 DE S. JOÃO DE DEUS

 Amai a Nosso Senhor Jesus Cristo sobre todas as coisas do mundo (7), pois, por muito que O ameis, muito mais vos ama Ele. Tende sempre caridade (8), porque onde não há caridade não há Deus, embora Ele esteja em todo o lugar.

16. Logo que possa, irei apresentar a Lebrija os vossos cumprimentos. Já entreguei a vossa carta ao Baptista que está na cadeia; ficou muito contente com ela. Eu disse-lhe que escrevesse logo a resposta, para vos mandar a carta. Agora vou ver se já a escreveu, para eu vo-la mandar.

 Aceitai recomendações de todos. Apresentei os vossos cumprimentos a todos, grandes e pequenos, à Ortiza e ao Miguel. O Pedro diz que, se vierdes, ficareis com ele até se ir embora, e igualmente se voltar outra vez. 17. Nada mais tenho a dizer-vos, a não ser que Deus vos salve, vos guarde e encaminhe no seu santo serviço, a vós e a todas as pessoas do mundo. Termino a carta mas não as orações que dirijo a Deus por vós e por todos (9). Devo dizer-vos que me tenho dado muito bem com o Rosário e que espero em Deus rezá-lo quantas vezes puder e Deus quiser.

 18. Já vos disse que, se virdes que vos haveis de perder com essa viagem,

façais o que vos parecer melhor. Antes de partir dessa cidade, mandai dizer algumas Missas ao Espírito Santo e aos Santos Reis, se tiverdes com quê; se não, basta a boa vontade; e se nem isso bastar, baste a graça de Deus (10). 19. O irmão menor de todos, João de Deus, se Deus quiser, morrendo, mas entretanto calando e em Deus esperando, escravo de Nosso Senhor Jesus Cristo, desejoso de O servir. Amém Jesus. Embora não seja tão bom escravo como outros, pois muitas vezes sou velhaco para com Ele e muitas vezes Lhe sou traidor, ainda que muito me pese disso e muito mais me devesse pesar, que Deus me queira perdoar a mim e a todos queira salvar.

 20. Escrevei-me a dizer tudo o que se passar convosco por aí. Mando-vos dentro desta uma carta que me enviaram para eu vos entregar. Não a quis abrir para vos ser leal. Não sei se é para vós, se para o Baptista da cadeia. Se for para o da cadeia, lede-a e mandai-ma para lhe ser entregue. Se o Baptista já tiver escrito a sua carta, irá com estas duas. Agora ficai com Deus e andai com Deus (11).

 CARTAS 134 DE S. JOÃO DE DEUS

 1.ª CARTA A GUTERRES LASSO

 21. Em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo e de Nossa Senhora, à Virgem Maria sempre intacta. Deus antes e acima de todas as coisas do mundo. Deus vos salve, meu irmão em Jesus Cristo, Guterres Lasso, a vós, a toda a vossa companhia e a quantos Deus quiser e for servido. Amém Jesus. 22. Serve a presente para vos fazer saber que cheguei muito bem de saúde, graças a Deus, e que trouxe mais de cinquenta ducados. Com o que aí tendes e o que trouxe creio que andarão por cem ducados. Desde que vim já me empenhei em trinta ducados ou mais, de modo que nem estes nem esses são suficientes, pois tenho mais de cento e cinquenta pessoas a sustentar, e a tudo Deus acorre cada dia. Se a esses vinte e cinco ducados que aí tendes pudésseis juntar mais alguma coisa, (bom seria), pois tudo é bem preciso. Mandai-me quantos pobres chagados aí houver; mas se não puder ser, paciência.

 23. Mandai-me quanto antes os vinte e cinco ducados, pois esses e muitos mais já eu devo e estão à espera deles. Por sinal que vo-los entreguei numa taleiguinha de linho, no vosso jardim das laranjeiras, uma noite que lá entrámos a passear. Espero em Nosso Senhor Jesus Cristo que um dia passeareis no jardim celeste. 24. O recoveiro estava com muita pressa e por isso não pude escrever mais largamente, e também porque tenho tido aqui tanto trabalho que não tenho vago sequer o espaço dum Credo. Por amor de Nosso Senhor Jesus Cristo mandai-me sem demora esse dinheiro, pois estão sempre a insistir comigo por causa dele.

 25. Por amor de Nosso Senhor Jesus Cristo, recomendai-me ,à muito nobre, virtuosa e generosa serva de Nosso Senhor Jesus Cristo, vossa mulher, a qual tanto deseja servir e agradar a Nosso Senhor Jesus Cristo e a Nossa Senhora, a Virgem Maria sempre intacta, e por amor de Deus obedecer e servir a seu marido, Guterres Lasso, servo de Nosso Senhor Jesus Cristo e desejoso de O servir. Amém Jesus.

 26. Dai também os meus cumprimentos ao vosso filho, o Arcediago, que andou comigo a pedir a bendita esmola e que é o mais humilde servo dos servos de Nosso Senhor Jesus Cristo e de Nossa Senhora, a Virgem Maria sempre intacta, o qual sempre deseja servir e agradar a Nosso Senhor Jesus Cristo e à sua bendita Mãe, a Virgem Maria Nossa Senhora. Dizei-Lhe que me escreva sem demora, com a ajuda de Deus.

 27. Escrevei-me também vós, bom cavaleiro e meu bom irmão em Jesus Cristo, Guterres Lasso, e dai recomendações minhas a todos os vossos filhos e filhas e a quantos entenderdes. Em Málaga saudareis em meu nome e apresentareis os meus cumprimentos ao Bispo e a todos aqueles que quiserdes e entenderdes, pois estou obrigado a rezar por todos (12).

 28. Quanto ao vosso filho, o bom cavaleiro que me parece ser o morgado, será como Deus quiser (13). Nosso Senhor Jesus Cristo o guie nos seus negócios, trabalhos e empreendimentos. Parece-me que, se for da vontade de Deus, será melhor casá-lo o mais depressa possível, se ele manifestar esse desejo (14). Embora eu vos diga o mais depressa possível, nem por isso vos deveis afligir, pois a maior preocupação que haveis de ter será a de pedir a Deus que lhe dê uma boa mulher. Ainda que por agora me pareça bastante jovem, praza a Nosso Senhor Jesus Cristo que na prudência seja homem maduro.

 29. Cada um deve abraçar o estado que Deus lhe der (15). Nessas ocasiões, porém, os pais e as mães não se devem deixar tomar de excessivas preocupações e ansiedades, a não ser para pedir a Deus que conceda o estado de graça a todos e a todas.

 2.ª CARTA À DUQUESA DE SESA

 71. Em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo e de Nossa Senhora, a Virgem Maria sempre intacta. Deus antes e acima de todas as coisas do mundo. Amém Jesus. Deus vos salve, minha irmã muito amada em Jesus Cristo, muito nobre, virtuosa, generosa e humilde Duquesa de Sesa. Jesus Cristo vos salve e guarde, a Vós, a toda a vossa companhia e a quantos Deus quiser e for servido. Amém Jesus.

 72. Serve a presente para vos fazer saber como estou e para vos dar conta de todos os meus trabalhos, necessidades e angústias, que se me aumentam de dia para dia, e ainda mais agora, e cada vez muito mais, tanto pelas dívidas como pelos pobres que vão chegando, muitos dos quais sem roupa, descalços, chagados e cheios de piolhos, de modo que é forçoso que um ou dois homens não façam outra coisa senão escaldar piolhos numa caldeira a ferver. Este trabalho estender-se-á daqui em diante, por todo o Inverno, até ao próximo mês de Maio. Assim, minha Irmã em Jesus Cristo, os meus trabalhos vão aumentando cada dia muito mais.

 73. Pois Nosso Senhor Jesus Cristo quis levar para si uma sua filha, a quem muito queria e amava, D. Francisca, filha de D. Bernardino, sobrinho do Marquês de Mondéjar. Nosso Senhor Jesus Cristo deu-lhe tanta graça que, enquanto viveu cá na terra, fez sempre muito bem aos pobres; e a todas as pessoas que lhe pediam por amor de Deus nunca lhe faltava uma bendita esmola para lhes dar, de modo que ninguém deixava a sua casa desconsolado, não só pelas suas palavras sempre boas, como ainda pelo bom exemplo que sempre dava e pela boa doutrina que ensinava esta bemaventurada donzela.

 74. Eram tantas as coisas que ela fazia que, para as escrever, seria necessário um grande livro. Dentro em breve escreverei mais longamente sobre esta bem-aventurada donzela D. Francisca, que Nosso Senhor Jesus Cristo quis agora levar para Si, onde está bem e segura, com muita felicidade e descanso, de acordo com a nossa fé e com o que vimos todas as pessoas que a conhecíamos. Pela vontade de Deus, pelas boas obras que Jesus Cristo nela operava e pela graça que lhe dava, a todos fazia bem, tanto pelos conselhos como pela esmola, pois Jesus Cristo lhe dava graça para tudo. Por isso, de acordo com a nossa fé e com o que lhe vimos fazer cá na terra todos os que a conhecíamos, não podemos deixar de acreditar que ela goza agora o eterno descanso com Nosso Senhor Jesus Cristo e com todos os Anjos da Corte do Céu.

 75. Muito sentiram a sua morte todos os que a conheciam, tanto pobres como ricos; e com muita razão, e muito mais, o havia de sentir eu mais que ninguém, pelo conforto e bom conselho que sempre me dava, pois, por mais desanimado que eu chegasse à sua casa, não saía de lá sem consolação e bom exemplo. Mas, uma vez que Nosso Senhor foi servido levar-nos tão grande bem, bendito seja Ele para sempre, pois melhor sabe o que faz e nos convém do que nós podemos pensar (57).

 76. Minha Irmã muito amada em Jesus Cristo, quis dar-vos conta dos meus trabalhos, angústias e necessidades porque sei que vos compadeceis de mim como eu faria a vosso respeito. Muito vos devo, boa Duquesa, e nunca o esquecerei, pelo tão bom acolhimento que me fizestes, melhor do que eu merecia. Nosso Senhor Jesus Cristo vo-lo pague no Céu e vos traga com saúde o bom Duque de Sesa, vosso muito humilde marido, e vos dê filhos de bênção, para que com eles O sirvais e ameis sobre todas as coisas do mundo. 77. Confiai só em Jesus Cristo (58), que o vosso marido virá muito brevemente e com saúde do corpo e da alma, e não estejais aflita nem desanimada, pois daqui em diante vos sentireis mais alegre do que tendes estado até aqui; e vereis que é verdade o que eu vos disse, se confiardes só em Jesus Cristo. Deus antes a acima de todas as coisas do mundo, pois eu não sei nada; Jesus Cristo é que tudo sabe (59), e com a sua ajuda haveis de ser consolada muito em breve com a presença do vosso muito humilde marido, a quem eu muito quero e estimo e a quem sou tão devedor, a ele e a todos os seus.

 78. Muitas vezes me tem ele tirado de embaraços e me tem desempenhado e consolado com a sua bendita esmola, a qual já os Anjos assentaram no livro da vida, no Céu, onde tem acumulado um grande tesouro (60), para quando fordes para lá, boa Duquesa, poderdes gozar dele para sempre, vós e o vosso humilde marido, o bom Duque de Sesa. Praza a Nosso Senhor Jesus Cristo trazê-lo depressa diante dos vossos olhos e vos dê filhos de bênção, para que sempre deis graças a Nosso Senhor Jesus Cristo, como sempre lhe dais, por tudo o que Ele faz e nos dá. Pois, se algumas vezes nos dá trabalho e aflições, é para nosso proveito e para merecermos mais (61).

 79. Não encontro melhor remédio nem consolação, para quando me encontro aflito, do que olhar e contemplar a Jesus Cristo crucificado e meditar na sua santíssima Paixão e nos trabalhos e angústias que padeceu nesta vida; e tudo por nós, pecadores, maus, ingratos e mal-agradecidos. Ora, vendo nós como o Cordeiro sem mancha sofreu tantas humilhações sem as merecer, como ousaremos procurar descanso e prazer (62) numa terra onde tantos males e penas infligiram a Jesus Cristo que nos criou e remiu? Que esperamos nós ter?

80. E assim, boa Duquesa, se bem repararmos, esta vida não é senão uma contínua guerra (63) em que sempre vivemos, enquanto estivermos neste desterro e vale de lágrimas, sempre combatidos por três inimigos mortais, que são o mundo, o demónio e a carne (64).

 81. O mundo procura atrair-nos com vícios e riquezas, prometendo-nos vida longa e dizendo: anda para a frente, que ainda és novo, goza a bom gozar, que na velhice te emendarás.

 82. O demonio está sempre a armar-nos laços e a estender-nos redes, para neles tropeçarmos e cairmos (65) e deixarmos de fazer o bem e a caridade, metendo-nos nos cuidados dos bens temporais, para que não nos lembremos de Deus nem do cuidado que devemos ter com a nossa alma, purificando-a e revestindo-a de boas obras. Antes, saídos de um cuidado nos metemos noutro; ou então dizemos: agora, logo que acabe este serviço, quero emendar a minha vida. Assim, de agora em agora, nunca mais acabamos de nos livrar dos ardis do demónio, até que chega a hora da morte e vemos ser falso tudo o que o mundo e o demónio prometem. Ora, uma vez que, conforme nos achar o Senhor, assim nos há-de julgar (66), será bom que nos emendemos a tempo e não façamos como aqueles que dizem: amanhã, mais amanhã, e nunca mais começam (67).

 83. O outro inimigo, que é o maior, e que, como ladrão de casa e doméstico, procura, com boas palavras e bons modos, levar-nos sempre à perdição, é a carne (68), o nosso corpo, que não quer senão bom comer, bom beber e bem vestir, dormir muito e trabalhar pouco, luxúria e vaidade. 84. Para vencer estes três inimigos, muito precisamos da protecção (69), ajuda e graça de Jesus Cristo, de nos desprezarmos inteiramente a nós mesmos (70), pelo tudo que é Jesus Cristo, confiando só n’Ele e confessando a verdade e todos os pecados aos pés do confessor, cumprindo a penitência que ele nos impuser e propondo nunca mais pecar, só por amor de Jesus Cristo. E, se pecarmos, confessar-nos com frequência. 85. É deste modo que poderemos vencer os inimigos de que

A chamada (13) não é referenciada no original. Confirmar a marcação.

 E não confiemos em nós mesmos, pois mil vezes ao dia cairemos em pecado se não confiarmos só em Jesus Cristo. Só por seu amor e bondade procuremos não pecar nem murmurar, não fazer mal nem causar dano ao próximo, antes querer para ele o que desejaríamos que nos fizessem a nós (71); desejar que todos se salvem e amar e servir só a Jesus Cristo, por Ele ser quem é e não pelo temor do Inferno.

 Se for possível, seja o confessor bom e douto, de boa fama e vida exemplar. Tudo isto, minha irmã em Jesus Cristo, melhor o sabeis vós do que eu; por isso, quando me quiserdes mandar algum bom conselho, recebêlo- ei de muito boa vontade, como de minha irmã em Jesus Cristo. 86. E agora, minha muito amada e querida irmã, mandai-me dizer como estais e como passais, depois de terem partido D. Álvaro e D. Bernardino, vossos muito nobres, virtuosos e humildes tios e meus irmãos em Jesus Cristo, a quem eu muito estimo. Deus lhes pague o bom acolhimento que, onde quer que me encontrem, sempre me fazem e têm feito. Nosso Senhor receba um dia no Céu as suas almas e os faça agora chegar de boa saúde à presença da vossa humilde mãe, D. Maria de Mendoza, muito nobre, virtuosa e generosa, a qual sempre deseja agradar e servir a Nosso Senhor Jesus Cristo.

 87. Mandai-me dizer como eles chegaram e como passam, e mandai-me igualmente algumas boas notícias do bom Duque, vosso muito humilde marido, pois de todo o seu bem muito me regozijo; como passa ele, como está e onde se encontra. Praza a Nosso Senhor Jesus Cristo trazê-lo em breve, e com saúde do corpo e da alma, a ele, a toda a sua companhia e a quantos Deus quiser e for servido. Amém Jesus.

 88. Oh, minha irmã muito amada, boa e humilde Duquesa! Como estais só e isolada nesse castelo de Baena, rodeada das vossas muito virtuosas donzelas e damas muito honradas e honestas, a trabalhar e a bordar de noite e de dia, para não estardes ociosa nem gastardes o tempo inutilmente! Quereis seguir o exemplo de Nossa Senhora, a Virgem Maria sempre intacta, a qual, sendo Mãe de Deus, Rainha dos Anjos e Senhora do Mundo, tecia e bordava todo o dia para o seu sustento, e de noite, e parte do dia, orava no seu recolhimento, para dar a entender que, depois do trabalho, devemos dar graças a Nosso Senhor Jesus Cristo, por usar para connosco de tanta misericórdia, dandonos de comer, de beber e de vestir, e todas as coisas sem o merecermos. Se Ele não nos assistisse, que valor teria o nosso trabalho, habilidade e diligência?

89. Assim, pois, continuai sempre a trabalhar ou a ocupar-vos em obras de misericórdia e fazendo com que todos e todas digam a doutrina cristã e rezem as quatro orações que manda a Santa Madre Igreja, e mandando-as ensinar a quem as não souber. Meditai sempre na Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo e nas suas preciosas Chagas, dizei que mais quereis só a Ele do que a todas as coisas do mundo (72) e que quereis e amais o que Ele quer e ama e detestais o que Ele detesta, e que, por seu amor e bondade e não por outro interesse, quereis fazer o bem e a caridade aos pobres e às pessoas necessitadas.

 90. E agora, minha irmã, perdoai-me por ser sempre demasiado extenso ao escrever; e ainda não escrevo tudo o que desejaria, pois estou muito aflito e ainda mal dos olhos e em muita necessidade. Nosso Senhor Jesus Cristo vos faça compreender tudo isto. É que não posso (sozinho) dar conta desta obra que comecei, pois estou a renovar todo o hospital e são muitos os pobres e grande a despesa que aqui se faz, e a tudo se provê sem rendimentos; mas é Jesus Cristo que tudo remedeia, pois eu não faço nada. 91. Eu gostaria de partir já por essa Andaluzia até Zafra e Sevilha, mas não posso enquanto não acabar esta obra, para que não seja trabalho perdido. Por outro lado, estou tão empenhado e em tanta necessidade que nem sei o que fazer. Por isso, minha irmã muito amada em Jesus Cristo, mando-vos aí Angulo para que venda o trigo ou o traga para aqui, conforme vos parecer melhor. Mas, enfim, tenho muita necessidade de dinheiro para esta obra e para pagar algumas dívidas que me arrancam os olhos. Também não tenho com que pagar aos que vierem trazer o trigo, e a despesa é grande. Por isso, parece-me muito melhor vendê-lo. Vede vós, minha irmã, o que vos parece melhor.

 92. Angulo leva a cédula do trigo e a minha procuração, que eu mandei fazer ao meu tabelião. Por amor de Nosso Senhor Jesus Cristo que não venha sem algum socorro, de uma maneira ou de outra, pois logo que Angulo chegar partiremos para Sevilha e para Zafra, para ir ter com o Conde de Féria e o Duque de Arcos, agora que lá está o Mestre Ávila, que os foi visitar. Pode ser que Nosso Senhor Jesus Cristo queira que eles me desempenhem de algumas dívidas.

É melhor ir eu próprio do que mandar cartas, pois eles têm tantas ocupações e pobres a quem dar esmola que, se não estivermos em pessoa diante deles, logo lhes passa da memória o que lhes mandamos dizer. E não me admiro, porque os ricos são muito assediados pelos pobres, que muito os importunam. O Mestre Ávila mandou-me dizer por Angulo que fosse lá. 93. Minha irmã em Jesus Cristo: Jesus Cristo vos pague no Céu a esmola que destes a Angulo para aqueles pobres e para o seu caminho, que foram quatro ducados. Ele já me contou tudo e como vos compadeceis dos meus trabalhos. Perdoai-lhe por não ter podido vir por aí, por causa de umas cartas. Pois, minha irmã muito amada em Jesus Cristo, rogo-vos por amor de Nosso Senhor Jesus Cristo que tenhais dó dos meus trabalhos, angústias e necessidades, para que Deus tenha misericórdia de vós (73) e de tudo o que é vosso e de quantos Deus quiser e for servido. Amém Jesus.

 94. Minha irmã, boa Duquesa, dai recomendações minhas à vossa muito virtuosa governanta; que ela rogue por mim, que eu farei o mesmo por ela, e a todas as muito humildes e virtuosas damas e donzelas da vossa nobre casa; que todas roguem a Deus por mim, pois me encontro em grande luta e batalha.

Dareis igualmente as minhas recomendações ao meu irmão muito querido mosén João, e que ele me escreva a dizer como está e como passa; e a todos os cavaleiros e criados da vossa muito nobre casa…

 96. Vai aí João de Ávila, que é o meu companheiro. Embora eu o trate sempre por Angulo, o seu verdadeiro nome é João de Ávila. Minha irmã muito amada, boa Duquesa de Sesa, mandai-me outro anel ou qualquer coisa do vosso uso, para eu poder empenhar. O outro está bem empregado, pois já o tendes no Céu. Dizei à muito humilde governanta e a todas as damas e donzelas que, se tiverem alguma coisita de ouro ou de prata para oferecer aos pobres e mandar para o Céu (74), ma enviem, para que eu me lembre delas.

 Nosso Senhor Jesus Cristo vos salve e guarde, boa Duquesa, a vós e a toda a vossa companhia e a quantos Deus quiser e for servido. Amém Jesus. Sem essa oferta ou com ela, sinto-me muito obrigado a rogar a Deus por todas e por todos os da vossa casa e nobre morada.

97. Vosso desobediente e mais pequeno irmão, João de Deus, se Deus quiser, morrendo, mas entretanto calando e em Deus esperando, o qual deseja a salvação de todos como a sua própria. Amém Jesus. Boa Duquesa, lembro-me muitas vezes dos presentes que me oferecíeis em Cabra e em Baena, e daqueles pãezinhos fofos que me dáveis. Deus vos dê o Céu e vos faça participante dos seus bens. Amem Jesus. Nota – O original desta carta encontra-se em Granada, no camarim da Basílica de S. João de Deus.

 CARTAS 162 DE S. JOÃO DE DEUS

RECIBO DE UMA ESMOLA RECEBIDA POR S. JOÃO DE DEUS DE UM FIDALGO DA CIDADE DE GRANADA

«Digo eu, João de Deus, que recebi de vós, Fernando de Castro, quatro ducados da esmola que vossa mulher, que esteja em glória, mandou que me fossem dados de esmola para os pobres. Assinei-o com o meu nome e em Granada, a 6 de Dezembro de 1548 anos, com estas minhas três letras».

Nota – O autógrafo deste recibo está guardado na igreja de S. Basílio na cidadede Córdova (Espanha).

 

Fonte: http://www.isjd.pt/

                                                         

     CARTA ENCÍCLICA DO PAPA PIO XII

DOCTOR MELLIFLUUS(*)

SOBRE O VIII CENTENÁRIO DA MORTE DE 
SÃO BERNARDO DE CLARAVAL

 Aos veneráveis irmãos Patriarcas, Primazes,
Bispos e outros Ordinários, 
em paz e comunhão com a Sé Apostólica

 INTRODUÇÃO

1. O doutor melífluo, “último dos padres, mas certamente não inferior aos primeiros”(1), distinguiu-se por tais dotes de mente e de espírito, enriquecidos por Deus com dons celestes, que pareceu dominar totalmente nas múltiplas e turbulentas vicissitudes da sua era, por santidade, sabedoria, suma prudência e conselho na ação. Por isso, não só os romanos pontífices e escritores da Igreja católica, mas também não raramente os próprios hereges lhe tributam grandes louvores. E nosso predecessor de feliz memória Alexandre III, quando o inseriu, com universal júbilo, no catálogo dos santos, assim escreveu com veneração: “…Evocamos a santa e venerável vida do mesmo bem-aventurado: pois que ele, amparado por singular prerrogativa da graça, não só resplandeceu em santidade e religião, mas também irradiou, em toda a Igreja de Deus, a luz da sua fé e doutrina. Na verdade não há ninguém, por assim dizer, em toda a cristandade que ignore o fruto que ele produziu na casa de Deus com sua palavra e exemplo, visto que difundiu as instituições da nossa santa religião até às terras estrangeiras e bárbaras… e fez voltar uma infinita multidão de pecadores… à reta prática da vida espiritual”.(2) “Ele foi com efeito como escreve o Cardeal Barônio – homem verdadeiramente apostólico, autêntico apóstolo enviado por Deus, poderoso em obras e palavras, tornando célebre em toda a parte e em todas as coisas o seu apostolado com os prodígios que o acompanhavam, de maneira que se deve dizer que em nada foi inferior aos grandes apóstolos… ornamento e ao mesmo tempo amparo de toda a Igreja católica”.(3)

2. A esses testemunhos de sumo louvor, a que se podiam acrescentar outros sem-número, dirige-se o nosso pensamento, ao andar o oitavo século desde que o restaurador e fomentador da sagrada ordem cisterciense passou piamente desta vida mortal, que ilustrara com tanta luz de doutrina e fulgor de santidade, à suprema vida. E muito nos agrada meditar e escrever sobre seus grandes méritos, de modo que não só os seus seguidores mas todos quantos se deleitam em tudo o que é verdadeiro, belo e santo, sintam o estímulo de seguir os seus preclaros exemplos de virtude.

Fontes e orientação de sua doutrina

3. A sua doutrina foi embebida quase toda nas páginas da Sagrada Escritura e dos santos padres, que dia e noite tinha à mão e meditava profundamente; não nas sutis disputas dos dialéticos e filósofos, que mais de uma vez parece menosprezar.(4) Deve, todavia, notar-se que ele não rejeita a filosofia humana, a genuína filosofia que conduz a Deus, à vida honesta e à sabedoria cristã; mas aquela que, com vã verbosidade e falaz prestígio das cavilações, presume com temerária audácia subir às coisas divinas e sondar todos os segredos de Deus; de maneira a violar – como freqüentemente acontecia também então – a integridade da fé e miseravelmente cair na heresia.

4. “Vês… – escreve ele – como (s. Paulo apóstolo(5)) faz depender o fruto e a utilidade da ciência do modo de saber? Que quer dizer modo de saber? Que quer dizer senão que se saiba com que ordem, com que vontade, para que fim se deva saber? Com que ordem: em primeiro lugar o que mais convém para a salvação; com que vontade: mais ardentemente o que mais acende o amor; para que fim: não por vaidade, ou por curiosidade, ou coisa parecida, mas somente para edificação própria ou do próximo. Há alguns de fato que gostam de saber só por saber; e é curiosidade ignóbil. Outros há que desejam saber para serem conhecidos; e é indigna vaidade. E há também os que desejam saber para vender a sua ciência, por exemplo, por dinheiro, pelas honras; e é vergonhosa mercadoria. Mas há ainda os que querem saber, para edificar, e é caridade. E, finalmente, os que desejam saber para serem educados; e é prudência”.(6)

5. A doutrina, ou melhor, a sabedoria que ele segue e ardentemente ama, bem a exprime com estas palavras: “Há o espírito de sabedoria e de inteligência que, à maneira da abelha que produz cera e mel, tem com que acender a luz da ciência e infundir o sabor da graça. Não espere, portanto, receber o beijo, nem o que compreende a verdade, mas não a ama; nem o que a ama, mas não a compreende”.(7) “Que faria a ciência sem o amor? Envaideceria. Que faria o amor sem a ciência? Erraria”.(8) “Só resplandecer é vão; só arder é pouco; arder e resplandecer é perfeito.”(9) Donde nasça, porém, a verdadeira e genuína doutrina, e como deva unir-se com a caridade, assim explica: “Deus é sabedoria e quer ser amado não só suave mas também sapientemente… Aliás com muita facilidade o espírito do erro zombará do teu zelo, se desprezares a ciência; nem o astuto inimigo tem instrumento mais eficaz para arrancar do coração o amor, do que conseguir que no mesmo amor se ande incautamente, e não com a razão”. (10)

6. Claramente se deduz dessas palavras que s. Bernardo, com o estudo e contemplação, procurou unicamente dirigir para a Suma Verdade os raios de verdade recolhidos de toda a parte, estimulado pelo amor, mais do que pela sutileza das opiniões humanas. Dessa Verdade impetrou luz para as inteligências, chama de caridade para os ânimos, as retas normas para o comportamento moral. É essa a verdadeira sabedoria, que supera todas as coisas humanas e tudo conduz à sua fonte, ou seja a Deus, para lhe converter os homens. O doutor melífluo, na verdade, não se dando na agudeza do seu engenho, procede lentamente através dos incertos e mal seguros meandros do raciocínio; não se baseia nos artifícios e hábeis silogismos, de que abusavam muitas vezes no seu tempo os dialéticos, mas, como águia que procura fitar o sol, com vôo rapidíssimo tende para o vértice da verdade. A caridade, com que agia, não conhece impedimentos e como que dá asas à inteligência. Para ele, a doutrina não é meta última, mas caminho que conduz a Deus; não é coisa fria, em que inutilmente o espírito possa deter-se, como se vagueasse enfeitiçado por flutuantes fulgores, mas é movido, impelido e governado pelo amor. Por isso são Bernardo, amparado por tal sabedoria, meditando, contemplando e amando, eleva-se ao supremo ápice da ciência mística, e une-se com o próprio Deus, gozando já nesta vida mortal a bem-aventurança infinita.

Seu estilo

7. E depois o seu estilo vivaz, florido, abundante e sentencioso é tão suave e doce que atrai o espírito do leitor, deleita-o e eleva-o para as coisas do alto; excita, alimenta e dirige a piedade; força, enfim, o ânimo a procurar atingir os bens que não são caducos e passageiros, mas verdadeiros, certos e eternos. Por isso os seus escritos foram sempre tidos em grande consideração; e deles a própria Igreja tirou não poucas páginas celestiais e ardentes de piedade para a sagrada liturgia.(11) Parecem vivificadas pelo sopro do Espírito Santo e resplandecentes de tal esplendor de luz que nunca se podem apagar no decurso dos séculos, pois nascem da alma de quem escreve, sequioso de verdade e caridade e desejoso de nutrir os outros e conformá-los com a sua imagem.(12)

Sua caridade para com Deus

8. Apraz-nos, veneráveis irmãos, citar dos seus livros, para comum utilidade, algumas sentenças, entre as mais belas, acerca desta mística doutrina: “Ensinamos que toda alma, embora carregada de pecados, enredada nos vícios, escrava das paixões, prisioneira no exílio, encarcerada no corpo,.. ainda que, digo, de tal forma condenada e desesperada; ensinamos que ela pode, todavia, encontrar em si não só com que possa dilatar o espírito na esperança do perdão e da misericórdia; mas até com que ouse aspirar às núpcias do Verbo, não temer estreitar um pacto de aliança com Deus, nem ter receio de levar o suave jugo de amor com o Rei dos anjos. O que é que não pode ousar com segurança junto daquele cuja insigne imagem ela vê em si e cuja esplêndida semelhança ela conhece?”(13) “Tal conformidade desposa a alma com o Verbo, visto que assim ela se torna semelhante por meio da vontade àquele a quem é semelhante por natureza e o ama como é amada. Portanto se ama perfeitamente, contraiu as núpcias. Que há de mais aprazível do que tal conformidade? Que há de mais desejável do que aquela caridade, que faz com que, tu, ó alma, não contente do magistério humano, por ti mesma te aproximes com confiança do Verbo, estejas sempre unida ao Verbo, interrogues familiarmente o Verbo e o consultes sobre todas as coisas, tanto capaz de compreender quanto és audaz no desejo? É isso realmente um contrato de espiritual e santo conúbio. Disse pouco, contrato: é um abraço, na verdade, em que querer ou não querer a mesma coisa faz de dois um só espírito. Nem há que recear que a diferença das pessoas torne de qualquer maneira imperfeito o acordo das vontades, porque o amor não conhece temor reverencial. De fato amor vem de amar, não de reverenciar… O amor transborda, o amor; quando chega, assimila e submete todas as outras afeições. Por isso quem ama, ama e mais nada sabe”.(14)

9. Depois de ter observado que Deus quer ser amado pelos homens, muito mais que temido e reverenciado, acrescenta com agudeza e sagacidade: “Ele (o amor) basta por si só, agrada em si mesmo e por causa de si. É mérito e prêmio de si mesmo. O amor não procura motivo, nem fruto, fora de si. O seu fruto é o seu uso. Amo porque amo, amo para amar. Grande coisa é o amor, desde que recorra ao seu princípio, desde que voltando à sua origem, restituído à sua fonte, sempre dela tome o de que perenemente se alimentar. Entre todos os movimentos, sentimentos e afetos da alma, é só no amor que a criatura pode, embora não adequadamente, corresponder ao seu Autor, ou pagar com o mesmo amor”.(15)

10. Visto que ele próprio várias vezes experimentou, na contemplação e na oração, esse divino amor com o qual nos podemos unir estreitamente a Deus, do seu espírito saem estas palavras abrasadas: “Feliz (a alma) que mereceu ser prevenida com a bênção de tão grande suavidade! Feliz, porque teve a graça de experimentar tão grande abraço de felicidade! Isso não é outra coisa senão amor santo e casto, suave e doce; amor tão sereno como sincero; amor mútuo, íntimo e forte, que une dois não numa carne só, mas num só espírito, faz com que dois já não sejam dois, mas um só, como disse s. Paulo:(16) ‘Quem adora a Deus é um só espírito com ele”‘.(17)

11. Essa doutrina mística do Doutor de Claraval, que excede e pode satisfazer todos os desejos humanos, parece em nosso tempo ser desprezada e posta de parte, ou esquecida por muitos, que, impedidos pelos cuidados e negócios cotidianos, não procuram nem desejam outra coisa senão o que é útil e rendoso para esta vida mortal e quase nunca erguem os olhos e o espírito para o céu; quase nunca aspiram às coisas celestiais, aos bens imortais.

12. Ora, embora nem todos possam atingir o cume de tal contemplação divina, de que fala s. Bernardo com sublimes pensamentos e palavras; embora nem todos possam unir-se tão intimamente a Deus, que se sintam unidos ao Sumo Bem como que pelos vínculos de arcano conúbio celestial; todavia, todos podem e devem elevar de vez em quando o espírito das coisas terrenas às celestes, e amar com vontade apaixonada o Supremo Doador de todos os bens.

Necessidade desta caridade para nossa época

13. Por isso, enquanto hoje em muitas almas o amor de Deus ou insensivelmente arrefece, ou não raramente até extingue completamente, julgamos que se devem meditar atentamente esses escritos do doutor melífluo; pois da sua doutrina, que de resto brota do Evangelho, tanto na vida particular como na sociedade pode difundir-se uma nova energia sobrenatural, que governe a moralidade pública e a torne conforme com os preceitos cristãos; e possa, assim, proporcionar remédios oportunos a tantos e tão graves males que perturbam e afligem a sociedade. Quando de fato os homens não amam como devem o seu Criador, do qual receberam tudo o que têm, nem sequer entre si se podem amar; por isso – como muitas vezes acontece – separam-se e mutuamente se combatem no ódio e na inimizade. Deus, porém, é Pai amorosíssimo de todos; e nós irmãos em Cristo, que ele remiu com o seu sangue. Todas as vezes, portanto, que não correspondemos com o nosso amor ao amor de Deus para conosco, e não reconhecemos com reverência a sua divina paternidade, até os laços do amor fraterno se quebram miseramente, e por desgraça despontam – como infelizmente às vezes se vê – as discórdias, os litígios e as inimizades, que podem chegar a ponto de destruir e subverter os próprios alicerces da sociedade humana.

14. É, portanto, necessário restituir a todos os ânimos esta divina caridade, que tão ardentemente abrasou o Doutor de Claraval, se quisermos que tornem a florescer por toda a parte os costumes cristãos, que a religião católica possa exercer eficazmente a sua missão, e que, sendo sedados os dissídios e restaurada a ordem na justiça e na eqüidade, ao gênero humano cansado e atormentado torne a brilhar serena a paz.

15. Desta caridade, com que devemos sempre e com grande fervor estar unidos a Deus, sejam inflamados em primeiro lugar os que abraçaram a ordem do doutor melífluo, e todos os sacerdotes aos quais incumbe o dever especial de exortar e excitar os outros a reacenderem o amor divino. Deste divino amor – como dissemos – e nunca foi doutro modo, têm grande necessidade especialmente em nosso tempo os cidadãos, a sociedade e a humanidade inteira. Se ele arde e leva os espíritos para Deus, fim último dos mortais, as outras virtudes tornamse fortes; se pelo contrário, ele enfraquece e se extingue, também a tranqüilidade, a paz, a alegria e todos os outros verdadeiros bens pouco a pouco afrouxam e se extinguem completamente, pois que promanam daquele que “é caridade”.(18)

O contemplativo

16. Desta divina caridade ninguém falou talvez com tal clareza, elevação e ardor como são Bernardo. “A causa para amar a Deus – assim diz – é o próprio Deus; a medida, amá-lo sem medida”.(19) “Onde há amor, não há canseira, mas gosto”.(20) Ele mesmo confessa que o experimentou, quando escreve: “Oh! amor santo e casto! Oh! doce e suave afeto!… Tanto mais doce e suave, porque é todo divino o sentimento que se prova. Experimentá-lo é divinizar-se”.(21) E noutro lugar: “É melhor para mim, Senhor, abraçar-te na tribulação e estar contigo na fornalha, do que estar sem ti até mesmo no Céu”.(22) Quando, porém, chegou à suma e perfeita caridade, que o uniu em íntimo conúbio com o próprio Deus, então goza de uma alegria e paz tal que não pode haver outra maior: “Oh! lugar do verdadeiro repouso… em que não se vê a Deus como que perturbado pela ira e ocupado em cuidados; mas nele se experimenta a sua vontade bondosa, benévola e perfeita. Essa visão não atemoriza, mas afaga; não excita curiosidade inquieta, mas acalma; não cansa os sentidos, mas tranqüiliza. Aqui realmente repousa-se. Deus tranqüilo dá tranqüilidade em tudo; e vê-lo pacífico é estar em paz”.(23)

17. Todavia esse repouso total não é morte da alma, mas verdadeira vida: “Este sono vital e vigilante ilumina pelo contrário o sentido interior e, sendo repelida a morte, dá a vida eterna. É deveras um sono, que todavia não adormece, mas eleva. É também morte – não receio dizê-lo – visto que o apóstolo elogiando alguns ainda vivos na carne, assim diz: (24) “Estais mortos, e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus”.(25)

18. Esse total repouso do espírito, de que gozamos correspondendo com o nosso ao amor de Deus, e por meio do qual para ele nos voltamos e dirigimos com todo o nosso ser, não nos leva à preguiça nem à inércia, mas a uma álacre, solícita e operosa diligência, com que nos esforçamos por procurar, com a ajuda de Deus, não só a nossa salvação, mas também a dos outros. De fato, tal sublime meditação e contemplação, incitada e estimulada pelo amor divino, “governa os afetos, dirige as ações, corrige os excessos, regula os costumes, aformoseia e põe em ordem a vida, dá enfim a ciência das coisas divinas e humanas… É ela que distingue o que é confuso, une o que está dividido, recolhe o que está espalhado, investiga o que está escondido, procura a verdade, pondera o que é verossímil e descobre a ficção e o artifício. É ela que preordena o que se deve fazer, reflete sobre o que se fez, de maneira que nada fique na mente por corrigir. É ela que na prosperidade, nas contrariedades quase não as sente; uma é fortaleza, a outra prudência”.(26)

O homem de ação

19. E com efeito, embora deseje ficar imerso em tão alta contemplação e suave meditação, que se nutre do espírito divino, todavia o Doutor de Claraval não se fecha na sua cela, que “guardada é suave”(27), mas onde quer que se trate da causa de Deus e da Igreja, está imediatamente presente com o conselho, com a palavra e com a ação. Afirmava de fato que não “deve cada qual viver para si só, mas para todos”.(28) De si mesmo, além disso, e dos seus, assim escrevia: “Também aos nossos irmãos, no meio dos quais vivemos, somos devedores, por direito de fraternidade e convívio humano, de conselho e de auxílio”.(29) Quando, porém, com tristeza, via ameaçada ou perseguida nossa santa religião, não se poupava a canseiras, viagens e cuidados para a defender esforçadamente e ajudá-la segundo as suas forças. “Nada daquilo que se revele interesse de Deus – dizia – me é alheio”.(30) E ao rei Luís de França escrevia estas corajosas palavras: “Nós, filhos da Igreja, não podemos de forma alguma dissimular as injúrias feitas à nossa mãe, o seu desprezo e os seus direitos conculcados… Certamente estaremos firmes, e combateremos até à morte, se for necessário, pela nossa mãe, com as armas convenientes; não com os escudos e as espadas, mas com as orações e lágrimas diante de Deus”.(31) A Pedro, abade de Cluny: “Glorio-me nas minhas tribulações, se fui considerado digno de sofrer alguma coisa pela lgreja. Esta é na verdade a minha glória que exalta a minha cabeça, o triunfo da Igreja. Com efeito se fomos companheiros na dificuldade, sê-lo-emos também na consolação. Houve que trabalhar e sofrer juntamente com a nossa mãe…”. (32)

20. Quando depois o corpo místico de Jesus Cristo foi perturbado por um cisma tão grave que até os bons estavam hesitantes entre uma e outra parte, ele entregou-se totalmente a compor os dissídios e à feliz reconciliação e união dos espíritos. Visto que os príncipes, por ambição do domínio terreno, estavam divididos por terríveis discórdias, de que podiam derivar graves prejuízos para os povos, fez-se artífice de paz e reconciliador de mútua concórdia. Enfim, pois que os lugares santos da Palestina, que o divino Redentor consagrou com o seu sangue, corriam grande perigo, e estavam expostos à pressão hostil de exércitos estrangeiros, por mandato do sumo pontífice excitou com altas palavras e mais elevada caridade os príncipes e os povos cristãos a uma nova cruzada; se ela não teve êxito feliz, não foi certamente por culpa sua.

21. E quando a integridade da fé católica e dos costumes, transmitida pelos antigos como herança sagrada, estava exposta a gravíssimos perigos, sobretudo por obra de Abelardo, Arnaldo de Bréscia e Gilberto Porretano, ele, quer com a publicação de escritos cheios de doutrina, quer com laboriosas viagens, tentou tudo o que pode, amparado pela graça divina, para que os erros fossem debelados e condenados, e para que os errantes conforme as suas possibilidades voltassem ao reto caminho e se emendassem. 

O defensor da autoridade pontifícia

22. Como bem sabia que nesta questão não importava tanto a doutrina dos doutores, como a autoridade especialmente do romano pontífice, tratou de interpor tal autoridade, que em dirimir tais questões reconhecia suprema e completamente infalível. Por isso ao nosso predecessor de feliz memória Eugênio III, que fora seu discípulo, escreve estas palavras, que revelam o seu amor e profunda reverência para com ele, unida com aquela liberdade de espírito, que convém aos santos: “O amor não conhece o patrão, conhece o filho mesmo com a tiara… Admoestar-te-ei, portanto, não como mestre, mas como mãe; certamente como alguém que te quer muito”.(33) Dirige-se-lhe, em seguida, com estas ardentes palavras: “Quem és? O sumo sacerdote, o sumo pontífice. És o príncipe dos bispos, o herdeiro dos apóstolos… Pedro por poder, por unção Cristo. És aquele a quem foram entregues as chaves e confiadas as ovelhas. Há também outros porteiros do céu e pastores de rebanhos; mas tu és tanto mais glorioso, quanto maior é a diferença com que herdaste, em comparação dos outros, os dois nomes. Aqueles foram confiados os seus rebanhos, e a cada qual o seu: a ti foram confiados todos, a ti só, na unidade. E não só és pastor dos rebanhos mas único pastor de todos os pastores”.(34) E de novo: “Devia sair deste mundo quem quisesse encontrar o que não pertence ao teu cuidado”.(35)

23. Reconhece, porém, aberta e plenamente a infalibilidade do magistério do romano pontífice, quando se trata de coisas de fé e costumes. Quando combate, na verdade, os erros de Abelardo, o qual, “quando fala da Santíssima Trindade, sabe a Ario; quando da graça, sabe a Pelágio; quando sobre a pessoa de Cristo, sabe a Nestório”(36); “ele que… põe graus na Santíssima Trindade, modos na majestade, sucessão numérica na eternidade”(37); e no qual “a razão humana tudo chama a si, nada deixando à fé”(38); não só discute, desfaz e refuta os seus ardis e sofismas, sutis e falazes, mas também escreve ao nosso predecessor de imortal memória Eugênio III, por tal motivo, estas graves palavras: “É mister referir à vossa autoridade apostólica todos os perigos… sobretudo os que dizem respeito à fé. Julgo, pois, justo que se remediem os prejuízos da fé sobretudo onde ela não pode faltar. É esta de fato a prerrogativa da Sé Apostólica… É tempo de reconhecerdes a vossa autoridade, Pai amantíssimo… Nisso realmente fazeis as vezes de Pedro, cuja cadeira ocupais, se confirmais com as vossas admoestações os espíritos hesitantes na fé e se com a vossa autoridade esmagais os seus corruptores”.(39)

Força e humildade

24. Mas de onde esse monge humilde, quase sem recursos humanos, pôde receber a força para superar as mais árduas dificuldades, resolver os mais complicados problemas e dirimir as mais intricadas questões, só se pode compreender se se considera a exímia santidade de vida, que o ornava, unida a um grande amor da verdade. Ardia sobretudo, como dissemos, da mais ardente caridade para com Deus e para com o próximo, que é, como sabeis, veneráveis irmãos, o preceito principal e como que o compêndio de todo o Evangelho; de modo que não só vivia sempre misticamente unido ao Pai celeste, mas nada mais desejava do que lucrar os homens para Cristo, defender os sacrossantos direitos da Igreja e defender com invicta coragem a integridade da fé católica.

25. No meio de tanta benevolência e estima de que gozava junto dos sumos pontífices, dos povos, não se envaidecia, nem corria atrás da transitória e vã glória dos homens, mas sempre nele resplandecia aquela humildade cristã, que “reúne as outras virtudes… depois de as reunir guarda-as… e conservando-as aperfeiçoa-as”(40); de maneira que “sem ela… nem sequer parecem virtudes”.(41) Por isso “a sua alma não foi tentada pelas honras que lhe ofereceram, nem o seu pé se moveu para procurar a glória; nem a tiara e o anel o atraíam mais do que o ancinho e a enxada”.(42) E, sujeitando-se a tantas e tão grandes canseiras pela glória de Deus e proveito do nome cristão, professava-se “servo inútil dos servos de Deus”(43), “desprezível inseto” (44) , “árvore estéril”(45), “pecador, cinza…”.(46)Alimentava essa humildade cristã e as outras virtudes com a assídua contemplação das coisas celestes, com ardentes orações dirigidas a Deus, com as quais atraia a graça sobrenatural sobre si e sobre os seus empreendimentos e obras.

Seu amor a Jesus

26. De modo muito especial amava tão ardentemente Jesus Cristo, divino Redentor, que sob sua moção e impulso escrevia belas e elevadas páginas, que ainda hoje causam a admiração de todos e fomentam a piedade do leitor. “O que é que enriquece a alma que medita… dá força às virtudes, faz prosperar os bons e honestos costumes, suscita puros afetos? É árido todo o alimento da alma, se não tiver esse azeite; e insípido, se não for temperado com este sal. Se escreves alguma coisa, não pinto gosto se não leio Jesus. Se discutes e falas, não me agrada, se não ouço Jesus. Jesus é mel na boca, doce melodia no ouvido, alegria no coração. Mas é também medicina. Há no meio de vós alguém triste? Jesus desça ao coração e depois suba aos lábios; e eis que à luz desse nome desaparecem todas as nuvens, volta a serenidade. Cometeu alguém um pecado? Corre desesperado ao laço da morte? Mas se invocar esse nome de vida, não há de sentir imediatamente o respiro vital?… A quem é que, agitado e hesitante nos perigos, a invocação desse nome de força não restituiu imediatamente a confiança e repeliu o medo?… Nada melhor refreia o ímpeto da ira, reprime o tumor da soberba e cura a ferida da inveja…”.(47)

O louvor da Mãe de Deus

27. A esse ardente amor por Jesus Cristo unia-se uma devoção terna e suave à sua excelsa Mãe, que amava e venerava com filial ternura. Tinha tanta confiança no seu poderoso patrocínio, que não receou escrever: “Deus quis que nada recebêssemos que não passe pelas mãos de Maria”.(48) E de novo: “Tal é a vontade daquele, que quis que nós tudo tivéssemos por meio de Maria”.(49)

28. E agora apraz-nos, veneráveis irmãos, propor à meditação de todos aquela página, que, sobre os louvores à virgem Mãe de Deus, é talvez a mais bela, a mais ardente, a mais apta a excitar em nós o amor para com ela e a mais útil para fomentar a piedade e para imitar os seus exemplos de virtude: “…Chama-se estrela do mar, e o nome é bem apropriado à Virgem Mãe. Ela na verdade é comparada muito justamente a uma estrela; porque assim como a estrela emite os seus raios, sem se corromper, assim também a Virgem dá à luz o seu Filho sem lesar a sua integridade. Os raios não diminuem a claridade à estrela, nem o Filho à Virgem a sua integridade. Ela é, portanto, aquela nobre estrela que nasceu de Jacó, cujos raios iluminam todo o universo, cujo esplendor brilha no céu e penetra no inferno… É ela, digo, a estrela preclara e exímia, erguida necessariamente sobre este grande e largo mar, que ilumina com os seus méritos e ilustra com seus exemplos. Oh! tu, quem quer que sejas, que te vês mais flutuar à mercê das ondas neste mundo em tempestade do que andar sobre a terra; não tires os olhos do fulgor dessa estrela, se não queres ser submergido pelas tempestades. Se se levantarem os ventos das tentações, se topares nos escolhos das tribulações, olha para a estrela, invoca Maria. Se fores arremessado pelas ondas da soberba, da ambição, da murmuração e da inveja: olha para a estrela, invoca Maria. Se a ira, a avareza ou as atrações da carne sacudirem a barquinha da alma: olha para Maria. Se, perturbado pela enormidade do pecado, cheio de confusão pela fealdade da consciência, cheio de medo pelo horror do juízo, começares a ser devorado pelos abismos da tristeza e do desespero: pensa em Maria. Nos perigos, nas aflições, nas incertezas, pensa em Maria, invoca Maria. Que ela não se afaste da tua boca nem do teu coração; e para obter o auxílio da sua oração, nunca deixes o exemplo da sua vida. Se a segues, não te podes perder; se a invocas, não podes desesperar; se pensas nela, não te podes enganar. Se ela te ampara, não cais; se te protege, não tens que temer; se te guia, não te cansas; se te é propícia, chegas ao fim…”.(50)

 

CONCLUSÃO

29. Julgamos, pois, que não podíamos terminar melhor esta carta encíclica do que convidando-vos a todos, com as palavras do doutor melífluo, a aumentar cada dia mais a devoção para com a santa Mãe de Deus, e imitar com o maior empenho suas excelsas virtudes, cada qual segundo as peculiares condições da sua vida. Se no século XII graves perigos ameaçavam a Igreja e a humanidade, não menos graves, sem dúvida, ameaçam a nossa época. A fé católica, que dá aos homens o supremo conforto, não raramente afrouxou nos espíritos, mas até em alguns países é áspera e publicamente combatida. E quando a religião cristã é desprezada ou combatida, vê-se infelizmente que a moralidade individual e pública se desvia do reto caminho, e até às vezes, através dos meandros do erro, cai miseramente nos vícios.

30. À caridade, que é vínculo da perfeição, da concórdia e da paz, substituem-se os ódios, as inimizades e as discórdias.

31. Há inquietação, angústia e trepidação no espírito humano; teme-se que, se a luz do Evangelho for pouco a pouco diminuindo e afrouxando em muitos, ou – pior ainda-for rejeitada completamente, desmoronem os próprios alicerces da civilização e da vida doméstica; e dessa forma venham tempos ainda piores e mais infelizes.

32. Assim como o doutor de Claraval pediu o auxílio da santíssima Virgem e o alcançou para a sua época turbulenta, assim também nós todos, com a mesma constante piedade e oração, devemos alcançar da nossa Mãe divina que para estes graves males, que já avançam ou se temem, impetre de Deus os remédios oportunos; e conceda, com o auxílio divino, benigna e poderosa, que uma sincera, sólida e frutuosa paz brilhe finalmente para a Igreja, para os povos, para as nações.

33. Sejam esses os abundantes e salutares frutos, que, sob a proteção de s. Bernardo, tragam as celebrações centenárias da sua pia morte; que todos se unam conosco nestas preces e súplicas, e, observando e meditando os exemplos do doutor melífluo, envidem todos os esforços para seguir com boa vontade e zelo as suas pegadas.

34. Desses salutares frutos seja propiciadora a bênção apostólica que a vós, veneráveis irmãos, aos rebanhos que vos foram confiados, e especialmente àqueles que abraçaram a ordem de s. Bernardo, de todo o coração concedemos.

 

Dado em Roma, junto de São Pedro, no dia 24 de maio, festa do Pentecostes, de 1953, XV ano do nosso pontificado.

 

PIO PP. XII

Fonte:http://www.vatican.va/holy_father/pius_xii/encyclicals/documents/hf_p-xii_enc_24051953_doctor-mellifluus_po.html

PAPA BENTO XVI

AUDIÊNCIA GERAL

Praça de São Pedro
Quarta-feira, 21 de Outubro de 2009  

Queridos irmãos e irmãs!

Hoje gostaria de falar de São Bernardo de Claraval, chamado “o último dos Padres” da Igreja, porque no século XII, mais uma vez, renovou e tornou presente a grande teologia dos Padres. Não conhecemos os pormenores os anos da sua infância; sabemos contudo que ele nasceu em 1090 em Fontaines na França, numa família numerosa e discretamente abastada. Ainda jovem, prodigalizou-se no estudo das chamadas artes liberais – especialmente da gramática, da retórica e da dialéctica – na escola dos Cónegos da igreja de Saint-Vorles, em Châtillon-sur-Seine e amadureceu lentamente a decisão de entrar na vida religiosa. Por volta dos vinte anos entrou em Cîteaux, uma fundação monástica nova, mais activa em relação aos antigos e veneráveis mosteiros de então e, ao mesmo tempo, mais rigorosa na prática dos conselhos evangélicos. Alguns anos mais tarde, em 1115, Bernardo foi enviado por Santo Estêvão Harding, terceiro Abade de Cîteaux, para fundar o mosteiro de Claraval (Clairvaux). Aqui o jovem Abade, tinha apenas vinte e cinco anos, pôde apurar a própria concepção da vida monástica, e empenhar-se em pô-la em prática. Olhando para a disciplina de outros mosteiros, Bernardo recordou com decisão a necessidade de uma vida sóbria e comedida, tanto à mesa como no vestuário e nos edifícios monásticos, recomendando o sustento e a atenção aos pobres. Entretanto a comunidade de Claraval tornava-se cada vez mais numerosa, e multiplicava as suas fundações.

Nestes mesmos anos, antes de 1130, Bernardo iniciou uma ampla correspondência com muitas pessoas, quer importantes quer de modestas condições sociais. Às muitas Cartas deste período é preciso acrescentar numerosos Sermões, assim como Sentenças e Tratados. Remonta sempre a este tempo a grande amizade de Bernardo com Guilherme, Abade de Saint-Thierry, e com Guilherme de Champeaux, figuras entre as mais importantes do século XII. A partir de 1130, começou a ocupar-se de muitas e graves questões da Santa Sé e da Igreja. Por este motivo teve que sair cada vez mais do seu mosteiro, e por vezes da França. Fundou também alguns mosteiros femininos, e foi protagonista de um vivaz epistolário com Pedro o Venerável, Abade de Cluny, sobre o qual falei na quarta-feira passada. Dirigiu sobretudo os seus escritos polémicos contra Abelardo, um grande pensador que iniciou um novo modo de fazer teologia, introduzindo sobretudo o método dialéctico-filosófico na construção do pensamento teológico. Outra frente contra a qual Bernardo lutou foi a heresia dos Cátaros, que menosprezavam a matéria e o corpo humano, desprezando, por conseguinte, o Criador. Ele, ao contrário, sentiu-se no dever de assumir a defesa dos judeus, condenando as manifestações de anti-semitismo cada vez mais difundidas. Devido a este aspecto da sua acção apostólica, algumas dezenas de anos mais tarde, Ephraim, rabino de Bonn, dirigiu a Bernardo uma vivaz homenagem. Naquele mesmo período o santo Abade escreveu as suas obras mais famosas, como os celebérrimos Sermões sobre o Cântico dos Cânticos. Nos últimos anos da sua vida – a sua morte verificou-se em 1153 – Bernardo teve que limitar as viagens, sem contudo as interromper totalmente. Aproveitou para rever definitivamente o conjunto das Cartas, dos Sermões e dos Tratados. Merece ser mencionado um livro bastante particular, que ele terminou precisamente neste período, em 1145, quando um seu aluno, Bernardo Pignatelli, foi eleito Papa com o nome de Eugénio III. Nesta circunstância, Bernardo, como Padre espiritual, escreveu a este seu filho espiritual o texto De Consideratione, que contém ensinamentos para poder ser um bom Papa. Neste livro, que permanece uma leitura conveniente para os Papas de todos os tempos, Bernardo não indica apenas como desempenhar bem o papel de Papa, mas expressa também uma visão profunda do mistério da Igreja e do mistério de Cristo, que no final se resolve na contemplação do mistério de Deus trino e uno:  “Deveria ainda prosseguir a busca deste Deus, que ainda não é bastante procurado”, escreve o santo Abade “mas talvez se possa procurar melhor e encontrar mais facilmente com a oração do que com o debate. Ponhamos então aqui um ponto final no livro, mas não na pesquisa” (XIV, 32:  PL 182, 808), no estar a caminho rumo a Deus.

Gostaria de me deter agora só sobre dois aspectos centrais da rica doutrina de Bernardo:  eles referem-se a Jesus Cristo e a Maria santíssima, sua Mãe. A sua solicitude pela participação íntima e vital do cristão no amor de Deus em Jesus Cristo não contribui com novas orientações para o estatuto científico da teologia. Mas, de modo mais do que decidido, o Abade de Clairvaux configura o teólogo com o contemplativo e com o místico. Só Jesus – insiste Bernardo diante dos complexos raciocínios dialécticos do seu tempo – só Jesus é “mel para os lábios, cântico para os ouvidos, júbilo para o coração” (mel in ore, in aure melos, in corde iubilum)”. Vem precisamente daqui o título, a ele atribuído pela tradição, de Doctor mellifluus:  de facto, o seu louvor de Jesus Cristo “escorre como o mel”. Nas extenuantes batalhas entre nominalistas e realistas – duas correntes filosóficas da época – o Abade de Claraval não se cansa de repetir que um só nome conta, o de Jesus de Nazaré. “Todo o alimento da alma é árido”, confessa, “se não for aspergido com este óleo; insípido, se não for temperado com este sal. Aquilo que escreves para mim não tem sabor, se nisso eu não ler Jesus”. E conclui:  “Quando discutes ou falas, para mim nada tem sabor, se eu não ouvir ressoar nisso o nome de Jesus” (Sermones in Cantica Canticorum XV, 6:  PL 183, 847). De facto, para Bernardo o verdadeiro conhecimento de Deus consiste na experiência pessoal, profunda de Jesus Cristo e do seu amor. E isto, queridos irmãos e irmãs, é válido para cada cristão:  a fé é antes de tudo encontro pessoal, íntimo com Jesus, é fazer a experiência da sua proximidade, da sua amizade, do seu amor, e só assim se aprende a conhecê-lo cada vez mais, a amá-lo e a segui-lo sempre mais. Que isto se verifique com cada um de nós!

Noutro célebre Sermão no domingo entre a oitava da Assunção, o santo Abade descreve em termos apaixonados a íntima participação de Maria no sacrifício redentor do Filho. “Ó santa Mãe – exclama ele – deveras uma espada trespassou a tua alma!… A violência da dor trespassou de tal modo a tua alma, que justamente podemos chamar-te mais do que mártir, porque em ti a participação na paixão do Filho superou muito em intensidade os sofrimentos físicos do martírio” (14:  PL 183, 437-438). Bernardo não tem dúvidas:  “per Mariam ad Iesum“, através de Maria somos conduzidos até Jesus. Ele testemunha com clareza a subordinação de Maria a Jesus, segundo os fundamentos da mariologia tradicional. Mas o corpo do Sermone documenta também o lugar privilegiado da Virgem na economia da salvação, após a particularíssima participação da Mãe (compassio) no sacrifício do Filho. Não por acaso, um século e meio depois da morte de Bernardo, Dante Alighieri, no último canto da Divina Comédia, colocará nos lábios do “Doutor melífluo” a sublime oração a Maria:  “Virgem Mãe, filha do teu Filho, / humilde e nobre mais do que qualquer criatura, / termo fixo do eterno conselho,…” (Paraíso 33, vv. 1 ss.).

Estas reflexões, características de um apaixonado por Jesus e Maria como São Bernardo, provocam ainda hoje de modo saudável não só os teólogos, mas todos os crentes. Por vezes pretende-se resolver as questões fundamentais sobre Deus, sobre o homem e sobre o mundo unicamente com as forças da razão. São Bernardo, ao contrário, solidamente fundado na Bíblia e nos Padres da Igreja, recorda-nos que sem uma fé profunda em Deus, alimentada pela oração e pela contemplação, por uma relação íntima com o Senhor, as nossas reflexões sobre os mistérios divinos correm o risco de se tornarem uma vã prática intelectual, e perdem a sua credibilidade. A teologia remete para a “ciência dos santos”, para a sua intuição dos mistérios do Deus vivo, para a sua sabedoria, dom do Espírito Santo, que se tornam ponto de referência do pensamento teológico. Juntamente com Bernardo de Claraval, também nós devemos reconhecer que o homem procura melhor e encontra mais facilmente Deus “com a oração do que com o debate”. No final, a figura mais verdadeira do teólogo e de cada evangelizador permanece a do Apóstolo João, que apoiou a sua cabeça no coração do Mestre.

Gostaria de concluir estas reflexões sobre São Bernardo com as invocações a Maria, que lemos numa sua bonita homilia. “Nos perigos, nas angústias, nas incertezas – diz ele – pensa em Maria, invoca Maria. Que ela nunca abandone os teus lábios, nem o teu coração; e para obteres a ajuda da sua oração, nunca esqueças o exemplo da sua vida. Se a segues, não te podes desviar; se lhe rezas, não te podes desesperar; se pensas nela não podes errar. Se ela te ampara, não cais; se ela te protege, nada temes; se ela te guia, não te cansas; se ela te é propícia, alcançarás a meta…” (Hom. II super “Missus est”, 17:  PL 183, 70-71).



Saudação

Amados brasileiros do Rio de Janeiro e demais peregrinos de língua portuguesa, com afecto a todos saúdo e abençoo, desejando que a vossa peregrinação até junto do túmulo dos Apóstolos Pedro e Paulo reforce, em cada um, a sua fé. Esta é, antes de tudo, encontro íntimo e pessoal com Jesus Cristo. Que esta experiência vos leve a conhecê-Lo, amá-Lo e segui-Lo cada vez mais! Ide com Deus!

 Fonte:http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/audiences/2009/documents/hf_ben-xvi_aud_20091021_po.html