Biografia dos Santos

Santa Rosa de Lima

Posted on: agosto 22, 2010

    

SECRETÁRIO DE ESTADO
À REPÚBLICA DO PERU

 HOMILIA DO CARDEAL TARCISIO BERTONE
NA CELEBRAÇÃO EUCARÍSTICA
NO SANTUÁRIO DE SANTA ROSA DE LIMA

 
   

Chimbote, 31 de Agosto de 2007

 Queridos irmãos e irmãs!

“O reino dos céus é semelhante a um grau de mostarda… é a mais pequena de todas as sementes, mas, depois de crescer, torna-se a maior planta do horto” (Mt 13, 31-32). Na página evangélica, que a liturgia nos propõe na festa de Santa Rosa de Lima, Jesus compara o reino dos céus a um grão de mostarda, uma das sementes mais pequeninas, mas que, quando germina, se torna uma árvore frondosa e até alcança a altura de três metros. Não há proporção entre a pequenez da semente e o desenvolvimento sucessivo da planta com as flores e os frutos que produz, e não nos é difícil compreender, através desta metáfora, o ensinamento que o Senhor nos quer dar. De facto, assim como se observa uma clara desproporção entre uma árvore alta que cresce de uma semente muito pequena, também existe uma desproporção lógica entre os limites do homem e os prodígios de santidade que a Graça divina realiza nele. A vida dos santos e o caminho da Igreja ao longo dos séculos não são porventura um testemunho contínuo desta acção misteriosa do Senhor? Todos nós somos pequenas sementes a vicissitude humana e espiritual de Santa Rosa é muito eloquente a este propósito e Deus, dos nossos limites, pode fazer surgir prodígios maravilhosos de bondade e de amor. Eis a santidade: obra gratuita do Omnipotente Criador, quando encontra correspondência humilde e fiel na criatura humana.

Mas podemos acrescentar mais uma consideração. Nestes nossos tempos estamos justamente preocupados porque alguns cristãos abandonam a Igreja atraídos pelas chamadas das seitas ou seduzidos pela miragem do hedonismo moderno e por uma cultura que, acentuando a autonomia do homem, acaba por propor um humanismo sem Deus ou até contra Deus. Que fazer? O texto evangélico indica-nos um caminho a percorrer: cada instrumento pastoral e missionário é útil para uma acção apostólica mais incisiva, mas o que mais conta é que cada um de nós seja a semente boa que, graças à ajuda divina, é capaz de produzir certamente frutos abundantes.

Os cristãos são chamados a testemunhar com o seu exemplo a pertença convicta a Cristo e à sua Igreja. Assim tornam-se fermento de santidade. Afirma-o claramente Jesus que, no mesmo trecho do Evangelho de Mateus, identifica o reino dos céus, mais do que com uma pequena semente, com o fermento que faz levedar a massa. “O reino dos céus diz Ele é semelhante ao fermento… misturado em três medidas de farinha, até que tudo esteja fermentado” (13, 33). Para ter bom pão não serve simplesmente outro pão mesmo que seja fresco; é necessário o fermento que, quando se coloca na farinha, dá lugar a um fenómeno quase mágico: a massa cresce até sair do recipiente. É a força da vida, da qual o fermento é portador.

Um autor cristão dos primeiros séculos, de nome Orígenes, oferece um interessante comentário desta breve parábola. Identifica as “três medidas de farinha”, das quais o Evangelho fala, com os elementos da pessoa humana corpo, alma, espírito que para levedar, isto é, para se elevar, precisam do Espírito Santo. Também aqui podemos fazer uma aplicação muito actual. Hoje é frequente a tentação de um gnosticismo moderno que concebe a religião quase como uma opção individual e privada de modo intimista. Mas se é verdade que a fé é antes de tudo amizade íntima com Cristo, se é autêntica, esta fé só pode ser “contagiosa”, renovando a sociedade e até a criação, porque toda a criação pertence ao projecto da salvação. O cristão não deve contentar-se com ser “pão bom”, mas é necessário que seja fermento de santidade.

Foi esta a experiência de Isabel Flores y de Oliva, cognominada Rosa devido ao frescor do seu rosto. Mesmo sendo proveniente de uma família nobre de imigrantes espanhóis que se estabeleceram no Peru, não hesitou arregaçar as mangas quando os seus familiares, por uma série de desventuras, se encontraram em dificuldade económica. Desde a adolescência optou por seguir Jesus com íntimo arrebatamento, inscrevendo-se na Ordem Terciária dominicana e tomando como modelo e guia espiritual Catarina de Sena. Dedicada ao cuidado dos pobres e aos trabalhos ordinários que uma dona de casa é chamada a desempenhar quotidianamente, impôs-se um regime de vida austero que se distinguia por uma extraordinária penitência.

Com 23 anos fechou-se numa cela com apenas dois metros quadrados, que se fez construir pelo irmão no jardim de casa e da qual saía só para ir às funções religiosas. E era precisamente nesta angusta e voluntária prisão que transcorria a maior parte dos seus dias em contemplação, em intimidade com o seu Senhor. Como a Catarina de Sena, também a ela foi concedida a graça mística de participar fisicamente na paixão de Jesus, que tinha elegido como seu Esposo, e por 15 anos teve que atravessar a dura experiência interior da ausência de Deus, aquelas dores do espírito que São João da Cruz, o reformador do Carmelo, chama a “noite escura”.

Portanto, a vida de Rosa foi escondida e no sofrimento a qual, condescendendo ao Espírito Santo, alcançou o vértice alto da santidade. A mensagem que continua a comunicar aos devotos que a invocam como protectora não só peruanos e do continente latino-americano, mas de todo o mundo, expressa-se numa das misteriosas mensagens que recebeu do Senhor. “Todos sabemos confiou-lhe Jesus que a graça segue a tribulação; saibam que sem o peso das aflições não se alcança o vértice da graça; compreendam que tanto mais cresce a intensidade dos sofrimentos, tanto mais aumenta a medida dos carismas. Ninguém erre nem se engane; esta é a única verdadeira escada do paraíso, e sem a cruz não há outro caminho pelo qual subir ao céu”.

Palavras que fazem pensar imediatamente nas exigentes condições que o próprio Jesus apresenta aos seus discípulos: “Se alguém quiser vir após Mim, renegue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me… Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro se, depois, perde a sua alma? O que poderá o homem dar em troca da sua alma?” (Mt 16, 34-37). Encontra-se precisamente aqui o paradoxo evangélico, a verdadeira sabedoria da cruz, o escândalo da cruz. “Porque a linguagem da Cruz escreve São Paulo aos Coríntios é loucura para os que se perdem, e poder de Deus para os que se salvam, isto é, para nós” (1 Cor 1, 18). Ajude-nos Santa Rosa a abraçar com confiança a cruz como ela fez, também quando isto exige sofrimentos e aparentes insucessos. Num dos seus escritos lemos: “Ninguém se lamentaria da cruz dos sofrimentos, que o destino lhe dá, se conhecesse com que balanças são pesados na distribuição entre os homens”.

A sua breve existência faleceu com apenas 32 anos foi marcada por numerosas provas e sofrimentos mas, ao mesmo tempo, foi toda permeada de amor a Cristo e de grande serenidade. Pode-se dizer que em Santa Rosa se manifestou o poder da Graça divina: quanto mais o homem é frágil e confia em Deus, tanto mais encontra n’Ele conforto e experimenta a força renovadora do seu Espírito. A primeira leitura do Livro do Eclesiástico convida-nos a viver no abandono humilde e confiante no Senhor: “Na tua actividade escreve o autor sagrado sê modesto, serás amado pelo homem e agradável a Deus”, e acrescenta: “É grande o poder do Senhor, mas é pelos humildes que ele é honrado” (3, 19-21). “No dia da tribulação Deus recordar-se-á de ti” (cf. 3, 17).

No dia da sua festa, Santa Rosa recorda-nos que Deus é bom e misericordioso, nunca abandona os seus filhos no momento da prova e da necessidade; convida-nos a ter sempre confiança n’Ele e a ser simples e humildes. A simplicidade e a humildade são virtudes que devemos aprender a praticar se quisermos seguir Jesus. Ele repete aos seus amigos: “Vinde a Mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e aliviar-vos-ei. Tomai sobre vós o Meu jugo, e aprendei de Mim, que sou manso e humilde de coração” (Mt 11, 28-29).

Santa Rosa respondeu a este convite com uma consciência plena e disponível; deixou-se abraçar por Deus, na certeza de estar nas mãos de um Pai, amparada por uma intensa piedade eucarística e mariana. O amor à Eucaristia estimulou-a a permanecer abraçada ao tabernáculo para o defender das invasões dos calvinistas holandeses que assediavam a cidade de Lima. E recorria constantemente a Maria Santíssima, que invocava sobretudo sob o título de “Rainha do Rosário”.

Aliás, como sabeis, foi precisamente a virgem do Rosário que lhe indicou a forma de vida através da qual se teria consagrado para sempre a Jesus na Ordem terciária dominicana. De facto, aconteceu que quando a família se resignou à sua recusa do matrimónio, Rosa entrou no mosteiro de Santa Clara.

Contudo não tinha a certeza total de que esta fosse a opção justa e quando, acompanhada pelo irmão, deixou a casa para ir definitivamente para o mosteiro, deteve-se diante da “sua” Nossa Senhora. Rezou intensamente e apercebeu-se que se tornou pesada como o chumbo: nem o irmão, nem o sacristão a conseguiram erguer. E só quando prometeu a Nossa Senhora que voltava para casa, a Virgem sorriu-lhe e Rosa pôde erguer-se facilmente. Convenceu-se então que podia chegar a Jesus através do amor materno da Virgem Maria. Viveu assim consagrando-se toda a Jesus e a Maria; quando faleceu tinha sobre os lábios, como últimas palavras: “Jesus, Jesus, Jesus, esteja sempre comigo”.

Queridos irmãos e irmãs, agradeço ao Senhor que me oferece a possibilidade de terminar a minha permanência na República do Peru com esta peregrinação aos pés de Santa Rosa, excelsa filha da vossa Nação, nesta bonita Igreja na qual estão conservadas as suas relíquias. Depois de ter tido a honra de inaugurar o Congresso Eucarístico nacional no sábado passado, 25 de Agosto, pude presidir esta manhã à solene celebração de encerramento. O Congresso Eucarístico foi um acontecimento muito significativo e importante e de singular graça e bênção para todos. Por isto gostaria mais uma vez de dar graças ao Senhor. Sinto também a profunda necessidade de agradecer a Deus porque durante esta visita pude conhecer melhor a profundidade da fé das comunidades cristãs e o acolhimento cordial do povo peruano.

No momento em que me despeço do vosso bonito País com esta Celebração Eucarística, invoco sobre todos e cada um a protecção de Santa Rosa e a ajuda materna de Maria, tão venerada em todas as partes do País. A vós peço uma recordação na oração por mim, mas sobretudo pelo Santo Padre Bento XVI, que segue com solicitude paterna e afecto a vida e o caminho da Igreja e da nação peruana. Possa a República do Peru perseverar e crescer numa fé firme e cheia de alegria, na concórdia e na paz, sob o olhar abençoador do Señor de los milagros, da Virgem Santa e de Santa Rosa.

El Señor de los milagros, a Virgem Santa e Santa Rosa estejam particularmente próximos de quantos sofrem pelo terramoto que se verificou recentemente e cujas consequências ainda são muito vivas. Conservarei no coração as emoções e os sentimentos vividos nestes dias e continuarei a recordar-vos todos ao Senhor. No final desta minha visita, queridos irmãos e irmãs, rezemos pelos defuntos, pelos feridos, pelas famílias que ficaram sem casa; rezemos por todo o povo peruano para que saiba superar unido também esta prova para construir com esperança o próprio futuro, confiando sempre na ajuda divina. A palavra do Senhor repetiu-nos isto há pouco: “No dia da tribulação Deus recordar-se-á de ti” (Ecli 3, 17). Com esta esperança certa celebramos o sacrifício divino, fonte e ápice da vida da Igreja e do mundo remido pela cruz de Cristo.

Amém!

Fonte:http://www.vatican.va/roman_curia/secretariat_state/card-bertone/2007/documents/rc_seg-st_20070830_s-rosa-lima_po.html

Vida de Santa Rosa de Lima

Nascimento

Era um dia de Julho na cidade de Lima. O sol escondia-se atrás do espesso lençol de névoa que cobre geralmente o litoral do Peru e do Chile, de Junho a Setembro. Maria de Oliva Flores arrepiou-se toda ao sair para o vasto jardim nos fundos de sua casa. Dias como aquele, sem o brilho do sol, não lhe agradavam. O ar estava pesado e úmido e ela se sentia sonolenta o dia todo. – Mariana! Você está aí? Do outro lado do jardim, fora do alcance da vista, dentre as árvores e as flores, veio uma voz de menina.

 - Si, senhora. Estou com Isabelinha.

 Maria de Oliva enveredou por uma estreita passagem, curvando a cabeça ao passar sob uma copada figueira. Já devia saber onde estavam. Depois do lanche, Mariana, a criadinha indígena, ia sempre para aquele sítio com a pequerrucha da família Flores. Desde os três meses de idade, Isabel se tornara definitivamente a favorita de Mariana. Maria apressou os passos ao avistar Mariana sentada ao lado do berço da criança. Com um sorriso de orgulho a iluminar-lhe o rosto, ela afastou a coberta rendada e contemplou a filhinha.

- Mariana, já tive muitos filhos, mas creio que Isabel é o mais lindo de todos. Que lindos cabelos negros, e que olhos! E estas facezinhas tão rosadas!…

A indiazinha sorriu e seus dentes brancos fulguraram no bronzeado da face.

- Isabel parece uma flor, senhora. É tão, boazinha! Nunca vi bebê tão amável.

- Parece uma flor, Mariana? Que flor?

- Uma rosa, senhora. Uma linda rosa. Olhe agora mesmo para ela, está sorrindo para nós como se compreendesse o que estamos dizendo. Maria de Oliva quedou um momento. Aquela criança nascera há três meses, a 30 de Abril, festa de S. Catarina de Sena. A 25 de Maio fora batizada pelo padre Antônio Polanco, na igreja de S. Sebastião, e recebera o nome de Isabel, para agradar a avó, Isabel de Herrera, mãe de Maria Oliva. Mas conviria esse nome realmente à criança? Não seria melhor chamá-la Rosa, conforme a flor a que tanto se assemelhava? Mariana vivia atarefada. A família Flores não era abastada, e, com vários filhos a alimentar e vestir, Gaspar Flores só podia manter uma criada. E isto, para Mariana, significava pouco tempo de folga. Para ela, isso era o menos e agora que a Isabelinha viera, era mesmo bom fazer parte da família Flores.

- Quando este bebê crescer, será a moça mais bonita de Lima, – disse Mariana. – Ela nos trará felicidade.

- Podemos aproveitar isso, – suspirou Maria. – As vezes é uma luta bem difícil chegar ao fim. Esperemos que Rosa despose um homem rico.

- Rosa, senhora?

- Isso mesmo. Não vou mais chamá-la Isabel. Rosa lhe calha muito melhor. Estou certa de que a avó não se há de importar se mudarmos o nome. Isabel Herrera, no entanto, importou-se. Seu orgulho fora extremamente lisonjeado, quando Maria batizara assim a linda filhinha, e ela recusou-se a ouvir falar em mudança.

- Ela foi batizada Isabel, Maria. Por que você quer agora alterar as coisas?

- Porque eu acho que o nome de Rosa lhe vai muito melhor. Mamãe, por favor, não oponha dificuldades!Isabel Herrera tinha um gênio inflamável.- Dificuldades? Que está você dizendo? O nome da menina é Isabel, e pronto.

- E’ Rosa!

- E’ Isabel!

- Rosa, estou lhe dizendo!

- Isabel!

Às vezes Gaspar Flores perdia a paciência com sua mulher e sua sogra.

- Chamem a criança como quiserem – implorava mas deixem um homem ter um pouco de paz em sua própria casa. Por favor! Passou-se um ano, passaram-se dois, quatro e ainda a menina Flores continuava o centro de amarga contenda. “E’ na verdade muita tolice – diziam os vizinhos. Esta pobre criança tem receio de responder quando a chamam Rosa porque desagrada à avó. E não sabe o que fazer quando alguém a chama Isabel, porque então é a mãe que fica zangada. Por que o Gaspar não impõe sua autoridade?” Mas Gaspar era impotente. Pouco podia fazer com sua esposa, e muito menos com a sogra.

- Deus nos acuda, – implorava ele muitas vezes. Maria de Oliva era dada a súbitos impulsos de energia, e um dia resolveu ensinar a menina a ler e escrever.

- Rosa, estás quase com cinco anos. Eu acho que podias aprender o alfabeto. Olha – esta letra é A. Esta aqui é B. E aqui está o C. E’ muito simples.

Rosa achou uma folha de papel e uns pedaços de giz de cor. Ia ser muito bom! Bernardina, a irmã mais velha, sabia tudo a respeito da leitura e escrita. O mesmo se podia dizer de Joana, de André, de Antônio e de Mateus. Até o Fernando de sete anos sabia escrever seu nome muito bem. Talvez, pensou Rosa, ela pudesse pegar os irmãos e irmãs se trabalhasse com afinco. Entretanto, depois de meia hora a copiar letras, os dedos de Rosa começaram a ficar duros.- Estás cansada e eu também – decidiu Maria Oliva.

 - Amanhã teremos outra lição. Agora quero que me prometas uma coisa.

- Sim, mamãe!

- Não vais atender a nenhum outro nome senão Rosa. Não… não importa que tua avó fique aborrecida. Teu nome é Rosa Flores e nenhum outro. Compreendeste? Rosa acenou com a cabeça. A discórdia por causa de seu nome sempre a entristecera. Detestava ver as pessoas- questionarem, especialmente sua mãe e sua avó. Desde que podia lembrar-se, entretanto, tinha sempre havido discussões entre as duas. Mesmo apesar de Maria insistir em ter tido certa vez urna visão, na qual lhe aparecera uma linda rosa escarlate sobre o berço de Rosa, Isabel Herrera não lhe dava crédito.

 - Essa rosa era um sinal do Céu, ordenando-me que mudasse o nome da menina – dizia Maria Oliva. – Estou absolutamente convencida disso.

- Um sinal do céu, com efeito! – exclamava a velha senhora. – Não foi mais que produto da sua imaginação!

Em breve Maria cansou-se de ensinar sua filha a ler e escrever. Não tinha muita paciência, nem mesmo nas melhores ocasiões. E ninguém havia que se interessasse pelo grande desejo de aprender que a criança demonstrava.

- Você é apenas uma menininha – consolou-a um dia Mariana. – Há muito tempo para aprender leitura e escrita. Pelo que se aproveita, a gente pode ser bem feliz sem saber nenhuma das duas coisas. Só existe uma coisa realmente importante.

- O quê? – perguntou Rosa, interessada.

- Saber o que é bom e fazê-lo. Você nunca terá verdadeira dificuldade se se lembrar disto, meu bem. As palavras de Mariana agradaram a Rosa e frequentemente revolvia-as na mente. Deus era bom. Quanto mais alguém pensava nele, tanto mais chegava a conhecê-lo. Depois disto, ser bom e fazer o bem era a coisa mais simples do mundo. Contudo seria bonito saber algumas coisas de modo a ser útil às outras pessoas.

- Vou rezar – disse a si mesma a menina. – Já que ninguém tem tempo de me ensinar, vou pedir a Deus que me ensine. Ele pode fazer tudo, não pode?

Maria Oliva possuía em seu quarto uma imagem do Menino Jesus. Conforme o costume no Perú, a estatueta tinha um vestido próprio, de veludo vermelho orlado de ouro. Todos os dias Rosa ajoelhava-se diante da imagem e dizia uma oração.

 “Senhor, ajudai-me a conhecer-vos e amar-vos” – rezava ela, fervorosamente. – E, por favor, ensinai-me a ler e escrever”.

 Maria de Oliva nada sabia dessas oraçõezinhas de Rosa. Múltiplos afazeres a absorviam na direção daquela casa enorme, e às vezes o trabalho deixava-a fatigada e amargurada. “Não será sempre assim – pensava ela. – Algum dia a criança se há de casar, talvez muito bem. Então poderei fazer as coisas com mais sossego”. Uma manhã estava Maria amassando o pão. A cozinha estava quente e enfumaçada e o que ela não sentia era disposição para conversar. – Não me amoles agora – disse, ao ver Rosa escancarar a porta. Vai brincar com Fernando até à hora do jantar. – Mas, mamãe, a senhora não quer saber duma coisa maravilhosa? Eu sei ler e escrever!

 Maria de Oliva bateu a enorme montanha de massa em sua frente. – Não deves andar inventando histórias – ralhou. Já não és um bebê, e deves saber que contar mentira é pecado.

- Não estou contando mentira, mamãe. Eu sei ler e escrever. E’ sério, de verdade. Olhei Maria deu uma olhadela ao papel que Rosa lhe estendia. Estava coberto de palavras, claramente escritas com letra grande e redonda. Para uma criança de cinco anos, a letra era muito boa.

- Alguém andou te ajudando, – disse ela um pouco ríspida. – Teu pai ou tua avó.

Rosa sacudiu a cabeça:

- Ninguém me ajudou, mamãe. Só o pequeno Menino Jesus. A senhora está sempre tão ocupada e eu não queria aborrecê-la, então pedi a ele para me ajudar. E ele ajudou.

Um pouco do sangue fugiu do rosto aquecido de Maria.

- Vai buscar-me um livro. – ordenou severamente. Qualquer livro. Veremos já se estás dizendo a verdade.Em poucos minutos Rosa estava de volta com um enorme volume verde.

- Olhe, mamãe, há quatro palavras escritas em letras de ouro na capa.

Posso ler todas elas.Maria de Oliva olhou. Se esta sua filha estava dizendo mesmo a verdade…

- Bem, quais são estas quatro palavras?

Rosa sorriu. Era um dia esplêndido aquele, de que ela se lembraria enquanto vivesse. As quatro palavras douradas da capa do livro verde eram SANTA CATARINA DE SENA.

Dentro do livro havia muitas outras palavras, contando a história e a vida da grande santa italiana, cuja festa se celebrava no dia em que Rosa nascera. E ela sabia ler todas aquelas palavras.

Fonte:Mary Fabyan Windeatt. Santa Rosa de Lima. O anjo dos Andes.

Era um dia de Julho na cidade de Lima. O sol escondia-se atrás do espesso lençol de névoa que cobre geralmente o litoral do Peru e do Chile, de Junho a Setembro. Maria de Oliva Flores arrepiou-se toda ao sair para o vasto jardim nos fundos de sua casa. Dias como aquele, sem o brilho do sol, não lhe agradavam. O ar estava pesado e úmido e ela se sentia sonolenta o dia todo. – Mariana! Você está aí? Do outro lado do jardim, fora do alcance da vista, dentre as árvores e as flores, veio uma voz de menina.

 

- Si, senhora. Estou com Isabelinha.

 

Maria de Oliva enveredou por uma estreita passagem, curvando a cabeça ao passar sob uma copada figueira. Já devia saber onde estavam. Depois do lanche, Mariana, a criadinha indígena, ia sempre para aquele sítio com a pequerrucha da família Flores. Desde os três meses de idade, Isabel se tornara definitivamente a favorita de Mariana. Maria apressou os passos ao avistar Mariana sentada ao lado do berço da criança. Com um sorriso de orgulho a iluminar-lhe o rosto, ela afastou a coberta rendada e contemplou a filhinha.

- Mariana, já tive muitos filhos, mas creio que Isabel é o mais lindo de todos. Que lindos cabelos negros, e que olhos! E estas facezinhas tão rosadas!…

A indiazinha sorriu e seus dentes brancos fulguraram no bronzeado da face.

- Isabel parece uma flor, senhora. É tão, boazinha! Nunca vi bebê tão amável.

- Parece uma flor, Mariana? Que flor?

- Uma rosa, senhora. Uma linda rosa. Olhe agora mesmo para ela, está sorrindo para nós como se compreendesse o que estamos dizendo. Maria de Oliva quedou um momento. Aquela criança nascera há três meses, a 30 de Abril, festa de S. Catarina de Sena. A 25 de Maio fora batizada pelo padre Antônio Polanco, na igreja de S. Sebastião, e recebera o nome de Isabel, para agradar a avó, Isabel de Herrera, mãe de Maria Oliva. Mas conviria esse nome realmente à criança? Não seria melhor chamá-la Rosa, conforme a flor a que tanto se assemelhava? Mariana vivia atarefada. A família Flores não era abastada, e, com vários filhos a alimentar e vestir, Gaspar Flores só podia manter uma criada. E isto, para Mariana, significava pouco tempo de folga. Para ela, isso era o menos e agora que a Isabelinha viera, era mesmo bom fazer parte da família Flores.

- Quando este bebê crescer, será a moça mais bonita de Lima, – disse Mariana. – Ela nos trará felicidade.

- Podemos aproveitar isso, – suspirou Maria. – As vezes é uma luta bem difícil chegar ao fim. Esperemos que Rosa despose um homem rico.

- Rosa, senhora?

- Isso mesmo. Não vou mais chamá-la Isabel. Rosa lhe calha muito melhor. Estou certa de que a avó não se há de importar se mudarmos o nome. Isabel Herrera, no entanto, importou-se. Seu orgulho fora extremamente lisonjeado, quando Maria batizara assim a linda filhinha, e ela recusou-se a ouvir falar em mudança.

- Ela foi batizada Isabel, Maria. Por que você quer agora alterar as coisas?

- Porque eu acho que o nome de Rosa lhe vai muito melhor. Mamãe, por favor, não oponha dificuldades!Isabel Herrera tinha um gênio inflamável.- Dificuldades? Que está você dizendo? O nome da menina é Isabel, e pronto.

- E’ Rosa!

- E’ Isabel!

- Rosa, estou lhe dizendo!

- Isabel!

Às vezes Gaspar Flores perdia a paciência com sua mulher e sua sogra.

- Chamem a criança como quiserem – implorava mas deixem um homem ter um pouco de paz em sua própria casa. Por favor! Passou-se um ano, passaram-se dois, quatro e ainda a menina Flores continuava o centro de amarga contenda. “E’ na verdade muita tolice – diziam os vizinhos. Esta pobre criança tem receio de responder quando a chamam Rosa porque desagrada à avó. E não sabe o que fazer quando alguém a chama Isabel, porque então é a mãe que fica zangada. Por que o Gaspar não impõe sua autoridade?” Mas Gaspar era impotente. Pouco podia fazer com sua esposa, e muito menos com a sogra.

- Deus nos acuda, – implorava ele muitas vezes. Maria de Oliva era dada a súbitos impulsos de energia, e um dia resolveu ensinar a menina a ler e escrever.

- Rosa, estás quase com cinco anos. Eu acho que podias aprender o alfabeto. Olha – esta letra é A. Esta aqui é B. E aqui está o C. E’ muito simples.

Rosa achou uma folha de papel e uns pedaços de giz de cor. Ia ser muito bom! Bernardina, a irmã mais velha, sabia tudo a respeito da leitura e escrita. O mesmo se podia dizer de Joana, de André, de Antônio e de Mateus. Até o Fernando de sete anos sabia escrever seu nome muito bem. Talvez, pensou Rosa, ela pudesse pegar os irmãos e irmãs se trabalhasse com afinco. Entretanto, depois de meia hora a copiar letras, os dedos de Rosa começaram a ficar duros.- Estás cansada e eu também – decidiu Maria Oliva.

 - Amanhã teremos outra lição. Agora quero que me prometas uma coisa.

- Sim, mamãe!

- Não vais atender a nenhum outro nome senão Rosa. Não… não importa que tua avó fique aborrecida. Teu nome é Rosa Flores e nenhum outro. Compreendeste? Rosa acenou com a cabeça. A discórdia por causa de seu nome sempre a entristecera. Detestava ver as pessoas- questionarem, especialmente sua mãe e sua avó. Desde que podia lembrar-se, entretanto, tinha sempre havido discussões entre as duas. Mesmo apesar de Maria insistir em ter tido certa vez urna visão, na qual lhe aparecera uma linda rosa escarlate sobre o berço de Rosa, Isabel Herrera não lhe dava crédito.

 

- Essa rosa era um sinal do Céu, ordenando-me que mudasse o nome da menina – dizia Maria Oliva. – Estou absolutamente convencida disso.

- Um sinal do céu, com efeito! – exclamava a velha senhora. – Não foi mais que produto da sua imaginação!

Em breve Maria cansou-se de ensinar sua filha a ler e escrever. Não tinha muita paciência, nem mesmo nas melhores ocasiões. E ninguém havia que se interessasse pelo grande desejo de aprender que a criança demonstrava.

- Você é apenas uma menininha – consolou-a um dia Mariana. – Há muito tempo para aprender leitura e escrita. Pelo que se aproveita, a gente pode ser bem feliz sem saber nenhuma das duas coisas. Só existe uma coisa realmente importante.

- O quê? – perguntou Rosa, interessada.

- Saber o que é bom e fazê-lo. Você nunca terá verdadeira dificuldade se se lembrar disto, meu bem. As palavras de Mariana agradaram a Rosa e frequentemente revolvia-as na mente. Deus era bom. Quanto mais alguém pensava nele, tanto mais chegava a conhecê-lo. Depois disto, ser bom e fazer o bem era a coisa mais simples do mundo. Contudo seria bonito saber algumas coisas de modo a ser útil às outras pessoas.

- Vou rezar – disse a si mesma a menina. – Já que ninguém tem tempo de me ensinar, vou pedir a Deus que me ensine. Ele pode fazer tudo, não pode?

Maria Oliva possuía em seu quarto uma imagem do Menino Jesus. Conforme o costume no Perú, a estatueta tinha um vestido próprio, de veludo vermelho orlado de ouro. Todos os dias Rosa ajoelhava-se diante da imagem e dizia uma oração.

 

“Senhor, ajudai-me a conhecer-vos e amar-vos” – rezava ela, fervorosamente. – E, por favor, ensinai-me a ler e escrever”.

 

Maria de Oliva nada sabia dessas oraçõezinhas de Rosa. Múltiplos afazeres a absorviam na direção daquela casa enorme, e às vezes o trabalho deixava-a fatigada e amargurada. “Não será sempre assim – pensava ela. – Algum dia a criança se há de casar, talvez muito bem. Então poderei fazer as coisas com mais sossego”. Uma manhã estava Maria amassando o pão. A cozinha estava quente e enfumaçada e o que ela não sentia era disposição para conversar. – Não me amoles agora – disse, ao ver Rosa escancarar a porta. Vai brincar com Fernando até à hora do jantar. – Mas, mamãe, a senhora não quer saber duma coisa maravilhosa? Eu sei ler e escrever!

 

Maria de Oliva bateu a enorme montanha de massa em sua frente. – Não deves andar inventando histórias – ralhou. Já não és um bebê, e deves saber que contar mentira é pecado.

- Não estou contando mentira, mamãe. Eu sei ler e escrever. E’ sério, de verdade. Olhei Maria deu uma olhadela ao papel que Rosa lhe estendia. Estava coberto de palavras, claramente escritas com letra grande e redonda. Para uma criança de cinco anos, a letra era muito boa.

- Alguém andou te ajudando, – disse ela um pouco ríspida. – Teu pai ou tua avó.

Rosa sacudiu a cabeça:

- Ninguém me ajudou, mamãe. Só o pequeno Menino Jesus. A senhora está sempre tão ocupada e eu não queria aborrecê-la, então pedi a ele para me ajudar. E ele ajudou.

Um pouco do sangue fugiu do rosto aquecido de Maria.

- Vai buscar-me um livro. – ordenou severamente. Qualquer livro. Veremos já se estás dizendo a verdade.Em poucos minutos Rosa estava de volta com um enorme volume verde.

- Olhe, mamãe, há quatro palavras escritas em letras de ouro na capa.

Posso ler todas elas.Maria de Oliva olhou. Se esta sua filha estava dizendo mesmo a

verdade…

- Bem, quais são estas quatro palavras?

Rosa sorriu. Era um dia esplêndido aquele, de que ela se lembraria enquanto vivesse. As quatro palavras douradas da capa do livro verde eram SANTA CATARINA DE SENA.

Dentro do livro havia muitas outras palavras, contando a história e a vida da grande santa italiana, cuja festa se celebrava no dia em que Rosa nascera. E ela sabia ler todas aquelas palavras.

 

II. VINDE, ESPIRITO SANTO

Grande excitação produziu no lar dos Flores a notícia de que Rosa aos cinco anos aprendera a ler e escrever. Ninguém, entretanto, parecia inclinado a crer que o Menino Jesus fora o professor.

- Algumas crianças têm imaginação demais, declarou Maria Oliva.

-Receio que nossa Rosa seja uma delas.

- Você quer dizer Isabel, não é? – disse sua mãe incisivamente.

 -Pois é este o seu nome verdadeiro. Quanto a mim, sinto que algo de verdade

pode haver no que ela diz. Afinal, quem pode dizer o que Deus fará por uma criança que o ama?

Com o passar dos meses o incidente foi ficando quase esquecido. Se alguém

o lembrava, diziam que era menos uma questão de oração que de habilidade natural. Rosa era uma criança inteligente. Ela pegara a leitura e a escrita simplesmente, por si mesma, do mesmo modo que aprendera música.

 

Não sabia ela tocar pequenas melodias na guitarra e na harpa? Não a tinham

ouvido cantar seus próprios versos, lá embaixo no fundo do jardim, quando ela julgava não haver ninguém por perto? Era tudo tão simples. Realmente, não houvera milagre nenhum. A menina era brilhante mesmo por natureza.

 

Rosa, no entanto, sabia a verdade. Por si ela nada era.

 

 - Deus é que era tudo. Nunca esqueceria isto. Pedir-lhe-ia o auxílio toda a vida. Ele havia de ouví-la, como o fizera no caso de aprender a ler e escrever, exatamente porque ela era tão fraca e desamparada. O tempo continuou a passar imperturbável. Rosa completou seu sexto aniversário, o oitavo, o nono, o décimo. Onze eram então os filhos da família Flores. A vasta casa, na rua de S. Domingos, era um lugar onde não havia solidão. Gaspar Flores, que viera de Porto Rico para Lima, havia alguns anos, estava achando difícil manter sua numerosa família.

Tinha, naturalmente, um emprego: por algum tempo fora encarregado de fazer armas de fogo e outras para os destacamentos do exército real da Espanha, estacionados em Lima. Era uma posição vantajosa, que lhe fora concedida por D. André Furtado de Mendoza, vice-rei do Peru. Mas que de cuidados não davam onze crianças! Quanto custava alimentá-las e vesti-las!

 

Um dia em 1597, Gaspar chamou sua mulher. Tinham-Ihe oferecido uma oportunidade: ficar encarregado de uma mina de prata em Quivi, pequena cidade nas montanhas não longe de Lima.

 

- Pode-se ganhar mais na mineração que em qualquer outra coisa, – disse ele a Maria. – Vou a Quivi e ficarei lá alguns meses para ver como vão as coisas. Se eu não gostar do trabalho, poderei sempre voltar ao antigo emprego.

- Você está certo?

Gaspar riu-se.

- Claro que estou certo. Todo mundo sabe que as espadas e espingardas que

faço são as melhores que se pode encontrar no Peru. Maria pensou muito tempo sobre a novidade. Por fim informou Gaspar que ela o acompanharia a Quivi.

- Será esplêndido viver nas montanhas, – disse. – Estamos todos precisando uma mudança da vida na cidade. O homem franziu os sobrolhos:

- Suponha que este negócio não dê bom resultado?

- Não acaba você de dizer que fabrica as melhores espingardas e espadas?

Que o vice-rei está satisfeito com o trabalho que você faz? Tolice, Gaspar. Vou tratar de arrumar as coisas. E assim sucedeu que a família Flores disse adeus à enorme casa solarenga em Lima, e partiu para Quivi. Rosa; então com onze anos, estava muito excitada com a mudança. Pela primeira vez na vida estava ela junto às grandes montanhas que se elevavam no fundo de sua cidade natal. Algumas milhas a oeste, o Pacífico rolava suas águas verdes, que vinham quebrar-se em branca espuma na extensão infindável de areia. A medida que se adiantavam na viagem, pequenas aldeias de índios surgiam à vista: casas feitas de barro marrom claro, cobertas de telhas vermelhas e amarelas.

 

Fernando, o irmão preferido de Rosa, estava também Interessado nos novos panoramas. Agradavam-lhe os esquisitos animais que os índios utilizavam – as lhamas com seus longos pescoços, as pequenas e sedosas vicunhas, as alpacas com seu pelo castanho. Esses estranhos animais podiam ser vistos por toda parte, pastando nos declives verdejantes dos Andes, ou levando carga para seus donos índios.

 

- Eu gostava de ter uma lhama – disse Fernando à irmã. – Eu podia ensinar-lhe uns truques e Mariana cortar-lhe o pelo para tecer roupas bonitas e quentes. Com isso papai havia de poupar um pouco de dinheiro. Rosa concordou. Fernando sempre tinha boas idéias.

 

- Talvez eu também pudesse fazer alguma coisa para ajudar. Que poderia ser?…

O garoto franziu a testa. Não havia muita coisa que uma menina peruana pudesse fazer. As filhas das melhores famílias ou se casavam ou entravam para um convento. Nunca se dispunham a um modo de vida pelos próprios recursos.

- Por que preocupar-se com estas coisas? Mamãe diz que você, quando crescer, vai casar-se com um homem rico -afirmou ele, com a ponderação de seus treze anos. As lágrimas afluíram aos olhos escuros de Rosa.

 

- Eu não quero casar-me, Fernando. O que eu quero é ficar em casa e ser útil a todos.

 

O menino deu uma risada. Tinha orgulho daquela irmãzinha, mesmo quando ela dizia, às vezes, coisas sem pé nem cabeça. Quivi possuía uma igrejinha, e a família Flores foi visitá-la logo depois de sua chegada. Encontraram o pároco, padre Francisco Gonzales, muito agitado. Acabava de receber o aviso de que o Arcebispo de Lima viria para dar o sacramento da Crisma.

 

- Eu gostava de ter uma lhama ,- disse Fernando à irmã.

- Esplêndido – exclamou Maria de Oliva. – Tenho uma filhinha que ainda não foi crismada. Vamos começar a prepará-la.

- Espero que ela saiba suas orações – disse Fernando. – Você sabe, Rosa?…

- Fernando, não apoquente sua irmã – ralhou Maria de Oliva. – E’ claro que Rosa saberá seu catecismo. Eu mesma vou cuidar disso. Assim Rosa passou a estudar diariamente seu catecismo. Era um livrinho escrito pelo próprio Arcebispo, e impresso em 1584, o primeiro volume que saiu à luz do dia na América do Sul. O exemplar de Rosa era escrito em espanhol, mas o bondoso Arcebispo compilara também um em quichua e outro em aimará, dialetos comuns entre os indígenas.

 

Aqueles que conheciam o Arcebispo Turíbio estavam absolutamente certos de

que ele era um santo. Seu nome por extenso era Turíbio Afonso de Mogrovejo, e chegara a Lima em 1581 para ser o segundo Arcebispo da cidade. Como o primeiro Arcebispo, o famoso dominicano Jerônimo de Loaysa, Turibio era espanhol. A residência episcopal ficava perto da catedral, do outro lado da Praça das Armas. Esta praça constituía o mais belo parque de Lima. Aí o povo passava muitas horas apreciando as flores variegadas e gozando a sombra das graciosas palmeiras. Mas sempre que viam o Arcebispo sair do palácio, todos acorriam para receber a bênção. Mendigos e aleijados, principalmente, eram mais pressurosos, pois em tempos anteriores as orações do bom homem tinham operado maravilhas em favor dos pobres e doentes.

Francisco Pizarro chefiara esses recém-chegados, e com ele viera a desgraça para os nativos. Viram-se despojados de suas terras e forçados a trabalhar nas minas, percebendo salários miseráveis. Padres franciscanos e dominicanos seguiram as pisadas de Pizarro, trazendo o grande dom da fé, mas os índios não compreendiam que o soldado espanhol representava uma coisa e o padre, outra bem diferente. Para a maioria dos indígenas, um espanhol era algo a temer e desconfiar, fosse qual fosse o nome que exibisse.

 

Foi uma surpresa para Rosa ver que era ela a única menina na igreja no dia da Crisma. Havia, entretanto, dois garotinhos, e as três crianças ajoelharam-se no santuário aos pés do Arcebispo de Lima. O sol inundava o pequeno templo, rebrilhando na mitra dourada do Arcebispo e arrancando cintilações do magnífico anel que ele usava na mão direita. Que dia maravilhoso aquele! E que pena que o povo de Quivi não o compreendesse.

 

Pelo direito, pensava Rosa, a igreja devia estar repleta. O Arcebispo era de pequena estatura, delgado e contava cinqüenta e nove anos. Sentou-se numa cadeira em frente aos três pequerruchos ajoelhados e explicou o ato que ia realizar-se: O Espírito Santo, a terceira Pessoa da Santíssima Trindade, ia descer em suas almas. Aí permaneceria enquanto aquelas almas não ofendessem seriamente a Deus. E ficaria para sempre, não ficaria?

- Para sempre, disseram os dois rapazinhos.

- Para sempre, eternamente, disse Rosa.

O Arcebispo sorriu, e o mesmo fez o padre Francisco Gonzales, que estava de pé ao lado deles, muito atento, revestido do hábito da Ordem dos mercedários. Então o Arcebispo rezou em latim, enquanto o padre Francisco foi a uma mesinha e trouxe um pratinho com óleo de oliva e bálsamo. Rosa ajoelhou-se perto do pratinho de óleo. Este santo óleo fora bento na última quinta-feira santa para ser usado na administração do sacramento da Confirmação. Era o crisma.

 

Fora da igreja rodavam as carroças nas ruas pedregosas. Vendedores ambulantes apregoavam suas mercadorias e as crianças indígenas riam e brincavam. No interior, porém, a cena era bem diferente. De pé, em frente do altar, o Arcebispo Turibio rezava em voz alta “Enchei-os com o espírito de vosso temor, e assinalai-os com o sinal da cruz de Cristo, em vossa misericórdia, para a vida eterna. Pelo mesmo Senhor nosso, Jesus Cristo, vosso Filho, que convosco vive e reina em unidade com o mesmo Espírito Santo, Deus, por todos os séculos dos séculos. Amém”.

 

Mergulhou, então, a ponta do polegar direito no Crisma e traçou o sinal da Cruz na fronte de cada um dos meninos: Rosa ergueu a cabeça quando se lhe aproximou o Arcebispo. O Espírito Santo estava prestes a vir sobre ela. Havia de trazer-lhe força e coragem para ser uma boa e verdadeira cristã.

 

 

“Rosa, assinalo-te com o sinal da Cruz, e confirmo-te com o crisma da salvação. Em nome do Padre e do Filho e do Espírito Santo. Amém”. Terminara. A criança levantou os olhos para o rosto amável do Arcebispo. “A paz seja contigo”, murmurou ele, e deu-lhe um tapazinho, de leve, na face.

 

III. O SEGREDO

Havia uma eclosão de felicidade no coração de Rosa, quando ela finalmente deixou a igreja. Era, enfim, um soldado de Cristo. Daí em diante ela podia crescer, auxiliada por quatro maravilhosos sacramentos.

- E meu nome agora é mesmo Rosa, mamãe?

Maria de Oliva sorriu:

- E’ sim. O próprio Arcebispo acaba de dar-te este nome. Então, não seria mais Isabel, de modo algum. Rosa riu satisfeita e pegou a mão de sua mãe. Que bonito que era o mundo! Que bom estar viva, com as três Pessoas da Santíssima Trindade na alma! Mas, de repente, o sorriso desapareceu do rosto da menina. A seus pés na grande praça desabrigada de Quivi, dezenas de índios, com suas roupas de colorido brilhante, agrupavam-se ameaçadores, berrando imprecações.

 

- Olha os cristãos! – gritavam. – Eles pensam que o Deus deles está na igreja!

- Cristãos, cristãos! – vociferam outros. – Cambada de loucos!

Rosa fitou-os admirada. Seria possível que aquela gente estivesse zombando dela?

- Eles estão falando a nosso respeito, mamãe?

Maria acenou que sim.

- Pagãos excomungados! Não conhecem nada melhor. Vamos embora, Rosa, antes que eles comecem alguma desordem. Palavra que tal coisa nunca aconteceria em Lima! Pelo menos lá temos leis e ordem. Mãe e filha desceram apressadamente os degraus da igreja, mas, antes que atingissem o último, um grande clamor levantou-se da multidão. O Arcebispo Turíbio chegara á porta da igreja, e ai parara olhando a multidão aglomerada na praça. Seu rosto estava pálido e triste.

- Meus filhos, por que agis desta maneira? – exclamou ele cheio de tristeza. -Não ouvistes que só os cristãos adoram o verdadeiro Deus?

Que ele está agora esperando por vós, aqui, nesta igreja? Que ele tornará vossas almas brancas e limpas como a neve nos Andes?

- Qual! – berrou um velho. – És um espanhol! Um espanhol narigudo! Não gostamos de ti. Vai-te embora para tua cidade!

- Espanhol narigudo! – entoou um grupo de crianças, e a turba pegou o grito:

- Espanhol narigudo! Vai embora para a tua cidade!

 

Rosa mal podia crer em seus ouvidos.A praça inteira regorgitava então de índios, que gargalhavam e faziam troça do bom Arcebispo. Uma mulher agarrou um cesto e o colocou na cabeça à guisa de mitra. Logo os que a rodeavam curvaram-se até ao chão, fazendo o sinal da cruz, à medida que ela fingia abençoá-los. De pé no alto da escadaria da igreja, o Arcebispo contemplava em silêncio aquele tumulto. O padre Francisco, que o seguira, sacudiu a cabeça.

 

 - Esforcei-me duramente por convertê-los, Excelência. Ah! que se vai fazer. Quivi nada mais é que uma cidadezinha perdida nestas montanhas. Há dezenas de outras, todas cheias de indígenas que insistem em que o seu deus é o sol, do qual fazem imagem de ouro e o adoram dia e noite. O Arcebispo fez um gesto de concordância. Suas feições tornaram-se subitamente severas e Rosa estremeceu ao vê-lo descer as escadas e avançar para a turba zombadora. Sua mão não se levantava na atitude usual de bênção, mas, ao contrário, apontava para o céu de um modo terrível.

 

- Desgraçados! – bradou o Arcebispo. – Vossa cidade só será poupada à destruição durante três anos. Mais do que isso, não vivereis para insultar os servos de Deus!

 

- Ha, ha! – escarneceu o povo, fazendo roda para dançar em volta do Arcebispo. – Nosso Deus é o sol – cantaram; – nossa cidade santa é Cuzco. Vocês, espanhóis, nos roubaram nosso ouro e nossa prata. Não acreditamos no que vocês nos dizem!

 

 

Rosa e sua mãe seguiram receosas esquivando-se à multidão, e entraram na rua que conduzia à sua casa. Podiam ainda ouvir os gritos e insultos dos índios, mas já não lhes viam as faces escarninhas. Ficava apenas a lembrança da cena, e as palavras assustadoras que o Arcebispo proferira. Semanas decorriam, e Rosa pensava freqüentemente no dia de sua Confirmação. Pouco a pouco enchia-lhe o coração o anseio de fazer alguma coisa pelas almas ignorantes dos indígenas. Mas o quê? Ela só tinha onze anos e era uma menina. Bem que Fernando tinha razão. Os homens e os rapazes podiam lançar-se ao mundo e ser úteis, mas que reservava o futuro para uma peruanazinha? Casamento, talvez… Ou a vida religiosa…”Não quero nenhum dos dois”, pensou Rosa.

 

Um dia acudiu-lhe uma idéia. Estivera, provavelmente, aninhada no fundo do cérebro desde os primeiros anos, e o problema dos índios pagãos fizera-a vir à tona.

 

“Se não posso fazer grandes coisas, não custa tentar fazer bem as pequenas, – disse a si mesma – Posso ser paciente nas pequenas dificuldades, e oferecê-las a Deus em união com as que seu Filho teve neste mundo. Deste modo elas terão merecimento, e talvez até eu salve uma ou duas almas”.

 

Era uma idéia maravilhosa, e Rosa jamais a esqueceu. Se cortava o dedo, não se lamentava. Um corte no dedo pouca importância tem, mas podia significar muito se ela oferecesse a Deus a dor.

 

“Dar-lhe-ei também toda a minha felicidade – pensou. – Dar-lhe-ei tudo”.

Assim escoaram-se os dias. A ninguém contou Rosa o seu segredo, mas Fernando, que, dos irmãos e irmãs, era-lhe o mais chegado, suspeitou alguma coisa.

- O que é que a torna tão feliz? – perguntou curioso.

- Será porque você gosta de morar em Quivi, Rosa? Será por isto que está sempre cantando, quando pensa que ninguém a vê?

O rubor afluiu ao rosto da menina.

- Talvez, – sorriu ela.

Fernando lançou um olhar penetrante à irmã e começou a apontar um pedaço

de pau.

- Se você gosta tanto de Quivi, talvez seja melhor eu não estragar seu prazer. Entretanto, ontem à noite, depois que papai chegou da mina, eu ouvi alguma coisa. Adivinhe o quê? Rosa sentou-se muito quieta. Aí estava uma ocasião de oferecer a Deus outro sacrifíciozinho. Curiosidade insatisfeita era em si pouca coisa, mas, junta aos sofrimentos de Jesus, assumia de repente grande valor.

Podia ajudar algum pecador ignorado; podia aliviar uma alma do Purgatório. Fernando parou de desgastar seu pedaço de pau.

 

- Que há com você? – inquiriu ele. – Está com um olhar esquisito, assim como se estivesse rezando… Não está interessada no que papai disse?

Rosa sorriu.

- Claro que estou interessada. Desculpe se fiz você pensar que eu não estava prestando atenção.

- Ora, está bem. Eu só queria contar que nós vamos voltar para Lima.

O pessoal todo.

- Voltar para Lima?…

- Sim. Papal não está satisfeito na mina de prata. Ele diz que uma porção de índios morre todos os dias porque têm de trabalhar demais. Pior ainda, algumas das crianças estão morrendo de fome, porque os donos das minas não dão bastante comida ao povo. As coisas vão de mal , a pior. Foram as próprias palavras de papai. Os olhos da menina encheram-se de lágrimas.

“Não podemos fazer algo” – pensava ela de vez em quando. – “Senhor, não posso ajudar de algum modo?”. Apesar, porém, de muito rezar, a, menina, na impotência de seus onze anos, não conseguia descobrir um meio material de socorrer os milhares de índios e negros desamparados. Tudo que podia fazer era continuar a oferecer a Deus Pai pequenos sacrifícios, unindo-os aos sofrimentos de Cristo na terra e pedindo-lhe que abençoasse os nativos tão pobres e ignorantes Uma manhã, pouco depois do regresso a Lima, estava Rosa no jardim, nos fundos da casa. Dias antes recebera licença dos pais de levar flores para vender no mercado. Isto rendia algum dinheiro, dissera a mãe, e o trabalho não era pesado demais. Rosa era dotada de notável perícia com plantas e flores, e o jardim de Gaspar floria como nunca.

 

- Olá – irrompeu subitamente uma voz – esta atarefada senhorita é Rosa Flores?

- A menina ergueu os olhos dós molhos de violetas que estivera arrumando e ergueu-se.

- Doutor João! Que prazer ver o senhor!

O Doutor João Pérez de Zumeta pôs no chão o volumoso embrulho que trazia.

- Sua mãe disse que eu a encontraria aqui. Como vai a minha amiguinha depois da estada em Quivi?

- Bem, obrigada, Doutor.

- Com certeza?

Rosa deu uma risada alegre.

- Oh! com toda a certeza. O senhor sabe, Doutor, que eu agora estou fazendo negócios? Negócio de flores. Ontem no mercado algumas de minhas rosas foram vendidas por um preço excelente. O Dr. João sorriu e sentou-se num pequeno banco de pedra.

- Mariana já me deu estas boas noticias. Mas não foi por causa de negócios que eu vim vê-la, Rosa. Sua mãe chamou-me aqui para eu ter uma conversa com você. Parece que ela está um pouco preocupada. Rosa arregalou seus olhos escuros.

- Preocupada? Por minha causa? Mas que fiz eu, Doutor João? Não posso imaginar…

- Ela me disse que você não come nem o bastante para manter um passarinho. Mais ainda, que você não dorme direito, pois todas as noites, quando pensa que ninguém está vigiando, você pula da cama para rezar.

Rosa corou.

- Eu… eu sinto muito, – disse. – Pensei que ninguém soubesse disso.

O Doutor João contemplou a menina à sua frente.

- Você tem uma espécie de segredo, não é? – disse bondosamente.

-Não quer contá-lo a mim? Você sabe que pode ter confiança. Não tenho sido seu amigo desde quando você era. um bebezinho?Rosa meneou a cabeça.

- O senhor é tão bom, – murmurou vagarosamente. Talvez me compreenderá.

Então o homem e a criança sentaram-se no vasto jardim, onde as borboletas multicores adejavam ao sol, e nos grossos ramos das oliveiras, as pombinhas

de Fernando arrulhavam docemente. . .

- Então, – disse o médico, – você vai contar-me o que há.

Rosa respirou fundo e revelou seu segredo.

- Eu só quero salvar almas, centenas e centenas de almas, e o único meio que conheço é rezar e sofrer. Não está certo, Doutor João?

 

IV. OUTRA VISITA

 

O Doutor João ouviu com interesse a sua amiguinha; nada, porém, do que ela dizia lhe mudaria a opinião. Salvar almas era sem dúvida. Uma belíssima obra, mas meninas de onze anos precisam bastante alimento e, pelo menos, dez horas de sono cada noite.

 

- Você me faz lembrar alguém que encontrei há pouco tempo, – disse ele. -E’ um rapazinho mais velho do que você, tem mais ou menos dezoito anos, suponho. Mas o caso é que ele tem a mesma idéia. Deseja salvar as almas dos pecadores: índios, pretos, gente branca, todo mundo. Rosa arregalou os olhos negros.

 

- Um menino? – murmurou. – Eu não o conheço. Conheço?

 

O Doutor meneou a cabeça.

- Provavelmente não. Ele se chama Martim de Porres. Atualmente seu pai é governador do Panamá, mas a mãe dele é uma pobre preta, e mora com Dona Francisca Velez, perto da igreja de S. Lázaro.

 

Rosa ficou quieta. Martim! Ela tinha ouvido esse nome em algum lugar. Não tinha um dos padres da igreja dominicana?…

 

- Martim costumava servir de assistente ao meu velho amigo, o Dr. Marcelo de Rivero – continuou o Doutor João. Estes três últimos anos, entretanto, ele esteve ajudando os padres dominicanos em seu convento.

Ele é apenas um auxiliar terceiro, nem chega a ser Irmão leigo, mas muito

útil também, pelo que se conta.Rosa fez um sinal de aprovação.

- Espero que ele salve muitas almas – disse suavemente.

– Doutor João, o mundo precisa de tanta oração! Se o senhor tivesse visto aqueles pobres índios pagãos em Quivi…O médico levantou-se do rústico banco de pedra.

- Esses índios devem ter impressionado profundamente a você, minha menina. Mas não pode estar a pensar neles todo o tempo. Olhe… trouxe-lhe um presentinho. Tinha que chegar-lhe às mãos um destes dias.

 

O presente era um grande pacote que o Dr. João trouxera para o jardim. Rosa olhava ansiosa, enquanto ele desembrulhava. – E’ uma roseirinha! – exclamou. – O’ Doutor! E’ branca?… quero dizer, dá rosas brancas’!’

O Doutor sorriu.

 

- Assim me disseram. Uma amiga trouxe-ma ontem, de sua terra em Limatambo. Imaginei que você gostasse de possuí-la, pois vejo que está no negócio de flores.

 

Rosa exultou. O Doutor era mesmo o mais amável dos homens. Fora sempre um bom amigo para ela, até naquele dia terrível em que lhe cortara a unha do polegar porque estava se arruinando. Ela tinha então só três anos, mas a lembrança daquela faca afiada estava ainda fresca em sua memória. – Uma roseira branca era mesmo o que eu queria disse ela radiante.

 

-Mariana sempre diz que as damas ricas mandam seus criados escolher rosas

brancas no mercado. Muito obrigada, Doutor João.

 

O médico sorriu.

- Não há de que, minha menina. E agora tudo que eu desejo de você é que me prometa cuidar de sua saúde. Promete? Vai deixar de pensar tanto nos pecadores, e mais em você mesma?

 

 

Rosa riu francamente.

- Eu não fico doente, Doutor. Agora que eu tenho este jardim para cuidar, não há nem tempo para ficar doente. Além das flores, tenho as hortaliças e ervas para cuidar, e também as fruteiras. E’ um bocado de trabalho. Mas sou tão feliz, Doutor João. Enfim encontrei um jeito de ser útil à família. Quando, entretanto, ficou outra, vez sozinha, Rosa suspirou acabrunhada. Então a mamãe estava preocupada por causa dela, mamãe achava que ela passava muito tempo rezando.

“Não é”, – disse consigo a menina. – “Ninguém pode rezar demais”.

E ela sentou-se pensativa no banco de pedra. O sol inundava de luz e calor o jardim e as pombinhas arrulhavam satisfeitas, mas no coração de Rosa começou a brotar uma leve tristeza. Ainda se alguém da família compreendesse… Mas nenhum deles se incomodava muito com salvar almas.

 

E o que é pior: se bem que nada se dissera recentemente, Rosa sabia que o dinheiro proveniente da venda das flores era apenas o suficiente para .saldar algumas contas. Dentro de cinco ou seis anos, portanto, esperava-se que ela fizesse algo, mais. do que cultivar frutos e flores para vender em Lima: a. expectativa era que ela se casasse com um espanhol portador de bom nome e sólida fortuna. Muitos havia então na cidade – rapazes cujos pais tinham deixado a Espanha em busca de riquezas nas minas dos Andes.

 

Lima borboleta preta e branca adejou levemente sobre a roseira a seus pés e Rosa esqueceu seus pesares. Que linda criatura, essa borboleta alvinegra; cujas asas brilhantes como veludo cintilavam ao sol.

 

“Talvez um dia eu possa usar também um vestido preto e branco”, -pensou. – “Esse menino de quem o Doutor João me falou – o Martim, ele deve usar uma roupa assim, se vive no convento dos dominicanos.

 

Mas uma menina não podia viver em .S. Domingos – só padres dominicanos e irmãos- leigos e auxiliares da ordem terceira como Martim. “Além disso, eu, não quero ser freira”, – pensou Rosa. — “O que eu desejo é viver aqui em casa e salvar almas, rezando”.

Subitamente, quebrou-se o silêncio no jardim. Os passos apressados de Mariana ressoaram na aléia, acompanhados do ranger de suas sandálias vermelhas.

 

- Senhorita Rosa! Sua mãe quer que venha já para dentro. Há uma pessoa que quer vê-la. A menina sentiu o coração confranger-se-lhe no peito. Raro era o dia em que não aparecessem algumas senhoras em visita a Maria de Oliva, e sempre era exigida a presença de Rosa, para tocar guitarra, cantar algumas canções, e entreter os visitantes. Não seria mau, se ao menos aquelas damas fossem tão sensatas e compreendedoras como o Doutor João. Mas elas esgotavam o tempo conversando e tagarelando sobre as coisas mais tolas. E às vezes eram bem pouco amáveis a respeito de outras senhoras ausentes. – Eu ia mesmo plantar esta roseira, Mariana. Mas irei imediatamente, se mamãe realmente precisa de mim.

 

A moça indígena, adivinhando-lhe os pensamentos, não disfarçou o riso:

- Não precisa sentir-se tão mal. A visita de sua mãe é Dona Maria de Quinhones.

- Dona Maria?

- Isso mesmo. Não faz muito tempo que ela esteve aqui.

Os olhos negros de Rosa iluminaram-se. Oh! isto era outra coisa! Dona Maria, a sobrinha do Arcebispo Turíbio, era uma pessoa amabilíssima.

 

Apesar de possuir uma bela casa e muitos servos, era muito humilde, e todos os dias, a despeito de todos os seus deveres sociais, conseguia tempo para fazer uma visita a Nosso Senhor no Santíssimo Sacramento.

 

- Estou contente que seja ela, – disse Rosa simplesmente. – Irei logo; Mariana. Somente tenho que limpar-me um pouco primeiro. Estive plantando violetas, e minhas mãos estão sujas. Mariana concordou.

 

- Trate de pôr seu vestido novo, o azul, – preveniu. E antes de apresentar-se a D. Maria, desça à cozinha. Tenho uma linda flor vermelha para lhe colocar nos cabelos.

Pouco depois Rosa entrava na sala de visitas, que era a da da frente. Seus longos cabelos negros tinham sido alisado cuidadosamente e presa ao lado ostentava-se uma papoula rubra. O vestido azul de seda era da última moda para meninas da sua idade: comprido até aos pés com um cinto estreito de prata das famosas minas de Potosi. Calçava sandálias entretecidas com pelo de lhama.

 

Maria de Oliva exultou de orgulho quando Rosa entrou na sala.

- Ora, aqui está ela, por fim, Dona Maria. Que diz de sua aparência?

Dona Maria de Quinhones sorriu e abriu os braços.

- Minha querida, acho que ela está maravilhosa!

Rosa atravessou lentamente a sala em direção à grande cadeira perto da janela, onde D. Maria estava sentada. Trajava um vestido de seda cinzento e, protegendo-lhe os cabelos, um véu de rendas. Brilhavam-lhe nos dedos vários anéis e do pescoço pendia-lhe uma preciosa corrente de ouro com uma cruzinha de diamantes. Rosa sentou-se num banquinho perto da visitante.

 

- Estou muito contente que a Sra. tenha .vindo – disse com simplicidade, olhando para o rosto bondoso da dama. Maria de Oliva fez um sinal de aprovação.

- Dona Maria só pode dispensar-nos hoje alguns minutos, Rosa. Ela vai ao seminário levar algum mantimento para os estudantes.

- Você gostaria de vir comigo, meu bem?

A menina aquiesceu pressurosamente. Conhecia algo do seminário, se bem que nunca tivesse lá estado. Havia muitos anos que o Arcebispo Turíbio o fundara para os jovens que desejassem ser padres seculares. Fora os vários conventos, como o de S. Francisco e o de S. Domingos, não tinha havido até então, em toda a América do Sul, seminário algum para candidatos ao sacerdócio.

- Eu gostaria de ir com a senhora, Dona Maria. Posso ir, mamãe?

- Claro que sim, minha filha. Mas primeiro toca alguma coisa na tua guitarra para Dona Maria. Faz muito tempo que ela não te ouve. E enquanto tocas, vou ver se há um bolo para mandar ao seminário. A guitarra pendia da parede, no lugar de costume. Rosa foi buscá-la e afinou as cordas.

- Compus um pequeno cântico outro dia – explicou com acanhamento à visitante. – Não é grande coisa. Dona Maria fez um sinal de aprovação.

- Deixe-me ouvi-lo: Sempre gostei de suas canções, Rosa. A menina sentou-se, apoiou o instrumento no colo e começou a cantar.

- Meu querido Senhor, quanto é bom ver nas flores, e no verde sombrio

da copada oliveira, Toda a vossa beleza. Como é doce saber Que abençoar-me quereis, E o meu coração De alegrias encher!

 

Um sorriso aflorou aos lábios de Dona Maria. Que criança encantadora e tão bem educada: Não admira que todo mundo lhe predisse um grande futuro. Seria difícil encontrar em todo o Peru mocinha mais graciosa e prendada.

 

“Ela não é só inteligente”, pensava Dona Maria. “Tem qualquer coisa que a distingue do comum das crianças. Posso vê-lo nos olhos. O que lhe reservará a vida?” Os dedinhos finos de Rosa feriram um acorde final. – Pronto. – disse à visitante. – É apenas um pequeno cântico, como os outros todos.

- Uma pequena oração, talvez.

- Acho que sim, Dona Maria. Reinava doce tranqüilidade na espaçosa sala de visitas. A mulher contemplou carinhosamente a menina e comentou:

 

- Você pensa muito em Nosso Senhor, não é, Rosa?

- Penso, – concordou Rosa quase num murmúrio. Ele se interessa sempre por nós, jovens ou velhos, ricos ou pobres. Se nos esforçarmos por ser bons, Ele está sempre em nosso coração. Querida Dona Maria, as únicas horas em que sou realmente feliz, é quando me lembro de pensar n’Ele no fundo do meu coração, para que me ajude a chegar a Ele no céu.

 

V. DUAS HISTÓRIAS

 

A visita ao seminário era interessante, dias Dona Maria de Quinhones não se demorou, pois, como fez saber a Rosa, tinha outros lugares aonde ir.

- As Irmãs do Convento da Encarnação?

- Isso mesmo. Depois, talvez, teremos tempo de ir ao Convento da Conceição. E ao da Trindade também.

A carruagem de Dona Maria rodou ligeira pelas ruas estreitas. Rosa seguia com interesse as cenas animadas que se, lhe deparavam; no entanto, não eram os edifícios majestosos nem os inúmeros jardins multicores que lhe chamavam em primeiro lugar a atenção. O que lhe prendia o olhar era o povo nas ruas – aleijados, mendigos e criancinhas esfarrapadas. Havia tantos! E parecia terem esquecido até de sorrir. Dona Maria lançou um olhar rápido à sua companheirazinha.

 

- Adivinho o que está pensando, meu bem.

 

Os olhos escuros da menina brilharam.

 

- Estava pensando que, se eu fosse um rapaz, iria amanhã para S. Domingos a fim de ser padre e fazer alguma coisa por toda essa pobre gente. Quantos deles nada sabem de Deus, Dona Maria. E não há padres bastante aqui no Peru, para ensinar-lhes. E’ uma pena, não é?

A dama concordou.

- E’ mesmo, minha filha. Mas, diga-me, por que você gostaria de ser dominicana? Por que não franciscana, ou jesuíta, ou agostiniana?

Rosa sorriu. Tanta gente estava sempre perguntando a mesma coisa.

 - E’ por causa de Santa Catarina de Sena, Dona Maria. Ela era terceira dominicana. E que pessoa extraordinária! Nós temos em casa um livro que conta a respeito dela. Já o li tantas vezes que acho que sei, de cor todas as palavras.

- Eu também li sobre ela. Não há dúvida que era uma pessoa extraordinária. Mas era uma terciária e passava seus dias no mundo, nem nunca entrou para um convento.

- Eu sei, Dona Maria. Ela pertencia à Ordem terceira. dominicana.

Deve ser uma vida encantadora, já que ela gostou tanto.

- É uma vida penosa, minha filha. E’ necessária uma graça especial para tornar-se santa, vivendo no mundo.Rosa deu uma risada.

- Eu vou experimentar, Dona Maria. Não quero casar-me nem entrar para um convento. Pedi a S. Catarina que me ajude a ser como ela. A senhora vê, quando eu tinha cinco anos…

- Que houve?

- Ora, parece uma história muito tola, pois eu era então muito pequena.

Dona Maria animou-a com um sorriso.

- Você me conta a sua história e depois eu lhe conto a minha. Enquanto

isso teremos chegado ao mosteiro da Encarnação. Mas, naturalmente, se

você quer guardar segredo…Rosa sacudiu a cabeça.

- Não é tão importante. Além disso, quando eu ficar mais velha e toda gente esperar que eu me case, terei de explicar por que não posso. Portanto, eu conto primeiro à senhora. Sei que me compreende.

- Obrigada, meu bem. Respeitarei sua confidência.

- Foi numa tarde em que eu e Fernando estávamos brincando no jardim,

 -começou Rosa. – Nesse tempo eu tinha cinco anos e ele, sete. Mariana tinha acabado de lavar-me os cabelos e eu estava satisfeita de ver como eles brilhavam ao sol. Eram mais sedosos e cheios de cachinhos. Eu estava orgulhosa de meus cachos, Dona Maria.

 

- Não há dúvida de que eram bonitos. Mas Fernando começou a caçoar de mim. Fez de conta que era um padre pregando um sermão, e pôs-se a falar sobre a loucura de ser alguém orgulhoso de suas roupas e aparências. Dizia que, por essas coisas é que ia tanta gente para o inferno.. Eu , me sentara a ouvi-lo, e ele subitamente. apanhou um punhado de lixo e atirou-o sobre meus cabelos limpos. “Não precisa mais ficar tão orgulhosa”, exclamou.

 

No primeiro momento fiquei mesmo zangada com Fernando. Depois, porém, meditei e conclui que ele tinha razão. Não devemos, realmente, ser tão convencidos por causa de nossa aparência, ou por termos dinheiro, saúde ou educação. E’ claro que ele estava só brincando, nem nunca pensou que eu o levasse a sério. Mas eu o levei, e então toda gente ficou zangada comigo.

- Por quê, minha filha?

- Porque eu decidi cortar meus cachos, como fez S. Catarina quando era uma menina; assim eu não ficaria mais orgulhosa de minha aparência. Dona Maria não pôde deixar de rir.

- Sua mãe nunca me falou nisso, e é com satisfação que vejo que o seu cabelo cresceu novamente. E’ de fato uma cabeleira bonita.

- Obrigada, Dona Maria. Há mais ainda na minha história. A senhora imagine, quando cortei meus cabelos, prometi a Nosso Senhor que o amaria sempre, mais do que a qualquer pessoa e qualquer coisa. Eu tinha só cinco anos, mas sabia que tudo que eu desejava na vida era servi-lo e trabalhar por sua glória aqui na terra. Eu não queria nem marido, nem lar, nem filhos – só Ele.

- Compreendo…

- Mamãe, naturalmente, não sabe nada disso, e com certeza vai ficar muito zangada quando eu lho disser. Mas é assim, Dona Maria. E ninguém poderá fazer-me mudar de opinião. Pertenço a Deus, para sempre.

Dona Maria sorriu.

- E’ uma história adorável – murmurou brandamente. – E estou certa de que, algum dia, terá um esplêndido final. Não fique, porém, surpreendida se for um pouco diferente do que você planejou.

- Diferente?

- Sim. Quando você .crescer, pode achar que sua vocação é para freira, e não terceira .dominicana como S. Catarina. Afinal, considerando os dons que Deus lhe concedeu, talvez seja mais acertado servi-lo na vida religiosa do que no mundo.

- Talvez, Dona Maria. Mas agora eu acho que não. A nobre senhora contemporizou.

- Bem, veremos. Agora vou eu contar-lhe a minha história. Estamos quase no convento da Encarnação e desejo que você a ouça antes de entrarmos. – Oh! sim, Dona Maria. Eu tinha quase esquecido que a senhora também tem uma história para contar. A dama recostou-se nas almofadas da carruagem e começou.

 

- Foi a 6 de Janeiro de 1535, que D. Francisco Pizarro fundou nossa cidade de Lima. Você o sabe tão bem como eu, Rosa. E sabe também que; ele foi assassinado por seus inimigos em 1541. Pois bem, alguns anos depois as coisas andaram atrapalhadas no Peru. Alguns dos sequazes de Pizarro quiseram governar o país, e instigaram o povo a revoltar-se contra o dirigente legal, o rei da Espanha. Um desses rebeldes era o capitão Francisco Hernandez de Giron. No entanto, o prenderam finalmente e o executaram a 9 de Dezembro de 1554. Puseram-lhe o corpo num saco e, amarrado a um cavalo, o arrastaram pelas ruas de Lima.

- Que coisa horrorosa!

- Isso mesmo. Queriam com isto escarmentar a outros que talvez quisessem revoltar-se contra o rei da Espanha. Entretanto, quem mais sofreu com esse espetáculo foi a esposa do capitão, Dona Mência. Ela assistiu a todo o terrível castigo – até ao dilaceramento do corpo de seu esposo pelas pedras das ruas. Passaram-se semanas inteiras até que se lhe atenuasse a lembrança daquelas cenas. Por fim comunicou a sua mãe, D. Leonor Portocarrero, que desejava passar o resto de seus dias rezando pela alma do capitão Francisco. Ainda que ele tivesse morrido como um criminoso comum, talvez a misericórdia divina o tivesse livrado do inferno. Ele podia estar até então no purgatório, sofrendo por seus pecados e clamando por orações de seus amigos.

 

- Que fez ela, então, Dona Maria?

- Dona Leonor concordou, pois ela também tinha desejado devotar-se à oração. Foram, portanto, visitar o Padre André, prior do convento dos agostinianos, que ficava perto. Contaram-lhe a respeito do infeliz capitão, e explicaram-lhe que desejavam ser freiras, e passar o resto de seus dias rezando pela alma de seu marido e genro. Rosa interrompeu sorrindo.

- E ele consentiu, Dona Maria? Ajudou-as a fundar em Lima o primeiro convento para senhoras?

Dona Maria mirou sua companheira.

- Você sabe esta história tão bem como eu, Rosa! Por que não me disse?

- Porque eu gosto de ouvir a senhora falar. A senhora torna tudo tão interessante. Realmente, eu não conheço a história toda. Essa parte do corpo do pobre capitão arrastado pelas ruas, por exemplo.

- Bem, é verdade. Como é certo também que Dona Leonor e Dona

Mência receberam o hábito agostiniano das mãos do padre André e iniciaram a vida religiosa em sua própria casa. Isto foi aí por 1558. Algumas pessoas não aprovaram de modo algum a idéia. Achavam que as duas senhoras deviam esperar até terem mais dinheiro e benfeitores. Mas, você compreende, era preciso não esquecer a alma do capitão.

- Elas não tiveram de esperar muito tempo para terem um convento de verdade, não foi?

- Três anos apenas. Lá está ele nesta rua, minha filha, – o Convento da Encarnação. Foi construido em 1561.

 

As torres do mosteiro erguiam-se em frente das visitantes, e o carro seguia ao longo do muro de adobes que separava da rua o jardim. Rosa virou-se para sua companheira, enquanto o carro se dirigia para o portão principal. – Lima tem sido a primeira em muitas coisas, Dona Maria. No outro dia papai estava nos contando que nossa universidade é a primeira de toda a América, e foi fundada no convento dos dominicanos a 12 de Maio de 1551 pelo padre Tomás de San Martin.

- Ha, ha, você gosta mesmo dos dominicanos, Rosa. Está sempre a cantar-lhes os louvores.

- Mas é verdade, Dona Maria. A Universidade de S. Marcos foi a primeira…

- Não esqueça o seminário que acabamos de visitar. E’ um pioneiro também. E temos o primeiro hospital Sant’Ana.

- Fundado por um dominicano, Dona Maria, em 1549. A senhora não esqueceu que nosso primeiro Arcebispo, Jerônimo de Loaysa, pertencia à família de S. Domingos…

A dama levantou as mãos em cômico desespero.

- Vamos, minha filha. Você sabe mais do que eu a respeito da história de Lima.

Rosa tomou o cesto de mantimentos que D. Maria trouxera para as freiras. Enquanto seguia sua amiga em direção ao pesado portão de madeira, acudiu-lhe uma idéia esplêndida. Quem sabe, Lima seria a primeira em mais alguma coisa – o primeiro lugar das Américas a possuir um santo canonizado!

“Talvez o próprio tio de D. Maria, o Arcebispo Turibio”, pensou ela. “E’ um homem tão santo!”

 

VI. UM SANTO VEM A LIMA

 

Passaram-se tempos. Na tarde de 23 de Agosto de 1601 vigília da festa de S. Bartolomeu – Mariana, a criada índia, voltava pela rua de S. Domingos, trauteando uma animada canção. De manhã, bem cedo, deixara ela a casa de seu amo Gaspar, com dois enormes cestos de flores. Os cestos voltavam vazios, e na bolsa tilintavam as moedas de prata. Fora um dia dos melhores no mercado. Cada uma das flores alcançara excelente preço.

 

 - Aposto que não há ninguém como a senhorita Rosa, quando se trata de cultivar flores, – pensava ela. – Sua mãe vai ficar bem satisfeita com o resultado de hoje. Quando, porém, Mariana abriu a porta de trás e percorreu a vasta habitação não viu sinal nem de Maria Oliva nem das crianças. Não havia em casa ninguém a quem pudesse contar as boas novas. “Agora me lembro”, resmungou, “a família toda foi à igreja dos franciscanos. Aquele novo pregador, padre Francisco Solano, prega lá hoje. Já começam a chamar o bom homem de “São Francisco”, por causa das coisas extraordinárias que tem feito”. Mariana tirou o largo chapéu de palha e dirigiu-se para a cozinha. Dai a poucos minutos ela teria de começar o jantar. O dia já ia declinando -aquele raro dia de sol, pois em Lima no mês de Agosto poucos dias de sol havia. Nisto a cidade não se parecia nada com Arequipa e Cuzco, outras cidades peruanas lá em cima, sobre os Andes. Em Agosto, geralmente, a costa é úmida e nevoenta, enquanto nas montanhas o sol brilha esplêndido dia após dia.

 

“Faço fogo num instante e isso há de ajudar a livrar da friagem da noitinha”. – disse Mariana para si. – “Quanto a este dinheiro, é melhor colocá-lo num lugar seguro. E’ a maior quantia que deram até hoje as flores da senhorita Rosa”.

 

Um canto melodioso interrompeu Mariana no seu cuidado de recontar e guardar as moedas de prata. Alguém estava cantando lá no fundo do jardim, e intercalando as notas suaves da canção percebia-se o trilo argentino de um rouxinol. Mariana largou o dinheiro e precipitou-se para a porta na ponta dos pés. Ouviam-se distintamente as palavras do cântico:

 

Tu cantas a teu Criador,

Eu canto ao meu Amor.

Para ambos nós é deleite

Louvar do Céu o Senhor!

 

“Então a senhorita Rosa estava aqui o tempo todo” pensou Mariana. -”Eu devia ter adivinhado. Ela passa todo o tempo livre naquele nicho que construiu”.

 

Não levou muito tempo e o fogo brilhou na grande lareira. Mariana deu uma corrida ao poço perto da porta dos fundos, encheu de água a chaleira e pô-la ao fogo para ferver. Rosa ainda estava cantado, acompanhada pelo rouxinol, quando ela, finalmente, se meteu pelo caminho areento, em direção ao fundo do jardim. O céu estava escurecendo, e uma leve brisa soprava através dos galhos das árvores altas. Mariana teve u m arrepio.

 

- D. Rosa! Está na hora de aprontar a janta!

 

Não houve resposta. A pobre mulher deu um suspiro e pôs-se a procurar o caminho na escuridão cada vez mais densa. O jardim da família Flores, cheio de arbustos e flores, era um lugar muito agradável de dia, mas à noite o caso era diferente. As grandes folhas pendentes das bananeiras pareciam torcidas e ameaçadoras. As oliveiras e figueiras apareciam sombrias e estranhas. Muitas vezes Maria de Oliva se queixara de que o jardim não era lugar seguro à noite.

 

Rosa, entretanto, não se amedrontava pela escuridão. Três anos antes, quando ela tinha apenas onze anos, construíra com suas próprias mãos um pequeno oratório num sítio distante o mais possível da casa. Era, na verdade, uma espécie de cabana feita de ramos e galhos curvados; no interior pusera um altarzinho com um crucifixo e velas. O oratoriozinho, dissera ela á família, era um bom lugar para se trabalhar e rezar.

 

“A maior parte das meninas de quinze anos – pensava Mariana – andam ansiosas por se divertirem. D. Rosa é o contrário. Seu maior cuidado são ainda as almas, como salvá-las do inferno, como tornar-se mais agradável a Deus – aí está o que lhe enche os pensamentos”.

 

Estava tão escuro como úmido, quando, por fim, Mariana parou. Lá, escondido entre as bananeiras, descobriu ela o oratoriozinho de Rosa. Alarmado, o rouxinol soltou ainda uma nota. Mariana afastou para um lado a folhagem de um galho.

- Senhorita Rosa! Não sabe que pode apanhar um resfriado mortal, sentada aí nesse lugar úmido? Então não pode rezar em outro lugar qualquer?

Da sombra de sua ermidazinha veio o riso claro de Rosa. Era um riso musical, quente e melodioso, e no mesmo instante Mariana se arrependeu de ter falado tão asperamente.

- Estou muito bem, Mariana. O passarinho e eu…

- Bem que eu ouvi. Mas está na hora de jantar. Seria melhor guardar suas cantigas para amanhã.

Rosa abandonou o acanhado abrigo.

- Acho que está esfriando, Mariana. Não o tinha percebido, pois estive tão ocupada a tarde toda. Primeiro costurei um pouco. Depois, quando ficou escuro demais, o passarinho veio e…

Mariana deu uma olhadela no oratório. Uma cruz de madeira estava encostada na parede. Era da altura de Rosa. A boa criada sentiu calafrio, ao verificar que Rosa estivera fazendo outras coisas, além de costurar e cantar hinos. Uma parte da tarde ela passara carregando a pesada cruz pelo jardim, em lembrança da caminhada dolorosa de Nosso Senhor ao Calvário. Era um exercício que ela praticara alguns anos – um método especial de fazer a Via Sacra, quando se achava sozinha.

- Vamos embora, D. Rosa. Eu preciso de ajuda no jantar.

A menina acenou que sim e pegou um pano grande de linho. Era uma toalha de altar que Maria de Oliva lhe pedira para embainhar. O trabalho estava pronto desde cedo.

No caminho para casa, Rosa notou alguém andando na cozinha, perto da janela.

- Mamãe deve ter voltado já da igreja, – disse.

- Não havia de me admirar, D. Rosa. Ela foi há tanto tempo.

Provavelmente o Padre Francisco pregou outro de seus lindos sermões.

- Ele deve ser maravilhoso!

- Daqui a pouco saberemos. Mas não corra dessa maneira! Pode tropeçar numa pedra!

Rosa aquiesceu. A escuridão, que enchia todo o jardim, pouco lhe importava. Conhecia palmo a palmo o lugar. Entretanto, diminuiu os passos. Não seria caridoso deixar Mariana descobrir sozinha o caminho naquelas trevas.

- Eu gostaria de ter ido à igreja esta tarde, Mariana. Todo mundo em Lima fala sobre a santidade do Padre Francisco. Ele é missionário há onze anos, e dizem que tem convertido milhares de índios.

- Então, por que não foi ouvi-lo?

- Eu tinha que embainhar esta toalha para mamãe.

- Ora, minha filha, isso podia esperar, e sua mãe só teria de ficar muito contente…

- Eu quis fazer um pequeno sacrifício.

- Sacrifício! Dona Rosa, se eu escuto outra vez esta palavra . . .

- Não fique zangada, Mariana. Eu gosto de fazer sacrifícios. E’ a minha maneira de ser útil aos outros. As vezes penso que é para isto que nasci -para que possa rezar e sofrer pelos outros.

- Se fizer sacrifícios demais, não há de durar muito neste mundo.

Rosa esboçou um sorriso.

- Não me importa. Sei que ficarei quanto tempo Deus quiser. E agora, Mariana, vou contar-lhe um segredo.

- O quê?

- Amanhã é a festa de S. Bartolomeu…

- Isto não é segredo.

- Não, mas o que vou dizer é. Quando eu morrer, acho que vai ser na festa de S. Bartolomeu. Todos os anos, quando se aproxima o 24 de Agosto, eu fico tão animada. O’ Mariana, deve ser esplêndido viver no Céu e ver Deus para sempre.

- Dona Rosa, não deve dizer tais coisas.

- E por que não? Muita gente fica esperando ansiosa o dia do aniversário, mas para mim acho mais grato prever e ansiar pelo dia da morte. E’ com efeito um grande dia, Mariana. O dia em que começa a verdadeira vida.

A índia fez um grande sinal da cruz.

- Não deixe sua mãe ouvir essas esquisitices de morrer no dia de S. Bartolomeu. Não lhe agradaria nada, dona Rosa. Além disso, não é correto fazer a gente pensar que a senhora conhece o futuro. Isso compete a Deus.

Rosa acenou com a cabeça, concordando.

- Foi ele quem me disse – explicou simplesmente.

E era verdade. Muitas vezes, no âmago de sua alma, Rosa ouvia coisas espantosas. Uma vez era Nosso Senhor que lhe falava, outras era a Virgem Maria, ou então S. Catarina de Sena. E sempre davam-lhe a entender que os homens e mulheres devem fazer penitência por seus pecados. Pois uma alma com uma manchinha, embora insignificante, não pode entrar no Céu. Ou o pecador satisfaz por si mesmo, no purgatório ou neste mundo, ou alguém em lugar dele: e era isto que Rosa entendia com ser útil aos outros.

 

“Eu quero satisfazer pelos pecados dos outros”, dizia ela; “Senhor, dizei-me o que quereis que eu faça”. Mariana e sua patroazinha atingiam já a porta dos fundos, quando um grito as fez estacar subitamente. Por cima do alto muro de tijolos que resguardava da rua o jardim dos Flores, viera o grito lamentoso de uma mulher oprimida pelo sofrimento. Rosa perscrutou ansiosa a escuridão.

 

- Deve ser alguém ferido, Mariana. O grito veio exatamente do portão.

- Mãe de Deus, filha, não vá ver o que é. Nada há que dizer, seja lá o que for.

- Mas não podemos ficar aqui sem fazer nada.

Rosa pôs-se a correr em direção ao portão, e logo outro grito atravessou a noite. Ouvindo o distúrbio, Maria de Oliva abriu a janela da cozinha.

- Que está acontecendo ai fora, Mariana? Por que não está aprontando o jantar?

A criada juntou as mãos nervosamente.

- Dona Rosa saiu à rua, senhora. Ela… ela pensa que há alguém ferido.

- Saiu à rua! A esta hora?

No mesmo instante o portão abriu-se rangendo nos gonzos e uns passinhos leves ecoaram na areia do caminho.

- Está tudo bem, mamãe. Esta pobre mulher deu uma queda e feriu-se no joelho.

Maria de Oliva inclinou-se para fora da janela, e ficou quase sem fala ao ver Rosa caminhando vagarosamente para casa e ajudando uma índia que se lhe

apoiava ao ombro.

- Ela está meio morta de fome, e machucada, mamãe. E está com frio, também.

 

Maria de Oliva olhou desalentada para o jardim escurecido. A maior parte dos índios em Lima era uma gente suja. Muitos eram doentes, e Rosa não só tocava com suas mãos num deles, mas, pelo visto, ia conduzir a criatura para dentro de casa. A índia estava ferida – vá lá, mas então que fosse para o hospital de Sant’Ana, no outro lado da cidade. Jerônimo de Loaysa, o primeiro Arcebispo, tornara-o acessível a qualquer índio doente.

 

Maria estava quase dominada de impaciência e aborrecimento. Algo, entretanto, a retinha no íntimo, e pela primeira vez na vida, ela não encontrava palavra para desabafar. Uma hora antes estivera ouvindo o sermão de um frade franciscano. Fora um sermão sobre a caridade. O padre Francisco Solano, de volta de seus recentes trabalhos missionários no Paraguai e na Argentina, não poupara os ouvintes. Não tinha palavras dulçorosas para o egoísmo.

 

“Ou amais ou não amais o vosso próximo”, dissera ele. “Ou nele vedes Nosso Senhor Jesus Cristo ou vosso próprio orgulho. E aquilo que vedes é que indica se ides para o Céu ou para o Inferno. O’ meus irmãos! Não vos desvieis jamais de um homem porque é pobre, porque é ignorante, porque tem a pele de outra cor que a vossa! Lembrai-vos, é bem possível que vos estejais desviando de Deus”.

 

Maria de Oliva saiu da janela e foi abrir a porta da cozinha. – Traz a mulher para dentro – murmurou. – Ao menos podemos dar-lhe uma boa refeição.

 

VII. UM AMIGO NA NECESSIDADE

 

Quando Rosa ficou mais crescida, obteve do pai permissão para cuidar de outras mulheres pobres e doentes. Uma sala especial foi reservada para essas infelizes. Recebeu o título de “Enfermaria”, e em pouco tempo tornou-se um verdadeiro refúgio para as pobres doentes de Lima. Passados meses, vários índios começaram a propalar que tinham sido curados na “Enfermaria”, especialmente depois de Rosa ter-lhes deixado segurar a estatuazinha do Menino Jesus. Aquela estatueta, insistiam eles, era milagrosa, e a própria Rosa referia-se a ela como ao “Doutorzinho”. Apesar da popularidade da filha entre os pobres de Lima, Maria de Oliva perdia às vezes a calma, quanto ao número de casos na “Enfermaria”.

 

- Não haverá hospitais bastantes em Lima para que nossa casa se transforme também num? – perguntou certo dia a seu marido. – Há o de Sant’Ana, o de Santo André, o de São Lázaro! Com efeito, Gaspar, não vejo motivo por que Rosa há de manter aqui estas mulheres. Isto me põe doente!

 

Gaspar Flores limitou-se a sorrir. Raro era o dia em que, sua enérgica esposa não se queixasse de alguma coisa.

 

- Temos uma casa enorme, Maria. Certamente Rosa pode usar uma sala para sua caridade.

 

- Caridade! Gaspar, podes compreender isto no ano de 1606? Rosa tem vinte anos e ainda não se casou. Então não tenho direito de reclamar, vendo-a gastar horas e horas com doentes índios e negros? Por que não há de ela interessar-se em travar conhecimento com algum jovem distinto? – Que adiantaria isso? Sabes o que ela nos disse.

 

A sombra de um desgosto toldou o rosto de Maria. Então Gaspar acreditava realmente que sua filha não poderia casar-se nunca, porque se prometera a Deus quando tinha cinco anos. Que absurdo! Nenhuma criança de cinco anos

entende essas coisas.

 

- Se Rosa não se casar, eu morrerei de vergonha, declarou ela, decisivamente. – Todo mundo já começa a falar. Dizem que há qualquer coisa de errado nela, que ela é esquisita…

 

Gaspar soltou um suspiro. Rosa fora sempre diferente de seus outros filhos. Mesmo quando pequenina tinha coisas que o deixavam intrigado. As histórias que ela contava, por exemplo. Seria possível que o Menino Jesus lhe ensinara a ler e escrever? Que ela via o Anjo da Guarda? Que a Virgem Maria lhe aparecia freqüentemente, enquanto ela trabalhava no jardim?

 

- Talvez seja a vontade de Deus que Rosa entre para um convento –disse ele, reatando a conversa. – Ao menos um de nossos onze filhos devemos à vida religiosa, Maria. Rosa está bem adequada, ao que me parece…

 

- A menina entra para o convento, mas só passando sobre o meu cadáver – anunciou amargada a esposa. – Durante anos tenho colocado todas as minhas esperanças num bom casamento para ela. Achas que vou me deixar agora desapontar?

 

Ora, pensou Gaspar, que adianta discutir? Nos vinte e nove anos de vida conjugal Maria fizera sempre o que queria. Muitos havia em Lima, entretanto, que concordavam com Gaspar, declarando que Rosa possuía todas as qualidades de uma vocação religiosa. E por acaso, entre estes contava-se o tesoureiro da cidade, D. Gonçalo de Massa.

 

Natural de Burgos, na Espanha, D. Gonçalo chegara em Lima em 1601, e pouco depois travara conhecimento com a família Flores. A despeito de sua riqueza e alta linhagem, era um homem extremamente humilde, e seus servos negros e índios consideravam-se felizes de trabalhar em casa dele. Não ouvia D. Gonçalo cada manhã a missa numa das igrejas da cidade? E não dera ordens que nenhum pobre fosse jamais despedido de sua porta sem ter a fome saciada? E quanto a sua esposa, Dona Maria de Usátegui – onde se encontraria mais fiel cristã?

 

Na manhã em que Gaspar e sua mulher discutiam o futuro de Rosa, D. Gonçalo estava a caminho da igreja dos dominicanos para ouvir a missa. Era segunda-feira de Páscoa, uma brilhante e alegre manhã em fins de Março. Enquanto a carruagem rodava ligeira pelas ruas estreitas, D. Gonçalo ria-se, imaginando a recepção que o aguardava. Como sempre, era esperado por um bando de crianças, garotos esfarrapados, que sabiam que ele lhes trazia sempre, numa bolsa, um punhado de moedas de prata. Reboavam os gritos de boas-vindas, à aproximação do veículo, e ansiosos, os pequenos se precipitavam para o bom homem.

 

- Deus vos abençoe, meus amiguinhos – gritava ele, espalhando pelo ar uma chuva de moedas. – João, cuidado com os cavalos, não atropeles a criançada.

- Si, senhor – sorria o cocheiro índio.

 

Mas nem ele nem os cavalos precisavam de recomendação para andar com cautela. Já sabiam o que os esperava quando D. Gonçalo saía para a missa de manhã.

 

A carruagem chegara quase à igreja, quando os grandes sinos da catedral começaram subitamente a soar. O dobre solene e pesado anunciava que a morte viera para alguma pessoa importante. Logo outros sinos juntaram suas vozes à fúnebre música. De todos os cantos da cidade ressoavam as graves badaladas, num contraste flagrante com os repiques exultantes de Páscoa, no

dia anterior.

 

D. Gonçalo quedou-se atento nas almofadas de sua bela viatura. “E’ o meu velho amigo, o Padre João de Lorenzana, que morreu!”, pensou ele. “Por que não fui vê-lo ontem como tinha planejado? Não me faltava tempo, ainda que fosse domingo de Páscoa”.

 

Agora era tarde. E, enquanto a carruagem enveredava por uma rua lateral, D. Gonçalo murmurou uma ligeira prece pelo bondoso Padre dominicano, que fora seu confessor. Aí brilharam-lhe os olhos ao divisar uma figura familiar que descia a rua – o santo negro, Martim de Porres.

 

Martim fora a princípio um simples terceiro auxiliar em S. Domingos. Três anos antes, contudo, em obediência aos pedidos de seus superiores, ele se tornara Irmão leigo. A maior parte de seus vinte e sete anos ele os despendera ajudando os desafortunados de Lima. Pouco importava se os infelizes eram ricos ou pobres, espanhóis, índios ou negros. A caridade do Irmão Martim desconhecia limites. Um dia não se passava, em que as maravilhas operadas por suas orações faltassem a algum indivíduo ou lar da cidade.

 

- Deus seja louvado! – exclamou D. Gonçalo. – Justamente a pessoa que eu queria ver. João, deixa-me aqui, e conduz o carro para casa. Desejo falar ao Irmão Martim.

 

- Si, senhor – concordou sorridente o índio.

 

O Irmão dominicano vinha andando vagarosamente, a cabeça inclinada e movendo os lábios em oração. Vestia um hábito branco remendado sob um velho capote preto. Do braço pendia-lhe um cesto de mantimentos. Um cãozinho castanho, a cauda ereta, trotava-lhe satisfeito no encalço.

 

- Espere um instante, Martim!

 

O religioso virou-se e olhou.

 

- Bom dia, Excelência. Que as bênçãos desta santa Páscoa permaneçam convosco para sempre.

 

D. Gonçalo estendia-lhe nervosamente a mão.

 

- Irmão Martim, será que estes sinos estão dobrando pelo Padre João de Lorenzana? Terá o bom homem nos deixado?

 

Aos lábios do Irmão aflorou um sorriso.

- Estive com o Padre João esta manhã. Ele já não está doente.

- Não está mais doente? Mas não é possível! Semana passada ele estava às portas da morte.

- Ele se levantará amanhã.Dom Gonçalo ficou estarrecido.

- Então os sinos estão tocando por outra pessoa?

- Sim, Excelência. Acaba de chegar uma mensagem de Sana. O Arcebispo Turíbio faleceu lá há quatro dias.

- Não pode ser…

- Expirou na tarde de Quinta-feira Santa – informou calmamente o Irmão Martim. – Se bem que nenhuma mensagem pudesse ter chegado aqui, até hoje, muita gente já adivinhou a verdade. As Irmãs do convento da Encarnação, por exemplo, viram na quinta-feira passada uma cruz brilhante no

céu. Nessa noite havia, também, um eclipse da lua. As Irmãs acreditam que estes eram sinais de que o Senhor chamara a si o Arcebispo.

 

Nesse ínterim o contínuo badalar dos sinos trouxera para a rua centenas de pessoas. E quando a noticia se espalhou de que o querido Arcebispo estava morto, muitos romperam em pranto. Que fariam sem o bondoso homem que, durante vinte e cinco anos, fora o seu pastor espiritual? que partilhara com os pobres todos os seus bens mundanos?

 

D. Gonçalo deixou escapar um suspiro.

- Estive em Callao toda a semana passada, Martim. Estava lá um navio chegado da Espanha e eu tinha ordem de inspecionar a carga. Mas não tenho escusa para minha ignorância a respeito do Arcebispo. Hoje de manhã minha filha Micaela tentou dizer-me alguma coisa sobre aqueles sinais no céu.

 

Deus me perdoe! Eu estava muito apressado para ouvi-la.Martim sorriu. – Acho que sei por que, Excelência. Queríeis assistir à missa na igreja dos Dominicanos… Vejo, porém, que vos estou atrasando…

 

D. Gonçalo meneou a cabeça.

- Não, Martim. Tenho algum tempo ainda. Mas você… vai a algum

lugar com este cesto de víveres?

O religioso concordou com um gesto da cabeça.

- Há na próxima rua uma pobre mulher leprosa. Quereis fazer uma oração para que ela melhore de saúde?

D. Gonçalo não pôde deixar de achar graça. O Irmão Martim tinha um jeito especial de fazer suas obras de caridade, e sempre pedia aos outros que rezassem por seus protegidos doentes. Quando estes apareciam subitamente curados, atribuía o fato extraordinário à bondade das outras pessoas. As vezes até dizia que o caso era devido a algum novo remédio.

“Ela estaria melhor num convento – pensou D. Gonçalo.

-Provavelmente a única coisa que a impede é o fato de sua família ser pobre. Precisam do dinheiro que ela ganha na venda de flores. Além disso, Gaspar Flores é muito pobre para dar um dote à filha.

 

Subitamente uma idéia surgiu no espírito de D. Gonçalo. Não poderia ele ajudar? Como homem de alta influência política não lhe faltava dinheiro nem prestígio. Seria coisa de nonada para ele, providenciar para que Rosa tivesse um dote adequado e que a família recebesse uma espécie honrosa de auxílio.

“Vou fazê-lo! – disse a si mesmo. – Será realmente um prazer ajudar a menina”.

 

E, enquanto considerava a parte que estava para representar na vida daquela

jovem, D. Gonçalo sentiu-se inundado de uma grande onda de felicidade. Mas quando ele oferecesse a Rosa a possibilidade de ser freira, qual dos cinco conventos de Lima ela escolheria? divagava ele. – Talvez o mais recente, o convento franciscano de Santa Clara, que o bom Arcebispo (Deus tenha sua alma!) fundara dois meses antes…

 

Quanto mais examinava a idéia, melhor lhe parecia. A vida de uma pobre clarissa era dura, mas Rosa com certeza sabia suportar o sofrimento. De acordo com sua esposa, raro era o dia em que a menina não tivesse algum sacrifício, aceito alegremente, a oferecer a Deus.

 

“Uma vez no convento – devaneava o bom homem ao menos uma tribulação lhe será poupada. A mãe pode querer casa-la com alguém que não seja digno

dela… “

 

De repente soaram as campainhas, e D. Gonçalo olhou para o altar com ar de culpado. “Que se passa comigo? censurou-se. – Não prestei a menor atenção a esta Missa… “

VIII. ADEUS A S. DOMINGOS

Dom Gonçalo não era o único a imaginar que seria bom para Rosa ser uma pobre clarissa. Sua velha amiga, Dona Maria de Quinhones, tivera a mesma idéia desde os tempos em que ajudara seu tio, o Arcebispo Turíbio, a fundar o convento franciscano de Santa Clara.

 

- Por que não queres ser freira? – perguntou ela um dia, em que as duas conversavam sentadas no jardim de Gaspar. – Imaginas a paz que terias no convento! Pensa na felicidade de te dares inteiramente a Deus! Minha querida, D. Gonçalo contou-me tudo. Se é questão do dote, ou de como tua família se há de avir sem o dinheiro que rendem tuas flores, não te preocupes um momento. Dom Gonçalo providenciará sobre tudo.Rosa abanou a cabeça.

 

- Ele quer que eu seja clarissa – disse ela lentamente. – E a senhora tem a mesma idéia. O’ Dona Maria, não sei o que fazer! A dama sorriu, pois sabia qual era a dificuldade. Há muito tempo, Rosa dera seu coração à Ordem de S. Domingos e, no entanto, não havia em Lima freiras desta Ordem.

 

- Tens agora vinte anos. Se estás realmente certa de que não queres casar-te…

- Estou bem certa, Dona Maria.

- Então, por que esperar? Se fosse vontade de Deus que sejas dominicana, Ele teria, sem dúvida, providenciado a isto, fazendo que houvesse aqui um convento de dominicanas.

- Santa Catarina não era freira. Talvez eu pudesse ser uma Terceira Dominicana, assim como ela.

- E viver no mundo? Põe de lado esses desentendimentos. Rosa, meu bem, há muito tempo de te fiz ver como é difícil levar no mundo vida de solteira. E’ necessária uma graça especial. Com a inclinação que Deus te deu para a oração e o sacrifício… bem, não posso evitar de pensar que pertences ao convento.

- De Santa Clara?

- Naturalmente o Convento de Santa Clara me é muito caro ao coração.

Mas há quatro outros em Lima. Não gostaria de ser agostiniana? O convento da Encarnação é o primeiro para mulheres do Novo Mundo. Seria grande honra ser lá aceita, Rosa.

 

A mocinha suspirou. Realmente, não faria tanta diferença. Tão bem pode-se servir a Deus sob a Regra de S. Agostinho ou S. Clara como sob a de S. Domingos. Entretanto, por que todo o seu ser clamava para ser dominicana? Por que, desde sempre tomara S. Catarina por especial modelo? Até as alvinegras borboletas do jardim paterno

 

-sempre as preferira a quaisquer outras porque lhe lembravam as cores do hábito dominicano. Semanas passaram-se, e finalmente Rosa confiou a Fernando que tomara uma resolução. Se D. Gonçalo ainda quisesse proporcionar-lhe o dote, ela entraria para o convento agostiniano da Encarnação.

 

- Agostiniana?! Mas o que fez você mudar de idéia, Rosa? Eu pensei que você não queria entrar para o convento.

- Chiu… Fernando! Não precisa espalhar isso para ninguém.

- Quer dizer que não disse a papai nem mamãe?

Rosa acenou afirmativamente.

- Não, – disse pausadamente. – Até agora só o meu confessor em S. Domingos sabe da minha resolução, o Padre Alonso Velasquez.

- E que acha ele?

- Não disse muita coisa; apenas me deu a bênção e algumas palavras de aviso.

O jovem contemplou pensativo a irmã. Melhor do que ninguém na família, sabia ele quão fielmente ela se dedicara à oração e às boas obras. Fora sempre assim, mesmo quando eram pequeninos. E agora via-a prestes a fazer o maior de todos os sacrifícios.

- Alguma coisa o entristece, Fernando.

- Não é bem isso. Mas vou perdê-la, Rosa. Não posso imaginar o que será vir para casa e não encontrar você por aí. Você sempre esteve aqui quando eu precisava. Agora, quando eu quiser falar-lhe, haverá grades de permeio; outras freiras, quem sabe, estarão ouvindo o que eu disser. E’ assim que é nos conventos, não é?

- Chiu!… Alguém pode ouvir…

- E o que tem isso? Afinal vai-se saber.

- Eu quisera poder contá-lo a todo o mundo, agora mesmo – exclamou Rosa. – Mas o Padre Alonso me diz que guarde segredo. Até de papai e mamãe. A propósito, você quer fazer-me um favor?

- O quê?

- A Madre Abadessa espera-me no Convento, no domingo que vem, à tarde. Você quer me levar, Fernando? Eu não posso ir sozinha. O rapaz fez um gesto de aquiescência. O costume espanhol não permitia que moça alguma de boa família andasse pelas ruas desacompanhada. Muitas vezes tivera ele de acompanhar Rosa à igreja ou a algum convento.

 

- Claro que levo – disse ele imediatamente. – Talvez seja uma boa ação

que vá ficar gravada na história. O resto da semana Rosa andou muito ocupada, e não foi só com flores. De vez em quando dedicava-se a trabalho de agulha e bordado. Algumas senhoras abastadas eram suas freguesas e o dinheiro que lhe rendiam estas atividades eram de grande auxilio à casa. “Não será muito diferente quando eu tiver ido embora”, dizia ela para si, “graças a D. Gonçalo. Que faria eu sem um amigo tão bom? Não só me deu um dote, mas ainda prometeu olhar pela família e cuidar que tudo continue normalmente. O’ Senhor! eu vos agradeço por D. Gonçalo.

 

Abençoai todos os seus dias!”. Na hora combinada, domingo à tarde, Fernando e Rosa dirigiram-se para o Mosteiro da Encarnação. Difícil foi para a jovem sair sem despedir-se de seus pais, irmãos e irmãs, e de Mariana. Mas tinha de ser assim. O padre Alonso Velasquez receava os argumentos que haviam de chover se as intenções de Rosa fossem conhecidas pela família. Quando o portão de madeira se fechou atrás deles, Rosa virou-se para seu irmão preferido:

 

- Espero que tudo isto seja a vontade de Deus, Fernando.

- E o que mais podia ser?

- Eu não estou tentando fugir a dificuldades.

- Claro que não! Muito mais você está assumindo, com entrar para o convento.

A jovem caminhava silenciosa pelas ruas, olhando pela última vez as acanhadas casas de adobe, os mendigos, os garotos indígenas brincando. Subitamente um cão branco e preto disparou brincalhão na direção dela. Fernando estendeu instintivamente o braço para protegê-la. – Cuidado, Rosa. Ele pode mordê-la… E não está muito limpo…

- Oh! ele não morderia ninguém, Fernando. E’ apenas um cachorrinho. Mas, que interessante! ele é preto e branco.

- Preto e branco! Lá começa você outra vez; ainda pensando nos dominicanos!

Rosa deu uma risada.

- Nem por isso, Fernando. Mas estou com vontade, se houver tempo bastante…

- De que?

- De ir a S. Domingos para uma última visita.

O rapaz concordou.

- Está bem. Acho que podemos dispor de alguns minutos.

No interior da igreja dos dominicanos os dois irmãos separaram-se. Fernando permaneceu no fundo do templo, enquanto sua irmã prosseguia pela ala direita até à capela do Rosário. Aí ajoelhou-se ante o altar dourado dedicado a Nossa Senhora e uma vez ainda ofereceu-se como serva à Bemaventurada Mãe e a Seu Filho.

 

- Ajudai-me a ser boa – implorou ela. – Mãe queridíssima, tende piedade dos pobres, dos ignorantes, dos sofredores! Pedi a Santo Agostinho que rogue por mim, a fim de que eu possa salvar muitas almas, como freira em sua santa Ordem. À medida que os minutos passavam, Fernando se tornava inquieto. Rosa estava esquecendo que prometera ficar somente um pouco na igreja dos

dominicanos. A Madre abadessa das agostinianas dissera-lhe que estivesse no

convento a tempo das vésperas, e se quisessem chegar na hora, teriam. que

andar depressa.  Ele deslizou para fora do último banco em que estivera sentado e dirigiu-se rapidamente para a irmã.

- Rosa, está na hora de sairmos.

A jovem levantou os olhos para ele. Suas faces estavam quase descoradas e

uma expressão de espanto transparecia-lhe nos olhos arregalados:

- Fernando, alguma coisa aconteceu! Não posso mover-me. E’ como se

meus joelhos estivessem colados ao chão.

- O quê!?

- Sério! Desde que me ajoelhei tive que permanecer no mesmo lugar. Há uma força estranha retendo-me aqui.

O rapaz olhou-a assombrado. Que acontecera? Estaria sua irmã atacada de

alguma doença esquisita? Ou estaria ela com alguma brincadeira? Um olhar, porém, a seu rosto empalidecido, convenceu-o de que ela dizia a verdade. Algo misterioso acontecera na capela de Nossa Senhora. Realmente, Rosa não podia levantar-se.

 

- Eu a ajudo, – disse ele com voz trêmula. – Pegue aqui o meu braço. Mas anda depressa com isso. Algumas pessoas na igreja já estão esquecendo suas orações. Daqui a pouco estaremos rodeados de uma multidão para ver o que há.

 

Rosa agarrou-se ao braço do irmão, mas nem o esforço combinado dos dois adiantou. Diante do altar da Senhora do Rosário, cheio de flores e tremeluzentes círios, continuou Rosa presa, de joelhos. Fernando olhou em volta, como a procurar auxílio. Que haviam de fazer? Aquela hora as freiras já estariam no convento à espera da nova Irmã. Mandariam talvez até um recado à casa dos Flores para saber por que ela não teria vindo. Se tal acontecesse, os planos de Rosa deixariam de ser segredo.

 

- Faça uma oração ou qualquer coisa, – disse o rapaz aflito. – Deve haver um jeito de livrar você. Rosa ergueu o olhar para a imagem de Nossa Senhora. Ocorreu-lhe subitamente que talvez Deus não a quisesse como agostiniana. Quem sabe fizera ele um milagre para provar a D. Gonçalo e aos outros que o lugar dela era no mundo e não num convento. Talvez – ó feliz idéia! –isso significava que, afinal, ela devia ser uma terciária dominicana!

 

- Querida Mãe, eu não serei freira se esta não é a vontade de Deus,

-disse com simplicidade. – Voltarei para casa e viverei com minha família. Lá farei o possível para bem servi-l’O. Somente, por favor, deixe-me levantar-me.

 

Bem não terminara estas palavras, Rosa sentiu que podia ficar de pé. Cheio de assombro, viu-a o irmão de pé a seu lado. “Mas que aconteceu, Rosa? Afinal, como pôde você levantar-se?” Os negros olhos da donzela brilhavam.

 

- Foi ela, Fernando – a Mãe Santíssima! Ela não quer que eu vá para o mosteiro esta tarde. Ela quer que eu vá para casa. Ouvi sua voz em meu coração. O moço meneou a cabeça. Que havia de dizer a madre abadessa? E D. Gonçalo de Massa?…

 

IX. UMA FILHA DE S. DOMINGOS

 

Foi poucas semanas depois, a 10 de Agosto, festa de S. Lourenço, que Rosa ingressou na Ordem dominicana como terciária. Seu rosto tinha uma expressão radiante, quando ela ajoelhou-se na capela do Rosário em S. Domingos e ouviu seu confessor, o padre Alonso Velasquez, iniciar a cerimônia da recepção:

 

- “O’ Senhor Jesus Cristo, que te dignaste revestir o aspecto mortal de nossa humanidade, suplicamos-te que, em tua grande misericórdia, te seja agradável abençoar estas vestes indicadas pelos santos Padres para serem usadas como sinal de inocência e humildade, a fim de que aquela revestida destas vestes seja digna de revestir-se de Ti, Cristo Nosso Senhor”.

 

Rosa contemplou o hábito que o padre Alonso abençoava. Era o hábito dominicano de lã branca, estendido então sobre o altar – o mesmíssimo modelo usado por Santa Catarina de Sena e outras santas almas. Daí a poucos minutos passaria ela a usar o alvo vestido ao invés das belas roupas escolhidas por sua mãe.

 

O bom Deus abençoava uma pobre menina peruana com a vocação terciária

dominicana. Dai a pouco já não estaria ela sozinha na tarefa de salvar a sua alma e a alma dos outros. As orações dos dominicanos -padres, freiras, irmãos leigos, outros terciários – em toda parte se juntariam às suas de um modo especial.

 

Rosa fechou os olhos inundada de felicidade, enquanto o padre Alonso a aspergia com água benta e continuava a oração:

 

- “Asperja-te também o Senhor com o hissopo, a ti que vais ser agora revestida com o nosso hábito, para que sejas purificada, e assim limpa e mais branca do que a neve possas aparecer externamente”.

 

Maria de Oliva, ajoelhada a poucos passos, enxugou as lágrimas. Não era aquilo exatamente que ela planejara para sua filhinha favorita – uma vida no mundo como membro leigo de uma Ordem religiosa. Entretanto, que podia ela fazer? A menina recusava-se absolutamente a qualquer idéia de casamento. O que lhe interessava era salvar almas.

 

“Talvez ela mude de idéia daqui a algum tempo”, – disse a mãe para si, entre soluços. – Talvez depois de alguns meses ela achará muito dura a vida de terciária.

 

Mas Rosa de Santa Maria, a nova filha de S. Domingos, sentia-se mais feliz do que nunca. Por fim palmilhava a mesma senda escolhida por Santa Catarina de Sena cerca de duzentos e cinqüenta anos antes. Até D. Gonçalo estava satisfeito, à medida que os meses passaram, de que Rosa tivesse escolhido o caminho certo. Embora outros homens e mulheres fossem chamados à vida religiosa, sua vocação era para tornar-se uma santa no mundo. Jamais a instigaria ele a ser freira em qualquer dos cinco conventos de Lima.”Deus confiou a esta menina uma tarefa especial” pensou D. Gonçalo.

 

-”Ela será um modelo para todos que devem alcançar a perfeição sem o auxílio do claustro”.

 

A 10 de Agosto de 1607, Rosa voltou à capela do Rosário na igreja de S. Domingos. Terminara seu ano de prova como terciária. Quereria ela continuar aquela vida? perguntou o padre Alonso Velasquez. Queria ela fazer uma promessa de viver de acordo com as regras da Ordem dominicana, até à morte?

 

A jovem, então com 21 anos, não teve a menor dúvida quanto à sua vocação, e, como Rosa de Santa Maria, fez a necessária promessa. Tornara-se efetivamente membro da Ordem dominicana. Tempos passaram-se. Quanto às aparências exteriores Rosa parecia ter mudado muito pouco: continuava a viver sossegadamente em casa, cultivando suas flores e fazendo os finos lavores de agulha para as ricas senhoras de Lima. Uma mudança, entretanto, surgira. Pouco a pouco, recebendo devotamente a santa Eucaristia, suportando com paciência dificuldades e aflições, a filha de Gaspar estava tornando-se lentamente mais semelhante a Cristo. As vezes, quando sua mãe ralhava, que ela tomava pouco cuidado com a saúde, ela respondia gentilmente:

 

- A senhora e eu viveremos tanto tempo quanto Deus quiser, mamãe. Quando o trabalho que Ele nos deu estiver terminado então poderemos preocupar-nos com nossa saúde.

- Quem então vai pensar sobre isto? – perguntou Maria rispidamente.

-Será muito tarde!

Rosa alisou as pregas de seu lanoso hábito branco.

- Querida mamãe, a vida é, na verdade, muito simples, quando nos lembrarmos apenas que somos servas – servas de Deus e de nossos semelhantes.

- Servas! Quem está querendo ser serva? Rosa, este modo de falar é desagradável. Se for assim, um negro ou um índio vale tanto como um homem branco. E uma pessoa rica e educada não é melhor do que um ignorante mendigo! E dizer que você fala deste modo, depois de tudo que fiz por você!…

Rosa respirou.

- Mamãe, por favor, não se zangue! Eu estou só tentando ajudar um pouco. Afinal, se nós realmente acreditamos que Deus é nosso Pai e Seu Filho, nosso Irmão…

- Chega de sermão, senhorita! Desde que você é terceira, ficou piedosa de mais para mim. Só quero que se lembre disto: Não me fale mais em ser serva. Seu pai pode ser pobre, mas pertence a uma boa família. E eu também!

 

O fracasso desta e outras conversações provaram a Rosa o que ela sempre soubera, isto é, que o consolo para um coração solitário pode ser encontrado na oração. Na oração, a fraca natureza humana eleva-se em busca de Deus e com seu auxílio torna-se forte. Aflições de toda espécie, quando a Ele oferecidas em união com os sofrimentos que seu Filho padeceu na terra, transformam-se em merecimentos de incalculável valor. Este era um dos motivos de haver na terra tanta tristeza: sem dores, bem poucas almas jamais pensariam em voltar-se para Deus.

 

“Todo mundo quer ser feliz”, – pensava Rosa muitas vezes. – “Para isto fomos criados. Como é difícil, porém, lembrar-nos que só o maior dos bens – o próprio Deus – pode satisfazer-nos”. No Domingo de Ramos do ano de 1610, Rosa, então com vinte e quatro anos de idade, dirigiu-se à igreja de S. Domingos para assistir à S. Missa. A cerimônia era longa, com a bênção dos ramos e a procissão no interior do templo, antes do Santo Sacrifício. Enquanto dois irmãos leigos terminavam a distribuição das palmas bentas ao povo, o coro rompeu num hino triunfante e todos se apressaram para tomar parte na procissão. Rosa hesitou. Por um motivo ou outro ela fora esquecida na distribuição dos ramos viridentes. Somente ela, de toda gente na igreja, não recebera a palma benta.

 

“Por quê?” – pensou ela. – Dar-se-á o caso de não ser eu digna de seguir com os outros?” Afastou, entretanto, essa idéia de desapontamento. Teria sido apenas um descuido. O Irmão estivera muito atarefado para notá-la. Não haveria também motivo por que ela não se reunisse à procissão. Embora não tivesse uma palma para levar, podia lembrar-se do primeiro domingo de ramos, quando Nosso Senhor entrara em Jerusalém entre aclamações de seus jubilantes seguidores. Quando o coro terminou o cântico e a longa fila de povo voltou aos lugares, Rosa lançou um rápido olhar à capela do Rosário. Como amava aquela imagem de Nossa Senhora com o Menino! Aqui, quatro anos antes, recebera da Mãe Bem-aventurada a aprovação à sua vocação para a Ordem Terceira dominicana.

 

Naquela tarde domingueira, em que ela se vira forçada a permanecer de joelhos, uma voz falara em seu coração, e a voz lhe dissera que o trabalho de sua salvação não devia ser feito num mosteiro. Pelo contrário, havia de ficar no mundo – havia de ser uma santa no ambiente cotidiano.

 

“Querida Mãe, obrigada mais uma vez por deixar-me ser uma terciária dominicana”, – murmurou ela. – “E não estou triste porque o Irmão esqueceu-se de dar-me uma palma benta. A palma que eu na verdade desejo é uma que jamais murchará, aquela que dais aos bem-aventurados no céu”.

 

Enquanto Rosa suspirava esta pequena oração, viu maravilhada que a Mãe bendita sorria e virava-se .amorosamente para a Criança em seus braços. Ninguém mais na igreja apinhada viu o milagre, nem ouviu as palavras que o Menino então proferiu – palavras que ecoaram no coração da jovem como a mais doce música:

 

“Rosa de meu coração, sê minha esposa!”. Rosa, entretanto, viu e ouviu e seu coração encheu-se de pura alegria. Deus a abençoara novamente com outro dom maravilhoso! Na igreja que ela tanto amava Ele lhe dizia que ela estava realmente contada entre as eleitas!

“E’ demais para mim!” – murmurou. – “Não sou digna de tanto amor!”.

Sabia, contudo, que não se enganara sobre a visão. Ela, uma pobre menina do Peru, escolhida desde a eternidade para pertencer a Deus, para ser uma de suas amigas bem amadas e para sempre! Já lera a respeito de favores tais concedidos a outros, incluindo sua amada padroeira, Santa Catarina de Sena. Agora, por um milagre da graça, a honra inigualável também lhe era dada.

 

O resto do dia, Rosa não pôde pensar em outra coisa. Quando Fernando lhe observou que parecia felicíssima, ela concordou com um aceno. – E’ bem verdade, estou felicíssima. E tenho outro favor a pedir. O rapaz riu-se francamente.

- Aposto que você quer que eu a leve a algum lugar.

- Não. Desejo somente que você mande fazer um anel para mim.

- Um anel? Você quer uma jóia.

- Isto mesmo. Mas não da loja. Apenas um anel simples, desenhado por você. Fernando, você fará isso para mim? E’ de fato muito importante.

O rapaz perscrutou a fisionomia ansiosa da irmã, e compreendeu que algo fora do comum acontecera. Durante anos e anos Rosa pensara constantemente nas outras pessoas rezando por elas, ajudando-as quando estavam doentes, cuidando que o pobre tivesse todas as flores e frutos que ela podia poupar do jardim. Chegara finalmente a vez em que ela desejava alguma coisa para si.

 

- Naturalmente, eu arranjo um anel para você. Quer um de ouro ou de prata? E qual é a sua pedra preferida?

Rosa hesitou. Ambos aqueles metais eram comuns no Peru, como também diamantes e esmeraldas, que se encontravam em abundância nas minas dos Andes. Ela podia realmente possuir um lindo anel e sem muita despesa.

- Eu gostaria de um anel de ouro, Fernando, mas sem pedra alguma. Só um aro simples.

- E que tal um lema gravado? Umas poucas palavras no lado externo, e isto pode ser feito facilmente.

- Que palavras você sugere?

O moço pensou um momento:

- Que acha destas: “Rosa de meu Coração, sê minha esposa”? O coração da moça transbordou. Ela nem podia conter sua grande emoção. Sem imaginá-lo, o irmão fora divinamente inspirado a escolher -as mesmas palavras que ela ouvira na igreja, as palavras que lhe dirigira naquela manhã o próprio Menino Jesus.

- Então, o que há? Não gosta da minha idéia?

- Admirável, Fernando! Não posso imaginar nada que mais me agrade.

- Ora, viva! Teremos um anel bem simples feito especialmente para você, com aquelas palavras gravadas na face externa. Conheço também o joalheiro indicado para o trabalho – um velho amigo meu que não tem tido muitas encomendas ultimamente. Rosa sorriu agradecida.

- Ele pode fazer o anel já?

- Claro que pode. Em dois dias provavelmente. Vou vê-lo amanhã e levarei um esboço do que queremos.

 

Quando ficou novamente só, Rosa dirigiu-se a seu oratoriozinho nos fundos do jardim. Era um sitio sempre sossegado e aprazível. Só muito raramente passava alguém da família entre as bananeiras, pois havia muitas aranhas e mosquitos, diziam. Além disso o sol a custo penetrava o emaranhado da vegetação e galhadas, de modo que o lugar ficava escuro e sombrio. Rosa, no entanto, nada receava de aranhas e mosquitos. Nunca esses insetos a tinham incomodado, e pareciam antes pressurosos de demonstrar-lhe amizade. Sempre que ela recitava o rosário ou suas outras orações os mosquitos zumbiam amigavelmente. Era quase como se eles também rezassem:

 

Quanto às aranhas, interrompiam suas vagueações e tecelagem para continuá-las quando a amiguinha dava por terminada sua conversa com Deus. Rosa, entretanto, nem cogitava desses insetos quando entrou em seu oratório. Pensava antes na graça maravilhosa que lhe fora dada aquela manhã na igreja dos dominicanos. E havia, naturalmente, o anel – o lindo anel de ouro que ela usaria sempre para lembrar-se que pertencia a Nosso Senhor. Como poderia esquecer isto?

 

“E’ domingo de Ramos, – pensou. – Se meu anel estiver pronto quarta-feira, talvez o padre Alonso possa colocá-lo no sacrário na Quinta-feira Santa. Seria esplêndido”.

 

Sim, seria esplêndido. Mas extraordinário também. Com certeza teria de haver um bocado de explicações para que o confessor entendesse. “Farei o que puder”, – resolveu ela consigo. – “Nosso Senhor está escondido no Sacrário na Quinta-feira Santa, e eu quero que meu anel esteja com ele nessa ocasião. No domingo de Páscoa, quando ele volta cheio de glória, eu receberei o anel e usá-lo-ei até à morte”.

 

 

 

X. A EREMITA

 

Na manhã de 14 de Julho, poucos meses depois de Rosa ter recebido o anel de ouro, os sinos de Lima plangiam sua música fúnebre pela cidade. O santo missionário franciscano, padre Francisco Solano, morrera. Maria de Oliva murmurou uma breve oração, ao ouvir os fúnebres sons.

 

- Era melhor irmos logo ao convento dos franciscanos, Mariana. Estou certa de que haverá milagres por lá, hoje. Pegue todos os nossos rosários e medalhas. Poderemos tocar com eles o corpo do padre Francisco e guardá-los como relíquias. A índia concordou com um aceno. Tanto a ama como a serva avaliavam a perda. O padre Francisco era na verdade um santo. Anos atrás, em 1589, quando ele viera a primeira vez ao Novo Mundo, naufragara com seus companheiros nas costas da Colômbia. Durante semanas o pequeno grupo de náufragos vagueara pelas florestas litorâneas sem encontrar viva alma. Em breve alguns dos homens sucumbiram ao comer plantas venenosas, e o desespero apoderou-se do resto. Somente o padre Francisco conservou-se calmo. Insistiu com seus companheiros que permanecessem perto da costa. Outro barco, assegurou-lhes, chegaria em breve do Panamá e os levaria a salvo ao Peru.

 

- Eu me lembro quando ele finalmente chegou a Lima, – disse Mariana vagarosamente, – Ficamos tão desapontadas quando ele insistiu em deixar-nos quase imediatamente… Ah, senhora, ele já estava debilitado de tanto labutar, e no entanto não vacilou em andar mil e quatrocentas milhas, através de montanhas e selvas, para ir em missão à Argentina.

- E fez essa caminhada duas vezes, Mariana. Não esqueça isto.

 - Sim, senhora; onze anos mais tarde, quando seu duro labor entre os índios terminara. Que boa alma ele era! Bem, vou buscar os rosários e medalhas.

 

Lá fora, no jardim, entre suas amadas arvores e flores, Rosa pensava também no padre Francisco. Jamais esqueceria aquele dia de Dezembro de 1604 em que o frade, revestido do burel pardo, pregara o famoso sermão na praça do mercado. Ela tinha então dezoito anos. Agora, seis anos depois, sua memória estava ainda vívida.

 

“Ele disse ao povo que fizesse penitência. – lembrava-se. – Repetiu que Deus destruiria Lima se não cessassem de ofendê-lo. Havia, aquela noite, bastantes padres para ouvir quem quisesse confessar-se. Inimigos se reconciliavam, bens roubados eram restituídos aos donos, três mil casamentos se celebraram. Ah, querido padre Francisco, dá-me um pouco daquele zelo pelas almas, que tão sinceramente possuías!” Depois de dizer sua breve oração, Rosa encaminhou-se pela vereda que conduzia ao fundo do jardim. Aí esperava-a uma figura familiar.

- Dona Maria! Oh! não esperava vê-la esta manhã!

Dona Maria de Usátegui, esposa de D. Gonçalo, abraçou Rosa afetuosamente.

- Minha querida, eu vim de mansinho pelo portão do lado. Sua mãe ainda não sabe que eu estou aqui. Quero dizer uma palavrinha a você somente.

- As crianças não estão outra vez doentes?…

- Não, não. Estão muito bem. Rosa, meu bem, você gostaria de morar com D. Gonçalo e eu? Ser como uma filha nossa…

A moça olhou com estranheza a visita.

- Não compreendo…

- Claro que você não compreende. Mas meu marido e eu ternos certeza de que você seria mais feliz conosco. Pois que sua mãe não pode entender a espécie de vida que você deseja, e que ela não se sentiu feliz em ver você entrar na Ordem terceira de S. Domingos…

 

A jovem riu-se. Ninguém perceberia que as palavras de D. Maria feriram-na como uma faca. Era bem verdade! Maria de Oliva não perdia uma oportunidade para demonstrar sua reprovação a terciárias dominicanas.

- Mamãe ainda não compreende. Acha difícil crer que eu continue a ser a mesma, debaixo deste hábito branco.

- Exatamente. Eu e meu marido já lhe ouvimos algumas criticas. Querida amiguinha, nós temos uma casa enorme, e muitos bens deste mundo. Por que

não vem morar conosco? As crianças ficariam tão contentes!…

O resto daquele dia, e nos dias seguintes, Rosa ponderou o amável oferecimento de Dona Maria de Usátegui. Por fim decidiu recusar.

 

Embora Maria de Oliva freqüentemente achasse defeitos na vida de terciária

dominicana, com tantas orações e sacrifícios, à qual sua filha se dedicara, Rosa sabia que suas aflições podiam transformar-se em grandes méritos.

 

“Há muito tempo – pensava – ofereci-me para rezar e sofrer pelos outros. Amado Senhor, não me deixeis fugir de qualquer pena agora. Que a falta de compreensão de Mamãe sirva para unir-me mais estreitamente a vós. Que isto contribua para fazer-me santa”.

 

Passaram-se semanas, com sua incessante rotina de atividades comuns. Sempre vestida com o imaculado hábito de terceira, coberta com o véu, Rosa cuidava de suas flores e ervas, e se aplicava em suas finas costuras e bordados. Andava completamente alheia aos rumores que se espalhavam pela cidade de que ela era tão santa como aqueles grandes servos de Deus, o Arcebispo Turíbio, o padre Francisco Solano e o irmão Martim de Porres.

 

Dificilmente se passava um dia em que homens e mulheres não viessem pedir-lhe orações, consultá-la sobre um ou outro assunto, tocar sua famosa imagem do Menino Jesus, o “Pequeno Doutor” como ela dizia.

 

- Rosa é outra Santa Catarina de Sena, – dizia um ao outro.- Jejua o tempo todo. Dorme somente, duas horas por noite. Devotou-se inteiramente à salvação dos pecadores.

 

Casualmente, entretanto, algo de tudo isto chegou aos ouvidos da donzela. Foi logo procurar sua mãe com um estranho pedido. Queria permissão para ser uma eremita no jardim. Se ela se isolasse do mundo, se raramente aparecesse nas ruas, talvez o povo se esquecesse dela. Visto, porém, que o oratoriozinho que construíra quando criança, no fundo, entre as bananeiras, estava quase em ruínas, seria necessário fazer outro. E este segundo eremitério tinha de ser feito com material durável, com uma porta que se pudesse trancar.

Maria de Oliva recusou-se a ouvir qualquer sugestão. Já era bem desagradável ver sua linda filha num hábito religioso, saber que ela havia desprezado para sempre a oportunidade de ter um marido e filhos. Mas que fosse viver como eremita numa casinha de barro no fundo do jardim! – isso nunca!

 

Quatro anos se passaram. Rosa não perdeu a esperança de possuir sua casinha de adobes. Finalmente, assediada pelos rogos do padre Alonso, Dona Maria de Usátegui e D. Gonçalo, Maria de Oliva deu o sim desejado. Sim – Rosa podia enclausurar-se como um eremita, se o padre Alonso achava isso um gesto adequado. Podia recusar as visitas. Podia arruinar a saúde passando horas num cubículo úmido.

 

- Mamãe, como poderei jamais agradecer-lhe? – exclamou a jovem. – Eu o desejo há tanto tempo!

 

Maria suspirou ao contemplar sua filha então com vinte e quatro anos. Ainda era bonita, mas tão magrinha… O hábito branco não conseguia ocultar que durante anos Rosa vinha levando uma vida dificílima.

 

- As vezes não posso compreender por que você não entrou para um convento, minha filha. Que outra moça em Lima reza tanto como você? Rosa sorriu, lembrando-se daquela tarde de domingo, quando uma força misteriosa a mantivera de joelhos em frente da Virgem do Rosário.

 

- Nunca tive vocação para freira, mamãe. Peço-lhe que acredite. E por favor, reze para que eu sirva bem a Deus, como eremita.

 

- Rezarei, – disse a mãe tristemente. – Mas lembre-se disto: se não fosse porque o padre Alonso achou que era direito, eu nunca teria dado consentimento. E’… é uma vida muito esquisita para uma moça.

 

Nos dias seguintes Rosa e Fernando estiveram muito ocupados. Escolheram um local para. o eremitério, desta vez pegado à casa e batido pelo sol. Uma área de um metro e meio por um metro e vinte, foi traçada no chão e perto, à mão, amontoaram grosseiros tijolos de adobe, de cor marrom clara e leves.

 

- Fernando, que faria eu sem você? – disse a donzela, enquanto se aprestavam na construção da cela. – Você tem sido sempre tão bonzinho para mim, desde pequeninos.

 

- Ora, não é lá grande trabalho construir este quartinho, Rosa. O que me preocupa é como você vai conseguir viver numa casinha tão acanhada. Não podíamos fazê-la um bocadinho maior?

 

A jovem sacudiu a cabeça:

- Eu a quero bem pequena para não haver lugar para visitas. E só uma janelinha.

- E a porta? Como vai ser?

- Meu plano para a porta é especial. Tem de ser bem baixa, o bastante para uma pessoa passar engatinhada. Você compreende, quanto menor e menos confortável fizermos esta cela, tanto menos pessoas quererão vir ver-me.

 

O rapaz sorriu. Era verdade, sem dúvida. Quase nenhum dos conhecidos de

sua mãe, por exemplo, haviam de querer passar de joelhos, arrastando-se,

por uma portinhola.

 

- Diga-me como você a quer, e será assim, Rosa. Quero que tenha felizes recordações de mim, quando vier morar neste eremiteriozinho.

- Recordações? Você não vai embora, Fernando!?

- Vou, sim. Vou para o Chile no mês que vem.

- Negócios?

- Não. Tenciono entrar para o exército. Afinal de contas, tenho trinta anos, e é tempo de fixar-me em algum lugar.

Rosa abafou sua surpresa e desapontamento. Esse irmão querido falava a verdade. Muitos homens da idade dele já estavam casados, tinham um lar e família próprios… No entanto ela teria saudades dele…

 

- Rezarei por você todos os dias – disse ela gentilmente.

– Não importa onde você vá, minhas preces o seguirão. Tenho certeza que você gostará de viver no Chile. Você casar-se-á com uma bela moça… e terá uma linda filhinha…

- De que está você falando? – perguntou Fernando incrédulo.

- E você vai dar o meu nome à meninazinha. Ela se chamará Maria Rosa.

- Bem, – disse Fernando com uma risada cordial. Uma coisa está certa do que você diz: se eu tiver uma filha, há de se chamar como você. Quem sabe… talvez algum dia ela até visite esta ermida.

 

Rosa olhou-o sorrindo. Embora não estivesse adivinhando, seu irmão dizia a verdade. Um dia Maria Rosa viria, evidentemente, a Lima, e seria uma célebre menina.

 

Mais uns dias de trabalheira e o eremitério de adobe estava pronto. A criançada dos Flores divertiu-se um bocado engatinhando para dentro e para fora, pela portinhola, e trepando numa cadeira a fim de espiar pela janelinha que dava para o jardim. Amigos e vizinhos e até alguns padres vieram ver a casinha de adobe construida por Rosa e Fernando. Alguns chegaram a medir o

espaço ocupado, duvidando dos próprios olhos.

 

- Metro e meio de comprimento, um metro e vinte de largura, nem dois metros de altura! – exclamou assombrado o padre Velasquez. – Rosa, isto é pequeno demais!

 

- Padre, é bastante grande para Nosso Senhor e eu. Acho que serei muito feliz aqui.

 

Dona Maria de Usátegui que, entre os visitantes, também examinava o eremitério, pôs afetuosamente a mão no ombro da donzela.

 

- O convite ainda está de pé – murmurou. – Eu e meu marido ainda desejamos que você venha morar conosco. Avise-nos se mudar de idéia.

 

Rosa acenou que sim. Dom Gonçalo e Dona Maria eram tão bons amigos… Ela sabia que ambos preocupavam-se com sua saúde, com a vida árdua a que se dedicara.

 

- Não esquecerei vosso convite, – respondeu, -nem a vossa bondade. Agradeço a ambos por tudo, Dona Maria. Rosa começou a morar no eremiteriozinho, mas não abandonou sua costura, seu bordado e o cultivo de suas flores e ervas. Quando caía a noite encerrava-se no cubículo e entregava-se á oração. Aí, rodeada do silêncio e da escuridão do jardim, dava largas a seu coração em louvores e pedidos.

 

Estes atos estavam agradando a Deus, pois Ele inundou de inúmeras graças a alma da nova eremita. Aparecia-lhe freqüentemente como uma criancinha, encorajando-a a continuar em sua difícil vocação. Ensinou-lhe a nada recear enquanto depositasse n’Ele toda a confiança.

 

Nestas ocasiões Rosa pensava que morreria de pura felicidade. Que maravilha é a vida! dizia a si mesma. Qualquer alma, não importa a sua fraqueza, pode ser útil a seus semelhantes. Tudo necessário é pensar em Deus e em sua bondade. Virá, então, tal propensão de ser como Ele, de partilhar de sua verdade e beleza, que a alma não pode evitar que sua covardia se transforme em coragem, e começa a assemelhar-se a Deus. Devido a isto, arde em grande amor pelas outras almas, desejando que elas compartilhem também de sua felicidade.

 

“E’ como um mendigo que finalmente ficasse rico”, refletia Rosa.

 

Enquanto é pobre, arreceia-se das outras pessoas, tem de si próprio um baixo conceito, sabendo que não fará jamais alguma coisa de grande aos olhos do mundo. (Ama vez, porém, que enriquece, muda-se tudo. Seu corpo definhado pela fome torna-se forte. Verifica que os outros olham para ele, e encontra uma verdadeira felicidade em fazê-los participar de sua riqueza.

 

 

Numa tarde de verão, Maria de Oliva saiu à procura de sua filha. O sol estava ardente e o jardim ostentava o colorido das flores que Rosa cuidava carinhosamente. Mas o rosto da mulher ensombrava-se de aborrecimento, enquanto se encaminhava para a pequenina ermida de adobe.

 

- Rosa! Estás aí?

Não houve resposta. Maria vislumbrou alguém movendo-se entre as fruteiras, e apressou-se naquela direção. Com certeza, Rosa estava colhendo laranjas que Mariana levaria ao mercado no dia seguinte. – Rosa! Estás surda? Não me ouviste chamar-te?

A jovem descansou no chão um cesto quase cheio dos apetitosos frutos.

- Quer alguma coisa, mamãe?

- Naturalmente. Dona Isabel de Mejía veio ver-me e contou uma coisa

que me aborreceu terrivelmente.

- Sua mãe não está doente outra vez?!

- Claro que não. Eu é que estou doente. Rosa, é verdade que disseste às pessoas que vai haver um convento de freiras dominicanas em Lima? E que dona Lúcia de la Daga será a primeira prioreza?

 

Um sorriso aflorou à face da moça.

- Sim, mamãe. E ele se chamará Mosteiro de Santa Catarina, em louvor de Santa Catarina de Sena.

A voz de Maria estava áspera.

- Dona Lúcia é uma senhora casada e muito feliz, com cinco filhinhos adoráveis. Por que hás de andar espalhando esses rumores de que ela vai ser

freira?…

- Mas é verdade, mamãe. Vai haver um Mosteiro de Santa Catarina, e dona Lúcia irá para lá com sua irmã Clara. O padre Luís de Bilbao celebrará a primeira missa…

 

- Com que então, estás virando profeta, não é? Que sabes do futuro?

Estás é perdendo o senso, desde que te meteste nessa mal-aventurada ermida.

 

Rosa baixou os olhos. Como havia ela de fazer sua mãe compreender que as notícias a respeito de Santa Catarina lhe tinham sido dadas na oração?

 

Que sua amada amiga e padroeira, Santa Catarina de Sena, viera em pessoa contar-lhe do novo mosteiro?

- Sinto muito, mamãe. Não imaginei que a senhora ficasse tão aborrecida com o que eu disse a Dona Isabel.

- E não havia de ficar aborrecida? Que é que Dona Lúcia vai pensar de mim? E seu marido? Vê bem, disseste afinal de contas que o bom homem vai morrer… e os cinco filhinhos também. De outro modo, como poderia Dona Lúcia entrar para um convento?

Rosa sorriu levemente.

- Por favor, mamãe, não fique zangada. Tudo vai acontecer exatamente como eu disse.

- Chega! – exclamou Maria. – Daqui a pouco estarás contando a todo mundo que tua própria mãe vai fundar um convento. E eu não quero estas conversas. E’ bastante desagradável.

A moça olhou o anel de ouro que Fernando lhe dera havia quatro anos.

Lágrimas brilharam-lhe nos olhos.

- A senhora não vai fundar um convento, mamãe, mas entrar num, algum dia. Dona Lúcia lhe dará o hábito dominicano em Santa Catarina. A senhora será muito feliz lá, e eu prometo-lhe vir buscá-la quando a senhora estiver pronta para morrer.

XI. UM NOVO LAR

Maria estava indignada às palavras de Rosa. Ela, uma freira dominicana? Nunca! Entretanto a jovem terciária recusava ouvir os protestos de sua mãe. Um dia, quando o mosteiro de Santa Catarina fosse uma realidade, Maria de Oliva iria até lá e pediria o hábito dominicano, e lá haveria de passar seus últimos anos no serviço do Senhor. Passaram-se meses e Rosa continuava sua vida de eremita. As vezes, entretanto, confiava a alguma de suas amigas que seu desejo maior era ser mártir.

 

“Se eu fosse homem, não quereria outra coisa senão ser missionário”, confessou ela a Francisca de Montoya, uma moça de sua idade. “Imagine

quantos missionários têm ido diretamente para o céu só porque morreram às

mãos dos selvagens”.

 

Francisca sentiu um arrepio. Embora pertencesse também à Ordem terceira

de S. Domingos, sempre achara difícil a prática de mortificações, ainda as menores. Evidentemente suas visitas à Rosa afetavam-na bastante. Havia tanto mosquito no jardim de Gaspar Flores. Eles enchiam a acanhada ermida e Francisca sempre saia de lá crivada de dolorosas picadas.

- Eu nunca serei bastante corajosa para desejar a morte de mártir,

-suspirou. – Nem posso suportar as picadas destes seus mosquitos.

Rosa sorriu.

- E não obstante você ainda vem ver-me, Francisca. Como explica isto, se tem tanto medo de sofrer?

- Mas isto é diferente! Você não sabe como me sinto melhor depois de uma conversa com você. Sou tão grata que você me permita vir, Rosa, ainda que realmente você não queria aborrecer-se com visitas. Há uma coisa, porém, que me deixa maravilhada.

- O quê?

- Por que os mosquitos não picam sua mãe? Nem dona Maria de Usátegui? Ou a você?

- Porque nós prometemos nunca ofender estes pequeninos hóspedes.

- Hóspedes? E’ assim que vocês chamam esses insetos abomináveis. Rosa meneou a cabeça.

- Suponhamos que você também faça esta promessa, Francisca. Então eles não a incomodarão mais.

A visitante olhou desolada para seu braço. Lá estavam já três marcas vermelhas.

- Se eu pudesse ter um pouco de paz quando venho ver você, eu prometeria

qualquer coisa.

- Ora bem. Ofereça o sofrimento destas três picadas pelas pobres almas, em honra da Santíssima Trindade. E então faça a promessa.

Francisca não pôde deixar de rir.

- Não matarei nunca mais nenhum de seus hóspedes, – disse ela com firmeza. – Espero que eles entendam o que estou dizendo.

Rosa sorriu. Claro que as criaturinhas entendiam. Dai em diante Francisca de Montoya seria outra pessoa que poderia visitar, sem tribulações, a ermida de adobe.

A 30 de Abril de 1615, Rosa completava vinte e nove anos. Algumas semanas mais tarde ficou surpreendida ao encontrar seu jardinzinho rodeado por uma multidão excitada. Mulheres choravam; homens, maridos e filhos, estavam pálidos de medo. Chegara a notícia de que uma frota de piratas holandeses estava ancorada em frente ao porto de Calau. Este porto, a dez milhas de Lima, era então quase indefeso, e provavelmente os recém-chegados iniciariam a qualquer momento a invasão.

- Rosa, você deve rezar muito, – exclamou D. Gonçalo de Massa. -

Os holandeses querem apoderar-se de nosso ouro e prata, de nossos escravos e até de nossos filhos.

- Eles são calvinistas – acrescentou sua mulher, Dona Maria.

 -Pensam que é seu dever matar todo católico que encontrem.

O doutor João del Castilho, um dos melhores médicos de Lima,concordou:

- Primeiro, eles incendiarão as igrejas. Têm um verdadeiro ódio ao Santíssimo Sacramento, Rosa. Já cometeram terríveis ultrajes em outras cidades. Minha querida, você rezará como nunca, não é? Rosa saíra da ermida. O jardim estava repleto de gente, e o temor estampava-se em todas as faces.

 

- De certo que rezarei, – disse ela sossegada. – Mas não há motivo para alarmar-se. Os holandeses não tentarão desembarcar em Callao, nem tampouco incendiarão a cidade.

 

Em vão Dom Gonçalo descreveu os abomináveis feitos dos piratas no Panamá e outras colônias espanholas. Rosa insistia em que, durante a noite, a esquadra inimiga levantaria ferros e se afastaria de Callao. A multidão, porém, não podia crer em suas palavras, e por fim ela acedeu em rezar pela salvação de Lima, pedindo a proteção especial de Santa Maria Madalena, cuja festa ocorria no dia seguinte.

 

Toda a noite a cidade se preparou para o esperado ataque. Correios chegavam

de Callao com as últimas noticias. Ofícios especiais foram determinados às igrejas. O povo acorria ansioso aos confessionários. O acontecimento lembrava as mesmas cenas de onze anos atrás, quando, a um sermão do Padre Francisco, se tinham convertido inumeráveis pecadores. O medo e a ansiedade

enchiam todos os corações, espanhóis, negros, índios. Ninguém se lembrava de dormir aquela noite. Ao invés de ir para a cama dirigiam-se, como rebanhos, às igrejas, ou seguiam as várias procissões do Santíssimo Sacramento, que desfilavam pelas ruas sombrias.

 

Com permissão do Padre Alonso Velasquez, Rosa deixou sua ermida tranqüila, e apressou-se para São Domingos em companhia de algumas amigas. Seu coração oscilava entre dois desejos. Se aos holandeses fosse permitido saquear a cidade, ela poderia ter oportunidade de morrer mártir. Já que isto lhe era negado, milhares de vidas seriam salvas.

 

A custo conseguiu um lugar na capela de S. Jerônimo na igreja dominicana, e aí ajoelhou-se, sorrindo ao pensamento de alcançar a. coroa do martírio e ir diretamente para o céu. Se os holandeses viessem, ela, certamente, não faria o menor esforço para esconder-se. Empunhando o rosário, daria a vida em defesa do Santíssimo Sacramento. Quando surgiu a cinzenta madrugada, a cena era bem diferente daquela da noite anterior. O povo cantava nas ruas, fora-se a ansiedade e o temor de algumas horas antes. A última mensagem de Callao anunciava que durante a noite os navios holandeses tinham levantado a âncora, e estavam fora de vista.

 

- E’ um milagre! – disse a seu esposo dona Maria de Usátegui. – Estou certa que nossa Rosa é responsável. Dom Gonçalo, não acha também que ela possa ter oferecido sua vida a fim de poupar Lima à destruição?

 

Dom Gonçalo concordou.

- Não me surpreenderia, – disse ele. – Ela tem mais coragem e caridade que qualquer outra moça que eu conheço.

 

Outros havia que partilhavam a mesma opinião. Naquele momento, como acompanhamento ao repicar festivo dos sinos, vibrava pelo ar um só grito:

 

“As orações de Rosa Flores nos salvaram da desgraça!”.

Em companhia de sua mãe e das amigas, Rosa seguiu vagarosamente para casa. Sentia-se cansada e um tanto confusa. Por que havia o povo de pensar que suas preces fossem tão poderosas. Não compreendiam que sua salvação era devida apenas à misericórdia de Deus? Ela, Rosa Flores, era menos que pó, e indigna de qualquer honra.

 

“Alegro-me, porém, que tenhais salvado a cidade, Senhor!” – pensou ela. – “E não estou muito triste porque não me concedestes o martírio. Afinal de contas, dais a cada um urna espécie de martírio neste mundo. E’ bastante uma sorte comum, sem espadas, sem balas, sem fogo – nada mais que nossas pequenas aflições e contrariedades. Se as suportarmos alegremente, podemos agradar-vos como os santos mártires”.

 

Foi poucos dias depois que o padre Alonso Velasquez veio ao eremitério de sua jovem amiga. Trazia algumas notícias muito especiais. Rosa estava para deixar a casa de seus pais ” e ir morar com Dom Gonçalo e sua esposa. Dona Maria fora vê-lo recentemente e assegurara-lhe que a saúde de Rosa estava declinando, que a vida de eremita era excessivamente dura para ela.

 

- Você tem sorte que Dona Maria e Dom Gonçalo pensem tanto em você, – disse o padre Alonso. – São gente muito rica e seu único desejo é ver você forte e bem. Terá um esplêndido lar em casa deles. Rosa não pôde ocultar sua perturbação.

 

- Mas como posso deixar minha própria família, padre? – Meus pais já não são jovens. Eles precisam de mim.

O sacerdote sorriu.

- Você sabe o que é obediência, Rosa? E’ meu desejo que você acabe com essa vida de dureza. Eu quero que vá para a casa dos Massas e tente recuperar a saúde.

Rosa permaneceu silenciosa. Como membro da família dominicana devia obediência a seus superiores. Se o padre Alonso achava melhor para ela viver em outra parte, não competia a ela escolher e sim fazer o que lhe era ordenado.

- Irei, – respondeu. – Mas não estou realmente doente, padre. Nosso Senhor deu-me ainda dois anos mais para servi-lo.

 

- Você viverá mais do que isto, minha filha, se tomar cuidado consigo. De agora em diante vai pensar mais em sua saúde.Assim Rosa foi morar com Dom Gonçalo e Dona Maria. Desde o começo ela declarou aos dois bondosos amigos que desejava apenas um simples quartinho e que era seu desejo ser útil, cuidando das crianças.

 

Micaela e Beatriz, as filhas mais velhas do casal, esforçaram-se para que a hóspede se sentisse como hóspede de honra, e que não era necessário ocupar-se em trabalho algum em seu novo lar. Pouco conseguiram, entretanto. Havia muito que Rosa se, apaixonara pela humildade.

 

- Ela é na verdade uma santa – disse Micaela à sua irmã. – Não me surpreenderia vê-la canonizada logo após a morte.

 - Somos realmente felizes em tê-la aqui conosco, observou Beatriz.

-Algum dia esta nossa casa será famosa. Virá gente de todo o mundo só para ver o quartinho em que Rosa viveu.

 

Dona Maria concordou.

- Não se passa um dia sem que eu agradeça a Deus por permitir que ela entrasse em nossa intimidade. Contudo, ela me preocupa um pouco…

- Porque ela diz que vai morrer daqui a dois anos? No dia de S. Bartolomeu?…

- Exatamente. Ela terá então trinta e um anos. E’ muito cedo para que ela nos deixe.

D. Gonçalo animou a esposa:

- Com boa alimentação e bastante repouso, o caso será diferente, Maria. Olhe o seu pai. Tem noventa e três anos. Se Rosa puxar a ele, ficará conosco ainda muito, muito tempo..

Assim escoaram-se o dias. Rosa tinha saudades de sua celazinha no umbroso jardim, mas andava sempre ocupada. Durante anos tinha-se apurado em trabalhos de agulha, e no solar dos Massa continuou essa atividade, fazendo roupas para as crianças pequenas e toalhas para os altares de várias igrejas. De vez em quando entretinha a família e os servos, tocando harpa, citara, ou guitarra. Sua voz bem timbrada, doce e clara, deixava todos enlevados.

 

O padre Alonso insistira em que ela não se cansasse com excessos de orações e sacrifícios demasiados, de modo que Rosa levava agora uma vida mais aliviada. Nunca esqueceu, porém, que se dedicara à salvação de almas. Nem uma hora se passava, que não oferecesse uma curta oração pelos pecadores. Uma de suas favoritas era o inicio do Salmo 69: “Vinde, Senhor, em meu auxílio, apressai-vos em socorrer-me”. Numerosas eram também as jaculatórias que proferia, pois tomavam pouco tempo para dizer e eram ricas de indulgências.

 

A maior, entretanto, era o Santo Sacrifício da Missa – a mais importante oração. Quando era uma eremita no jardim de seu pai, recebera uma graça maravilhosa: tivera o privilégio de assistir em espírito, através da janelinha de sua cela, a todas as missas celebras nas igrejas de Lima.

 

Transformada em membro da família de Dom Gonçalo, a preciosa graça continuava, e a jovem terceira dominicana sempre aplicava o mérito daquelas missas ao bem do próximo. Às vezes Dona Maria olhava sua hóspede um tanto assombrada. Era uma grande honra ter Rosa morando em sua casa, mas, também, um pouco amedrontador. A moça fazia milagres tão abertamente, conversava com os santos e os anjos, e as pessoas acorriam constantemente à porta, pedindo orações e anunciando curas de várias espécies, e esses clientes não eram só pobres e ignorantes. Havia entre eles, por exemplo, nada menos que o Prior do convento dominicano de Santa Maria Madalena, o padre Bartolomeu Martinez. Este santo sacerdote insistia em que fora curado de grave moléstia porque Rosa oferecera algumas preces por ele a S. Domingos. Havia também o caso de Maria Eufêmia de Pareja e seu filho Roderico. Embora a mãe tivesse sempre desejado que seu filho fosse padre jesuíta, Roderico mostrara pouca inclinação para a vida religiosa. A medida que o tempo passava, Maria Eufêmia se convencia tristemente da verdade: o que interessava ao rapaz eram os prazeres do mundo. Finalmente, ela foi ter com Rosa. Indubitavelmente, se a santa jovem rezasse nessa intenção, Roderico receberia a graça da vocação religiosa.

 

“E foi o que aconteceu – rememorava Dona Maria. – De uma hora para outra o rapaz reformou-se, e decidiu ser padre, se bem que na Ordem Franciscana, e não na Companhia de Jesus. Hoje, é o orgulho de sua mãe. Creio que nunca deixará de ser grata pelas orações de Rosa”.

 

Decorriam os meses e Dona Maria observava de perto sua querida hóspede. A jovem apresentava boa aparência, mas havia nela qualquer coisa que preocupava a dona da casa. Estava-se então no ano de 1617. Seria certo que Deus a chamaria em breve para o Céu?

 

“Não posso suportar a idéia de perdê-la”, pensava a boa mulher. “Ela tornou-se como filha para mim”. Rosa entristeceu-se ao pesar da sua mãe adotiva. Numa manhã de Abril aproximou-se dela humildemente:

- Dona Maria, quando eu estiver para morrer, serei atormentada por uma sede horrível. Quer dar-me água, então, quando eu a pedir?

A velha senhora tremeu num arrepio.

- Naturalmente, minha filha. Mas não falemos de morrer. Você está gozando muito mais saúde aqui, ultimamente.

Rosa sorriu.

- Há mais uma coisa. Eu desejo que somente a senhora e minha mãe preparem meu corpo para a sepultura.

Dona Maria fitou-a estarrecida e logo desatou em pranto. A festa de S. Bartolomeu estava tão perto… Quatro meses apenas…

- Não diga tal coisa, – implorou. – A vida não será a mesma se você nos deixar, Rosa.

Os receios da boa senhora começaram, entretanto, a desvanecer-se com a chegada do verão. Rosa estava a personificação da saúde. Até o padre Alonso concordou em que ela parecia muito bem.

- Eu a devia ter mandado para cá há muito tempo, disse a Dona Maria.

- A vida que ela levava em casa era por demais penosa. Dona Maria meneou a cabeça, confirmando.

- O sr. tem razão, padre Alonso. A criada dos Flores, Mariana, esteve aqui há dias. O que não me contou ela dos sacrifícios e orações de Rosa! Ainda não compreendo como alguém possa fazer tanto. O sacerdote sorriu.

- Tem sido assim anos e anos, Dona Maria; desde que Rosa tinha onze anos e viu com seus próprios olhos o paganismo que reina entre os índios andinos. Nessa ocasião ela ouviu o arcebispo Turibio profetizar que Quivi seria destruída. Bem sei o que aquelas palavras significaram para ela. E depois, vieram o terremoto e as enchentes de 1601 e ela jamais esqueceu as centenas de pessoas que pereceram miseravelmente em Quivi como castigo pela zombaria ao Arcebispo e à fé que ele tentou levar-lhes. Desde então toda a vida ela tem dedicado à salvação das almas por meio de orações e sofrimentos.

 

Aconselhada pelo sacerdote dominicano a não se preocupar quanto à profecia de Rosa sobre a morte próxima, Dona Maria e toda a família respiraram mais aliviados. E quando, em fins de Julho, Rosa pediu permissão para visitar sua ermitagem no jardim, não acharam nada de extraordinário nisto.

 

Durante a noite de primeiro de Agosto, porém, toda a casa despertou sobressaltada pelos gritos dolorosos que vinham de seu quarto. Dona Maria precipitou-se e foi encontrar sua hóspede atacada de doença mortal. Mal podia respirar e todo o corpo estava paralisado.

 

Imediatamente a aflita mulher mandou chamar o doutor João del Castillo e vários sacerdotes conhecidos de Rosa. Dom Gonçalo tentou consolar a esposa, mas ela agarrou-se-lhe aos braços desnorteada.

 

- Ela vai morrer, Gonçalo, e nada há que possamos fazer por ela! O tesoureiro da cidade de Lima, cuja fortuna e alta posição davam-lhe importância e notoriedade em todo o Peru, mal podia controlar sua própria aflição. Naqueles dois últimos anos, desde que viera morar com eles, Rosa parecia tão bem disposta e feliz. Vinha, agora, de súbito, esta calamidade, este espetáculo aflitivo, de uma mulher tão jovem, tão bela, a deixar este mundo tão precocemente.

 

- Ela descansará melhor, agora que o padre João de Lorenzana a ungiu, -pensou ele. – Quem sabe, se cuidarmos dela com toda a solicitude… Rosa, porém, apenas sorriu levemente ao ver os inúmeros remédios que traziam no afã de salvar-lhe a vida.

 

Um dia úmido de Agosto sucedeu ao outro, e ela continuava repetindo que o dia de S. Bartolomeu seria o último para ela na terra. Os mortais sofrimentos que lhe afligiam o corpo não podiam ser mitigados. Eram parte do pagamento ainda requerido para salvar do inferno certas almas. Foi na véspera da festa do Apóstolo que ela estendeu a mão enfraquecida.

 - Posso ver meus pais, Dona Maria? Eu queria dizer-lhes adeus. E quero pedir perdão a todos desta casa, por qualquer dificuldade que eu tenha causado.

A senhora acedeu pressurosamente. Maria de Oliva já lá estava, e os criados foram enviados com uma cadeira confortável a fim de trazerem o velho Gaspar Flores então com noventa e cinco anos.

 

Pelo dia em fora, toda sorte de visitantes desfilaram para dentro e para fora do quartinho de Rosa – homens e mulheres de quem fora tão amiga, outros médicos chamados na esperança de que a pudessem ajudar, sacerdotes das várias Ordens religiosas, todos impelidos pelo desejo de contemplar aquela jovem cuja fama de santa enchera toda a cidade. Somente Dona Maria de Usátegui, o rosto banhado em pranto, recusava-se a abandonar-lhe a cabeceira. Rosa começou a pedir água, porém os médicos disseram que ela não podia beber.

 

- Mas eu prometi! Eu prometi! – exclamava Dona Maria, lembrando-se daquele dia de Abril em que Rosa profetizara que havia de sofrer sede.

-Não posso faltar à minha promessa!

- Chiu!, – murmurou Dom Gonçalo. – Água pode fazê-la sofrer mais!

Quando se aproximava a meia noite, Rosa lançou um olhar às pessoas ajoelhadas no quarto. O palor mortal de seu rosto desaparecera e assumira um

aspecto mais belo que nunca.

 

- Por favor, não fiquem tristes porque vou deixa-los, murmurou.

 -Este é realmente um dia de felicidade!

- Rosa, minha querida, por que não me esforcei mais por compreender você? Perdoa-me, filha, a minha cegueira…

De um canto do quarto veio o murmúrio das vozes de Dom Gonçalo, sua mulher e das crianças que rezavam as orações pelos moribundos. Perto da porta aglomerava-se um grupo de negros, em cujas faces tisnadas rebrilhavam

as lágrimas. Rosa sorriu ainda uma vez a seus amigos; em seguida baixou os olhos para o crucifixo que o padre Alonso lhe dera.

- Jesus, ficai comigo…, – disse baixinho.

Rapidamente, Maria de Oliva levantou-se e agarrou uma vela acesa. Por alguns instantes permaneceu contemplando a frágil figura estirada no leito, e então falou, e sua voz era surpreendentemente calma:

- Está… está tudo terminado.

Todos se precipitaram para frente, e como a sinal dado, ecoaram de longe os sons dos sinos através da tranqüila escuridão. Meia-noite! A festa de S. Bartolomeu! E em cada convento de Lima, padres e freiras iniciavam o novo dia, cantando as orações litúrgicas em honra do Apóstolo.

Maria virou-se para seus companheiros. Havia um estranho olhar de contentamento em seu rosto cansado.

- Minha filhinha foi para o Céu! – disse tranqüilamente.

 

XII. O ORGULHO DO PERU

 

A madrugada veio encontrar as ruas de Lima repletas de gente que se apressava para a casa de Dom Gonçalo. A notícia da morte de Rosa espalhara-se como um incêndio e havia uma corrida ansiosa para conseguir relíquias. Entre os primeiros a chegar estava Alfonsa Serrano, íntima amiga da morta.

 

- Ontem à noite Rosa apareceu-me – declarou ela excitada. – Eu estava profundamente adormecida. De repente, pouco depois da meia noite, uma luz brilhante iluminou meu quarto. E no meio da luz vi Rosa, vestida como terceira dominicana, e brilhando como o sol. Ela disse-me que acabava de entrar no Paraíso.

 

O padre Alonso Velasquez, juntamente com outros visitantes, ouviu interessado o que Alfonsa contava. A moça fora uma das mais íntimas amigas de Rosa, e tinham feito uma combinação anos antes: aquela que morresse primeiro apareceria à outra, a fim de encorajá-la a continuar a vida de orações e boas obras.

 

- Parece que Rosa cumpriu a palavra, – disse sorrindo o padre. – Ela falecera poucos minutos antes de contar-lhe a respeito das belezas do Céu. Do mesmo modo apareceu também a várias outras pessoas, entre as quais, o doutor João del Castillo.

 

A manhã toda foi uma peregrinação em fila ao quartinho em que Rosa falecera, e, o que é mais estranho, ninguém se sentia triste. A visita da jovem morta, seu rosto mais belo do que jamais o tinham visto, enchia todos de alegria. Pairava no ar um estranho perfume, como de rosas e lírios recentemente colhidos, e que se sentia em toda a casa, mas especialmente junto do corpo.

 

- Não compreendo – disse Maria de Oliva ao padre Alonso. – Não vem, com certeza, daquela simples grinalda de flores que lhe pusemos sobre a cabeça!

- E’ um milagre, senhora – replicou o sacerdote. – E’ este o modo que Deus está escolhendo para patentear-nos a santidade de Rosa. A medida que os homens passavam e a casa se apinhava de gente, Dona Maria era assediada de pedidos para que mostrasse o que pertencera à querida morta. Atendendo, pôs à vista dos visitantes a estatueta milagrosa do Menino Jesus, “O Doutorzinho”, juntamente com o rosário, alguns quadros de santos e outros objetos. Havia também uma carta que Rosa escrevera a Dona Maria alguns anos atrás. Estava assinada “Rosa de Santa Maria”, o nome tão querido à filha de Gaspar, e que ela tomara no dia em que se tornara terceira dominicana.

Ao olhar a carta, Maria de Oliva lembrava-se daquela noite em que encontrara sua filha desfalecendo de fome na celazinha do jardim. No momento quis mandar Mariana ao armazém próximo comprar chocolate e açúcar com que fazer uma bebida reconfortante, mas Rosa pediu que não o fizesse. Em poucos minutos, afirmava, uma criada da casa dos Massa chegaria com o chocolate quente, já preparado, pois ela pedira ao seu Anjo da guarda que avisasse Dona Maria do súbito ataque de fraqueza que a acometera. “E assim aconteceu”, pensava a mãe. “Daí a pouco, àquela hora da noite, bateram ao portão do jardim. Quando fui abri-lo, lá encontrei a criada com um bule de prata cheio de delicioso chocolate. No dia seguinte ela escreveu esta carta a Dona Maria, agradecendo a gentileza”.

 

Finalmente D. Gonçalo pediu permissão para falar.

- Eu sempre soube que Rosa era uma santa, padre João, Agora quer ter a bondade de olhar isto?

O sacerdote virou-se para pegar o papel que D. Gonçalo lhe apresentava. Era um documento assinado por Rosa no leito de morte, pedindo aos padres de S. Domingos que lhe concedessem uma esmola: ser enterrada dentro do claustro

do seu convento.

- Estou certo que todas as Ordens religiosas em Lima desejariam possuir este santo corpo – apressou-se em explicar D. Gonçalo. – A fim de evitar dificuldades, eu disse a Rosa que seria um ato de humildade pedir ela a seus superiores na Ordem dominicana que lhe concedessem uma sepultura.

 

O padre João de Lorenzana examinou cuidadosamente o papel. Não havia dúvida quanto à autenticidade da assinatura de Rosa. – São quase quatro horas, – disse ele. – Acho que seria melhor levar o corpo agora para S. Domingos. Há muita gente aglomerada aqui. Na igreja haveria mais espaço.

 

Assim, pela última vez, Rosa foi acompanhada pelas ruas de Lima. A multidão era tal, e tão ansiosa por obter relíquias, que os soldados do Vice-rei, que tinham estado de guarda à casa dos Massa, tiveram que abrir caminho para a procissão. Em toda parte – dos balcões, das janelas, do limiar das portas – homens, mulheres, tentavam uma última vista à santa filha de Gaspar. O ar ressoava de exclamações pedindo a bênção da jovem lá do seu lugar no Paraíso. Nem causou a menor estranheza que os seis homens que carregavam o esquife fossem membros da “Audiência”, esse importantíssimo grupo de homens que assistiam o Vice-Rei no governo.

 

Sabiam que nada era bom demais para “La Rosita”, a Rosinha de todos, que se tornara o orgulho não só de Lima mas de todo o Peru. Lentamente foi a procissão coleando pelas ruas em direção à igreja dos dominicanos. Desaparecera a distinção usual de classes e raças. Nobres espanhóis marchavam lado a lado com mendigos índios. Escravos negros acotovelavam ilustrados professores. Realmente, tão densa era a multidão que Bartolomeu Lobo Guerrero, sucessor de Turíbio como Arcebispo de Lima, vira-se impossibilitado de chegar à casa de D. Gonçalo para presidir a procissão. A carruagem teve de fazer uma volta e ele foi esperar o corpo na igreja.

 

Aí foram colocados os santos despojos, numa elevada plataforma perto do presbitério. Um pequeno espaço foi reservado para que os doentes pudessem aproximar-se e implorar a cura. Logo se espalhou a notícia de que o corpo estava quente e flexível, como se ainda conservasse vida. E um grito maravilhado levantou-se quando a capela do Rosário, onde Rosa tanto gostava de rezar, foi vista banhada duma luz gloriosa e sobrenatural. “Outro milagre”, pensou o padre Luís de Bilbao, confessor de Rosa durante catorze anos. “A própria Mãe de Deus presta homenagem à nossa amiguinha”.

 

Devido ao costume peruano de fazer o enterro poucas horas depois da morte, aprestaram-se os preparativos para conduzir Rosa ao claustro do convento onde já se preparara a sepultura. Tal, porém, foi o protesto do povo que ainda não conseguira uma relíquia, que o Arcebispo consentiu em protelar o funeral. Seria realizado no dia seguinte, disse ele. Entretanto, o corpo permaneceria onde estava, de modo que todos pudessem venerá-lo com a devida devoção. Ficaria em exposição toda a noite na capela do noviciado.

 

Os planos do Arcebispo sofreriam, porém, uma mudança. Quando veio a madrugada, e o corpo voltou à igreja pública, o povo de Lima recusou separar-se de Rosa. Tão alto foi o coro de lacrimosas orações que os celebrantes do funeral mal se podiam ouvir. O Bispo de Guatemala, D. Pedro de Valência; nem podia crer no que via. Como se poderia realizar as cerimônias se continuasse aquele borborinho?

 

Finalmente veio outra ordem: o funeral seria adiado por mais vinte e quatro horas. A esta boa nova uma onda de alívio percorreu a multidão reunida na igreja. O povo gritava de júbilo. Havia agora uma oportunidade de conseguir um pedaço do branco hábito de lã que revestia o corpo da querida morta, ou mesmo uma das belas rosas que lhe rodeavam a fronte. Com o perpassar das horas, a excitação atingia o máximo. Todo mundo sabia que vários inválidos tinham ficado curados ao tocar o santo corpo. Um deles, um rapaz negro de dom anos, estava especialmente em foco. Nascera com os pés tão aleijados que nunca lhe fora possível andar. O mais que podia era arrastar-se sobre os joelhos. Impelido por sua grande fé no poder da intercessão de Rosa junto de Deus, tentara uma vez e outra alcançar o elevado estrado em que jazia o corpo, e insinuara-se em baixo, atrás das dobras do negro estofo de veludo ricamente decorado. Nem rogos nem ameaças conseguiram afastá-lo de seu refúgio. Por fim, “La Rosita”, ouviu-lhe as preces. Concedeu-lhe o uso normal dos pés, de modo que ele podia andar, correr, saltar como os outros meninos de sua idade.

 

- Olha o garoto agora! – dizia Dom Gonçalo à esposa. – Já viste tanta alegria no rosto de uma criança? Vê, está positivamente radiante. Está até ajudando outras pessoas a chegarem perto do corpo. Dona Maria concordou. Ela nunca duvidara que Rosa era uma santa. Agora, todo mundo concordava com ela, e no intimo de seu coração cantou um comovido Te Deum.

 

Entretanto o Arcebispo Bartolomeu Lobo Guerrero afligia-se, pois as horas passavam. Procurou, por fim, o prior de S. Domingos.

- Quantas vezes já vestiu novo hábito no corpo? perguntou. – Quatro ou cinco?

- Seis vezes, excelência. Tem havido incontáveis pedidos de pedaços do hábito como relíquia. Muita gente traz até tesouras escondidas na manga e nem os soldados do Vice-rei conseguem impedi-las de se aproximarem do corpo.

XIII. HEROÍNAS DE PRETO E BRANCO

Nos meses seguintes à sua morte, a fama de Rosa Flores espalhou-se por toda a América do Sul. Dia após dia, centenas de pessoas vinham a S. Domingos perdir-lhe orações. Visto terem os santos restos sido sepultados dentro do claustro solene do convento, mulher alguma tinha permissão de entrar para rezar à beira da sepultura. Afinal, incapaz de recusar os pedidos dos amigos da santa, o Arcebispo consentiu que o corpo fosse removido para a igreja pública. Nesta cerimônia, realizada a 19 de Março de 1619, cerca de dezenove anos depois da morte de Rosa, os restos mortais foram colocados numa urna dourada e depositados em um nicho próximo ao altar-mor.

 

O novo sítio, porém, tinha muitos inconvenientes. O povo ia e vinha continuamente pelo santuário, mesmo durante o santo Sacrifício da Missa. Por fim, as relíquias foram outra vez removidas, para a capela de Santa Catarina de Sena uma capelinha do lado da epístola do altar-mor. Os anos passaram e Maria de Oliva considerava com admiração a mudança que se operava em sua posição social… Tornara-se uma pessoa importante; raro era o dia em que não viesse alguém tributar-lhe honra, congratular-se com ela pelo fato de ser a mãe de uma santa. Muitos até deixavam consideráveis esmolas em agradecimento por algum favor alcançado pela intercessão de Rosa.

 

No entanto, não se tornou soberba. Seu caráter sofrera uma reforma notável desde a morte de Rosa, e era difícil crer que fosse a mesma pessoa que certa vez ridicularizara a Regra da Ordem terceira dominicana, e se deixara dominar pela raiva quando lhe fora dito que terminaria seus dias usando o hábito da família de S. Domingos.

“Deus me perdoe meus inumeráveis pecados” – pensava ela muitas vezes.

“Querida Rosa, roga por tua pobre mãe”.

A 10 de Fevereiro de 1624, a população de Lima afluiu para assistir à dedicação de um novo convento de mulheres o sexto a ser construído na cidade. Era o mosteiro de Santa Catarina, anunciado por Rosa quando ainda vivia como eremita no jardim de seu pai. Era o primeiro convento de freiras dominicanas a ser fundado em Lima, e as lágrimas corriam livremente pelas faces de Maria, enquanto assistia à Missa oferecida na nova capela. Sua filha bem-aventurada tinha razão. O padre Luís de Bilbao estava celebrando a primeira missa, e daí a alguns minutos Dona Lúcia de la Daga, cujo marido e cinco filhos tinham morrido alguns anos antes, acompanhada de sua jovem irmã Clara, ajoelhar-se-ia para receber o hábito dominicano.

 

Quatro anos depois, o mosteiro de Santa Catarina abrigava cento e quarenta e cinco freiras, número que em breve elevou-se a trezentos. Muitos padres explicavam o grande número de vocações, dizendo que aquelas que já viviam dentro dos muros de Santa Catarina, acreditavam que Rosa Flores estava entre elas. Sentiam que ela as ajudava com suas orações, que as tornaria santas. Que admiração que o convento florescesse? Não era só Santa Catarina de Sena a amiga especial e protetora; Rosa também cuidava do bem-estar da casa.

 

Urna tarde, logo depois das vésperas cantadas pelas irmãs de Santa Catarina, uma jovem irmã leiga procurou a prioreza, outrora Dona Lúcia de la Daga, agora Madre Lúcia da Santíssima Trindade. A jovem religiosa tinha um ar aflito.

- A irmã Maria está pior, Madre. Está chamando pela senhora a tarde toda.

A prioreza olhou-a surpreendida.

- Mas ela estava muito melhor esta manhã, irmã. O doutor João de Tejada mo afirmou.

A irmã leiga suspirou.

- Ela já passou dos setenta, Madre, e não é muito forte. Acho melhor a senhora vir já.

 

Assim Madre Lúcia encaminhou-se para a pequena cela onde a velha irmã jazia doente. Famosa em todo o Peru como mãe de Rosa Flores, a irmã Maria de Santa Maria era freira em Santa Catarina desde 1629. Mas fazia apenas quatro anos, e certamente a boa senhora não ia morrer ainda. A irmã Maria, entretanto, pensava de outro modo. Quando a porta se abriu e a prioreza se dirigiu rapidamente para seu lado, ela ergueu-se fracamente sobre um braço:

- Querida Madre Lúcia, Rosa disse-me que viria buscar-me quando eu morresse. Acho que será hoje à noite. A prioreza tateou nervosamente seu rosário. A irmã leiga tinha razão; a irmã Maria piorara desde a manhã. Seu rosto enrugado estava pálido e a respiração ofegante.

- Mas, querida irmã, não deve dizer tal coisa. Por que não pedir a Rosa que a cure? Ela já a ajudou antes tantas vezes.

- A cura? Para que havia eu de desejá-la? Estou velha, e pouco útil aos outros. Meu marido está morto, meu filho Fernando, minha Rosinha

 - ah! só quero ir para o céu, ser feliz com esses meus queridos!

 

Houve silêncio no quartinho, enquanto a doente reclinava novamente no travesseiro. Madre Lúcia contemplou-lhe as feições cansadas e mil lembranças lhe tumultuaram na memória. Os muros de Santa Catarina pareciam desfazer-se e ela voltava a ser uma jovem mulher, a esposa feliz de Antônio Perez de Monteja. Subitamente uma voz de menina ecoou-lhe aos ouvidos:

 

“Tudo isto passará, Dona Lúcia. Vosso esposo e filhos morrerão. Fundareis o mosteiro de Santa Catarina com vossa enorme fortuna. Minha própria mãe buscará e receberá de vossas mãos o hábito dominicano”. Como, então, estas palavras lhe pareceram impossíveis, naquele tempo distante em 1614. No entanto, tudo aquilo que Rosa havia predito era agora realidade. Antônio estava morto, bem como seus quatro filhos e sua filha. Gaspar Flores fora chamado para o descanso eterno e no mosteiro de Santa Catarina louvava-se a Deus, dia e noite.

De repente a enferma abriu os olhos.

- Rosa… Rosa… Onde estás?

Madre Lúcia estendeu a mão confortadora.

- Está tudo bem, minha querida. Rosa está no Céu. Não se lembra?

Ela vai ser canonizada pelo Santo Padre.

A irmã Maria meneou a cabeça.

- Eu me refiro à minha neta, Madre Lúcia. Podia eu ver Maria Rosa outra vez? Ela… ela me faz lembrar tanto a minha Rosinha…

A prioreza acenou afirmativamente.

- Claro que pode ver Maria Rosa. E chamarei também as outras, se quiser.

- Para rezar um pouco? Ah, sim, eu gostaria. Daí a pouco as irmãs estavam reunidas. A maioria ajoelhou-se no corredor, do lado de fora do quarto da irmã Maria, enquanto algumas rodearam o leito da moribunda. Todas, exceto uma, traziam o hábito branco da Ordem dominicana. Era uma menina de quinze anos, trajada com um simples

 

vestido preto. Era Maria Rosa Flores, cujo pai, Fernando, falecera quando ela era ainda pequena. Ao morrer-lhe a mãe, D. Francisco Lasso de la Vega, governador do Chile, enviara-a à sua avó, e, quando esta entrara para o convento de Santa Catarina, acompanhara-a.

 

A prioresa contemplou-a afetuosamente, quando ela entrou no quarto. Era uma linda menina, o retrato de sua santa tia, apenas com uma ligeira diferença, uma interessante marca de nascença em uma das faces  – uma minúscula rosa vermelha, o que sempre despertara grande curiosidade. Era como se Rosa Flores tivesse assinalado a filha de seu irmão preferido, um sinal que indicava ser a pequena sobrinha uma alma já escolhida de Deus.

- Entre, minha querida. A irmã Maria deseja falar-lhe. Maria Rosa dirigiu-se vagarosamente para o leito, com os olhos abertos de súbito receio.

- A senhora não vai morrer, vovó!? Não vai deixar-me sozinha. . .A irmã Maria sorriu à expressão ansiosa da menina.

- Acho que sim, meu bem. Mas não se preocupe. Estas boas religiosas cuidarão de você.

Maria Rosa caiu de joelhos. Não devia chorar. A vovó ia para o Céu.

Não sabiam todos em Lima que Rosa a guiaria diretamente ao trono de Deus?

- A senhora… a senhora não se esquecerá de mim?

- Esquecer você? Claro que não.

- Mas a senhora não podia viver um pouco mais, vovó? Não podia esperar até me ver vestida com o hábito dominicano?

A moribunda sorriu.

- Não, filhinha. Eu assistirei à feliz cerimônia lá do Céu. Ah!

não imagina que sorte a sua de ter, tão jovem, compreendido o valor de uma vocação religiosa. Sabe o que esta velha tola disse quando Rosa lhe anunciou que morreria como dominicana?

A mocinha acenou que sim, pois ouvira a história muitas vezes. Maria de Oliva afirmara que entraria num convento só depois de ter visto um elefante voar.

- Sim, vovó, eu me lembro. Mas a senhora não deve fatigar-se.

Experimente dormir um pouco. A senhora deu um profundo suspiro.

- Você tem razão, criança. Estou fatigada. Mas não vá embora. Fique aqui a meu lado.

Maria Rosa pôs a mão sobre a mão da avó, e por algum tempo reinou profundo silêncio. Subitamente a irmã Maria fez um esforço para falar. A superiora deu logo um passo para a frente…

- Que é, minha querida irmã?

- Peça às outras que comecem a rezar, sim? Eu . . . eu não tenho

mais muito tempo de vida.

A fundadora do convento de Santa Catarina saiu na ponta dos pés e da porta toda aberta deu um sinal. Imediatamente as religiosas no corredor e dentro do quarto começaram a cantar o “Salve Regina”, o velho cântico entoado pelos dominicanos sempre que um confrade está morrendo. Assim que a doce melodia vibrou pelo ar, uma campainha tilintou à distância. Pela última vez o capelão trazia o Sagrado Viático à mãe de Rosa Flores. A irmã Maria sorriu. Seus olhos, nos quais fulgia um brilho diferente, estavam fixos em alguma distante visão.

- Espere Rosa, – murmurou – ainda não.

Madre Lúcia reprimiu as lágrimas. Sentia-se, de repente, estranhamente feliz. Pairava no ar uma doce fragrância, aquele mesmo perfume que enchia a igreja de S. Domingos quando o corpo de uma santa descansava entre os altos e fúnebres círios. E embora não pudesse contemplar a visão, da qual gozava a velha irmã no limiar da morte, a prioresa não tinha a menor dúvida: uma santa viera cumprir uma santa promessa.

Fonte:MARY FABYAN WINDEATT. SANTA ROSA DE LIMA. 1586 – 1617.O ANJO DOS ANDES

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