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‘Meu Deus, eu Vos consagro a minha pureza

e Vos faço voto de perpétua castidade’

Santa Margarida Maria Alacoque

Biografia por Plínio Maria Solimeo

 Plínio Maria Solimeo Revista Catolicismo – Julho de 2004.

 Século XVII, o jansenismo — espécie de protestantismo mitigado, infiltrado dentro da Igreja — causava grandes danos entre os fiéis. Destruía nas almas a noção da misericórdia de Deus e da confiança filial que devemos ter em relação ao Pai Celeste, inculcando um temor desprovido de amor, inclinando os católicos a fugir dos Sacramentos, sobretudo da Sagrada Eucaristia.

 Foi então que Nosso Senhor Jesus Cristo apareceu a Margarida Maria Alacoque, jovem religiosa da Ordem da Visitação, para transmitir sua mensagem de misericórdia e confiança, expressa no Coração humano e divino do Verbo Encarnado. O culto ao Sagrado Coração de Jesus obteve a partir de então grande impulso e alastrou-se por toda a Igreja. Infelizmente, com a descristianização geral, hoje essa devoção — aliás, como tantas outras — perdeu praticamente todo o seu sentido de adoração, reparação e petição, tão necessários nos nossos tempos.

 A família de Santa Margarida Maria Alacoque

 Margarida foi a quinta dos filhos de Cláudio Alacoque e de Felisberta Lamyn, e nasceu a 22 de julho de 1647. Foi batizada três dias depois, tendo como padrinho um primo de seu pai, o Padre Antônio Alacoque, e como madrinha a senhora Margarida de Saint-Amour, esposa do senhor de Corcheval, Cláudio de Fautrières.

 Viviam com Cláudio Alacoque, além da mulher e filhos, a mãe viúva, Joana Delaroche; a irmã Benedita, casada com o primo Toussaint Delaroche, e seus quatro filhos; e sua tia-avó, Benedita Meulin, mãe de Toussaint.(1)

 Cláudio, além de exercer o cargo de tabelião em Lhautecour, era juiz dos senhorios de Terreau, Corcheval e Pressy, e também notário ordinário de Terreau e Corcheval, o que lhe dava certa importância na vizinhança e fartura em casa. Por isso, era presença indispensável em quase todos os casamentos e batizados locais, seja na qualidade de padrinho, seja na de testemunha.

 Deus queria Margarida desde o berço só para Si. “Ó meu único Amor – narra ela em sua autobiografia –, quanto vos não devo eu, por vos terdes adiantado a mim desde a mais tenra infância, tornando-vos o senhor e possuidor do meu coração, apesar de bem conhecerdes as resistências que ele vos havia de opor! Logo que tive consciência de mim, fizestes ver à minha alma a fealdade do pecado, imprimindo em meu coração tanto horror a ele, que a menor mancha me era insuportável tormento; e para me moderarem na vivacidade da minha infância, bastava dizerem-me que aquilo consistia em ofender a Deus; isto logo me continha, e me apartava do que eu queria fazer”.(2)

 Margarida teria uns quatro anos quando, a pedido da madrinha, foi morar com ela em seu castelo, em Beauberry. Queria a nobre dama, como era costume no tempo, cuidar da educação da afilhada.

 Na capela de Corcheval, aos cinco anos de idade, “sem saber o que dizia, sentia-me continuamente impelida a dizer estas palavras: ‘Meu Deus, eu Vos consagro a minha pureza e Vos faço voto de perpétua castidade’”.(3)

 Contemplativa desde a infância e devota de Nossa Senhora

 Afirma seu primeiro biógrafo: “Desde a infância lhe ensinou o Espírito Santo o ponto capital da vida interior, comunicando-lhe o dom de oração. Seu maior prazer era passar horas inteiras em oração; quando não a encontravam em casa, iam à igreja, onde deparavam com ela imóvel diante do Santíssimo Sacramento”.(4)

 No ano de 1654, Margarida, com oito anos, voltou para o lar paterno. Mas não para gozar por muito tempo da alegria da família reunida. Nesse ano morreu-lhe a irmãzinha Gilberta, e no seguinte o pai, aos 41 anos. Deixava a viúva com cinco filhos para cuidar (sendo que o caçula tinha apenas quatro anos), e uma situação econômica apenas equilibrada.

 A senhora Alacoque colocou os filhos mais velhos em colégios, e Margarida como educanda no convento das clarissas mitigadas de Charolles.

 Vendo sua precoce piedade, as monjas permitiram que fizesse a Primeira Comunhão aos nove anos de idade, quando o costume na época era aos doze. Afirma ela: “Esta comunhão derramou tanto amargor em todos os meus prazeres e divertimentos, que já não podia achar gosto em nenhum, apesar de os procurar com afã”.(5)

 Sinal de predestinação é a devoção a Nossa Senhora. E Margarida sempre a teve desde os albores da razão: “A Santíssima Virgem teve sempre grandíssimo cuidado de mim, e a Ela é que eu recorria em todas as minhas aflições. Foi Ela que me apartou de perigos muito grandes”.

 Antes mesmo de São Luís Maria Grignion de Montfort ter popularizado a devoção da Sagrada Escravidão a Nossa Senhora, Margarida consagrou-se a Ela como escrava.(6)

 Uma alma com uma vocação tão especial como a de Margarida Maria deveria seguir a trilha do sofrimento. Entretanto chegara ela aos 11 anos de idade sem praticamente ter conhecido de perto a cruz de Nosso Senhor. E Ele queria que sua filha predileta dela participasse.

 Uma grave doença, que alguns diziam ser reumatismo, e outros paralisia, pôs a vida de Margarida em perigo, obrigando a família a retirá-la do convento e levá-la para casa. A doença durou quase quatro anos. A menina ficou semiparalítica e tão magra, que “os ossos furavam-me a pele por todos os lados”, e não podia andar. Os médicos esgotaram toda a sua ciência sem nenhum resultado.

 Resolveu então consagrar-se a Nossa Senhora, prometendo-lhe que, se sarasse, seria uma de suas filhas. “Apenas fiz o voto – declara Margarida – fiquei logo curada da doença, com nova proteção da Santíssima Virgem, a qual tomou tão inteira posse do meu coração, que, olhando-me como filha sua, governava-me como coisa que lhe fora consagrada; repreendia-me por minhas faltas e ensinava-me a cumprir a vontade de Deus”.(7)

 Quando Cláudio Alacoque era vivo, devido à importância e prestígio de que gozava, todos viviam em paz em casa sob a autoridade paterna. Mas assim que ele morreu e Toussaint Delaroche tomou a direção dos negócios, sua mulher e sua sogra também se impuseram. E com tal tirania, que se tornaram as donas absolutas da casa: “Minha mãe tinha-se despojado da própria autoridade em sua casa, para a conceder a outras pessoas. […] Não tínhamos, pois, nenhum poder em nossa casa, nem nos atrevíamos a fazer coisa alguma sem licença. Era uma guerra contínua; e tudo estava fechado à chave, de sorte que eu muitas vezes nem sequer encontrava com que me vestir para ir à Missa, senão pedindo touca e vestido emprestados”.(8)

 Nosso Senhor queria dela, também nisso, uma virtude heróica: “Nem uma queixa, nem um desabafo ou ressentimento consentia Ele em mim contra aquelas pessoas; nem que eu permitisse que outros me lastimassem ou tivessem compaixão de mim”.(9)

 Margarida procurava seu consolo na oração. E o próprio Nosso Senhor quis ser seu mestre: “Mandava-me prostrar-me humildemente diante de Si, para lhe pedir perdão de tudo aquilo em que O tivesse ofendido”.

 Posta assim na presença do Senhor, Ele “tão fortemente absorvia o meu espírito, embebendo em Si a minha alma e todas as minhas potências, que não cometia distração alguma; pelo contrário, sentia o coração consumido em desejos de O amar. E daqui me nascia uma fome insaciável da Sagrada

 Comunhão e de sofrimentos

 A maior possibilidade de união com Nosso Senhor, que Ele nos deixou na Terra, é a que se dá na Sagrada Comunhão, na qual recebemos verdadeiramente o Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Jesus Cristo. Daí a “fome insaciável” que Margarida sentia da Sagrada Comunhão, encontrando diante do Santíssimo Sacramento todas as suas delícias. Ali sentia-se “tão absorta, que nunca me aborrecia. Ali passaria dias e noites inteiras sem comer nem beber, e sem saber o que fazia, consumindo-me em sua presença como uma tocha acesa, para pagar-lhe amor com amor”.(10)

 Em 1663 Margarida iria sofrer um rude golpe. Seu irmão mais velho, João, tendo acabado os estudos em Charolles, estava pronto a iniciar sua carreira de notário quando, aos 23 anos de idade, foi ceifado pela morte.

 O segundo irmão, Carlos Felisberto, tendo concluído igualmente os estudos, voltou para casa. Ele e a mãe conceberam então o plano de casar Margarida, já com 17 anos. A família Alacoque era bem relacionada e estimada em toda a região. E Margarida, sem ser rica, tinha o suficiente para um dote digno. Ainda que não se destacasse por especial formosura, não deixava de ter certos atrativos, sobretudo de espírito.

 A pressão que fizeram sobre a adolescente foi terrível. “Por fim, o terno amor da minha extremosa mãe começou a prevalecer. […] Comecei então a olhar para o mundo e a adornar-me para lhe agradar, procurando divertir-me quanto podia”.

 Mas, se ela era persistente em sua falta, Nosso Senhor era persistente em sua misericórdia: “Depois, à noite, quando tirava aquelas malditas librés de Satanás, isto é, os vãos enfeites, instrumentos da malícia dele, aparecia-me o meu soberano Senhor, como na flagelação, completamente desfigurado, fazendo-me terríveis queixas: que as minhas vaidades o tinham reduzido àquele estado; que eu perdia um tempo tão precioso, de que Ele me havia de pedir rigorosa conta à hora da morte; que o atraiçoava e perseguia, depois de Ele me ter dado tantas provas de amor e me ter mostrado todo o seu desejo de que eu me tornasse semelhante a Ele”.

 Novos sofrimentos e ação da divina misericórdia

 A cena era pungente. E a alma de Margarida não era insensível a tantas graças: “Tudo isto se imprimia em mim tão fundamente, e me fazia tão dolorosas feridas no coração, que eu chorava amargamente; ser-me-ia muito difícil explicar tudo quanto sofria e se passava em mim”.(11) Para compensar, entregava-se ela às mais terríveis penitências.

 E eis que faleceu quase repentinamente, em 25 de setembro de 1665, Cláudio Felisberto, também na idade de 23 anos. Foi nova provação para a família. Só restavam, além de Margarida, Crisóstomo, o penúltimo, e Jaime, o caçula, que queria seguir a carreira eclesiástica.

 Narra Margarida: “Estando como engolfada num abismo de espanto, por ver que tantos defeitos e infidelidades minhas não eram capazes de O afastar de mim, deu-me o Senhor esta resposta: ‘É que me apraz fazer de ti como que um composto do meu amor e das minhas misericórdias’”.(12)

 Correspondendo à graça, define sua vocação

 A intimidade com que Nosso Senhor lhe aparecia e falava é de pasmar. Ela como que vivia na presença perceptível de Deus.

 Entretanto, “porque era muito débil”, Nosso Senhor pediu consentimento para se assenhorear de sua liberdade. “Não pus dificuldade nenhuma em consentir; e desde então [Nosso Senhor] apoderou-se tão fortemente da minha liberdade, que nunca mais gozei dela em todo o resto da minha vida”.(13)

 Isto, é claro, é um modo de dizer, pois Deus não tira a ninguém o livre arbítrio. O que na realidade se dava é que Nosso Senhor fortificava de tal modo a sua vontade, por meio de graças especiais, que esta já não vacilava. O que corresponde ao máximo grau de liberdade, que é o conformar a própria vontade livre com a soberana vontade de Deus. Livres, verdadeiramente, não são os que pecam, mas os que, podendo fazê-lo, não o fazem.

 Margarida resistiu durante três anos às pressões que lhe faziam para casar-se. Com o auxílio de um missionário que pregava missões na região, conseguiu finalmente convencer Crisóstomo e a mãe de que seu lugar era no convento.

 No dia 25 de agosto de 1671, festa de São Luís Rei, ela tomou o hábito de noviça: “Estando já revestida do nosso santo hábito, meu divino Mestre fez-me ver que era chegado o tempo dos nossos esponsais, que davam a Ele novo domínio sobre mim e me traziam dobrada obrigação de O amar com amor de preferência”.(14)

 Margarida banhava-se em lágrimas, cuja razão ninguém sabia explicar, parecia afogueada e meio fora de si; quebrava as coisas, e parecia incapaz de qualquer serviço.

 Ora, essa via mística não era própria do convento da Visitação. Por isso, outras religiosas apontavam-lhe o comportamento como singular, e as superioras ordenavam-lhe que se conduzisse como todas as outras, sob pena de não admiti-la à profissão, o que causava grande perplexidade à noviça e era nova fonte de sofrimentos.

 Mudara a superiora na Ascensão de 1672. A nova era Madre Maria Francisca de Saumaise, professa do mosteiro de Dijon, que havia sido dirigida desde seus primeiros anos pela própria Fundadora da Visitação, Santa Joana de Chantal. Havia entrado para a Visitação em Dijon aos 10 anos de idade, para ali proceder à sua educação; aos 15 anos era noviça, e no ano seguinte fez a profissão.

 Ela decidiu favoravelmente sobre a profissão da Irmã Margarida Maria.

 Quando esta transmitiu-lhe uma mensagem de Nosso Senhor, a Madre mandou-lhe que Lhe pedisse, como sinal de que era realmente Ele que falava, que a tornasse útil à comunidade pela prática de suas regras.

 “A isto – diz Margarida Maria – respondeu-me o Senhor em sua amorosa bondade: ‘Pois bem, minha filha, tudo isto te concedo; e eu te farei mais útil à Religião do que ela pensa, mas há de ser de uma maneira que até agora só eu sei; de hoje em diante acomodarei as minhas graças ao espírito da tua regra, à vontade de tuas superioras e à tua fraqueza; assim terás por suspeito tudo o que se apartar da exata observância da tua regra, que eu quero prefiras a tudo o mais”.(15)

 Algum tempo antes dos exercícios espirituais, Nosso Senhor apareceu a Margarida Maria e lhe disse: “Eu procuro uma vítima para meu Coração, a qual queira se sacrificar como uma hóstia de imolação para o cumprimento de meus desígnios”. Ela se prosternou e lhe apresentou “diversas almas santas que correspondiam fielmente a seus desígnios”. Nosso Senhor lhe respondeu: “Não, eu não quero outra senão tu”.

 Margarida protelava entretanto o pedido de permissão à Superiora: “Mas era em vão que eu lhe resistia, porque Ele não me deu repouso até que, por ordem da obediência, eu fosse imolada a tudo o que Ele desejava de mim, que era de me tornar uma vítima imolada a toda sorte de sofrimentos, de humilhações, de contradições, de dores e de desprezos, sem outra pretensão senão cumprir seus desígnios”.(16)

 Fez sua profissão no dia 6 de novembro de 1672. Como uma esposa, Margarida deveria participar agora, de um modo mais direto, dos interesses de seu divino Esposo, que a preparava para a grande missão de sua vida: receber e propagar a devoção ao Sagrado Coração de Jesus.

 “Meu Coração está abrasado de amor pelos homens”

 Estando diante do Santíssimo Sacramento no dia 27 de dezembro de 1673, Nosso Senhor lhe disse: “Meu divino Coração está tão abrasado de amor para com os homens, e em particular para contigo, que, não podendo já conter em si as chamas de sua ardente caridade, precisa derramá-las por teu meio, e manifestar-se-lhes para os enriquecer de seus preciosos tesouros, que eu te mostro, os quais contêm a graça santificante e as graças salutares indispensáveis para os apartar do abismo da perdição; e escolhi a ti, como abismo de indignidade e ignorância, para a realização deste grande desígnio, para que tudo seja feito por mim”.(17)

 E acrescentou: “Se até agora não tomaste senão o nome de minha escrava, eu te dou o de discípula dileta do meu Coração”.

 É bem provável que a Segunda Grande Revelação — da qual, infelizmente, não se consignou a data — tenha ocorrido numa primeira sexta-feira do mês no ano de 1674.

 Nosso Senhor lhe fez ver que “o ardente desejo que Ele tinha de ser amado pelos homens e de os retirar da via da perdição, onde Satanás os precipita em multidão, o havia feito formar esse desígnio de manifestar seu Coração aos homens. […] Ele queria a imagem exposta e portada sobre mim, e sobre o coração, para aí imprimir seu amor e cumular de todos os dons de que ele estava pleno, e para nele destruir todos os movimentos desregrados; e que, em toda parte onde essa santa imagem fosse exposta para aí ser honrada, Ele aí espalharia suas graças e bênçãos; e que essa devoção era como um último esforço de seu amor, com que queria favorecer os homens nestes últimos séculos, desta redenção amorosa, para os retirar do império de Satanás”.(18)

 “Excesso a que tinha chegado em amar os homens”

 A data da chamada Terceira Grande Revelação não ficou registrada. Ocorreu provavelmente em 1674, num dia em que o Santíssimo Sacramento encontrava-se exposto. Margarida entrou em êxtase e viu Nosso Senhor Jesus Cristo “todo radiante de glória com suas cinco chagas, brilhantes como cinco sóis; e a sua sagrada humanidade lançava chamas de todos os lados, mas sobretudo de seu sagrado peito, que parecia uma fornalha. […] Abrindo-o, descobriu-me seu amantíssimo e amabilíssimo Coração, que era a fonte viva daquelas chamas. Foi então que Ele me mostrou as maravilhas inexplicáveis do seu puro amor, e o excesso a que ele tinha chegado em amar os homens, de quem não recebia senão ingratidões e friezas”.(19)

 “Eis o Coração que tanto amou os homens”

 A mais conhecida de todas as revelações, e em certo sentido a mais importante delas, ocorreu segundo os estudiosos entre 13 e 21 de junho de 1675, dentro da Oitava da Festa do Corpo de Deus. Nosso Senhor, descobrindo-lhe o seu divino Coração, disse-lhe:

 “Eis o Coração que tanto amou os homens; que a nada se poupou até se esgotar e consumir, para lhes testemunhar o seu amor. E em reconhecimento não recebo da maior parte deles senão ingratidões, pelos desprezos, irreverências, sacrilégios e friezas que têm para comigo neste Sacramento de amor. Mas o que é ainda mais doloroso é que os que assim me tratam são corações que me são consagrados. Por isso te peço que a primeira sexta-feira depois da oitava do Santíssimo Sacramento seja dedicada a uma festa particular para honrar o meu Coração, reparando a sua honra por meio dum ato público de desagravo e comungando nesse dia para reparar as injúrias que recebeu durante o tempo que esteve exposto nos altares. E Eu te prometo que o meu Coração dilatar-se-á para derramar com abundância o influxo do seu divino amor sobre aqueles que Lhe renderem esta homenagem”.(20)

 Embora fugindo à ordem cronológica da biografia de Santa Margarida Maria, parece-nos oportuno apresentar aqui a chamada Grande Promessa, revelada já no fim da vida da vidente de Paray-le-Monial: “Eu te prometo, na excessiva misericórdia de meu Coração, que seu amor todo poderoso concederá a todos aqueles que comungarem em nove primeiras sextas-feiras do mês, consecutivas, a graça da penitência final, não morrendo em minha desgraça e sem receber os sacramentos, tornando-se [meu divino Coração] seu asilo seguro no derradeiro momento”.(21)

 Tantas graças da mais alta mística não podiam passar despercebidas, e refletiam-se no exterior de Margarida Maria, que andava como que transportada.

 Madre de Saumaise ficava cada vez mais confusa no julgamento que deveria fazer de Margarida Maria. Achava-a piedosa, obediente, dócil; entretanto não conseguia interpretar os fenômenos místicos que se passavam com ela. Acreditava na sua sinceridade, porém não tinha ciência teológica para julgar por si mesma o espírito que guiava Margarida. Por isso, julgou prudente fazer com que ela conversasse com alguns eclesiásticos e lhes expusesse o que com ela se passava, para ver que opinião formariam dela. E especialmente com o Padre la Colombière, recentemente nomeado diretor da casa dos jesuítas de Paray.

 Logo em sua primeira preleção às monjas, ele notou uma que o ouvia mais atentamente. A superiora informou-lhe que se tratava da Irmã Margarida Maria. “É uma alma visitada pela graça”, comentou o jesuíta.  Ao mesmo tempo, uma voz interior dizia a Margarida: “Eis aquele que te envio”.(22)

 Como os santos geralmente falam a mesma linguagem, o Padre la Colombière e a Irmã Margarida Maria logo se entenderam. Por ordem da Madre de Saumaise, “abri-lhe então, sem custo e com toda a lhaneza, o coração, e descobri-lhe o íntimo de minha alma, o bem e o mal”, relata Margarida Maria em sua autobiografia.(23)

 Cláudio la Colombière representou assim a caução humana das visões de Margarida Maria. Acontecesse o que fosse — e muita perseguição e incompreensão ainda teriam lugar —, um fato irremissível estava posto: o jesuíta afamado por sua prudência e segurança de juízo estava certo da autenticidade das visões da Irmã Margarida Maria.

 Nova Superiora prova Margarida Maria

 Madre Péronne Rosália Greyfié chegou para substituir a Madre de Saumaise, no dia 18 de junho de 1678. Ao contrário desta, de grande simplicidade e amabilidade, a Madre Greyfié era rígida e austera, e tomou o partido de fingir que ignorava tudo o que se passava com Margarida Maria, deixando-a até ser objeto de críticas da comunidade, mesmo em coisas por ela autorizadas. Entretanto, tinha-a em alta conta: “Eu notava ainda que as graças que Nosso Senhor lhe concedia serviam para aprofundá-la no baixo sentimento que tinha de si mesma, o que a fazia crer que todas as criaturas tinham o direito de a desprezar e criticar em tudo, levando-a a amar como um tesouro essas ocasiões, das quais ela teria querido somente excluir o que ofendesse a Deus, afligindo-se de ser a causa disso”.(24)

 Nosso Senhor lhe disse outro dia que, como havia feito em relação a Jó, o demônio pedira para tentá-la “no cadinho das contradições e humilhações, das tentações e desamparos, como o ouro no fogo”, e que Ele tudo permitira, exceto que a tentasse contra a pureza; que Ele estaria em seu interior como fortaleza inexpugnável, resistindo por ela. “Mas era necessário vigiar continuamente sobre todo o exterior, que do interior cuidaria Ele”. Desde então o demônio não lhe dava trégua, chegando mesmo, uma vez, a lançá-la do alto de uma escada com um braseiro na mão. Mas seu Anjo da Guarda amparou-a e ela nada sofreu.

 “Não haverá quem queira padecer comigo?”

 Indo um dia comungar, Margarida viu a sagrada Hóstia resplandecente como um sol. Em seu centro estava Nosso Senhor Jesus Cristo tendo uma coroa de espinho na mão. Colocou-a na cabeça de Margarida, dizendo: “Toma, minha filha, esta coroa em sinal da que em breve te será dada, para te assemelhares a mim”. A religiosa diz que no momento não compreendeu o significado daquilo, mas que bem depressa o soube por duas violentas pancadas que recebeu na cabeça, “de maneira que me parecia ter a cabeça rodeada de pungentíssimos espinhos, cujas picadas não acabarão senão com a minha vida”.(25)

 Na proximidade da Quarta-feira de Cinzas, provavelmente de 1681, Nosso Senhor apareceu-lhe depois da Sagrada Comunhão, “sob a figura de um Ecce Homo, carregando a Cruz, todo coberto de chagas e pisaduras, escorrendo o sangue por todo o corpo”. Disse-lhe: “Não haverá ninguém que tenha compaixão de mim e queira padecer comigo e tomar parte na minha dor, no lastimoso estado a que me reduzem os pecadores, sobretudo agora?”

 A generosa Margarida Maria prosternou-se junto aos pés divinos e ofereceu-se, em lágrimas e gemidos, para carregar a Cruz. Esta pareceu-lhe toda cheia de pontas de prego, e ela sentiu-se quase sucumbir sob seu peso. Com isso, diz ela, “comecei a compreender melhor a gravidade e malícia do pecado, que eu detestava tanto em meu coração, e mil vezes preferia precipitar-me no inferno em vez de cometer um só pecado voluntariamente”.(26)

 A devoção ao Coração de Jesus ia fazendo seu caminho, dentro e fora dos muros da Visitação. O Sagrado Coração queria entretanto muito mais. Desejava ser adorado pelas elites, pela nobreza do país e do mundo, mas também que essa vitória viesse por intermédio do mais poderoso monarca da época.

 Assim, incumbiu a sua fiel serva de transmitir ao Rei da França, Luís XIV — a quem chama afetuosamente “filho primogênito de meu Sagrado Coração” — a seguinte mensagem: Queria associá-lo ao triunfo de seu Sagrado Coração, prometendo-lhe, caso fizesse o que lhe era pedido, cobri-lo de glória ainda nesta Terra, como a nenhum outro Rei, e por fim conceder-lhe a glória do Céu.

 Não sabemos se o augusto destinatário tomou conhecimento da divina mensagem, nem se ela foi entregue ao confessor do Rei, Padre de La Chaise. Uma coisa, entretanto, é certa: os pedidos do Sagrado Coração de Jesus ao Rei Luís XIV jamais foram atendidos.

 Não viveria muito mais, porque não sofria mais

 Uma nova superiora, Madre Catarina Antonieta de Lévy-Châteaumorand, para aliviar ou para provar a Irmã Margarida, que apesar de ter somente 43 anos já estava muito enfraquecida pelas penitências e longas enfermidades, proibiu-lhe a hora de adoração noturna da quinta para a sexta-feira e todas as austeridades que ela praticava, exigindo-lhe mesmo a devolução dos instrumentos de penitência.(27)

 No mês de junho de 1690, Margarida dizia: “Eu não viverei muito mais, porque não sofro mais”. Com efeito, esta santa, considerada uma das maiores místicas da Igreja, entregou sua bela alma a Deus no dia 17 de outubro desse mesmo ano.

 NOTAS:

 1. Marguerite-Marie Alacoque, Sainte, Sa vie par elle-même, Monastère de la Visitation, Paray-le-Monial, Éditions Saint-Paul, Paris-Fribourg, 1993, Vie, p. 28, nota 4.

 2. Marguerite-Marie Alacoque, Santa, Autobiografia de Santa Margarida-Maria Alacoque, 4ª Edição, Editorial A. O., Braga, 1984, p.

 3. Autobiografia, p. 2

 4. Abbé Croiset, Abrégé de la vie de la soeur Marguerite-Marie Alacoque, religieuse de la Visitation Sainte-Marie, de l’aquelle Dieu s’est servie pour l’établissement de la dévotion au Sacré Coeur de Jésus Christ, décédée en odeur de sainteté le 17 octobre 1690, Lion, Tip. Antoine e Horace Molin, 1691, apud Bougaud, Mons., História da Beata Margarida Maria ou origem da devoção ao Coração de Jesus, tradução de José Joaquim Nunes, Porto, Imprensa Moderna, 2a edição, 1901, p. 36.

 5. Autobiografia, 5.

 6. Id., p. 22.

 7. Id., p. 6.

 8. Id., p. 8.

 9. Id.,  p. 9.

 10. Id., p. 12.

 11. Id., pp. 16-17.

 12. Id., ib.

 13. Id., p. 24.

 14. Id., p. 38

 15. Id., p. 43.

 16. Monastère de la Visitation – Paray-le-Monial, Vie et oeuvres de Sainte Marguerite-Marie, Éditions Saint-Paul, Paris-Fribourg, 1990, tomo 2, Lettres de la Sainte, Lettre CXXXIII, au R.P. Croiset, pp. 470 e ss.

 17. Autobiografia, p. 53.

 18. Lettres de la Sainte, Lettre CXXXIII au R.P. Croiset, 3 novembre 1689, Ms. d’Avignon, pp. 477 a 479.

 19. Autobiografia, p. 55.

 20. Cláudio la Colombière, Notas Íntimas e Outros Escritos Espirituais, prefácio e tradução de Joaquim Abrances, S.J., Editorial A.O., Braga, 1983, pp. 150-151.

 21. Lettres de la Sainte, Lettre LXXXVI, p. 297.

 22. Autobiografia, p. 80; Guitton S.J., Georges, Le Bienheureux Claude la Colombière – Son milieu et son temps 1641–1682, Librairie Catholique Emmanuel Vitte, Lyon, 1943, p. 237.

 23. Autobiografia, p. 80.

 24. Vie et Oeuvres, tomo 2., Contemporaines, p. 269.

 25. Contemporaines, pp. 266-267.

 26. Id., p. 108.

 27. Cf. Procès de 1715, Déposition de la soeur Marie-Lazare Dusson, apud Hamon, p. 497.

 Biografia por Luiz Carlos Azevedo

 Revista Catolicismo – Julho de 2004.

 Certa vez, São Francisco de Assis encontrou um religioso que lhe perguntou:

 –– Por que essa multidão, que acorre em direção a vós? Por que todo esse respeito e veneração?

 Ao que São Francisco respondeu:

 –– Deus percorreu todo o mundo com seu olhar à procura da mais miserável criatura, pela qual pudesse Ele manifestar o seu poder. Seu olhar santíssimo, debruçando-se sobre a Terra, não encontrou nada de mais vil, de tão baixo, pequeno e ignóbil quanto eu. Daí a sua escolha!

 Não entramos no mérito dessa afirmação de São Francisco de Assis. Aqui nos importa apenas ressaltar que esse episódio contém uma grande lição.

 Deus tanto pode agir através de um instrumento humano altamente qualificado –– é o caso, por exemplo, de Santo Inácio de Loyola, nobre, inteligente, vontade de ferro, fina sensibilidade –– como pode, pelo contrário, escolher um instrumento humanamente inepto, para dessa forma deixar bem patente que a eficácia da ação decorre unicamente d’Ele, que está no Céu.

 Se considerarmos a vida de Santa Margarida Maria Alacoque (16471690), escolhida pela Providência para a missão de confidente do Sagrado Coração de Jesus –– a cuja devoção a Santa Igreja dedica o mês de junho ––, constatamos precisamente a aplicação deste último princípio.

 O próprio Nosso Senhor, numa de suas aparições, diz por que a escolheu: “Eu te escolhi como um abismo de indignidade e de ignorância para o cumprimento desse grande desígnio, a fim de que tudo seja feito por Mim”.

 Santa Margarida, entretanto, contava com duas coisas: seu amor a Deus e seu devotamento. Ela pode não saber nada, mas ela ama e obedece ao chamado divino, e nisto está sua glória, que resplandecerá até a consumação dos séculos.

 Nasceu Margarida Maria em Verosvres (França), em 1647. Apenas adquirido o uso da razão, fez voto de castidade perpétua.

 Contrariamente ao que sucede aos homens e mulheres comuns, desde cedo fez ela com que os seus interesses gravitassem não em torno de si mesma, mas da Pessoa divina de Nosso Senhor Jesus Cristo.

 Santa Margarida foi uma dessas almas privilegiadas, atraída insistente e eficazmente pela graça divina para fazer de Deus, de Nossa Senhora e da Igreja o centro de suas cogitações e de suas vias. E nessas disposições viveu os quarenta e três anos de sua vida.

 Desde criança, brincando com outras de sua idade, sentia-se impelida, por um movimento interior, a isolar-se e a elevar sua mente a Deus. E a santa se voltou precisamente para a Santíssima Virgem, colocando-A no centro de sua piedade, para assim chegar mais facilmente a Nosso Senhor.

 A Mãe de Deus também a repreendia, quando era o caso. Assim, sendo ela ainda pequena, contra o seu costume, deixou um dia de rezar o terço com os joelhos em terra para fazê-lo sentada. Nossa Senhora lhe apareceu então com o olhar severo, e lhe disse: “Estranho muito, minha filha, que me sirvas com tanto desleixo”…

 Já mocinha, para comprazer a seus parentes, deixou-se algumas vezes enfeitar para comparecer a reuniões sociais, o que, dada a sua vocação, não estava bem. Narra Santa Margarida que certa noite, quando tirava aquelas malditas librés de Satanás, instrumentos da malícia dele, apareceu-me o meu soberano Senhor, como na Flagelação, completamente desfigurado, fazendo-me terríveis queixas: que minhas vaidades O tinham reduzido àquele estado, e que eu perdia um tempo tão precioso, de que Ele me havia de pedir rigorosa conta à hora da morte; que eu O atraiçoava e perseguia, depois de Ele me ter dado tantas provas de amor, e apesar do seu desejo de que eu me tornasse semelhante a Ele.

 Desde a adolescência foi ela favorecida por extraordinárias visões de Nosso Senhor com a Cruz aos ombros a caminho do Calvário. Tais aparições passaram a ser constantes –– o que é raro na vida dos santos –– quando ela, aos vinte e quatro anos, ingressou no Mosteiro da Visitação (Congregação fundada por São Francisco de Sales e Santa Joana de Chantal) em Paray-IeMonial (França).

 Tantas e tais eram as aparições, não só de Nosso Senhor, como ainda da Santíssima Trindade, de Nossa Senhora e de seu próprio Anjo da Guarda, que ela chegou a exclamar: Suspendei, meu Deus, esta torrente de graças que me abisma, ou então dilatai minha capacidade para recebê-las.

 Essas visões constantes duraram dois anos, de 1671 a 1673. Andava Santa Margarida Maria Alacoque tão absorta em Deus, que suas orações mais pareciam êxtases. Freqüentemente passava doze horas ininterruptas rezando na capela do Mosteiro, em completa imobilidade.

 Até então, entretanto, Nosso Senhor não lhe havia revelado os segredos de seu Sagrado Coração. Tal manifestação só teve início a 27 de dezembro de 1673, na festa de São João, quando a santa rezava diante do Santíssimo Sacramento.

 Seis meses depois, Nosso Senhor apareceu-lhe em todo o esplendor de sua glória, com as cinco chagas brilhando como sóis e o Sagrado Coração à semelhança de uma fornalha ardentíssima. Pediu nessa ocasião a comunhão reparadora das primeiras sextas-feiras de cada mês, e que todas as semanas, das onze às doze horas da noite de quinta-feira, ela estivesse prostrada com a face na terra, em expiação pelos pecados dos homens e para consolar o seu Coração do abandono universal a Que O haviam relegado os homens.

 Eis aí o caráter principal da nova devoção e o ponto em que essencialmente ela difere de todas as que a precederam: Nosso Senhor pede um DESAGRAVO ao seu Sagrado Coração, dolorosamente ultrajado pelas “ingratidões, irreverências, sacrilégios, tibiezas e desdéns que manifestam em relação a Mim”.

 A terceira e última dessas maravilhosas comunicações celestes realizou-se a 16 de junho de 1675. Nosso Senhor pediu-lhe então que fosse estabelecida na Igreja uma festa particular em honra de seu Coração, havendo nesse dia, no mundo inteiro, comunhões em reparação e desagravo das ofensas de que Ele tem sido objeto.

 Após o que, a santa começou a sofrer sua própria paixão. A saúde faltou-lhe por completo, e às dores físicas somaram-se as morais: dúvidas, dificuldades, contradições. As perseguições também não lhe foram poupadas, nem mesmo da parte de freiras e sacerdotes que não acreditavam em sua missão sobrenatural.

 Efeitos do jansenismo

 Santa Margarida viveu na época em que o jansenismo* mais devastações fez na França, tornando as almas tacanhas e estreitas, suspeitando de toda manifestação sobrenatural. Por isso, as superioras do Mosteiro de Paray-le-Monial, ao receber as confidências daquela noviça tão desprovida de talentos –– cujo contínuo recolhimento e absorção nas coisas celestes eram tomados por timidez excessiva ––, ficaram sobressaltadas. Julgaram-na alvo de alucinações, seguidora de uma via estranha, sujeita a embustes do demônio e ilusões. Assim sendo, não queriam admiti-la à profissão religiosa, pois julgavam ser outra a via da Ordem da Visitação.

 Alarmada, Margarida Maria recorreu a Nosso Senhor: “Diga à tua superiora que não tem nada que temer em te receber, porque Eu respondo por ti; e que, se Me tem por bom pagador, Eu te servirei de fiança”. A superiora quis, como sinal de que era Ele realmente Quem a animava, que Nosso Senhor concedesse à noviça a graça de se tomar útil à Religião…

 “Eu te farei mais útil à Religião do que ela pensa – respondeu o Redentor –, mas há de ser de uma maneira que até agora só Eu sei. De hoje em diante acomodarei as minhas graças ao espírito de tua Regra, à vontade de tuas superioras, e à tua fraqueza. Deixa que façam de ti o que quiserem. Eu saberei empregar o melhor modo de levar a bom termo os meus desígnios”.

 Contra si mesma, Santa Margarida viu tudo se levantar. E ninguém se juntou a ela. Entretanto, ela triunfou, triunfa e sobretudo triunfará. Sem genialidade nem grandes dotes naturais, sem aliados, conquistou Santa Margarida Maria Alacoque a glória da qual ela fugia, e que também parecia fugir dela. Quis Deus que ambas Santa Margarida e a glória –– se encontrassem, no tempo e na eternidade!

 Notas:

 * Jansenismo: Heresia do holandês Cornélio Jansênio, Bispo de Ypres (1636), especialmente clara em sua obra Augustinus No ano de 1620 Jansênio chegou à conclusão de que só ele, até então, compreendera o verdadeiro pensamento de Santo Agostinho (daí o nome Augustinus dado à sua obra) sobre a graça e a predestinação. Em suas elucubrações ele negava a liberdade humana, partindo do princípio de que a graça divina é concedida a certos homens desde o nascimento, e recusada a outros.

 As cinco proposições-chave dessa nova heresia foram submetidas a Roma – após sérios estudos feitos na França, na Universidade da Sorbonne – e condenadas na bula papal Cum occasione, de Inocêncio X, datada de 31 de janeiro de 1653. Posteriormente, os papas Alexandre VII (em 1656) e Clemente XI (em 1705) voltaram a condená-las.

 Obras consultadas:

 1. Vie et Revelations de Sainte Marguerite-Marie Alacoque écrites par elle-même, Imprimerie St-Paul, Barle-Duc, França, 1947.

 2. Ernest Hello, Physionomies des Saints, Perrin et Cie., Libraires.Éditeurs, Paris, 1900.

 3. A entronização do Sagrado Coração de Jesus nos lares pela consagração solene das famílias a este divino Coração –– Manual publicado pela Congregação dos Sagrados Corações (Picpus), Braine-le-Comte, Bélgica, 1926.

 4. Dom Guéranger, L’Année Liturgique, Pe. Croiset, SJ, Ano Cristão.

 Santa Margarida Maria Alacoque nasceu na aldeia de Lautecour, na Borgonha, no dia 22 de Julho de 1647, no seio duma família religiosa, honesta, de boa posição, reputação e de seriedade. Seu pai, Claude Alacoque, era notário real. Sua mãe, Philiberte Lamyn era filha também dum notário do rei, François Lamyn.

 Biografia

 

 

Horror ao pecado

 Os seus pais perceberam logo o horror que Margarida Maria tinha pelo pecado quando ainda era pequena de três anos. Bastava lembrar-lhe que um ato qualquer ofendia a Deus para que a menina se afastasse horrorizada. Nas suas memórias a Santa afirma que Deus lhe fez ver “o grande horror do pecado, o que me horrorizou tanto que a mais mínima mancha resultava para mim num tormento insuportável.” (1)

 A essa aversão ao pecado acrescentou-se logo um agrado muito grande pela oração e pela penitência, juntamente com uma tendência enorme para ajudar os pobres. “Deus, escreve a Santa, deu-me um amor tão terno pelos pobres que eu teria desejado só ter contato com eles. Ele incutiu-me uma compaixão tão grande pelas suas misérias que, se estivesse em meu poder, abandonaria tudo por eles. Quando tinha dinheiro, dava-o aos pobres para os estimular a aproximarem-se de mim e então ensinava-lhes o Catecismo e a rezar.” (2)

 Dos quatro aos sete anos, ou seja entre 1652 e 1655, seguindo um costume comum na época, foi morar no castelo de sua madrinha, Madame de Corcheval, dama nobre da região. Ali, num ambiente sereno e austero, começou a sua formação.

 Duas senhoras ocupavam-se da sua educação. Uma era simpática e gentil. Margarida Maria, porém, fugia dela. A outra era severa e impertinente. Curiosamente Margarida sentia atração por esta última. Ninguém conseguia compreendê-lo. Mais tarde perceberam que este fato era mais um sintoma de que a proteção divina pairava sobre a menina. A primeira senhora levava uma vida irregular; a segunda era de uma conduta sem mancha. Nisto se manifestava o seu horror instintivo ao pecado.

 A sua educação teve de ser interrompida quando morreu Madame de Corcheval. A sua afilhada tornou à casa paterna. Mas em 1655, no mesmo ano da morte de sua madrinha, falece também o seu pai. A mãe, com o objetivo de melhorar a situação patrimonial que o marido deixara complicada, e não dispondo do tempo necessário para providenciar a educação da filha, mandou-a como pensionista para um convento de Clarissas, o que era muito freqüente então.

 No silêncio dos claustros, refletindo durante longas horas no recolhimento e observando a modéstia e o espírito de oração das irmãs, Margarida sentiu o chamamento à vida religiosa. Foi ali onde, por volta dos nove anos, recebeu pela primeira vez Jesus Sacramentado. A partir de então, as graças na oração e o seu gosto pelo recolhimento aumentaram sensivelmente.

 A jovem Margarida Maria tinha de completar junto às Clarissas a educação que recebia habitualmente uma menina de sua condição para ser mãe de família e também dama de sociedade. Isto significava uma sólida formação moral, na qual se punha especial cuidado nos hábitos de modéstia, discrição e domínio de si mesma.

 Tal educação completava-se com o ensino da arte da conversa, música, pintura, dança… que desenvolviam a delicadeza, o tato, o bom gosto. Dessa forma florescia nas pensionistas o sentido da proporção, da naturalidade bem educada, ao mesmo tempo que recebiam uma capacidade de julgar as pessoas e os fatos.

 Judiciosa, sensata e caritativa

  O seu espírito equilibrado e alguns traços da educação recebidos por Santa Margarida Maria foram entendidos mais tarde pela Madre Greyfié, uma das suas superioras em Paray-le-Monial, que a descreveu assim: “Era naturalmente judiciosa, sensata e tinha um espírito bom, humor agradável e o coração mais caritativo que se possa imaginar; numa palavra pode dizer-se que era uma criatura das mais aptas para ter êxito em tudo.” (3)

 No pensionato das Clarissas, Margarida Maria contraiu uma doença grave, pelo que foi preciso reenvia-la à casa da mãe. Ali permaneceu cerca de quatro anos prostrada na cama, sem conseguir levantar-se. Deus Nosso Senhor visitava-a com o sofrimento. Só em 1661 recuperou a saúde depois de fazer um voto à Santíssima Virgem.

 Na sua casa, outra situação muito dolorosa a aguardava. Sua mãe tinha transferido a gestão do patrimônio a um cunhado, Toussaint Delaroche, homem avaro e de temperamento irritável. A Santa suportou durante anos a quase escravidão a que a submetiam as injustiças do tio. Às vezes tinha de mendigar pão ao vizinho. A casa materna transformou-se então numa prisão torturante. “Não tínhamos já nenhum poder em casa e não ousávamos fazer nada sem seu consentimento”, escreveu a Santa. Passava horas num canto do jardim a rezar ou refugiava-se na capela da aldeia. Mas nem sequer lá encontrava repouso: o tio acusava-a de sair de casa para ver os rapazes. “Às vezes os pobres da aldeia, por compaixão, davam-me um pouco de pão, de leite ou alguma fruta na parte da tarde”. (4)

 Reparação, desagravo, amor à Cruz

  Deus permitia esses sofrimentos para a preparar para a vida de renúncia e expiação que depois abraçaria com entusiasmo. Santa Margarida Maria devia pregar a devoção da reparação o do desagravo ao Sagrado Coração de Jesus; precisava ser um modelo dessa atitude de alma. Os sofrimentos desta etapa da sua vida, aceites com paciência exemplar, fortificaram-na para a vida de reparação que a Providência tinha escolhido para ela. Durante este período a Santa recebeu graças místicas extraordinárias. Além disso, já desde muito pequena, teve um trato muito familiar com Nosso Senhor. “(O Salvador) sempre estava presente sob a figura do crucificado ou do Ecce Homo a carregar a Cruz, o que me produzia tanta compaixão e amor ao sofrimento, que todos os meus sofrimentos pareciam leves em comparação com o desejo que experimentava de sofrer para me conformar com o meu Jesus sofredor.” (5)

 Tal compreensão do valor do sofrimento na vida espiritual foi crescendo nela e será uma das características da sua santidade. Mais tarde, já visitandina, esta pioneira dos caminhos de Deus, dirá: “Deus deu-me tanto amor à Cruz que não consigo viver um momento sem sofrer: mas sofrer em silêncio, sem consolo, alívio ou compaixão; e morrer com este Soberano da minha alma, sob o peso de toda sorte de opróbrios, dores, humilhações, esquecimentos e desprezos…” (6)

 O amor à Cruz foi característico em Santa Margarida Maria e é também condição indispensável de qualquer forma de santidade: “Jesus disse então aos discípulos: se alguém quiser vir comigo, renuncie a si mesmo, tome sua Cruz e siga-me.” (Mt. 16,24)

 Provações familiares

 A sua família, de início, quis encaminha-la para um convento de Ursulinas onde já vivia uma prima. Santa Margarida Maria – que era muito afeiçoada a essa prima, deu-lhe uma resposta gentil em que transparece o seu grande desejo de perfeição: “Olha, se entro no teu convento será por amor a ti. Mas quero ir a um convento onde não tenha parentes nem conhecidos para ser religiosa só por amor a Deus.” (7)

 Uma voz interior tinha-lhe advertido: “Não te desejo lá, mas em Santa Maria”, que era o nome do convento de Paray-le-Monial. (8)

 Entretanto as pressões familiares para que optasse pelas Ursulinas continuavam. Mas uma doença da mãe e também de um irmão, forçaram-na a prolongar os seus planos de vida religiosa.

 Numa certa altura, um sacerdote franciscano hospedou-se na casa dos Alacoque durante uma missão. Santa Margarida Maria aproveitou a ocasião para fazer uma confissão geral. Ao conhecer o alto grau de virtude e os desejos de vida religiosa da jovem, o padre julgou que devia seguir a sua vocação. O religioso falou com o irmão e convenceu-o a mudar de atitude. A prova em casa acabava. Outras cruzes, mais dolorosas, viriam no Convento da Visitação de Paray-le-Monial, aonde foi ter em seguimento de uma clara inspiração da Providência.

 A nossa Santa foi ali aceita como noviça a 20 de Junho de 1671; vestiu o hábito a 25 de Agosto do mesmo ano e fez a profissão solene a 6 de Novembro de 1672. Assim ficava preparado o quadro para a mensagem do Sagrado Coração de Jesus.

 A missão de Santa Margarida Maria Alacoque

  Em 1647, quando nasceu Santa Margarida Maria, a devoção ao Sagrado Coração não era muito conhecida, se bem que já existia. A sua missão foi dar-lhe um impulso e uma difusão universal, precisar o seu espírito, adapta-lo às necessidades da Igreja nos tempos modernos e fixar as práticas de piedade mais adequadas às novas circunstâncias.

 Santa Margarida Maria foi uma simples freira que nunca transpôs os muros do seu convento e morreu antes de completar 45 anos, em 1690. A Providência compraz-se deste modo em realizar um desígnio imenso a partir de uma humilde religiosa que, para fugir do mundo, tinha-se retirado a um obscuro convento da Ordem da Visitação e levou ali uma vida apagada aos olhos dos homens e até das freiras visitandinas com as quais convivia.

 O quadro hoje é completamente diverso. Ornato da Ordem da Visitação, a religiosa então apagada foi elevada ao ápice de glória na Igreja e, do alto dos altares, da sua santidade despede raios de salvação à terra inteira, enquanto a maioria dos homens famosos e importantes da sua época são desconhecidos pelos nossos contemporâneos.

 O Papa Pio XII, depois de fazer a lista dos Santos que a precederam na prática e difusão da devoção ao Coração de Jesus, diz a este propósito: “Mas entre todos os promotores desta excelsa devoção, merece um lugar especial Santa Margarida Maria Alacoque que, com a ajuda do seu diretor espiritual, o Beato Cláudio de la Colombière (hoje santo) e com o seu zelo ardente, obteve, não sem a admiração dos fiéis, que este culto adquirisse um grande desenvolvimento e, revestido das características do amor e da reparação, se distinguisse das demais formas da piedade cristã.” (9)

 1. Bougaud, História de Santa Margarida Maria, citado em Péricles Capanema Ferreira e Melo, membro da Academia Marial de Aparecida, “O Estandarte da Vitória – A devoção ao Sagrado Coração de Jesus e as necessidades de nossa época”, pg 28.

 . Sainte Margarite-Marie Alacoque, Vie et ouvres, tI, p.52 in Op. Cit. p. 28

 3. Sainte Margarite-Marie Alacoque, Vie et ouvres, tI, p.456 in Op. Cit. p. 30

 4. Sainte Margarite-Marie Alacoque, Vie et ouvres, tI, p.40 in Op. Cit. p. 31

 5. Sainte Margarite-Marie Alacoque, Vie et ouvres, tI, p.41 in Op. Cit. p. 32

 6. Sainte Margarite-Marie Alacoque, Vie et ouvres, tI, p.44 in Op. Cit. p. 33

 7. Sainte Margarite-Marie Alacoque, Vie et ouvres, p.25 in Op. Cit. p. 33

 8. Sainte Margarite-Marie Alacoque, Vie et ouvres, p.25 in Op. Cit. p. 33

 9. Encíclica Haurietis Aquas, 49

 A chamada Grande Revelação foi feita a Margarida Maria durante a oitava da festa do Corpus Domini de 1675. Mostrando o seu Coração divino, Jesus confiou à Santa:

 Eis o Coração que tanto amou os homens, que nada poupou, até se esgotar e se consumir para lhes testemunhar seu amor. Como reconhecimento, não recebo da maior parte deles senão ingratidões, pelas suas irreverências, sacrilégios, e pela tibieza e desprezo que têm para comigo na Eucaristia. Entretanto, o que Me é mais sensível é que há corações consagrados que agem assim. Por isto te peço que a primeira sexta-feira após a oitava do Santíssimo Sacramento seja dedicada a uma festa particular para  honrar Meu Coração, comungando neste dia, e O reparando pelos insultos que recebeu durante o tempo em que foi exposto sobre os altares”.

 “Prometo-te que Meu Coração se dilatará para derramar os influxos de Seu amor divino sobre aqueles que Lhe prestarem esta honra”.

 Jesus apareceu-lhe numerosas vezes de 1673 até 1675. Dos seus colóquios com Nosso Senhor distinguem-se classicamente 12 promessas. Eis alguns extratos da Mensagem do Sagrado Coração de Jesus a Santa Margarida Maria. (10)

 “Os fiéis acharão, pelo intermédio desta devoção amável, todos os socorros necessários ao seu estado, ou seja, a paz nas suas família, o alívio nos seus trabalhos, as bênçãos do Céu em todas as suas empresas, a consolação nas suas misérias, e é propriamente neste sagrado Coração que alcançarão um lugar de refúgio durante toda a vida e principalmente na hora da sua morte”.

 “O Meu divino Salvador fez-me compreender que aqueles que trabalham pela salvação das almas encontrarão a arte de comover os corações mais empedernidos e trabalharão com um êxito maravilhoso se eles mesmos estiverem penetrados de uma terna devoção ao divino Coração”.

 “Asseverando-Me que Ele recebia um contentamento singular em ser honrado sob a figura deste Coração de carne, cuja imagem desejava fosse exibida em público, com a finalidade –acrescentou– de tocar por seu intermédio o coração insensível dos homens; prometendo-me que derramaria em abundância todos os dons que possui em plenitude sobre todos aqueles que O honrassem; e que em todo lugar em que esta imagem fosse ostentada para ser objeto de especial honra ela atrairia toda sorte de bênçãos”.

 “Sinto-me totalmente imersa neste divino Coração; (…) estou como num abismo sem fundo onde Ele me revela os tesouros de amor e de graça que concede às pessoas que se consagram e sacrificam para lhe render e alcançar toda a honra, amor e glória de que são capazes”.

 “Confirmou-me o contentamento que recebe em ser amado, conhecido e venerado pelas suas criaturas e tão grande que prometeu-me que todos aqueles que Lhe sejam devotados e consagrados não morrerão jamais”.

 “Numa sexta-feira, durante a Sagrada Comunhão, disse estas palavras à sua indigna escrava: “Prometo-te, na excessiva misericórdia do meu Coração, que o seu amor onipotente obterá a todos aqueles que comunguem nove primeiras sextas-feiras do mês seguidas a graça da penitência final, que não morrerão na minha desgraça, sem receber os seus sacramentos e que o Meu divino Coração será o seu refúgio assegurado no último momento”. “Nada temas, Eu reinarei apesar dos meus inimigos e de todos aqueles que procurarão opor-se”.

 “Este amável Coração reinará, apesar de Satanás. Isto me arrebata de alegria.” “Afinal reinará, este amável Coração, apesar de todos os que se quererão opor. Satã e todos os seus seguidores serão confundidos”.

 1.A minha bênção permanecerá sobre as casas em que se achar exposta e venerada a imagem de meu Sagrado Coração.

 2.Eu darei aos devotos do meu Coração todas as graças necessárias a seu estado.

 3.Estabelecerei e conservarei a paz em suas famílias.

 4.Eu os consolarei em todas as suas aflições.

 5.Serei seu refúgio seguro na vida, e principalmente
na hora da morte.

 6.Lançarei bênçãos abundantes sobre todos os seus trabalhos e empreendimentos.

 7.Os pecadores encontrarão em meu Coração fonte inesgotável de misericórdias.

 8.As almas tíbias se tornarão fervorosas pela prática dessa devoção.

 9.As almas fervorosas subirão em pouco tempo a uma alta perfeição.

 10.Darei aos sacerdotes que praticarem especialmente essa devoção o poder de tocar os corações mais empedernidos.

 11.As pessoas que propagarem esta devoção terão os seus nomes inscritos para sempre no meu Coração.

 12.A todos os que comungarem nas primeiras sextas-feiras de nove meses consecutivos, darei a graça da perseverança final e da salvação eterna.

 Fonte: http://www.asc.org.br/site/devocao/promessas.htm

 Cf. Vida e Obras de Santa Margarida Maria, publicação da Visitação de Paray, 1920.

 Devoção ao Sagrado Coração de Jesus

 Vaticano, Dez, 2001 – Diretório sobre a piedade popular. Congregação para o culto divino.

 166. A sexta-feira seguinte ao segundo domingo depois de Pentecostes a Igreja celebra a solenidade do Sagrado Coração de Jesus. Além da celebração litúrgica, muitas outras expressões de piedade têm por objeto o Coração de Cristo. Não tem dúvida de que a devoção ao Coração do Salvador tem sido, e continua a ser, uma das expressões mais difundidas e amadas da piedade eclesiástica. Entendida à luz da Sagrada Escritura, a expressão “Coração de Cristo” designa o mesmo mistério de Cristo, a totalidade do seu ser, a sua pessoa considerada no seu núcleo mais íntimo e essencial…

 167. Como o têm lembrado freqüentemente os Romanos Pontífices, a devoção ao Coração de Cristo tem um sólido fundamento na Escritura. Jesus, (…) apresenta-se a si mesmo como mestre “manso e humilde de Coração” (Mt. 11, 29). Pode dizer-se que a devoção ao Coração de Jesus é a tradução em termos cultuais do reparo que, segundo as palavras proféticas e evangélicas, todas as gerações cristãs voltaram para aquele que foi atravessado (cfr. Jo. 19, 27; Zc. 12, 10), isto é, o costado de Cristo atravessado pela lança, do qual brotou sangue e água, símbolo do “sacramento admirável de toda a Igreja”.

 O texto de São João que narra a ostentação das mãos e do costado de Cristo aos discípulos (Cfr. Jo. 20, 20) e o convite dirigido por Cristo a Tomás para que estendesse a sua mão e a introduzisse no seu costado (Cfr. Jo, 20 27), tiveram também um influxo notável na origem e no desenvolvimento da piedade eclesiástica ao Sagrado Coração.

 168. Estes textos, e outros (…) foram objeto de assídua meditação por parte dos Santos Padres que desvendaram as riquezas doutrinais e com freqüência convidaram aos fiéis a penetrar no mistério de Cristo pela porta aberta de seu costado. Assim, santo Agostinho diz: “A entrada é acessível: Cristo é a porta. Também se abriu para ti quando o seu costado foi aberto pela lança. Lembra o que dali saiu; portanto olha por onde podes entrar. Do costado do Senhor pendurado que morria na Cruz saiu sangue e água quando foi aberto pela lança. Na água está a tua purificação, no sangue a tua redenção.”

 169. A Idade Média foi uma época especialmente fecunda para o desenvolvimento da devoção ao Coração do Salvador. Homens insignes pela sua doutrina e santidade, como São Bernardo (+1153), São Boaventura (+1274) e místicos como Santa Lutgarda (+1246), Santa Matilde de Magdeburgo (+1282), as Santas Irmãs Matilde (+1299) e Gertrudes (+1302) do Mosteiro de Helfta, Ludolfo de Saxónia (+1378), Santa Catarina de Siena (+1380), aprofundaram o mistério do Coração de Cristo no qual percebiam o “refúgio” aonde acolher-se, a sé da misericórdia, o lugar de encontro com Ele, a fonte do amor infinito do Senhor, a fonte da qual brota a água do Espírito, a verdadeira terra prometida e o verdadeiro paraíso.

 170. Na época moderna o culto ao Sagrado Coração do Salvador teve novo desenvolvimento. No momento em que o jansenismo proclamava os rigores da justiça divina, a devoção ao Coração de Cristo foi um antídoto para suscitar nos fiéis o amor ao Senhor e a confiança na sua infinita misericórdia, da qual o Coração é prenda e símbolo. São Francisco de Sales (+1622), que adotou como norma de vida e apostolado a atitude fundamental do Coração de Cristo, ou seja, a humildade, a mansidão, (Cfr. Mt. 11, 29), o amor terno e misericordioso; Santa Margarida Maria Alacoque (+1690), a quem o Senhor mostrou repetidas vezes as riquezas do Seu Coração; São João Eudes (+1680), promotor do culto litúrgico ao Sagrado Coração; São Cláudio de la Colombière (+1682), São João Bosco (+1888) e outros santos têm sido apóstolos insignes da devoção ao Sagrado Coração.

 171. As formas de devoção ao Coração do Salvador são muito numerosas; algumas têm sido explicitamente aprovadas e recomendadas pela Sé Apostólica. Entre elas devem ser lembradas: A Consagração pessoal, que, segundo Pio XI, “entre todas as práticas do culto ao Sagrado Coração é sem dúvida a principal”; a Consagração da família (…); as Ladainhas do Sagrado Coração de Jesus (…); o Ato de Reparação (…); a prática das Nove Primeiras Sextas-feiras (…).

 É preciso, porém, que se instrua de maneira conveniente os fiéis: sobre o fato de que não se deve pôr nesta prática uma confiança que se converta em vã credulidade que, na ordem da salvação, anule as exigências absolutamente necessárias de Fé operante e do propósito de levar uma vida conforme ao Evangelho; sobre o valor absolutamente principal do domingo, a “festa primordial”, que deve caracterizar-se pela plena participação dos fiéis na celebração eucarística.

 173. A piedade popular tende a identificar uma devoção com a sua representação iconográfica. Isto é algo normal, e tem sem dúvida elementos positivos, mas pode dar ensejo a certos inconvenientes: (…) imagens ás vezes adocicadas, inadequadas para manifestar o conteúdo teológico robusto, não favorecem a aproximação dos fiéis ao Mistério do Coração de Jesus. (…)

 O Coração Imaculado de Maria

 174. Ao dia seguinte à solenidade do Sagrado Coração de Jesus, a Igreja celebra a memória do Coração Imaculado de Maria. A contigüidade das duas celebrações já é, em si mesma, um sinal litúrgico do seu estreito vinculo: o mysterium do Coração do Salvador projeta-se e reflete-se no Coração da Mãe (…)

 Fonte: http://www.asc.org.br/site/devocao/sobre_devo%C3%A7%C3%A3o.htm

 Autobiografia: Santa Maria Margarida Alacoque


Voto de Castidade

 Ó meu único Amor, quando não devo por vos terdes adiantado a mim a mais tenra infância, tornando-vos o senhor e possuidor do meu coração, apesar de bem conhecerdes as resistências que ele vos haveria de opor…Logo que tive consciência de mim, fizestes minha alma perceber a fealdade do pecado, imprimindo, em meu coração tanto horror a ele que a menor mancha me era insuportável tormento…Sem saber o que dizia, eu vos consagro a minha pureza, e vos faço voto de perpétua castidade”. Essas palavras disse-as uma vez entre as duas elevações, na santa missa, que eu ouvia ordinariamente com os joelhos nus sobre o chão, por mais frio que fizesse.(p.9-10)

 Nossa Senhora

 A SS. Virgem teve sempre grandíssimo cuidado por mim, e a ela é que eu recorria em todas as minhas aflições; foi ela que me afastou de perigos muito grandes. De nenhum modo me atrevia a dirigir-me a seu divino Filho, mas sempre a ela. Oferecia o terço ou a coroa de seu Rosário, ajoelhada no chão, ou genuflectindo e beijando o chão a cada Ave-Maria.(p.10).

 Morte do pai, em 1655

 Perdi meu pai ainda muito nova e, como era a única filha e minha mãe se encarregasse da tutela dos filhos – éramos cinco – ela parava muito pouco em casa. Por isso, até a idade de oito anos e meio, criei-me sem outra educação que a de criados e aldeiões.(p.10).

 Imitação das santas

 Tinha muita vontade de imitar em tudo as religiosas; considerava-as santas e pensava que eu também haveria de o ser, se fosse religiosa como elas. Senti tão grande desejo de santidade que não suspirava por outra coisa.(p.11).

 Doença curada pela intercessão de Maria

 Mas vim a cair num estado de doença tão lastimoso, que estive sem poder andar durante quatro anos. Os ossos furavam-me a pele por todos os lados. Por isso não fiquei mais de dois anos naquele convento. Nunca se pôde achar outro remédio para meus males, senão consagrar-me à SS.Virgem, prometendo-lhe que, se me curasse, haveria de ser um dia uma de suas filhas. Feito esse voto, fiquei logo curada da doença e recebi nova proteção da SS.Virgem, a qual tomou posse do meu coração totalmente, de modo que, olhando-me como sua filha, governava-me como coisa que lhe fora consagrada, repreendia-me de minhas faltas e ensinava-me a cumprir a vontade de Deus. Um dia, quando eu estava sentada, rezando o terço, a Senhora apareceu diante de mim e me fez esta admoestação, que jamais se apagou do meu espírito, apesar de eu ser então muito nova: “Estranho muito, minha filha, que me sirvas com tanto desleixo!” Essas palavras deixaram em minha alma tal impressão, que me foram úteis em toda minha vida.(p.11).

 Deixa-se cair na dissipação

 Tendo recobrado a saúde, já não pensava senão em buscar prazer no uso de minha liberdade, sem me preocupar muito em cumprir minha promessa…E foi assim. Logo que principiei a respirar saúde, dei-me à vaidade e à afeição das criaturas de que o carinho com que minha mãe e meus irmãos me tratavam dava-me liberdade para me entregar a meus pequenos divertimentos e para folgar quanto pudesse.

 Perseguição doméstica

 Não tínhamos, pois, nenhum poder em nossa casa, nem nos atrevíamos a fazer coisa alguma sem licença. Era uma guerra contínua. E tudo estava fechado à chave, de sorte que eu, muitas vezes, nem sequer encontrava com que me vestir para ir a missa, senão pedindo roupa emprestada. Foi então que comecei a sentir o cativeiro: não fazia anda nem saía de casa, sem o consentimento de três pessoas. Nota de rodapé – Estas três pessoas que Margarida, com seu espírito de perfeita caridade, não quer nomear, eram: sua avó, sua tia e sua tia-avó. A partir de então, pus todas as minhas aspirações em buscar todo meu prazer e consolação no SS.Sacramento do altar. Porém, estando numa povoação afastada da igreja, não podia ir lá sem o consentimento daquelas pessoas. E muitas vezes, quando eu, chorando, dava mostras da pena que sentia, lançavam-me em rosto que eu tinha combinado um encontro com alguns rapazes, e que me custava muito não encontrá-los para receber seus galanteios e beijos e que para o conseguir, pretextava ir à missa ou à benção do Santíssimo. Mas, pelo contrário, eu sentia tão grande horror a tudo isso que preferia me despedaçassem o corpo em mil pedaços do que ter semelhante pensamento.(p.12).

 Sucedia então que, não tendo onde me refugiar, ficava o dia inteiro sem comer nem beber, em algum cantinho do quintal ou do curral, ou em outro lugar escondido, onde pudesse pôr-me de joelhos, para desabafar o coração em lágrimas diante de Deus, pela intercessão da Virgem Santíssima, minha boa Mãe, na qual tinha colocado toda minha confiança.

 …Com efeito, apenas entrava em casa, logo recomeçava a bateria, sendo acusada de não cuidar dos afazeres domésticos, nem dos filhos daquelas benfeitoras da minha alma. Não me era permitida uma só palavra de desculpa. Punha-me a trabalhar com as criadas.(p.13).

 Amor pelos sofrimentos

 Desde então..eu desejava que minhas penas não cessassem, nem por um instante, porque tinha sempre presente a Jesus, sob a figura do crucifixo…esta visão imprimia em mim tanta compaixão e tanto amor aos sofrimentos que todas as minhas penas se faziam leves em comparação ao desejo de as sofrer, para me conformar a meu Jesus padecente….Não era eu, porém, que fazia tudo quanto escrevo e escreverei, bem a meu pesar, mas era o meu soberano Senhor que se tinha apoderado da minha vontade. Ele não consentia que eu tivesse sequer um desabafo, queixa ou ressentimento contra aquelas pessoas; nem que eu permitisse a outros lastimassem ou terem compaixão de mim.(p.13).

 Doença da Mãe

 A mais pesada de minhas cruzes era não poder aliviar as cruzes de minha mãe, que me eram mil vezes mais duras de sofrer que as minhas…Durante todo o tempo das doenças de minha mãe, quase não me deitava, nem dormia, nem tomava alimento, passando frequentemente dias inteiros sem comer. Mas meu divino Mestre me consolava e sustentava com perfeita conformidade com sua santíssima vontade. Atribuindo só a ele o que me acontecia, eu dizia-lhe: Ó meu soberano Senhor, se vós não quisésseis, não sucederia isto; mas dou-vos graças por assim o terdes permitido, para me tornar semelhante a vós.

 Não sabia Orar

 Em meio a tudo isso, sentia-me tão fortemente atraída para a oração que me dava pena não saber nem poder aprender como fazê-la…Mas recorrendo a meu soberano Senhor, ele me ensinou como queria que eu a fizesse, e isto me serviu para toda a vida. Mandava-me prostrar humildemente diante dele, para lhe pedir perdão de tudo aquilo em que o tivesse ofendido; depois de adorá-lo, oferecia-lhe minha oração, sem saber ainda como fazê-la…Ele me absorvia tão fortemente meu espírito, embebendo em si a minha alma e todas as minhas potências, que não tinha distração alguma; pelo contrário, sentia o coração consumido em desejos de o amar. Nascia em mim uma fome insaciável da sagrada comunhão e de sofrimentos…Julgava felizes e apenas invejava as pessoas que podiam comungar muitas vezes e que tinham liberdade para ficar diante do Santíssimo.(p.16).

 Sua maior falta

 Uma vez, em tempo de carnaval, estando com outras jovens, mascarei-me por vã complacência, o que foi para mim, durante toda a vida, objeto de dor e de lágrimas. Do mesmo modo, cometia falta, usando adornos de vaidade, pelo mesmo motivo: o de comprazer vãmente as referidas pessoas, que Deus tomou por instrumento de sua divina justiça, para vingar as injúrias que eu lhe tinha feito com meus pecados.(p.17).

 É pretendida em casamento

 Conforme ia crescendo, iam aumentando as cruzes, pois o demônio suscitava muitos e bons partidos do mundo com que me requestava, para induzir a faltar ao voto que tinha feito…De um lado, os meus parentes, e sobretudo minha mãe, instavam comigo para aceitar. Ela chorava continuamente e dizia-me que não tinha esperança, senão em mim, para sair de sua miséria, e que haveria de ter consolação em ir viver comigo, logo que eu estivesse acomodada no mundo….O demônio servia-se da ternura e do amor que eu tinha por minha mãe, apresentando-me sem cessar as lágrimas que ela chorava; se me fizesse freira ela morreria de aflição, e eu teria de prestar contas a Deus, visto que ela não podia esperar outros cuidados e serviços, senão os meus….Por outro lado, o desejo de entrar para a vida religiosa perseguia-me continuamente, assim como o horror que eu tinha à impureza.

 Respeito humano

 Por fim, o terno amor da minha extremosa mãe começou a prevalecer, pensando eu que, sendo ainda uma pobre criança quando fiz aquele voto, facilmente me poderiam dispensar dele, porque, quando o fiz, não sabia o que fazia. Tinha além disso, muito medo de comprometer minha liberdade, porque me diziam que depois já não poderia jejuar, nem dar esmolas, nem tomar disciplina como eu quisesse; e que a vida religiosa pedia uma santidade tão grande aos que a abraçavam, que me seria impossível alcançá-la algum dia; e que haveria de me condenar, se entrasse para a vida religiosa….comecei então a olhar para o mundo e a adornar-me para lhe agradar, procurando divertir-me o quanto podia…À noite, quando tirava aquelas malditas librés de satanás, isto é, os enfeites vãos, instrumentos da malícia dele, aparecia-me o meu soberano Senhor, como na flagelação, completamente desfigurado, fazendo-me terríveis queixas: que as minhas vaidades o tinham reduzido àquele estado; que eu perdia um tempo precioso de que ele havia de pedir rigorosa conta à hora da morte; que o atraiçoava e perseguia, depois de ele ter dado tantas provas de amor e de me ter mostrado o seu desejo de que eu me tornasse semelhante a ele. Tudo isto se imprimia em mim tão profundamente e me fazia tão dolorosas feridas no coração que eu chorava amargamente. Ser-me-ia muito difícil explicar tudo quanto sofria e se passava em mim.(p.18-19).

 Confissão

 Queria confessar-me todos os dias, mas somente o podia fazer raras vezes. Tinha por santos os que se demoravam muito na confissão, pensando que não eram como eu, que não sabia acusar-me de minhas faltas. Isso fazia-me derramar muitas lágrimas.(p.20).

 Vida de Santos

 E como quase não lesse outro livro além da Vida dos Santos, dizia ao abri-lo: “Tenho que buscar a vida de uma santa muito fácil de imitar, para poder fazer como ela fez, a fim de me tornar santa como ela”. (p.20)

 Desejo de perfeição

 Mas o que me entristecia era ver que eu ofendia tanto a Deus. Pensava que os santos não o tinham ofendido como eu, ou que, pelo menos, se algum o tivesse ofendido, tinha feito depois penitência contínua.(p.20).

 Amor aos pobres

 Deu-me um amor tão terno aos pobres que não queria falar de mais ninguém; e imprimia em mim tanta compaixão pelas misérias deles que, se dependesse de mim, ter-lhes-ia dado quanto possuía. Quando tinha dinheiro dava-o aos meninos pobres para atraí-los e lhes ensinar a doutrina e o modo de recorrerem a Deus. Por isso eles me seguiam. Às vezes eram tantos que no inverno não sabia onde os reunir, senão numa sala.(p.21).

 Confiança na divina providência

 Sentia extrema repugnância em ver chagas, mas punha-me logo a curá-las e a beijá-las para me vencer, sem saber como as havia de tratar. Mas o meu divino Mestre sabia suprir tão bem minha ignorância que em pouco tempo as chagas estavam curadas, sem outro ungüento que o da divina providência, ainda que fossem chagas muito perigosas. De fato, eu tinha mais confiança na sua bondade que nos remédios. (p.21-22).

 Ensinamentos de Jesus

 Estando uma vez como que engolfada em abismo de espanto por ver que tantos defeitos e infidelidades não eram capazes de afastá-lo de mim, o Senhor deu-me esta resposta: “É que me apraz fazer de ti como que um composto de meu amor e de minhas misericórdias.” E em outra ocasião disse-me: “Eu te escolhi para minha esposa, e prometemo-nos fidelidade mútua, quando fizeste voto de castidade. Eu é que te impelia a que o fizesses, antes que o mundo tivesse alguma parte em teu coração, porque eu o queria com toda a pureza e sem estar manchado por afeições terrestres. Para conservá-lo unicamente para mim, eu tirava toda a malícia de tua vontade, para que ela não o pudesse corromper. Depois confiei-te aos cuidados de minha Mãe Santíssima, para que ela te regesse, segundo os meus desígnios”. Por isso ela foi sempre para mim uma boa Mãe e nunca me recusou seu socorro…fiz-lhe voto de jejuar todos os sábados; e de fazer sete genuflexões, todos os dias de minha vida, com sete Ave-marias, para honrar as sete dores.(p.22-23).

 Perseguições

 Não podia mais resistir às perseguições, que meus parentes me faziam, e às lágrimas de minha mãe, que eu amava tão ternamente. Ela me dizia que uma moça devia escolher seu estado de vida aos vinte anos. Comecei então a me preocupar. Satanás dizia-me continuamente: “Pobre desgraçada! Que cuidas tu que vais fazer, querendo meter-se a freira? Todos irão rir de ti, porque não haverás de perseverar. Que vergonha deixar o hábito e sair do convento! Onde é que haverá de te esconder depois?(p.23).

 Nosso Senhor tranqüiliza-a

 Uma vez depois da comunhão, Nosso Senhor fez-me ver como ele era o mais formoso, o mais rico, o mais poderoso e o mais sublime de todos os esposos; “Ah, disse, se tu me desprezas assim, eu te abandonarei para sempre; mas, se fores fiel jamais te deixarei e serei tua vitória contra os teus inimigos.”(p.23).

 Convidam-na para as ursulinas

 Então levaram-me para a casa de um tio meu, que tinha uma filha freira, a qual, sabendo que eu também o queria ser, não deixou pedra por mover para me ter consigo; mas eu, não me sentindo inclinada para a vida das Ursulinas, dizia-lhe: “Olhe, se entrar em seu convento, não será senão por amor a você. Eu quero ir para um onde não tenha parenta nem conhecimentos, para ser religiosa por amor de Deus.” (p.23).

 Novas perseguições da família por causa de enfermidade da mãe

 Persuadiam-me que minha mãe não podia viver sem mim, visto que o pouco tempo em que eu a tinha deixado era a causa daquela doença, e que havia de dar contas a Deus da morte dela. Sendo pessoas eclesiásticas as que me diziam isso, causava-me duras penas pelo terno amor que eu lhe tinha.(p.26).

 Carnaval

 Nos três dias de carnaval, só queria fazer-me em pedaços, para reparar os ultrajes que ofendiam sua divina Majestade.(p.26).

 Mosteiros

 Propuseram-me vários mosteiros, sem eu ser capaz de escolher nenhum. Porém, logo que nomearam o de Paray dilatou-me o coração de alegria; e, sem mais, dei o meu consentimento(p.29).

 20 de junho de 1671 – Adeus ao mundo e chegada ao convento. (p.30).

 25 de agosto de 1671 – Tomada de Hábito – passei o postulantado com o desejo ardente de ser toda de Deus, que me fez misericórdia de me seguir continuamente, até fazer-me chegar a esta dita.(p.32).

 Sede de humilhações e mortificações

 Eu tinha uma sede insaciável de humilhações e mortificações, embora meu temperamento sensível as sentisse vivamente.O meu divino Mestre instava-me continuamente a que as pedisse, o que me trouxe complicações, porque, embora me negassem as que eu pedia, como indigna de as fazer, davam-me outras inesperadas e tão contrárias às minhas inclinações que me via obrigada a dizer ao meu bom Senhor, ante o esforço violento que tinha de fazer: “Jesus acudi-me, pois vós sois a cauda disto”. E ele atendia-me, dizendo: “Reconhece que nada podes sem mim, e que jamais te deixarei no desamparo, contanto que conserves sempre teu nada e tua fraqueza abismados na minha força.(p.33).

 Obediência

 Deixa que façam de ti tudo o que quiserem. Eu saberei empregar o melhor modo de levar a bom termo os meus desígnios, até por meios que pareçam opostos e contrários. Só reservo para mim a direção de teu interior, pois tendo nele estabelecido império de meu puro amor, jamais o cederei a outrem.(p.35).

 “Sabe que  de modo algum me ofendo com todos esses combates e oposições que me fazes por obediência; para seguir esta é que dei minha vida…Por isso, quero não só que faças o que tuas superioras disserem, mas também que não faças absolutamente nada do que eu te ordenar sem o consentimento delas. Porque amo a obediência e sem ela nada pode me agradar.(p.38).

 Profissão dos votos

 Faz profissão. 6 de novembro de 1672.

 E prometeu-me que nunca mais  me deixaria dizendo-me: Estejas sempre pronta e disposta a receber-me, porque doravante quero estabelecer morada em ti, para conversar e recrear-me contigo(p.36). Desde então agraciou-me com sua divina presença.(p.36).

 Repreensão

 Mas o que mais severamente repreendia era a falta de respeito e de atenção diante do Santíssimo Sacramento, sobretudo no tempo do ofício e da oração, as faltas de retidão e de pureza de intenção e a vã curiosidade.(p.41).

 Eu aceitaria melhor se…tomasse essas pequeninas comodidades pro obediência, do que sobrecarregando-se de austeridades e jejuns por sua própria vontade…Eu te farei compreender depois como sou diretor sábio e prudente, e como sei conduzir as almas em perigo, quando se entregam a mim, esquecendo-se de si mesmas.(p.41).

 Experiência viva do amor de Deus

 Certa vez estava diante do Santíssimo, dispondo de um pouco mais de tempo. Ele me disse: “O meu divino Coração está abrasado de amor para com os homens, e em particular para contigo. Não podendo mais conter em si as chamas de sua ardente caridade, precisa derramá-las por teu meio e manifestar-se a eles, para os enriquecer de seus preciosos tesouros. Eu os mostro a ti…Depois pediu meu coração. Eu roguei-lhe que o tomasse, o que ele fez, e o colocou em seu adorável Coração. Ali o meu parecia-se com um atomozinho que se consumia naquela fornalha ardente. Depois, tirou-o de lá como chama viva em forma de coração e o recolocou no lugar de onde tinha tirado dizendo-me: “Eis aqui, minha dileta esposa, um precioso penhor do meu amor, que no teu peito encerra uma pequena centelha das mais vivas chamas dele, para te servir de coração e te consumir até o último momento…e como sinal de que a grande graça, que acabo de te fazer, não é imaginação, mas o fundamento de todas as que ainda te concederei, embora já tenha fechado a chaga do teu lado, ficar-te-á a dor para sempre. Se até agora tomaste apenas o nome de minha escrava, agora te dou o de discípula dileta do meu coração…”Não podia dormir, porque esta ferida, que me dá uma dor tão preciosa, causa-me vivos ardores, que me consome e me abrasa viva. Sentia, além disso, tão grande plenitude de Deus…! (p.42-43).

 Aquela graça de que te falei a respeito da minha dor do lado renova-se nas primeiras sextas-feiras de cada mês, da maneira seguinte: era-me representado o Sagrado Coração como sol brilhante de luz vivíssima, lançando seus raios ardentíssimos a prumo sobre o meu coração, que logo parecia reduzir-me a cinzas.(p.43).

 Sagrado coração

 Uma vez, entre outras, quando o Santíssimo estava exposto, depois de ter-me sentido retirada dentro de mim mesma, com um recolhimento muito grande de todos os meus sentidos e potências, Jesus Cristo, meu doce Mestre, apareceu-me todo radiante de glória com suas chagas , brilhantes como cinco sóis. Sua sagrada humanidade lançava chamas de todos os lados, mas sobretudo de seu sagrado peito que parecia uma fornalha.  Abrindo-o, mostrou-me seu amantíssimo e amabilíssimo Coração, que era a fonte viva daquelas chamas… “Mas, ao menos tu, dá-me esse gosto de suprires a ingratidão deles, quanto puderes e fores capaz”. E apresentando-lhe minha incapacidade, respondeu-lhe: “Toma, aí tens com que suprir tudo o que te falta.” E ao mesmo tempo, abrindo aquele divino Coração, porque me penetrou totalmente. Não podia mais agüentar, por isso lhe pedi que tivesse compaixão de minha fraqueza. “Eu serei tua força, disse-me ele; não tenhas receio, mas atende à minha voz e ao que eu te pedir, para te dispores ao cumprimento de meus desígnios.”(p.44).

 Hora Santa

 E para me acompanhares na humilde oração que eu então apresentei a meu Pai, no meio de todas as minhas angústias, levantar-te-ás entre onze horas e meia noite, para comigo te prostrares com o rosto em terra, durante uma hora, para aplacar a ira divina, pedindo misericórdia pelos pecadores, como para abrandar de alguma maneira a amargura que eu senti como o desamparo em que me deixaram os apóstolos, o qual me obrigou a lançar-lhes em rosto não terem podido velar uma hora comigo. Rodapé: Esta é a origem divina da devoção essencialmente reparadora conhecida por Hora Santa. Constituída como Arquiconfraria no Mosteiro da Visitação de Paray, a Hora Santa conta centenas de milhares de associados.(p.45).

 As três pessoas da Santíssima Trindade apareceram-lhe

 Durante um desmaio, as três pessoas da SS. Trindade apareceram-lhe e me fizeram sentir grandes consolações…Digo apenas que me pareceu que o Pai Eterno, apresentando-me uma grossíssima cruz – toda coberta de espinhos, com todos os instrumentos da Paixão – me disse: “Toma, minha filha; faço-te o mesmo presente que fiz a meu muito amado Filho.”

 Prova das revelações

 Mandaram-me pedir saúde ao Senhor, e eu a pedi, mas com medo de ser ouvida. Disseram-me que, pelo restabelecimento de minha saúde, saberiam se, de fato, tudo o que se passava em mim vinha do Espírito Santo de Deus. Então me concederam o que Ele tinha mandado; comungar nas primeiras sextas-feiras e velar uma hora, na noite de quinta para sexta feira.(p.46).

 Vaidade

 Uma vez, tendo-me deixado levar por um movimentozinho de caidade, falando de mim mesma, oh! meu Deus, quantas lágrimas e gemidos aquela falta me custou. Com efeito, logo que nos encontramos a sós, repreendeu-me desta maneira e com rosto severo: “Que tens tu, pó e cinza, de que te possas gloriar, se nada tens te teus, senão o nada e a miséria? Jamais deves perder de vista nem deixar o abismo do teu nada. E para que a grandeza de meus dons não te faça desconhecer e esquecer o que tu és, quero que o vejas com teus olhos neste quadro”. Mostrando-me este horrível quadro, em que estava um compêndio de tudo o que eu sou, fiquei de tal modo surpreendida e com tanto horror de mim mesma que, se o Senhor não me tivesse sustentado, desfaleceria de dor…”Ah meu Deus, daí-me a morte ou escondei esse quadro; vendo-o não posso viver.”(p.47).

 Confissão

 “O que mais quero, neste momento, é um coração contrito e humilhado, que, com vontade sincera de não mais me ofender, se acuse sem fingimento; ante tais disposições, perdôo imediatamente, seguindo-se uma perfeita reparação.(p.48).

 Fiz, pois, a confissão anual. Depois dela parecia-me estar sendo despojada e, ao mesmo tempo, revestida de uma veste branca, com estas palavras: “Eis a vestidura de inocência com que revisto a tua alma, para que vivas como se já não vivêsseis, mas me deixeis viver em ti”.(p.49).

 Escolha entre sofrimento e consolação

 Uma vez apareceu-me o único Amor da minha alma, trazendo numa das mãos o quadro de uma vida, a mais feliz que se possa imaginar para uma alma religiosa; toda de paz e consolações interiores, com perfeita saúde e, juntamente com o aplauso e a estima das criaturas e outras coisas agradáveis a natureza. Na outra mão trazia outro quadro de uma vida toda de pobreza e abjeção, sempre crucificada, com toda sorte de humilhações, desprezos e contradições, sofrendo sempre no corpo e no espírito. Apresentando-me esses dois quadros, disse-me; “Escolhe, minha filha o que mais te agradar. Qualquer que escolheres dar-te-ei as mesmas graças”. Prostrando-se aos seus pés para o adorar, disse-lhe: “Ó meu Senhor, não quero senão a vós e a escolha que vós fizerdes por mim.” …E apresentando-me o quadro da crucifixão: “Aqui tens, disse, o que eu escolhi para ti. É o que se presta melhor tanto para o cumprimento de meus desígnios, como para te tornar conforme a mim. O outro quadro é uma vida de gozo  e não de merecimento, e o gozo é para eternidade. Aceitei, pois, aquele quadro de morte e crucifixão, beijando a mão que mo apresentava..abracei-o com todo afeto que era capaz meu coração.(p.50).

 Perseguições do tentador e proteção do Anjo da Guarda

 Uma vez empurrou-me do alto de uma escada com uma braseira cheia; não a entornei e nada aconteceu comigo. Os que me viram, pensaram que tivesse quebrado as pernas. Mas senti que meu fiel Anjo da Guarda me acudiu, porque eu tinha o privilégio de gozar de sua presença e de ser frequentemente repreendida e corrigida por ele. Uma vez, tendo-me posto a falar do casamento de uma parenta, o Anjo fez-me ver quão indigno era aquilo de uma alma religiosa. Repreendeu-me severamente e me disse que, se tornasse a fazer tais mexericos, esconderia seu rosto. Ele não podia tolerar a mínima imodéstia ou falta de respeito na presença de meu soberano Senhor, diante do qual o via prostrado em terra. Queria que eu fizesse o mesmo.Eu o fazia quantas vezes o podia.

 Ensinamento de Jesus à Santa Margarida

 “Já vês claramente que sem mim não podes nada”.

 Não conseguia comer

 Notaram que eu não comia. Fizeram-me fortes repreensões. A superiora e meu confessor mandaram-me comer de tudo o que me dessem à mesa. Esta obediência parecia-me muito superior ás minhas forças…Como isso durou muito tempo, causou-me tal desarranjo de estômago e tantas dores que não podia reter nada do pouco que comia.(p.56).

 Julgavam-na possuída do demônio

 Julgavam-me possessa e atormentada pelo demônio, e deitavam-me água benta, com muitas cruzes e orações, para repelir o espírito maligno.

 Nosso Senhor envia-lhe o padre La Colombière

 Meu soberano Senhor, pouco depois de eu me ter consagrado a ele, prometera que enviaria um servo seu, a quem ele queria que eu manifestasse, segundo o conhecimento que deles me haveria de dar, todos os tesouros e segredos do seu Sagrado coração que me confiara….Diziam que eu queria enganá-lo com minhas ilusões e iludi-lo como os outros. Mas ele não se importava e não deixava de ajudar-me no pouco tempo que ele esteve nesta cidade, e sempre.(p.60).

 Consagração ao Sagrado Coração de Jesus

 Uma vez meu soberano Santificador pediu-me que fizesse, m seu favor, um testamento por escrito, ou doação completa e sem reservas, como eu já fizera oralmente de tudo o que viesse a fazer ou sofrer, e de todas as orações e bens espirituais que por mim se fizessem, quer durante a vida, quer durante a morte. Fez-me pedir à minha superiora que servisse de tabelião, dizendo que ele se encarregaria de lhe pagar cabalmente. Se ela não quisesse, que eu procurasse seu servo, Pe. La Colombière. Mas minha superiora quis fazê-lo.(p.62).

 Tentações

 Sofri…fortes assaltos do demônio, que me atacava principalmente com o desespero, fazendo-me ver que uma criatura, tão má como eu, não devia ambicionar ter parte no paraíso, pois não a tinha no amor de Deus, de que devia ser excluída por toda eternidade…outras vezes..fazia-me sentir uma fome espantosa e, em seguida, representava-me tudo o que havia de melhor para satisfazer o paladar.(p.65).

 O refeitório e a cama custavam-me tanto que só o aproximar-me deles fazia-me gemer e derramar lágrimas.(p.66).

 Sabedoria de Jesus

 Proibia-me…julgar ou condenar alguém, a não ser a mim mesma.(p.67).

 Culto ao sagrado Coração de Jesus

 Estando uma vez diante do SS. Sacramento, num dia de sua oitava, recebi graças muito grandes de Deus, e senti-me impelida pelo desejo de corresponder-lhe de algum modo e de pagar-lhe amor com amor. Ele disse-me: Não podes corresponder melhor do que fazendo o que já tantas vezes te pedi”. Eis aqui este Coração que tanto tem amado os homens, que a nada se tem poupado até se esgotar e se consumir para lhes testemunhar seu amor; e em reconhecimento não recebo, da maior parte deles, senão ingratidões por meio das irreverências e sacrilégios, tibiezas e desdéns que usam para comigo neste Sacramento de amor. E o que muito mais me custa para comigo é tratar-se de corações a mim consagrados os que assim me tratam. Por isso peço-te que seja constituída uma festa especial para honrar meu Coração na primeira sexta-feira depois da oitava do Corpo de Deus. Comungue-se, neste dia, e seja feita a devida reparação por meio de um ato de desagravo, para reparar as indignidades que recebeu durante o tempo que esteve exposto sobre os altares. E eu te prometo que meu Coração se dilatará, para derramar com abundância os benefícios de seu divino amor sobre os que lhe tributarem esta honra e procurarem outros que a tributem.(p.68).

 Purgatório

 Outra vez, estando eu diante do Santíssimo Sacramento no dia da sua festa, apareceu, de repente, diante de mim, uma pessoa, toda em fogo, cujos ardores me penetraram tão fortemente que me parecia arder com ela. Seu lastimável estado, que bem mostrava estar sofrendo no purgatório, fez-me derramar muitas lágrimas. Disse-me que era um religioso beneditino que me tinha ouvido em confissão, e me mandara comungar. Como recompensa Deus tinha-lhe permitido dirigir-se a mim para aliviar suas penas, pedindo-me tudo o que pudesse fazer e sofrer por três meses. Prometi-lhe que o faria, depois de pedir licença à minha superiora. Disse-me que a primeira razão de suas grandes penas era ter preferido o próprio interesse à glória de Deus com demasiado apego à própria reputação; a segunda era a falta de caridade com seus irmãos; e a terceira, a demasiada afeição natural que tinha pelas criaturas, e as excessivas mostras que lhes dera disso no trato espiritual, o que muito desagradava a Deus….No fim dos três meses o vi, bem diferente, inundado de alegria e glória, ir gozar da eterna felicidade. Disse-me que, em agradecimento, intercederia por mim a Deus. Eu tinha adoecido. Mas como meu padecimento acabou ao mesmo tempo que o dele, logo melhorei.(p.70-71).

 Nosso Senhor faz-lhe padecer as Angústias de uma alma ameaçada de condenação

 Apareceu uma freira diante de mim, e ouvi inteligivelmente: “Repara, olha para essa freira que o é só de nome. Estou para lançá-la do meu Coração e deixá-la entregue a si mesma.”…Ofereci-me, então, à divina justiça para sofrer tudo o que lhe aprouvesse, para o Senhor não o abandonar…Sentia um peso esmagador contra mim; se quisesse levantar os olhos via um Deus irritado contra mim e armado de varas e açoites, prestes a descarregá-los sobre mim…Dentro de mim tudo estava revolto e em confusão. Meu inimigo cercava-me de todos os lados com violentas tentações, sobretudo de desespero…Confesso que não poderia agüentar, por tanto tempo, tão doloroso estado, se sua amorosa misericórdia não me amparasse sob os rigores da divina justiça. Por isto, adoeci, e a custo melhorei.(p.71-72).

 Cinco meses de saúde

 Como as minhas doenças fossem contínuas, e não me deixassem quatro dias seguidos com saúde, uma vez, estando muito doente, de modo que quase não ouviam o que eu dizia, a madre veio de manhã e deu-me um bilhete, dizendo que fizesse o que ali dizia. Ela queria certificar-se se tudo o que em mim se passava provinha do Espírito de Deus. Se assim, fosse, que o Senhor me desse cinco meses de perfeita saúde, sem precisar de alívio nenhum durante este tempo…Senti-me com forças e a saúde de uma pessoa que há muito tempo não estivesse estado doente. E assim passei o tempo que se tinha pedido, recaindo depois nas indisposições de antes. (p.75).

 A obediência que cura

 Uma vez eu estava com febre. Fizeram-me sair da enfermaria para entrar em exercícios. Disse-me a superiora: “Vamos, deixo-vos ao cuidado de Nosso Senhor Jesus Cristo; ele vos dirija, governe e cure, segundo sua vontade. Fiquei um pouco surpreendida por estar então tremendo, com febre, contudo fui, muito contente praticar aquela obediência..Mas apenas fiquei sozinha, o Senhor apareceu-me. Eu estava deitada no chão, inteiramente transida de dor e de frio; Com mil carícias fez-me levantar e disse-me: “Enfim és  toda minha, e estás aos meus cuidados. Por isso quero devolver-te com saúde aos que te entregaram doente.” Todas se espantaram muito, sobretudo minha superiora, que sabia o que se tinha passado.(p.76).

 Padecimentos em tempo de carnaval

 Estas indisposições e padecimentos, de que falei, duravam-me ordinariamente todo o tempo do carnaval até quarta-feira de cinzas, de modo que parecia estar nas últimas, sem poder achar consolação nenhuma, nem alívio…(p.78-79).

 Tentações paras ficar agitada

 O inimigo…fazia todos os esforços para isso, não havendo nada em que ele seja tão poderoso e em que ganhe tanto como numa alma que está perturbada e inquieta.(p.80)

 Fonte:Autobiografia. Santa Margarida Maria Alacoque. Ed. Loyola.1985.