Biografia dos Santos

Santa Luiza de Marillac

Posted on: julho 23, 2010

1591 – Nascimento à 12 de agosto. Não sabemos onde, e nem que é a sua mãe.

1595 – Seu pai casa novamente. Sua madrasta tem já 3 filhos.

1604 – Morre seu pai. Luísa tem 13 anos.

Casamento com AntÔnio Legras à 5 de fevereiro. – 1613

“LUMIÀRE” (Luz.) – 1623

Morte de Antônio Legras. Encontro com São Vicente. – 1625

1629 – São Vicente envia Luísa a visitar as confrarias.

1633 – Reúne as primeiras Filhas da Caridade.

1642 – Faz votos com mais 4 irmãs.

Estruturação da Companhia. – 1647

Casamento de seu filho Miguel. – 1650

Começa a explicação das regras às primeiras irmãs. – 1655

1658 – Consagração oficial da Companhia à Nossa Senhora.

1660 – Morte de Santa Luísa.

Biografia de Santa Luísa Marillac

Luísa de Marillac nasceu no dia 12 de agosto de 1591, filha natural, de mãe desconhecida. E, por conseguinte, sofreu as conseqüências disso: falta de um lar carinhoso, desprezo dos parentes e, naturalmente muitos conflitos afetivos.

Era de constituição frágil, de baixa estatura, magra, bonita, nariz afilado, olhos expressivos, boca pequena. Dotada de grande capacidade intelectual e de vontade enérgica. Era muito sensível e inclinada ao escrúpulo, à timidez, à insegurança, minuciosa e perfeccionista, muito aberta às coisas de Deus e do próximo.

Sua infância e adolescência foram machucadas por acontecimentos dolorosos que marcaram profundamente, o seu ser.

Em tenra idade, seu pai, Luís de Marillac, colocou-a no Convento de Poissy, onde recebeu uma esmerada educação. Aí permaneceu enquanto ele viveu. Depois foi morar numa pensão familiar. Ali, ela adquiriu conhecimentos para a vida prática como cozinhar, costurar, bordar, senso de responsabilidade e organização enquanto que sua permanência no Convento de Poissy proporcionou-lhe uma grande bagagem de piedade, de ciência e de instrução, uma educação de elite.

Quis ser religiosa Capuchinha, entre as Filhas da Cruz, mas não foi aceita, porque sua saúde não suportaria os rigores da penitência que caracterizava a Ordem. Em particular, fez o voto de consagrar-se à Deus, em penitência e oração.

Em 1613, casa-se com Antônio Legras, matrimônio “combinado” como era costume na época. Desse casamento, nasceu-lhe um filho que recebeu o nome de Miguel, em homenagem a seu tio. Luísa foi fiel e dedicada ao esposo, sendo também mãe carinhosa, uma “super mãe”, prejudicando assim a educação do filho.

Em 1621-1622, Antônio Legras contraiu uma moléstia, que afetou até o seu comportamento. Luísa foi boníssima para com ele. Entretanto, grandes escrúpulos e dúvidas invadem a sua alma e ela chega a pensar ser vítima de castigos de Deus. Sente-se rejeitada por todos, mesmo do próprio Deus. Densas trevas a envolvem e só no dia 4 de junho de 1623, na Igreja de são Nicolau dos Campos, recebe a célebre “LUZ DE PENTECOSTES” Liberta-se então de suas penas e incertezas e começa a descobrir ainda que não muito claramente os planos divinos a seu respeito.

Em 1625 o marido veio a falecer, na paz, depois de muita revolta e intranquilidade.
Quando Luísa encontra o Padre Vicente, ela tem 34 anos, é uma viúva angustiada, inquieta na busca da vontade de Deus, com uma vida de oração toda estruturada em exercícios, em devoções, em jejuns e disciplinas. O Padre Vicente descobre as marcas que a dureza da vida deixou nesta mulher super-sensível e sofrida. Acolhe seu sofrimento e com paciência começa a trabalhar sobre esta inquietude de Luísa, desdramatizando as coisas e jogando-a no amor de Deus que liberta. Recomenda-lhe muito a meditação da Palavra de Deus

Descobre logo a rica personalidade de Luísa e solidez de sua fé. Então, ele orienta sua inteligência e seu coração para os pobres. Recorre com frequência à sua colaboração para preparar roupas para os pobres, para visitá-los, solicita pequenos serviços nas confrarias e ela vai recuperando pouco a pouco a confiança em si mesma.

Apreciando sua disponibilidade, seu juízo reto e seguro, seu sentido de organização e intuição feminina, o Padre Vicente faz dela sua principal colaboradora e confia-lhe a animação das Confrarias da Caridade.

Chegando nas aldeias, Luísa se informa das pessoas que pertencem à Confraria, reúne as senhoras da Caridade e dirige-lhes a palavra. Observa como funciona a Confraria, o estado financeiro das coisas, o papel decada um dos membros, informa-se sobre a vida espiritual, visita pessoalmente os pobres, interessa-se pela instrução das (dos) jovens. Terminada a visita, ela reúne as responsáveis, dá orientação segura e envia ao Padre Vicente um relatório minucioso, com sua própria apreciação.

No trabalho das Confrarias, o Padre Vicente intervém quando necessário, mas deixa toda a liberdade de ação a sua colaboradora e recorre muitas vezes ao seu espírito de organização.

Com o tempo, as necessidades aumentam, as consequências da guerra se fazem sentir e Vicente e Luísa se interrogam sobre o futuro do serviço dos pobres. Apresenta-se uma camponesa: Margarida Naseau e com ela outras camponesas que seguem o seu exemplo de dedicar a vida a serviço dos pobres

As jovens que se reúnem ao redor de Luísa de Marillac em 29 de novembro de 1633, são camponesas rudes, que não tem instrução nem mesmo elementar, a maioria não sabe ler. Luísa dá formação espiritual às jovens ensina a ler, a escrever, a costurar, como cuidar dos doentes, a fazer chás caseiros, como ensinar o catecismo. Juntas refletem e enfrentam as dificuldades que aparecem nos serviços, os mais variados.

A experiência sofrida de sua infância e a educação diversificada que recebera muito contribuiram para a organização da Companhia das Filhas da Caridade, tanto na parte humana como na espiritual. A maneira de viver, as virtudes, a vida fraterna e o serviço dos pobres são frutos de sua experiência humana e fidelidade à graça de Deus.

Luísa, com a ajuda do Padre Vicente, que soube ouví-la e compreendê-la, lutou contra os seus defeitos e chegou a ser a fervorosa imitadora de Jesus Crucificado, desapegada de si mesma, zelosa para com a Comunidade e o serviço dos pobres.
A morte de Luísa de Marillac deu-se em 15 de março de 1660. Suas últimas recomendações no leito de morte, ou seja o testamento espiritual que deixa para suas filhas é um legado de fidelidade a Deus, à Virgem Maria, à vida fraterna e aos pobres. Disse: “Tende muito cuidado com o serviço dos pobres, vivei juntas em grande cordialidade para imitar a união e a vida de Nosso Senhor e tende a Santíssima Virgem por vossa única Mãe.”

Seu testemunho de vida simples, humilde, cheia de amor, tem muito a nos ensinar. Ela foi a primeira voluntária da Caridade. Quando no momento atual, a Igreja pede a todos nós, uma opção preferencial pelos pobres, Luísa, essa mulher dinâmica e corajosa, já antecipou os tempos, fazendo uma opção não somente preferencial, mas radical pelos pobres. Em qualquer pessoa que sofresse, ela sabia contemplar Jesus Cristo crucificado e para resgatar a imagem e semelhança de Deus presentes nos marginalizados, ela dedicou o melhor de si, colocou em ação as suas potencialidades femininas agilizando os meios de que dispunha para transformar a realidade de pobreza de seu tempo. Ela nos ensina, sobretudo, a buscar sempre a realização do projeto de Deus sobre nós, com humildade, criatividade e abertura de coração.
Foi canonizada em 1934 e proclamada pelo Papa João XXIII, a Patrona das Obras Sociais.

Os traços principais do rosto de Luísa de Marillac e sua evolução espiritual.
     – Vivacidade.
     – Humildade.
     – Tenacidade
     – Cordialidade.

São Vicente descobriu a miséria material e espiritual de sua época e consagrou sua vida ao serviço e à evangelização dos pobres. Para isso fundou as Confrarias da Caridade ( Senhoras da Caridade, hoje, Voluntárias da Caridade) e os Padres da Missão. Nesta ocasião encontrou-se com Luiza de Marillac e associou-a a sua atividade com os pobres. As senhoras da Caridade, impedidas por seus maridos, deixaram de assistir pessoalmente os pobres, mandando suas criadas. Uma jovem camponesa, Margarida Naseau, apresentou-se ao Padre Vicente para dedicar-se aos mais humildes trabalhos que as senhoras das confrarias não assumiam junto aos pobres. Com grande amor evangélico, fez-se a serva dos mais abandonados. Seu exemplo foi comunicativo, pois logo outras jovens a seguiram. Vicente as confia à Luiza de Marillac para instruí-Ias.

A 29 de Novembro de 1633 as (4) quatro primeiras Irmãs se reúnem com Luiza para viver um mesmo ideal, em comunidade fraterna. Seis meses depois já são (12) doze. Foi uma novidade na época, pois até então só havia vida consagrada em clausura. E agora elas vivem no meio do povo, indo à casa dos pobres para atender os doentes. Depois, à medida das necessidades, ocuparam-se dos doentes nos hospitais, da instrução das jovens, das crianças abandonadas, dos galés, dos soldados feridos, dos refugiados, das pessoas idosas, dos dementes e outros…

Alguns anos mais tarde, convictos de que a Caridade de Cristo que deve impulsionar a Companhia não conhece fronteiras, os Fundadores enviaram à Polônia um primeiro grupo de Irmãs.

A 18 de janeiro de 1655, a Companhia foi aprovada pelo Cardeal de Retz, Arcebispo de Paris, e, a 8 de junho de 1668, recebeu a aprovação pontificia do Papa Clemente IX.

 

 DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II
ÀS IRMÃS DA CARIDADE
DE SÃO VICENTE DE PAULO

 

 

11 de Janeiro de 1980

 Minha Reverenda Madre
Minhas Irmãs

Imaginai comigo que São Vicente de Paulo e Santa Luísa de Marillac — os vossos dois fundadores, tão unidos na sua paixão evangélica de servir os pobres, Santos que voltaram para o Senhor com poucos meses de intervalo um do outro, há mais de três séculos — imaginai que se encontram presentes nesta reunião de família. Mas estão deveras connosco embora misteriosamente. Permiti-me que lhes dê a palavra, tornando-me eu intérprete apenas.

Enquanto vós continuais os trabalhos da Assembleia geral da Companhia, aqueles que venerais como vosso Pai e vossa Mãe querem, primeiro que tudo, confirmar-vos na consciência da actualidade da vocação que tendes. O calor da caridade é com certeza aquilo de que os homens mais precisam hoje, como sempre aliás. Certamente que as misérias sociais do século XVII e da época da Fronda estão já bem longe. Mas «tendes sempre pobres convosco». Quem nos dará estatísticas  exactas sobre a pobreza real em cada país e à escala do mundo inteiro? São muitas vezes publicados números relativos ao comércio, à agricultura, à indústria, aos bancos, aos armamentos, etc. Mas, na época dos «computers», sabemos porventura quais os números exactos dos analfabetos, das crianças abandonadas, dos subalimentados, dos cegos, dos doentes, dos lares desunidos, dos presos, dos marginalizados, das prostitutas, dos desempregados, das pessoas que vivem nos bairros de lata ou favelas do mundo inteiro? Caras Irmãs, não tenhais olhos nem coração senão para os pobres, como «monsieur Vincent» e «Mademoiselle Legras». E para vos estimulardes mais — se necessário fosse! — considerai que vos dizem:

Contemplai Nosso Senhor Jesus Cristo, ouvi-O repetir-vos qual o sentido da Sua missão: O Espírito do Senhor está sobre Mim… Ungiu-Me para anunciar a Boa Nova aos pobres, proclamar a libertação aos cativos, fazer recobrar aos cegos a vista, e mandar em liberdade os oprimidos… (Lc 4, 18) É verdade, o Evangelho apresenta-nos quase sempre Cristo entre os pobres. É o meio em que decorre a Sua vida.

Parece-me igualmente que estes dois grandes Santos da caridade vos impelem, com ternura e firmeza, a que defendais e desenvolvais a vossa entrega radical a Jesus Cristo, segundo as promessas que renovais cada ano a 25 de Março. A castidade, por causa de Cristo e do Evangelho, é dessa entrega o sinal mais profundo. E longe de ser alienação da pessoa, é admirável promoção das capacidades e necessidades de maternidade, inerentes a toda a mulher. Vós sois mães. Colaborais na protecção, na orientação, desenvolvimento, na cura e no encerramento em paz de tantas vidas humanas, tanto no plano físico como no moral e religioso. O vosso celibato consagrado vede-o sempre como caminho de vida até aos outros, e revelai este segredo às jovens que hesitam em enveredar pelo caminho que vós seguistes. Amai não somente os pobres, amai também serdes vós mesmas pobres, em espírito e em actos. São Vicente de Paulo e Santa Luísa de Marillac disseram mais com o serviço concreto dos pobres — dia e noite —, do que fariam com extensos tratados sobre a pobreza. Do mesmo modo São Francisco de Assis foi mais eloquente despojando-se do seu vestuário, do que se publicasse uma revista periódica sobre o desapego dos bens terrenos. E Charles de Foucauld mais enriqueceu com o seu sorriso e a sua bondade o ambiente dos pobres, do que se desse à imprensa a autobiografia de jovem oficial convertido, que escolheu estar no último lugar e entre os pobres. Poder-se-ia recordar também que o meu veneradíssimo predecessor Paulo VI, pondo de parte o uso da tiara, fez um gesto que não acabou de dar os seus frutos na Igreja.

Vós ouvis, por último, instar convosco os vossos dois modelos devida para que não deixeis que se apague o espírito de dependência, quando cada pessoa tanto tende hoje para se reservar um espaço livre em que não dependa de ninguém, para melhor se entregar à imaginação e fantasia. A obediência religiosa, bem o sabeis, é sem dúvida o mais agudo dos três cravos de ouro que prendem à vontade de Jesus os seus imitadores e as suas imitadoras. É lá possível contemplar alguém a cruz do Senhor Jesus sem se conformar ao Seu mistério de obediência ao Pai? Sejam os superiores religiosos, humanos e compreensíveis, é dever que têm. Mas sejam também os súbditos cada vez mais adultos e responsáveis, de maneira que aprofundem e vivam o valor de oblação da obediência.

Numa palavra, os vossos fundadores dizem-vos, como a todas as vossas companheiras: «Estai no mundo, sem nunca vos deixardes contaminar pelo espírito do mundo de que fala São João». Sabeis que o sal, se ficar insosso, não há com que temperar. E o que brilha é a pureza do cristal.

A vós, minha Reverenda Madre, que fostes agora reeleita, sinto especial alegria dirigir os meus votos de frutuoso serviço da Compa­nhia. As Capitulares, a quem agradeço a visita, e a todas as Irmãs da Caridade, que servem a Cristo nos Seus pobres no mundo inteiro — sem esquecer o serviço muito apreciado que prestam no Vaticano —, concedo a minha afectuosa Bênção Apostólica

http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/speeches/1980/january/documents/hf_jp-ii_spe_19800111_figlie-sanvincenzo_po.html

Biografia de  SANTA LUÍSA DE MARILLAC

Reflexão por Irmã Elisabeth Charpy, FC, da província da Paris e

Irmã Louise Sullivan da província da Albany  dos Estados Unidos

Tradução por Lauro Palú, CM, Província do Rio de Janeiro

            1660 foi um ano de grandes lutos para a Família Vicentina. O Pe. Antoine Portail, primeiro Coirmão de São Vicente de Paulo e primeiro Diretor das Filhas da Caridade, morreu em fevereiro. Santa Luísa de Marillac, sua colaboradora e amiga, morreu em março. Ele mesmo morrerá em setembro. Embora o nome e a imagem de São Vicente fossem universalmente reconhecidos, já no século XVII, o nome e a imagem de Santa Luísa parecem apagar-se completamente. Só em 1933  ela sairá definitivamente da sombra de São Vicente, para retomar seu lugar ao lado dele, não só como Fundadora das Filhas da Caridade, mas ainda como uma mulher de hoje. Por suas ações e suas palavras, foi capaz de despertar em cada um, em cada uma de nós, o conhecimento de seu próprio valor.

 Quem foi Luísa de Marillac no século XVII?

             Em maio de 1629, São Vicente de Paulo envia a jovem viúva que tinha encontrado uns anos antes, para que vá visitar as Confrarias de Caridade, que tinham começado tão bem mas que, depois de um tempo, perdiam o zelo do início. Bem que precisavam reencontrar o entusiasmo de sua origem. Para São Vicente, ninguém estava mais bem qualificado para isso que Santa Luísa de Marillac. Ela deu conta dessa missão de modo notável e São Vicente se alegrou com o sucesso dela.

             Quando Santa Luísa encontrou São Vicente, no final de 1625 ou no início de 1626, o marido dela acabara de morrer, depois de uma longa e penosa doença. Ficara sozinha com um filho difícil de 12 anos e com dificuldades econômicas. Era uma mulher frágil que procurava seu caminho. São Vicente a acompanhou. Pouco a pouco, percebeu, por trás das aparências de dúvida, hesitação e ansiedade, um mulher forte, dotada de dons excepcionais, capazes de fazer dela a “líder” que ele buscava para colaborar com ele em suas obras de caridade.

             Esse envio em missão de maio de 1629 não foi senão o começo de uma amizade e uma colaboração que transformaria a vida consagrada feminina e o serviço dos mais necessitados na França e além de suas fronteiras e que continua até nossos dias no mundo inteiro. E no meio de todas essas transformações encontramos a figura de Santa Luísa de Marillac. Ela percebeu imediatamente a necessidade de agrupar em comunidade aquelas moças da zona rural que estava formando, a pedido de São Vicente, para trabalhar com as Senhoras da Caridade no serviço dos pobres doentes em seus domicílios. Num mesmo impulso, fundou as Filhas da Caridade e construiu uma ponte sobre o abismo que separava os ricos e poderosos dos camponeses e dos pobres e separava os homens das mulheres. Com São Vicente de Paulo e as primeiras Filhas da Caridade, criou uma vasta rede de caridade que não excluía ninguém.

             São Vicente de Paulo tinha uma visão muito ampla das necessidades dos Pobres. Santa Luísa tinha capacidade da organização, atenção aos pormenores, audácia e criatividade para transformar aquela visão em realidade. Basta considerar a obra das crianças abandonados pelas ruas ou nas portas das igrejas (ela se apaixonou por essa obra, sem dúvida por causa de seu próprio nascimento como “filha natural”) e a obra do Asilo do Santo Nome de Jesus para pessoas idosas, para reconhecermos a verdade desta afirmação.

 Santa Luísa de Marillac jamais buscou aparecer na frente de nada. Ele mesma nos diz:

             “Ao nascer em pobreza e abandono dos homens, Nosso Senhor ensina-me a pureza de seu amor (…) Disso aprenderei a manter-me oculta em Deus, com o desejo de servi-lo sem buscar, para coisa alguma, o testemunho dos homens e a satisfação de sua comunicação, contentando-me com que Deus veja o que quero ser para ele: para tal finalidade, quer que me entregue a ele, a fim de realizar em mim esta disposição: assim o tenho feito, por sua graça” (Santa Luísa de Marillac, Correspondência e Escritos. Trad. da Irmã Lucy Cunha. Ribeirão Preto, Editora Legis Summa, s. d.; p. 812).

            Se, em 1983,  Santa Luísa de Marillac saiu enfim da sombra, foi porque o terreno fora preparado desde 1958, pela publicação da biografia escrita por Mons. Jean Calvet, intitulada Santa Luísa de Marillac por ela mesma. Retrato. Nesse livro, o autor fala publicamente e pela primeira vez das circunstâncias do nascimento dela, dos acontecimentos dramáticos, por vezes traumatizantes, de sua infância e juventude e de uma vida marcada por momentos fugazes de felicidade e por sofrimentos sempre muito próximos. Seu objetivo era a “verdade, companheira da santidade”. Reconheceu a tendência de Santa Luísa de caminhar na “trilha” de São Vicente de Paulo e “como sua sombra”. Calvet queria “ter ressaltado a originalidade dela e posto em relevo sua grandeza própria” como “uma das glórias mais puras das mulheres francesas” (Calvet, p. 8-9).

             Faltava ainda a convergência de dois outros elementos significativos: o movimento de Promoção da Mulher e a reflexão do Concílio Vaticano II sobre a dignidade da pessoa humana (Constituição Gaudium et Spes) para que reaparecesse a verdadeira Luísa de Marillac. O momento propício só chegará em 1983. Nesse ano, apareceu a nova edição da Correspondência e [dos] Escritos de Santa Luísa de Marillac. Graças a uma apresentação mais acessível, a uma nova classificação, a numerosas notas e a um índice pormenorizado, descobriu-se, sobretudo através de suas cartas às Irmãs, uma mulher cativante, cheia de humanismo, atenta a cada ser humano em todas as suas dimensões.

 O que Santa Luísa oferece ao mundo de hoje?

             O aparecimento da Correspondência e dos Escritos apresentou a “verdadeira” Santa Luísa ao mundo de fala francesa. As traduções que logo apareceram em muitas línguas espalharam sua fama pelo mundo inteiro. Mas que retrato nos dão dela? Essa mulher livre e forte de seu tempo, o que ela oferece precisamente para os homens e as mulheres do século XXI?

             O mundo mudou desde a época de Santa Luísa de Marillac, mas, mesmo passados alguns séculos, ela traz para este mundo dominado pela tecnologia valores universais e duradouros e o calor nas relações humanas. Trezentos e cinquenta anos depois de sua morte, alguns desses valores têm uma importância particular para a Família Vicentina, a saber:

 O papel da mulher

 Mulheres do povo

             Muito antes que se começasse a falar disso, Santa Luísa procurou melhorar a situação das mulheres simples do povo: possibilidade de viver uma nova forma de vida consagrada; formação humana, espiritual e profissional; preparação para a responsabilidade de serem educadoras das crianças expostas; professoras de escolas para meninas pobres; cuidadoras dos doentes e dos abandonados.

             “Deveis ser muito reconhecidas pelas graças que Deus vos concedeu, colocando-vos em condição de prestar-lhe tão grandes serviços”  (Escritos, p. 309).  “Não tenhais medo” (Escritos, p.   951).

 Mulheres da burguesia e da nobreza

             Santa Luísa de Marillac estava bem situada para fazer a ligação entre as pessoas simples que eram as Filhas da Caridade e as Senhoras da Caridade que eram da alta sociedade. Isto, porque, como uma “de Marillac”, tinha seu lugar nesse meio, embora tivesse escolhido viver em comunidade com mulheres do povo. Enquanto formava as primeiras Filhas da Caridade para o serviço dos Pobres, muitas vezes em colaboração com as Senhoras da Caridade, seu papel junto delas, na maior parte do tempo, era de animação. Tentava, por suas palavras e seu modo de agir, abri-las ao respeito de cada pessoa, ajudá-las a discernir sob as aparências a dignidade das pessoas pobres, a respeitá-las e a trabalhar em pé de igualdade com as Filhas da Caridade.

             “(…) as Senhoras [da Caridade] reconheceram as necessidades dos Pobres e (…)  Deus lhes deu a graça de socorrê-los de modo muito caridoso e magnificamente. (…) Os meios de que essas caridosas Senhoras se serviram para organizar suas distribuições não foram suas santas assembléias… [mas] fornecendo pessoas fiéis e caridosas para constatarem as verdadeiras necessidades e fornecer-lhes prudentemente, o que serviu não só no corporal mas também no espiritual” (Reflexões de Santa Luísa de Marillac, Documentos,  p. 788 da ed. francesa).  

 Redes de caridade 

             Santa Luísa de Marillac jamais quis imaginar que o serviço dos Pobres fosse reservado a um grupo particular. Para ela, a diversidade e a extensão das necessidades requeriam uma vasta rede de colaboração: mulheres e homens, Senhoras da Caridade, Padres e Irmãos da Congregação da Missão, Filhas da Caridade, Administração Municipal.

             Para assegurar um serviço eficaz, esta colaboração tinha suas exigências. Primeiro, uma obra de colaboração vicentina exige de cada um a vontade de reconhecer e aceitar a personalidade do outro com suas qualidades e seus defeitos.

             “Renovai-vos no espírito de união e cordialidade (…) O exercício da caridade (…) nos leva a não ver as faltas alheias com azedume, mas a desculpá-las sempre, humilhando-nos”  (Escritos, p. 357).

             Em segundo lugar, tal colaboração pede a todos o respeito mútuo, a capacidade de acolher a palavra do outro, sabendo também expressar-se. “Apresentai humildemente, fortemente e com mansidão e brevidade vossas razões” (Ecrits, p. 141).

             Finalmente, o serviço dos pobres nunca será vicentino, se não se caracterizar pelo calor humano, pelas qualidades femininas de que Santa Luísa fala tão frequentemente e de que é modelo em sua própria vida: compaixão, ternura, mansidão, numa palavra, AMOR.

             “Sede muito afáveis e bondosas com os vossos Pobres. Sabeis que são nossos amos, a quem devemos amar com ternura e respeitar profundamente. Não basta ter isso na memória, mas devemos demonstrá-lo por nossos serviços caridosos e afáveis” (Escritos, p. 365).

www.famvin.org/anniversary/pt/downloads/reflexao4_pt.doc

Biografia de Santa Luiza de Marillac por Pe. Guilherme Vaessen

Inicio

Santa Luíza de Marillac nasceu em Paris, a 15 de Agosto de 1591…O pai chamava-se Luís de Marillac, a mãe Margaridade Le Camus…Apenas tinha Luíza quatro anos quando ficou órfã…Verdade é que seu pai, por ser ela a filha única, concentrava nela toda a sua complacência. Porém pouco mis tarde casou de novo com Antonieta Camus, viúva e mãe de três filhos. Por boa que fosse essa segunda mãe, não era fácil encontrar nela a ternura de uma mãe verdadeira…foi isso, sem dúvida, o que decidiu o pai a confiar a filha a uma de suas tias, chamada também Luíza de Marillac…O extremoso pai morreu no tempo em que sua assistência era mais necessária à jovem para enfrentar as incertezas da vida…(p.17;19-20;21)

Começou a frequentar as santas religiosas que a admitiam à participação em suas orações e, às vezes, em suas austeras refeições. Luíza comprazia-se no espetáculo dessa vida de mortificação e imolação e não tardou a tomar a resolução de abraçar o tal instituto, fazendo voto de assim o cumprir…ela tinha por diretor frei Honório de Champigny…lhe declarou que tal não era a vontade de Deus, pois, sendo fraca de saúde, o rigor da regra em tal instituto a esmagaria e inutilizaria para o bem que estava destinada a realizar mais tarde…Impossibilitada de satiosfazer ao seu desejo de abraçar a vida religiosa, optou pelo estado do matrimônio. Quem mais a induziu a seguir essa resolução foi provavelmente seu tio, Miguel de Marillac, depois da morte do pai, tutor e guia de sua adolescência…O esposo que coube a Luíza foi Antônio Le Gras, secretário da rainha Maria de Médicis…Tinha 22 anos quando se ajoelhou ao pé do altar, para receber a benção nupcial, em fevereiro de 1613, na Igreja de S. Gervásio em Paris…Foram estabelecer domicílio na paróquia de S. Merry. Aí nasceu-lhes, em Outubro de 1613 o primeiro e único filho, Miguel Antônio, que lá mesmo foi batizado. (p.23-27).

Amiga dos pobres

“Tinha Luiza uma grande compaixão pelos pobres e a devoção de serví-los. Levava-lhes doces, biscoitos e muitas outras cousas boas. Penteava-os, limpava-lhes a sarna e a bicharia; e quando mortos, mandava enterrá-los. Deixava um pobre para correr a outro, muitas vezes subindo e descendo ladeiras debaixo de chuva e da saraiva.(p.30).

Vestir-se

Teve sempre o coração afastado do mundo, de suas tolas vaidades e prazeres culposos. Nos dias de divertimentos públicos tinha o costume de se retirar ao convento das Capuchinhas. Guardou sempre grande modéstia no modo de vestir, ‘não fazendo consistir o ornato e beleza nos enfeites exteriores, mas aformoseando a alma e o coração…Entre os seus livros prediletos contavam-se a Imitação de Cristo. (p.32).

São Francico de Sales

S. Francisco de Sales quando foi a Paris, onde se demorou seis meses, sempre atraído pelas grandes almas, visitou Luísa, então retida em casa pela doença.(p.35).

Marido morre

Morto o marido, Luíoza renova o voto de viuvez e nessa ocasião escreve a um sacerdote parente: “Não é razoável que pertença inteiramente a Deus, depois de pertencer tanto tempo ao mundo?(p.41 

Anúncios
%d blogueiros gostam disto: