Biografia dos Santos

Posts Tagged ‘São João de Deus

Biografia de São João de Deus

MENSAGEM DO PAPA JOÃO PAULO II
AO PRIOR-GERAL DA ORDEM HOSPITALEIRA
DE SÃO JOÃO DE DEUS NO PRIMEIRO CENTENÁRIO
 DO NASCIMENTO DE SÃO RICARDO PAMPURI

 Ao Reverendíssimo FR. PASCUAL PILES FERRANDO
Prior-Geral da Ordem Hospitaleira de São João de Deus

1. No centenário do nascimento de São Ricardo Pampuri, desejo dar graças ao Senhor por este Santo que honra essa Família religiosa. A presença das suas Relíquias no hospital dos Fatebenefratelli, na Ilha Tiberina, constitui a ocasião oportuna para repropor, a quantos trabalham no âmbito dessa estrutura hospitalar, o testemunho eloquente da sua vida, inteiramente impregnada do programa ascético do «ama nesciri et pro nihilo reputari». Tive a alegria de proclamar Beato em 1981, e Santo em 1989, esta límpida figura de homem do nosso tempo. Nele refulgem os traços da espiritualidade laical delineada pelo Concílio Ecuménico Vaticano II.

A sua existência terrena, contida no arco de apenas 33 anos, mostra como em breve tempo este jovem religioso soube alcançar o ápice da santidade. Nos primeiros anos de vida em Trivolzio e Torrino, durante os estudos secundários e universitários em Milão e Pavia, na frente ítalo-austríaca durante a primeira guerra mundial, e depois em Morimondo, como médico municipal, deixou em toda a parte vestígios de piedade e de amor pelos pobres. Sustentado pelo exemplo dos seus entes queridos e pelo convívio com piedosos e zelosos sacerdotes, empenhou-se em múltiplos campos de apostolado: foi sócio assíduo e generoso do Círculo Universitário e das Conferências de São Vicente de Paulo, presidente da Associação juvenil da Acção Católica, Terciário franciscano e animador incansável de iniciativas de formação espiritual e de caridade. Com a idade de 30 anos, entrou na Ordem dos Fatebenefratelli, de cujo carisma se tornou um dos intérpretes mais significativos.

2. «Bom Mestre, que devo fazer para alcançar a vida eterna?» (Mc 10, 17). Parece ser esta a pergunta que atravessa os pensamentos deste jovem, sempre em busca da perfeição cristã. «Falta-te apenas uma coisa: Vai, vende tudo o que tens, dá o dinheiro aos pobres e segue- Me» (Mc 10, 21). Ao convite do Senhor ele, dotado de fé e caridade profunda, respondeu com alegria, doando-se completamente a Cristo pobre, humilde e casto e entrando na Ordem dos Fatebenefratelli. Vítima de uma doença contraída em zona de guerra, ao abraçar o carisma de São João de Deus, conseguiu dar plenitude ao seu desejo de anunciar e testemunhar aos doentes o Evangelho de Cristo crucificado e ressuscitado.

Como o divino Mestre, sentiu a urgência do «deserto» e da oração (cf. Mc 1, 35) para depois poder servir os irmãos, especialmente os doentes e os sofredores. «Tenho necessidade de me recolher um pouco em mim mesmo na presença do Senhor, para que a minha alma não se torne insensível nem se perca em estéreis e prejudiciais preocupações externas», escrevia numa sua carta. Essa necessidade levava-o a viver constantemente unido ao Senhor, a deter-se por longo tempo diante do tabernáculo e a nutrir uma terna devoção pela Virgem. Na escola do Evangelho, tornou-se para quantos o conheceram e, sobretudo, para os seus assistidos um sinal vivo da misericórdia de Deus, sempre disponível a ver nos doentes o Cristo que sofre, a ajoelhar-se na soleira das casas onde reinava a dor e a partir apressado sem esperar nenhuma recompensa.

Tendo escolhido cumprir profundamente a vontade do Pai, à imitação do seu Senhor, viveu como acto supremo de obediência e de amor também a doença e a morte.

3. Como não acolher a mensagem contida no maravilhoso caminho de santidade de São Ricardo Pampuri, que essas celebrações centenárias repropõem de modo eloquente?

Aos Coirmãos da Ordem à qual pertencia, chamados a servir Cristo nos doentes, o testemunho deste jovem médico- cirurgião indica que a união com Deus deve alimentar constantemente a vida religiosa e a actividade apostólica. Aos leigos que trabalham nas estruturas hospitalares, São Ricardo Pampuri, médico apaixonado pela sua missão entre os doentes, propõe que amem a própria profissão e a vivam como vocação. Ele, que no cuidado dos que sofriam jamais separou ciência e fé, empenho civil e espírito apostólico, convida todos os agentes de saúde a terem sempre em conta a dignidade da pessoa humana, para exercerem o «dever quotidiano» com o espírito do bom Samaritano. O testemunho que deu na doença, que o levou à morte, encoraja todos os que sofrem a não perderem a confiança em Deus; antes, exorta-os a acolher também na prova o projecto de amor do Senhor.

Enquanto invoco a especial protecção de São Ricardo Pampuri, oro para que as celebrações jubilares do seu nascimento e o inteiro programa espiritual e cultural preparado para essa festividade, constituam para todos uma ocasião de renovado empenho na vida cristã, nas relações interpessoais e no serviço aos doentes.

Possam aqueles que visitam as Relíquias de São Ricardo Pampuri, com a radicalidade e generosidade por ele testemunhadas até à morte, seguir o exemplo de São João de Deus, Fundador dessa Ordem Hospitaleira.

Com estes bons votos, concedo-lhe, bem como aos Coirmãos, às Religiosas colaboradoras, aos Agentes de saúde e aos doentes uma especial Bênção Apostólica.

Vaticano, 22 de Outubro de 1997.

JOÃO PAULO II

Fonte:http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/speeches/1997/october/documents/hf_jp-ii_spe_19971022_pampuri_po.html

DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II
AOS CAPITULARES DA ORDEM HOSPITALEIRA
 DE SÃO JOÃO DE DEUS

Quinta-feira, 13 de Dezembro de 1979

 

Irmãos e filhos caríssimos

Agradeço de coração ao vosso Prior-Geral as fervorosas palavras que me dirigiu, e todos saúdo com paternal afecto, dando-vos as boas-vindas. Tenho o prazer de me encontrar convosco, dignos representantes da Ordem Hospitaleira de São João de Deus, mais conhecida (em Itália) com o nome de “Fatebenefratelli”, que na sua existência de vários séculos praticou não raras benemerências, quer no plano dum testemunho evangélico e eclesial propriamente dito, quer no plano dum precioso contributo para uma qualificação mais humana da vida.

Nestes dias, estais vós na conclusão dum Capítulo Geral extraordinário, decretado para estudar e definir o carisma específico da vossa Família religiosa, os seus grandes princípios inspiradores e os problemas actuais, relacionados com o exercício do vosso ministério. Sei que encontrastes não poucas dificuldades internas e externas à Ordem, e que formulastes também claras perspectivas de compromisso religioso e assistencial. Pois bem, aos vossos louváveis esforços tenho o gosto de assegurar o sustentáculo da minha aprovação e da minha oração ao Senhor.

Sobretudo não posso deixar de expressar-vos claramente a minha sincera complacência e o meu apreço por tudo quanto forma já o conteúdo de todos os dias dos vossos compromissos quer religiosos quer profissionais, que nunca se podem aliás separar, porque uns realizam-se mediante os outros. A uma coisa vos animo, porque urgente e actual, e, por outro lado, sem dúvida presente à vossa consciência e ao vosso sentido de responsabilidade: num tempo em que a vida do homem está infectada por vários factores de desumanização, sede vós os promotores e a garantia de níveis melhores e mais altos de humanidade. Vale isto particularmente no sector característico dos doentes e em geral dos que sofrem, aos quais, por consagração e instituição, dedicais o melhor de vós mesmos. Em certo sentido, diria que não há nada de mais humano que a dor, que revela a dimensão criatural profunda da existência terrena e oferece ocasião privilegiada para nos inclinarmos com amorosa condescendência sobre as carências dos irmãos necessitados. A situação destes, na verdade, não é tida nunca como facto indiferente e descurável; menos ainda deve ser considerada ou incómoda para o nosso viver sossegado ou superior às nossas possibilidades de assistência desvelada. O princípio bíblico que nos leva a gozar com quem goza e sofrer com quem sofre (Cfr. Sir 7, 34: Rom 12, 15), é, primeiro que tudo, estímulo para um comportamento altamente humano, feito de natural e espontânea participação nas experiências alheias e portanto sinal duma comunhão que enriquece seja quem a recebe seja quem a oferta.

Além disto, animo-vos a cultivar um testemunho cristão sempre transparente e fecundo, especialmente nos ambientes do vosso apostolado próprio. Uma relação puramente humana, mesmo com os doentes, arrisca-se a ficar estéril por falta de raízes e motivações profundas. Também a vossa profissionalidade é facto muito importante, e deverá ser o mais possível séria e actualizada. Mas se o vosso trabalho não é filtrado através da fé, está sempre em perigo de materializar-se e até mesmo perder aqueles elementos humanos de que falei acima. Bem sabeis e sempre devereis ter presente que, segundo Evangelho, quem serve o doente entra em contacto com o próprio Jesus (Cfr. Mt 25, 36.40), cuja força se revela totalmente na fraqueza, segundo a expressão do Apóstolo Paulo (2 Cor 12, 9). De facto foi mediante os Seus sofrimento que todos nós obtivemos por graça a salvação (Cfr. Heb 2, 10.18). Ora, que melhor oportunidade de evangelização se vos oferece, senão exactamente o descobrir a quem sofre o valor profundo da sua condição, que sem dúvida adquire sentido, valor e fecundidade, precisamente graças à conformação alegre e abençoada com a Cruz de Cristo (Cfr. Flp 3, 10-11; Rom 8, 17; 2 Cor 1, 5)? Assim o vosso trabalho, continuando a ser profissionalmente qualificado, pode transformar-se em autêntico apostolado.

Por meu lado, invoco de coração sobre vós copiosas graças celestiais. Seja o Senhor quem leve à plena maturidade tudo o que semeastes no vosso Capítulo, de maneira que produza frutos abundantes, dignos tanto do Evangelho que vos inspira, quanto do homem que servis.

Destes votos cordiais é penhor a especial Bênção Apostólica, que de boa vontade concedo a vós e a todos os beneméritos Religiosos da Ordem dos “Fatebenefratelli”.

Fonte:http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/speeches/1979/december/documents/hf_jp-ii_spe_19791213_fatebenefratelli_po.html

Vida de São João de Deus

CRONOLOGIA:

1495
Nasce S. João de Deus (João Cidade) em Montemor-o-Novo – Évora.

1503
Deixa a sua casa e fixa-se em Oropesa (Espanha).

1520
Morre o seu Pai num convento em Lisboa.

1523
Combate no Exército de Carlos V, na reconquista aos franceses de Fuenterrabia, nos Pirineus.

1524
Regressa a Oropesa.

1532
Novamente soldado. Agora em Viena contra os turcos.

1533
Regressa a Montemor-o-Novo. Segue para Sevilha.

1535
Dirige-se a Ceuta (portuguesa); trabalha na fortificação da cidade e ajuda uma família em extrema necessidade.

1538
Volta a Espanha e vende livros em Gibraltar. Transfere-se depois para Granada onde abre uma pequena livraria.

1539
Em 20 de Janeiro, durante o sermão da festa de S. Sebastião passa por uma crise de conversão que o leva ao hospital, dado como louco.

1539
No Outono funda um hospital na Rua Lucena.

1546
Recebe os primeiros discípulos: Antão Martin e Pedro Velasco

1547
Transfere o seu hospital para um edifício maior, antigo convento, na Encosta de Los Gomeles.

1548
Vai a Valladolid à corte pedir auxílio ao Príncipe Filipe (II).

1549
Salva os doentes do Hospital Real incendiado.

1550
A 8 de Março morre na Casa dos Pisas, em Granada.

Fonte:http://www.isjd.pt/

João nasceu na cidade de Montemor-o-Novo (Évora, Portugal), em 1495. Com oito anos de idade, juntamente com um clérigo que pernoitou em sua casa, foi para a Espanha e fixou-se em Oropesa (Toledo) ao serviço da família de Francisco Cid Maioral, que se dedicava à criação de gado. Acompanhado por essa família decorreu quase a metade da sua vida. João foi pastor durante quase vinte anos. Todos apreciavam o seu trabalho. Durante esse tempo foi amadurecendo o verdadeiro sentido da sua vida, passando pelas vicissitudes próprias da adolescência e juventude. Por duas vezes saiu de Oropesa e ambas para integrar contingentes militares. Em 1523 deslocou-se até à fronteira com a França, em Fuenterrabía. Nesta experiência, porém, não se saiu muito bem e chegou a estar condenado a morte. Regressou a Oropesa, vencido. Em 1532 seguiu para Viena (Áustria) para combater os Turcos. E já não voltaria mais a Oropesa. Ao regressar de Viena, de barco, entrou na Espanha pela Galiza, visitou o santuário de S. Tiago de Compostela e dirigiu-se à sua terra natal, Montemor-o-Novo, onde teve notícia da morte dos pais e não encontrou quase ninguém conhecido. Sentiu então, fortemente o chamado a seguir Jesus Cristo, dedicando-se aos pobres e aos doentes. Convidado a ficar, preferiu seguir de novo para Espanha, sem rumo definido, mas inquieto. Ficou alguns meses em Sevilha, depois Ceuta e Gibraltar, finalmente, Granada, onde se estabeleceu como livreiro.

Vendia livros de cavalaria, mas também de conteúdo e caráter religioso, pelos quais cobrava mais barato. Em 1537, escutando um sermão de S. João de Ávila no eremitério dos Mártires, sentiu-se profundamente tocado… saiu do eremitério aos gritos, dizendo-se grande pecador, atirando-se no chão e, destruiu a sua livraria…  Escolheu como guia espiritual S. João de Ávila. Foi em peregrinação ao Santuário da Virgem de Guadalupe, onde aproveitou para aprender algumas técnicas para cuidados básicos de saúde na escola de medicina dos monges e no regresso, passou por Baeza, onde permaneceu com o seu Mestre durante algum tempo. Depois voltou novamente para Granada, onde iniciou a sua atividade de ajuda aos pobres, doentes e necessitados, fundando um hospital bem diferente dos existentes. Começou do nada. Na cidade, todos pensavam que se tratava de uma nova forma de loucura. Mas, aos poucos compreenderam a sua verdadeira sensatez.

Trabalhava, pedia esmolas, recolhia os pobres, dedicava-se a eles… De início, sozinho; depois, progressivamente, foram unindo-se a ele outras pessoas, voluntários, benfeitores e os primeiros discípulos. Era muito original a maneira como pedia esmola, utilizando a expressão: “Irmãos fazei o bem a vós mesmos, ajudando aos pobres”. Foi pioneiro na história da humanidade ao separar os doentes por patologia e ao dar um leito para cada paciente. Foi um profeta da caridade.

Aos 43 anos vivia na cidade de Granada, tocado por Deus e pela situação de abandono e marginalização que viviam os pobres e os doentes, deu uma virada radical em sua vida e passou da compaixão à ação. Interiorizou a convicção de que qualquer mulher e qualquer homem eram seus irmãos e passou a viver para todos os que precisavam: “chagados, tolhidos, incuráveis, feridos, desamparados, tinhosos, loucos, prostitutas, mendigos, andarilhos, órfãos, pobres envergonhados… todos, aqui, tem um lugar” dizia João em uma de suas cartas.

 Por volta do ano 1539 fundou um hospital, inovador para a época, ao qual deu o nome de “Casa de Deus”, já que em cada paciente via o próprio Cristo. Nesta casa eram acolhidas todas as pessoas, sem distinção. Com a colaboração de alguns companheiros que se juntaram a ele, organizou a assistência conforme considerava que os pobres mereciam. O povo vendo tanta bondade nele começou a chamá-lo João de Deus, o Bispo de Tuy vendo que era verdade o que sobre João diziam, lhe mudou o nome de João Cidade para João de Deus. Convidava as pessoas a fazer o bem a si mesmas ajudando aos que mais precisavam, pois estava convicto de que quando alguém faz o bem aos outros é para si mesmo o bem maior. João de Deus pronunciava estas palavras com a autoridade de quem tinha feito a experiência. Ele se sentia o menor de todos e era feliz por sê-lo. Com a coragem dos profetas e uma postura de não-violência, denunciou as injustiças sociais, desmandos morais e a desumanização dos cuidados em hospitais. Foi voz para os fracos e excluídos em meio a uma sociedade marcada pelo egoísmo, fanatismo religioso e muitas injustiças. Resumimos a sua postura de acolhimento integral às pessoas com a palavra HOSPITALIDADE .

Ela era misericodiosa, solidária, holística, criativa, profética e geradoras de seguidores. Sua hospitalidade não conhecia fronteiras. Seu estilo atraiu muitos discípulos. Estes, ajudados por muitos, continuaram e ainda continuam o seu trabalho. Fundaram outros hospitais, embarcaram em muitas missões. Em 1572 o Papa reconheceu-os como Instituto Religioso para o carisma da Hospitalidade, considerando que, “era a flor que faltava no jardim da Igreja”. Hoje, os Irmãos de São João de Deus estão presentes nos cinco continentes em 50 países, com cerca de 300 obras apostólicas. São João de Deus é o patrono dos doentes, dos hospitais e dos enfermeiros. No dia 8 de Março de 1550, de joelhos, entregou a sua alma a Deus. Tinha nas mãos um crucifixo. Morreu como tinha vivido: de joelhos perante Deus, abraçando a cruz redentora de Cristo. João de Deus soube arriscar tudo pela causa que servia. Arriscou a saúde, a fama, a vida! A sua festa celebra-se no dia 8 de Março.

 É sabido que São João de Deus fazia o bem a todos quanto pudesse e até o que não pudesse. Seus inscritos e suas cartas relatam que ele se endividou a fim de poder acolher a todos que necessitassem e não lhes deixar faltar nada. Pedia esmolas dia e noite e dedicava a sua vida inteiramente ao próximo. Algumas histórias são contadas por terem um teor inusitado.Estão a seguir:

O MENDIGO QUE NÃO ERA POBRE:

 Ocorreu que um homem, desconfiado de João de Deus e da “loucura” com que dizia levar a sua vida – porque para muitos trata-se de verdadeira loucura abandonar a própria vida em favor dos outros – quis testar a João de Deus para saber se ele realmente usava as esmolas que conseguia para cuidar dos pobres. Ao ver João de Deus aproximar-se pelo caminho, deu-lhe uma esmola. Saiu dali apressadamente, vestiu-se de mendigo a fim de lhe testar a caridade e foi para a beira do caminho solicitar ajuda a São João de Deus. Qual não foi a surpresa do homem quando João de Deus tirou dos bolsos tudo o que tinha e entregou-lhe tudo sem hesitar. Com isso, o homem converteu-se, aderiu a causa do Santo e passou a ser Colaborador de sua obra.

AS CORTINAS QUE ALIMENTAM OS POBRES:

Certo dia, chegando João de Deus a casa de um rico, percebeu ele que as janelas de sua casa possuiam belas cortinas. Todas elas aveludadas e grossas. É sabido que na Espanha, assim como em toda Europa, os invernos são muito rigorosos e milhares de pessoas acabavam morrendo de frio por serem muito pobres. Os mesmos pobres os quais cuidava São João de Deus. Observando aquilo, João de Deus disse ao homem que enquanto as janelas de sua casa eram cobertas por cortinas luxuosas, com tecidos finos, os seus pobres morriam de frio por falta de roupas. O homem sentiu-se tão envergonhado com tal comentário, que mandou que fossem retiradas todas as cortinas da casa e serem entregues a João de Deus. Ao recebê-las, João de Deus agradeceu-lhe. E imediatamente perguntou ao homem se não gostaria de comprar as tais cortinas, pois estava precisando de dinheiro para os pobres.

ORAÇÃO A SÃO JOÃO DE DEUS Senhor, que inflamastes São João de Deus no fogo da caridade para que fosse na terra o Apóstolo dos pecadores, Socorro dos pobres e Saúde dos doentes; no céu o constituístes Alívio dos que sofrem, Padroeiro e Modelo dos profissionais de saúde. Concedei-nos, por sua intercessão, a graça que neste momento vos pedimos, prometendo imitá-lo nas suas virtudes, na construção do Vosso Reino de Paz, Justiça, Amor e Misericórdia. Por nosso Senhor Jesus Cristo Vosso Filho na unidade do Espírito Santo. Amém.

Fonte:http://www.ohbrasil.org.br/index.php?id=6

CARTA A LUÍS BAPTISTA

 1. Em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo e de Nossa Senhora, a Virgem Maria sempre intacta. Deus antes e acima de todas as coisas do mundo (1). Deus vos salve, meu irmão em Jesus Cristo e meu filho muito amado, Luís Baptista.

 2. Recebi uma carta vossa que me enviastes de Jaén, a qual me deu muito prazer e me causou muita satisfação; contristou-me no entanto a vossa dor de dentes, pois me penaliza todo o vosso mal e me regozijo com o vosso bem.

 3. Mandais-me dizer que não encontrastes aí o que procuráveis, e por outro lado dizeis-me que quereis ir a Valença ou não sei aonde. Não sei o que vos diga.

 4. É tão urgente que vos envie esta carta que a estou a escrever à pressa e quase nem tenho tempo de encomendar o assunto a Deus; no entanto é necessário encomendá-lo muito a Nosso Senhor Jesus Cristo e com mais vagar do que tenho agora.

 5. Vendo eu como sois muitas vezes tão fraco, particularmente no que respeita a mulheres, não sei que vos diga sobre mandar-vos vir para aqui; mesmo o Pedro não se foi embora,nem sei quando o fará; ele diz que quer ir, mas não sei ao certo quando será a partida.

 6. Se eu tivesse a certeza de que aqui aproveitaríeis para a vossa alma e para a de todos, mandar-vos-ia vir imediatamente; mas tenho medo que se dê o contrário. Parece-me que por agora seria melhor sujeitar-vos durante algum tempo a uma vida austera, até poderdes vir bem acostumado a trabalhos e dias de grandes reveses e a outros mais bem sucedidos. Por outro lado, parece-me que, se nessa viagem vos haveis de ir perder, seria muito melhor que voltásseis. Mas nisto só Deus é que sabe o que é melhor e mais acertado.

  7. Por isso me parece conveniente que, antes de deixar essa cidade, encomendeis muito o caso a Nosso Senhor Jesus Cristo e eu também aqui faça o mesmo. Para isso, escrevei-me muito a miúdo e pedi informações aos peregrinos que vão de um lado para o outro, e eles vos dirão como está essa terra de Valença. Se lá fordes, não deixeis de visitar o santo corpo de S. Vicente Ferrer.

 8. Parece-me que andais como barco sem remos (2), de modo que muitas vezes me deixais também na dúvida e como que desorientado, pois ambos, eu e vós, ficamos sem saber o que fazer. Mas como Deus é quem tudo sabe e pode remediar, Ele nos dê remédio e entendimento a todos. 9. Ora, como a mim me parece que andais como pedra movediça, será conveniente que procureis mortificar um pouco a vossa carne, levando vida difícil, com fome e sede, humilhações e cansaços, angústias, trabalhos e contrariedades. Tudo isto o deveis sofrer por Deus, pois, se para cá vierdes,tereis de passar tudo isto  por amor de Deus, e por tudo lhe haveis de dar muitas graças, tanto pelo bem como pelo mal (3). 10. Lembrai-vos de Nosso Senhor Jesus Cristo e da sua bendita Paixão pois retribuía com o bem o mal que Lhe faziam.

 Assim haveis de fazer vós, meu filho Baptista, para que, se vierdes para a casa de Deus, saibais conhecer o mal e o bem. Mas se vós de todo em todo soubésseis que com essa ida vos havíeis de perder, mais valeria voltar para aqui ou para Sevilha, para onde Nosso Senhor mais vos guiasse.

 11. Mas se vierdes para aqui, haveis de obedecer muito e trabalhar muito mais do que tendes trabalhado, e tudo em coisas de Deus, e desvelar-vos no serviço dos pobres. A casa está aberta para vós. Queria ver-vos chegar o melhor possível, como filho e irmão.

 12. É natural que me não compreendais bem nesta carta porque estou com muita pressa e não vos posso escrever mais longamente; mesmo não sei se o Senhor será servido que venhais já para esta casa ou se quererá que continueis a padecer por aí. Mas lembrai-vos de que, se vierdes, haveis de vir de verdade e vos haveis de guardar muito das mulheres (4) como do diabo.

13. Vai-se aproximando o tempo de escolherdes um estado de vida. Se vierdes para aqui, tendes de oferecer algum fruto a Deus e haveis de deixar a pele e as correias. Lembrai-vos de S. Bartolomeu, a quem esfolaram e levou a pele às costas. Se para cá vierdes, não há-de ser senão para trabalhar e não para folgar (5), pois ao filho mais querido é que se confiam os trabalhos mais difíceis.

 14. Quanto a virdes para aqui, fazei o que vos parecer melhor e Deus vos inspirar. Se por agora achardes melhor correr mundo, em busca de alguma acção em que melhor sirvais a Deus, falei tudo como Ele quiser e for servido, à semelhança daqueles que demandam as Índias à procura de fortuna. Mas fazei-o de modo que sempre me possais escrever de onde quer que vos encontreis.

 15. Todos os dias da vossa vida tende Deus diante dos olhos (6); ouvi sempre Missa inteira; confessai-vos com frequência, se for possível; não durmais nenhuma noite em pecado mortal.

 CARTAS 132 DE S. JOÃO DE DEUS

 Amai a Nosso Senhor Jesus Cristo sobre todas as coisas do mundo (7), pois, por muito que O ameis, muito mais vos ama Ele. Tende sempre caridade (8), porque onde não há caridade não há Deus, embora Ele esteja em todo o lugar.

16. Logo que possa, irei apresentar a Lebrija os vossos cumprimentos. Já entreguei a vossa carta ao Baptista que está na cadeia; ficou muito contente com ela. Eu disse-lhe que escrevesse logo a resposta, para vos mandar a carta. Agora vou ver se já a escreveu, para eu vo-la mandar.

 Aceitai recomendações de todos. Apresentei os vossos cumprimentos a todos, grandes e pequenos, à Ortiza e ao Miguel. O Pedro diz que, se vierdes, ficareis com ele até se ir embora, e igualmente se voltar outra vez. 17. Nada mais tenho a dizer-vos, a não ser que Deus vos salve, vos guarde e encaminhe no seu santo serviço, a vós e a todas as pessoas do mundo. Termino a carta mas não as orações que dirijo a Deus por vós e por todos (9). Devo dizer-vos que me tenho dado muito bem com o Rosário e que espero em Deus rezá-lo quantas vezes puder e Deus quiser.

 18. Já vos disse que, se virdes que vos haveis de perder com essa viagem,

façais o que vos parecer melhor. Antes de partir dessa cidade, mandai dizer algumas Missas ao Espírito Santo e aos Santos Reis, se tiverdes com quê; se não, basta a boa vontade; e se nem isso bastar, baste a graça de Deus (10). 19. O irmão menor de todos, João de Deus, se Deus quiser, morrendo, mas entretanto calando e em Deus esperando, escravo de Nosso Senhor Jesus Cristo, desejoso de O servir. Amém Jesus. Embora não seja tão bom escravo como outros, pois muitas vezes sou velhaco para com Ele e muitas vezes Lhe sou traidor, ainda que muito me pese disso e muito mais me devesse pesar, que Deus me queira perdoar a mim e a todos queira salvar.

 20. Escrevei-me a dizer tudo o que se passar convosco por aí. Mando-vos dentro desta uma carta que me enviaram para eu vos entregar. Não a quis abrir para vos ser leal. Não sei se é para vós, se para o Baptista da cadeia. Se for para o da cadeia, lede-a e mandai-ma para lhe ser entregue. Se o Baptista já tiver escrito a sua carta, irá com estas duas. Agora ficai com Deus e andai com Deus (11).

 CARTAS 134 DE S. JOÃO DE DEUS

 1.ª CARTA A GUTERRES LASSO

 21. Em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo e de Nossa Senhora, à Virgem Maria sempre intacta. Deus antes e acima de todas as coisas do mundo. Deus vos salve, meu irmão em Jesus Cristo, Guterres Lasso, a vós, a toda a vossa companhia e a quantos Deus quiser e for servido. Amém Jesus. 22. Serve a presente para vos fazer saber que cheguei muito bem de saúde, graças a Deus, e que trouxe mais de cinquenta ducados. Com o que aí tendes e o que trouxe creio que andarão por cem ducados. Desde que vim já me empenhei em trinta ducados ou mais, de modo que nem estes nem esses são suficientes, pois tenho mais de cento e cinquenta pessoas a sustentar, e a tudo Deus acorre cada dia. Se a esses vinte e cinco ducados que aí tendes pudésseis juntar mais alguma coisa, (bom seria), pois tudo é bem preciso. Mandai-me quantos pobres chagados aí houver; mas se não puder ser, paciência.

 23. Mandai-me quanto antes os vinte e cinco ducados, pois esses e muitos mais já eu devo e estão à espera deles. Por sinal que vo-los entreguei numa taleiguinha de linho, no vosso jardim das laranjeiras, uma noite que lá entrámos a passear. Espero em Nosso Senhor Jesus Cristo que um dia passeareis no jardim celeste. 24. O recoveiro estava com muita pressa e por isso não pude escrever mais largamente, e também porque tenho tido aqui tanto trabalho que não tenho vago sequer o espaço dum Credo. Por amor de Nosso Senhor Jesus Cristo mandai-me sem demora esse dinheiro, pois estão sempre a insistir comigo por causa dele.

 25. Por amor de Nosso Senhor Jesus Cristo, recomendai-me ,à muito nobre, virtuosa e generosa serva de Nosso Senhor Jesus Cristo, vossa mulher, a qual tanto deseja servir e agradar a Nosso Senhor Jesus Cristo e a Nossa Senhora, a Virgem Maria sempre intacta, e por amor de Deus obedecer e servir a seu marido, Guterres Lasso, servo de Nosso Senhor Jesus Cristo e desejoso de O servir. Amém Jesus.

 26. Dai também os meus cumprimentos ao vosso filho, o Arcediago, que andou comigo a pedir a bendita esmola e que é o mais humilde servo dos servos de Nosso Senhor Jesus Cristo e de Nossa Senhora, a Virgem Maria sempre intacta, o qual sempre deseja servir e agradar a Nosso Senhor Jesus Cristo e à sua bendita Mãe, a Virgem Maria Nossa Senhora. Dizei-Lhe que me escreva sem demora, com a ajuda de Deus.

 27. Escrevei-me também vós, bom cavaleiro e meu bom irmão em Jesus Cristo, Guterres Lasso, e dai recomendações minhas a todos os vossos filhos e filhas e a quantos entenderdes. Em Málaga saudareis em meu nome e apresentareis os meus cumprimentos ao Bispo e a todos aqueles que quiserdes e entenderdes, pois estou obrigado a rezar por todos (12).

 28. Quanto ao vosso filho, o bom cavaleiro que me parece ser o morgado, será como Deus quiser (13). Nosso Senhor Jesus Cristo o guie nos seus negócios, trabalhos e empreendimentos. Parece-me que, se for da vontade de Deus, será melhor casá-lo o mais depressa possível, se ele manifestar esse desejo (14). Embora eu vos diga o mais depressa possível, nem por isso vos deveis afligir, pois a maior preocupação que haveis de ter será a de pedir a Deus que lhe dê uma boa mulher. Ainda que por agora me pareça bastante jovem, praza a Nosso Senhor Jesus Cristo que na prudência seja homem maduro.

 29. Cada um deve abraçar o estado que Deus lhe der (15). Nessas ocasiões, porém, os pais e as mães não se devem deixar tomar de excessivas preocupações e ansiedades, a não ser para pedir a Deus que conceda o estado de graça a todos e a todas.

 2.ª CARTA À DUQUESA DE SESA

 71. Em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo e de Nossa Senhora, a Virgem Maria sempre intacta. Deus antes e acima de todas as coisas do mundo. Amém Jesus. Deus vos salve, minha irmã muito amada em Jesus Cristo, muito nobre, virtuosa, generosa e humilde Duquesa de Sesa. Jesus Cristo vos salve e guarde, a Vós, a toda a vossa companhia e a quantos Deus quiser e for servido. Amém Jesus.

 72. Serve a presente para vos fazer saber como estou e para vos dar conta de todos os meus trabalhos, necessidades e angústias, que se me aumentam de dia para dia, e ainda mais agora, e cada vez muito mais, tanto pelas dívidas como pelos pobres que vão chegando, muitos dos quais sem roupa, descalços, chagados e cheios de piolhos, de modo que é forçoso que um ou dois homens não façam outra coisa senão escaldar piolhos numa caldeira a ferver. Este trabalho estender-se-á daqui em diante, por todo o Inverno, até ao próximo mês de Maio. Assim, minha Irmã em Jesus Cristo, os meus trabalhos vão aumentando cada dia muito mais.

 73. Pois Nosso Senhor Jesus Cristo quis levar para si uma sua filha, a quem muito queria e amava, D. Francisca, filha de D. Bernardino, sobrinho do Marquês de Mondéjar. Nosso Senhor Jesus Cristo deu-lhe tanta graça que, enquanto viveu cá na terra, fez sempre muito bem aos pobres; e a todas as pessoas que lhe pediam por amor de Deus nunca lhe faltava uma bendita esmola para lhes dar, de modo que ninguém deixava a sua casa desconsolado, não só pelas suas palavras sempre boas, como ainda pelo bom exemplo que sempre dava e pela boa doutrina que ensinava esta bemaventurada donzela.

 74. Eram tantas as coisas que ela fazia que, para as escrever, seria necessário um grande livro. Dentro em breve escreverei mais longamente sobre esta bem-aventurada donzela D. Francisca, que Nosso Senhor Jesus Cristo quis agora levar para Si, onde está bem e segura, com muita felicidade e descanso, de acordo com a nossa fé e com o que vimos todas as pessoas que a conhecíamos. Pela vontade de Deus, pelas boas obras que Jesus Cristo nela operava e pela graça que lhe dava, a todos fazia bem, tanto pelos conselhos como pela esmola, pois Jesus Cristo lhe dava graça para tudo. Por isso, de acordo com a nossa fé e com o que lhe vimos fazer cá na terra todos os que a conhecíamos, não podemos deixar de acreditar que ela goza agora o eterno descanso com Nosso Senhor Jesus Cristo e com todos os Anjos da Corte do Céu.

 75. Muito sentiram a sua morte todos os que a conheciam, tanto pobres como ricos; e com muita razão, e muito mais, o havia de sentir eu mais que ninguém, pelo conforto e bom conselho que sempre me dava, pois, por mais desanimado que eu chegasse à sua casa, não saía de lá sem consolação e bom exemplo. Mas, uma vez que Nosso Senhor foi servido levar-nos tão grande bem, bendito seja Ele para sempre, pois melhor sabe o que faz e nos convém do que nós podemos pensar (57).

 76. Minha Irmã muito amada em Jesus Cristo, quis dar-vos conta dos meus trabalhos, angústias e necessidades porque sei que vos compadeceis de mim como eu faria a vosso respeito. Muito vos devo, boa Duquesa, e nunca o esquecerei, pelo tão bom acolhimento que me fizestes, melhor do que eu merecia. Nosso Senhor Jesus Cristo vo-lo pague no Céu e vos traga com saúde o bom Duque de Sesa, vosso muito humilde marido, e vos dê filhos de bênção, para que com eles O sirvais e ameis sobre todas as coisas do mundo. 77. Confiai só em Jesus Cristo (58), que o vosso marido virá muito brevemente e com saúde do corpo e da alma, e não estejais aflita nem desanimada, pois daqui em diante vos sentireis mais alegre do que tendes estado até aqui; e vereis que é verdade o que eu vos disse, se confiardes só em Jesus Cristo. Deus antes a acima de todas as coisas do mundo, pois eu não sei nada; Jesus Cristo é que tudo sabe (59), e com a sua ajuda haveis de ser consolada muito em breve com a presença do vosso muito humilde marido, a quem eu muito quero e estimo e a quem sou tão devedor, a ele e a todos os seus.

 78. Muitas vezes me tem ele tirado de embaraços e me tem desempenhado e consolado com a sua bendita esmola, a qual já os Anjos assentaram no livro da vida, no Céu, onde tem acumulado um grande tesouro (60), para quando fordes para lá, boa Duquesa, poderdes gozar dele para sempre, vós e o vosso humilde marido, o bom Duque de Sesa. Praza a Nosso Senhor Jesus Cristo trazê-lo depressa diante dos vossos olhos e vos dê filhos de bênção, para que sempre deis graças a Nosso Senhor Jesus Cristo, como sempre lhe dais, por tudo o que Ele faz e nos dá. Pois, se algumas vezes nos dá trabalho e aflições, é para nosso proveito e para merecermos mais (61).

 79. Não encontro melhor remédio nem consolação, para quando me encontro aflito, do que olhar e contemplar a Jesus Cristo crucificado e meditar na sua santíssima Paixão e nos trabalhos e angústias que padeceu nesta vida; e tudo por nós, pecadores, maus, ingratos e mal-agradecidos. Ora, vendo nós como o Cordeiro sem mancha sofreu tantas humilhações sem as merecer, como ousaremos procurar descanso e prazer (62) numa terra onde tantos males e penas infligiram a Jesus Cristo que nos criou e remiu? Que esperamos nós ter?

80. E assim, boa Duquesa, se bem repararmos, esta vida não é senão uma contínua guerra (63) em que sempre vivemos, enquanto estivermos neste desterro e vale de lágrimas, sempre combatidos por três inimigos mortais, que são o mundo, o demónio e a carne (64).

 81. O mundo procura atrair-nos com vícios e riquezas, prometendo-nos vida longa e dizendo: anda para a frente, que ainda és novo, goza a bom gozar, que na velhice te emendarás.

 82. O demonio está sempre a armar-nos laços e a estender-nos redes, para neles tropeçarmos e cairmos (65) e deixarmos de fazer o bem e a caridade, metendo-nos nos cuidados dos bens temporais, para que não nos lembremos de Deus nem do cuidado que devemos ter com a nossa alma, purificando-a e revestindo-a de boas obras. Antes, saídos de um cuidado nos metemos noutro; ou então dizemos: agora, logo que acabe este serviço, quero emendar a minha vida. Assim, de agora em agora, nunca mais acabamos de nos livrar dos ardis do demónio, até que chega a hora da morte e vemos ser falso tudo o que o mundo e o demónio prometem. Ora, uma vez que, conforme nos achar o Senhor, assim nos há-de julgar (66), será bom que nos emendemos a tempo e não façamos como aqueles que dizem: amanhã, mais amanhã, e nunca mais começam (67).

 83. O outro inimigo, que é o maior, e que, como ladrão de casa e doméstico, procura, com boas palavras e bons modos, levar-nos sempre à perdição, é a carne (68), o nosso corpo, que não quer senão bom comer, bom beber e bem vestir, dormir muito e trabalhar pouco, luxúria e vaidade. 84. Para vencer estes três inimigos, muito precisamos da protecção (69), ajuda e graça de Jesus Cristo, de nos desprezarmos inteiramente a nós mesmos (70), pelo tudo que é Jesus Cristo, confiando só n’Ele e confessando a verdade e todos os pecados aos pés do confessor, cumprindo a penitência que ele nos impuser e propondo nunca mais pecar, só por amor de Jesus Cristo. E, se pecarmos, confessar-nos com frequência. 85. É deste modo que poderemos vencer os inimigos de que

A chamada (13) não é referenciada no original. Confirmar a marcação.

 E não confiemos em nós mesmos, pois mil vezes ao dia cairemos em pecado se não confiarmos só em Jesus Cristo. Só por seu amor e bondade procuremos não pecar nem murmurar, não fazer mal nem causar dano ao próximo, antes querer para ele o que desejaríamos que nos fizessem a nós (71); desejar que todos se salvem e amar e servir só a Jesus Cristo, por Ele ser quem é e não pelo temor do Inferno.

 Se for possível, seja o confessor bom e douto, de boa fama e vida exemplar. Tudo isto, minha irmã em Jesus Cristo, melhor o sabeis vós do que eu; por isso, quando me quiserdes mandar algum bom conselho, recebêlo- ei de muito boa vontade, como de minha irmã em Jesus Cristo. 86. E agora, minha muito amada e querida irmã, mandai-me dizer como estais e como passais, depois de terem partido D. Álvaro e D. Bernardino, vossos muito nobres, virtuosos e humildes tios e meus irmãos em Jesus Cristo, a quem eu muito estimo. Deus lhes pague o bom acolhimento que, onde quer que me encontrem, sempre me fazem e têm feito. Nosso Senhor receba um dia no Céu as suas almas e os faça agora chegar de boa saúde à presença da vossa humilde mãe, D. Maria de Mendoza, muito nobre, virtuosa e generosa, a qual sempre deseja agradar e servir a Nosso Senhor Jesus Cristo.

 87. Mandai-me dizer como eles chegaram e como passam, e mandai-me igualmente algumas boas notícias do bom Duque, vosso muito humilde marido, pois de todo o seu bem muito me regozijo; como passa ele, como está e onde se encontra. Praza a Nosso Senhor Jesus Cristo trazê-lo em breve, e com saúde do corpo e da alma, a ele, a toda a sua companhia e a quantos Deus quiser e for servido. Amém Jesus.

 88. Oh, minha irmã muito amada, boa e humilde Duquesa! Como estais só e isolada nesse castelo de Baena, rodeada das vossas muito virtuosas donzelas e damas muito honradas e honestas, a trabalhar e a bordar de noite e de dia, para não estardes ociosa nem gastardes o tempo inutilmente! Quereis seguir o exemplo de Nossa Senhora, a Virgem Maria sempre intacta, a qual, sendo Mãe de Deus, Rainha dos Anjos e Senhora do Mundo, tecia e bordava todo o dia para o seu sustento, e de noite, e parte do dia, orava no seu recolhimento, para dar a entender que, depois do trabalho, devemos dar graças a Nosso Senhor Jesus Cristo, por usar para connosco de tanta misericórdia, dandonos de comer, de beber e de vestir, e todas as coisas sem o merecermos. Se Ele não nos assistisse, que valor teria o nosso trabalho, habilidade e diligência?

89. Assim, pois, continuai sempre a trabalhar ou a ocupar-vos em obras de misericórdia e fazendo com que todos e todas digam a doutrina cristã e rezem as quatro orações que manda a Santa Madre Igreja, e mandando-as ensinar a quem as não souber. Meditai sempre na Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo e nas suas preciosas Chagas, dizei que mais quereis só a Ele do que a todas as coisas do mundo (72) e que quereis e amais o que Ele quer e ama e detestais o que Ele detesta, e que, por seu amor e bondade e não por outro interesse, quereis fazer o bem e a caridade aos pobres e às pessoas necessitadas.

 90. E agora, minha irmã, perdoai-me por ser sempre demasiado extenso ao escrever; e ainda não escrevo tudo o que desejaria, pois estou muito aflito e ainda mal dos olhos e em muita necessidade. Nosso Senhor Jesus Cristo vos faça compreender tudo isto. É que não posso (sozinho) dar conta desta obra que comecei, pois estou a renovar todo o hospital e são muitos os pobres e grande a despesa que aqui se faz, e a tudo se provê sem rendimentos; mas é Jesus Cristo que tudo remedeia, pois eu não faço nada. 91. Eu gostaria de partir já por essa Andaluzia até Zafra e Sevilha, mas não posso enquanto não acabar esta obra, para que não seja trabalho perdido. Por outro lado, estou tão empenhado e em tanta necessidade que nem sei o que fazer. Por isso, minha irmã muito amada em Jesus Cristo, mando-vos aí Angulo para que venda o trigo ou o traga para aqui, conforme vos parecer melhor. Mas, enfim, tenho muita necessidade de dinheiro para esta obra e para pagar algumas dívidas que me arrancam os olhos. Também não tenho com que pagar aos que vierem trazer o trigo, e a despesa é grande. Por isso, parece-me muito melhor vendê-lo. Vede vós, minha irmã, o que vos parece melhor.

 92. Angulo leva a cédula do trigo e a minha procuração, que eu mandei fazer ao meu tabelião. Por amor de Nosso Senhor Jesus Cristo que não venha sem algum socorro, de uma maneira ou de outra, pois logo que Angulo chegar partiremos para Sevilha e para Zafra, para ir ter com o Conde de Féria e o Duque de Arcos, agora que lá está o Mestre Ávila, que os foi visitar. Pode ser que Nosso Senhor Jesus Cristo queira que eles me desempenhem de algumas dívidas.

É melhor ir eu próprio do que mandar cartas, pois eles têm tantas ocupações e pobres a quem dar esmola que, se não estivermos em pessoa diante deles, logo lhes passa da memória o que lhes mandamos dizer. E não me admiro, porque os ricos são muito assediados pelos pobres, que muito os importunam. O Mestre Ávila mandou-me dizer por Angulo que fosse lá. 93. Minha irmã em Jesus Cristo: Jesus Cristo vos pague no Céu a esmola que destes a Angulo para aqueles pobres e para o seu caminho, que foram quatro ducados. Ele já me contou tudo e como vos compadeceis dos meus trabalhos. Perdoai-lhe por não ter podido vir por aí, por causa de umas cartas. Pois, minha irmã muito amada em Jesus Cristo, rogo-vos por amor de Nosso Senhor Jesus Cristo que tenhais dó dos meus trabalhos, angústias e necessidades, para que Deus tenha misericórdia de vós (73) e de tudo o que é vosso e de quantos Deus quiser e for servido. Amém Jesus.

 94. Minha irmã, boa Duquesa, dai recomendações minhas à vossa muito virtuosa governanta; que ela rogue por mim, que eu farei o mesmo por ela, e a todas as muito humildes e virtuosas damas e donzelas da vossa nobre casa; que todas roguem a Deus por mim, pois me encontro em grande luta e batalha.

Dareis igualmente as minhas recomendações ao meu irmão muito querido mosén João, e que ele me escreva a dizer como está e como passa; e a todos os cavaleiros e criados da vossa muito nobre casa…

 96. Vai aí João de Ávila, que é o meu companheiro. Embora eu o trate sempre por Angulo, o seu verdadeiro nome é João de Ávila. Minha irmã muito amada, boa Duquesa de Sesa, mandai-me outro anel ou qualquer coisa do vosso uso, para eu poder empenhar. O outro está bem empregado, pois já o tendes no Céu. Dizei à muito humilde governanta e a todas as damas e donzelas que, se tiverem alguma coisita de ouro ou de prata para oferecer aos pobres e mandar para o Céu (74), ma enviem, para que eu me lembre delas.

 Nosso Senhor Jesus Cristo vos salve e guarde, boa Duquesa, a vós e a toda a vossa companhia e a quantos Deus quiser e for servido. Amém Jesus. Sem essa oferta ou com ela, sinto-me muito obrigado a rogar a Deus por todas e por todos os da vossa casa e nobre morada.

97. Vosso desobediente e mais pequeno irmão, João de Deus, se Deus quiser, morrendo, mas entretanto calando e em Deus esperando, o qual deseja a salvação de todos como a sua própria. Amém Jesus. Boa Duquesa, lembro-me muitas vezes dos presentes que me oferecíeis em Cabra e em Baena, e daqueles pãezinhos fofos que me dáveis. Deus vos dê o Céu e vos faça participante dos seus bens. Amem Jesus. Nota – O original desta carta encontra-se em Granada, no camarim da Basílica de S. João de Deus.

 CARTAS 162 DE S. JOÃO DE DEUS

RECIBO DE UMA ESMOLA RECEBIDA POR S. JOÃO DE DEUS DE UM FIDALGO DA CIDADE DE GRANADA

«Digo eu, João de Deus, que recebi de vós, Fernando de Castro, quatro ducados da esmola que vossa mulher, que esteja em glória, mandou que me fossem dados de esmola para os pobres. Assinei-o com o meu nome e em Granada, a 6 de Dezembro de 1548 anos, com estas minhas três letras».

Nota – O autógrafo deste recibo está guardado na igreja de S. Basílio na cidadede Córdova (Espanha).

 

Fonte: http://www.isjd.pt/