Biografia dos Santos

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Biografia pelo Vaticano

Carlos de Foucauld (1858-1916)

 Presbítero, viveu no deserto norte-africano no meio dos Tuareg. Com a sua fervorosa e generosa fé, o ardente amor por Jesus Eucaristia, o respeito pelos homens, a predilecção pelos mais pobres, nos quais sabia descobrir o reflexo do rosto do Filho do Homem, ele nunca deixou de atrair, até depois da sua morte, um número cada vez maior de almas para o mistério de Nazaré.

 Nasceu em Estrasburgo (França), no dia 15 de Setembro de 1858. Ao ficar órfão com 6 anos cresceu, com a irmã Marie, sob os cuidados do avô. A formação cristã recebida na infância permitiu-lhe fazer uma sentida Primeira Comunhão em 1870.

 Na adolescência distanciou-se da fé. Conhecido como amante do prazer e da vida fácil, revelou, não obstante tudo, uma vontade forte e constante nos momentos difíceis. Empreendeu uma viagem de exploração em Marrocos (1883-1884). O testemunho da fé dos muçulmanos despertou nele um interrogativo: Mas Deus, existe? “Meu Deus, se existis, fazei que vos conheça”.

Ao regressar à França, surpreendido pelo discreto e carinhoso acolhimento da sua família, profundamente cristã, inicia a estudar e pede a um sacerdote para o instruir. Guiado pelo Pe. Huvelin, encontrou Deus no mês de Outubro de 1886. Tinha 28 anos. “Quando acreditei que existia um Deus, compreendi que não podia fazer outra coisa senão viver somente para Ele”.

Uma peregrinação na Terra Santa revelou-lhe a sua vocação: seguir e imitar Jesus na vida de Nazaré. Viveu 7 anos na Cartuxa, primeiro em Nossa Senhora das Neves, depois em Akbés na Síria. Em seguida, viveu sozinho, na oração, na adoração, numa grande pobreza, junto das Clarissas de Nazaré. Foi ordenado sacerdote com 43 anos (1901), na Diocese de Viviers. Depois, transferiu-se para o deserto argelino do Sahara, inicialmente em Beni Abbès, pobre entre os mais pobres, depois mais ao Sul em Tamanrasset com os Tuaregs do Hoggar. Viveu uma vida de oração, meditando continuamente as Sagradas Escrituras, e de adoração, no desejo incessante de ser, para cada pessoa o “irmão universal”, imagem viva do Amor de Jesus. “Gostaria de ser bom para que se pudesse dizer: Se assim é o servo como será o Mestre?”. Quis “gritar o Evangelho com a sua vida”. Na noite de 1 de Dezembro de 1916 foi assassinado por um bando de ladrões de passagem.

 O seu sonho foi sempre compartilhar a sua vocação com os outros: após ter escrito diversas regras de vida religiosa, pensou que esta “Vida de Nazaré” pode ser vivida por todos e em toda parte. Hoje a “família espiritual de Carlos de Foucauld” inclui diversas associações de fiéis, comunidades religiosas e institutos seculares de leigos ou sacerdotes dispersos no mundo inteiro.

 

Fonte: http://www.vatican.va/news_services/liturgy/saints/ns_lit_doc_20051113_de-foucauld_po.html

 

CONGREGAÇÃO PARA AS CAUSAS DOS SANTOS

HOMILIA DO CARDEAL JOSÉ SARAIVA MARTINS
DURANTE A BEATIFICAÇÃO DE TRÊS SERVOS DE DEUS

(…)

2. Carlos de Foucauld, ao meditar na presença do Menino Jesus no período de Natal de 1897-1898 sobre o trecho evangélico de São Mateus que foi proclamado neste domingo, considera a obrigação que tem, todo aquele que recebeu talentos, de os fazer frutificar:  “Devemos prestar contas de tudo o que recebemos… E dado que eu recebi muito, muito me será pedido! Se recebi mais do que a maior parte dos homens… a conversão, a vocação religiosa, a Trapa, a vida de eremita, Nazaré, a comunhão quotidiana e muitas outras graças, muito me será pedido” (Meditação escrita em Nazaré em Fevereiro de 1898 sobre Mateus 25, 14) .

 A beatificação de Carlos de Foucauld é para nós a confirmação:  guiado verdadeiramente pelo Espírito de Deus, ele soube usar e fazer frutificar os numerosos “talentos” que tinha recebido e, correspondendo com alegria às inspirações divinas, seguiu um caminho verdadeiramente evangélico sobre o qual soube atrair milhões de discípulos.

 O Santo Padre Bento XVI recordou recentemente que “nós podemos resumir a nossa fé nas seguintes palavras:  Jesus Caridade, Jesus Amor” (Angelus, 25 de Setembro de 2005), que são as mesmas palavras que Carlos de Foucauld escolheu como mote para exprimir a sua espiritualidade.

 O caminho aventuroso e fascinante de Carlos de Foucauld oferece uma prova convincente da veracidade destas palavras do Sumo Pontífice. De facto, podemos descobrir sem esforço uma espécie de fio condutor que, entre as mudanças e as evoluções, atravessa toda a existência de Frei Carlos. Como escreveu em 1889 o abade Huvelin ao abade Solesmes:  “Ele fez da religião um amor”.

 O próprio Carlos revelou a um amigo do liceu que permaneceu agnóstico aquilo a que chamava “o segredo da minha vida”:  “A imitação é inseparável do amor… Eu perdi o meu coração por aquele Jesus de Nazaré crucificado há mil e novecentos anos e passo a minha vida a procurar imitá-lo, na medida em que a minha debilidade o permite” (Março de 1902, carta a um amigo do liceu, Gabriel Tourdes).

 Na correspondência com Luís Massignon, podemos analisar a liberdade que Carlos adquiriu na sua maneira de aprender a amar:  “O amor a Deus, o amor ao próximo… Ali está toda a religião… Como alcançá-la? Não num dia porque é a perfeição mesma:  é o fim para o qual devemos tender sempre, do qual nos devemos aproximar incessantemente e que alcançaremos só no céu” (1  de  Novembro  de  1915  a  Luís Massignon).

 Em 1882 encontramos a famosa frase de Mateus 25, que Carlos cita com tanta frequência e que o acompanha até à meditação final de 1916, quando põe em paralelo presença eucarística e presença nos pequeninos: 

 “Não existe, penso, palavra do Evangelho que tenha causado em mim uma impressão mais profunda e transformado ainda mais a minha vida do que esta:  “todas as vezes que fizestes estas coisas a um só destes meus irmãos mais pequeninos, a Mim mesmo o fizestes”. Se pensarmos que estas palavras são as da Verdade não criada, as da boca que disse “este é o meu Corpo… este é o meu Sangue”, com que força somos levados a procurar e a amar Jesus nestes “pequeninos”, estes pecadores, estes Pobres!” (1 de Agosto de 1916 a Luís Massignon).

 Carlos de Foucauld teve uma grande influência sobre a espiritualidade do século XX e permanece, neste início do terceiro milénio, um ponto de referência fecundo, um convite a um estilo de vida radicalmente evangélico, e tudo isto para além de quantos pertencem aos diversos grupos dos quais a sua família espiritual, numerosa e diversificada, se compõe. Acolher o Evangelho em toda a sua simplicidade, evangelizar sem querer impor, dar testemunho a Jesus no respeito das outras experiências religiosas, reafirmar a primazia da caridade vivida na fraternidade, eis alguns dos aspectos mais importantes de uma herança preciosa que nos exorta a fazer com que a nossa vida consista, como a do beato Carlos, em “anunciar o Evangelho sobre os telhados… anunciar que somos de Jesus” (Nazaré, 1898, Meditações sobre os santos Evangelhos, A Bondade de Deus, p. 285).

(…)

Fonte: http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/csaints/documents/rc_con_csaints_doc_20051113_beatificazioni_po.html

 Biografia pelo Padre Ion Etxezarreta

Família

 Carlos nasceu em 15 de setembro de 1858, em Estraburgo (França), filho de Francisco Eduardo de Foucauld, ..e de Isabel Beaudet de Morlet, ambos pertencentes a ricas famílias…francesas.

 Um irmão nascido em 1856, e falecido com poucos meses, o havia precedido. Uma irmã, Maria, seria a caçula e sua única irmã.

 Órfão aos 6 anos de idade

 O Pai, Eduardo de Foucauld, começou com fortes depressões…que levou ao túmulo em 9 de agosto de 1864. A mãe, Isabel, já havia falecido em 13 de março do mesmo ano, em conseqüência de um parto prematuro. Carlos e Maria ficaram órfãos, ele com apenas 6 anos de idade. Essa orfandade é agravada pela morte da avó paterna…Foram acolhidos, criados e educados pelo avô materno, o coronel Morlet, homem bom e afável…(p.23)

 A adolescência

 Já nesse tempo, …sua fé começa a vacilar e, de certo modo, enfraquecer…Estuda com os jesuítas da rua Des Postes, em Paris(1875-1876)…Em março de 1876, é expulso da escola. O diretor teme que sua preguiça e má conduta se tornem contagiosas…(p.25)

 Carlos Foucauld disse: “..Nem acredito ter passado por tão lamentável estado de espírito como naquele tempo. De certo modo, causei mais desgostos em outros momentos,…aos 17 anos, eu era só egoísmo, impiedade, desejo do mal, era com um louco…Quanto ao grau de preguiça, na rua Des Postes não puderam me conter, e confesso que, apesar de todos os cuidados para não afligir meu avô, não havia considerado minha saída como uma expulsão. Expulsão da qual  a preguiça não era a única causa. (p.25-26)

 Entra para a escola militar

 Apresenta-se ao concurso para ingresso na Escola Militar de Saint Cyr e é aprovado…A escola militar não entusiasma Carlos…Deve permanecer lá para não decepcionar seu avô, o coronel Morlet, que deseja torná-lo militar, mas a escola e o exercito são para ele uma prisão. (p.26)

 A morte do avô

 Em 3 de fevereiro de 1878, falece o avô, o coronel Morlet. Desaparece um elo, talvez o último, da vida familiar do jovem Carlos.Escreve a seu amigo Gabriel comunicando-lhe a tristeza de se ver sem lar, embora a viúva do coronel e sua própria irmão continuem residindo em Nancy, onde é muito bem recebido quando vai lá.(p.26)

 A vida de pecado e a depressão

 Para tentar escapar dessa etapa de dura e triste solidão, mergulha numa vida de prazer. Em pouco tempo aniquila-se. Nada tem sentido para ele, senão o prazer e as mulheres…Em 15 de setembro completa 20 anos. Pode dispor de uma imensa fortuna e nada o impede de viver sua vida, esbanjando-a. Durante o ano seguinte,.. Carlos vive cheio de tristeza e sentimentos…depressivos..

 Essa tristeza e a depressão levam-no à procura de novas sensações e ele foge do quartel duas vezes, sem que ninguém saiba para onde…Sua tia, Inês Moirissier, indignada com essas excentricidades, faz com que se nomeie um conselho judicial para controlar seus bens.

 Em outrubro de 1879, Carlos abandona Saumur, sendo o último colocado na aprovação: 87º dos 87 alunos. Foi nomeado primeiro para Sézanne, em seguida para Pont à Mousson. Lá continua, bem respaldado pelo marques de Valleumbrosa, a vida de banquetes, farras e orgias…Intensifica sua relação com…uma prostituta. Chega a levá-la pra Sétif, na Argélia, para onde foi enviado seu Regimento…

 No informe sobre a conduta privada do tenente Carlos de Foucauld, figuram, entre outras, as seguintes faltas…

 “Em 24 de novembro, o Major,…impôs ao Sr. De Foucauld 15 dias de prisão simples “por ter trazido à Argélia uma mulher com quem vivia em concubinato na França e por ter recusado fazê-la voltar apesar das ordens do coronel, que tinha concedido 15 dias para providenciar sua partida”. (p.27-28)

 Após oito meses na Argélia e não se sentindo atraído por outro lugar, decide deixar o exército e dedicar-se a percorrer o mundo árabe…

 Carlos de Foucauld disse: “Escrevo para te comunicar uma grande novidade e pedir-te um favor; a novidade é minha demissão… prefiro ir-me agora mesmo; para que continuar me arrastando ainda alguns anos, sem nenhum objetivo, numa vida em que não encontro interesse algum…prefiro aproveitar minha “juventude” viajando…(p.28-29)

 Decide partir para o Marrocos

 Após uma minuciosa preparação de 15 meses, Carlos Foucauld partia para o Marrocos,…Tinha 25 anos. Para empreender essa viagem, aprendeu árabe e hebraico, pois a realiza disfarçado de judeu pobre, acompanhado de outro judeu, Mardoqueu….Embora fosse vários que o levaram a essa difícil viagem, antes de vê-la como um início de aventura…deve-se considerar a possibilidade de que Carlos a teria feito para demonstrar à família que era mais capaz do que o consideravam, sobretudo a partir do momento em que passaram a controlar seus gastos por meio de um Conselho Judicial. Carlos recebe uma soma fixa e periódica, mas tem de esquecer os gastos que sua vultuosa fortuna lhe permitia. (p.29-30)

 A conversão

 Que resultados advieram dessa viagem-aventura para a vida de Carlos?

 (…)

 Primeiro, estudo das língua e de técnicas diversas(como o manejo do barômetro)…obriga-o a desenvolver uma disciplina e um espírito de trabalho aos quais se entrega com a mesma paixão com que se entregava às suas ainda recentes farras.

 Em segundo lugar, a experiência de profunda e fraterna amizade com…dois árabes…e um judeu…A confiança fraterna e a revelação de seu disfarce a esses homens salvam-no da morte em três ocasiões de ameaças iminentes.

 Em terceiro lugar,…vive a experiência de marginalização de um judeu pobre em terra mulçumana, o que também trará conseqüências posteriormente. (p.30)

 Nessas condições e com todas as experiências do deserto acumuladas em seu coração, volta a Paris, e lá se instala, em fevereiro de 1886…bem perto a residência e sua prima, … a quem visita assiduamente.

 Testemunho de conversão de Carlos Foucauld

 “Foi uma série de circunstâncias inesperadas, em que tudo se associou para me levar até Vós! Solidão, emoções, enfermidades dos entes queridos, sentimentos de um coração ardente, retorno a Paris…E quantas graças interiores! O desejo de solidão, de recolhimento, de leituras piedosas, a necessidade de freqüentar vossas igrejas, eu que não acreditava em Vós, a inquietação da alma, a angústia, a busca da solidão, a oração…Tudo isso era obra vossa, meu Deus, unicamente vossa….

 Uma bela alma vos secundava, por meio do seu silencio, da sua doçura, da sua bondade e da sua perfeição…não se deixava notar, era boa, expandia seu perfume atraindo, mas sem intervir. Vós, meu Jesus, meu Salvador. Vós fazíeis tudo, tanto por dentro como por fora!…

 (…)

 O Padre Huvelin me fez entrar em seu confessionário, num dos últimos dias de outubro, entre 27 e 30…Enquanto lhe pedia aulas de religião, fez-me ajoelhar, confessar-me e, em seguida, me mandou comungar…e depois, meu Deus, tem sido uma cadeia de graças crescentes…a comunhão quase diária, a direção espiritual, a confissão freqüente, o desejo da vida religiosa e sua confirmação…o terno e crescente amor por Vós, meu Senhor Jesus, o gosto pela oração, a fé em vossa Palavra, o sentimento profundo do dever da esmola, o desejo de vos imitar…(p.31-32)

 Uma vez realizada a conversão, tem pressa, de certo modo, de “recuperar o tempo perdido”, e se entregar totalmente a Deus. Converte-se em um perscrutador da vontade de Deus, com um desejo de cumpri-la de maneira perfeita. Ou, talvez, mais perfeita do que jamais alguém conseguiu. Uma espécie de competição consigo mesmo e com a sua imagem de antigo pecador incita-o a um radicalismo total e absoluto. Quer imediatamente professar em alguma congregação religiosa, onde espera encontrar a perfeição que busca, mas Padre Huvelin o detém e o obriga a fazer primeiro uma peregrinação à Terra Santa,…Dessa viagem traz uma impressão profunda do encontro com a pobreza e a vida humilde de Nazaré.

  Torna-se religioso

 Em busca da congregação em que pudesse encontrar o máximo de perfeição no seguimento de Jesus, fez quatro retiros durante 1889: nos beneditinos… grande trapa de Soligny, trapa de Nossa Senhora das Neves, e …com os jesuítas. Finalmente, decide ingressar na trapa de Nossa Senhora das Neves.

 No dia 15 de janeiro de 1890, despede-se de sua prima…e sai para a trapa de Nossa Senhora das Neves. Essa é uma data-chave na vida do Irmão Carlos..porque representa uma nova etapa em sua vida…e terá a separação- que ele acredita definitiva –da prima.

 Em 5 de abril de 1909, torna a escrever à sua prima:

 “Foi através de você que fui reconduzido, depois de 13 anos de afastamento, “em terra longínqua”, à Sagrada Eucaristia, à Santa Mesa, na querida paróquia de Santo Agostinho, em outubro de 1886; foi por seu intermédio que conheci as exposições do Santíssimo Sacramento, as bênçãos e o Sagrado Coração!” (p. 33-34)

 Em 16 de janeiro de 1890, Carlos de Foucauld recebe o hábito na trapa de Nossa Senhora das Neves, com o nome de Irmão Maria-Alberico, nome pelo qual será conhecido entre os trapistas, mesmo depois de sua saída da ordem; em junho do mesmo ano, vai para a trapa mais pobre então existente, a trapa de Nossa Senhora do Sagrado Coração…

 É ordenado sacerdote

 É ordenado sacerdote independente da diocese de Viviers em 9 de junho de 1901 e autorizado por seu bispo, Mons. Bonnet, a ir para terras argelinas, com o projeto de uma posterior evangelização do Marrocos… (p.34;36)

Sabedoria do Beato Carlos de Foucauld

 O deserto

 É necessário passar pelo deserto e nele permanecer para receber a graça de Deus: é no deserto que nos esvaziamos e nos desprendemos de tudo o que não seja de Deus, onde se esvazia completamente a casinha de nossa alma para deixar o espaço todo somente para Deus.

 Os hebreus passaram pelo deserto, Moisés viveu nele antes de receber sua missão, São Paulo, ao sair de Damasco, passou três anos na Arábia, seu patrono São Jerônimo e São João Crisóstomo também se prepararam no deserto. É indispensável. É um tempo de graça. É um período pelo qual tem de passar necessariamente toda alma que queira dar fruto…(p.48)

 “O Evangelho me mostrou que o primeiro mandamento é amar a Deus de todo o coração, que é necessário englobar tudo no amor; todos sabem que a primeira exigência do amor é a imitação; faltava-me, pois, entrar na ordem em que encontrava a mais perfeita imitação de Jesus. Não me sentia pronto para imitar sua vida pública na pregação; devia, portanto, imitar a vida oculta do humilde e pobre operário de Nazaré…depois, desejando assemelhar-me mais a Jesus, um desprendimento mais profundo e uma maior abjeção…voltava-me para Nazaré para viver desconhecido, como operário, do meu trabalho diário. Estive quatro anos num retiro, num recolhimento abençoado, gozando dessa pobreza e dessa abjeção que Deus me tinha feita desejar tão ardentemente para imitá-lo…Faz um anos que fui ordenado sacerdote e estou tomando medidas para poder continuar no Saara “a vida oculta” de Jesus em Nazaré, não para pregar, mas para viver, na solidão a pobreza, o humilde trabalho de Jesus, procurando o bem das almas, não por meio da palavra, mas pela oração, a oferenda do Santo Sacrifício, a penitência, a prática da caridade…” (p.62-63)

 Tinha muita gratidão por todo amor recebido

 Carlos expressa afeto e agradecimento…a sua prima…numa carta enviada em setembro de 1889, em que reconhece a influência dela em sua conversão:

 “Ao voltar de Marrocos, eu continuava o mesmo que fora alguns anos atrás e minha primeira permanência em Argel foi apenas de desvarios; mas você foi tão bondosa que em Tuguet que eu voltava a ver e respeitar o bem que, há dez anos, havia esquecido…e depois, que bem recebi que não tenha vindo de você? Quem me trouxe de volta ao Bom Deus? Quem me levou até o Senhor Padre?…O primeiro livro religioso que recebi foi oferecido por você; foi você quem me conduziu à trapa; você quem, por meio da imagem de santa madalena, minha padroeira, que estava em sua mesa, me fez conhecer o Coração de Nosso Senhor…Nem falo do bem que todo dia recebo…quem poderia dizer tudo?” (p.51-52)

 Nas “Meditações sobre os Santos Evangelhos”, redigidas em Beni-Abbés por volta de 1905, ao comentar o versículo de Lc 22,42: “Meu Pai, se quiserdes, afastai de mim este cálice, contudo não se faça a minha vontade, mas a Vossa”, diz:

 “Ele é o modelo de nossas orações; falemos a Deus como a um pai, com a confiança, a simplicidade, o terno abandono de um filho que se sabe amado; peçamos-lhe tudo aquilo que consideramos necessário aos nossos irmãos, seus filhos…peçamos-lhe tudo, com toda simplicidade…” (p.58)

 ORAÇÃO DO ABANDONO
(Beato Carlos de Foucauld)

 

“Meu Pai, a Vós me abandono.

Fazei de mim o que quiserdes!

O que de mim fizerdes, eu Vos agradeço.

Estou pronto para tudo, aceito tudo.

Contanto que a Vossa vontade se faça em mim

e em todas as Vossas criaturas,

não quero outra coisa, meu Deus.

Entrego a minha alma em Vossas mãos.

Eu vo-la dou, meu Deus,

com todo amor do meu coração,

porque vos amo

e porque é para mim uma necessidade de amor

dar-me, entregar-me em Vossas mãos, sem medida,

com uma infinita confiança

porque sois meu Pai”.

 

Comentário a parábola da ovelha perdida

 “Vós me convertestes, me procurastes como o Bom Pastor procura a ovelha perdida, me atraístes a Vós com força e com extrema doçura, me cumulastes de graças ainda maiores que as primeiras, tratastes o filho pródigo melhor do que o filho fiel e, no entanto continuo pecando…Perdão, perdão!” (p.55)

 Conseguia enxergar no trabalho, um testemunho de pobreza

 “Aqui, o trabalho ocupa um lugar um importante; isso me agrada não porque goste de trabalho, mas porque é o companheiro da pobreza, é a imitação de Nosso Senhor…(p.63)

 Valorizava o Evangelho

 “Se não vivemos o Evangelho, Jesus não vive em nós”. (p.67)

 O valor do bom exemplo

 Toda a nossa vida, por mais silenciosas que seja, tanto a vida de Nazaré, a vida do deserto, como a vida pública, deve ser uma pregação do Evangelho pelo exemplo. (p.68)

 Amor à cruz de Jesus

 Quanto mais se este pregado na Cruz, mais ligado se está a Jesus.

 Quem ama o próximo, ama ao próprio Jesus

 Receber o próximo é receber um membro de Jesus, uma porção do corpo de Jesus, uma parte de Jesus. Tudo o que dizemos ou fazemos ao próximo é Jesus quem ouve, quem recebe, é a Ele que dizemos ou fazemos. (p.75)

 Preferir os últimos lugares

 “Ser um bom religioso, cheio de humildade, de pobreza, de obediência, é o que se deve pedir a Deus para mim; ser como Ele um pobre e humilde operário, viver fielmente o amor, o agradecimento…estar sempre no último lugar, esse querido último lugar que foi tão inteiramente o seu na Terra. (p.98)

 Ser humilde é deixar Deus nos conduzir

 Nós somos a folha seca, o grão de pó, o floco de espuma. Sejamos somente fiéis e deixem-nos levar com grande amor e obediência até onde nos impele a vontade de Deus…se alguma vez a obediência  o levar a lugares distantes, onde tantas almas se perdem por falta de sacerdotes, bendiga a Deus, sem medida. Onde se pode fazer maior bem aos outros, lá é onde se está melhor: o esquecimento de si, a entrega total aos filhos de nosso Pai celeste é a vida de qualquer cristão, sobretudo a vida do sacerdote. (p.100)

 A força do bom exemplo

 Toda a nossa vida, por mais silenciosa que seja, a vida de Nazaré, a vida do deserto, tanto quanto a vida pública, devem ser uma pregação do Evangelho pelo exemplo…(p.101)

 O amor de Deus

 Ele, Deus Criador, vem viver na terra como criatura. Vejam esta minha entrega aos homens e avaliem qual deve ser a de vocês. Vejam esta humildade que assumi para o bem de todos os homens e aprendam a humilhar-se para fazer o bem, a atender primeiro às almas, com eu que fui primeiro a elas…a tornar-se pequenos para conquistar os outros…(p.102)

 Amor à Eucaristia

 Uma só missa glorifica mais a Deus do que o martírio de todos os homens unido aos louvores de todos os anjos e santos. (p.248)

O sacerdote é uma custódia, sua função é mostrar Jesus; deve desaparecer para mostrar Jesus; esforçar-me por deixar uma lembrança na alma de todos os que vêm a mim.

 Fazer-me tudo para todos: rir com os que riem, chorar com os que choram, para levá-los todos a Jesus. (p.249)

 Apostolado do Beato Carlos de Foucauld

 Os pobres

 No ano anterior, 1897, meditando a bem-aventurança dos misericordiosos, escreve:

 “Devemos amar a todos os homens como a nós mesmos, mas devemos nos voltar especialmente para os miseráveis, para todos os que o mundo esquece, despreza, exclui: os pobres, os pequenos, os sofredores,… porque tem mais necessidades e menos recursos;…Ele quer que os que não tem amigos nem família no mundo encontrem uma família e amigos naqueles que servem a Deus…(p.106-107)

 Acolheremos os velhos abandonados, os enfermos que não recebem tratamento, e cuidaremos deles em nossa casa como hóspedes, até que possam ser encaminhados a abrigos religiosos. (p.114)

 Levar o amor, onde passar

 Uma das medidas mais eficazes para fazer bem às almas dos pecadores, dos inimigos, dos infiéis, é aliviá-los, consolá-los, ser mansos, benfazejos, bons, fraternos para com eles, abrandando seus corações pelo fogo da nossa caridade…(p.114)

 …depois de conquistar sua amizade pela bondade, pela paciência, pelos serviços (toda espécie de pequenos favores que se possam fazer a todos: pequenas esmolas, remédios, hospedagem). (p.150)

 Imitar o Coração de Jesus e amar todas as pessoas

 Sua própria caridade e a que procuram cultivar nos outros não deve limitar-se àqueles que os cercam, mas estender-se a todos os seres humanos, como a do Coração de Jesus,…(p.123)

 A esmola

 Como dar esmola melhor que no  passado? Resposta: 1º) Dando-a ‘como Jesus’, numa imitação mais fiel do ‘Divino Modelo’. 2º) Procurando menos dar dinheiro e mais o que dava Jesus: nossa ternura fraterna, nosso tempo, nosso sofrimento…(p.149)

 A caridade de conversar com as pessoas

 A conversação longa, tranqüila, descontraída será uma das predileções do Imão Carlos….não é de adimirar que, no momento em que Irmão Carlos quis transmitir o Evangelho, tenha considerado a conversação como um dos meios mais adequados para difundi-lo. É curioso que quem tanto insiste em dizer que sua vocação não é pregar tenha considerado e valorizado tanto a conversação como meio de evangelização…..Irmão Carlos assim se expressa…

 Falar muito com os nativos, não sobre coisas banais, mas a propósito de tudo chegar a Deus: se não pode pregar sobre Jesus, porque não aceitariam esse ensinamento, prepará-los pouco a pouco, para recebê-lo, pregando-lhes sem cessar, com conversações…falar muito e sempre para melhorar as almas, para elevá-las, aproximá-las de Deus, preparar o terreno para o Evangelho…

 Falar muito com eles. A santidade (que é o principal), cedo ou tarde, nos dará autoridade, inspirará confiança….A palavra freqüente é o meio indicado por São Paulo. Como se converterão, se a palavra não é pregada? (p.157-158)

 Em tudo que for possível, o Bom Deus; não sendo possível, o que seja mais adequado para conduzir a Ele o nosso interlocutor; a família, os pobres, o bem que deve ser feito…(p.159)

 As regras para a amizade:

 1º Cristãos: conversar muito com eles; ser amigo de todos, dos bons e dos maus; ser o irmão universal;…O bem maior que se pode fazer aos cristãos é chegar a ser amigo sincero e confidente de cada um para que, uma vez consolidada a amizade, possam ser dados com proveito bons conselhos, boas opiniões, ajudá-los em sua vida espiritual.

 2º Com os soldados nativos: acolhê-los sem problemas, agradavelmente…se procurarem se tornar mais íntimos, aceitá-los, falando unicamente de Deus, da santidade, de coisas espirituais…

 3º Com os outros nativos: procurar conquistar a sua confiança e amizade a fim de que, uma vez estabelecida a confiança, possam ser dados com proveito, progressivamente, os melhores ensinamentos…conseguir sua amizade pela bondade, pela paciência, pelos serviços (pequenos serviços de qualquer espécie que possam ser feitos a todos: pequenas esmolas, medicamentos, hospedagem)…Procurar com eles o máximo de contato possível, firmar confiança e amizade…na medida do possível viver como eles. Procurar manter amizade com todos, ricos e pobres, mas, sobretudo, dirigir-se em primeiro lugar aos pobres, dentro da tradição evangélica. (p.177)

 Além do mais, o contato com nativos faz com que se familiarizem conosco, aproxima-os e faz desaparecerem, pouco a pouco, sua prevenções e preconceitos. (p.203)

 …É preciso a permanência para manter longas e repetidas conversas com algumas pessoas, para cultivar a semente que, durante as viagens, foram simplesmente lançadas;…(p.178)

 Evitar, no momento, as discussões e conversas sobre teologia em que intervém mais a curiosidade que a boa vontade; responder brevemente, sem aceitar discussões… “não joguem pérolas aos porcos para que não aconteça que se voltem contra vocês e os ataquem”. (p.214)

 Conhecer e Amar os cristãos de sua vizinhança

 Que conheçam os cristãos da sua vizinhança…lembrando-se de que o melhor meio para ser amado é amar. Quanto mais forem amigos de todos, melhor conhecerão as necessidades de cada um, poderão remediar os males, socorrer e consolar no momento oportuno…Que se interessem afetuosamente por todos os cristãos vizinhos, alegrando-se com as suas alegrias e compadecendo-se dos seus sofrimentos…(p.180)

 O apostolado da Bondade

 Meu apostolado deve ser o apostolado da bondade. Quem me vê deve pensar: “Já que este homem é tão bom, sua religião deve ser boa”. Se me perguntarem por que sou dócil e bom, devo dizer: “Porque sou servidor de alguém muito melhor do que eu. Se vocês soubessem quão bom é meu Mestre Jesus”. (p.185)

 Por seu exemplo, os irmãos e irmãs devem ser uma pregação viva: cada um deles deve ser um modelo de vida evangélica. Vendo-os, deve-se ver o que e a vida cristã, o que é a religião cristã, o que é o Evangelho, o que é Jesus. (p.186)

 É amando os homens que se aprender a amar a Deus. O meio de alcançar a caridade de Deus é praticando-a com os homens. (p.188)

 Acreditava na conversão de todas as pessoas

 Acima de tudo, evitemos pensar que os mulçumanos sejam “inconversíveis”, que não estejam maduros para o Evangelho…Todos os espíritos foram feitos para a verdade; todos os corações, para a caridade; todas as almas, para o bem; todos os seres humanos, foram chamados para a salvação eterna e para a Igreja; todos os seres humanos, os mulçumanos como os demais, devem, e, conseqüentemente, podem salvar-se e pertencer à Igreja. (p.198)

 Breve resumo da vida de Carlos de Foucauld

 Pergunta-me como é minha vida: é uma vida de monge missionário, baseada nestes três princípios: imitação da vida escondida de Jesus em Nazaré, adoração do Santíssimo Sacramento exposto, instalação entre os povos infiéis mais abandonados, fazendo o possível para convertê-los. (p.133-134)

 Missionários isolados, como eu, são muito raros. Sua função consiste em preparar o caminho, de maneira que as missões que lhes sucederem encontrem uma população amiga e confiante, almas um pouco preparadas para o cristianismo e, se possível, alguns cristãos…(p.208)

  A luz do bom exemplo e da bondade vivemos uma fraternidade que vai gerar o dialogo com o irmão que esta no pecado e a partir daí será conduzido, com hospitalidade, serviço e amizade ao caminho da conversão e do pleno conhecimento de Jesus, se tornando assim, parte do corpo de Cristo que é a Igreja Católica.

Fonte:Irmão Carlos Foucauld: ao encontro dos mais abandonados. edições loyola. biografia escrita por padre Ion Etxezarreta Zubizarreta