Biografia dos Santos

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“O Papa reza por todos, porque ama a todos”

                                     Papa João Paulo II

A família

 A preparação para o sacerdócio, recebida no seminário, foi de certo modo precedida por aquela que me foi oferecida com a vida e o exemplo dos meus pais em família. O meu reconhecimento vai sobretudo para o meu pai, que enviuvara prematuramente. Ainda não tinha feito a primeira comunhão, quando perdi a minha mãe: tinha apenas nove anos. Por isso, não tenho plena consciência da contribuição, certamente grande, que ela deu para a minha educação religiosa. Depois da sua morte e, posteriormente, após o falecimento do meu irmão mais velho, fiquei só com meu Pai, homem profundamente religioso…quando ficou viúvo, …foi uma vida de constante oração. Às vezes me acontecia de acordar de noite e de encontrar meu pai de joelhos, assim com de joelhos sempre o via na igreja paroquial. Entre nós não se falava de vocação ao sacerdócio, mas o seu exemplo foi para mim, de algum modo, o primeiro seminário, uma espécie de seminário doméstico. (p.29-30)

  A vocação sacerdotal

 A história da minha vocação sacerdotal? É sobretudo Deus quem a conhece. Na sua essência mais profunda, toda vocação sacerdotal é um grande mistério, é um dom que supera infinitamente o homem…A vocação é o mistério da eleição divina: “Não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu que vos escolhi e vos designei para irdes e produzirdes fruto e para que o vosso fruto permaneça”. (Jo 15, 16) (p.9)

 ...O arcebispo metropolita de Cracóvia,…visitou a paróquia de Wadowice quando eu era estudante do liceu. O meu professor de religião, Padre Edward Zacher, confiou-me o encargo de lhe dar as boas-vindas. Tive então pela primeira vez a oportunidade de me encontrar diante daquele homem muito venerado por todos. Sei que, depois do meu discurso, o arcebispo perguntou ao professor de religião que faculdade eu escolheria, ao final do curso secundário. Pe. Zacher respondeu: “Irá estudar filologia polonesa”. O prelado teria respondido: “Que pena não ser a teologia”.(p.10)

 Compreendi mais tarde que os estudos de filologia polonesa preparavam em mim o terreno para outro tipo de atrativos e de estudos. Predispunham minha alma para introduzir-me na filosofia e na teologia.(p.12)

 Naquele período da minha vida, a vocação sacerdotal ainda não tinha amadurecido, apesar de não faltar, em torno de mim, quem achasse que eu deveria entrar no seminário.(p.12)

  A decisão de entrar no seminário

 No outono de 1972, tomei a decisão definitiva de entrar no seminário de Cracóvia, que funcionava clandestinamente. Recebeu-me o reitor,…O fato devia permanecer no mais estrito segredo, mesmo com as pessoas queridas…(p.21)

 Durante a ocupação o arcebispo metropolita organizou o seminário, sempre de forma clandestina, na sua residência. Isto podia provocar em qualquer momento, tanto para os superiores como para os seminaristas, severas repressões por parte das autoridades alemãs….(p.21)

 Assim se foram completando os anos de formação no seminário…Hoje, abraço, com um pensamento cheio de gratidão, a todos os meus superiores, diretores espirituais e professores, que, no período do seminário, contribuíram para a minha formação. O Senhor recompense os seus esforços e o seu sacrifício. (p.23)

Trabalho de operário

 Verdadeiramente, a minha experiência não foi a de “padre-operário”, mas de “seminarista-operário”. Trabalhando manualmente, conhecia bem o que significava o cansaço físico. Todos os dias me encontrava com pessoas que trabalhavam duramente…Pessoalmente sentia muita cordialidade da parte delas. Sabiam que eu era estudante, e que, logo que as circunstancias o permitissem, eu voltaria aos estudos…Não se importavam que eu levasse livros para o trabalho. Diziam: “Nós vigiaremos: você continua lendo”. Isto acontecia principalmente, durante os turnos da noite. Muitas vezes diziam: “Descansa, nós ficaremos de guarda”. Travei amizade com muitos operários. Por vezes, convidavam-me para ir às suas casas. Posteriormente, já como sacerdote e bispo, batizei os seus filhos e netos, abençoei os matrimônios e fiz os funerais de muitos deles. Tive ocasião também de notar quantos sentimentos religiosos neles se entranhavam, e quanta sabedoria de vida. (p.31)

 O amor ao carisma carmelita

 Durante algum tempo, cheguei à considerar também a possibilidade de entrar no Carmelo. As dúvidas foram resolvidas pelo arcebispo e cardeal Sapieha, que, com o estilho que lhe era próprio, me disse em breves palavras: “Primeiro é preciso terminar o que se começou”. E assim foi. (p.35)

 A devoção mariana

 Naturalmente, ao falar das origens da minha vocação sacerdotal, não posso esquecer a devoção mariana…veio em minha ajuda o livro de São Luís Maria Grignion de Montfort, o “Tratado da verdadeira devoção à Virgem Santa”. Nele encontrei a resposta…Sim, Maria aproxima-nos de Cristo, conduz-nos a ele..

Também de lá provêm o “Totus tuus”. A expressão deriva de São Luís Maria Grignion de Montfort. É a abreviação de uma forma mais ampla da consagração à mãe de Deus…Assim, graças a São Luís, comecei a descobrir todos os tesouros da devoção mariana, a partir de um ângulo, de certa forma, novo…(p.37-39)

Ordenação Sacerdotal

 No início do quinto ano, o arcebispo decidiu que eu deveria ir para Roma completar os estudos. Foi assim que, antecipado-me aos meus colegas, fui ordenado sacerdote no dia 1º de novembro de 1946. Naquele ano, o grupo era, naturalmente, pouco numeroso: éramos, ao todo, sete…(p.23)

 Quem está para receber a ordenação sagrada prostra-se por terra com todo o corpo e apóia a fronte no chão do templo, manifestando deste modo a sua completa disponibilidade para exercer o ministério que lhe é confiado. Aquele rito marcou profundamente a minha existência sacerdotal. (p.53)

 Apostolado dos leigos

 Na verdade, sempre tive a profunda sensação da urgente necessidade do apostolado dos leigos na Igreja. Quando o concílio Vaticano II falou da vocação e missão dos leigos na Igreja e no mundo, não pude deixar de experimentar uma grande alegria: o que o concílio ensinava correspondia às convicções que tinham guiado a minha ação desde os primeiros anos do ministério sacerdotal. (p.80)

 Eleição para Papa

 Depois da eleição como papa, o meu primeiro impulso espiritual foi voltar-me para o Cristo redentor. Assim nasceu a encíclica Redemptor hominis. Refletindo sobre todo esse processo, vejo sempre melhor o laço estreito que existe entre a mensagem desta encíclica e tudo o que se inscreve no espírito do homem com a participação do sacerdócio de Cristo. (p.92-93)

 Ladainha de Jesus Cristo, Sacerdote e Vítima

Senhor, tende piedade de nós /      Senhor, tende piedade de nós

Cristo, tende piedade de nós   /      Cristo, tende piedade de nós

Senhor, tende piedade de nós /      Senhor, tende piedade de nós

Cristo, ouvi-nos       /      Cristo, ouvi-nos

Cristo, atendei-nos  /      Cristo, atendei-nos

 

Deus, Pai celestial, tende piedade de nós

Deus Filho, Redentor do mundo,

Espírito Santo que sois Deus,

Santíssima Trindade que sois um só Deus,

Jesus, Sacerdote e Vítima, tende piedade de nós

Jesus, Sacerdote eterno, segundo a ordem de Melquisedec,

Jesus, Sacerdote a quem o Pai enviou a evangelizar os pobres,

Jesus, Sacerdote que na última Ceia instituístes o memorial do Vosso Sacrifício,


Jesus, Sacerdote sempre vivo para interceder por nós,

Jesus, Pontífice a quem o Pai ungiu com a força do Espírito Santo,

Jesus, Pontífice tomado de entre os homens,

Jesus, Pontífice constituído em favor dos homens,

Jesus, Pontífice do nosso testemunho,

Jesus, Pontífice de maior glória que Moisés,

Jesus, Pontífice do autêntico Templo,

Jesus, Pontífice dos bens futuros,

Jesus, Pontífice inocente, imaculado e santo,

Jesus, Pontífice misericordioso e fiel,

Jesus, Pontífice consumido pelo zelo do Pai e das almas,

Jesus, Pontífice perfeito para sempre,

Jesus, Pontífice que entrastes nos céus derramando o Vosso próprio sangue,

Jesus, Pontífice que iniciaste um novo caminho em nosso favor,
Jesus, Pontífice que nos amastes e nos purificastes do pecado pelo Vosso sangue,
Jesus, Pontífice que Vos entregastes a Deus como oblação e vítima,
Jesus, Vítima dos Homens,

Jesus, Vítima santa e imaculada,

Jesus, Vítima indulgente,

Jesus, Vítima pacífica,

Jesus, Vítima de propiciação e digna de louvor,

Jesus, Vitima da reconciliação e da paz,

Jesus, Vítima na qual temos a fé e o acesso para Deus,

Jesus, Vítima que vive pelos séculos dos séculos,

Sede-nos propício, atendei-nos, Senhor

Sede-nos propício, livrai-nos, Senhor

Da busca temerária do ministério, livrai-nos, Senhor

Do pecado do sacrilégio,

Do espírito de incontinência,

De desejos desonestos,

De toda ignominiosa simonia,

Do abuso dos bens da Igreja,

Do amor do mundo e das suas vaidades,

Da indigna celebração dos Vossos Mistérios,

Pelo Vosso sacerdócio eterno,

Pela Vossa santa unção, pela qual o Pai Vos constituiu como Sumo Sacerdote,
Pelo Vosso espírito sacerdotal,

Por aquele ministério pelo qual glorificastes na terra a Deus Pai,
Pela cruenta imolação do Vosso corpo na cruz, realizada de uma vez para

sempre,
Por aquele mesmo Sacrifício que se renova cada dia no altar,

Por aquele poder divino, que exerceis de maneira invisível por meio dos

sacerdotes,

Para que Vos digneis conservar na santidade toda a Ordem Sacerdotal, Nós Vos rogamos, Senhor, ouvi-nos

Para que concedas ao teu povo pastores segundo o Vosso coração,

Para que os enchas de espírito sacerdotal,

Para que os lábios dos sacerdotes guardem a Vossa sabedoria,

Para que envieis operários para a Vossa messe,

Para que aumenteis o número de fiéis dispensadores dos Vossos mistérios,

Para que lhes façais perseverantes no ministério que lhes haveis confiado,
Para que lhes concedeis paciência no ministério, eficácia na ação e

perseverança na oração,

Para que, por seu intermédio, se promova em toda a parte o culto do

Santíssimo Sacramento,

Para que recebais no gozo eterno os que desempenharam o ministério,

Cordeiro de Deus que tirais o pecado do mundo, perdoai-nos, Senhor.

Cordeiro de Deus que tirais o pecado do mundo, ouvi-nos, Senhor.

Cordeiro de Deus que tirais o pecado do mundo, tende piedade de nós, Senhor.

Cristo, Sacerdote eterno, ouvi-nos.

Cristo, Sumo e eterno Sacerdote, atendei-nos.

 Oremos:
Ó Deus, Vós que cuidais e santificais a Vossa Igreja, por meio do Vosso Espírito, suscitai nela dispensadores fiéis e idôneos para os Santos Mistérios, para que por seu ministério e exemplo, o povo cristão, protegido por Vós, progrida no caminho da Salvação. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, Vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 Ó Deus, que ordenastes aos Vossos discípulos, enquanto celebravam o culto e depois de terem jejuado, de separar Saulo e Barnabé para a obra a que os tinha destinado, assisti a vossa Igreja em oração, Vós que conheceis os nossos corações, e mostrai-nos aqueles que escolhestes para o ministério. Por Cristo Nosso Senhor,

R/. Amém

 Fonte:João Paulo II. Dom e Mistério. Por ocasião do 50º aniversário da minha ordenação sacerdotal. Ed. Paulinas.2.ed.1996.

Sabedoria do Papa João Paulo II

Coração acolhedor

 Sei que muitos entre vós vieram de longe e com certo sacrifício eu venho de Roma…mas na Igreja de Deus não há distancias e aqui estarmos reunidos, em nome do Senhor. (p.11)

 Por mim, teria prazer em cumprimentá-los de um a um…fiquem sabendo ao menos, como se eu dissesse a cada um em particular, que o Papa tem muita consideração por vocês, sabe e precisa o que vocês fazem, ama-os como verdadeiros filhos e está feliz com este encontro. (p.198)

 Coração agradecido

 E quero agradecer com uma das primeiras expressões que aprendi no meu recentíssimo estudo da língua portuguesa e que tem para mim uma significação particular: muito obrigado! (p.21)

 Muito obrigado pela generosa disponibilidade afirmada e demonstrada…Muito obrigado pela amável presença…(p.21)

 Aprendi, por exemplo, que “quem parte leva saudades”. Devo confessar que já estou sentindo o que significa este ditado. Mas, com a saudade do Brasil, levo também no coração uma imensa alegria e a mais grata satisfação, por tudo aquilo que me foi dado ver, comungar e viver convosco, nestes dias da minha permanência entre vós. (p.274)

 Coração amoroso

 NÃO ao desamor, à violência, ao mal; SIM ao amor, porque só o amor salva e constrói! (p.30)

 Coração cheio de ternura

 Agradeço a palavra de saudação do senhor Arcebispo de Belo Horizonte…

 Agradeço a todos os que aqui estão e que encontrei ao vir aqui…Pode-se olhar as montanhas, atrás, e se deve dizer: belo horizonte! Pode-se olhar a cidade, e se deve dizer: belo horizonte! Mas, sobretudo, pode-se olhar a vocês e se deve dizer: que belo horizonte! (p.31)

 Coração que busca a unidade

 Rezo ainda para que num mundo frequentemente dominado pelas contendas..o Brasil possa dar…a espontaneidade e a naturalidade que caracterizam a sua gente, uma lição essencial, a da verdadeira integração: de como as pessoas podem viver como uma só família, dentro de um país-continente, pessoas vindas dos mais diversos recantos do mundo….E rezo, enfim, pelos membros desta “grande família,…e cujo sacrifício é um permanente apelo à união entre os povos. (p.39)

  Coração que valoriza o testemunho de vida

 O testemunho é fundamental. A palavra de Deus é eficaz em si mesma, mas adquire sentido concreto quando se torna realidade na pessoa que anuncia. (p.148)

 Coração zeloso com a liturgia da Igreja Católica

 Neste sentido, a experiência mostra, de modo convincente, que é possível salvaguardar religiosamente aquelas verdades e expressões culturais que a legítima autoridade eclesiástica propõe como de instituição divina. E outro assim respeitar com amorosa e atenta fidelidade os textos e ritos que a mesma legítima autoridade deliberadamente exclui da criatividade dos comentadores, animadores litúrgicos, presidentes de Assembléias Eucarísticas…(p.195)

 …As manifestações religiosas populares, purificadas dos seus desvalores, de toda superstição e magia, são sem dúvida um meio providencial para a perseverança das massas em sua adesão à fé dos seus antepassados e à Igreja de Cristo. (p.196)

Coração que ama as bem-aventuranças

 Os pobres de espírito são aqueles que são mais abertos a Deus e às “maravilhas de Deus”(At 2, 11)…Pobres em espírito – aqueles que vivem na consciência de ter recebido tudo das mãos de Deus como um dom gratuito e que dão valor a cada bem recebido. Constantemente agradecidos, repetem sem cessar: “Tudo é graça”!(p.51)

 …De fato, os pobres em espírito são mais misericordiosos. Os corações abertos para Deus são, por isso mesmo, mais abertos para os homens. Estão prontos para ajudar prestativamente, prontos a partilhar o que tem…(p.51)

 …Importa, no entanto, que a pobreza seja genuinamente evangélica para se reconhecer Cristo nos “mais pequeninos”; importa saber identificar-se com o irmão necessitado, sendo “pobre em espírito” (cf. Mt 5,3); ora, isto exige simplicidade e humildade, amor à paz..e forte certezas da fé. (p.96)

 …Felizes os que escutam a palavra de Deus e a põem em prática;(Lc 11, 28) por em prática a palavra de Deus é sinônimo de viver o mandamento do amor…(p.223)

 …Felizes “os mansos e humildes de coração” que em si cultivam “os mesmos sentimentos que havia em Cristo Jesus”…Sim, é preciso vencer o mal com o bem, pôr os dons recebidos ao serviço uns dos outros e revestir-se continuamente de sentimentos de misericórdia, de bondade, de humildade, de mansidão e de paciência “mas acima de tudo, de caridade, que é o vinculo da perfeição”. (Col 3, 15). (p.223)

 …, “Quão formosos são os pés daqueles que anunciam as boas novas” (Cf. Rom 10, 15), em particular, a boa nova por excelência, o amor de Deus revelado em Jesus Cristo: a alegria de termos um Salvador e de sermos, por Ele, chamados a ser filhos de Deus e irmãos uns dos outros…sede arautos desta boa notícia a todos. (p.223)

 Coração humilde que ama todos os povos

 Não foi sem grande e profunda emoção que beijei há pouco o bom e generoso solo brasileiro. Este gesto repetido 13 vezes já – tantos são os países que tive a alegria de visitar como Papa…(p.7)

 Coração que sonha ardentemente em amar e ir ao encontro das pessoas

 Esta visita ao Brasil que agora começa a realizar-se foi um sonho longamente acalentado. Eu desejava, por muitos diferentes motivos, conhecer esta terra. (p.8)

 Coração que ama e vê as qualidades dos povos

 Sois os pastores de um povo bondoso e simples que revela uma grande fome de Deus. (p.12)

 Minha alegria cresce no contato com vosso entusiasmo contagiante, próprio de uma nação de jovens, e coerente com as características do otimismo brasileiro, vivo e generoso. (p.94)

 Muito obrigado pelo entusiasmo e cordialidade com que me destes as boas-vindas e que me sensibilizam. É mais uma manifestação da tradicional hospitalidade brasileira que tenho experimentado ao longo destes dias. (p.151)

 Há uma arte na acolhida. Há um jeito de receber,…Haverá países em que a assimilação e integração do imigrado se faça com igual naturalidade? Com maior naturalidade do que aqui, é impossível…(p.169)

 Este encontro com vocês, me traz grande alegria; o calor da sua acolhida me impressiona e me comove…(p.188)

 Coração amigo

 A visita que vos faço, embora breve, significa muito para mim…É a visita de um amigo. (p.29)

 Coração sábio

 Aprendi que um jovem cristão deixa de ser jovem…quando se deixa seduzir por doutrinas ou ideologias que pregam o ódio e a violência. (p.34)

 Coração verdadeiro

 Nesta perspectiva é necessário situar o diálogo ecumênico…O diálogo entre irmãos de diferentes confissões não anula nossa própria identidade…Sei bem que vos empenhais para criar um clima de maior aproximação e respeito, dificultado por alguns métodos proselitistas não sempre corretos. (p.63)

 Coração grande

 Com esta breve visita, o Papa, com Cristo, gostaria de confortar, infundir esperança e animar a todos, sem esquecer ninguém: crianças, jovens, pais e mães de família, anciãos, doentes, detentos, desalentados e angustiados. Para todos desejaria ser portador de confiança, de amor e de paz. (p.75)

 Coração missionário

 Esta tem sido sempre a única motivação das viagens que me conduziram aos vários Continentes: são viagens apostólicas daquele que, por ser o Servo de Cristo, quer confirmar os irmãos na fé. É este o motivo, também hoje, porque me encontro no meio de vós…(p.87)

 Coração puro

 Queridos meninos e meninas: o papa está muito contente por estar aqui no meio de vocês, porque gosta muito das crianças….Eu quero dizer para vocês que Deus vos ama, está com todos e todos são importantes para Ele. Por isso, Ele pensa sempre em cada um de vocês. (p.93)

 Coração que ama a oração

 Por isso, a vossa vida contemplativa é absolutamente vital para a Igreja e para a humanidade, não obstante a incompreensão ou mesmo a oposição..na opinião pública…Que os vossos mosteiros permaneçam lugares de paz e de interioridade, sem deixardes que pressões do exterior venham demolir as vossas sadias tradições e anular os vossos meios de cultivar e promover o recolhimento. E orai, orai muito pelos que não sabem rezar e pelos que não querem rezar. (p.100)

 Sim, o Papa reza por todos, porque ama a todos: veio aqui precisamente pra vos conhecer e poder amar-vos ainda mais. (p.223)

 Coração firme na fé

 Não é irreal nem remota em religiosos e religiosas a tentação de abandonar os traços característicos da própria família religiosa para se confundir com os outros e de deixar as obras que realizavam para dar-se ao que se convencionou chamar a “pastoral direta”. (p.116-117)

  Coração consagrado à Maria

 Senhora Aparecida, um filho vosso que vos pertence sem reserva – Totus Tuus – chamado por misterioso desígnio da providencia a ser vigário de vosso Filho na terra, quer dirigir-se a vós, neste momento….Mãe de Deus e nossa, protegei a Igreja,o papa, os bispos, os sacerdotes e todo o povo fiel; acolhei sob o vosso manto protetor os religiosos, religiosas, as famílias, as crianças, os jovens e seus educadores. (p.128)

 Coração Eucarístico

 O amor e a adoração a Jesus Sacramentado, sejam, pois, o sinal mais luminoso de vossa fé, da fé do povo brasileiro. (p.235)

 Fonte: Pronunciamentos do papa no Brasil. Texto integral segundo a CNBB 6.ed. edições Loyola,1980.

 O amor aos estudos

 Os compromissos que pesam nas costas de um bispo são muitos. Senti isso ma pele e me dei conta de como o tempo pode verdadeiramente faltar. Essa mesma experiência, no entanto, também me ensinou o quanto sejam necessários ao bispo o recolhimento e o estudo. (p.99)

 Os santos geram e formam outros santos

 Em 18 de maio de 2003 canonizei a irmã Urszula Ledóchowska, grande educadora. Nasceu na Áustria, mas em fins do século XIX toda a família se transferiu para Lipnica Murowana…Sua irmã, Maria Teresa, chamada “Mãe da África”, foi beatificada; seu irmão Wlodzimierz foi prepósito-geral dos jesuítas. O exemplo desses irmãos mostra como o desejo de santidade se desenvolve com força particular quando encontra à sua volta o clima favorável de uma boa família. Como é importante o ambiente familiar! Os santos geraram e formaram santos. (p.106)

 Reservava tempo para evangelizar as crianças

 Durante as visitas pastorais, mesmo as que realizo em Roma,sempre procurei e procuro a todo momento, encontrar tempo para um encontro com as crianças, e nunca parei de animar os sacerdotes a dedicar-lhes, com sua generosidade, um certo tempo no confessionário. É muito importante formar bem a consciência das crianças e dos jovens. (p.106)

 Estive sempre convencido de que, sem a oração, não conseguiremos educar bem as crianças. (p.107)

 Às vezes o bispo atinge mais facilmente os adultos abençoando-lhes os filhos e dedicando-lhes um pouco de tempo. (p.111)

 Viver no amor

 Precisamos de pessoas que amem…

…porque a criatividade vive de amor… (p.111)

 A paternidade de São José

 A vida com Jesus foi para São José uma contínua descoberta da própria vocação de ser pai. Tornara-se pai de uma maneira extraordinária, sem dar seu corpo ao Filho. Não será essa, porventura, a realização da paternidade que nos é proposta, sacerdotes e bispos, como modelo? (p.141)

 O amor de Deus

 O amor de Deus não nos põe aos ombros pesos que não possamos carregar, nem nos faz exigências que não seja possível enfrentar. Ao mesmo tempo que pede, Ele oferece a ajuda necessária. (p.207)

 Fonte: João Paulo II. Levantai-vos! Vamos! Ed. Planeta.2004.

 

 CAPELA PAPAL NO 5º ANIVERSÁRIO DA MORTE
DO SERVO DE DEUS JOÃO PAULO II

HOMILIA DO PAPA BENTO XVI

Basílica Vaticana

Segunda-feira, 29 de Março de 2010

Venerados Irmãos no episcopado

e no sacerdócio

Amados irmãos e irmãs!

Estamos reunidos em volta do altar, junto do túmulo do Apóstolo Pedro, para oferecer o Sacrifício eucarístico em sufrágio da alma eleita do Venerável João Paulo II, no quinto aniversário da sua morte. Fazemo-lo com alguns dias de antecedência, porque o dia 2 de Abril este ano coincide com a Sexta-Feira Santa. Contudo, estamos na Semana Santa, contexto muito propício para o recolhimento e a oração, no qual a Liturgia nos faz reviver mais intensamente os últimos dias da vida terrena de Jesus. Desejo expressar o meu reconhecimento a todos vós que participais nesta Santa Missa. Saúdo cordialmente os Cardeais – de modo especial o Arcebispo Stanislaw Dziwisz – os Bispos, os sacerdotes, os religiosos e as religiosas; assim como os peregrinos que vieram de propósito da Polónia, os numerosos jovens e fiéis que não quiseram faltar a esta Celebração.

 Na primeira leitura bíblica que foi proclamada, o profeta Isaías apresenta a figura de um “Servo de Deus”, que é ao mesmo tempo o seu eleito, no qual ele se apraz. O Servo agirá com firmeza inabalável, com uma energia que nunca esmorece enquanto ele não realizar a tarefa que lhe foi confiada. Mas, não terá à sua disposição aqueles meios humanos que parecem indispensáveis para a actuação de um plano tão grandioso. Ele apresentar-se-á com a força da convicção, e será o Espírito que Deus lhe conferiu que lhe dará a capacidade de agir com mansidão e com vigor, garantindo-lhe o sucesso final. Quanto o profeta inspirado diz do Servo, podemos aplicá-lo ao amado João Paulo II: o Senhor chamou-o ao seu serviço e, ao confiar-lhe tarefas cada vez de maior responsabilidade, acompanhou-o também com a sua graça e com a sua contínua assistência. Durante o seu longo Pontificado, ele prodigalizou-se em proclamar o direito com firmeza, sem debilidades nem hesitações, sobretudo quando devia medir-se com resistências, hostilidades e rejeições. Sabia que era guiado pela mão do Senhor, e isto consentiu-lhe exercer um ministério muito fecundo, pelo qual, mais uma vez, damos fervorosas graças a Deus.

 O Evangelho há pouco proclamado conduz-nos a Betânia, onde, como escrevia o Evangelista, Lázaro, Marta e Maria ofereceram uma ceia ao Mestre (Jo 12, 1). Este banquete em casa dos três amigos de Jesus é caracterizado pelos pressentimentos da morte iminente: os seis dias antes da Páscoa, a sugestão do traidor Judas, a resposta de Jesus que recorda uma das acções piedosas da sepultura anticipada por Maria, a menção de que nem sempre o teriam tido com eles, o propósito de eliminar Lázaro no qual se reflecte a vontade de matar Jesus. Nesta narração evangélica, há um gesto sobre o qual gostaria de chamar a atenção: Maria de Betânia “tomando uma libra de perfume de nardo puro, de alto preço, ungiu os pés de Jesus, e enxugou-os com os cabelos” (12, 3). O gesto de Maria é a expressão de fé e de amor grandes em relação ao Senhor: para ela não é suficiente lavar os pés do Mestre com a água, mas unge-os com uma grande quantidade de perfume precioso, que – como contestará Judas – se poderia ter vendido por trezentos denários; não ungiu a cabeça, como era costume, mas os pés: Maria oferece a Jesus quanto tem de mais precioso e com um gesto de devoção profunda. O amor não calcula, não mede, não olha a despesas, não levanta barreiras, mas sabe doar com alegria, procura só o bem do outro, vence a mesquinhez, a avareza, os ressentimentos, os fechamentos que o homem por vezes leva no seu coração.

 Maria coloca-se aos pés de Jesus em atitude humilde de serviço, como fará o próprio Mestre na Última Ceia, quando – diz-nos o quarto Evangelho – “Se levantou da mesa, tirou as vestes e, tomando uma toalha, colocou-a à cinta. Depois, deitou água numa bacia e começou a lavar os pés aos discípulos” (Jo 13, 4-5), para que – disse – “como Eu vos fiz, façais vós também” (v. 15); a regra da comunidade de Jesus é a do amor que sabe servir até à doação da vida. E o perfume difunde-se: “a casa – anota o Evangelista – encheu-se com o cheiro do perfume” (Jo 12, 3).Osignificadodo gesto de Maria, queérespostaaoAmorinfinitodeDeus, difunde-se entre todos os convidados; cada gesto de caridade e de devoção autêntica a Cristo não permanece um facto pessoal, não diz respeito só à relaçãoentreoindivíduo e o Senhor, mas refere-se a todo o corpo da Igreja, é contagioso:infundeamor, alegria e luz.

 “Veio ao que era Seu e os Seus não o receberam” (Jo 1, 11): ao acto de Maria contrapõem-se a atitude e as palavras de Judas que, sob o pretexto da ajuda que devia ser dada aos pobres, esconde o egoísmo e a falsidade do homem fechado em si mesmo, aprisionado pela avidez da posse, que não se deixa envolver pelo bom perfume do amor divino. Judas calcula onde não se pode calcular, entra com ânimo mesquinho onde o espaço é o do amor, da doação, da dedicação total. E Jesus, que até àquele momento permeneceu em silêncio, interveio a favor do gesto de Maria: “Deixai-a, ela tinha-o guardado para o dia da minha sepultura” (Jo 12, 7). Jesus compreende que Maria intuiu o amor de Deus e indica que agora a sua “hora” se aproxima, a “hora” na qual o Amor encontrará a sua expressão suprema no madeiro da Cruz: O Filho de Deus entregou-se a si mesmo para que o homem tenha a vida, desce aos abismos da morte para levar o homem às alturas de Deus, não tem receio de se humilhar “fazendo-se obediente até à morte, e morte de cruz” (Fl 2, 8). Santo Agostinho, no Sermão no qual comenta este trecho evangélico, dirige a cada um de nós, com palavras prementes, o convite a entrar neste circuito de amor, imitando o gesto de Maria e pondo-se concretamente no seguimento de Jesus. Escreve Agostinho: “Qualquer alma que queira ser fiel, une-se a Maria para ungir com perfume precioso os pés do Senhor… Unge os pés de Jesus: segue as pegadas do Senhor levando uma vida digna. Enxuga-lhe os pés com os cabelos: se tens coisas supérfluas dá-as aos pobres, e terás enxugado os pés do Senhor” (In Ioh., evang., 50, 6).

 Queridos irmãos e irmãs! Toda a vida do Venerável João Paulo II se desenrolou no sinal desta caridade, da capacidade de se doar de modo generoso, sem reservas, sem medida e sem cálculo. Aquilo que o movia era o amor a Cristo ao qual tinha consagrado a vida, um amor superabundante e incondicionado. E precisamente porque se aproximou cada vez mais de Deus no amor, ele pôde tornar-se companheiro de viagem para o homem de hoje, espalhando no mundo o perfume do Amor de Deus. Quem teve a alegria de o conhecer e frequentar, pôde ver directamente como era viva nele a certeza “de contemplar a bondade do Senhor na terra dos vivos”, como ouvimos no Salmo responsorial (26/27, 13); certeza que o acompanhou durante a sua existência e que, de modo particular, se manifestou durante o último período da sua peregrinação nesta terra: a progressiva debilidade física, de facto, nunca afectou a sua fé rochosa, a sua luminosa esperança, a sua fervorosa caridade. Deixou-se consumir para Cristo, para a Igreja, para o mundo inteiro: o seu sofrimento foi vivido até ao fim por amor e com amor. Na homilia para o XXV aniversário do seu Pontificado, ele confiou ter sentido forte no seu coração, no momento da eleição, a pergunta de Jesus a Pedro: “Tu amas-Me mais do que a estes?” (Jo 21, 15-16); e acrescentou: “Todos os dias se realiza no meu coração o mesmo diálogo entre Jesus e Pedro. No espírito, com o olhar benévolo de Cristo ressuscitado. Ele, mesmo se consciente da minha fragilidade humana, encoraja-me a responder com confiança como Pedro: “Senhor, Tu sabes tudo, Tu bem sabes que Te amo” (Jo 21, 17). E depois convida-me a assumir as responsabilidades que Ele mesmo me confiou” (16 de Outubro de 2003). São palavras cheias de fé e de amor, o amor de Deus, que tudo vence! Por fim desejo saudar os polacos aqui presentes. Reunis-vos em grande número em volta do túmulo do Venerável Servo de Deus com um sentimento especial, como filhas e filhos da mesma terra, crescidos na mesma cultura e tradição espiritual. A vida e a obra de João Paulo ii, grande polaco, pode ser para vós motivo de orgulho. Mas é preciso que recordeis que esta é também uma grande chamada a ser fiéis testemunhas da fé, da esperança e do amor, que ele nos ensinou ininterruptamente. Por intercessão de João Paulo II, ampare-vos sempre a bênção do Senhor.

 Ao prosseguir a Celebração eucarística, preparando-nos para viver os dias gloriosos da Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor, recomendemo-nos com confiança – a exemplo do Venerável João Paulo II – à intercessão da Bem-Aventurada Virgem Maria, Mãe da Igreja, para que nos ampare no compromisso de sermos, em todas as circunstâncias, apóstolos incansáveis do seu Filho divino e do seu Amor misericordioso. Amém!

Fonte: http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/homilies/2010/documents/hf_ben-xvi_hom_20100329_anniv-morte-gpii_po.html

HOMILIA DO PAPA BENTO XVI

NA SANTA MISSA POR OCASIÃO

DO IV ANIVERSÁRIO DA MORTE

DO PAPA JOÃO PAULO II

Basílica de São Pedro, 2 de Abril de 2009

Caros irmãos e irmãs

Há quatro anos, precisamente neste dia, o meu amado Predecessor, Servo de Deus João Paulo II, concluía a sua peregrinação terrena, depois de um não breve período de grande sofrimento. Celebramos a Sagrada Eucaristia em sufrágio pela sua alma, enquanto damos graças ao Senhor por o ter concedido à Igreja, durante tantos anos, como Pastor zeloso e generoso. Congrega-nos nesta tarde a sua recordação, que continua a estar viva no coração das pessoas, como o demonstra também a peregrinação ininterrupta de fiéis ao seu túmulo, nas Grutas do Vaticano. Portanto, é com emoção e alegria que presido a esta Santa Missa, enquanto vos saúdo e agradeço a vossa presença, venerados Irmãos no Episcopado e no Sacerdócio, e a vós, queridos fiéis vindos de várias partes do mundo, especialmente da Polónia, para esta celebração significativa.

 Gostaria de saudar os polacos, de modo particular a juventude polaca. No quarto aniversário da morte de João Paulo II, acolhei o seu apelo: “Não tenhais medo de vos confiar a Cristo! É Ele que vos guiará, que vos dará a força para O seguir todos os dias e em cada situação” (Tor Vergata, Vigília de oração, 19 de Agosto de 2000). Desejo-vos que este pensamento do Servo de Deus vos oriente pelos caminhos da vossa vida e vos conduza à felicidade da manhã da Ressurreição.

 Saúdo o Cardeal Vigário, o Cardeal Arcebispo de Cracóvia, o querido Cardeal Estanislau, os outros Purpurados e os demais Prelados; saúdo também os sacerdotes, os religiosos e as religiosas. Saúdo-vos de maneira especial a vós, amados jovens de Roma que, mediante esta celebração, vos preparais para a Jornada Mundial da Juventude, que viveremos em conjunto no próximo Domingo de Ramos. A vossa presença evoca na minha mente o entusiasmo que João Paulo II sabia infundir nas novas gerações. A sua memória é estímulo para todos nós, congregados nesta Basílica onde em muitas ocasiões ele celebrou a Eucaristia, a deixar-nos iluminar e interpelar pela Palavra de Deus, há pouco proclamada.

 O Evangelho desta quinta-feira da quinta semana de Quaresma propõe à nossa meditação a última parte do capítulo 8 do Evangelho de João, — que contém — como pudemos ouvir uma longa disputa sobre a identidade de Jesus. Pouco antes, Ele apresentou-se como “a luz do mundo” (v. 12), recorrendo por três vezes (cf. vv. 24, 28 e 58) à expressão “Eu Sou” que, em sentido forte, evoca o nome de Deus revelado a Moisés (cf. Êx 3, 14). Depois, acrescenta: “Quem observar a minha palavra não verá a morte” (v. 51), declarando assim que foi enviado por Deus, que é o seu Pai, para trazer aos homens a liberdade radical do pecado e da morte, indispensável para entrar na vida eterna. Porém, as suas palavras ferem o orgulho dos interlocutores, e também a referência ao grande patriarca Abraão se torna motivo de conflito. “Na verdade vos digo — afirma o Senhor — antes que Abraão fosse, Eu Sou” (8, 58). Sem meios termos, declara a sua preexistência e, por conseguinte, a sua superioridade em relação a Abraão, suscitando — compreensivelmente — a reacção escandalizada dos judeus. Mas Jesus não pode silenciar a sua própria identidade; Ele sabe que, em última análise, será o próprio Pai que lhe dará razão, glorificando-o com a morte e a ressurreição, porque precisamente quando for elevado na cruz é que se revelará como o unigénito Filho de Deus (cf. Jo 8, 28; Mc 15,39).

 Queridos amigos, meditando sobre esta página do Evangelho de João, é espontâneo considerar como na verdade é difícil dar testemunho de Cristo. E dirijo o meu pensamento ao amado Servo de Deus Karol Wojtyla João Paulo II, que desde jovem se mostrou intrépido e corajoso defensor de Cristo: por Ele, não hesitou em despender toda a energia para difundir em toda a parte a sua luz; não aceitou ceder a compromissos, quando se tratava de proclamar e defender a sua Verdade; e jamais cansou de defender o seu amor. Desde o início do seu Pontificado, até ao dia 2 de Abril de 2005, não teve medo de proclamar, a todos e sempre, que só Jesus é o Salvador e o verdadeiro Libertador de todo o homem e do homem todo.

Na primeira leitura ouvimos as palavras dirigidas a Abraão: “Tornar-te-ei muito fecundo” (Gn 17, 6). Se nunca é fácil dar testemunho da própria adesão ao Evangelho, é certamente um alívio a certeza de que Deus torna fecundo o nosso compromisso, quando é sincero e generoso. Também deste ponto de vista, parece-nos significativa a experiência espiritual do Servo de Deus João Paulo II. Olhando a sua existência, vemos como que realizada a promessa de fecundidade feita por Deus a Abraão, e ressoada na primeira leitura tirada do livro do Génesis. Poder-se-ia dizer que especialmente nos anos do seu longo Pontificado, ele gerou para a fé muitos filhos e filhas. Vós sois um sinal visível disto, queridos jovens presentes esta tarde: vós, jovens de Roma e vós, jovens vindos de Sydney e de Madrid, para representar idealmente as plêiades de rapazes e moças que participaram nas passadas 23 Jornadas Mundiais da Juventude, em várias partes do mundo. Quantas vocações ao sacerdócio e à vida consagrada, quantas jovens famílias, decididas a viver o ideal evangélico e a tender para a santidade, estão ligadas ao testemunho e à pregação do meu venerado Predecessor! Quantos rapazes e moças se converteram, ou então perseveraram no próprio caminho cristão graças à sua oração, ao seu encorajamento, à sua ajuda e ao seu exemplo!

 É verdade! João Paulo II conseguia comunicar uma forte carga de esperança, assente na fé em Jesus Cristo, que “é o mesmo ontem, hoje e para toda a eternidade” (Hb 13, 8), como recitava o mote do Grande Jubileu do Ano 2000. Como pai carinhoso e educador atento, indicava pontos de referência seguros e sólidos, indispensáveis para todos, de maneira especial para a juventude. E na hora da agonia e da morte, esta nova geração quis manifestar-lhe que tinha compreendido os seus ensinamentos, recolhendo-se silenciosamente em oração na Praça de São Pedro e em muitos outros lugares do mundo. Os jovens sentiam que o seu falecimento constituía uma perda: morria o “seu” Papa, que eles consideravam o “seu pai” na fé. Sentiam, ao mesmo tempo, que lhes deixava como herança a sua coragem e a coerência do seu testemunho. Ele não tinha porventura ressaltado várias vezes a necessidade de uma adesão radical ao Evangelho, exortando adultos e jovens a levar a sério esta responsabilidade educativa conjunta? Como sabeis, também eu quis retomar este seu anseio, detendo-me em diversas ocasiões para falar da urgência educativa que hoje diz respeito às famílias, à Igreja, à sociedade e especialmente às novas gerações. Na idade do crescimento, os jovens precisam de adultos capazes de lhes propor princípios e valores; eles sentem a necessidade de pessoas que saibam ensinar com a vida, ainda antes que com as palavras, a dedicar-se a ideais excelsos.

 Mas de onde haurir luz e sabedoria para completar esta missão, que a todos nos compromete na Igreja e na sociedade? Sem dúvida, não é suficiente fazer apelo aos recursos humanos; é preciso confiar também e em primeiro lugar na ajuda divina. “O Senhor é sempre fiel”: assim acabamos de rezar no Salmo responsorial, convictos de que Deus nunca abandona quantos lhe permanecem fiéis. Isto evoca o tema da 24ª Jornada Mundial da Juventude, que será celebrada a nível diocesano no próximo domingo. Ele foi tirado da primeira Carta a Timóteo, de São Paulo: “Pusemos a nossa esperança no Deus vivo” (4, 10). O Apóstolo fala em nome da comunidade cristã, em nome de quantos acreditaram em Cristo e são diferentes “daqueles que não têm esperança” (1 Ts 4, 13), precisamente porque ao contrário esperam, ou seja, nutrem confiança no futuro, uma confiança não alicerçada unicamente em ideias ou previsões humanas, mas sim em Deus, no “Deus vivo”.

 Dilectos jovens, não se pode viver sem esperar. A experiência mostra que todas as coisas e a nossa própria vida estão em perigo, podem desabar por algum motivo que nos é interno ou externo, em qualquer momento. É normal: tudo o que é humano, e por conseguinte também a esperança, não tem um fundamento em si mesmo, mas precisa de uma “rocha” na qual se ancorar. Eis por que motivo Paulo escreve que os cristãos são chamados a fundamentar a esperança humana no “Deus vivo”. Só nele se torna segura e confiável. Aliás, somente Deus, que em Jesus Cristo nos revelou a plenitude do seu amor, pode ser a nossa esperança sólida. Efectivamente foi nele, nossa esperança, que fomos salvos (cf. Rm 8,24).

 Porém, prestai atenção: em momentos como este, considerando o contexto cultural e social em que vivemos, poderia ser mais forte o risco de reduzir a esperança cristã a uma ideologia, a um slogan de grupo, a um revestimento exterior. Nada de mais contrário à mensagem de Jesus! Ele não quer que os seus discípulos “recitem” uma parte, talvez a da esperança. Ele deseja que eles “sejam” a esperança, e podem sê-lo só se permanecerem unidos a Ele! Queridos jovens amigos, Ele quer que cada um de vós seja uma pequena nascente de esperança para o seu próximo, e que todos juntos vos torneis um oásis de esperança para a sociedade no interior da qual estais inseridos. Pois bem, isto é possível com uma condição: que vivais dele e nele, mediante a oração e os Sacramentos, como vos escrevi na Mensagem do corrente ano.

 Se as palavras de Cristo permanecem em nós, podemos propagar a chama daquele amor que Ele ateou na terra; podemos conservar elevada a tocha da fé e da esperança, com a qual progredimos na sua direcção, enquanto aguardamos o seu retorno glorioso no final dos tempos. Foi esta a tocha que o Papa João Paulo II nos deixou como herança. Ele confiou-a a mim, como seu sucessor; e esta tarde eu confio-a idealmente, mais uma vez, a vós jovens de Roma, a fim de que continueis a ser sentinelas da manhã, vigilantes e jubilosas neste alvorecer do terceiro milénio. Respondei generosamente ao apelo de Cristo! Em particular, durante o Ano sacerdotal que começará no próximo dia 19 de Junho, tornai-vos prontamente disponíveis, se Jesus vos chamar, a segui-lo pelo caminho do sacerdócio e da vida consagrada.

 “Eis, agora, o momento favorável; este é o dia da salvação!”. Na aclamação ao Evangelho, a liturgia exortou-nos a renovar agora — e cada instante é um “momento favorável” — a nossa vontade decidida de seguir Cristo, persuadidos de que Ele é a nossa salvação. No fundo, tal é a mensagem que nos repete esta tarde o amado Papa João Paulo II. Enquanto confiamos a sua alma eleita à intercessão maternal da Virgem Maria, que sempre amou com ternura, esperamos intensamente que do Céu não cesse de nos acompanhar e de interceder por nós. Ajude cada um de nós a viver, como ele fez, repetindo dia após dia a Deus, por meio de Maria, com plena confiança: Totus tuus. Amém.

Fonte: http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/homilies/2009/documents/hf_ben-xvi_hom_20090402_anniv-morte-gpii_po.html

 

HOMILIA DO PAPA BENTO XVI

NA CONCELEBRAÇÃO EUCARÍSTICA

EM SUFRÁGIO PELO SEU PREDECESSOR

JOÃO PAULO II NO SEGUNDO ANIVERSÁRIO DA MORTE 

Segunda-feira, 2 de Abril de 2007

 Venerados Irmãos

no Episcopado e no Sacerdócio

Estimados irmãos e irmãs!

 

Há dois anos, um pouco depois desta hora, partia deste mundo para a casa do Pai o amado Papa João Paulo II. Com a presente celebração queremos antes de tudo renovar a Deus a nossa acção de graças por no-lo ter concedido por 27 anos como pai e guia segura na fé, zeloso pastor e corajoso profeta de esperança, testemunha incansável e apaixonado servidor do amor de Deus. Ao mesmo tempo, oferecemos o Sacrifício eucarístico em sufrágio da sua alma eleita, na recordação indelével da grande devoção com que ele celebrava os santos Mistérios e adorava o Sacramento do altar, centro da sua vida e da sua incansável missão apostólica.

 Desejo expressar o meu reconhecimento a todos vós, que quisestes participar nesta Santa Missa. Dirijo uma saudação particular ao Cardeal Stanislaw Dziwisz, Arcebispo de Cracóvia, imaginando os sentimentos que se juntam neste momento no seu coração. Saúdo os outros Cardeais, os Bispos, os sacerdotes, os religiosos e as religiosas presentes; os peregrinos que vieram propositadamente da Polónia; os numerosos jovens que o Papa João Paulo II amava com singular paixão, e os numerosos fiéis que de todas as partes da Itália e do mundo marcaram encontro hoje aqui, na Praça de São Pedro.

 O segundo aniversário do piedoso falecimento deste amado Pontífice celebra-se num contexto muito propício para o recolhimento e para a oração: de facto, entrámos ontem, com o Domingo de Ramos, na Semana Santa, e a Liturgia faz-nos reviver os últimos dias da vida terrena do Senhor Jesus. Hoje leva-nos a Betânia, onde, precisamente “seis dias antes da Páscoa” como escreve o evangelista João Lázaro, Marta e Maria ofereceram uma ceia ao Mestre. A narração evangélica confere um clima pascal intenso para a nossa meditação: a ceia de Betânia é prelúdio para a morte de Jesus, no sinal da unção que Maria fez em homenagem ao Mestre e que Ele aceitou em previsão da sua sepultura (cf. Jo 12, 7). Mas é também anúncio da ressurreição, mediante a própria presença do redivivo Lázaro, testemunho eloquente do poder de Cristo sobre a morte. Além da plenitude do significado pascal, a narração da ceia de Betânia tem em si uma ressonância pungente, repleta de afecto e devoção; um misto de alegria e de sofrimento: alegria jubilosa pela visita de Jesus e dos seus discípulos, pela ressurreição de Lázaro, pela Páscoa já próxima; profunda amargura porque aquela Páscoa podia ser a última, como faziam temer as conspirações dos Judeus que desejavam a morte de Jesus e as ameaças contra o próprio Lázaro do qual se projectava a eliminação.

 Há um gesto, nesta perícope evangélica, para o qual é chamada a nossa atenção, e que ainda hoje fala de modo singular aos nossos corações: Maria de Betânia a um certo ponto, “tomando uma libra de perfume de nardo puro, de alto preço, ungiu os pés de Jesus” (Jo 12, 3). Trata-se de um daqueles pormenores da vida de Jesus que São João recolheu na memória do seu coração e que contém uma inexaurível carga expressiva. Ele fala do amor a Cristo, um amor superabundante, magnânimo, como aquele perfume “muito precioso” derramado sobre os seus pés. Um acontecimento que escandalizou sintomaticamente Judas Iscariotes: a lógica do amor confronta-se com a do proveito.

 Para nós, reunidos em oração na recordação do meu venerado Predecessor, o gesto da unção de Maria de Betânia é rico de ecos e de sugestões espirituais. Evoca o testemunho luminoso que João Paulo II ofereceu de um amor a Cristo sem reservas e sem se poupar. O “perfume” do seu amor “encheu toda a casa” (cf. Jo 12, 3), isto é, toda a Igreja. Sem dúvida, quem beneficiou dele fomos nós que lhe estivemos próximos, e por isto agradecemos a Deus, mas dele puderam gozar também todos os que o conheceram de longe, porque o amor do Papa Wojtyla por Cristo superabundou, poderíamos dizer, em todas as regiões do mundo, porque era muito forte e intenso. A estima, o respeito e o afecto que crentes e não-crentes lhe manifestaram por ocasião da sua morte não é porventura um testemunho eloquente? Escreve Santo Agostinho, comentando este trecho do Evangelho de João: “A casa encheu-se de perfume; isto é, o mundo encheu-se da boa fama. O perfume agradável é a boa fama… O nome do Senhor é louvado por merecimento dos bons cristãos” (In Io. evang. tr. 50, 7). É verdade: o intenso e frutuoso ministério pastoral, e ainda mais o calvário da agonia e a morte serena do nosso amado Papa, fizeram conhecer aos homens do nosso tempo que Jesus Cristo era verdadeiramente o seu “tudo”.

 A fecundidade deste testemunho, nós sabemo-lo, depende da Cruz. Na vida de Karol Wojtyla a palavra “cruz” não foi apenas uma palavra. Desde a infância e a juventude ele conheceu o sofrimento e a morte. Como sacerdote e como Bispo, e sobretudo como Sumo Pontífice, levou muito seriamente a chamada de Cristo ressuscitado a Simão Pedro, nas margens do lago da Galileia: “Segue-Me… Tu, segue-Me” (Jo 21, 19.22). Especialmente com o lento, mas implacável, progredir da doença, que pouco a pouco o despojou de tudo, a sua existência fez-se totalmente uma oferenda a Cristo, anúncio vivente da sua paixão, na esperança repleta de fé da ressurreição.

O seu pontificado desenvolveu-se no sinal da “prodigalidade”, do despender-se generoso sem hesitações. O que o movia a não ser o amor místico por Cristo, por Aquele que, a 16 de Outubro de 1978, o fizera chamar, com as palavras do cerimonial: “Magister adest et vocat te O Mestre está aqui e chama-te”? A 2 de Abril de 2005, o Mestre voltou, desta vez sem intermediários, para o chamar e levar para casa,paraacasa do Pai. E ele, mais uma vez, respondeu imediatamente com o seu coração intrépido, e murmurou: “Deixai-me ir com o Senhor” (cf. S. Dziwisz, Una vita con Karol, p. 223).

 Desde há muito tempo ele preparava-se para este encontro com Jesus, como documentam as diversas redacções do seu testamento. Durante as longas pausas na Capela particular falava com Ele, abandonando-se totalmente à sua vontade, e confiava-se a Maria, repetindo o Totus tuus.

Como o seu divino Mestre, ele viveu a sua agonia em oração. Durante o último dia de vida, vigília do Domingo da Divina Misericórdia, pediu que lhe fosse lido precisamente o Evangelho de João. Com a ajuda das pessoas que o assistiam, quis participar em todas as orações quotidianas e na Liturgia das Horas, fazer a adoração e a meditação. Morreu rezando. Verdadeiramente, adormeceu no Senhor.

 “…E a casa encheu-se com o cheiro do perfume” (Jo 12, 3). Voltemos a esta anotação, tão sugestiva, do evangelista João. O perfume da fé, da esperança e da caridade do Papa encheu a sua casa, encheu a Praça de São Pedro, encheu a Igreja e propagou-se no mundo inteiro. O que aconteceu depois da sua morte foi, para quem crê, efeito daquele “perfume” que alcançou todos, próximos e distantes, e os atraiu para um homem que Deus tinha progressivamente conformado com o seu Cristo. Por isso podemos dedicar-lhe as palavras do primeiro Poema do Servo do Senhor, que ouvimos na primeira Leitura: “Eis o Meu servo que eu amparo / o meu eleito, no qual a Minha alma se deleita; / fiz repousar sobre ele o meu espírito, para que leve às nações a verdadeira justiça…” (Is 42, 1). “Servo de Deus”: ele o foi e assim o chamamos agora na Igreja, enquanto progride rapidamente o seu processo de beatificação, do qual foi encerrada precisamente esta manhã o inquérito diocesano sobre a vida, as virtudes e a fama de santidade. “Servo de Deus”: um título particularmente apropriado para ele. O Senhor chamou-o ao seu serviço pelo caminho do sacerdócio e abriu-lhe pouco a pouco horizontes cada vez mais amplos: da sua Diocese até à Igreja universal. Esta dimensão de universalidade chegou à máxima expansão no momento da sua morte, acontecimento que o mundo inteiro viveu com uma participação jamais vista na história.

 Queridos irmãos e irmãs, o Salmo responsorial colocou nos nossos lábios palavras repletas de confiança. Na comunhão dos santos, temos a impressão de ouvir da viva voz do amado João Paulo II, que da casa do Pai disto temos a certeza não deixa de acompanhar o caminho da Igreja: “Espera no Senhor; sê forte e corajoso no teu coração. Espera no Senhor” (Sl 26, 14). Sim, que o nosso coração se fortaleça, queridos irmãos e irmãs, e arda de esperança! Com este convite no coração prossigamos a Celebração eucarística, olhando já para a luz da ressurreição de Cristo, que resplandecerá na Vigília pascal depois da dramática escuridão da Sexta-Feira Santa. O Totus tuus do amado Pontífice nos estimule a segui-lo pelo caminho da doação de nós próprios a Cristo por intercessão de Maria, e no-la obtenha precisamente Ela, a Virgem Maria, enquanto confiamos nas suas mãos maternas este nosso pai, irmão e amigo para que em Deus repouse e rejubile na paz.Amém.

 Fonte: http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/homilies/2007/documents/hf_ben-xvi_hom_20070402_john-paul-ii_po.html

  

 HOMILIA DO PAPA BENTO XVI

NA CAPELA PAPAL EM SUFRÁGIO

DE JOÃO PAULO II

Segunda-feira, 3 de Abril de 2006

Queridos irmãos e irmãs

Nestes dias está particularmente viva na Igreja e no mundo a memória do Servo de Deus João Paulo II, no primeiro aniversário da sua morte. Com a vigília mariana de ontem à noite pudemos reviver o momento exacto em que, há um ano, teve lugar o seu piedoso trânsito, enquanto hoje nos encontramos nesta mesma Praça de São Pedro para oferecer o Sacrifício eucarístico em sufrágio de sua alma eleita. Saúdo com afecto, além dos Cardeais, dos Bispos, dos sacerdotes e dos religiosos, os numerosos peregrinos vindos de muitas regiões, especialmente da Polónia, para lhe manifestar o testemunho de estima, de carinho e de profundo reconhecimento. Queremos rezar por este amado Pontífice, deixando-nos iluminar pela Palavra de Deus, que acabámos de ouvir.

 Na primeira Leitura, tirada do Livro da Sabedoria, foi-nos recordado qual é o destino final dos justos: um destino de imensa felicidade, que compensa incomensuravelmente os sofrimentos e as provações enfrentadas ao longo da vida. “Deus provou-os afirma o autor sagrado e achou-os dignos de si. Ele provou-os como ouro no crisol e aceitou-os como um holocausto” (3, 5-6). O termo “holocausto” faz referência ao sacrifício em que a vítima era inteiramente queimada, consumada pelo fogo; era sinal de uma oferenda total a Deus. Esta expressão bíblica faz-nos pensar na missão de João Paulo II, que ofereceu a sua existência a Deus e à Igreja, vivendo a dimensão sacrifical do seu sacerdócio especialmente na celebração da Eucaristia.

 Entre as invocações que lhe eram queridas, havia uma tirada da “Ladainha de Jesus Cristo Sacerdote e Vítima”, que ele desejou inserir no final do seu livro Dom e Mistério, publicado por ocasião do 50º aniversário do seu Sacerdócio (cf. pp. 113-116): “Jesu, Pontifex qui tradidisti semetipsum Deo oblationem et hostiam Jesus, Pontífice que te entregaste a ti mesmo a Deus como oferenda e vítima, tem piedade de nós”. Quantas vezes ele repetiu esta invocação! Ela expressa bem o carácter intimamente sacerdotal de toda a sua vida. Ele nunca ocultou o seu desejo de se tornar cada vez mais um só em Cristo Sacerdote, mediante o Sacrifício eucarístico, fonte de incansável dedicação apostólica.

 Naturalmente, na base desta oferta total de si estava a fé. Na segunda Leitura, que acabámos de ouvir, também São Pedro recorre à imagem do ouro provado com o fogo, e aplica-a à fé (cf. 1 Pd 1, 7). Com efeito, nas dificuldades da vida é sobretudo a qualidade da fé de cada um que é provada e verificada: a sua solidez, a sua pureza e a sua coerência com a vida. Pois bem, o saudoso Pontífice, que Deus tinha dotado de múltiplos dons humanos e espirituais, passando através da purificação das fadigas apostólicas e da enfermidade, manifestou-se cada vez mais como uma “rocha” na fé. Quem teve a oportunidade de o conhecer de perto, pôde como que tocar com a mão aquela sua fé genuína e sólida que, se impressionou o círculo dos seus colaboradores, não deixou de difundir durante o seu longo Pontificado a sua influência benéfica em toda a Igreja, num crescendo que alcançou o próprio ápice nos últimos meses e dias da sua vida. Uma fé convicta, forte e autêntica, livre de temores e compromissos, que contagiou o coração de muitas pessoas, também graças às numerosas peregrinações apostólicas a todas as regiões do mundo, e especialmente graças a esta última “viagem”, que foi a sua agonia e a sua morte.

 A página do Evangelho que foi proclamada ajuda-nos a compreender mais um aspecto da sua personalidade humana e religiosa. Poderíamos dizer que ele, Sucessor de Pedro, imitou de modo singular, no meio dos Apóstolos, João, o “discípulo amado” que permaneceu aos pés da Cruz ao lado de Maria na hora do abandono e da morte do Redentor. Vendo-os ali perto narra o Evangelista Jesus confiou-os um ao outro: “Mulher, eis o teu filho! (…) Eis a tua mãe!” (Jo 19, 26-27). Estas palavras do Senhor moribundo eram particularmente queridas a João Paulo II.

Como o Apóstolo, também o Evangelista desejou receber Maria na sua casa: “Et ex illa hora accepit eam discipulus in sua” (Jo 19, 27). A expressão “accepit eam in sua” é particularmente densa: indica a decisão de João, de tornar Maria partícipe da própria vida, de maneira a experimentar que, quem abre o próprio coração a Maria, na realidade é por Ela acolhido e se torna seu. O lema presente no brasão do Pontificado do Papa João Paulo II, Totus tuus, resume bem esta experiência espiritual e mística, numa vida orientada completamente para Cristo, por meio de Maria: “Ad Iesum per Mariam”.

 Estimados irmãos e irmãs, esta tarde o nosso pensamento volta com emoção ao momento da morte do amado Pontífice, mas ao mesmo tempo o coração é como que impelido a olhar para a frente. Sentimos ressoar na nossa alma os seus reiterados convites a progredir sem medo pelo caminho da fidelidade ao Evangelho, para sermos anunciadores e testemunhas de Cristo no terceiro milénio. Voltam à nossa mente as suas incessantes exortações a cooperarmos com generosidade para a realização de uma humanidade mais justa e solidária, a sermos promotores de paz e construtores de esperança.

 Que o nosso olhar permaneça sempre fixo em Cristo, “o mesmo ontem, hoje e pelos séculos” (Hb 13, 8), que orienta solidamente a sua Igreja. Nós acreditámos no seu amor, e é o encontro com Ele “que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo” (Deus caritas est, 1).

 Queridos irmãos e irmãs, a força do Espírito de Jesus seja para todos, como foi para o Papa João Paulo II, um manancial de paz e de alegria. E a Virgem Maria, Mãe da Igreja, nos ajude a ser em todas as circunstâncias, como ele, apóstolos incansáveis do seu Filho divino e profetas do seu amor misericordioso. Amém!

 Fonte: http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/homilies/2006/documents/hf_ben-xvi_hom_20060403_anniv-death-jp-ii_po.html

 OBITUS, DEPOSITIO ET TUMULATIO

IOANNIS PAULI PP II SANCTAE MEMORIAE 

 

Na luz de Cristo ressuscitado dos mortos, a 2 de Abril do ano do Senhor de 2005, às 21: 37 horas da noite, quando o dia de sábado chegava ao fim, e já tínhamos entrado no dia do Senhor, Oitava de Páscoa e Domingo da Divina Misericórdia, o amado Pastor da Igreja, João Paulo II, passou deste mundo para o Pai. Toda a Igreja em oração acompanhou o seu trânsito, especialmente os jovens.

 João Paulo II foi o 264º Papa. A sua memória permanece no coração da Igreja e da humanidade inteira. Karol Wojtyla, eleito Papa a 16 de Outubro de 1978, nasceu em Wadowice, cidade a 50 quilómetros de Cracóvia, a 18 de Maio de 1920 e foi baptizado dois dias depois na Igreja paroquial pelo sacerdote Francisco Zak. Aos nove anos recebeu a Primeira Comunhão e aos 18 o sacramento da Confirmação. Interrompidos os estudos, porque as forças de ocupação nazistas tinham fechado a Universidade, trabalhou numa mina e, em seguida, na fábrica Solvay.

 A partir de 1942, sentindo-se chamado ao sacerdócio, frequentou os cursos de formação do seminário clandestino de Cracóvia. A 1 de Novembro de 1946 recebeu a ordenação sacerdotal das mãos do Cardeal Adam Sapieha. Depois foi enviado para Roma, onde obteve a licenciatura e o doutoramento em teologia, com a tese que tinha por título Doctrina de fide apud Sanctum Ioannem a Cruce.

 Regressou depois à Polónia, onde desempenhou alguns cargos pastorais e ensinou as sagradas disciplinas. A 4 de Julho de 1958, o Papa Pio XII nomeou-o Bispo Auxiliar de Cracóvia. E Paulo VI, em 1964, destinou-o à mesma sede como Arcebispo. Como tal interveio no Concílio Vaticano II. Paulo VI criou-o Cardeal a 26 de Junho de 1967. No Conclave foi eleito Papa pelos Cardeais a 16 de Outubro de 1978 e assumiu o nome de João Paulo II. A 22 de Outubro, Dia do Senhor, iniciou solenemente o seu ministério Petrino.

O pontificado de João Paulo II foi um dos mais longos da história da Igreja. Nesse período, sob vários aspectos, verificaram-se muitas mudanças. Conta-se a queda de certos regimes, para a qual ele mesmo contribuiu. A fim de anunciar o Evangelho realizou muitas viagens, em várias nações.

 João Paulo II exerceu o ministério Petrino com incansável espírito missionário, dedicando todas as suas energias impelido pela sollicitudo omnium ecclesiarum e pela caridade aberta à humanidade inteira. Mais do que qualquer Predecessor encontrou o Povo de Deus e os Responsáveis das Nações, nas Celebrações, nas Audiências gerais e especiais e nas Visitas pastorais. O seu amor pelos jovens estimulou-o a iniciar as Jornadas Mundiais da Juventude, convocando milhões de jovens em várias partes do mundo. Promoveu com sucesso o diálogo com os judeus e com os representantes das outras religiões, convocando-os por vezes em encontros de oração pela paz, especialmente em Assis.

 Alargou notavelmente o Colégio dos Cardeais, criando 231 (mais um in pectore). Convocou 15 Assembleias do Sínodo dos Bispos, 7 gerais ordinárias e 8 especiais. Erigiu numerosas Dioceses e Circunscrições, em particular no leste europeu. Reformou os Códigos de Direito Canónico Ocidental e Oriental, criou novas Instituições e reorganizou a Cúria Romana. Como “sacerdos magnus” exerceu o ministério litúrgico na Diocese de Roma e em todo o mundo, em plena fidelidade ao Concílio Vaticano II. Promoveu de maneira exemplar a vida e a espiritualidade litúrgica e a oração contemplativa, especialmente a adoração eucarística e a oração do Santo Rosário (cf. Carta apost. Rosarium Virginis Mariae).

 Sob a sua guia a Igreja aproximou-se do terceiro milénio e celebrou o Grande Jubileu do Ano 2000, segundo as orientações indicadas com a Carta apostólica Tertio millennio adveniente.Depois, a Igreja aproximou-se da nova era, recebendo para ela novas indicações na Carta apostólica Novo millennio ineunte, na qual se mostrava aos fiéis o caminho do tempo futuro.
Com o Ano da Redenção, o Ano Mariano e o Ano da Eucaristia, promoveu a renovação espiritual da Igreja. Deu um extraordinário impulso às canonizações e beatificações, para mostrar inumeráveis exemplos da santidade de hoje, que servissem de estímulo aos homens do nosso tempo. Proclamou Doutora da Igreja Santa Teresa do Menino Jesus.

 O magistério doutrinal de João Paulo II é muito rico. Guarda do depósito da fé, ele dedicou-se com sabedoria e coragem à promoção da doutrina católica, teológica, moral e espiritual, e a contrastar durante todo o seu Pontificado tendências contrárias à genuína tradição da Igreja.

 Entre os documentos principais contam-se 14 Encíclicas, 15 Exortações apostólicas, 11 Constituições apostólicas, 45 Cartas apostólicas, além das Catequeses propostas nas Audiências gerais e das alocuções pronunciadas em todas as partes do mundo. Com o seu ensinamento João Paulo II confirmou e iluminou o Povo de Deus com a doutrina teológica (sobretudo nas primeiras três grandes Encíclicas Redemptor hominis, Dives in misericordia, Dominum et vivificantem), antropológica e social (Encíclicas Laborem exercens, Sollicitudo rei socialis, Centesimus annus), moral (Encíclicas Veritatis splendor, Evangelium vitae), ecuménica (Encíclica Ut unum sint), missiológica (Encíclica Redemptionis missio), mariológica (Encíclica Redemptoris Mater). Promulgou o Catecismo da Igreja Católica, à luz da Tradição, autorizadamente interpretada pelo Concílio Vaticano II.

 O seu magistério culminou na Encíclica Ecclesia de Eucharistia e na Carta apostólica Mane nobiscum Domine, durante o Ano da Eucaristia. João Paulo II deixou a todos um testemunho admirável de piedade, de vida santa e de paternidade universal. As testemunhas das celebrações e da inumação.

 CORPUS IOANNIS PAULI P.M.

VIXIT ANNOS LXXXIV, MENSES X DIES XV

ECCLESIAE UNIVERSAE PRAEFUIT

ANNOS XXVI MENSES V DIES XVII


Semper in Christo vivas, Pater Sancte!

Fonte: http://www.vatican.va/gpII/documents/rogito-jp-ii_20050408_po.html

O TESTAMENTO DE JOÃO PAULO II

 Apresentamos o texto do Testamento do Papa João Paulo II, com data de 6.3.1979 (e os acréscimos sucessivos), lido na Quarta Congregação Geral do Colégio dos Cardeais, em 6 de Abril de 2005.

 Totus Tuus ego sum

Em nome da Santíssima Trindade. Amém.


“Vigiai, porque não sabeis em que dia o Senhor virá” (cf. Mt
24, 42) estas palavras recordam-me a última chamada, que acontecerá no momento em que o Senhor vier. Desejo segui-lo e desejo que tudo o que faz parte da minha vida terrena me prepare para este momento. Não sei quando ele virá, mas como tudo, também deponho esse momento nas mãos da Mãe do meu Mestre: Totus Tuus. Nas mesmas mãos maternas deixo tudo e Todos aqueles com os quais a minha vida e a minha vocação me pôs em contacto. Nestas Mãos deixo sobretudo a Igreja, e também a minha Nação e toda a humanidade. A todos agradeço. A todos peço perdão. Peço também a oração, para que a Misericórdia de Deus se mostre maior que a minha debilidade e indignidade.
Durante os exercícios espirituais voltei a ler o testamento do Santo Padre Paulo VI. Esta leitura estimulou-me a escrever este testamento.

 Não deixo propriedade alguma da qual seja necessário dispor. Quanto aos objectos de uso quotidiano que me serviam, peço que sejam distribuídos como for oportuno. Os apontamentos pessoais sejam queimados. Peço que disto se ocupe o Pe. Stanislau, ao qual agradeço a colaboração, a ajuda tão prolongada nos anos e a compreensão. Todos os outros agradecimentos deixo-os no coração diante de Deus, porque é difícil expressá-los.

 No que diz respeito ao funeral, repito as mesmas disposições, que deu o Santo Padre Paulo VI (anotação à margem: o sepulcro na terra, não num sarcófago, 13.III.92). Sobre o lugar decida o Colégio Cardinalício e os Concidadãos.

“Apud Dominum misericordia


et copiosa apud Eum redemptio”

João Paulo pp. II

Roma, 6.III.1979

Depois da morte peço Santas Missas e orações.

5.II.1990

***

Expresso a mais profunda confiança de que, apesar de toda a minha debilidade, o Senhor conceder-me-á todas as graças necessárias para enfrentar segundo a Sua vontade qualquer tarefa, provação e sofrimento que quiser pedir ao Seu servo, ao longo da vida. Tenho também esperança de que jamais permitirá que, através de qualquer minha atitude: palavras, obras ou omissões, possa trair as minhas obrigações nesta Santa Sé Petrina.

***

24.II – 1.III.1980

Também durante estes exercícios espirituais reflecti sobre a verdade do Sacerdócio de Cristo na perspectiva daquele Trânsito que para cada um de nós é o momento da própria morte. Da despedida deste mundo para nascer para o outro, para o mundo futuro, sinal eloquente (acréscimo acima: decisivo) é para nós a Ressurreição de Cristo.

 Por conseguinte, li a redacção do meu testamento do último ano, feita também durante os exercícios espirituais comparei-a com o testamento do meu grande Predecessor e Pai Paulo VI, com aquele sublime testemunho sobre a morte de um cristão e de um papa e renovei em mim a consciência das questões, às quais se refere a redacção de 6.III.1979 preparada por mim (de maneira bastante provisória).

 Hoje desejo acrescentar-lhe só isto, que todos devem ter presente a perspectiva da morte. E deve estar preparado e apresentar-se diante do Senhor e do Juiz e contemporaneamente Redentor e Pai. Então também eu tomo em consideração isto continuamente, entregando aquele momento decisivo à Mãe de Cristo e da Igreja à Mãe da minha esperança.

Os tempos em que vivemos são indizivelmente difíceis e preocupantes. Tornou-se também difícil e tensa a vida da Igreja, prova característica daqueles tempos tanto para os Fiéis como para os Pastores. Nalguns Países (como p. ex. naquele sobre o qual li durante os exercícios espirituais), a Igreja encontra-se num período de tal perseguição, que não é inferior à dos primeiros séculos, até os supera pelo grau de crueldade e de ódio. Sanguis martyrum semen christianorum. E além disso tantas pessoas desaparecem inocentemente, também neste País em que vivemos…

 Desejo confiar-me mais uma vez totalmente à graça do Senhor. Ele mesmo decidirá quando e como devo terminar a minha vida terrena e o ministério pastoral. Na vida e na morte Totus Tuus mediante a Imaculada.

 Aceitando já agora esta morte, espero que Cristo me conceda a graça para a última passagem, isto é a [minha] Páscoa. Espero também que a torne útil para esta mais importante causa à qual procuro servir: a salvação dos homens, a salvaguarda da família humana, e nela de todas as nações e dos povos (entre eles o coração dirige-se de maneira particular para a minha Pátria terrena), útil para as pessoas que de modo particular me confiou, para a questão da Igreja, para a glória do próprio Deus.

 Nada desejo acrescentar ao que escrevi há um ano desejo apenas expressar esta prontidão e contemporaneamente esta confiança, à qual os presentes exercícios espirituais de novo me dispuseram.

João Paulo II

***

Totus Tuus ego sum

5.III.1982

Durante os exercícios espirituais deste ano li (várias vezes) o texto do testamento de 6.III.1979. Mesmo se ainda o considero provisório (não definitivo), deixo-o na forma original. Não altero (por enquanto) nem acrescento nada, no que se refere às disposições nele contidas.

 O atentado à minha vida a 13.V.1981 confirmou de certa forma a exactidão das palavras escritas no período dos exercícios espirituais de 1980 (24.II-1.III).

Quanto mais profundamente sinto que estou totalmente nas Mãos de Deus e permaneço continuamente à disposição do meu Senhor, confiando-me a Ele na Sua Imaculada Mãe (Totus Tuus).

João Paulo pp. II

***


Totus Tuus ego sum

5.III.1982

P.S. Em relação à última frase do meu testamento de 6.III.1979 (: “Sobre o lugar isto é, o lugar do funeral decida o Colégio Cardinalício e os Concidadãos”) esclareço o que tenho em mente: o metropolita de Cracóvia ou o Conselho Geral do Episcopado da Polónia ao Colégio Cardinalício peço contudo que satisfaça na medida do possível os eventuais pedidos dos acima mencionados.

***

1.III.1985 (durante os exercícios espirituais)

Ainda no que se refere à expressão “Colégio Cardinalício e os Concidadãos”: o “Colégio Cardinalício” não tem obrigação alguma de interpelar sobre este assunto “os Concidadãos”; contudo pode fazê-lo, se por qualquer motivo o considerar justo.

JPII

Os exercícios espirituais do ano jubilar de 2000

(12-18.III)
[Para o testamento]

1. Quando no dia 16 de Outubro de 1978 o conclave dos cardeais escolheu João Paulo II, o Primaz da Polónia, Card. Stefan Wysznski disse-me: “A tarefa do novo papa será introduzir a Igreja no Terceiro Milénio”. Não sei se repito exactamente a frase, mas pelo menos era este o sentido do que então ouvi. Disse isto o Homem que passou à história como Primaz do Milénio. Um grande Primaz. Fui testemunha da sua missão, da Sua entrega total. Das Suas lutas: da Sua vitória. “A vitória, quando se verificar, será uma vitória através de Maria” o Primaz do Milénio costumava repetir estas palavras do seu Predecessor, o card. August Hlond.

 Assim fui de certa forma preparado para a tarefa que no dia 16 de Outubro de 1978 se apresentou diante de mim. No momento em que escrevo estas palavras, o Ano jubilar de 2000 já é uma realidade em acto. Na noite de 24 de Dezembro de 1999 foi aberta a simbólica Porta do Grande Jubileu na Basílica de São Pedro, depois na de São João de Latrão, de Santa Maria Maior no fim do ano, e no dia 19 de Janeiro a Porta da Basílica de São Paulo fora dos Muros. Este último acontecimento, devido ao seu carácter ecuménico, ficou impresso na memória de modo particular.

 2. À medida que o Ano Jubilar avança, de dia para dia se fecha atrás de nós o século XX e se abre o século XXI. Segundo os desígnios da Providencia foi-me concedido viver no difícil século que começa a fazer parte do passado, e agora no ano em que a minha vida chega aos anos oitenta (“octogesima adveniens”), é preciso perguntar-se se não tenha chegado o tempo de repetir com o bíblico Simeão “Nunc dimittis”.

 No dia 13 de Maio de 1981, o dia do atentado ao Papa durante a audiência geral na Praça de São Pedro, a Divina Providência salvou-me de modo milagroso da morte. Aquele que é o único Senhor da vida e da morte, Ele mesmo me prolongou esta vida, de certo modo concedeu-ma de novo. A partir desse momento ela pertence-lhe ainda mais. Espero que Ele me ajudará a reconhecer até quando devo continuar este serviço, para o qual me chamou no dia 16 de Outubro de 1978. Peço-lhe que me chame quando Ele mesmo quiser. “Na vida e na morte pertencemos ao Senhor… somos do Senhor” (cf. Rm 14, 8). Também espero que enquanto me for concedido cumprir o serviço Petrino na Igreja, a Misericórdia de Deus me queira conceder as forças necessárias para este serviço.

 3. Como todos os anos durante os exercícios espirituais li o meu testamento de 6.III.1979. Continuo a manter as disposições nele contidas. Aquilo que então, e também durante os seguintes exercícios espirituais foi acrescentado constitui um reflexo da difícil e tensa situação geral, que marcou os anos oitenta. Do Outono de 1989 esta situação mudou. O último decénio do século passado esteve livre das precedentes tensões; isto não significa que não tenha levado consigo novos problemas e dificuldades. De modo particular seja louvada a Providencia Divina por isto, que o período da chamada “guerra fria” terminou sem o violento conflito nuclear, do qual pesava sobre o mundo o perigo no período precedente.

 4. Estando no limiar do terceiro milénio “in medio Ecclesiae”, desejo mais uma vez expressar gratidão ao Espírito Santo pelo grande dom do Concílio Vaticano II, ao qual juntamente com toda a Igreja e sobretudo com todo o episcopado me sinto devedor. Estou convencido de que ainda será concedido às novas gerações haurir das riquezas que este Concílio do século XX nos concedeu. Como Bispo participante no acontecimento conciliar do primeiro ao último dia, desejo confiar este grande património a todos os que são e serão no futuro chamados a realizá-lo. Da minha parte agradeço o eterno Pastor que me consentiu servir esta grandíssima causa durante todos os anos do meu pontificado.

 “In medio Ecclesia”… desde os primeiros anos de serviço episcopal precisamente graças ao Concílio foi-me concedido experimentar a comunhão fraterna do Episcopado. Como sacerdote da Arquidiocese de Cracóvia experimentei o que era a comunhão fraterna do presbitério o Concílio abriu uma nova dimensão desta experiência.

 5. Quantas pessoas deveria mencionar aqui! Provavelmente o Senhor Deus chamou a Si a maior parte quanto aos que ainda estão deste lado, as palavras deste testamento os recordem, a todos e em toda a parte, onde quer que se encontrem.

Durante os mais de vinte anos em que desempenho o serviço Petrino “in medio Ecclesiae” experimentei a benévola e muito fecunda colaboração de tantos Cardeais, Arcebispos e Bispos, tantos sacerdotes, tantas pessoas consagradas Irmãos e Irmãs por fim, de tantíssimas pessoas leigas, no ambiente da Cúria, no Vicariato da Diocese de Roma, e também fora destes ambientes.
Como não abraçar com a memória agradecida todos os Episcopados no mundo, com os quais me encontrei no suceder-se das visitas “ad limina Apostolorum”!

 Como não recordar também tantos Irmãos cristãos não católicos! E o rabino de Roma e tantos representantes das religiões não cristas! E quantos representantes do mundo da cultura, da ciência, da política, dos meios de comunicação social!

6. À medida que se aproxima o limite da minha vida terrena volto com a memória ao início, aos meus Pais, ao Irmão e à Irmã (que não conheci, porque morreu antes do meu nascimento), à paróquia de Wadowice, onde fui baptizado, àquela cidade da minha juventude, aos coetâneos, companheiras e companheiros da escola elementar, do ginásio, da universidade, até aos tempos da ocupação, quando trabalhei como operário, e depois na paróquia de Niegowic, na paróquia de São Floriano em Cracóvia, à pastoral dos académicos, ao ambiente… a todos os ambientes… a Cracóvia e a Roma… às pessoas que de modo especial me foram confiadas pelo Senhor.
A todos desejo dizer uma só coisa: “Deus vos recompense”.

“In manus Tuas, Domine, commendo spiritum meum”.

A.D.
17.III.2000

Fonte: http://www.vatican.va/gpII/documents/testamento-jp-ii_20050407_po.html

  

III ANIVERSÁRIO DA MORTE

DO SERVO DE DEUS JOÃO PAULO II

HOMILIA DO PAPA BENTO XVI

Praça de São Pedro

Quarta-feira, 2 de Abril de 2008

Queridos irmãos e irmãs!

A data de 2 de Abril permaneceu impressa na memória da Igreja como o dia da partida deste mundo do servo de Deus o Papa João Paulo II. Revivemos com emoção as horas daquele sábado à noite, quando a notícia da morte foi recebida por uma grande multidão em oração que enchia a Praça de São Pedro. Durante diversos dias a Basílica Vaticana e esta Praça foram verdadeiramente o coração do mundo. Um rio ininterrupto de peregrinos prestou homenagem aos despojos mortais do venerado Pontífice e o seu funeral marcou um ulterior testemunho da estima e do afecto, que ele tinha conquistado no coração de tantíssimos crentes e de pessoas de todas as partes da terra. Como há três anos, também hoje não passaram muitos dias depois da Páscoa. O coração da Igreja ainda está profundamente imerso no mistério da Ressurreição do Senhor. Na verdade, podemos ler toda a vida do meu amado Predecessor, em particular o seu ministério petrino, no sinal de Cristo Ressuscitado. Ele alimentava uma fé extraordinária n’Ele, e com Ele mantinha uma conversação íntima, singular e ininterrupta. Entre as numerosas qualidades humanas e sobrenaturais, de facto tinha a de uma excepcional sensibilidade espiritual e mística. Era suficiente observá-lo quando rezava: imergia-se literalmente em Deus e parecia que tudo o demais naqueles momentos não lhe dissesse respeito. As celebrações litúrgicas viam-no atento ao mistério-em-acto, com uma acentuada capacidade de captar a eloquência da Palavra de Deus no acontecer da história, a nível profundo do desígnio de Deus. A Santa Missa, como repetiu com frequência, era para ele o centro de cada um dos seus dias e de toda a sua existência. A realidade “viva e santa” da Eucaristia dava-lhe a energia espiritual para guiar o Povo de Deus no caminho da história.

 João Paulo II faleceu na vigília do segundo Domingo de Páscoa; ao completar-se o “dia que o Senhor fez”. A sua agonia durou o espaço desse “dia”, neste espaço-tempo novo que é o “oitavo dia”, querido pela Santíssima Trindade mediante a obra do Verbo encarnado, morto e ressuscitado. Nesta dimensão espiritual o Papa João Paulo II deu várias vezes provas de se encontrar de certa forma imerso já antes, durante a sua vida, e especialmente no cumprimento da sua missão de Sumo Pontífice. O seu pontificado, no seu conjunto e em muitos momentos específicos, parece-nos de facto como um sinal e um testemunho da Ressurreição de Cristo. O dinamismo pascal, que tornou a existência de João Paulo II uma resposta total à chamada do Senhor, não podia expressar-se sem a participação nos sofrimentos e na morte do divino Mestre e Redentor. “Porque esta palavra é verdadeira afirma o apóstolo Paulo se morrermos por Ele, também com Ele reviveremos; se perseverarmos, reinaremos com Ele” (2 Tm 2, 11-12). Desde criança, Karol Wojtyla tinha experimentado a verdade destas palavras, encontrando no seu caminho a cruz, na sua família e no seu povo. Ele decidiu muito cedo carregá-la juntamente com Jesus, seguindo as suas pegadas. Quis ser seu servo fiel até acolher a chamada ao sacerdócio como dom e compromisso de toda a vida. Com Ele viveu e com Ele quis também morrer. E tudo isto através da singular mediação de Maria Santíssima, Mãe da Igreja, Mãe do Redentor, íntima e efectivamente associada ao seu mistério salvífico de morte e ressurreição.

 Guiam-nos nesta reflexão reevocativa as Leituras bíblicas há pouco proclamadas: “Não tenhais medo!” (Mt 28, 5). As palavras do anjo da ressurreição, dirigidas às mulheres junto do sepulcro vazio, que agora ouvimos, tornaram-se uma espécie de mote nos lábios do Papa João Paulo II, desde o início solene do seu ministério petrino. Repetiu-as várias vezes à Igreja e à humanidade a caminho rumo ao ano 2000, e depois através daquela meta histórica e também sucessivamente, no alvorecer do terceiro milénio. Pronunciou-as sempre com firmeza inflexível, primeiro agitando o báculo pastoral culminante na Cruz e depois, quando as energias físicas iam diminuindo, quase agarrando-se a Ele, até àquela última Sexta-Feira Santa, na qual participou na Via-Sacra da Capela particular estreitando a Cruz entre os braços. Não podemos esquecer o seu último e silencioso testemunho de amor a Jesus. Também aquele eloquente cenário de sofrimento humano e de fé, naquela última Sexta-Feira Santa, indicava aos crentes e ao mundo o segredo de toda a vida cristã. O seu “Não tenhais medo” não se fundava nas forças humanas, nem nos êxitos obtidos, mas unicamente na Palavra de Deus, na Cruz e na Ressurreição de Cristo. À medida que era despojado de tudo, por fim até da própria palavra, esta entrega a Cristo sobressaiu com crescente evidência. Como aconteceu a Jesus, também para João Paulo II no fim as palavras deixaram o lugar ao sacrifício extremo, à doação de si. E a morte foi o selo de uma existência totalmente doada a Cristo, conformada com Ele também fisicamente nas características do sofrimento e do abandono confiante nos braços do Pai celeste. “Deixai que eu vá para o Pai”, foram estas testemunha quem estava próximo dele as suas últimas palavras, em cumprimento de uma vida totalmente dedicada ao conhecimento e à contemplação do rosto do Senhor.

 Venerados e queridos irmãos, agradeço a todos por vos terdes unido a mim nesta santa Missa de sufrágio pelo amado João Paulo II. Dirijo um pensamento particular aos participantes no primeiro Congresso mundial sobre a Divina Misericórdia, que tem início precisamente hoje, e que pretende aprofundar o seu rico magistério sobre este tema. A misericórdia de Deus disse ele mesmo é uma chave de leitura privilegiada do seu pontificado. Ele queria que a mensagem do amor misericordioso de Deus alcançasse todos os homens e exortava os fiéis a ser suas testemunhas (cf. Homilia em Cracóvia-Lagiewniki, 18/8/2002). Por isso quis elevar às honras dos altares a Irmã Faustina Kowalska, humilde Religiosa que se tornou por misterioso desígnio divino mensageira profética da Divina Misericórdia. O servo de Deus João Paulo II tinha conhecido e vivido pessoalmente as terríveis tragédias do século XX, e durante muito tempo perguntou-se o que poderia impedir o alastramento do mal. De facto, só a Misericórdia Divina é capaz de pôr um limite ao mal; só o amor omnipotente de Deus pode derrotar a prepotência dos malvados e o poder destruidor do egoísmo e do ódio. Por isso, durante a última visita à Polónia, voltando à sua terra natal disse: “Não há outra fonte de esperança para o homem a não ser a misericórdia de Deus” (ibid.).

 Damos graças ao Senhor por ter doado à Igreja este seu fiel e corajoso servidor. Louvemos e bendigamos a Bem-Aventurada Virgem Maria por ter velado incessantemente sobre a sua pessoa e sobre a humanidade interia. E enquanto oferecemos pela sua alma eleita o Sacrifício redentor, pedimos-lhe que continue a interceder do Céu por todos nós, por mim de modo especial, que a Providência chamou a reunir a sua inestimável herança espiritual. Possa a Igreja, seguindo os seus ensinamentos e exemplos, prosseguir fielmente e sem sujeições a sua missão evangelizadora, difundindo incansavelmente o amor misericordioso de Cristo, fonte de verdadeira paz para o mundo inteiro. Amém.

 Fonte: http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/homilies/2008/documents/hf_ben-xvi_hom_20080402_anniv-morte-gpii_po.html