Biografia dos Santos

 

“Ser bom com todos e sempre”. 

                            Beato João XXIII

PAPA JOÃO XXIII

 Nasceu no dia 25 de Novembro de 1881 em Sotto il Monte, diocese e província de Bérgamo (Itália), e nesse mesmo dia foi baptizado com o nome de Angelo Giuseppe; foi o quarto de treze irmãos, nascidos numa família de camponeses e de tipo patriarcal. Ao seu tio Xavier, ele mesmo atribuirá a sua primeira e fundamental formação religiosa. O clima religioso da família e a fervorosa vida paroquial foram a primeira escola de vida cristã, que marcou a sua fisionomia espiritual.

Ingressou no Seminário de Bérgamo, onde estudou até ao segundo ano de teologia. Ali começou a redigir os seus escritos espirituais, que depois foram recolhidos no “Diário da alma”. No dia 1 de Março de 1896, o seu director espiritual admitiu-o na ordem franciscana secular, cuja regra professou a 23 de Maio de 1897.

De 1901 a 1905 foi aluno do Pontifício Seminário Romano, graças a uma bolsa de estudos da diocese de Bérgamo. Neste tempo prestou, além disso, um ano de serviço militar. Recebeu a Ordenação sacerdotal a 10 de Agosto de 1904, em Roma, e no ano seguinte foi nomeado secretário do novo Bispo de Bérgamo, D. Giacomo Maria R. Tedeschi, acompanhando-o nas várias visitas pastorais e colaborando em múltiplas iniciativas apostólicas:  sínodo, redacção do boletim diocesano, peregrinações, obras sociais. Às vezes era também professor de história eclesiástica, patrologia e apologética. Foi também Assistente da Acção Católica Feminina, colaborador no diário católico de Bérgamo e pregador muito solicitado, pela sua eloquência elegante, profunda e eficaz.

Naqueles anos aprofundou-se no estudo de três grandes pastores:  São Carlos Borromeu (de quem publicou as Actas das visitas realizadas na diocese de Bérgamo em 1575), São Francisco de Sales e o então Beato Gregório Barbarigo. Após a morte de D. Giacomo Tedeschi, em 1914, o Pade Roncalli prosseguiu o seu ministério sacerdotal dedicado ao magistério no Seminário e ao apostolado, sobretudo entre os membros das associações católicas.

Em 1915, quando a Itália entrou em guerra, foi chamado como sargento sanitário e nomeado capelão militar dos soldados feridos que regressavam da linha de combate. No fim da guerra abriu a “Casa do estudante” e trabalhou na pastoral dos jovens estudantes. Em 1919 foi nomeado director espiritual do Seminário.

Em 1921 teve início a segunda parte da sua vida, dedicada ao serviço da Santa Igreja. Tendo sido chamado a Roma por Bento XV como presidente nacional do Conselho das Obras Pontifícias para a Propagação da Fé, percorreu muitas dioceses da Itália organizando círculos missionários.

Em 1925, Pio XI nomeou-o Visitador Apostólico para a Bulgária e elevou-o à dignidade episcopal da Sede titular de Areopolis.

Tendo recebido a Ordenação episcopal a 19 de Março de 1925, em Roma, iniciou o seu ministério na Bulgária, onde permaneceu até 1935. Visitou as comunidades católicas e cultivou relações respeitosas com as demais comunidades cristãs. Actuou com grande solicitude e caridade, aliviando os sofrimentos causados pelo terremoto de 1928. Suportou em silêncio as incompreensões e dificuldades de um ministério marcado pela táctica pastoral de pequenos passos. Consolidou a sua confiança em Jesus crucificado e a sua entrega a Ele.

Em 1935 foi nomeado Delegado Apostólico na Turquia e Grécia:  era um vasto campo de trabalho. A Igreja tinha uma presença activa em muitos âmbitos da jovem república, que se estava a renovar e a organizar. Mons. Roncalli trabalhou com intensidade ao serviço dos católicos e destacou-se pela sua maneira de dialogar e pelo trato respeitoso com os ortodoxos e os muçulmanos. Quando irrompeu a segunda guerra mundial ele encontrava-se na Grécia, que ficou devastada pelos combates. Procurou dar notícias sobre os prisioneiros de guerra e salvou muitos judeus com a “permissão de trânsito” fornecida pela Delegação Apostólica. Em 1944 Pio XII nomeou-o Núncio Apostólico em Paris.

Durante os últimos meses do conflito mundial, e uma vez restabelecida a paz, ajudou os prisioneiros de guerra e trabalhou pela normalização da vida eclesial na França. Visitou os grandes santuários franceses e participou nas festas populares e nas manifestações religiosas mais significativas. Foi um observador atento, prudente e repleto de confiança nas novas iniciativas pastorais do episcopado e do clero na França. Distinguiu-se sempre pela busca da simplicidade evangélica, inclusive nos assuntos diplomáticos mais complexos. Procurou agir sempre como sacerdote em todas as situações, animado por uma piedade sincera, que se transformava todos os dias em prolongado tempo a orar e a meditar.

Em 1953 foi criado Cardeal e enviado a Veneza como Patriarca, realizando ali um pastoreio sábio e empreendedor e dedicando-se totalmente ao cuidado das almas, seguindo o exemplo dos seus santos predecessores:  São Lourenço Giustiniani, primeiro Patriarca de Veneza, e São Pio X.

Depois da morte de Pio XII, foi eleito Sumo Pontífice a 28 de Outubro de 1958 e assumiu o nome de João XXIII. O seu pontificado, que durou menos de cinco anos, apresentou-o ao mundo como uma autêntica imagem de bom Pastor. Manso e atento, empreendedor e corajoso, simples e cordial, praticou cristãmente as obras de misericórdia corporais e espirituais, visitando os encarcerados e os doentes, recebendo homens de todas as nações e crenças e cultivando um extraordinário sentimento de paternidade para com todos. O seu magistério foi muito apreciado, sobretudo com as Encíclicas “Pacem in terris” e “Mater et magistra“.

Convocou o Sínodo romano, instituiu uma Comissão para a revisão do Código de Direito Canónico e convocou o Concílio Ecuménico Vaticano II. Visitou muitas paróquias da Diocese de Roma, sobretudo as dos bairros mais novos. O povo viu nele um reflexo da bondade de Deus e chamou-o “o Papa da bondade”. Sustentava-o um profundo espírito de oração, e a sua pessoa, iniciadora duma grande renovação na Igreja, irradiava a paz própria de quem confia sempre no Senhor. Faleceu na tarde do dia 3 de Junho de 1963.

 Fonte:http://www.vatican.va/news_services/liturgy/saints/ns_lit_doc_20000903_john-xxiii_po.html

HOMILIA DE JOÃO PAULO II 

RITO DE BEATIFICAÇÃO SOLENE DE 5 SERVOS DE DEUS

3 de Setembro de 2000

 

1. No contexto do Ano Jubilar, é com profundo júbilo que declaro beatos os Pontífices Pio IX e João XXIII, e outros três servidores do Evangelho no ministério e na vida consagrada:  o Arcebispo de Génova Tomás Reggio, o sacerdote diocesano Guilherme José Chaminade, e o monge beneditino Columba Marmion.

Cinco personalidades diferentes, tendo cada uma delas uma fisionomia e missão, mas todas com uma característica comum, o anseio pela santidade. É precisamente a sua santidade que hoje reconhecemos:  santidade que é relação profunda e transformadora com Deus, construída e vivida no empenho quotidiano de adesão à sua vontade. A santidade vive na história e nenhum santo é subtraído aos limites e condicionamentos próprios da nossa humanidade. Ao beatificar um filho seu a Igreja não celebra particulares opções históricas por ele realizadas, mas indica-o para que seja imitado e venerado pelas suas virtudes, em louvor da graça divina que nele resplandece.

Dirijo a minha deferente saudação às Delegações oficiais da Itália, França, Irlanda, Bélgica e Bulgária, que vieram aqui para esta solene circunstância. Saúdo também os familiares dos novos Beatos, juntamente com os Cardeais, os Bispos, as personalidades civis e religiosas que desejaram participar nesta celebração. Por fim, saúdo todos vós, queridos Irmãos e Irmãs, que viestes em grande número para prestar homenagem aos Servos de Deus que a Igreja hoje inscreve no Álbum dos Beatos.

2. Ao ouvir as palavras da aclamação ao Evangelho:  “Senhor, guia-nos pela recta via”, o pensamento dirige-se espontaneamente para as vicissitudes humana e religiosa do Papa Pio IX, João Maria Mastai Ferretti. Perante os acontecimentos turbulentos do seu tempo, ele foi exemplo de incondicionada adesão ao depósito imutável das verdades reveladas. Fiel em qualquer circunstância aos empenhos do seu ministério, soube dar sempre a primazia absoluta a Deus e aos valores espirituais. O seu longuíssimo pontificado não foi deveras fácil e teve que sofrer muito no cumprimento da sua missão ao serviço do Evangelho. Foi muito amado, mas também muito odiado e caluniado.

Mas precisamente no meio destes contrastes brilhou mais resplandecente a luz das suas virtudes:  as prolongadas tribulações mitigaram a sua confiança na divina Providência, de cujo soberano domínio sobre as vicissitudes humanas ele jamais duvidou. Nascia aqui a profunda serenidade de Pio IX, mesmo no meio das incompreensões e dos ataques de tantas pessoas hostis. Gostava de dizer a quem lhe estava próximo:  “nas coisas humanas é necessário contentar-se em fazer o melhor que se pode e no resto abandonar-se à Providência, que curará os defeitos e as insuficiências do homem”.

Sustentado por esta convicção interior, ele convocou o Concílio Ecuménico Vaticano I, o qual esclareceu com magisterial autoridade algumas questões que naquele tempo eram debatidas, confirmando a harmonia entre fé e razão. Nos momentos de provações, Pio IX encontrou apoio em Maria, da qual era muito devoto. Ao proclamar o dogma da Imaculada Conceição, recordou a todos que nas tempestades da existência humana brilha na Virgem a luz de Cristo, mais forte que o pecado e a morte.

3. “Tu és bom e generoso no perdão” (Ant. de entrada). Contemplamos hoje na glória do Senhor outro Pontífice, João XXIII, o Papa que conquistou o mundo pela afabilidade dos seus modos, dos quais transparecia a singular bondade de ânimo. Os desígnios divinos quiseram que a beatificação unisse dois Papas que viveram em contextos históricos muito diferentes, mas relacionados, além das aparências, por não poucas semelhanças a nível humano e espiritual. É conhecida a profunda veneração que o Papa João tinha pelo Papa Pio IX, do qual desejava a beatificação. Durante um retiro espiritual, em 1959, escrevia no seu Diário:  “Penso sempre em Pio IX de santa e gloriosa memória, e imitando-o nos seus sacrifícios, desejaria ser digno de celebrar a sua canonização” (Jornal da Alma, Ed. S. Paulo, 2000, p. 560).

Do Papa João permanece na memória de todos a imagem de um rosto sorridente e de dois braços abertos num abraço ao mundo inteiro. Quantas pessoas foram conquistadas pela simplicidade do seu ânimo, conjugada com uma ampla experiência de homens e de coisas! A rajada de novidade dada por ele não se referia decerto à doutrina, mas ao modo de a expor; era novo o estilo de falar e de agir, era nova a carga de simpatia com que se dirigia às pessoas comuns e aos poderosos da terra. Foi com este espírito que proclamou o Concílio Vaticano II, com o qual iniciou uma nova página na história da Igreja:  os cristãos sentiram-se chamados a anunciar o Evangelho com renovada coragem e com uma atenção mais vigilante aos “sinais” dos tempos. O Concílio foi deveras uma intuição profética deste idoso Pontífice que inaugurou, no meio de não poucas dificuldades, uma nova era de esperança para os cristãos e para a humanidade.

Nos últimos momentos da sua existência terrena, ele confiou à Igreja o seu testamento:  “O que tem mais valor na vida é Jesus Cristo bendito, a sua Santa Igreja, o seu Evangelho, a verdade e a bondade”. Também nós hoje queremos receber este testamento, enquanto damos graças a Deus por no-lo ter dado como Pastor.

4. “Sede praticantes da Palavra, e não apenas ouvintes” (Tg 1, 22). Estas palavras do apóstolo Tiago fazem pensar na existência e no apostolado de Tomás Reggio, sacerdote e jornalista, que depois foi Bispo de Ventimiglia e por fim Arcebispo de Génova. Homem de fé e de cultura que, como Pastor, soube ser guia atenta dos fiéis em todas as circunstâncias. Sensível aos numerosos sofrimentos  e  pobrezas  do  seu  povo, empenhou-se  numa  ajuda  imediata em todas as situações de necessidade. Precisamente nesta perspectiva deu início à Família religiosa das Irmãs de Santa Marta, confiando-lhes a tarefa de prestar assistência aos Pastores da Igreja, sobretudo no âmbito caritativo e educativo.

A sua mensagem sintetiza-se em duas palavras:  verdade e caridade. Em primeiro lugar a verdade, que significa escuta atenta da palavra de Deus e ímpeto corajoso na defesa e difusão dos ensinamentos do Evangelho. E depois a caridade, que leva a amar a Deus e, por amor dele, a abraçar a todos, porque são irmãos em Cristo. Se houve uma preferência nas opções de Tomás Reggio, foi por quantos se encontravam em dificuldade ou no sofrimento. Eis por que hoje ele é proposto como modelo a Bispos, sacerdotes, leigos, e a todos os que fazem parte da sua Família espiritual.

5. A beatificação, durante o ano jubilar, de Guilherme José Chaminade, fundador dos marianistas, recorda aos fiéis que é sua tarefa inventar continuamente novas formas de testemunhar a fé, sobretudo para alcançar quantos vivem afastados da Igreja e que não dispõem dos meios habituais para conhecer Cristo. Guilherme José Chaminade convida cada cristão a enraizar-se no seu baptismo, que o identifica com o Senhor Jesus e lhe comunica o Espírito Santo.

O amor do Padre Chaminade por Cristo, que se inscreve na espiritualidade da Escola francesa, estimula-o a prosseguir incansavelmente a sua obra mediante fundações de famílias espirituais, numa época perturbada da história religiosa de França. A sua dedicação filial a Maria permitiu-lhe conhecer a paz interior em qualquer circunstância, ajudando-o a fazer a vontade de Cristo. A sua preocupação pela educação humana, moral e religiosa é para toda a Igreja uma chamada a uma solicitude renovada pela juventude, que tem necessidade quer de educadores quer de testemunhas, a fim de dirigirem o seu olhar para o Senhor e assumirem a sua responsabilidade na missão da Igreja.

6. Hoje, a Ordem beneditina rejubila com a beatificação de um dos seus ilustres filhos, Dom Columba Marmion, monge e Abade de Maredsous. Dom Marmion deixou-nos um autêntico tesouro de ensino espiritual para a Igreja do nosso tempo. Nos seus escritos, ele ensina um caminho de santidade, simples e portanto exigente, para todos os fiéis que Deus, por amor, destinou para serem seus filhos adoptivos em Jesus Cristo (cf. Ef 1, 5). Jesus Cristo, nosso Redentor, fonte de toda a graça, está no centro da nossa vida espiritual, é o nosso modelo de santidade.

Antes de entrar na Ordem Beneditina, Columba Marmion passou alguns anos na solicitude pastoral das almas como sacerdote da sua Arquidiocese de Dublin, sua cidade natal. Ao longo da sua vida, o beato Columba foi um director espiritual excepcional e prestou muita atenção à vida interior dos sacerdotes e dos leigos. Escreveu a um jovem que se preparava para a Ordenação:  “A melhor preparação para a vida sacerdotal é viver todos os dias com amor onde a Providência e a Obediência nos colocam” (Carta, 27 de Dezembro 1915). Uma vasta redescoberta dos escritos espirituais do beato Columba Marmion ajude os sacerdotes, os religiosos e os leigos a crescer em união com Cristo e a dar um testemunho fecundo através do amor ardente de Deus e o serviço generoso aos próprios irmãos e irmãs.

7. Aos novos beatos Pio IX, João XXIII, Tomás Reggio, Guilherme José Chaminade e Columba Marmion pedimos confiantes que nos ajudem a viver de maneira cada vez mais conforme com o Espírito de Cristo. O seu amor a Deus e aos irmãos seja luz para os nossos passos neste alvorecer do Terceiro Milénio!

Fonte:http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/homilies/documents/hf_jp-ii_hom_20000903_beatification_po.html

Biografia da Vida do Beato João XXIII

 Bondade

 “Devo… continuar sempre fiel ao meu propósito: ser bom com todos…e sempre”. (p.48)

 Misericórdia com as pessoas

 1.Nos primeiros tempos do pontificado…uma noite em que o rumor regular dos passos se juntavam aos acessos de tosse de um dos guardas, decidiu ir verificar…

 E disse: “Não precisam preocupar-se comigo. Sou protegido pelo Espírito Santo”.

 Os guardas obedeceram, fizeram meia-volta e estavam a ponto de se afastar, quando o Papa chamou-os e pôs na mão de um deles uma caixinha: “Eis aqui pastilhas para a tosse. Boa noite!” (p.100)

 2.Um dia, durante um passeio no jardim, um membro do serviço de protocolo veio adverti-lo que da cúpula alguns turistas acompanhavam de binóculo todos os seus movimentos…O Papa respondeu… “Deixem-nos à vontade. Afinal, não sou objeto de escândalo para que me obriguem a proibir de ser olhado”. (p.172) 

 A vocação Sacerdotal

 Costumava afirmar que é o Espírito Santo que destina um homem ao sacerdócio; ao escolhido, contudo, resta a plena responsabilidade de ensinar o amor ao próximo e de dar exemplo ele mesmo em primeiro lugar, conforme esta regra. (p.106)

  Era muito pacífico

 1.Certa vez, …então núncio apostólico em Paris, não pôde evitar uma conversação com o líder comunista francês Maurice Thores. Depois dos cumprimentos iniciais, Thorez, com grande habilidade, levou a conversação para o lado dos padre operários. Ele insistia em querer conhecer o pensamento do núncio apostólico sobre o assunto…O núncio, com habilidade ainda maior, interrompeu o seu interlocutor e, levantando o copo, começou a fazer o elogio do delicioso vinho francês…. “Certo, certo”, apressou-se a rebater Thorez, no entanto pensava em como retornar ao assunto que o interessava bastante…Mas em vão…Thorez não conseguiu fazer outra coisa senão escutá-lo. Após algum espaço de tempo o núncio afastou-se do …líder comunista sem que este chegasse a arrancar-lhe da boca uma única palavra sobre o problema dos padres operários. (p.110)

 2.Durante o Concílio Vaticano II defrontaram-se alguns agudos contrastes entre os grupos conservadores e progressistas….alguns dignitários íntimos do Papa imploraram-lhe que interviesse e servisse de intermediário. João XXIII não aceitou e disse: “É mais do que natural que cada Padre conciliar queira manifestar a própria idéia. A liberdade é sagrada e a Igreja a respeita”. (p.164)

 Quando alguém lhe perguntava se acreditava que o cristianismo encontraria a sua unidade, João XXIII respondia que sim.

 …“alguém deve ao menos iniciar em boa hora e remover os obstáculos que impedem a consolidação da obra gloriosa. De qualquer modo, uma tentativa deve ser feita. Quem quer superar os obstáculos deve antes aparar os ângulos e as arestas”. (p.163)

 3. Em sua residência de verão em Castelgandolfo, João XXIII foi testemunha de …reprimenda feita por um guarda pontifício a um subalterno…O Papa…não apreciava a severidade excessiva…

 “É fácil a um superior aborrecer-se com um subalterno…” Quem grita não tem razão! É preciso sempre respeitar a dignidade de quem está à nossa frente…”. (p.168)

 Concílio Vaticano II

 O Papa João recorreu a uma audiência pública para quebrar as resistências da cúria. Em uma audiência de 1961 declarou: “Às vezes se ouve até mesmo dizer que se passarão pelo menos quatro ou cinco anos para os preparativos do Concílio. Não é absolutamente verdade. O Concílio Vaticano II abrir-se-á em 1962”. (p.160)

 Generosidade com os pobres e necessitados

 “Durante a audiência de Ano Novo de 1963, João XXIII dirigiu-se…com estas palavras: “Não vos esqueçais que, se Deus vos cumulou de riquezas com tamanha profusão, fê-lo dando-vos porém o encargo de administrar um tesouro e dividi-lo com os pobres e os necessitados. Um dia deverei prestar contas ao Criador de todas as riquezas desta terra. Daí, pois,hoje, ao invés de amanhã. Se hesitardes ainda por um só dia, outros poderão tomá-las a força”. (p.186)

 Alegria nos últimos momentos de vida

 Durante os últimos instantes de lucidez que precederam sua agonia, olhou em torno e se espantou por ver tanta gente em volta de si…João esforçou-se até o fim para dissipar a atmosfera triste…que reinava em seu quarto…Reunindo as ultimas energias, esforçou-se por sorrir ainda uma vez e repetir lentamente… “Não vos preocupeis demasiado comigo…Estou pronto para a grande viagem. As malas estão arrumadas. Posso partir de um momento para o outro…” (p.194)

 Fonte:O Bom humor de João XXIII. Kurt Klinger.Melhoramentos. São Paulo 1965.

  Oração

 Animados pela esperança sólida, digamos com as próprias palavras do Beato João XXIII:  “Ó Espírito Santo Paráclito… torna forte e contínua a prece que recitamos em nome do mundo inteiro:  apressa para cada um de nós o tempo de uma profunda vida interior:  dá impulso ao nosso apostolado, que deseja alcançar cada homem e todos os povos… Mortifica em nós a presunção natural e eleva-nos às regiões da santa humildade, do verdadeiro temor de Deus e da coragem generosa. Que nenhum vínculo terrestre nos impeça de honrar a nossa vocação; nenhum interesse, por nossa ignorância, sacrifique as exigências da justiça; nenhum cálculo limite os imensos espaços da caridade dentro das angústias dos pequenos egoísmos. Tudo seja grande em nós:  a busca e o culto da verdade; a prontidão para o sacrifício, até à cruz e à morte; e tudo, enfim, corresponda à última oração do Filho ao Pai celeste; e àquela efusão que de ti, ó Espírito Santo de amor, o Pai e o Filho desejaram para a Igreja e as suas instituições, para cada alma e para todos os povos. Amen!” (Discursos, Mensagens… op. cit., pág. 350).

 Fonte:

http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/homilies/2001/documents/hf_jp-ii_hom_20010603_pentecoste_po.html

A sua santidade e sabedoria humana são expressas muito bem no chamado “decálogo da quotidianidade do Papa João XXIII”:

 1. Somente hoje, procurarei viver o presente (em sentido positivo), sem querer resolver o problema da minha vida inteiramente de uma só vez.

2. Somente hoje, terei o máximo cuidado pelo meu aspecto: vestirei com sobriedade; não levantarei a voz; serei gentil nos modos; ninguém criticarei; não pretenderei melhorar ou disciplinar alguém, a não ser eu mesmo.

3. Somente hoje, serei feliz na certeza de que fui criado para ser feliz não só no outro mundo, mas também neste.

4. Somente hoje, adaptar-me-ei às circunstâncias, sem pretender que as circunstâncias se adaptem aos meus desejos.

5. Somente hoje, dedicarei dez minutos do meu tempo a uma boa leitura, lembrando que como o alimento é necessário para a vida do corpo, do mesmo modo a boa leitura é necessária para a vida da alma.

6. Somente hoje, realizarei uma boa acção e não o direi a ninguém.

7. Somente hoje, farei algo que não gosto de fazer, e se me sentir ofendido nos meus sentimentos, farei de modo que ninguém perceba.

8. Somente hoje, organizarei um programa: talvez não o siga exactamente, mas o organizarei. E tomarei cuidado com dois defeitos: a pressa e a indecisão.

9. Somente hoje, acreditarei firmemente, não obstante as aparências, que a boa providência de Deus se ocupa de mim como de ninguém no mundo.

10. Somente hoje, não temerei. De modo particular, não terei medo de desfrutar do que é bonito e de acreditar na bondade. Posso fazer, por doze horas, o que me espantaria se pensasse em ter que o fazer por toda a vida.

Conclusão: um propósito totalitário: “Quero ser bom, hoje, sempre, com todos”.

 Fonte:http://www.vatican.va/roman_curia/secretariat_state/card-bertone/2006/documents/rc_seg-st_20061011_john-xxiii_po.html

CARTA ENCÍCLICA DE JOÃO XXIII

AD PETRI CATHEDRAM

 

CONHECIMENTO DA VERDADE, 
RESTAURAÇÃO DA UNIDADE
E DA PAZ NA CARIDADE

 

 Aos Veneráveis irmãos patriarcas, primazes, arcebispos e bispos e outros ordinários do lugar em paz e comunhão com a Sé Apostólica e a todo o clero e fiéis do orbe católico.

 INTRODUÇÃO

A Igreja em perene juventude: motivos de consolação e esperança

1. Desde que fomos elevado, não por mérito nosso, à Cátedra de São Pedro, constitui para nós lição e conforto recordar o sentimento geral, sem limites de raça ou ideologia, que se manifestou no mundo, por ocasião do falecimento do nosso imediato predecessor. E os mesmos efeitos produz em nós pensar no espetáculo que admiramos a seguir à nossa subida ao supremo pontificado, quando as multidões, cheias de confiante expectativa, voltaram para nós as suas almas e corações sem se deixarem impressionar com outros acontecimentos nem com as graves dificuldades e angústias da vida. O que mostra com toda a clareza que a Igreja Católica se perpetua com perene juventude e é bandeira levantada sobre as nações (cf. Is 11,12). É também fonte de viva luz e de suave amor para todos os povos.

2. Há para nós outro motivo de consolação. Queremos referir-nos tanto aos vastos aplausos com que foi acolhido o anúncio da celebração do Concílio Ecumênico, do Sínodo Diocesano de Roma, da atualização do Código de Direito Canônico e da próxima promulgação do novo Código para a Igreja de rito oriental; referimo-nos também à esperança universal de que estes acontecimentos possam levar todos a maior e mais profundo conhecimento da verdade, a salutar renovação dos costumes cristãos e à restauração da unidade, da concórdia e da paz.

3. Agora, esses três bens, isto é, a verdade, a unidade e a paz que devem ser promovidos e alcançados segundo o espírito da caridade, serão o argumento desta nossa primeira Carta Encíclica dirigida a todo o orbe católico, por nos parecer que é isso, no momento presente, o que mais pede de nós o mandato apostólico que recebemos. O Espírito Santo nos assista do alto ao escrevermos, e a vós ao lerdes. Dócil ao impulso da divina graça, possa cada um compreender o que queremos e conseguir o que é anelo de todos, apesar dos preconceitos e das não poucas dificuldades e obstáculos.

PRIMEIRA PARTE

A VERDADE
 O CONHECIMENTO DA VERDADE, ESPECIALMENTE A REVELADA

4. A causa e a raiz de todos os males que, por assim dizer, envenenam os indivíduos, os povos e as nações, e tantas vezes perturbam o espírito de muitos, está na ignorância da verdade. E não só na ignorância, mas às vezes até no desprezo e no temerário afastamento dela. Daqui erros de toda a espécie, que penetram como peste nas profundezas da alma e se infiltram nas estruturas sociais, desorganizando tudo, com grave ruína dos indivíduos e da sociedade humana. Mas Deus dotou-nos duma razão capaz de conhecer as verdades naturais. Seguindo a razão, seguimos ao próprio Deus, que é o autor dela e ao mesmo tempo legislador e guia da nossa vida; mas, se por loucura ou preguiça, ou, pior ainda, por má vontade, nos afastamos do reto uso da razão, apartamo-nos ao mesmo tempo do sumo bem e da lei moral.

Como dissemos, ainda que possamos atingir com a razão as verdades naturais, contudo, este conhecimento – sobretudo no que se refere à religião e à moral – nem todos podem facilmente consegui-lo; e, se o conseguem, muitas vezes vem misturado com erros. Além disso, as verdades, que ultrapassam a capacidade natural da razão, não podemos de modo nenhum atingi-las sem a ajuda duma luz sobrenatural. Por isso o Verbo de Deus, que “habita a luz inacessível” (1Tm 6,16), com imenso amor e compação do gênero humano “fez-se carne e habitou entre nós” (Jo 1,14), para iluminar “todo o homem que vem a este mundo” (Jo 1,9) e conduzir todos, não só à plenitude da verdade, mas também à virtude e à eterna bem-aventurança. Todos estão, portanto, obrigados a abraçar a doutrina do Evangelho. Uma vez rejeitada, vacilam os próprios fundamentos da verdade, da honestidade e da civilização.

A verdade do Evangelho conduz à vida eterna

5. Como é evidente, trata-se duma questão gravíssima inseparávelmente ligada com a nossa salvação eterna. Aqueles que, como adverte o Apóstolo das gentes, estão “sempre aprendendo mas sem jamais poder atingir o conhecimento da verdade” (2 Tm 3,7), e negam à razão humana a possibilidade de chegar a qualquer verdade certa e segura, e rejeitam as verdades reveladas por Deus, necessárias para a salvação eterna: esses infelizes estão bem longe da doutrina de Jesus Cristo e do pensamento do mesmo Apóstolo das gentes, que exorta a “alcançar todos nós à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus..  Assim não seremos mais crianças, joguete das ondas, agitados por todo vento de doutrina, presos pela artimanha dos homens, e da sua astúcia que nos induz ao erro. Mas, seguindo a verdade em amor cresceremos em tudo em direção àquele que é a Cabeça, Cristo, cujo corpo, em sua inteireza, bem ajustado e unido por meio de toda junta e ligadura, com a operação harmoniosa de cada uma das suas partes, realiza o seu crescimento para a sua própria educação no amor” (Ef 4,13-l6).

Os deveres da imprensa quanto à verdade

6. Aqueles que, com temerária ousadia, impugnam de propósito a verdade conhecida, e, falando, escrevendo e atuando, usam as armas da mentira para atrair o favor do povo simples e plasmar a seu modo a alma dos jovens, ignaro e mole como a cera, que abuso enorme não cometem, que obra tão reprovável não realizam!

7. Não podemos deixar de exortar a que apresentem a verdade com diligência, cautela e prudência, especialmente todos aqueles que, por meio de livros, revistas e jornais, de que hoje há tanta abundância, exercem influxo tão grande na alma dos leitores, sobretudo dos jovens, e na formação das suas opiniäes e costumes. Esses têm o dever gravíssimo de propagar não a mentira, o erro, as imoralidades, não o que leva à desonestidade, mas sim somente o verdadeiro, e tudo o que leva ao bem e à virtude.

8. Com grande tristeza vemos verificar-se hoje o que já deplorava o nosso predecessor de feliz memória Leão XIII, isto é, “serpear a mentira com audácia… em grossos volumes e em livrinhos, nas efêmeras páginas dos jornais e na publicidade teatral”; (1) e vemos também com grande tristeza “livros e jornais que se imprimem para mofar da virtude e nobilitar o vício”.(2)

O rádio, o cinema e a televisão

9. Hoje deve porém juntar-se a tudo isso, como bem sabeis, veneráveis irmãos e diletos filhos, o rádio, o cinema e a televisão, cujos espetáculos podem facilmente seguir-se mesmo dentro de casa. Destes meios podem surgir o estímulo ao bem e à honestidade, e até à prática da virtude cristã, mas infelizmente, sobretudo para a juventude, servem não raro de incentivo aos maus costumes, à corrupção, ao engano do erro e a uma vida licenciosa. Para neutralizar, pois, com todo o cuidado e diligência, o mau influxo destes meios perigosos, que se vai difundindo cada vez mais, é preciso recorrer às armas da verdade e da honestidade. À imprensa má e mentirosa ‚ preciso contrapor a boa e verdadeira.  Às transmissäes de rádio e aos espetáculos cinematográficos e televisivos, tornados instrumentos de erro e de corrupção, é preciso contrapor outros em defesa da verdade e dos bons costumes. Assim, estas invenções recentes, que tanto podem como incentivo ao mal, tornar-se-ão para o homem instrumentos de bem e ao mesmo tempo meios de honesta distração; e o remédio virá da mesma fonte donde muitas vezes nasce o veneno.

O indiferentismo religioso

10. Não faltam também os que, sem impugnarem de propósito a verdade, tomam uma atitude de negligência e sumo descuido, como se Deus não nos tivesse dado a razão para procurar e alcançar a verdade. Este reprovável modo de proceder conduz, quase espontâneamente, à afirmação absurda de que todas as religiões se equivalem, sem nenhuma diferença entre a verdade e o erro. “Este princípio – para usar palavras do mesmo nosso predecessor – leva necessariamente à ruína de todas as religiões, especialmente da católica, que, sendo a única verdadeira entre todas, não pode sem grandíssima ofensa ser colocada no mesmo plano que as outras”. (3) Além disso, negar toda a diferença entre coisas tão contraditórias, pode levar à ruinosa conclusão de excluir todas as religiões na teoria e na prática. Como poderia Deus, que é a própria verdade, aprovar ou tolerar a indiferença, a negligência e a apatia daqueles que, em questões de que depende a salvação eterna de todos, não fazem nenhum caso nem se importam de procurar e encontrar as verdades necessárias, nem prestar a Deus o culto que lhe é devido?

11. Hoje tanto empenho e diligência se põem no estudo e no progresso do saber humano, e a nossa época bem se pode gloriar das admiráveis conquistas alcançadas na investigação científica. Então, por que não se há de pôr igual empenho, até mesmo maior, na aquisição segura daquele saber que diz respeito, não já a esta vida terrena e caduca, mas à celeste que nunca terá fim? Só quando tivermos alcançado a verdade que deriva do Evangelho, e que deve traduzir-se na prática da vida, só então a nossa alma poderá gozar a tranqüila posse da paz e alegria; alegria imensamente superior à que pode vir dos descobrimentos da ciência e daquelas maravilhosas invenções de hoje, que todos os dias são exaltadas, e elevadas, por assim dizer, até às estrelas.

 SEGUNDA PARTE

UNIDADE, CONCÓRDIA E PAZ
A VERDADE PRESTA NOTÁVEIS SERVIÇOS À CAUSA DA PAZ

12. Da consecução plena, íntegra e sincera da verdade deve necessariamente seguir-se a união dos espíritos, dos propósitos e das ações. De fato, qualquer contraste e desacordo encontra a sua primeira causa no fato de a verdade não ser conhecida ou, pior ainda, mesmo conhecida, ser rejeitada por causa das vantagens que muitas vezes se esperam das falsas opiniões, ou por causa daquela reprovável cegueira que leva os homens a justificar os próprios vícios e más ações.

13. É pois necessário que todos, tanto os indivíduos como aqueles que têm nas mãos a sorte dos povos, amem sinceramente a verdade, se querem gozar aquela concórdia e aquela paz, as únicas que podem garantir a verdadeira prosperidade pública e particular.

14. De modo especial exortamos à concórdia e paz os supremos chefes das nações. Colocados acima dos conflitos entre os Estados, nós que abraçamos todos os povos com igual caridade e não nos deixamos levar por nenhuma ambição de domínio político nem por qualquer desejo de bens terrenos, ao falarmos de assunto de tamanha importância, pensamos que merecemos ser julgados e ouvidos com serenidade pelos homens de todas as nações.

Deus criou os homens irmãos

15. Deus criou os homens, não inimigos, mas irmãos. Deu-lhes a terra para a cultivarem com o trabalho e suor, afim de que todos e cada um gozem dos seus frutos e tirem dela quanto precisam para o sustento e as necessidades da vida. As diversas nações não passam de comunidades de homens, isto é, de irmãos, que devem tender, unidos fraternalmente, não só para o fim próprio de cada uma, mas também para o bem comum de toda a família humana.

16. De resto esta vida mortal não se há de considerar só em si mesma ou como se a finalidade dela fosse o prazer. Se ela leva à dissolução do corpo do homem, prepara e dispõe também para a vida imortal, para a pátria onde viveremos eternamente.

17. Tiradas da alma do homem esta doutrina e esta consoladora esperança, desabam todas as razões de viver. Levantam-se nas almas, fatalmente, as paixões, as lutas e as discórdias, que ninguém poderá dominar eficazmente. Deixa de brilhar a oliveira da paz, mas chameja a chama da discórdia. A sorte do homem torna-se quase igual à dos seres privados de razão; e por vezes essa sorte é ainda pior, pois, sendo dotado do poder de raciocinar, tem também a possibilidade de, abusando desse poder, cair nos abismos do mal, o que infelizmente acontece muitas vezes; e pode chegar, como outrora Caim, a manchar a terra com sangue fraterno e com gravíssimo crime.

18. Se portanto queremos – e quem não o há de querer? – reconduzir as ações humanas ao caminho da justiça, é necessário, primeiro que tudo, reconduzir a razão e a vontade a estes princípios.

19. Se nos dizemos e somos realmente irmãos, se temos todos a mesma sorte na vida presente e na futura, como é possível tratarmos os outros como adversários e inimigos? Por que os havemos de invejar, alimentar ódios e preparar armas de morte contra os nossos irmãos? Já se combateu demais entre os homens. Já demasiados jovens, na flor da idade, derramaram o próprio sangue. Já existem demasiados cemitérios de mortos nas guerras, a lembrar a todos, com voz severa, que estabeleçam por fim a concórdia, a unidade e a paz justa.

20. Pense portanto cada um, não no que os divide, mas no que os pode unir na mútua compreensão e recíproca estima.

União e concórdia entre os povos

21. Somente se se procura deveras a paz e não a guerra – como se deve fazer – e se tende com comum e sincero esforço para a concórdia fraterna entre os povos, só então será possível compreender os interesses públicos e compor bem as divergências. E poder-se-á assim chegar, de comum acordo e com os meios oportunos, à suspirada e harmoniosa união, pela qual os direitos de cada Estado à liberdade, longe de serem conculcadas por outros, sejam perfeitamente garantidos. Aqueles que oprimem os outros e os despojam da sua liberdade, não podem sem dúvida contribuir para tal união. Como vem a propósito aqui o que afirmou o nosso sapientíssimo predecessor de feliz memória Leão XIII: “Para refrear a ambição, a cobiça dos bens alheios e a rivalidade, que são os maiores incentivos à guerra, nada vale mais que as virtudes cristãs, a justiça em primeio lugar”. (4)

22. E se os povos não chegam a esta união fraterna, fundada necessariamente na justiça e alimentada pela caridade, a situação mundial manter-se-á muito tensa. Por isso os homens sensatos deploram justamente uma situação tão incerta, que deixa em dúvida se nos encaminhamos para uma paz sólida e verdadeira, ou se corremos com extrema cegueira para nova e terrível guerra. Com extrema cegueira, dissemos; se de fato – o que Deus não queira – houver de rebentar nova guerra, tal ‚ o poder das armas monstruosas dos nossos dias, que não restaria para todos os povos – vencedores e vencidos – senão imensa devastação e universal ruína.

23. Por isso suplicamos a todos, mas em especial aos governantes, que meditem nisto com atenção diante de Deus juiz, e que procurem aplicar corajosamente todos os meios, que possam levar à necessária união. Esta unidade de intenções que, segundo dissemos, é indispensável também para o aumento da prosperidade de todos os povos, só poderá ser restaurada quando, pacificados os ânimos e salvaguardados os direitos de cada um, brilhar em toda a parte a liberdade devida aos cidadãos, às nações, aos Estados e à Igreja.

União e concórdia entre as classes sociais

24. Além disso, é absolutamente necessário restaurar também, entre as várias classes sociais, a mesma concórdia que se deseja entre os povos e as nações. Se isto não acontecer, podem surgir, como já se vai vendo, ódios e discórdias recíprocas; donde surgirão desavenças, desequilíbrios sociais e até por vezes excídios, e, acrescente-se a isso, uma progressiva diminuição da riqueza e uma crise da economia pública e particular. Já o mesmo predecessor nosso observava justamente: “Quis Deus que, na comunidade do convívio humano, houvesse desigualdade de classes, mas ao mesmo tempo relações amigáveis de equidade”. (5) Com efeito, “como no corpo os vários membros se conciliam entre si e formam aquela harmônica combinação que se chama simetria, do mesmo modo a natureza exige que, no convívio civil…, as classes se integrem mutuamente e pela colaboração levem a um justo equilíbrio. Uma não pode passar sem a outra; não pode subsistir o capital sem o trabalho, nem o trabalho sem o capital. A concórdia produz a beleza e a ordem das coisas”. (6) Quem ousa portanto negar a diversidade das classes sociais contradiz a própria ordem da natureza. Quem se opõe a esta amigável e indispensável cooperação entre as mesmas classes contribui para arruinar e dividir a sociedade humana, com grave perturbação e dano do bem público e particular. Observava com razão o nosso predecessor Pio XII de imortal memória: “Num povo digno deste nome, todas as desigualdades que não derivam do arbítrio, mas da própria natureza das coisas – desigualdades de cultura, de haveres e de posição social, sem prejuízo, é claro, da justiça e da caridade mútua – não se opõem à existência dum autêntico espírito de fraternidade”.(7) Podem, cada classe e as várias categorias de cidadãos, defender os próprios direitos, conquanto que o façam não pela violência, mas legitimamente, sem invadir os direitos alheios também eles inderrogáveis. Todos são irmãos; portanto todas as questões devem compor-se amigavelmente e com mútua caridade fraterna.

Alguns sinais de apaziguamento

25. Devemos reconhecer, o que ‚ de bom auspício, que de algum tempo a esta parte vigora, aqui e além, uma situação menos tensa entre as várias categorias sociais, como já observava o nosso imediato predecessor falando deste modo aos católicos da Alemanha: “A tremenda catástrofe da última guerra, que desceu tão duramente sobre vós, trouxe pelo menos este benefício: em vários meios – vencidos os preconceitos e o egoísmo de grupo – os contrastes das classes estão mitigados, e os homens aproximaram-se mais uns dos outros. A miséria comum ‚ para todos mestra salutar, embora amarga, de disciplina”.(8)

26. Na realidade, hoje estão um pouco diminuídas as distâncias entre as classes; estas não podem já reduzir-se a um dualismo de blocos contrapostos, um do capital e outro do trabalho. Apresenta-se, pelo contrário, a multiplicidade de grupos, mais abertos a todos os cidadãos. Os mais preparados e hábeis têm a possibilidade de subir mesmo às primeiras posições. No que respeita mais diretamente o mundo do trabalho, é consolador pensar naqueles movimentos nascidos recentemente, que tornam mais humanas as condiçäes dos operários no âmbito da empresa e outros campos do trabalho, num plano não exclusivamente econômico mas mais elevado e mais digno.

Reflexões acerca de importantes problemas no campo do trabalho

27. Todavia falta ainda percorrer muito caminho. Existem desigualdades, demasiados motivos de atrito entre setor e setor, fundados às vezes no conceito imperfeito e nem sempre de todo justo do direito de propriedade, como o defendem aqueles que procuram desmedidamente satisfazer o próprio egoísmo. Acrescenta-se a isso o doloroso fenômeno do desemprego, que em muitos causa graves angústias, fenômeno que, ao menos de momento, os rápidos progressos da técnica moderna no campo da produção poderiam agravar ainda mais. Assunto este que levou o nosso predecessor de feliz recordação Pio XI a dizer com amargura: “Vemos forçados à inércia e reduzidos à indigência extrema, juntamente com as suas famílias, tantos e tantos trabalhadores honestos e ativos, que só desejam ganhar honradamente com o suor do rosto esse pão, que todos os dias pedem ao Pai do céu, segundo a ordem divina. Os seus gemidos comovem o nosso coração e fazem-nos repetir, com a mesma ternura de piedade, a queixa do coração amorosíssimo do Divino Mestre a respeito de tantos que desfalecem de fome: ‘Tenho compaixão da multidão'” (Mc 8,2). (9)

28. Se, portanto, como é dever de todos, queremos e procuramos a mútua harmonia das classes, através do esforço público e particular e da coordenação de corajosas iniciativas, é preciso trabalharmos quanto possível para que todos, mesmo os de mais humilde condição, possam, com o trabalho e o suor da fronte, procurar o necessário para a vida e prover segura e honestamente ao futuro próprio e dos seus. Tanto mais que as condições dos nossos dias oferecem inúmeras comodidades, de que não é lícito excluir as classes menos abastadas.

29. Exortamos todos aqueles que têm maiores responsabilidades nas empresas e dos quais depende a sorte e às vezes até a própria vida dos operários, a que não avaliem o trabalhador só do ponto de vista econômico, nem se limitem ao reconhecimento de seus direitos relativos ao salário, mas respeitem também a dignidade de sua pessoa e mais ainda considerem como irmãos. Esforcem-se também por que os operários participem cada vez mais nos lucros da empresa e se sintam, não estranhos a ela, mas co-interessados na sua vida e progressos. Isto dizemos, movidos do desejo de que se institua uma harmonia sempre maior entre os direitos e os deveres recíprocos das categorias que formam o mundo do trabalho, e para que as respectivas organizações profissionais “não sejam tomadas como arma exclusivamente destinada à guerra defensiva e ofensiva, que provoca reações e represálias, não como inundação que alaga e divide, mas como ponte que une”.(10) Deve-se sobretudo prover a que ao progresso econômico corresponda não menor progresso no campo dos valores espirituais, como pede a dignidade de cristãos e até de simples homens. Que aproveitará ao trabalhador conseguir melhorias econômicas cada vez maiores e alcançar um nível de vida mais elevado, se houver de perder ou descurar os bens superiores da alma imortal? As perspectivas em vista só se poderão realizar pela aplicação da doutrina social da Igreja, e se todos “procurarem alimentar em si e acender nos outros, grandes e pequenos, a caridade, senhora e rainha de todas as virtudes. Pois a suspirada salvação deve ser principalmente fruto de grande efusão da caridade; daquela caridade cristã que resume em si todo o Evangelho, e que, pronta sempre a sacrificar-se pelo próximo, é o antídoto mais seguro contra o orgulho e o egoísmo do século; dela traçou São Paulo o divino retrato com estas palavras: ‘A caridade é paciente, é benigna: não busca os seus próprios interesses; tudo sofre; tudo suporta”‘ (l Cor 13,4-7).(11)

União e concórdia no seio das famílias

30. Finalmente exortamos instante e paternalmente todas as famílias a que procurem alcançar e reforçar aquela união e concórdia, a que convidamos os povos, os governantes e todas as classes sociais. Se não há paz, união e concórdia nas famílias, como poderá havê-la na sociedade civil? Esta ordenada e harmônica união, que deve sempre reinar dentro das paredes domésticas, nasce do vínculo indissolúvel e da santidade própria do matrimônio cristão e contribui imensamente para a ordem, progresso e o bem-estar de toda a sociedade civil. O pai faça, por assim dizer, as vezes de Deus no lar e oriente, não só com a autoridade, mas também com o exemplo. A mãe, com a delicadeza da alma e a virtude, procure educar forte e suavemente os filhos; para com o marido seja boa e afetuosa; e com ele prepare os filhos, dom preciosíssimo de Deus, para uma vida honesta e religiosa. Os filhos, por sua vez, sejam sempre obedientes aos pais, como devem, amem-nos, consolem-nos e, sendo necessário, ajudem-nos. Dentro das paredes domésticas reine aquela caridade que abrasava a Sagrada Família de Nazaré, floresçam todas as virtudes cristãs, domine a união dos corações, e brilhe o exemplo duma vida honesta. Não aconteça nunca – como pedimos ardentemente a Deus – que seja perturbada tão bela, suave e necessária concórdia; quando a instituição cristã da família vacila, quando são negados ou violados os mandamentos do Divino Redentor sobre este ponto, então desabam os fundamentos da civilização, a sociedade civil corrompe-se e corre grave perigo com prejuízos incalculáveis para todos os cidadãos.

 TERCEIRA PARTE

UNIDADE DA IGREJA
MOTIVOS DE ESPERANÇA BASEADOS NA ORAÇÃO DE JESUS CRISTO

31. Falemos agora daquela unidade que de modo especialíssimo nos toca e está intimamente relacionada com o oficio pastoral que Deus nos contou: referimo-nos à unidade da Igreja.

32. Todos sabem que o nosso divino Redentor fundou uma sociedade que deverá ser una até ao fim dos séculos: “Eis que estou convosco todos os dias até à consumação dos séculos” (Mt 28,20), e que para o alcançar Jesus Cristo dirigiu ao Pai do Céu uma fervorosa oração, que foi sem dúvida aceita e ouvida pela sua reverência (cf. Hb 5,7). É a seguinte: “Sejam todos um como tu, ó Pai, o és em mim e eu em ti, para que sejam também eles um em nós” (Jo 17,21). Esta oração dá-nos e confirma-nos a doce esperança de que finalmente todas as ovelhas, que não pertencem a este redil, venham a sentir o desejo de a ele voltar; de maneira que, segundo as palavras do Divino Redentor, “haverá um só redil e um só Pastor” (Jo 10,16).

33. Profundamente animados por esta suavíssima esperança, anunciamos publicamente o nosso propósito de convocar um Concílio Ecumênico, em que hão de participar os sagrados pastores do orbe católico para tratarem dos graves problemas da religião, principalmente para se conseguirem o incremento da fé católica e a saudável renovação dos costumes no povo cristão e para a disciplina eclesiástica se adaptar melhor às necessidades dos nossos tempos. Sem dúvida constituirá maravilhoso espetáculo de verdade, unidade, e caridade; espetáculo que, ao ser contemplado pelos que vivem separados desta Sé Apostólica, os convidará, como esperamos, a buscar e conseguir a unidade pela qual Cristo dirigiu ao Pai do Céu a sua fervorosa oração.

Aspirações de unidade nas diversas comunidades separadas

34. Consola-nos saber que nestes últimos tempos se foi criando no seio de não poucas comunidades, separadas da Sé Apostólica, certo movimento de simpatia pela fé e pelas instituições católicas e se originou e foi sempre crescendo a estima para com esta Sé Apostólica, caindo os preconceitos com o estudo da verdade. Sabemos, além disso, que a maior parte dos cristãos, ainda que separados de nós e entre si, têm realizado congressos e organizado conselhos para se unirem: tudo isto mostra o veemente desejo que os impele a chegarem ao menos a certa unidade.

A unidade da Igreja desejada pelo Divino Redentor

35. Sem dúvida o nosso Divino Redentor fundou sua Igreja baseando-a e construindo-a em solidíssima unidade; e se – ponhamos a hipótese absurda – o não tivesse feito, teria realizado uma coisa caduca e contraditória pelo menos no futuro, à semelhança do que se dá com os sistemas filosóficos que, abandonados ao arbítrio das várias opiniäes humanas, com o decorrer dos tempos vão nascendo um dos outros, se transformam e desaparecem sucessivamente. Ninguém pode deixar de ver quanto isto repugna à doutrina de Jesus Cristo que “é o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14,6).

36. Esta unidade, veneráveis irmãos e amados filhos, que, segundo dissemos, deve ser não coisa vã, incerta e instável, mas sólida, firme e segura, (12) se falta às outras comunidades cristãs, não falta à Igreja Católica, como pode ver quem diligentemente a contemplar. Esta unidade manifesta-se por três notas distintivas: unidade de doutrina, de governo e de culto; e é tal, que se torna visível a todos, de maneira que todos a podem reconhecer e abraçar; é tal esta unidade, que, por vontade do seu Divino Fundador, todas as ovelhas se podem nela reunir num só redil e sob um só Pastor. Desta maneira, todos os filhos serão chamados à única casa paterna, estabelecida sobre o fundamento de Pedro, pois ‚ preciso procurar reunir fraternalmente todos os povos, como no único Reino de Deus, reino, cujos súditos, unidos entre si na terra pela concórdia do espírito, gozarão um dia a eterna bemaventurança no céu.

Unidade da fé

37. A Igreja Católica manda crer fiel e firmemente tudo o que Deus revelou, isto é, o que está contido na Sagrada Escritura e na Tradição tanto oral como escrita e, no decurso dos séculos, desde o tempo dos apóstolos foi estabelecido e definido pelos Sumos Pontífices e pelos legítimos Concílios Ecumênicos. Sempre que algu‚ém se afastou desta verdade, a Igreja com a sua materna autoridade não deixou de o chamar repetidamente ao reto caminho. Pois sabe muito bem e defende que há uma só verdade e que não podem admitir-se “verdades” contrárias entre si; faz sua a afirmação do Apóstolo das gentes: “Nada podemos contra a verdade, mas pela verdade” (2Cor 13,8). 38. Há porém não poucos pontos em que a Igreja Católica deixa liberdade de discussão aos teólogos, porque se trata de coisas não de todo certas e também porque, como notava o celebérrimo escritor inglês, Cardeal João Henrique Newman, tais disputas não quebram a unidade da Igreja, mas pelo contrário levam a maior e mais profunda inteligência dos dogmas, pois aplanam e tornam mais seguro o caminho para este conhecimento; da oposição de várias sentenças sai sempre nova luz. (l3) Mas é preciso manter também a norma comum que, expressa com palavras diversas, se atribui a diferentes autores: nas coisas necessárias, unidade; nas duvidosas, liberdade; em todas, caridade.

Unidade de governo

39. Haver na Igreja Católica unidade de governo é coisa que todos vêem. Como os fiéis estão sujeitos aos sacerdotes, e os sacerdotes aos Bispos “postos pelo Espírito Santo para reger a Igreja de Deus” (At 20,28); assim, todos e cada um dos sagrados pastores estão sujeitos ao romano pontífice, como a quem deve ser considerado sucessor daquele Pedro, que nosso Senhor Jesus Cristo pôs como pedra e fundamento da sua Igreja (cf. Mt 16,18), com o poder de desligar e ligar na terra (cf. Mt 16,19), de confirmar os seus irmãos (cf. Lc 22,32) e de apascentar o rebanho inteiro (Jo 21,15-17).

Unidade de culto

40. Quem ignora que a Igreja Católica, desde o tempo dos Apóstolos e pelo decurso dos séculos, teve sempre sete sacramentos, nem mais nem menos, recebidos de Jesus Cristo como herança sagrada, os quais ela distribui em todo o orbe católico, para alimento da vida sobrenatural dos fiéis? E quem ignora que nela se celebra um só sacrifício, o Eucarístico, em que o próprio Cristo, nosso Salvador e Redentor, de modo incruento mas real, como outrora pregado na cruz do Calvário, se imola cada dia por nós todos, e difunde misericordiosamente sobre nós os tesouros infinitos da sua graça? Por isso, com muita razão notou S. Cipriano: “Não é lícito estabelecer outro altar e um novo sacerdócio, além do único altar e do único sacerdócio”.(14) O que não impede, como todos sabem, que na Igreja Católica existam e estejam aprovados diversos ritos, por meio dos quais ela brilha mais bela, como filha do Sumo Rei, na variedade dos seus ornamentos (cf. Sl 44,15). 41. Para que todos cheguem a essa unidade verdadeira e concorde, o sacerdote católico, ao oferecer o sacrifício eucarístico, oferece a hóstia imaculada pedindo primeiramente a Deus clementíssimo: “pela tua Santa Igreja Católica”, suplicando que “a purifiques, guardes, unas e dirijas em toda a terra; juntamente com teu servo o nosso Papa e todos os que, fiéis à verdadeira doutrina, cultivam a fé‚ católica e apostólica”.(15)

Paterno convite à unidade

42. Oxalá este maravilhoso espetáculo de unidade, que honra e distingue a Igreja Católica, estas súplicas, com que pede a Deus a mesma unidade para todos, comovam e motivem salutarmente o vosso espírito, o vosso, dizemos, daqueles que estais separados desta Sé Apostólica.

43. Permiti que vos chamemos com viva saudade irmãos e filhos. Deixai-nos alimentar a esperança do vosso regresso que desejamos com afeto muito paternal. A vós nos dirigimos com a mesma solicitude pastoral e as mesmas palavras com que o Bispo de Alexandria, Teófilo, se dirigia aos seus irmãos e filhos quando um doloroso cisma dilacerava a túnica inconsútil da Igreja: “Caríssimos, participantes da mesma vocação celeste, imitemos cada um segundo as próprias possibilidades, imitemos a Jesus, guia e consumador da nossa salvação. Abracemos aquela humildade que eleva o espírito, aquela caridade que nos une a Deus e aquela fé sincera nos divinos mistérios. Fugi da divisão, evitai a discórdia… mantende-vos em mútua caridade: ouvi Cristo que diz: Conhecerão todos que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros”.(16)

44. Reparai: quando vos convidamos com amor para a unidade da Igreja não vos chamamos para casa alheia, mas para a própria, para a casa comum e paterna. Permiti-nos portanto esta exortação, que vos fazemos amando-vos a todos “nas entranhas de Jesus Cristo” (Fl 1,8). Recordai-vos dos vossos pais, “que vos disseram a palavra de Deus; e considerando o fim da sua vida, imitai a sua fé” (Hb 13,7). A gloriosa falange dos Santos, que cada um dos vossos povos transpôs para o céu, sobretudo aqueles Santos, que, por meio dos seus escritos, transmitiram abundantemente e explicaram a doutrina de Jesus Cristo, parecem convidar-vos, com o exemplo da própria vida, à unidade com esta Sé Apostólica, à qual a vossa comunidade cristã esteve por tantos séculos unida salutarmente.

45. Dirigimo-nos pois como a irmãos a todos aqueles que estão separados de nós, usando as palavras de S. Agostinho que diz: “Queiram ou não, são nossos irmãos. Só deixarão de ser irmãos nossos se deixarem de dizer: Pai nosso”.(17) “Amemos Deus nosso Senhor, amemos a sua Igreja; ele como Pai, ela como mãe; ele como Senhor, ela como a sua escrava; pois somos filhos da mesma escrava. Mas este matrimênio encontra a sua coesão na grande caridade; ninguém ofende um e merece do outro. Que te aproveita não ofender o Pai se ele defende a mãe ofendida?… Conservai-vos, portanto, caríssimos, conservai-vos todos unanimemente unidos a Deus pai e à mãe Igreja”.(18)

Necessidade de orações especiais

46. Nós, portanto, para conservação da unidade da Igreja e aumento do redil de Cristo e do seu reino elevamos súplicas à benegnidade divina, dispensadora da luz celeste e de todos os bens, e exortamos também a orarem com perseverança todos os nossos irmãos e filhos em Cristo. O bom êxito do futuro Concílio Ecumênico, mais que da humana atividade e diligência, depende das ardentes orações elevadas por todos à porfia. Para elevarem estas súplicas a Deus, convidamos com afeto também aqueles que, embora não sendo deste redil, prestam a Deus a devida honra e sinceramente procuram obedecer aos seus preceitos.

47. Aumente e coroe esta esperança e estes nossos votos a oração sacerdotal de Cristo: “Pai Santo, guarda no teu nome aqueles que me deste, para que sejam uma só coisa, como nós… Santifica-os na verdade: a tua palavra ‚ verdade… Não peço por eles só, mas também por aqueles que por meio da sua palavra hão de crer em mim… para que sejam perfeitos na unidade…” (Jo 17,11.17.20.21.23).

Da concorde união dos espíritos nascem a paz e a alegria

48. Esta oração renovamo-la juntamente com o mundo católico a nós unido; e fazemo-lo não só animados da viva chama de amor para com todos os povos, mas também com espírito de sincera humildade evangélica. Conhecemos a pequenez da nossa pessoa, que Deus, não pelos nossos méritos, mas por oculto desígnio seu, se dignou elevar à dignidade de Sumo Pontífice. Por isso, a todos os nossos irmãos e filhos separados desta Cátedra de Pedro, repetimos as palavras: “Eu sou José, vosso irmão” (Gn 45,4). Vinde; “compreendei-nos” (2Cor 7,2); não queremos outra coisa, não desejamos outra coisa, não pedimos a Deus outra coisa senão a vossa salvação, a vossa eterna felicidade. Vinde; desta suspirada unidade e concórdia, que deve ser alimentada pela caridade fraterna, nascerá grande paz; aquela paz “que supera todo o entendimento (Fl 4,7), porque desce do céu; aquela paz que, por meio do concerto angélico sobre o seu presépio, Cristo anunciou aos homens de boa vontade (cf. Lc 2,4), e que depois da instituição da Eucaristia como sacramento e sacrifício, deu com estas palavras: “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como o mundo dá ” (Jo 14,27). Paz e alegria; sim também a alegria porque aqueles que pertencem real e eficazmente ao corpo místico de Cristo, que é a Igreja Católica, participam daquela vida, que da Cabeça divina deriva para todos os membros. Esta fará que todos os que obedecem aos preceitos e mandamentos do nosso Redentor possam gozar já nesta existência mortal aquela alegria que é o penhor e anúncio da eterna felicidade do céu.

A paz na alma deve ser operosa

49. Mas esta paz, esta felicidade, enquanto percorremos o árduo caminho nesta terra de exílio, é ainda imperfeita. Não é paz completamente tranqüila, de todo serena. É paz operosa, não ociosa nem inerte. Sobretudo é paz militante contra todo o erro, mesmo que dissimulado sob aparências de verdade, contra o atrativo e seduções do vício, e contra toda a espécie de inimigos da alma, que procuram enfraquecer, manchar e arruinar os bons costumes ou a nossa fé católica; e também contra os ódios, rivalidades, dissídios que a podem quebrar ou lacerar. Por isso, o Divino Redentor nos deu e recomendou a sua paz.

50. A paz, portanto, que devemos procurar e esforçar-nos por conseguir, deve ser a paz que não cede ao erro, que não se compromete de nenhum modo com fautores do erro, que não se entrega aos vícios e que evita toda a discórdia. É paz que exige, da parte dos que a desejam, a pronta renúncia às comodidades e vantagens próprias por causa da verdade e da justiça, segundo a recomendação evangélica: “Procurai primeiro o reino de Deus e a sua justiça…” (Mt 6,33).

51. A Bem-aventurada Virgem Maria, Rainha da paz, a cujo Coração Imaculado o nosso predecessor Pio XII, de imortal recordação, consagrou o gênero humano, consiga de Deus – como lhe pedimos fervorosamente – unidade concorde, paz verdadeira, operosa e militante, tanto aos nossos filhos em Cristo como a todos aqueles que, embora separados de nós, não podem deixar de amar a verdade, a unidade e a concórdia.

 QUARTA PARTE

EXORTAÇÕES PATERNAIS

Aos bispos

52. Queremos agora com afeto paternal dirigir-nos a cada uma das várias categorias de pessoas na Igreja Católica. E em primeiro lugar “a nossa palavra dirige-se a vós” (2Cor 6,11), veneráveis irmãos no Episcopado, da Igreja Oriental e Ocidental, que, como guias do povo cristão, suportais juntamente conosco, “o peso do dia e do calor” (cf. Mt 20,12). Conhecemos a vossa diligência; conhecemos o zelo apostólico com que procurais cada um no seu território promover, fortalecer e estender a todos o Reino de Deus. Mas conhecemos tambêm as vossas angústias, conhecemos a tristeza que vos aflige por causa de tantos filhos que se afastam, enganados pelas falsas aparências dos erros; por causa da pobreza, que às vezes, impede às obras católicas de se desenvolverem entre vós; mas principalmente por causa da falta de sacerdotes, insuficientes em muitos lugares para as necessidades cada vez maiores. Confiai porém naquele, do qual vem “toda a dádiva excelente e todo o dom perfeito” (Tg 1,17); confiai em Jesus Cristo, dirigi-lhe súplicas fervorosas; sem ele “nada podeis fazer” (Jo 15,5); mas com a sua graça pode cada um de vós repetir aquela sentença do Apóstolo das gentes: “Tudo posso naquele que me conforta” (Fl 4,13).

“Satisfaça Deus todos os vossos desejos conforme as suas riquezas com a glória, em Cristo Jesus” (Fl 4,19), de modo que possais colher messe abundante e frutos copiosos do campo cultivado com o vosso trabalho e suor.

Ao clero

53. Dirigimo-nos com ânimo paterno também àqueles que militam em cada uma das classes do clero; quer sejam vossos próximos colaboradores, veneráveis irmãos, nas cúrias diocesanas; quer nos seminários vos prestem o serviço tão importante de instruir e educar a juventude eleita, chamada ao serviço de Deus; quer nas grandes cidades, nas vilas ou nas aldeias longínquas e solitárias, exerçam o cargo de pároco, tão difícil hoje, tão árduo e tão pesado. Procurem os mesmos – perdoem-nos se lho recordamos, pois esperamos que não será necessário –  procurem mostrar-se respeitadores e obedientes ao seu Bispo, segundo as palavras de Santo Inácio de Antioquia: “Sujeitai-vos ao Bispo como a Jesus Cristo… É necessário, como já praticais, nada fazerdes sem o Bispo”; (19) “pois quem é de Deus e de Jesus Cristo está com o Bispo”.(20) Lembrem-se ainda de que não têm apenas um cargo público, mas de que são principalmente ministros das coisas sagradas; por isso não ponham limite nos trabalhos, nas perdas de tempo e de bens materiais, nos gastos e nas incomodidades próprias, quando se trata de ilustrar as mentes com a luz divina, de, com o auxílio do alto e da caridade fraterna, dobrar as vontades obstinadas, e finalmente de promover e propagar o pacífico Reino de Jesus Cristo. Mais que no seu próprio esforço e trabalho confiem na graça divina, implorando-a todos os dias com orações fervorosas e instantes.

Aos religiosos

54. Saudamos também com coração de pai os religiosos que, tendo abraçado os vários estados de perfeição evangélica, vivem segundo as leis peculiares dos seus Institutos e obedecem a seus Superiores. Exortamo-los a que se dêem com toda a dedicação e forças a realizar aquilo que os seus Fundadores se propuseram ao dar-lhes as regras; de modo especial os exortamos a que fervorosamente se dêem à oração, às obras de penitência, à formação e educação da juventude, e ao alívio daqueles que de qualquer modo se vêem a braços com necessidades ou angústias.

55. Sabemos muito bem que não poucos desses estimados filhos, por causa das circunstâncias presentes, muitíssimas vezes são chamados ao trabalho pastoral, com vantagem da religião e da virtude cristã. A estes – embora esperemos que não precisem de nossa admoestação – exortamo-los insistentemente a que aos grandes méritos, que distinguiram as suas Ordens ou Institutos religiosos no passado, acrescentem a glória de corresponder de bom grado às necessidades presentes do povo, colaborando muito zelosamente com os outros sacerdotes, na medida das próprias possibilidades.

Aos missionários

56. A nossa mente voa agora para junto daqueles que deixaram a casa paterna e a pátria amada, e, sofrendo graves incômodos e superando grandes dificuldades, partiram para terras estrangeiras, e agora labutam naqueles longínquos campos de trabalho, para ensinar aos gentios a verdade evangélica e a virtude cristã, a fim de que em todos os povos “se propague a palavra de Deus e seja glorificada” (2 Ts 3,1). A eles está confiada, sem dúvida, missão importante em que devem colaborar todos os cristãos segundo as suas forças, quer com orações, quer dando auxílio material. Talvez nenhuma iniciativa seja tão agradável a Deus como esta que está intimamente ligada com a obrigação comum de propagar o Reino de Deus. Estes arautos do Evangelho consagram inteiramente a sua vida a Deus, para que a luz de Jesus Cristo ilumine todo o homem que vem a este mundo (cf. Jo 1,9), para que a graça divina penetre e afervore as almas de todos e os leve sobrenaturalmente a viver vida digna, culta e cristã. Esses missionários não procuram os seus interesses, mas os de Jesus Cristo (cf. Fl 2,21) e, seguindo generosamente a voz do Divino Redentor, podem aplicar a si mesmos a sentença do Apóstolo das gentes: “Nós desempenhamos as funções de embaixadores de Cristo” (2Cor 5,20) e “embora vivendo na carne, não militamos segundo a carne” (2Cor 10,3). A região a que se dirigiram para levar a luz da verdade evangélica consideram-na como segunda pátria e estimam-na com amor operoso; e embora cada um ame muito a sua terra querida, a sua própria diocese ou Instituto religioso, compreende e tem por certo que a este deve ser preferido o bem da Igreja universal, que se há de servir em primeiro lugar e com todos os meios.

57. Desejamos que todos estes amados filhos – e todos aqueles que naquelas regiões ajudam generosamente os missionários como catequistas ou de outro modo – saibam que estão presentes de modo especialíssimo ao nosso coração e que nós rezamos todos os dias por eles e pelas suas atividades; e que nós confirmamos também com a nossa autoridade e com igual amor tudo quanto os nossos predecessores de feliz memória, especialmente Pio XI (21) e Pio XII (22), oportunamente estabeleceram em suas Encíclicas.

Às religiosas

58. Nem queremos passar aqui em silêncio a respeito das virgens que pelos votos se consagraram a Deus para a ele só servirem e pelas místicas núpcias estarem intimamente unidas ao esposo divino. Elas – ou se entreguem à vida retirada nos claustros rezando e fazendo penitência ou se dediquem às obras externas do apostolado – não só podem cuidar muito mais facilmente da sua salvação, mas podem ainda ajudar muito a Igreja, tanto nas nações cristãs, como nas terras longínquas onde não brilhou ainda a luz do Evangelho. Oh! quanto não fazem estas religiosas! Oh! quantas e quão altas coisas realizam, que ninguém mais pode levar a cabo com a mesma dedicação virginal e maternal! E isso não em um mas em muitos campos de atividade: no ensino e educação da juventude; nas catequeses paroquiais; nos hospitais, onde podem cuidar dos enfermos e elevar-lhes as almas até Deus; nos asilos de velhos que podem tratar com caridade paciente, alegre e misericordiosa, sugerindo-lhes de modo admirável e suave desejos da vida eterna; finalmente nos orfanatos e hospitais infantis, fazendo as vezes de mães e tratando com amor materno esses órfãos ou abandonados que não têm pai nem mãe que os alimente, beije e abrace. As religiosas prestam ótimos serviços à Igreja Católica, à educação cristã e à prática das obras de misericórdia, mas também à sociedade civil; e conquistam uma coroa incorruptível que lhes será dada um dia no céu.

À Ação Católica e a todos os colaboradores no apostolado

59. Mas, como bem sabeis, veneráveis irmãos e diletos filhos, as necessidades dos homens no campo católico são hoje tão grandes e tão variadas, que o clero, os religiosos e as religiosas parecem insuficientes para as satisfazer.

Além disso, aos sacerdotes, aos religiosos e às religiosas não está aberto o acesso a todas as categorias de pessoas, e nem todos os caminhos lhes são acessíveis, pois muita gente os desconhece ou os evita, ou até, infelizmente, os despreza e aborrece.

60. Também por este grave e doloroso motivo, já os nossos predecessores chamaram os leigos para as fileiras do pacífico exército da Ação Católica, com a providencial intenção de estes virem ajudar a jerarquia eclesiástica no apostolado; aquilo que esta não pode fazer nas circunstências atuais, estes homens e mulheres católicos fazem-no generosamente, colaborando com os sagrados pastores e obedecendo-lhes sempre. E para nós grande consolação considerar o trabalho realizado até agora, mesmo em terras de missões, por estes auxiliares dos Bispos e dos sacerdotes. Acorreram de todas as idades e condições sociais, e labutaram com zelo e boa vontade para tornar conhecida a todos a verdade e para fazer sentir a todos o convite e atração da virtude.

61. Mas fica-lhes ainda vastíssimo campo de trabalho; são muitíssimos aqueles que precisam do seu exemplo luminoso, e do seu trabalho apostólico. Pretendemos tratar noutra ocasião, de modo mais amplo e completo, deste assunto que julgamos de gravíssima e suma importância. Entretanto alimentamos a esperança certa de que os militantes nas fileiras da Ação Católica ou nas inúmeras pias associações que florescem na Igreja, continuarão com toda a diligência tão necessária atividade: quanto maiores são as necessidades deste nosso tempo, tanto maiores devem ser os esforços, os cuidados, as diligências e o zelo. Estejam inteiramente unidos, porque, como muito bem sabem, a união faz a força; deixem de lado opiniäes particulares, sempre que se trate da causa da Igreja Católica, a qual deve ser a suprema e a mais importante de todas; e isto não somente no que diz respeito à doutrina sagrada, mas também às normas disciplinares da Igreja, normas que devem ser respeitadas sempre por todos. Em fileiras cerradas, e sempre unidos pela obediência à jerarquia católica, avancem para novas conquistas, sempre maiores; não se poupem a trabalhos, nem fujam de incômodos para fazer triunfar a causa da Igreja.

62. Mas, para que isto se consiga, procurem antes de tudo – como sem dúvida já estão persuadidos que deve ser –  deixar-se impregnar da doutrina cristã, intelectual e moral. Só então serão capazes de dar aos outros aquilo que tiverem adquirido com o auxílio da graça divina. Dirigimos esta recomendação em primeiro lugar aos adolescentes e jovens. Eles têm generosidade que facilmente se inflama pelos nobres ideais, mas precisam mais do que ninguém de prudência, moderação e obediência aos Superiores. A estes amadíssimos filhos, esperança da Igreja, nos quais pomos tanta confiança, chegue a expressão viva da nossa gratidão e do nosso paternal afeto.

Aos aflitos e atribulados

63. Agora parecem subir até nós os gemidos dos que sofrem no corpo ou no espírito, ou se encontram em tais angústias econômicas que nem possuem uma casa digna de homens, nem encontram trabalho para ganhar os meios de sustentação para si próprios e para os filhos. Estas lamentações impressionam vivamente e comovem nosso coração, e, em primeiro lugar, queremos comunicar aos doentes, aos entrevados e aos velhos aquele conforto que vem do alto. Lembrem-se de que não temos aqui idade permanente, mas que buscamos a futura (cf. Hb 3,14); lembrem-se que as dores desta vida mortal, que purificam, elevam, e nobilitam a alma, nos podem dar alegria eterna no céu; lembrem-se de que o Divino Redentor, para lavar-nos das manchas dos nossos pecados e purificar-nos, sofreu a morte de cruz e suportou de boa mente injúrias, suplícios e aflições crudelíssimas. Assim como ele, também nós todos somos chamados da cruz à luz, segundo a sua palavra: “Se alguém quiser vir após mim, abnegue-se a si mesmo, tome a sua cruz todos os dias, e siga-me” (Lc 9,23); e terá um tesouro imperecível no céu (cf. Lc 12,23).

64. Desejamos além disso – e estamos convencidos de que esta nossa exortação terá bom acolhimento – que os sacrifícios espirituais e corporais constituam não só degraus para cada um dos que sofrem para subir ao céu, mas contribuam também para a expiação dos pecados alheios, para o regresso ao seio da Igreja daqueles que dela infelizmente se separaram, e para o triunfo do nome cristão.

Aos pobres

65. Os mais desprovidos de bens materiais, que se queixam de grande pobreza, saibam antes de mais nada que nós sentimos grande dor com esta sorte que têm. E isto não só porque desejamos com coração paterno que a virtude cristã da justiça tenha a devida aplicação na questão social, e dirija e informe as relações mútuas das classes, mas também porque muito nos custa que os inimigos da Igreja abusem facilmente das injustas condições das pessoas necessitadas para atraí-las do seu lado com promessas enganosas e ilusões falsas.

66. Saibam estes nossos caríssimos filhos que a Igreja não é inimiga deles nem lhes desconhece os direitos; mas que os protege como mãe amorosa, e prega e inculca no campo social tal doutrina e tais normas que, se forem inteiramente postas em prática, farão desaparecer todo o gênero de injustiça e levarão a distribuição melhor e mais justa dos bens; (23) e também se fomentará uma colaboração amigável entre as várias classes, e cada indivíduo, poderá considerar-se e ser de fato concidadão duma mesma comunidade e irmão duma mesma família. E, se considerarmos com serenidade os melhoramentos que nos últimos tempos conseguiram os que vivem do trabalho diário, devemos confessar que isso se deve principalmente à eficaz atividade dos católicos na questão social, segundo as sábias normas e repetidas exortações dos nossos predecessores. Aqueles, portanto, que se dedicam a defender os direitos das classes mais abandonadas, já têm normas certas e seguras na doutrina social cristã; se estas se puserem devidamente em prática, oferecerão o meio de chegar a uma justa solução de todos os problemas. Nunca devem pois os cristãos dirigir-se aos propugnadores de doutrinas condenadas pela Igreja; é bem verdade que estes os atraem com falsas promessas, mas, onde quer que têm o governo na mão, tentam arrancar das mentes dos cidadãos o bem supremo das consciências – isto é, a fé cristã, a esperança cristã e os mandamentos cristãos – e debilitam ou destroem inteiramente aquilo que em nossos dias os homens civilizados justamente exaltam, a saber, a liberdade e a verdadeira dignidade devida à pessoa humana; e até procuram destruir os próprios fundamentos da civilização cristã. Portanto aqueles que querem permanecer fiéis a Cristo têm obrigação grave de consciência de evitar de todos os modos estes erros, já condenados pelos nossos predecessores, especialmente Pio XI e Pio XII de feliz recordação, e nós igualmente condenamos.

67. Sabemos que não poucos dos nossos filhos, menos favorecidos pela fortuna ou acabrunhados pela miséria, muitas vezes se queixam de nem todos os preceitos cristãos sobre a questão social terem sido até agora postos em prática. É pois necessário trabalharem com todo o empenho – não só os particulares, mas principalmente os governos – para que quanto antes, embora aos poucos, seja posta inteiramente em prática a doutrina social cristã, que os nossos predecessores tantas vezes, tão ampla e sapientemente, expuseram e estabeleceram e nós confirmamos. (24)

Aos refugiados e emigrantes

68. Não estamos menos preocupado com a sorte daqueles que, pela necessidade de procurar sustento ou pelas tristes condições de suas pátrias, e pelas perseguições contra a religião, foram obrigados a abandonar a terra natal. Quantos e quão grandes males e desventuras não devem estes sofrer, arrancados ao seu meio e à casa paterna e obrigados muitas vezes a viver na aglomeração das grandes cidades ou dos grandes centros industriais, com um teor de vida completamente novo e muitas vezes corruptor. Por causa dessas condições, freqüentemente acontece que muitos passam por crises perigosas e vão pouco a pouco afastando-se das sãs tradições religiosas da própria pátria. Acresce que muitas vezes os esposos são forçosamente separados um do outro, bem como os pais dos filhos, debilitando-se os laços e relaçäes da vida doméstica, não sem prejuízo da união da família.

69. Acompanhamos com coração paterno o trabalho dedicado e operoso daqueles sacerdotes, que, inflamados no amor de Jesus Cristo e obedecendo às normas e aos desejos da Santa Sé, como exilados voluntários, não poupam esforços para atender quanto podem ao bem espiritual e social destes filhos, fazendo-lhes sentir em toda a parte a caridade da Igreja, tanto mais presente e eficaz, quanto mais eles precisam de seu cuidado e auxílio.

70. De modo semelhante, temos presente e apreciamos os esforços realizados por várias nações nesta causa tão importante e também as iniciativas tomadas recentemente no campo internacional, para se resolver quanto antes este gravíssimo problema. Confiamos que tudo isso não só ajudará a conceder, com mais facilidade, maior entrada aos emigrantes, mas também a restabelecer a sociedade doméstica de pais e filhos; só esta poderá defender eficazmente o bem religioso, moral e econômico dos emigrantes, não sem benefício dos países que os recebem.

À Igreja perseguida

71. Enquanto exortamos todos os nossos filhos em Cristo a evitar os erros funestos, capazes de destruir a religião e a sociedade humana, vêm-nos à memória tantos veneráveis irmãos no episcopado, e diletos sacerdotes e fiéis, que se encontram no exílio, ou foram lançados em prisões ou campos de concentração, porque não quiseram faltar ao seu dever episcopal ou sacerdotal nem apostatar da fé católica.

72. Não queremos ofender a ninguém, antes pelo contrário queremos dar a todos o nosso perdão implorando o perdão de Deus. Mas a responsabilidade do nosso dever sagrado exige que protejamos, quanto podemos, os direitos desses irmãos e desses filhos, pedindo insistentemente que seja concedida a cada um a liberdade legítima, que é devida a todos, portanto também à Igreja de Deus. Os que seguem realmente a verdade e a justiça, e procuram o bem de todos os homens e países, não negam a liberdade, não a sufocam nem a oprimem; não precisam de recorrer a estes meios. Por isso, jamais se pode conseguir o verdadeiro progresso dos cidadãos por meio da força, da opressão dos espíritos e das consciências.

73. Principalmente se deve ter por certo o seguinte: descurando ou oprimindo os sagrados direitos de Deus e da religião, cedo ou tarde tremem e desabam os fundamentos da sociedade humana. Já o notava com agudeza o nosso predecessor de imortal memória, Leão XIII: “Segue-se… que a força das leis diminui e toda autoridade enfraquece, se repudiamos a regra suprema e eterna dos preceitos e das proibições de Deus”. (25) Com essa sentença concorda a palavra de Cícero: “Vós, ó pontífices… cingis mais eficazmente a cidade com a religião do que com as muralhas”.(26)

74. Considerando tudo isto, com o coração cheio de tristeza abraçamos a todos e a cada um daqueles que são impedidos de praticar a religião e muitas vezes “são perseguidos por amor da justiça” (Mt 5,10) e por causa do reino de Deus. Compartilhamos as suas dores, angústias e sofrimentos, e dirigimos preces ao céu para que desponte finalmente para eles a aurora de tempos melhores. Unam-se a nós nesta prece todos os nossos irmãos e filhos; e suba a Deus misericordioso, de todos os ângulos da terra, um coro imenso de súplicas, que faça descer abundante chuva de graças sobre estes membros doloridos do corpo místico de Cristo.

Exortações finais

75. Não pedimos somente orações aos nossos caríssimos filhos, pedimos-lhes também aquela renovação da vida cristã que, mais do que as próprias oraçäes, é capaz de nos tornar Deus propício, a nós e aos nossos irmãos. Com prazer repetimos a vós todos as palavras elevadas e belíssimas do Apóstolo das gentes: “…Tudo o que é verdadeiro, nobre, justo, puro, amável, honroso, virtuoso ou que de qualquer modo mereça louvor… o que aprendestes e herdastes, isso praticai” (Fl 4,8). “Revesti-vos do Senhor Jesus Cristo” (Rm 13,14). Isto é: “Vós, como eleitos de Deus, santos e amados, revesti-vos de sentimento de compaixão, de bondade, humildade, mansidão, longanimidade, suportando-vos uns aos outros e perdoando-vos mutuamente… Mas, sobre tudo isso, revesti-vos da caridade, que é o vínculo da perfeição. E reine nos vossos corações a paz de Cristo, à qual fostes chamados em um só corpo” (Cl 3,12-15).

76. Se portanto alguém teve a desgraça de se afastar do Divino Redentor por causa de suas faltas e pecados, pedimos-lhe encarecidamente que volte àquele que é o “Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14,6); e se alguém está tíbio, frouxo, remisso e negligente, renove a sua fé e com a ajuda da graça divina alimente e consolide a virtude; finalmente se alguém, com o auxílio de Deus “é justo, justifique-se mais: e se é santo, santifique-se mais” (Ap 22,11).

77. Uma vez que hoje são tantos os que precisam de conselho, bom exemplo e também de auxílio por causa das condições tristíssimas em que se encontram, praticai todos, segundo as vossas forças e meios, as obras de misericórdia, que são muito agradáveis a Deus.

78. Se todos vos esforçardes por fazer tudo isso, brilhará com nova luz na Igreja o que está escrito tão belamente dos cristãos na Carta a Diogneto: “Estão na carne, mas não vivem segundo a carne. Moram na terra, mas têm a pátria no céu. Observam as leis existentes, mas com o seu teor de vida superam as leis… São ignorados, e são condenados; levados à morte, recebem vida. São mendigos, e enriquecem a muitos; têm falta de tudo, e tudo lhes sobra. São desonrados, e nas desonras recebem glórias; perdem a fama, e recebem testemunho da própria justiça. São censurados e bendizem; são tratados afrontosamente, e prestam honras. Quando fazem o bem, são castigados como malfeitores; enquanto são castigados, alegram-se como quem recebe nova vida. Numa palavra: O que é a alma no corpo, isto são os cristãos no mundo”.(27) Nestas belíssimas frases, há coisas que se podem aplicar de modo especial aos cristãos da chamada Igreja do silêncio. Por eles devemos todos de modo especialíssimo pedir a Deus, como recomendamos insistentemente ainda há pouco nas alocuções na Basílica de S. Pedro no dia de Pentecostes e na solene adoração da festa do Sacratíssimo Coração de Jesus.(28)

79. Esta renovação da vida cristã, esta vida virtuosa e santa, desejamo-la a todos vós e pedimos constantemente a Deus que vo-la conceda não só aos que perseveram firmes na unidade da Igreja, mas também àqueles que se esforçam por entrar nela, trazidos pelo amor da verdade e pela vontade sincera.

84. Seja preparação e penhor das graças do céu a bênção Apostólica, que vos damos a cada um de vós, veneráveis irmãos e diletos filhos, com paternal e vivo afeto.

 Dado em Roma, junto de São Pedro, no dia 29 de junho, festa dos SS. Apóstolos Pedro e Paulo, no ano de 1959, primeiro do nosso Pontificado.

Fonte:http://www.vatican.va/holy_father/john_xxiii/encyclicals/documents/hf_j-xxiii_enc_29061959_ad-petri_po.html

 

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 Biografia de São Vicente de Paulo pelo Vaticano

CARTA DO PAPA JOÃO PAULO II
AO SUPERIOR -GERAL DOS LAZARISTAS
POR OCASIÃO DO 400º ANIVERSÁRIO
DO NASCIMENTO DE SÃO VICENTE DE PAULO

 

Ao Reverendo Padre
Richard McCULLEN
Superior-Geral da Congregação da Missão

Há quatrocentos anos — aos 24 de abril de 1581 na aldeia de Pouy, nas “Landes” — nascia São Vicente de Paulo. A Igreja deve tanto ao terceiro filho de Jean Depaul e Bertrande Demoras, que considera obrigação sua comemorar este aniversário. Os santos, com efeito, ainda em vida e, sobretudo depois de mortos, são no mundo, ao longo dos séculos, testemunhas da presença de Deus que ama e de sua ação salvadora. O quarto Centenário do nascimento de Vicente de Paulo é — para as famílias religiosas nascidas de seu carisma e para todo o povo cristão — preciosa oportunidade de meditar nas maravilhas de um Deus de ternura e misericórdia por meio de alguém que a Ele se entregou sem reserva através dos compromissos irrevogáveis do sacerdócio. Desejando vivamente manifestar à Congregação da Missão, à Companhia das Filhas da Caridade, às Conferências de São Vicente de Paulo e a todas as obras de inspiração vicentina, quanto a Igreja aprecia o trabalho apostólico por elas desenvolvido na trilha de seu Fundador, quero expressar-lhes, por seu intermédio, os pensamentos que o acontecimento me sugere e meu mais fervoroso estímulo para que acendam, por toda a parte e sempre, a chama da caridade evangélica (cf. Lc 12, 49) que ardia no coração do Padre Vicente.

Primeiramente, a vocação deste genial iniciador da ação caritativa e social ilumina ainda hoje a estrada de seus filhos e filhas, dos leigos que vivem de seu espírito, dos jovens que buscam a chave de uma existência útil e radicalmente consumida no dom de si. É fascinante o itinerário espiritual de São Vicente de Paulo. Depois da ordenação sacerdotal e de estranha aventura de escravidão em Túnis, ele parece voltar as costas ao mundo dos pobres, rumando a Paris na expectativa de adquirir um benefício eclesiástico. Conseguiu colocar-se como esmoler da rainha Margarida. Tal posto fê-lo aproximar-se da miséria humana, especialmente no novo Hospital da Caridade. É então que o Padre de Bérulle, fundador do Oratório na França, lhe proporciona — por meio de uma série de iniciativas aparentemente pouco coerentes — a oportunidade para as descobertas que foram a origem das grandes realizações da sua vida. Inicialmente, Bérulle o envia como Pároco a Clichy-la-Garenne, arrabalde de Paris. Quatro meses mais tarde, o faz entrar na família de Gondi como preceptor dos filhos do General das Galeras. Desígnios da Providência. Transitando continuamente com os Gondi por seus castelos e propriedades do interior, Vicente de Paulo descobriu a terrível realidade da miséria material e espiritual do “pobre povo do campo”. A partir de então; começa a interrogar-se: era justo dedicar à educação de crianças de importante família seu ministério sacerdotal, enquanto os camponeses viviam e morriam em tal abandono? Ouvidas as dúvidas de Vicente, Bérulle o encarrega da paróquia abandonada de Châtillon-des-Dombes, onde o novo pastor adquire uma experiência decisiva. Domingo de agosto, 1617. Chamado para atender a uma família, cujos membros estavam todos doentes, ele assume a organização da generosidade dos vizinhos e de pessoas de boa vontade: era o nascimento da primeira “Caridade” que ia servir de modelo a tantas outras. E, daquele momento até o último suspiro, não o abandonaria mais a convicção de que o serviço dos pobres era sua vida. Este resumo do “itinerário interior” de Vicente de Paulo nos vinte primeiros anos de sacerdócio mostra-nos um presbítero extremamente atento .a seu tempo, deixando-se guiar pelos acontecimentos ou, antes, pela Providência divina, sem jamais se lhe antecipar, sem “passar-lhe por cima”, como gostava de dizer. Hoje como ontem, não seria tal disponibilidade o segredo da paz e da alegria evangélica, assim como o caminho privilegiado da santidade?

Para melhor servir os pobres, Vicente decidiu-se a “reunir eclesiásticos que, livres de quaisquer compromissos, se aplicassem inteiramente, sob a orientação dos Bispos, à salvação do pobre povo do campo, por meio da pregação, da catequese, das confissões gerais, sem disso auferir retribuição alguma, qualquer que fosse sua natureza ou modalidade”. O Priorado de São Lázaro, adquirido por volta de 1632, motivou logo o apelido de “lazaristas” aos membros deste grupo sacerdotal que cresceu rapidamente, implantando-se em cerca de quinze dioceses para missões paroquiais e fundação de “Caridades”. A Congregação da Missão estendeu-se até à Itália, à Irlanda, à Polónia, à Argélia, a Madagáscar. Vicente não cessa de inculcar em seus companheiros “o espírito de Nosso Senhor”, que ele compendia em . cinco virtudes fundamentais: simplicidade, mansidão em relação ao próximo, humildade em relação a si mesmo, e, enfim, como condicionamento para estas três, a mortificação e o zelo, que seriam como seus aspectos dinâmicos. Cheias de sabedoria espiritual e realismo pastoral, as exortações por ele dirigidas aos que partiam para pregar o Evangelho: trata-se, não de se fazer amar, e sim de fazer amar Jesus Cristo. Num tempo de tantos pregadores de complicados sermões, com citações em grego e latim, ele exigia, em nome do Evangelho, a simplicidade, a linguagem imaginosa e convincente.

Possam os “lazaristas” de hoje, sempre fiéis ao Pai São Vicente, semear fartamente a Palavra de Deus pela pregação e contribuir incessantemente a “fortalecer a identidade sacerdotal e seu autêntico dinamismo evangélico” no povo de Deus, conforme lhes desejava eu mesmo em minha carta a todos os sacerdotes da Igreja, na Quinta-feira santa de 1979. Possa ainda o exemplo do Padre Vicente estimular a todos os que se acham revestidos da grande responsabilidade de preparar para as comunidades cristãs, urbanas e rurais, os ministros sagrados (ordenados) de que têm tanta necessidade!

No correr das missões, evidenciou-se igualmente que os frutos de tal método de evangelização dependiam da permanência de padres instruídos e zelosos nas paróquias missionadas. Assim, bem cedo, os “lazaristas” começaram a dar à formação sacerdotal a atenção que davam às missões, fundando, para isso, seminários em conformidade com os urgentes apelos do Concílio de Trento.

O primeiro retiro de ordenados, animado pelo próprio São Vicente, em 1628, a pedido do Bispo de Beauvais, foi o ponto de partida, não apenas dos “exercícios preparatórios” à ordenação, mas também da formação permanente do clero, graças às “Conferências das Terças-feiras” para os Eclesiásticos, em São Lázaro. Tais iniciativas, que entusiasmaram o Padre Olier, forneceram à Igreja sacerdotes exemplares, vários deles, como Bossuet, chamados ao episcopado. A este clero de Paris e do interior, Vicente de Paulo comunicou espírito evangélico e ardor missionário, orientando-o para a exigência da fraternidade sacerdotal e da ajuda mútua no serviço dos pobres, sob filial dependência dos Bispos. “Como revelar ao mundo o amor de Deus, gostava de repetir, se os mensageiros deste amor não se unem entre si?”. Não seria, para todos os padres de hoje, um convite de São Vicente a viverem o sacerdócio em equipes fraternas, indissoluvelmente orantes e apostólicas; a um só tempo, abertas à colaboração com os leigos e penetradas do sentido do sacerdócio ministerial que vem do Cristo para o serviço das comunidades cristãs?

Outro aspecto do dinamismo e do realismo de Vicente de Paulo foi dotar as “Caridades”, já numerosas, de uma estrutura de unidade e eficiência. Luísa de Marillac, viúva de António Le Gras, iniciada à vida espiritual por São Francisco de Sales, depois, sob a orientação do próprio São Vicente, foi por este enviada para visitar e estimular as “Caridades”. Cumpriu maravilhosamente a missão, cujos ecos contribuíram muito para que várias “boas moças do campo” que colaboravam com as “Caridades”, se decidissem a seguir-lhe o exemplo de oblação total a Deus e aos pobres. A 29 de novembro de 1633, nascia a Companhia das Filhas da Caridade, recebendo de Vicente de Paulo um regulamento original e exigente: “Tereis por mosteiros a sala dos doentes; por cela, um quarto de aluguer; como capela, a igreja paroquial; como claustro, as ruas da cidade; como clausura, a obediência; como grade, o temor de Deus; como véu, a santa modéstia”. O espírito da Companhia foi assim resumido: “Deveis fazer o que o Filho de Deus fez na terra; a estes pobres doentes, deveis dar a vida do corpo e a vida da alma”. No encalço de Luísa de Marillac, milhares e milhares de mulheres consumaram a vida no humílimo serviço dos sofredores, dos mendigos, dos prisioneiros, dos marginais, dos excepcionais, dos analfabetos, das crianças abandonadas. Como o Pai Vicente de Paulo elas são, após ele, o coração do Cristo no mundo dos pobres e também dos ricos, a quem procuram tornar generosos para com os pobres. Antes dos atuais movimentos feministas, o Padre Vicente soube encontrar, entre as mulheres de seu tempo, auxiliares inteligentes e generosas, fiéis e constantes. A história da Companhia ilumina de modo singular, o que é, indubitavelmente, o mais profundo aspecto da feminilidade: o do chamado à ternura e à misericórdia, de que sempre necessitará a humanidade, à qual estão sempre presentes os pobres. E as sociedades modernas até produzem novas formas de pobreza.

Este olhar contemplativo sobre a epopéia vicentina, levar-nos-ia facilmente a dizer que São Vicente é um santo moderno. Sem dúvida, se ele reaparecesse hoje, não teria o mesmo campo de ação. Foram superadas muitas doenças que nos ensinou a curar. Entretanto, ele encontraria infalivelmente, o caminho dos pobres, dos novos pobres, nas concentrações urbanas de nosso tempo, como outrora nos campos. Imagine-se o que este arauto da misericórdia e da ternura de Deus seria capaz de empreender, utilizando com sabedoria, todos os meios modernos à nossa disposição! Numa palavra, sua vida se assemelharia ao que sempre foi: um evangelho generosamente aberto, com o mesmo cortejo de pobres, de doentes, de pecadores, de crianças infelizes e, também, de homens e mulheres a se dedicarem ao amor e ao serviço dos pobres. Todos, famintos de verdade e de amor, tanto quanto de alimento material e de cuidados corporais! Todos, a escutar o Cristo que continua a lhes dizer: “Aprendei de mim que sou manso e humilde de coração!” (Mt 11, 29).

Possa o quarto centenário do nascimento de São Vicente de Paulo iluminar profusamente o povo de Deus, reanimar o zelo de todos os seus discípulos e fazer ressoar no coração de numerosos jovens o chamado ao serviço exclusivo da caridade evangélica! Estes, os sentimentos e os votos que eu desejava expressar à grande e cara família dos Lazaristas e das Filhas da Caridade e a todos os movimentos vicentinos, acrescentando-lhes minha afetuosa Bênção Apostólica.

Do Vaticano, aos 12 de maio de 1981

JOANNES PAULUS PP. II

Biografia de São Vicente de Paulo por Guilherme Vaeessen

C.M. Mensageiro da Fé

1. Nasceu a 24 de abril de 1581, na pequena aldeia de pouy, perto de Dax, ao pé dos Pirineus na França. Seu pai chamava-se João de Paulo sua mãe Bertranda de Moras. Cultivavam uma pequena propriedade de que tiravam a subsistência para a família, composta de seis filhos. A Vicente que era o terceiro filho, coube, como aos outros irmãos, o trabalho do campo, principalmente o pastoreio dos rebanhos paternos.(p.11).

2.Aos 23 de setembro de 1600, em Chateaul’Evêche, recebeu a ordenação sacerdotal…os assistentes, admirados e comovidos ante tanta piedade, dirão: Que padre santo! Como celebra bem a Santa Missa….Em 1605, Vicente foi a Marselha para receber um pequeno legado de uma pessoa piedosa. Voltando por mar para Tolosa, foi o navio surpreendido por uma esquadrilha de piratas que cruzavam o Golfo de  Leão….Lá, com a corda ao pescoço, foram expostos na feira para ser vendidos. “Os compradores, diz o santo, nos revistaram como a cavalos e bois, fazendo-nos abrir a boca para ver nossos dentes, sondando nossas feridas, fazendo-nos andar..levantar pesos para verem nossas forças…Vicente foi vendido a um pescador, depois a um médico e, afinal, a um renegado francês que o levou para o interior, onde tinha uma lavoura, lugar extremamente deserto e quente. Lá cavava a terra com uma corrente aos pés. Uma…curiosa, diz o Santo, de saber o modo de viver dos cristãos, apesar de muçulmana, frequentemente ia me visitar na terra em que eu trabalhava…ante as razões daquela mulher e ajudado pela graça de Deus, abriu os olhos o marido e tão comovido ficou que, no dia seuinte, disse a Vicente que, para voltar à França e a Deus só lhe faltava a ocasião favorável. Esta se lhe apresentou após dez longos meses de espera. Em junho de 1607 se meteram, só os dois, em um frágil batel, e com ventos que sopravam rumo à França, deixando a terra da infidelidade e da escravidão, passaram felizmente ao mediterrâneo. A 28 de junho aportaram à cidade de Águas Mortas, na foz do Ródano. Quando pôde pisar o solo de sua pátria, Vicente levantou os braços ao céu e entoou o “Te Deum laudamus”.(p.16-p.19)

3.Consta, porém, que, pelos fins de 1609, já estava em Paris, como capelão da Rainha Margarida, esposa repudiada de Henrique IV, a qual, depois de uma vida leviana, tinha se convertido sinceramente, dando provas de uma grande piedade e de uma caridade sem limites para com os pobres…Foi naquele tempo, enquanto capelão da rainha Margarida, que Vicente teve de passar por duas provações terríveis. Quem é destinado a grandes obras tem de passar por grandes tribulações, como já disse. Implorar a Deus, disse um santo religioso, é uma excelente obra de religião; trabalhar por Deus é uma obra ainda mais excelente; mas sofrer por Deus é, segundo São João Crisóstomo, uma obra mais gloriosa do que ressuscitar mortos.(p.20-21).

4.Vicente tinha por penitente um célebre eclesiástico que outrora tinha defendido o catolicismo contra os ataques dos hereges, com um sucesso exraordinário. Por isso, talvez para manter a humildade, Deus permitiu que o demônio o tentasse, de modo ter´rivel, contra a fé. Sofria tão grandes tentações de blasfemar contra Jesus Cristo e pensamentos de desespero…Chegou a tal ponto a pertuurbação que era incapaz de celebrar a Santa Missa e de rezar o Ofício Divino. Vendo seu penitente nesse estado deplorável e receando que cedesse ás sugestões do inimigo da salvação, tomou nosso santo uma resolução generosa e extraordinária. Pediu a Deus que a terível provação do outro passasse para ele. O Senhor aceitou a oferta heróica. O eclesiástico viu-se de repente livre da tentação e Vicente, ao mesmo tempo, alvejado pelos mais furiosos ataques do inferno. Foi uma luta horrível que durou quatro anos. Cansado, esgotado de amanha batalha, opondo repetidos  atos de fé, orações, mortificações, recorreu a um piedoso estratagema. Escreveu sua profissão de fé, o Credo, como um protesto contra os pensamentos de infidelidade, e a trouxe constantemente sobre o coração, tendo convencionado com Nosso Senhor que, cad avez que levasse a mão ao peito, seria com a intenção de renovar o seu protesto de fidelidade. Um dia em que a tentação lhe causava tormentos mais violentos do que de costume, sentiu-se a tomar a resolução irrevogável de consagrar toda a sua vida ao serviço dos aflitos. Logo a tentação desapareceu, as trevas se dissiparam e deram lugar a uma luz abundante. (p.22-23).

5.Acusado injustamente “No bairro de S. Germano, talvez por economia, tomara Vicente por aposento a mesma casa…de um velho conhecido…o juiz de Sore. Esse guardava seu rico dinheiro num ármário cuja chave trazia sempre consigo…Pois, um dia, o doutor, antes de sair, se esqueceu de tirar a chave do cofre.Nesse interim veio o criado do farmacêutico trazer um remédio a Vicente, que então estava doente de cama, e oferecendo-se-lhe ocasião de ir buscar no armário um copo, levado pela cobiça, meteu o dinheiro na algibeira. Voltando o cavalheiro à casa e não achando o dinheiro, o reclamou de Vicente, como se este lho tivesse roubado.Respondeu este que nem o tirara, nem o vira tirar. Furioso, o homem acusa o santo desse furto e o cobre de inhúrias tão descomedidas que o servo de Deus para evitar maior barulho, mudou de aposento e de casa. Não cessou, porém a perseguição do juiz; antes cada vez crescia mais, porque publicamente lhe chamava de ladrão, até na  presença de pessoas de qualidade, como o Cardeal de Bérulle e outras pessoas. Vicente, humilde e inocente, sem culpar a outrem nem desculpar-se a si mesmo, somente dise: Deus sabe a verdade.Deus porém, acode aos inocentes que nele põem confiança, como acudiu a José e à casta Suzana…o criado da Farmácia, responsável pelo roubo, ao ver-se preso em Bordéus por outros delitos, atormentado pelos remorsos da consciência, mandou chamar à cadeia o tal juiz, pois o conhecia, e confessou que fora ele que furtara o dinheiro.Ficou atonito o juiz com esta noticia e, cheio de espanto por ter injuriado a Vicente, escreveu-lhe relatando o fato e dizendo-lhe que, se quisesse, iria a Paris e prostrado a seus pés, lhe pediria perdão. (p.23-24).

6.O resto do seu tempo é repartido entre o confessionário, o catecismo, a oração e o estudo…Muitas famílias inteiras, que estavam infeccionadas de calvinismo, por sua diligência se reconciliaram com a Igreja e vários membros delas acabaram abraçando a vida religiosa. (p.27).

7.Trata-se de aproximar o rico do pobre, de se procurarem, de se julgarem lealmente, sem injusta severidade nem falsa complacência.Trata-se afinal de trazê-los a uma estima e amizade recíprocas…O pobre e o rico não tem igual necessodade um do outro? Para isso, para os aproximar, é preciso estabelecer uma obra fixa. Chamar-se-á “Confraria de Caridade”.Nela o rico e o pobre aprenderão seus deveres, o papel, o proveito social da caridade…Mandou, pois Vicente, chamar as senhoras De Chassaigne e De Brie: suas duas convertidas, e lhe expôs suas idéias: constituir uma associação com outras senhoras, com o fim de angariar e regularizar os socorros a serem distribuídos a todos os pobres doentes da localidade.(p.31).

O famoso pequeno método de S. Vicente

Em que consiste? Em usar na pregação, uma linguagem capaz de ser compreendida pelo último dos ouvintes, linguagem adaptada ao seu modo de viver, com exemplos tirados de sua profissão, de seus trabalhos diários como fazia Jesus Cristo. Em dividir o sermão em três pontos bem definidos. No primeiro mostram-se os motivos de praticar tal virtude ou de evitar tal mal; no segundo explica-se em que consiste esta virtude ou este mal; e no terceiro indicam-se os meios de adquirir a virtude ou evitar o mal. Tais os três pontos principais que o missionário deve desenvolver simplesmente, com o próprio coração nas mãos…(p.39-40).

Lazaristas

Vicente viu seus filhos multiplicarem-se a ponto de o pobre “Asilo dos Bons Meninos” não poder mais os abrigar.  Deus, porém, providenciou a tempo. Adriano Bom, Prior de S.Lázaro ofereceu ao santo a casa e as terras do seu priorado, conhecido pelo nome de S. Lázaro, antigo hospital de leprosos e vasta construção onde permaneceram até o fim do século XVIII..Daqui vem o costume de se chamarem “Lazaristas” os padres congregados de S.Vicente. (p.42).

Luiza de Marillac

Viuva aos trinta e quatro anos, de Antônio Legras, secretário da rainha Maria de Médicis, Luíza …sentia uma inclinação irresistível de consagrar-se aos pobres e doentes…Vicente lembrou-se então de que, nas missões, tinha encontrado frequentemente moças piedosas, honestas, sem inclinação para o casamento nem recursos para poderem entrar na vida religiosa, mas dispostas a se dar a Deus, para o serviço dos pobres.Sucedeu que, logo nas primeiras missões, algumas se ofereceram voluntariamente. Vicente as confiou a Luíza para esta instruí-las.A primeira foi Margarida Nazeau, pobre camponesa que, pastoreando ovelhas, tinha aprendido a ler e escrever sozinha, e depois se tinha feito professora particular das meninas pobres…Foi a primeira “Filha de Caridade e Serva dos Pobres Doentes”. E este é o nome oficial das filhas de S. Vicente. (p.46).

Se o mundo soubesse da suavidade e das vantagens da vida religiosa , ficaria vazio;(p.48).

Filhas de Caridade

“As Filhas de Caridade precisam de mais virtudes do que as religiosas mais austeras. Não há comunidade de senhoras que tenha mais encargos: primeiro, trabalhar na sua própria santificação, como as Carmelitas; segundo, como as Religiosas Hospitaleiras, tratar os doentes; em terceiro lugar instruir as meninas pobres, como as Ursulinas.  (p.49).

Visita aos presos

Com uma dedicação sem limites visitava-os, levava-lhes alimento, remédios, prodigalizava-lhes consolações e exortações em nome d’Aquele que também foi condenado por amor dos pecadores. Não raro lhes beijava até as algemas. (p.59).

Se ofereceu para ficar preso no lugar do condenado

Encontrou um condenado mais infeliz do que culpado, que já caía em desespero, porque sua ausência reduzira a mulher e os filhos à última miséria. Se alguém o substituísse, podia ser posto em liberdade. Vicente não hesita em tomar-lhe as algemas e o lugar no banco dos remadores. Mas, sendo bem descoberta a substituição, bem depressa também o santo deixou a cidade para evitar o triunfo que semelhante ação lhe teria preparado.  (p.61-62).

Caridade

“Quando os pintores querem representar a caridade, diz o primeiro biógrafo de Vicente, pintam-na geralmente com crianças nos braços. Assim deveriam pintar Vicente de Paulo.”(p.64).

Limpeza

Não só manda enterrar os mortos cujos cadáveres ficavam às vezes sem sepultura, dias e mais dias, nas cidades e pelos campos despovoados, mas também suscita, em toda parte, “companhias aéreas” que não são outra coisa senão sociedade de limpeza pública, para purificar o ar e o solo, das imundíces que os infeccionavam.

São Vicente de Paulo e São Francisco de Sales

Em 1619, S. Franciswco de Sales veio a Paris. Logo que os dois santos se encontraram…Diz Abelly que Vicente ficou encantado pela expressão de pureza angélica e de sentimento cristão de Francisco e que, depois de o ter visto, declarou que lhe parecia ter visto o Filho de Deus conversando com os homens. Por sua vez, Francisco publicou que não tinha encontrado sacerdote tão caridoso, tão prudente e dotado de tamanho talento para dirigir as almas, no caminho da mais alta perfeição, como Vicente de Paulo. (p.81).

Confiança na Providência Divina

Quando faziam ver ao servo de Deus que a comunidade gemia sob o peso de tantos gastos, respondia, sorrindo, que a Providência havia de prover às suas necessidades e que eles deviam julgar-se felizes por serem instrumentos de Deus para operar tão grandes frutos de misericórdia.(p.83-84).

Combate a heresia

Um dia o Abade sustentou, diante de Vicente, um dos erros de Calvino, condenado pelo Concílio de Trento. O santo disse…”Como quer que acredite antes num doutor particular, como é o senhor, sujeito ao erro, do que em toda a Igreja, que é a coluna da verdade? Ao que Saint Cyran replicou: O senhor é um ignorante que não merece estar a frente de sua comunidade. – O Senhor tem razão, disse Vicente; sou realmente um ignorante, mais ignorante do que julgais.”(p.88).

Fundação de obras sociais

Falta-me espaço e tempo para enumerar todas as obras fundadas, organizadas, dirigidas por Vicente. Capelania da Corte…paroquiato…magistério dos pobres…fundação das Senhoras de Caridade…dos hospitais para os doentes…de asilos para os velhos….de refúgios para as mulheres decaídas e para as donzelas em perigo….da casa para os expostos….conselhos de consciência….reforma do clero…retiro eclesiásticos…fundação dos seminários….socorro às províncias associadas….missões aos camponeses….os leprosos…os loucos…os refugiados de guerra…os mendigos…os condenados…a direção de muitas comunidades…(p.91).

Humildade

“Quanto mais humilde for alguém, tanto mais caridoso será para com o próximo.”(p.95).

“Se nos livrarmos do amor próprio um quarto de hora antes de morrer, podemos dar graças a Deus.”(p.95).

Enfermidades

As graves e contínuas enfermidades que sofreu quase toda a vida bem podiam dispensar as terríveis penitências voluntárias que tanto infligiu ao seu pobre corpo. Mas longe disso considerava suas moléstias como favores especiais e por tais estimava…”Peço-vos a graça de conhecer o precioso tesouro, que está encoberto nas enfermidades. Estas purificam a alma, e servem de meio eficaz para adquirir as virtudes àqueles que não as têm, e abrem ao enfermo bem largo caminho para praticar a Fé, a Esperança, a conformidade com a divina vontade, e todas as mais virtudes. Devemos pois nos persuadir que elas não são males para fugir-se senão meios proporcionados para santificar nossas almas; e que querer lançá-los fora, quando Deus no-los manda não é outra coisa senão apartarmo-nos do nosso bem.(p.104-105).

Morte

Foi na segunda-feira, 27 de setembro, às quatro e meia da manhã que Deus o atraiu a si no momento e que seus filhos espirituais, reunidos na igreja, começavam a oração…Morreu aos 84 anos de idade e 60 de sacerdócio. (p.108-109).

Depois de, a 14 de julho de 1729, ter Bento XIII pronunciado o Decreto da beatificação, já a 16 de junho de 1737, Clemente XII expedia a bula de canonização de Vicente de Paulo…O corpo de S.Vicente, revestido dos paramentos sacerdotais, repousa num grande relicário de prata e cristal, acima do altar-mor da Casa Mãe dos Padres da Congregação da Missão, em Paris, rua de Seires, 95. (p.111).

Frases

Devemos amar o próximo porque é imagem de Deus e o objeto do seu amor. Um coração animado do verdadeiro amor espalha, em redor de si, o seu incenso: respira e prega amor.(p.119).

A prova do amor, diz S. Bernardo, é a ação, são as obras. Dizer que amamos aos pobres sem lhes fazer o bem que está ao nosso alcance, é uma ilusão.

O exercício da humildade consiste em desprezar-se a si mesmo. Quem conhece bem a si mesmo não acha nada mais natural do que desprezar-se. Quem se despreza sinceramente leva a bem que os outros conheçam seus defeitos e o desprezem também. Quem é criminoso e recorre à humildade torna-se justo.

Doçura e humildade são duas irmãs que andam sempre juntas. Aprendamos esta virtude com Jesus Cristo que dizia: Sou manso e humilde de coração. A doçura atrai e ganha os corações, conforme a palavra de Jesus, dizendo que os mansos de coração possuirão a terra; mas com severidade e frieza só se inspira medo e afastamento. “Umas três vezes, em toda a minha vida repreendi com aspereza, mas sempre me arrependi, porque me saí mal; ao passo que, pela doçura, sempre alcancei tudo quanto desejava.

Fonte: Padre Guilherme Vaessen. São Vicente de Paulo. Vida Breviada. 2. ed. 1958. Editora Mensageiro. Salvador. Bahia.

Conferências de São Vicente de Paulo às Filhas de Caridade

“O Vosso primeiro pensamento deve ser para Deus; dai-Lhe graças por vos ter conservado durante a noite, examinai atentamente se O não ofendestes, dai-Lhe graças ou pedi-Lhe perdão, oferecei-Lhe todos os vossos pensamentos, os movimentos do vosso coração as vossas palavras e obras, proponde-vos nada fazer que lhe desagrade; e tudo quanto fizerdes durante o dia receberá a sua força desta primeira oferta feita a Deus; porque reparai minhas Filhas, não oferecendo tudo a Deus perderei as recompensas das vossas ações.”(p.2).

Santíssimo Sacramento

“Um outro meio de nos pormos na presença de Deus, é o imaginar-nos diante do Santíssimo Sacramento do altar. E aí, minhas queridas Filhas, que nós recebemos os mais caros testemunhos do Seu amor. Amemo-Lo muito e, lembremo-nos que Ele disse, estando no mundo: <Se alguém Me ama, viremos a ele>(S.João 14, 23), falando do Seu Pai e do Espírito Santo; e as almas serão assim conduzidas pela sua Santa Providência como um navio pelo seu piloto.(p.3).

Santa Missa

“Ide à Santa Missa todos os dias, mas ide com grande devoção, e conservai-vos na igreja com grande modéstia, e sêde exemplo de virtude para todos que vos virem…Não é só o sacerdote quem oferece o sacrifício, mas também os que a ela assistem; e estou certo de que, quando estiverdes bem instruídas, tereis nela grande devoção; pois é o centro da devoção.” (p.3)

Santa Missa e pobres

“Minhas Filhas, sabei que, quando deixardes a oração e a Santa Missa pelo pobres, nada perdereis, pois, servir aos pobres, é ir para Deus; e deveis ver a Deus nas suas pessoas. Sede portanto muito cuidadosas em tudo o que lhes for necessário, e velai particurlamente pelo auxílio que lhes podeis dar para a sua salvação: que eles não morram sem sacramentos…Sobretudo exortai-os a fazer a confissão geral, suportai as pequenas impertinências, animai-os a sofrer tudo por amor de Deus, não vos encolerizeis nunca contra eles, nem lhes figais palavras rudes; já é bastante terem de suportar a sua doença. Pensai que sois o seu anjo da guarda visível, o seu paio e a sua mãe, e não os contrarieis senão no que lhes for nocivo, porque então seria uma crueldade conceder-lhes o que pedissem. Chorai com eles; Deus vos constituiu para serdes a sua consolação.(p.4).
Modéstia

 

“Deveis ser muito modestas e recatadas, e mortificar a vista. Um olhar perdeu David que era tão bom homem. É quase impossível que uma pessoa imodesta no exterior seja modesta no interior. E se me perguntardes quanto tempo devereis conservar-vos numa mesma resolução, responder-vos-ei: enquanto vos sentirdes inclinadas ao vício que quereis combater.”(p.4)

Tempo

“O tempo que vos sobrar do serviço dos doentes, deveis empregá-lo bem; não estejais nunca sem fazer nada; aplicai-vos em aprender a ler, não para vossa utilidade particular, mas para estar em condições de serdes enviadas para lugares onde possais ensinar.(p.4)

Silêncio

Guardareis o silêncio desde o exame da noite até o dia seguinte depois da oração, para que esse recolhimento que transparece no exterior favoreça o entretenimento dos vossos corações com Deus; guardai-o principalemnte depois da adoração feita a Deus, antes de vos deitardes e depois de terdes recebido a sua santa benção.(p.5).

Renunciar a si mesmo

Ora, para ser verdadeira Filha de Caridade, deve-se ter deixado tudo: pai, mãe, bens, pretensão ao lar; é isto que o Filho de Deus ensina no Evangelho; deve também ter-se deixado a si mesmo; porque se se deixar tudo e se conservar a vontade própria, se se não deixa a si mesmo, nada se fez. (p.9).

Mortificação dos sentidos

Um outro meio de vos aperfeiçoardes é a mortificação dos sentidos. Oh! Que grande segredo nos ensina S.Paulo numa das suas Epístolas, quando, falando ao povo que tinha instruido, lhe diz: <Meus queridos Irmãos, tenho de vos falar de coisas muito baixas e humilhantes, mas é necessário mortificar os vossos memros, para que, como serviram à iniquidade, sirvam agora à justiça>(Rm. 6, 19). O mesmo vos direi, minhas queridas Irmãs: mortificai os sentidos e depressa achareis em vós transformação e grande facilidade para o bem. Temos cinco sentidos exteriores e três interiores. Os exteriores são a vista, o olfacto, o ouvido, o gosto e o tacto…Por isso começareis pela vista; acostumai-vos a manter a vista moderadamente baixa, pois como sois para o serviço das pessoas seculares, é necessário que o excesso de vossa modéstia os não espante.Isto poderia impedir de fazerdes o bem que uma alegria moderada poderia conseguir. Mas abstende-vos unicamente desses olhares demorados para fitar de frente um homem ou uma mulher e de certos olhares afectados que são perigosíssimos e cuja ferida se não sente imediatamente. Podereis ainda mortificar este sentido na rua, na igreja e em muitas ocasiões de curiosidade, afastando, por amor de Deus, o vosso olhar desses objetos. O nosso olfato deve também ser mortificado, suportando de boa vontade os maus cheiors, quando se apresentarem, não vos mostrando esquisitas, particurlarmente com os vossos pobres doentes, e também abstendo-se dos bons, quando acontecer senti-los, mas sem que se dê por isso. Podemos mortificar também o gosto, ainda que ñão seja senão em tomar o bocado de pão que menos nos agrada, ir para a mesa sem mostrar apetite que às vezes possamos ter, abster-nos de comer fora das refeições, deixar o que é mais agradável ao nosso gosto, ou uma parte do que nos é permitido comer. O sentido do ouvido é ainda uma perigosa janela pela qual o que nos dizem entra algumas vezes tão fortemente no coração que, se seguem mil e mil desordens…Muitas vezes a caridade corre grande perigo por culpa dos sentidos. Não escuteis de boa mente, mas afastai-vos cortêsmente das maledicências, das más palavras e de tudo quanto possa ferir o vosso coração e até os vossos sentidos sem necessidade.O tacto é o quinto sentido. Mortificá-lo-emos abstendo-nos de tocar o próximo, e não permitindo aos outros tocarem, por deleitação sensual, não só as mãos, mas qualquer outra parte do corpo. (p.16).

Sono

Minhas queridas Filhas, respondeu o Senhor Padre Vicente se era permitido a uma Irmã descansar de manhã, quando uma ligeira dor a acordasse de noite, bem como qualquer outra inquietação, ou quando, por sua culpa, se não tivesse à hora, ou ainda, por andar um pouco doente, não adormessece habitualmente senão de manhã. Minhas queridas Filhas, respondeu Padre Vicente, não é razoável que se levantem tarde aquelas que, por sua culpa, não tenham descansado de noite; isso seria uma desordem constante; seria sair da ordem que Deus quer que estejamos; devem sujeitar-se às horas fixadas pela regra. E depois seria de temer que a natureza se habituasse a esse sono matinal; isso dar-se-ia infalivelmente…levanto-me sempre às quatro horas, que é a hora da Comunidade, poruqe tenho a experiência de que facilmente me habituaria a levantar-me mais tarde. Eis a razão, minhas queridas Irmãs, poruqe deveis fazer um pouco de violência e depois encontrareis nisso uma grande facilidade, porque os nossos corpos são como jumentos: uma vez acostumados a um caminho, seguem sempre por ele. E para tornardes este hábito fácil, sede regulares no vosso deitar. (p.18-19).

Oração no início do dia

“Fazei sempre o que puderdes, minhas queridasd Irmãs, para que, sendo a oração a primeira das vossas ocupações, o vosso espírito esteja cheio de Deus o resto do dia…o demõnio faz tudo quanto pode para nos impedir de fazer oração, porque bem sabe que, se for o primeiro a encher-nos o espírito de vãos pensamentos, será o senhor dele todo o dia…por isso, minhas Filhas, que eu vos exorto… a que façais a vossa oração antes de sair.(p.22).

Discrição é não ser curioso

Irmã Margarida Lauraine, que então servia os pobres de S. Lourenço, contou que, passando pela praça onde se faziam tolices e divertimentos, durante a feira, sentiu o desejo de se voltar para ver, mas, em vez de ceder a esse desejo, pegou na cruz do seu terço e disse:<Ó meu Deus, vale mais olhar para vós que para as loucuras do mundo>…É o prório Deus que o diz: “A oração curta e fervorosa penetra os céus(Ecl. 34, 21)”(p.24).

Não murmurar

Ninguém desagrada tanto a Deus como um murmurador. Que faz um assassino? Mata o corpo duma pessoa cuja alma será bem-aventurada no céu. Mas, eu vos pergunto, que faz o murmurador?Muito pior. Não mata o corpo, mas mata talvez com uma só palavra grande número de almas.Sim, minhas Irmãs, uma Irmã que dissesse a outra o descontentamento que recebeu talvez do Superior ou da Superiora, que se lamentasse por estar num lugar onde não tem satisfação, que sentisse a tentação de se retirar e o dissesse, queixando-se daqueles que fossem a causa do seu desânimo; sim, minhas Filhas, digo-vos que essa pessoa seria  pior que um assassino. As pobres Irmãs que a escutam sentir-se-ão desedificadas com todas essas murmurações, começarão a murmurar aind amais, desgostar-se-ão com o seu estado, e deixarão enfiam a sua vocação, por meio da qual Deus as queria salvar e santificar. Esta pobre Irmã que primeiro murmurou não será a causa da perda de todas as outras?E que poderá fazer para restituir a essas almas a vida que lhes roubou? Não compreendeis vós que esta Irmã, se houvesse alguma aqui – o que Deus não permita!-seria pior que um assassino, pois a vida do corpo nada é comparada com a da alma. (p.26)

 Efeitos do pecado

Disse-vos que o pecado tem dois efeitos: o afastamento de Deus e a entrega à criatura. Pelas nossas confissões ordinárias apagamos o primeiro, que nos faz merecer o inferno. Pelas penas, doenças e aflições é rparada a conversão às criaturas.(p.31).

Nunca murmurar

Um dia Noé, que tinha o espírito enfraquecido, por ter bebido um pouco de vinho a mais, deitou-se todo descoberto. Alguns dos seus filhos fizeram trça dele; mas um deles, sabendo o respeito que devia a seu pai, voltou-se de costas para o não ver, e cobriu-o com o manto. Sabeis o que aconteceu? Os que tinham murmurado foram amaldiçoados por Deus com toda a sua descendência e o filho respeitoso foi abençoado com toda a sua posteridade. Quando o mundo vos perguntar o que ganhais e pretender que perdeis o vosso tempo, oh! minhas queridas Irmãs, deveis fortalecer o vosso espírito contra todos os ditos e responder que vos considerais muito felizes por Deus se ter querido servir de vós nesta condição. Não tenhai receio; se vos virem assim resolutas, não vos dirão mais nada. E àqueles que vos chamam criadas e vos censuram de ganhar a vida com comodidade, respondei-lhes: “Muito desejaríamos servir a Deus e aos pobres à nossa custa; e se o pudesse, fá-lo-ia de muito bom grado; para testemunhar o amor e a honra que devemos aos pobres, com todo o prazer me tornaria pobre para o servir. (p.36-37)

Santa Providência

“A vossa firmeza é a Santa Providência.”(p.37).

Motivos para servir aos pobres

O primeiro motivo, disse uma Irmãs, é que os pobres têm a honra de representar os membros de Jesus Cristo, que considera como feitos a Si próprio todos os serviços que a eles se prestam.

O segundo é que a alma dos pobres tem em si a imagem de Deus, por consequeência, devemos honrar a Santíssima Trindade.

O terceiro é a recomendação que a este respeito nos fez o Filho de Deus por palavras e exemplos. para mostrar aos discípulos de S.João que Ele era o Messias, disse-lhes que os pobres eram evangelizados e os doentes curados.

O quarto é que, ajudar uma alma a salvar-se, é cooperar na completa realização dos desígnios de Deus na morte de Jesus Cristo.(p.39-40)

Doença suportada com paciência paga as penas do purgatório

Como vesdes, meu Irmão, esssa doença que Deus vos enviou, ajudar-vos-à talvez a evitar as penas do inferno, que hão de durar por toda a eternidade. Estai certo que essa doença diminuirá muito as que teríeis que sofrer no purgatório pelos vossos pecados, mas com uma condição: é fazer bom uso dela e suportá-la por amor de Deus. Se o doente testemunhar algum descontentamento, fazer-lhe ver que quando estamos doentes é com a permissão de Deus, e que, nestas condições, devemos perguntar-nos o que é que desejaríamos, à hora da morte, ter feito durante a vida, e procurar reparar todos os nosso pecados  por meio desta doença pela conformidade com a vontade de Deus, pela paciência em suportar a pobreza e as dores que sentimos e pela união dos nossos sofrimentos aos de Jesus na cruz. (p.42).

Santa Obediência

O Senhor Padre Vicente disse…Deveis obediência aos desígnios da Divina Providência, aceitando e recebendo da mão de Deus tudo o que vos for ordenado.Mas, minhas Filhas, vejamos que razões temos para obedecer. A primeira é que a obediência é tão agradável a Deus, que nos fez conhecer através do Santos Padres da Igreja, que tem mais valor que o sacrifício. Ora, minhas queridas Irmãs, não ignorais a grandeza do sacrifício, pois desde sempre, Deus mandou-o oferecer, para aplacar a sua divina justiça, justamente irritada contra os homens por causa de seus pecados…Uma outra razão, é que o Filho de Deus quis sujeitar-se a ela e praticou-a perfeitamente durante trinta anos, assim como a Santíssima Virgem, durante toda a vida, e S. Jose´…Um outro motivo ainda, para amar a obediência, é que, de ordinário, iludimo-nos a nós mesmos, e deixamo-los cegar pelas nossas paixões, de forma que, para praticar o bem, temos necessidade de uma direção…Mas como é que se deve obedecer, minhas Filhas? Pronta e aleremente, com discernimento e, o que é principal, para agradar a Deus. Quando obedecerdes pensai: “Agrado a Deus, ou, o que quer dizer o mesmo: “dou prazer a Deus”…A obediência deve ser pronta, porque, minhas Filhas, ir devagar ou não ir logo, diminui muito o mérito desta virtude, desidifica as vossas companheiras e desgosta os Superiores…Sede, portanto, muito prontas em obedecer, minhas queridas Irmãs. A ida da Santíssima Virge a Belém e a Sua fuga para o Egito, devem servir-vos de exemplo. A vossa obediência deve ser voluntária e não forçada nem pelo receio de desagradar ou de serdes repreendidas…Muitas vezes, minhas Filhas, o nosso juízo é cego, e o conhecimento do que é melhor está oculto, como as vezes acontece com os raios do sol, quando alguma nuvem se lhes opõe; não é que o raio não exista, mas desaparece por um tempo. Assim acontece que o conhecimento do melhor nos é velado pela preocupação de alguma paixão; o que bem nos faz ver que a maior segurança está em seguir a obediência…Acautelai-vos, minhas Irmãs, de que, quando uma Irmã vos manda fazer alguma coisa, as vossas repugnâncias vos não levem a dizer: “Fazei-a vós!” É uma expressão do demônio, de desordem e de desunião!..Esta frase jamais deve sair da boca duma Filha da Caridade…Por isso, minhas queridas Irmãs, deveis ser extremamente pontuais, fazer atenção a todos os avisos e ir na mesma ocasião ao lugar aonde vos chamar o sino para os exercícios; pois faltar a um exercício é faltar a tudo; como transgredir um mandamento é transgredir a todos. E fazei atenção; se hoje fordes negligentes na prática dum ponto das vossas regras, no dia seguinte faltareis a dois, depois a três, e por fim, retirará a sua graça…ide aonde a obediência lhes chamar. (p.45-48).

Outra grande falta é que, quando tendes alguma dificuldade, em vez de a declarar a nós ou à Irmã da casa, ides lamentar-vos à companheira que talvez esteja tão descontente como vós ou incapaz de vos aliviar.(p.49).

As virtudes de Margarida de Nassau

Era tão despreendida, que, em pouco tempo, mudou de boa vontade de três paróquias diferentes, de que saía com grande pena de todos. Nas paróquias mostrou-se tão caridosa como nos campos, dando tudo quanto tinha, quando se apresentava a ocasião; não sabia recusar nada, e desejaria receber todos em sua casa. Deve notar-se que entãoa ainda não estava formada a Comunidade, nem havia nenhuma regra que mandasse proceder de outro modo. Era muito paciente e nunca murmurava. Todos gostavam dela, tudo era amável nela. A sua caridade foi tão grande que morreu por ter deitado na sua própria cama uma pobre menina doente de peste. (p.51).

Não se julgar melhor que os outros

conhecereis se sois verdadeiras Filhas da Caridade, se fordes muito humildes, se não tiverdes ambição nem presunção, se não vos julgardes mais do que sois, nem mais do que os outros, quer quanto ao físico, quer quanto à inteligência, família ou bens, ou ainda quanto à virtude, que seria a mais perigosa ambição.Fazei uso dos bens de Deus na simplicidade. Se vos lembrardes de ter feito alguma coisa boa, atribuí a glória de Deus.(p.53).

Contentamento

As meninas da aldeia são muito sóbrias na sua alimentação minhas queridas Irmãs. A maior parte contenta-se muitas vezes com pão e sopa, apesar de trabalharem incessantemente e em trabalhos pesados…É assim que tendes de proceder se quiserdes ser verdadeiras Filhas da Caridade: não reparar no que se dá, e ainda menos se está bem feito, mas somente comer para viver.(p.54).

A obediência tira-me daqui; devo sair pronta e alegremente.(p.58).

è assim que devem ser as verdadeiras Filhas da Caridade. Regressam ao meio dia do serviço dos doentes para tomarem a sua refeição; se o médico ou a outra Irmã lhes dissessem: é preciso ir levar este remédio a um doente; não devem pensar em como estão, mas esquecerem-se a si para obedecerem, e preferirem a comodidade dos doentes à sua. (p.59).

Unidade

parece-me que a união produz a paz e a tranquilidade, e que a desunião produz a guerra e a inquietação…a união conserva as pesosas na sua vocação e a desunião a faz perder muitas vezes…A união é a imagem da Santíssima Trindade, que se compõe de três pessoas unids por amor…parece-me Senhor, que a união deve alegrar a Deus, pois onde está a paz, aí está Deus; e que, ao contrário, a desunião desgosta a Deus e alegra o demônio que só procura a discórdia e a desunião, para nos perder. 

O contrário

“Reparai, minhas Irmãs…a desunião faz que, se uma quer uma coisa, a outra quererá o contrário;(p.65).

Desunião

Um outra Irmã disse: “- Senhor, a desunião é uma coisa má, porque expulsa Deus da nossa alma, e nem mesmo deveríamos ir a Sagrada Comunhão estando em discórdia.”(p.65).

Unidade

“deveis viver sempre em tão perfeita união que não sejais nunca capazes, com a graça de Deus de vos zangares umas com as outras.(p.68).

Perdão

Um dia falava com uma Superiora das Ursulinas de Gisors…e perguntei-lhe com admiração:”Ó minha Madre, que fazeis para manter uma tal tranquildade sem que jamais haja desarmonia? Respondeu-me: Senhor, assim que aparece algum motivo de discórdia, as nossas Irmãs têm o costume de se porem de joelhos e pedirem perdão umas às outras, de forma que a desunião não pode cá entrar.”(p.69)

Temperança

Uma Irmã disse: Mas, Senhor, algumas vezes acontece que, se se quer pedir perdão a uma Irmã, escarnece disso, ou se irrita ainda mais; que se deve fazer então? Minhas Irmãs, se virdes que a Irmã, ou porque está muito zangada, ou porque não está de bom humor, ou ainda porque tem no espírito algum motivo de aborrecimento, não está capaz de receber bem a vossa humilhação, oh! não se deve pedir então perdão; pois seria lançar-lhe carvões; pô-la-íeis na contigência de se irritar mais. Esperai que se tranquilize um pouco e depois pedi-lhe perdão, com a maior humildade, reconhecendo-vos diante de Deus causa do mal que fez. (p.69)

Honrar os médicos

Deveis proceder do mesmo modo para com os médicos. Ó minhas Filhas, não deveis criticar suas receitas, nem fazer os vossos remédios com outra composição, por exatamente o que vos disserem  tanto quanto à dose…disto depende a vida das pessoas….Honrai os médicos pela necessidade(Ecl. 38, 1)…É por isso que deveis ter por ele um grande respeito.(p.77)

Silêncio

Não deveis falar muito…sejais modestas..pois se vissem na rua uma Filha de Caridade imodesta, olhando para a esquerda e para a direita, imediatamente diriam: “Esta Irmã de Caridade desistirá”…(p.78).

Compreensão

Deveis viver reciprocamente em grande união e não vos queixardes nunca uma das outras. Para se conseguir isso, minhas Filhas, deveis suportar-vos muito, porque não há ninguém que não tenha defeitos. Se não suportarmos a nossa Irmã, porque havemos de pensar que tem aobrigação de nos suportar?…Não devemos nós proceder do mesmo modo conosco, que não queremos sempre a mesma coisa; pois hoje queremos uma coisa e amanhã outra? E, senão nos suportarmos nestas mudanças, jamais teremos em nós paz e tranquilidade. Não vos queixeis umas das outras…e não vos demoreis voluntariamente nos pensamentos de aversão que às vezes possais ter. (p.79).

Humildade sabe ceder

Não faleis nunca uma contra a outra, mas abandonai antes a vossa vontade, para fazerdes a de vossa Irmã; bem entendido, nas coisas que não constituam pecado nem transgridam a vossa regra…E deveis ainda, minhas Filhas, não ter apego algum, nem aos lugares, nem às pessoas, nem aos ofícios, e estardes sempre prontos a deixar tudo quando a obediência vos retirar de qualquer lugar, convencidas de que Deus assim o quer.(p.80).

Pedir a Deus as virtudes

Um primeiro meio para bem tratar essas criancinhas é pensar que não somos capazes disso, manifestar muitas vezes a Deus a nossa incapacidade e pedir-Lhe a graça de nos ensinar a tratá-las com muita utilidade para a Sua glória e salvação delas…não mostrar mais afeição a uns do que a outros, pois as preferências causam ciúmes e inveja;(p.84). 

Saudar o próximo

Ó minhas Filhas, saudai-vos à vontade. O mundo já não vê em vós somente as meninas da aldeia…afirmo-vos que, entre as pessoas que têm vindo fazer o retiro, algumas se converteram menos pelas meditações do que pelo exemplo deste respeito cordial…Minha Irmã dizeis os vossos pensamentos. – Senhor, uma das razões de nos respeitarmos cordialmente, é que todas somos criadas à imagem de Deus, e que, produzindo esta cordialidade uma grande união, Nosso Senhor derramará as Suas graças com mais abundância sobre a companhia…Minhas Filhas, é a característica das filhas do demônio ter sempre o espírito de contradição, de desunião, de inimizade, deixar-se guiar sempre pelas máximas próprias, e não ser nunca da opinião das outras.(p.98;100).

São Vicente de Paulo[1] nos ensina a importância da cordialidade:

 “Dizia-vos eu há pouco, que estar na Vossa Companhia, com união e cordialidade, era estar no paraíso…para a obter e para a conservar depois de a terdes obtido humilhai-voa muito, tende uma baixa opinião de vós mesmas e desejai ser consideradas sempre como as mais pequeninas…(p.102)

 São em grande número as faltas que cometem as que se deixam levar por essas demasiadas delicadezas consigo mesmas; desprezam as pessoas que lhes agradam e murmuram contra elas; são apegadas aos que lhe são simpáticos; não se submetem às determinações da divina Providência e não aceitam o que lhes acontece como sendo da vontade de Deus….(p.110)

 Procurai desculpar-vos umas às outras.(p.153).

 Nada há melhor que possa transformar os corações mais irritados do que a mansidão; se queremos conseguir alguma coisa de alguém, pedimos-lha com respeito e mansidão, e desta forma estamos quase certos de a obter.(p.175)

 O respeito consiste em fazer de bom grado o que as nossas Irmãs nos ordenam, sem replicar, pois não poderíamos honrar melhor uma pessoa, do que fazendo o que ela pede de nós, não replicando, mas de boa vontade, com amor e cordialidade. A mansidão consiste em fazer às nossas Irmãs o que desejaríamos que nos fizessem e em suportar-lhes o que queríamos que suportassem em nós…Em sermos muito leais, ajudando e auxiliando as nossas Irmãs no que julgaremos poder aliviá-las, saudando-as e respeitando-as com um rosto alegre, que não esteja triste nem carrancudo…nunca se repreendendo com azedume umas as outras, mas sim em espírito de caridade.(p.177)

 Na vida dos santos observa-se que …quando notavam alguma falta em alguém, não os avisavam senão com grande modéstia e cordialidade, e se os seus avisos não eram bem recebidos, permaneciam neste espírito de mansidão e humilhavam-se diante de Deus, pensando que tinham sido eles talvez a causa de que se não aproveitasse da sua instrução.(p.178).

 Na conferência de São Vicente de Paulo[2] às filhas de caridade(15 de janeiro de 1645) as irmãs elogiaram as virtudes da irmã Joana Dalmagne, colocando-a como belo exemplo. Vejamos as qualidades que as irmãs notaram nela:

  “tinha uma grande modéstia…era muito mansa nas suas conversas, muito sóbria na alimentação e não tinha apego algum aos bens terrenos…ela compadecia-se muito dos pobres. Quando os não podia ajudar fisicamente, consolava-os, chorava com eles, animava-os a suportar a sua pobreza e as suas doenças e ensinava-os a fazer bom uso de tudo isso.Mesmo durante a sua doença falava-lhes com tanto fervor que nem parecia que estava doente…era muito prudente no seu falar…quando alguém lhe fazia alguma reflexão sobre a sua inferioridade, não se zangava por isso, mostrava-lhe boa cara, interpretava tudo bem e procurava todas as ocasiões para se humilhar…quando julgava ter-me praticado algum descontentamento, prostrava-se aos meus pés…Não receava o mau cheiro que os doentes exalavam…desejava revelar seus defeitos a toda gente…a sua caridade fazia-a considerar culpada das faltas do próximo, desculpava-o e atribuía-as a si e acusava-se delas.


Fonte:S.Vicente de Paulo. COnferências às Filhas da Caridade. Lisboa. 1960. Imprimatur – Manuel, Arcebispo de Mitilene.

  • Em: São Matias
  • Comentários desativados em São Matias

O Pentecostes foi o momento de efusão do Espírito Santo sobre Maria Santíssima e os apóstolos quando estavam reunidos no cenáculo em oração. Antes de o Espírito Santo descer acontece a escolha do discípulo que substituiria o lugar de Judas, o traidor. Matias é o escolhido. Deus é tão bom que quis que o novo discípulo recém chegado participasse da graça de receber o Espírito Santo em Pentecostes. É a própria parábola do pai de família que se concretiza. Todos os onze discípulos acompanharam Jesus em toda sua vida publica de evangelização. Estiveram fiéis, durante anos, com Jesus. A bondade de Deus é tão grande que lhes reservou a graça de receber o Espírito Santo. Jesus prometeu aos discípulos, após a Ressurreição: “porque João batizou na água, mas vós sereis batizados no Espírito Santo daqui há poucos dias.”(Atos 1, 5). Aos onze discípulos e a Maria Santíssima era esperado que fosse enviado o Espírito Santo, o paráclito, conforme o desígnio de Deus. No entanto, a infinita bondade de Deus sempre nos encanta com sua excelência no amor. Deus tem um desígnio especial para o Matias. Sim, ele que não era um dos doze, e, foi escolhido para o lugar de Judas, teve a graça de iniciar seu discipulado com a vinda do Espírito Santo sobre ele e os discípulos. Quão profundos são os desígnios de Deus e a quão abundante é sua bondade e misericórdia. Deus só esperou o momento de escolher Matias para logo em seguida enviar o seu Espírito Santo sobre Maria Santíssima e os discípulos. Esta misericórdia de Deus nos leva a refletir a parábola do pai de família. Em Mateus 20, 1-16, encontramos um belíssimo ensinamento sobre a Bondade de Deus:

 Com efeito, o Reino dos céus é semelhante a um pai de família que saiu ao romper da manhã, a fim de contratar operários para sua vinha. Ajustou com eles um denário por dia e enviou-os para sua vinha. Cerca da terceira hora, saiu ainda e viu alguns que estavam na praça sem fazer nada. Disse-lhes ele: – Ide também vós para minha vinha e vos darei o justo salário. Eles foram. À sexta hora saiu de novo e igualmente pela nona hora, e fez o mesmo. Finalmente, pela undécima hora, encontrou ainda outros na praça e perguntou-lhes: – Por que estais todo o dia sem fazer nada? Eles responderam: – É porque ninguém nos contratou. Disse-lhes ele, então: – Ide vós também para minha vinha. Ao cair da tarde, o senhor da vinha disse a seu feitor: – Chama os operários e paga-lhes, começando pelos últimos até os primeiros. Vieram aqueles da undécima hora e receberam cada qual um denário. Chegando por sua vez os primeiros, julgavam que haviam de receber mais. Mas só receberam cada qual um denário. Ao receberem, murmuravam contra o pai de família, dizendo: – Os últimos só trabalharam uma hora… e deste-lhes tanto como a nós, que suportamos o peso do dia e do calor. O senhor, porém, observou a um deles: – Meu amigo, não te faço injustiça. Não contrataste comigo um denário? Toma o que é teu e vai-te. Eu quero dar a este último tanto quanto a ti. Ou não me é permitido fazer dos meus bens o que me apraz? Porventura vês com maus olhos que eu seja bom? Assim, pois, os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos. [ Muitos serão os chamados, mas poucos os escolhidos.](Mateus 20, 1-16).

 Deus é bom. a Sua Bondade e Misericórdia é infinita. O operário que trabalhou por último foi o primeiro a ser pago pelo trabalho que executara. Teve ainda o benefício de receber o mesmo que os outros receberam mesmo tendo trabalhado só uma hora. Deus revela neste ensinamento que: “os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos.” A escolha de Matias se encaixa perfeitamente nesta parábola. Foi o último discípulo a ser escolhido para substituir o lugar vago de Judas. Não tinha feito nenhum trabalho. Não tinha enfrentado mares tempestuosos, nem as perseguições dos fariseus. Matias conheceu em infinita abundância o beneplácito de Deus na sua escolha. Em toda atividade primeiro se realiza o trabalho e depois recebemos o pagamento merecido. Matias, sem merecer, nem ter iniciado a evangelização, recebeu como pagamento a amizade e companhia de Maria e os discípulos. Este pagamento já era suficiente para ser eternamente agradecido. A companhia de Maria já seria suficiente para eternamente louvar e bendizer a Deus. Mas Deus, em sua insondável misericórdia concedeu a Matias ainda a graça infinita de receber o Espírito Santo em Pentecostes. Matias é a obra prima da misericórdia e bondade de Deus. “Assim, pois, os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos.”(Mateus 20, 16). Em Atos 1, 13-26, podemos refletir esta misericordiosa escolha de Matias:

 “Tendo entrado no cenáculo, subiram ao quarto de cima, onde costumavam permanecer. Eram eles: Pedro e João, Tiago, André, Filipe, Tomé, Bartolomeu, Mateus, Tiago, filho de Alfeu, Simão, o Zelador, e Judas, irmão de Tiago. Todos eles perseveravam unanimemente na oração, juntamente com as mulheres, entre elas Maria, mãe de Jesus, e os irmãos dele. Num daqueles dias, levantou-se Pedro no meio de seus irmãos, na assembléia reunida que constava de umas cento e vinte pessoas, e disse: Irmãos, convinha que se cumprisse o que o Espírito Santo predisse na escritura pela boca de Davi, acerca de Judas, que foi o guia daqueles que prenderam Jesus. Este homem adquirira um campo com o salário de seu crime. Depois, tombando para a frente, arrebentou-se pelo meio, e todas as suas entranhas se derramaram. (Tornou-se este fato conhecido dos habitantes de Jerusalém, de modo que aquele campo foi chamado na língua deles Hacéldama, isto é, Campo de Sangue.) Pois está escrito no livro dos Salmos: Fique deserta a sua habitação, e não haja quem nela habite; e ainda mais: Que outro receba o seu cargo (Sl 68,26; 108,8). Convém que destes homens que têm estado em nossa companhia todo o tempo em que o Senhor Jesus viveu entre nós, a começar do batismo de João até o dia em que do nosso meio foi arrebatado, um deles se torne conosco testemunha de sua Ressurreição. Propuseram dois: José, chamado Barsabás, que tinha por sobrenome Justo, e Matias. E oraram nestes termos: Ó Senhor, que conheces os corações de todos, mostra-nos qual destes dois escolheste para tomar neste ministério e apostolado o lugar de Judas que se transviou, para ir para o seu próprio lugar. Deitaram sorte e caiu a sorte em Matias, que foi incorporado aos onze apóstolos.”(Atos 1, 13-26).

 Quão bonito é notar que, logo após, a escolha de Matias, Maria Santíssima e os discípulos recebem o Espírito Santo de Deus. Acontece o Pentecostes.(Atos 2, 1-15). Assim, também nós, ao regressarmos à Igreja Católica, recebemos a graça abundante de participar do serviço eclesial, pela infinita bondade de Deus.

 O Papa Bento XVI,[1] na sua homilia em 14 de maio de 2010 nos ensina:

 O escolhido foi Matias, que tinha sido testemunha da vida pública de Jesus e do seu triunfo sobre a morte, permanecendo-Lhe fiel até ao fim, não obstante a debandada de muitos. A «desproporção» de forças em campo, que hoje nos espanta, já há dois mil anos admirava os que viam e ouviam a Cristo. Era Ele apenas, das margens do Lago da Galiléia às praças de Jerusalém, só ou quase só nos momentos decisivos: Ele em união com o Pai, Ele na força do Espírito. E todavia aconteceu que por fim, pelo mesmo amor que criou o mundo, a novidade do Reino surgiu como pequena semente que germina na terra, como centelha de luz que irrompe nas trevas, como aurora de um dia sem ocaso: É Cristo ressuscitado. E apareceu aos seus amigos, mostrando-lhes a necessidade da cruz para chegar à ressurreição.

Uma testemunha de tudo isto, procurava Pedro naquele dia. Apresentadas duas, o Céu designou «Matias, que foi agregado aos onze Apóstolos» (Act 1, 26)

 O papa Bento XVI[2] em sua homilia em 12 de outubro de 2006 nos ensina:

 Em conclusão, queremos recordar também aquele que depois da Páscoa foi eleito no lugar do traidor. Na Igreja de Jerusalém a comunidade propôs dois para serem sorteados: “José, de apelido Barsabas, chamado justo, e Matias” (Act 1, 23). Foi precisamente este o pré-escolhido, de modo que “foi associado aos onze Apóstolos” (Act 1, 26). Dele nada mais sabemos, a não ser que também tinha sido testemunha de toda a vicissitude terrena de Jesus (cf. Act 1, 21-22), permanecendo-lhe fiel até ao fim.



[1] http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/homilies/2010/documents/hf_ben-xvi_hom_20100514_porto_po.html

[2] http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/audiences/2006/documents/hf_ben-xvi_aud_20061018_po.html

1591 – Nascimento à 12 de agosto. Não sabemos onde, e nem que é a sua mãe.

1595 – Seu pai casa novamente. Sua madrasta tem já 3 filhos.

1604 – Morre seu pai. Luísa tem 13 anos.

Casamento com AntÔnio Legras à 5 de fevereiro. – 1613

“LUMIÀRE” (Luz.) – 1623

Morte de Antônio Legras. Encontro com São Vicente. – 1625

1629 – São Vicente envia Luísa a visitar as confrarias.

1633 – Reúne as primeiras Filhas da Caridade.

1642 – Faz votos com mais 4 irmãs.

Estruturação da Companhia. – 1647

Casamento de seu filho Miguel. – 1650

Começa a explicação das regras às primeiras irmãs. – 1655

1658 – Consagração oficial da Companhia à Nossa Senhora.

1660 – Morte de Santa Luísa.

Biografia de Santa Luísa Marillac

Luísa de Marillac nasceu no dia 12 de agosto de 1591, filha natural, de mãe desconhecida. E, por conseguinte, sofreu as conseqüências disso: falta de um lar carinhoso, desprezo dos parentes e, naturalmente muitos conflitos afetivos.

Era de constituição frágil, de baixa estatura, magra, bonita, nariz afilado, olhos expressivos, boca pequena. Dotada de grande capacidade intelectual e de vontade enérgica. Era muito sensível e inclinada ao escrúpulo, à timidez, à insegurança, minuciosa e perfeccionista, muito aberta às coisas de Deus e do próximo.

Sua infância e adolescência foram machucadas por acontecimentos dolorosos que marcaram profundamente, o seu ser.

Em tenra idade, seu pai, Luís de Marillac, colocou-a no Convento de Poissy, onde recebeu uma esmerada educação. Aí permaneceu enquanto ele viveu. Depois foi morar numa pensão familiar. Ali, ela adquiriu conhecimentos para a vida prática como cozinhar, costurar, bordar, senso de responsabilidade e organização enquanto que sua permanência no Convento de Poissy proporcionou-lhe uma grande bagagem de piedade, de ciência e de instrução, uma educação de elite.

Quis ser religiosa Capuchinha, entre as Filhas da Cruz, mas não foi aceita, porque sua saúde não suportaria os rigores da penitência que caracterizava a Ordem. Em particular, fez o voto de consagrar-se à Deus, em penitência e oração.

Em 1613, casa-se com Antônio Legras, matrimônio “combinado” como era costume na época. Desse casamento, nasceu-lhe um filho que recebeu o nome de Miguel, em homenagem a seu tio. Luísa foi fiel e dedicada ao esposo, sendo também mãe carinhosa, uma “super mãe”, prejudicando assim a educação do filho.

Em 1621-1622, Antônio Legras contraiu uma moléstia, que afetou até o seu comportamento. Luísa foi boníssima para com ele. Entretanto, grandes escrúpulos e dúvidas invadem a sua alma e ela chega a pensar ser vítima de castigos de Deus. Sente-se rejeitada por todos, mesmo do próprio Deus. Densas trevas a envolvem e só no dia 4 de junho de 1623, na Igreja de são Nicolau dos Campos, recebe a célebre “LUZ DE PENTECOSTES” Liberta-se então de suas penas e incertezas e começa a descobrir ainda que não muito claramente os planos divinos a seu respeito.

Em 1625 o marido veio a falecer, na paz, depois de muita revolta e intranquilidade.
Quando Luísa encontra o Padre Vicente, ela tem 34 anos, é uma viúva angustiada, inquieta na busca da vontade de Deus, com uma vida de oração toda estruturada em exercícios, em devoções, em jejuns e disciplinas. O Padre Vicente descobre as marcas que a dureza da vida deixou nesta mulher super-sensível e sofrida. Acolhe seu sofrimento e com paciência começa a trabalhar sobre esta inquietude de Luísa, desdramatizando as coisas e jogando-a no amor de Deus que liberta. Recomenda-lhe muito a meditação da Palavra de Deus

Descobre logo a rica personalidade de Luísa e solidez de sua fé. Então, ele orienta sua inteligência e seu coração para os pobres. Recorre com frequência à sua colaboração para preparar roupas para os pobres, para visitá-los, solicita pequenos serviços nas confrarias e ela vai recuperando pouco a pouco a confiança em si mesma.

Apreciando sua disponibilidade, seu juízo reto e seguro, seu sentido de organização e intuição feminina, o Padre Vicente faz dela sua principal colaboradora e confia-lhe a animação das Confrarias da Caridade.

Chegando nas aldeias, Luísa se informa das pessoas que pertencem à Confraria, reúne as senhoras da Caridade e dirige-lhes a palavra. Observa como funciona a Confraria, o estado financeiro das coisas, o papel decada um dos membros, informa-se sobre a vida espiritual, visita pessoalmente os pobres, interessa-se pela instrução das (dos) jovens. Terminada a visita, ela reúne as responsáveis, dá orientação segura e envia ao Padre Vicente um relatório minucioso, com sua própria apreciação.

No trabalho das Confrarias, o Padre Vicente intervém quando necessário, mas deixa toda a liberdade de ação a sua colaboradora e recorre muitas vezes ao seu espírito de organização.

Com o tempo, as necessidades aumentam, as consequências da guerra se fazem sentir e Vicente e Luísa se interrogam sobre o futuro do serviço dos pobres. Apresenta-se uma camponesa: Margarida Naseau e com ela outras camponesas que seguem o seu exemplo de dedicar a vida a serviço dos pobres

As jovens que se reúnem ao redor de Luísa de Marillac em 29 de novembro de 1633, são camponesas rudes, que não tem instrução nem mesmo elementar, a maioria não sabe ler. Luísa dá formação espiritual às jovens ensina a ler, a escrever, a costurar, como cuidar dos doentes, a fazer chás caseiros, como ensinar o catecismo. Juntas refletem e enfrentam as dificuldades que aparecem nos serviços, os mais variados.

A experiência sofrida de sua infância e a educação diversificada que recebera muito contribuiram para a organização da Companhia das Filhas da Caridade, tanto na parte humana como na espiritual. A maneira de viver, as virtudes, a vida fraterna e o serviço dos pobres são frutos de sua experiência humana e fidelidade à graça de Deus.

Luísa, com a ajuda do Padre Vicente, que soube ouví-la e compreendê-la, lutou contra os seus defeitos e chegou a ser a fervorosa imitadora de Jesus Crucificado, desapegada de si mesma, zelosa para com a Comunidade e o serviço dos pobres.
A morte de Luísa de Marillac deu-se em 15 de março de 1660. Suas últimas recomendações no leito de morte, ou seja o testamento espiritual que deixa para suas filhas é um legado de fidelidade a Deus, à Virgem Maria, à vida fraterna e aos pobres. Disse: “Tende muito cuidado com o serviço dos pobres, vivei juntas em grande cordialidade para imitar a união e a vida de Nosso Senhor e tende a Santíssima Virgem por vossa única Mãe.”

Seu testemunho de vida simples, humilde, cheia de amor, tem muito a nos ensinar. Ela foi a primeira voluntária da Caridade. Quando no momento atual, a Igreja pede a todos nós, uma opção preferencial pelos pobres, Luísa, essa mulher dinâmica e corajosa, já antecipou os tempos, fazendo uma opção não somente preferencial, mas radical pelos pobres. Em qualquer pessoa que sofresse, ela sabia contemplar Jesus Cristo crucificado e para resgatar a imagem e semelhança de Deus presentes nos marginalizados, ela dedicou o melhor de si, colocou em ação as suas potencialidades femininas agilizando os meios de que dispunha para transformar a realidade de pobreza de seu tempo. Ela nos ensina, sobretudo, a buscar sempre a realização do projeto de Deus sobre nós, com humildade, criatividade e abertura de coração.
Foi canonizada em 1934 e proclamada pelo Papa João XXIII, a Patrona das Obras Sociais.

Os traços principais do rosto de Luísa de Marillac e sua evolução espiritual.
     – Vivacidade.
     – Humildade.
     – Tenacidade
     – Cordialidade.

São Vicente descobriu a miséria material e espiritual de sua época e consagrou sua vida ao serviço e à evangelização dos pobres. Para isso fundou as Confrarias da Caridade ( Senhoras da Caridade, hoje, Voluntárias da Caridade) e os Padres da Missão. Nesta ocasião encontrou-se com Luiza de Marillac e associou-a a sua atividade com os pobres. As senhoras da Caridade, impedidas por seus maridos, deixaram de assistir pessoalmente os pobres, mandando suas criadas. Uma jovem camponesa, Margarida Naseau, apresentou-se ao Padre Vicente para dedicar-se aos mais humildes trabalhos que as senhoras das confrarias não assumiam junto aos pobres. Com grande amor evangélico, fez-se a serva dos mais abandonados. Seu exemplo foi comunicativo, pois logo outras jovens a seguiram. Vicente as confia à Luiza de Marillac para instruí-Ias.

A 29 de Novembro de 1633 as (4) quatro primeiras Irmãs se reúnem com Luiza para viver um mesmo ideal, em comunidade fraterna. Seis meses depois já são (12) doze. Foi uma novidade na época, pois até então só havia vida consagrada em clausura. E agora elas vivem no meio do povo, indo à casa dos pobres para atender os doentes. Depois, à medida das necessidades, ocuparam-se dos doentes nos hospitais, da instrução das jovens, das crianças abandonadas, dos galés, dos soldados feridos, dos refugiados, das pessoas idosas, dos dementes e outros…

Alguns anos mais tarde, convictos de que a Caridade de Cristo que deve impulsionar a Companhia não conhece fronteiras, os Fundadores enviaram à Polônia um primeiro grupo de Irmãs.

A 18 de janeiro de 1655, a Companhia foi aprovada pelo Cardeal de Retz, Arcebispo de Paris, e, a 8 de junho de 1668, recebeu a aprovação pontificia do Papa Clemente IX.

 

 DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II
ÀS IRMÃS DA CARIDADE
DE SÃO VICENTE DE PAULO

 

 

11 de Janeiro de 1980

 Minha Reverenda Madre
Minhas Irmãs

Imaginai comigo que São Vicente de Paulo e Santa Luísa de Marillac — os vossos dois fundadores, tão unidos na sua paixão evangélica de servir os pobres, Santos que voltaram para o Senhor com poucos meses de intervalo um do outro, há mais de três séculos — imaginai que se encontram presentes nesta reunião de família. Mas estão deveras connosco embora misteriosamente. Permiti-me que lhes dê a palavra, tornando-me eu intérprete apenas.

Enquanto vós continuais os trabalhos da Assembleia geral da Companhia, aqueles que venerais como vosso Pai e vossa Mãe querem, primeiro que tudo, confirmar-vos na consciência da actualidade da vocação que tendes. O calor da caridade é com certeza aquilo de que os homens mais precisam hoje, como sempre aliás. Certamente que as misérias sociais do século XVII e da época da Fronda estão já bem longe. Mas «tendes sempre pobres convosco». Quem nos dará estatísticas  exactas sobre a pobreza real em cada país e à escala do mundo inteiro? São muitas vezes publicados números relativos ao comércio, à agricultura, à indústria, aos bancos, aos armamentos, etc. Mas, na época dos «computers», sabemos porventura quais os números exactos dos analfabetos, das crianças abandonadas, dos subalimentados, dos cegos, dos doentes, dos lares desunidos, dos presos, dos marginalizados, das prostitutas, dos desempregados, das pessoas que vivem nos bairros de lata ou favelas do mundo inteiro? Caras Irmãs, não tenhais olhos nem coração senão para os pobres, como «monsieur Vincent» e «Mademoiselle Legras». E para vos estimulardes mais — se necessário fosse! — considerai que vos dizem:

Contemplai Nosso Senhor Jesus Cristo, ouvi-O repetir-vos qual o sentido da Sua missão: O Espírito do Senhor está sobre Mim… Ungiu-Me para anunciar a Boa Nova aos pobres, proclamar a libertação aos cativos, fazer recobrar aos cegos a vista, e mandar em liberdade os oprimidos… (Lc 4, 18) É verdade, o Evangelho apresenta-nos quase sempre Cristo entre os pobres. É o meio em que decorre a Sua vida.

Parece-me igualmente que estes dois grandes Santos da caridade vos impelem, com ternura e firmeza, a que defendais e desenvolvais a vossa entrega radical a Jesus Cristo, segundo as promessas que renovais cada ano a 25 de Março. A castidade, por causa de Cristo e do Evangelho, é dessa entrega o sinal mais profundo. E longe de ser alienação da pessoa, é admirável promoção das capacidades e necessidades de maternidade, inerentes a toda a mulher. Vós sois mães. Colaborais na protecção, na orientação, desenvolvimento, na cura e no encerramento em paz de tantas vidas humanas, tanto no plano físico como no moral e religioso. O vosso celibato consagrado vede-o sempre como caminho de vida até aos outros, e revelai este segredo às jovens que hesitam em enveredar pelo caminho que vós seguistes. Amai não somente os pobres, amai também serdes vós mesmas pobres, em espírito e em actos. São Vicente de Paulo e Santa Luísa de Marillac disseram mais com o serviço concreto dos pobres — dia e noite —, do que fariam com extensos tratados sobre a pobreza. Do mesmo modo São Francisco de Assis foi mais eloquente despojando-se do seu vestuário, do que se publicasse uma revista periódica sobre o desapego dos bens terrenos. E Charles de Foucauld mais enriqueceu com o seu sorriso e a sua bondade o ambiente dos pobres, do que se desse à imprensa a autobiografia de jovem oficial convertido, que escolheu estar no último lugar e entre os pobres. Poder-se-ia recordar também que o meu veneradíssimo predecessor Paulo VI, pondo de parte o uso da tiara, fez um gesto que não acabou de dar os seus frutos na Igreja.

Vós ouvis, por último, instar convosco os vossos dois modelos devida para que não deixeis que se apague o espírito de dependência, quando cada pessoa tanto tende hoje para se reservar um espaço livre em que não dependa de ninguém, para melhor se entregar à imaginação e fantasia. A obediência religiosa, bem o sabeis, é sem dúvida o mais agudo dos três cravos de ouro que prendem à vontade de Jesus os seus imitadores e as suas imitadoras. É lá possível contemplar alguém a cruz do Senhor Jesus sem se conformar ao Seu mistério de obediência ao Pai? Sejam os superiores religiosos, humanos e compreensíveis, é dever que têm. Mas sejam também os súbditos cada vez mais adultos e responsáveis, de maneira que aprofundem e vivam o valor de oblação da obediência.

Numa palavra, os vossos fundadores dizem-vos, como a todas as vossas companheiras: «Estai no mundo, sem nunca vos deixardes contaminar pelo espírito do mundo de que fala São João». Sabeis que o sal, se ficar insosso, não há com que temperar. E o que brilha é a pureza do cristal.

A vós, minha Reverenda Madre, que fostes agora reeleita, sinto especial alegria dirigir os meus votos de frutuoso serviço da Compa­nhia. As Capitulares, a quem agradeço a visita, e a todas as Irmãs da Caridade, que servem a Cristo nos Seus pobres no mundo inteiro — sem esquecer o serviço muito apreciado que prestam no Vaticano —, concedo a minha afectuosa Bênção Apostólica

http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/speeches/1980/january/documents/hf_jp-ii_spe_19800111_figlie-sanvincenzo_po.html

Biografia de  SANTA LUÍSA DE MARILLAC

Reflexão por Irmã Elisabeth Charpy, FC, da província da Paris e

Irmã Louise Sullivan da província da Albany  dos Estados Unidos

Tradução por Lauro Palú, CM, Província do Rio de Janeiro

            1660 foi um ano de grandes lutos para a Família Vicentina. O Pe. Antoine Portail, primeiro Coirmão de São Vicente de Paulo e primeiro Diretor das Filhas da Caridade, morreu em fevereiro. Santa Luísa de Marillac, sua colaboradora e amiga, morreu em março. Ele mesmo morrerá em setembro. Embora o nome e a imagem de São Vicente fossem universalmente reconhecidos, já no século XVII, o nome e a imagem de Santa Luísa parecem apagar-se completamente. Só em 1933  ela sairá definitivamente da sombra de São Vicente, para retomar seu lugar ao lado dele, não só como Fundadora das Filhas da Caridade, mas ainda como uma mulher de hoje. Por suas ações e suas palavras, foi capaz de despertar em cada um, em cada uma de nós, o conhecimento de seu próprio valor.

 Quem foi Luísa de Marillac no século XVII?

             Em maio de 1629, São Vicente de Paulo envia a jovem viúva que tinha encontrado uns anos antes, para que vá visitar as Confrarias de Caridade, que tinham começado tão bem mas que, depois de um tempo, perdiam o zelo do início. Bem que precisavam reencontrar o entusiasmo de sua origem. Para São Vicente, ninguém estava mais bem qualificado para isso que Santa Luísa de Marillac. Ela deu conta dessa missão de modo notável e São Vicente se alegrou com o sucesso dela.

             Quando Santa Luísa encontrou São Vicente, no final de 1625 ou no início de 1626, o marido dela acabara de morrer, depois de uma longa e penosa doença. Ficara sozinha com um filho difícil de 12 anos e com dificuldades econômicas. Era uma mulher frágil que procurava seu caminho. São Vicente a acompanhou. Pouco a pouco, percebeu, por trás das aparências de dúvida, hesitação e ansiedade, um mulher forte, dotada de dons excepcionais, capazes de fazer dela a “líder” que ele buscava para colaborar com ele em suas obras de caridade.

             Esse envio em missão de maio de 1629 não foi senão o começo de uma amizade e uma colaboração que transformaria a vida consagrada feminina e o serviço dos mais necessitados na França e além de suas fronteiras e que continua até nossos dias no mundo inteiro. E no meio de todas essas transformações encontramos a figura de Santa Luísa de Marillac. Ela percebeu imediatamente a necessidade de agrupar em comunidade aquelas moças da zona rural que estava formando, a pedido de São Vicente, para trabalhar com as Senhoras da Caridade no serviço dos pobres doentes em seus domicílios. Num mesmo impulso, fundou as Filhas da Caridade e construiu uma ponte sobre o abismo que separava os ricos e poderosos dos camponeses e dos pobres e separava os homens das mulheres. Com São Vicente de Paulo e as primeiras Filhas da Caridade, criou uma vasta rede de caridade que não excluía ninguém.

             São Vicente de Paulo tinha uma visão muito ampla das necessidades dos Pobres. Santa Luísa tinha capacidade da organização, atenção aos pormenores, audácia e criatividade para transformar aquela visão em realidade. Basta considerar a obra das crianças abandonados pelas ruas ou nas portas das igrejas (ela se apaixonou por essa obra, sem dúvida por causa de seu próprio nascimento como “filha natural”) e a obra do Asilo do Santo Nome de Jesus para pessoas idosas, para reconhecermos a verdade desta afirmação.

 Santa Luísa de Marillac jamais buscou aparecer na frente de nada. Ele mesma nos diz:

             “Ao nascer em pobreza e abandono dos homens, Nosso Senhor ensina-me a pureza de seu amor (…) Disso aprenderei a manter-me oculta em Deus, com o desejo de servi-lo sem buscar, para coisa alguma, o testemunho dos homens e a satisfação de sua comunicação, contentando-me com que Deus veja o que quero ser para ele: para tal finalidade, quer que me entregue a ele, a fim de realizar em mim esta disposição: assim o tenho feito, por sua graça” (Santa Luísa de Marillac, Correspondência e Escritos. Trad. da Irmã Lucy Cunha. Ribeirão Preto, Editora Legis Summa, s. d.; p. 812).

            Se, em 1983,  Santa Luísa de Marillac saiu enfim da sombra, foi porque o terreno fora preparado desde 1958, pela publicação da biografia escrita por Mons. Jean Calvet, intitulada Santa Luísa de Marillac por ela mesma. Retrato. Nesse livro, o autor fala publicamente e pela primeira vez das circunstâncias do nascimento dela, dos acontecimentos dramáticos, por vezes traumatizantes, de sua infância e juventude e de uma vida marcada por momentos fugazes de felicidade e por sofrimentos sempre muito próximos. Seu objetivo era a “verdade, companheira da santidade”. Reconheceu a tendência de Santa Luísa de caminhar na “trilha” de São Vicente de Paulo e “como sua sombra”. Calvet queria “ter ressaltado a originalidade dela e posto em relevo sua grandeza própria” como “uma das glórias mais puras das mulheres francesas” (Calvet, p. 8-9).

             Faltava ainda a convergência de dois outros elementos significativos: o movimento de Promoção da Mulher e a reflexão do Concílio Vaticano II sobre a dignidade da pessoa humana (Constituição Gaudium et Spes) para que reaparecesse a verdadeira Luísa de Marillac. O momento propício só chegará em 1983. Nesse ano, apareceu a nova edição da Correspondência e [dos] Escritos de Santa Luísa de Marillac. Graças a uma apresentação mais acessível, a uma nova classificação, a numerosas notas e a um índice pormenorizado, descobriu-se, sobretudo através de suas cartas às Irmãs, uma mulher cativante, cheia de humanismo, atenta a cada ser humano em todas as suas dimensões.

 O que Santa Luísa oferece ao mundo de hoje?

             O aparecimento da Correspondência e dos Escritos apresentou a “verdadeira” Santa Luísa ao mundo de fala francesa. As traduções que logo apareceram em muitas línguas espalharam sua fama pelo mundo inteiro. Mas que retrato nos dão dela? Essa mulher livre e forte de seu tempo, o que ela oferece precisamente para os homens e as mulheres do século XXI?

             O mundo mudou desde a época de Santa Luísa de Marillac, mas, mesmo passados alguns séculos, ela traz para este mundo dominado pela tecnologia valores universais e duradouros e o calor nas relações humanas. Trezentos e cinquenta anos depois de sua morte, alguns desses valores têm uma importância particular para a Família Vicentina, a saber:

 O papel da mulher

 Mulheres do povo

             Muito antes que se começasse a falar disso, Santa Luísa procurou melhorar a situação das mulheres simples do povo: possibilidade de viver uma nova forma de vida consagrada; formação humana, espiritual e profissional; preparação para a responsabilidade de serem educadoras das crianças expostas; professoras de escolas para meninas pobres; cuidadoras dos doentes e dos abandonados.

             “Deveis ser muito reconhecidas pelas graças que Deus vos concedeu, colocando-vos em condição de prestar-lhe tão grandes serviços”  (Escritos, p. 309).  “Não tenhais medo” (Escritos, p.   951).

 Mulheres da burguesia e da nobreza

             Santa Luísa de Marillac estava bem situada para fazer a ligação entre as pessoas simples que eram as Filhas da Caridade e as Senhoras da Caridade que eram da alta sociedade. Isto, porque, como uma “de Marillac”, tinha seu lugar nesse meio, embora tivesse escolhido viver em comunidade com mulheres do povo. Enquanto formava as primeiras Filhas da Caridade para o serviço dos Pobres, muitas vezes em colaboração com as Senhoras da Caridade, seu papel junto delas, na maior parte do tempo, era de animação. Tentava, por suas palavras e seu modo de agir, abri-las ao respeito de cada pessoa, ajudá-las a discernir sob as aparências a dignidade das pessoas pobres, a respeitá-las e a trabalhar em pé de igualdade com as Filhas da Caridade.

             “(…) as Senhoras [da Caridade] reconheceram as necessidades dos Pobres e (…)  Deus lhes deu a graça de socorrê-los de modo muito caridoso e magnificamente. (…) Os meios de que essas caridosas Senhoras se serviram para organizar suas distribuições não foram suas santas assembléias… [mas] fornecendo pessoas fiéis e caridosas para constatarem as verdadeiras necessidades e fornecer-lhes prudentemente, o que serviu não só no corporal mas também no espiritual” (Reflexões de Santa Luísa de Marillac, Documentos,  p. 788 da ed. francesa).  

 Redes de caridade 

             Santa Luísa de Marillac jamais quis imaginar que o serviço dos Pobres fosse reservado a um grupo particular. Para ela, a diversidade e a extensão das necessidades requeriam uma vasta rede de colaboração: mulheres e homens, Senhoras da Caridade, Padres e Irmãos da Congregação da Missão, Filhas da Caridade, Administração Municipal.

             Para assegurar um serviço eficaz, esta colaboração tinha suas exigências. Primeiro, uma obra de colaboração vicentina exige de cada um a vontade de reconhecer e aceitar a personalidade do outro com suas qualidades e seus defeitos.

             “Renovai-vos no espírito de união e cordialidade (…) O exercício da caridade (…) nos leva a não ver as faltas alheias com azedume, mas a desculpá-las sempre, humilhando-nos”  (Escritos, p. 357).

             Em segundo lugar, tal colaboração pede a todos o respeito mútuo, a capacidade de acolher a palavra do outro, sabendo também expressar-se. “Apresentai humildemente, fortemente e com mansidão e brevidade vossas razões” (Ecrits, p. 141).

             Finalmente, o serviço dos pobres nunca será vicentino, se não se caracterizar pelo calor humano, pelas qualidades femininas de que Santa Luísa fala tão frequentemente e de que é modelo em sua própria vida: compaixão, ternura, mansidão, numa palavra, AMOR.

             “Sede muito afáveis e bondosas com os vossos Pobres. Sabeis que são nossos amos, a quem devemos amar com ternura e respeitar profundamente. Não basta ter isso na memória, mas devemos demonstrá-lo por nossos serviços caridosos e afáveis” (Escritos, p. 365).

www.famvin.org/anniversary/pt/downloads/reflexao4_pt.doc

Biografia de Santa Luiza de Marillac por Pe. Guilherme Vaessen

Inicio

Santa Luíza de Marillac nasceu em Paris, a 15 de Agosto de 1591…O pai chamava-se Luís de Marillac, a mãe Margaridade Le Camus…Apenas tinha Luíza quatro anos quando ficou órfã…Verdade é que seu pai, por ser ela a filha única, concentrava nela toda a sua complacência. Porém pouco mis tarde casou de novo com Antonieta Camus, viúva e mãe de três filhos. Por boa que fosse essa segunda mãe, não era fácil encontrar nela a ternura de uma mãe verdadeira…foi isso, sem dúvida, o que decidiu o pai a confiar a filha a uma de suas tias, chamada também Luíza de Marillac…O extremoso pai morreu no tempo em que sua assistência era mais necessária à jovem para enfrentar as incertezas da vida…(p.17;19-20;21)

Começou a frequentar as santas religiosas que a admitiam à participação em suas orações e, às vezes, em suas austeras refeições. Luíza comprazia-se no espetáculo dessa vida de mortificação e imolação e não tardou a tomar a resolução de abraçar o tal instituto, fazendo voto de assim o cumprir…ela tinha por diretor frei Honório de Champigny…lhe declarou que tal não era a vontade de Deus, pois, sendo fraca de saúde, o rigor da regra em tal instituto a esmagaria e inutilizaria para o bem que estava destinada a realizar mais tarde…Impossibilitada de satiosfazer ao seu desejo de abraçar a vida religiosa, optou pelo estado do matrimônio. Quem mais a induziu a seguir essa resolução foi provavelmente seu tio, Miguel de Marillac, depois da morte do pai, tutor e guia de sua adolescência…O esposo que coube a Luíza foi Antônio Le Gras, secretário da rainha Maria de Médicis…Tinha 22 anos quando se ajoelhou ao pé do altar, para receber a benção nupcial, em fevereiro de 1613, na Igreja de S. Gervásio em Paris…Foram estabelecer domicílio na paróquia de S. Merry. Aí nasceu-lhes, em Outubro de 1613 o primeiro e único filho, Miguel Antônio, que lá mesmo foi batizado. (p.23-27).

Amiga dos pobres

“Tinha Luiza uma grande compaixão pelos pobres e a devoção de serví-los. Levava-lhes doces, biscoitos e muitas outras cousas boas. Penteava-os, limpava-lhes a sarna e a bicharia; e quando mortos, mandava enterrá-los. Deixava um pobre para correr a outro, muitas vezes subindo e descendo ladeiras debaixo de chuva e da saraiva.(p.30).

Vestir-se

Teve sempre o coração afastado do mundo, de suas tolas vaidades e prazeres culposos. Nos dias de divertimentos públicos tinha o costume de se retirar ao convento das Capuchinhas. Guardou sempre grande modéstia no modo de vestir, ‘não fazendo consistir o ornato e beleza nos enfeites exteriores, mas aformoseando a alma e o coração…Entre os seus livros prediletos contavam-se a Imitação de Cristo. (p.32).

São Francico de Sales

S. Francisco de Sales quando foi a Paris, onde se demorou seis meses, sempre atraído pelas grandes almas, visitou Luísa, então retida em casa pela doença.(p.35).

Marido morre

Morto o marido, Luíoza renova o voto de viuvez e nessa ocasião escreve a um sacerdote parente: “Não é razoável que pertença inteiramente a Deus, depois de pertencer tanto tempo ao mundo?(p.41 

 

 

  Ó Maria Imaculada, valei- me!”

                            Santa Beatriz da Silva

A família

“…educada num profundo espírito e virtudes cristãs.”

De nobilíssima família portuguesa, Beatriz da Silva e Menezes, nasceu na graciosa e ensolarada vila alentejana de Campo Maior, no ano de 1437. Filha de D. Rui Gomes da Silva, Alcaide Mor da já mencionada vila de Campo Maior e Ouguela e de Dona Isabel de Menezes, que era filha de D. Pedro de Menezes que foi Governador da Praça de Ceuta, nessa altura pertencente à coroa dos reis de Portugal. Os pais de Beatriz pertenciam à primeira nobreza e estavam ainda aparentados com a família real.

Tiveram 11 filhos, educados por franciscanos, que inculcaram no seu coração um profundo sentido cristão, ético e moral e uma especial amor à IMACULADA.

A Princesa Isabel de Portugal, filha de D. Duarte, contrai núpcias com D. João II de Castela, e leva a sua prima Beatriz como dama. Era Beatriz muito nova e bela e de alma transparente e cristalina. Os ciúmes da Rainha chegaram ao desejo de a fazer desaparecer. Mas os desígnios de Deus são outros, e como do mal pode obter um bem, enquanto esta só e cerrada num cofre esperando a morte, aparece-lhe a Virgem Imaculada, Rainha de Portugal, a anunciar-lhe que seria mãe de muitas filhas e que fundasse uma Ordem dedicada ao serviço e louvor do mistério da sua Conceição Imaculada.  Sai da Corte e nos Palácios de Galiana, em Toledo funda a sua Ordem há mais de 500 anos.

 

 

Beatriz passou a sua infância e adolescência nesta nobre vila, rodeada do carinho de seus pais que a educaram num profundo espírito e virtudes cristãs.

 Foi a oitava de doze irmãos: Pedro, Fernando, Diogo, Afonso, João (Beato Amadeu da Silva, fundador do ramo franciscano dos frades Amadeus, hoje extinto), Branca, Guiomar, Beatriz, Maria, Leonor, Catarina e Mécia.

 

***

Na Corte

“…enchia de fervor com o seu exemplo”.

Para Beatriz decorria tranquila a vida no velho solar de Campo Maior. Totalmente entregue a Deus, tinha esquecido o mundo com toda a sua agitação, embora vivesse nele.

Mas o Senhor tinha-a criado para coisas maiores que esta vida calma, e, para isso, tinha de a fazer passar pelo crisol do sofrimento, como costuma sempre fazer com os eleitos do seu coração.

Quando chegou, Beatriz cujos predicados e virtudes raramente se vêm em humana criatura, deram motivo à rainha Dona Isabel, filha de D. Duarte, rei de Portugal, e esposa em segundas núpcias de D. João II de Castela para levar por sua dama, para a Corte, a jovem Beatriz, que era sua parente muito chegada. Primeiro para Lisboa e a quando do casamento com D. João II de Castela, para Tordesilhas. A virtuosa dama era o mimo, e todo o desvelo da rainha que não podia estar sem ela um só instante. Só a jovem dama conseguia moderar alguns dos excessos da temperamental rainha de Castela que, se enchia de fervor com o seu exemplo e, quando a via entre as Senhoras e Damas da Corte de Castela, tinha grande satisfação de que a sua portuguesa brilhasse, como a mais bela das rosa entre as flores, e resplandecesse, como lua entre as estrelas. Diz-nos uma biografa da Santa, que Beatriz “era formosíssima, prudente, afável, inteligente, composta e de muita gentileza”, e outro autor: “que era bela, maravilhosamente bela, até ao deslumbramento”.

***

O Ciúme

“…procurava viver em recolhimento, dando todo o seu amor e o maior tempo possível a Deus, o verdadeiro Senhor do seu coração.”

Costuma dizer-se que há males que vêm para bem, e vice-versa, que há bens que vêm para mal. E foi precisamente o caso de Beatriz. Porque a felicidade humana é inconstante e falível, não podiam durar por muito tempo os excessos de carinho e de atenção da rainha para com a jovem dama portuguesa.

A sua beleza, graciosidade e doçura, levou muitos nobres a pretendê-la para casar, aos quais, ela negou sempre a sua mão.

Mas, o facto mais doloroso, foi causado pelo ciúme da rainha que, chegou ao cúmulo de a fechar numa cofre, para que Beatriz ali morresse asfixiada. Tudo por ciúme, devido às atenções que o rei dava à jovem, que, de forma alguma, procurava atrair sobre si as atenções de quem quer que fosse, muito pelo contrário, procurava viver no recolhimento, dando assim todo o seu amor e o maior tempo possível ao Pai Eterno, o verdadeiro Senhor do seu coração.

***

A visão

“…a sua vocação: fundar uma Ordem com o fim de honrar a Imaculada Conceição da Virgem Santa Maria”.

Foi, porém, naquela prisão, que a Santa recebeu em plenitude o “Dom de Deus”, e lhe foi dada a conhecer a sua futura missão, a sua vocação: a de fundar uma Ordem, com o fim de honrar a Imaculada Conceição da Virgem Santa Maria.

Nos três dias que permaneceu naquela escura prisão, apareceu-lhe a Santíssima Virgem com o menino nos braços. Trazia vestido um hábito todo branco e escapulário da mesma cor, e a cobri-la um manto azul.

Era vontade de Deus e de Maria que, Beatriz, fundasse uma Ordem destinada a defender e honrar o Mistério da Imaculada Conceição.

 Com Deus nunca seremos pobres ou abandonados.

***

O inesperado

“…a rainha deu-lhe licença e liberdade para ir viver aonde mais fosse de sua vontade”.

O desaparecimento da jovem dama, provoca no seu tio D. João de Menezes (que também se encontrava na corte de Tordesilhas, ao serviço de D. João II de Castela), grande preocupação, até porque ele sabia do grande ciúme que a rainha nutria por Beatriz e temia o pior.

À pergunta de D. João de Meneses a Dona Isabel, sobre o paradeiro da sobrinha, a rainha respondeu-lhe «que viesse vê-la», e levou-o ao sítio onde a deixara encerrada, certa de que, ao abrir o cofre, a encontraria morta.

Viva a viu aparecer, e mais bela do que nunca! A rainha, pasmando do que tinha diante de si, não atinava que dizer – conta soror Catarina – e, assombrada duma coisa tão inesperada, não queria dar crédito aos seus próprios olhos, que viam o que naturalmente era impossível sucedesse.

Com este espanto, e, ao mesmo tempo, para se livrar da ocasião de voltar a criar problemas à dama Beatriz, a rainha deu-lhe licença e liberdade para ir viver aonde mais fosse de sua vontade.

Certamente que esta «experiência de encarceramento» foi, na vida de Beatriz, um marco importante que a levou a dar uma grande viragem no rumo da sua vida e a levou a abandonar a vida palaciana da corte de Tordesilhas e a retirar-se para Toledo.

***

Em viagem

“Este encontro deixou-lhe na alma uma grande consolação e abriu-lhe o entendimento às realidades sobrenaturais”.

A viagem para Toledo foi longa, arriscada e muito difícil, o que revela a personalidade forte e decidida de Beatriz.

É significativo, o episódio que ocorreu durante a viagem e que, todos as biógrafos da santa, são unânimes em relatar.

“Foi o caso que, no caminho para Toledo, ao passar por um monte (Beatriz), viu sair de trás dele dois religiosos da Ordem do meu Padre S. Francisco, e, julgando fossem enviados da rainha a fim de a confessarem para que depois lhe fosse tirada a vida, entrou, em grande temor; e não foi muito, que assim fizesse, quem havia experimentado os arrojos do zeloso peito duma rainha. (…) Acercaram-se os religiosos, e, um deles, que por seu modo parecia português, saudando-a na sua língua materna, lhe perguntou a causa da sua aflição e pena”.

Depois de saberem dos temores da nobre viajante, tranquilizaram-na os dois frades e falaram-lhe da fundação da Ordem da Imaculada Conceição. E, assim, foram conversando durante a viagem para Toledo. Mas tal como os discípulos de Emaús, também os dois frades desapareceram aos olhos de Beatriz e da sua comitiva, quando esta insistiu com eles, para que partilhassem com ela a ceia na próxima pousada.

Este encontro deixou-lhe na alma uma grande consolação e abriu-lhe o entendimento às realidades sobrenaturais e compreendeu que os seus companheiros de viagem eram Santo António de Lisboa e São Francisco de Assis.

Muitas vezes penso que terei um purgatório bem longo,

porque muito será pedido a quem muito recebeu

e Ele foi tão generoso comigo!

 

***

Em São Domingos “O Real”

“Florescia em todas as virtudes, era tida por santa e obrava milagres”.

Depois do sucedido e, com a autorização da rainha, Beatriz, retirou-se para a cidade de Toledo, onde viveu, voluntariamente, em completo encerramento, no Convento Dominicano de São Domingos O Real, ou O Antigo. Ali passou trinta longos anos, como senhora de piso, longe de tudo e de todos os seres queridos e totalmente desprendida das vaidades terrenas e desejos mundanos. E, como a formosura do seu rosto foi a causa de tantas discórdias na corte, cobriu o rosto com um véu branco durante o resto da sua vida, salvo em raríssimas excepções.

No mar, o navio é presa fácil do risco dos ventos, se, porém, chegar a um calmo e tranquilo porto, já não teme calamidades, mas está seguro. Também Beatriz, enquanto se encontrou no meio dos homens, contou com tribulações, riscos e embates contra a sua sensibilidade. Mas, ao chegar ao porto do silêncio, para ela preparado, não mais teve medo, e entrega-se toda nas mãos de Deus, confiando no Seu amor sem medida.

Não fazia parte das religiosas que compunham a comunidade, mas, ali vivia como uma delas, em completa vida de clausura. Como nos canta soror Catarina: Beatriz “Florescia em todas as virtudes e comia parcamente, que era tida por santa e obrava milagres, que se distinguiu sempre por sua humildade e obediência às superioras” do dito Convento de São Domingos O Real e a sua vida era verdadeiramente exemplar. Das rendas, que possuía, reservava uma moderada parte para o tratamento, e decência da sua pessoa, e, tudo o mais, o gastava em esmolas e

Deus. E só pela entrega total de si mesmo se entra neste caminho de perfeição e de união com Deus. Contudo, quem diz “entrega total”, diz “renúncia total”. Deus de todos espera o desapego completo de tudo o que não seja Ele. O mais pequeno vínculo impede a alma de levantar voo. Por isso, é urgente perder tudo, para ganhar O Tudo. É urgente entregar tudo o que temos e somos sem hesitação.

O mercador de pérolas do Evangelho, vendeu todos os seus bens para comprar a pérola mais fina que tivera a sorte de encontrar. Beatriz, por sua vez, renunciou à sua luminosa beleza, à sua posição social, à sua fortuna e à possibilidade de fazer um casamento invejável, aos olhos do mundo, para se fechar num Convento, onde nem sequer era freira. Assim, sem vínculo nenhum, poderia levantar voo e voar na imensidão do amor de Deus e saciar a sua sede na fonte da Água Viva. Preparando-se desta forma, para a Obra a que fora destinada pela Imaculada.

 

***

A espera

“…mantinha-se simplesmente à escuta do que Deus lhe ordenava”.

A nós, que vemos os acontecimentos no seu aspecto meramente exterior, sem muitas vezes, poderem apreender-se as realidades profundas que essas aparências encobrem, parecerá incompreensível esta demora tão grande em realizar planos que se sabia serem divinos. Que significavam tantos anos de aparente inacção, segundo os nossos juízos? Que fazia Beatriz da Silva e Meneses em São Domingos O Real, onde, nem sequer era religiosa? Porque esperava?

Ora, tais circunstâncias, levam-nos a crer que ela se mantinha simplesmente à escuta do que Deus lhe ordenava. Ia-se exercitando na conquista de uma das virtudes mais difíceis de praticar quando se deseja um bem que tarde em vir; a paciência, na perfeita conformidade com a Vontade de Deus.

“Poucas vezes uma fundadora terá sido preparada tão profunda e prolongadamente para a sua missão carismática”

Quando ela atingiu o grau de perfeição na virtude requerido para empreendimento tão sublime, corria o ano de 1484, recebeu então a ordem aguardada durante trinta longos anos entre os muros de São Domingos “O Real”. E logo se seguiu um período de intensa actividade, a esses longos anos vividos na obscuridade e no silêncio do claustro.

 

A cruz é a chave

que nos abrirá a porta do céu.

***

Os preparativos

“Com a sua admirável generosidade, passou a dar-se sem reservas, ao cumprimento da missão que Deus lhe confiava”.

Dizem os biógrafos da Santa fundadora, que lhe apareceu outra vez a Mãe de Deus, tornando a mostrar-lhe como haveria de ser o hábito que trariam vestido as suas religiosas, pois, já o havia feito, a quando da visão no cofre em Tordesilhas, e, ainda, para lhe dizer que tinha chegado o tempo de pôr mãos à realização da Obra. Tinha soado a hora para a qual Beatriz da Silva orientara o curso de toda a sua vida, na qual concentrara todos os seus esforços e, para a qual, dirigira todas as suas aspirações. Urgia, agora, dedicar à realização da sua Obra todas as forças e o tempo que lhe restava viver na terra.

Com a sua admirável generosidade, passou a dar-se sem reservas, ao cumprimento da missão que Deus lhe confiava. Finalmente, o sonho que iluminara toda a sua vida, o desejo que o seu coração acalentava de espalhar pelo mundo a devoção à Imaculada Conceição, e honrar através da sua futura Ordem, este mistério tão grande e tão sublime, começava a realizar-se e a criar forma.

***

Se tivéssemos mais um bocadinho de fé,

como estaríamos tranqüilas no meio das dificuldades presentes.

 

A fundação

“Terão como carisma próprio o da Imaculada Conceição”.

Ajudada pela rainha Isabel “a Católica”, que lhe deu os palácios chamados de Galiana, por terem outrora pertencido à princesa Galiana, filha de um rei mouro que os mandara construir propositadamente para esta sua filha, bem como a Igreja de Santa Fé, situada junto ao Palácio de Galiana. Beatriz deixa o Convento de São Domingos O Real, onde viveu 30 longos anos, para se instalar com mais doze donzelas de muita virtude e nobreza, no local que a rainha lhes oferecera. Entrou com grande alegria nessa casa tão desacomodada e, logo, deu ordens para que se fizessem as obras necessárias e conveniente para a transformar num Convento de religiosas contemplativas de clausura, começando por arranjar a Igreja. Tanto que, logo que se instalaram no seu Convento de Santa Fé, e, provido este, do essencial para a vida comunitária contemplativa, ordenou a santa fundadora o modo de viver que haviam de guardar ela e suas filhas e, composta a Regra, a enviar ao Sumo Pontífice Inocêncio VIII com petição da rainha Isabel “a Católica” para que Sua Santidade aprovasse esta Ordem com o título da Imaculada Conceição, bem como a Regra, o modo de rezar e de vestir (o hábito).

Foi, por meio de um «estranho» mensageiro, que a fundadora soube que, Roma tinha expedido a Bula de aprovação da Ordem. Contudo, mais tarde, chega a notícia de que o navio que transportava a Bula de aprovação, tinha naufragado. Beatriz comunicou o facto à rainha, e só teve uma ideia: pôr-se a rezar. Ao fim de três dias, aparece a Bula num cofre do Convento. Como aconteceu este «prodígio»? A verdade é que, hoje, a dita Bula se encontra no Convento de Toledo. Inocêncio VIII tinha dito sim ao pedido de Beatriz, com o apoio da rainha Católica. Estava a Bula dirigida ao bispo de Coria e Catânia, e ao Vigário de Toledo, para «executar a Bula» em 1491. A Bula papal cita expressamente a rainha Isabel e soror Beatriz, a quem autoriza a fundar um Convento, de clausura. Segundo palavras de Sua Santidade: Nos foi humildemente suplicado que se dignasse a Nossa Benignidade Apostólica erigir na referida casa um Mosteiro de Monjas, sob a invocação da Imaculada Conceição. Beatriz gozaria da dignidade de Abadessa, e a casa teria campanário, dormitório, refeitório, hortas e outras oficinas, na qual vivam as religiosas em comunidade sob a regular observância e perpétua clausura. E dá poder à Abadessa para que possa formar estatutos e ordenanças. Vestirão de branco, com manto cor (azul) celeste, e, «no manto e escapulário, tragam fixa a imagem da Virgem Maria, e se cinjam com uma corda de cânhamo, à maneira dos Frades Menores». Terão como carisma próprio o da Imaculada Conceição. A Bula «Inter Universa» está datada de 30 de Abril de 1489, quinto ano do Pontificado de Inocêncio VIII. É esta, certamente, a autorização solene, oficial e pontifícia para a Fundação.

E, finalmente, no antigo palácio, de uma princesa moura, tem o seu berço a Ordem da Imaculada Conceição, melhor dizendo, começam a escrever-se com letras de luz, silêncio e oração as glórias da Imaculada Conceição.

***

A passagem

“…no ocaso da vida tudo passa, só Deus fica e o que por Ele tivermos feito”.

Seis anos passaram estas almas desejosas de uma entrega radical, à espera que lhes chegasse a aprovação de Roma. Quando esta, finalmente chega, a Obra começa a desenvolver-se em pleno. No entanto, um novo sacrifício lhes estava reservado.

Tinha já sido marcada pelo Bispo de Toledo, a festa das profissões, de Beatriz e das suas doze companheiras, quando a Santíssima Virgem de novo lhe aparece dizendo-lhe: – “Dentro de dez dias virei buscar-te porque não é vontade de Meu Filho que gozes aqui na terra o que tanto desejastes”.

Duro golpe difícil de compreender, mas que Beatriz aceita com o coração em festa, como através de toda a sua vida aceitou sempre qualquer manifestação da Vontade do Pai Eterno. E nisto consistiu precisamente o segredo de toda a sua santidade, pois, só no cumprimento da vontade de Deus, reside o segredo da santificação de qualquer alma. Fora desta vontade não há santificação possível.

Efectivamente, no dia preciso em que estava marcada a festa do início da Ordem, Beatriz voou para o Céu, tendo, antes, recebido o hábito branco e azul, como a Senhora lhe tinha indicado, e feito nas mãos de um sacerdote Franciscano, a sua Profissão Religiosa. Morria assim, como uma verdadeira Concepcionista. A noite da sua vida passara. Tinha sido uma noite de lutas e sofrimentos em que venceu, é certo, mas que, para isso, teve de lutar denodadamente. Tudo agora findava, melhor, tudo agora começava, e morria feliz, pois, como diz o autor, “no ocaso da vida tudo passa, só Deus fica e o que por Ele tivermos feito”. É que, na eternidade seremos julgados, não tanto pelo muito que fizemos ou possuímos, mas pelo muito que amámos. E Beatriz viveu uma vida intensa de amor e de entrega total a Deus.

***

A estrela

“…do seu rosto saiam raios de luz e uma estrela luminosa fixou-se-lhe na testa e ali permaneceu até que soltou o último suspiro”.

No momento da sua morte há um pormenor que não pode ser esquecido. Desde que saíra da Corte de Tordesilhas, Beatriz cobria o seu belíssimo rosto com um véu branco a fim de ocultar, aos olhos de todos, a sua grande beleza que fora causa de tantos desgostos e dissabores. E, assim, viveu os cerca de trinta anos que durou a sua vida retirada no Convento de S. Domingos “O Real”, e depois já no seu Convento definitivo.

No momento derradeiro, ao levantarem-lhe o véu para lhe ser administrado o sacramento da Unção dos Enfermos, todos viram, com assombro, que, do seu rosto, saiam raios de luz que iluminaram todo o aposento em que se encontravam, e uma estrela luminosa fixou-se-lhe na testa e ali permaneceu até que soltou o último suspiro. E é este o motivo pelo que a imagem da santa de Campo Maior se representa com uma estrela na fronte. Esta significa, certamente, a luz que ela irradiou então e que continua, ainda hoje, a irradiar ao longo destes cinco séculos que nos separam já da sua morte, ocorrida em Toledo no dia 9 de Agosto de 1492.

Luz que brota do testemunho de vida de Beatriz, que “…toda se abandonou à vida de santidade…” e das suas filhas, que encerradas nos seus Conventos seguem as pisadas da sua mãe e mestra, vivendo os rigores do evangelho.

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Depois da morte

“…todas viviam unidas, «num só coração e numa só alma»”.

Como nos conta Soror Catarina: “Logo que a serva de Deus expirou pensaram as religiosas de São Domingos levar para o seu Convento, não só as doze religiosas, porque não haviam professado e ficavam sem Madre, senão também o venerável corpo da Fundadora, porque, tendo vivido tantos anos com elas, julgavam que lhes pertencia; e, nesta ideia, começaram a fazer diligências, levando em seu auxílio alguns religiosos da sua Ordem para conseguirem levar a cabo a sua empresa, e, por conseguinte, para que a casa e Ordem da Imaculada Conceição ficasse desfeita. Não era porém essa a vontade do Senhor, que constantemente velava pelas suas servas; e não queria que desaparecessem de sobre a terra; e, por isso, mais uma vez as ilustrou com um novo milagre, como foi o aparecimento da Santa Fundadora a frei João de Tolosa.”

Antes, mesmo, da chegada de frei João de Tolosa já os religiosos franciscanos de Toledo haviam impedido que o corpo de Beatriz da Silva fosse levado pelas religiosas de São Domingos “O Real” e o sepultaram na Igreja de Santa Fé, junto às suas filhas.

Contudo, as religiosas de São Domingos não desarmaram e, visto que, não tinham conseguido os restos mortais da fundadora, pelo menos, achavam-se no direito de reclamar para si as doze jovens que faziam parte da comunidade de Beatriz, argumentando que estas ainda não tinham tomado hábito nem feito votos.

Foi, neste contexto, que frei João de Tolosa veio encontrar as jovens discípulas de Beatriz da Silva. Imediatamente este ilustre franciscano fez desistir dos seus intentos as religiosas de São Domingos “O Real” e marcou, para dentro de oito dias, a tomada de hábito e a profissão religiosa das doze valorosas filhas de Beatriz. Tendo sido nomeada para Abadessa soror Filipa da Silva, sobrinha da fundadora.

Contudo, não ficaram por aqui as dificuldades por que teve de passar a jovem comunidade Concepcionista.

As religiosas Beneditinas do Mosteiro de São Pedro das Donas haviam decaído um pouco no fervor primitivo da sua Ordem. Por isso, o Reformador Geral de todas as Ordens no Reino de Castela, frei Francisco de Cisneros, ordenou que o Convento de Santa Fé e o Mosteiro de São Pedro das Donas se juntassem num só. Passando as religiosas de Santa Fé a viver no Mosteiro de São Pedro das Donas. Por outro lado, por breve do Papa Alexandre VI as monjas das Donas passavam a vestir o hábito da Ordem da Imaculada Conceição e adoptavam a forma de viver desta jovem Ordem. E ainda, deveria a Abadessa de São Pedro das Donas renunciar ao seu cargo em favor de Madre Filipa da Silva que passaria a ser a Abadessa da nova comunidade.

No entanto, as mudanças não foram fáceis, pois, graves divisões surgiram na comunidade, que, por três vezes, esteve à beira da extinção, devido às reforma implantadas por Madre Filipa da Silva e que, desagradaram muito às antigas religiosas de São Pedro por não aceitarem que uma Ordem mais nova, viesse impor a uma Ordem mais antiga correcções e tradições.

A tal ponto chegou a situação que, frei Francisco de Cisneros, à data, arcebispo de Toledo, esteve a ponto de ordenar se extinguisse de vez a Ordem da Imaculada Conceição. Não era esse, no entanto, o projecto de Deus que levou o ilustre prelado a fazer uma última tentativa para repor a unidade e a caridade no referido Convento. Para isso, dirigiu às religiosas do dito Convento, uma veemente exortação a que se apaziguassem. Conta-nos Soror Catarina que o arcebispo lhes falou com tão inspirado afecto que lhes abriu o coração e os pacificou de tal maneira que, as que haviam abandonado a comunidade, voltaram bastante emendadas, conformando-se todas numa só vontade e amor, transformando-se o Convento num autentico paraíso.

E dava gosto, depois, ver o Convento da Imaculada Conceição, onde todas viviam unidas, “num só coração e numa só alma”.

Depois destas duras provas, a Ordem da Imaculada Conceição entra num período de grande florescimento, tornando-se numa das maiores Ordens Religiosas femininas de vida contemplativa, da Igreja.

 

***

A glorificação

“…a Igreja sente necessidade e alegria em nos dizer que Beatriz da Silva, é Santa”.

Ao longo da história, Deus suscita homens e mulheres que, compreendendo o único Absoluto, e que foram capazes de assumir atitudes de vida que, ainda hoje, têm lições de vida e de sabedoria. A vivência do Evangelho continua a gerar verdadeiros sábios em todas as épocas, que, com os seus exemplos e palavras, possuem uma força de persuasão que não vem dos livros, mas do Espírito Santo.

Inteiramente abandonados à acção de Deus, os santos deixam-se conduzir pelo Espírito Santo por caminhos desconhecidos, até ao dom total de si mesmos. E foi o que aconteceu com Beatriz da Silva e Menezes, por isso mesmo, a Igreja sente necessidade e alegria em nos dizer que, fundadora da Ordem da Imaculada Conceição, faz parte deste grupo de obras-primas da criatividade do Espírito Santo e que nunca se repetem, que são os Santos. E fá-lo oficialmente, quando o Papa Pio XI a 28 de Julho de 1926 a beatifica e a 3 de Outubro de 1976, o papa Paulo VI a canoniza.

 

Oração:

Lembrai-vos ó Santa Beatriz da Silva, das muitas angústias e tribulações pelas quais passastes nesta vida e intercedei por nós.

Ó Santa Beatriz, virgem singularmente amada de Maria Imaculada, alcançai-nos a pureza da alma e do corpo, com a graça que ardentemente vos suplicamos.

Amém.

 

CALDEIRA, P. Marcelino

 

  

 

Biografia de Santa Beatriz pela Canção Nova

 

 

Obediência, pobreza, assistência aos pobres, oração e recolhimento, foi o exemplo que Santa Beatriz da Silva e Meneses deixou.


Beatriz nasceu no Século XV em Ceuta, ao norte da África, cidade que nessa época se encontrava sob o domínio da coroa de Portugal. Nasceu portuguesa, portanto. Seu pai foi governador de Ceuta. Ainda pequena mudou-se para Portugal com sua família, que cultivou na menina uma profunda devoção a Nossa Senhora da Conceição. Aos vinte anos de idade foi enviada para a Espanha como dama de honra de D. Isabel, neta de D. João I, que tornou-se esposa do rei João II de Castela, onde começou seu calvário.

Beatriz era muito bonita, e a rainha, dominada por uma mistura de ciúme e inveja, fechou Beatriz em um caixão durante dias, a fim de que morresse asfixiada, mas uma invisível proteção da Virgem Maria a salvou.

 

Como gesto concreto de agradecimento Santa Beatriz aceitou sua vocação para a vida religiosa, e logo em seguida partiu a Toledo, onde se recolheu no mosteiro das Dominicanas (ramo feminino da Ordem de São Domingos de Gusmão), cujas religiosas viviam sob a regra cisterniense, onde viveu cerca de 30 anos.


Mas Deus a tinha predestinado para uma obra maior: fundar uma Ordem de estrita clausura numa vida contemplativa na oração, penitência e trabalho.


Santa Beatriz da Silva deixou o mosteiro dominicano e foi habitar numa nova sede que veio a ser o berço das monjas concepcionistas. Essa Ordem está caracterizada por três heranças espirituais de Santa Beatriz: o amor à Maria Imaculada, a Paixão de Jesus Cristo e a Santíssima Eucaristia.


Santa Beatriz faleceu a 09 de agosto de 1490 com 66 anos de idade. No momento de sua morte, seu rosto fora visto transfigurado por uma grande claridade e uma estrela resplandecente sobre sua cabeça até ela expirar.


Beatificada em 1926 pelo Papa Pio XI, sua canonização ocorreu no dia 03 de Outubro de 1976 por Paulo VI.


Fonte: http://www.cancaonova.com/portal/canais/liturgia/santo/index.php?dia=1&mes=9

 

 

Frases de Santa Beatriz da Silva:

 

Minhas queridíssimas filhas nunca mintam, nem..de leve, nem façam restrições mentais que são sempre verdadeiras mentiras disfarçadas.

 

As coisas podem mudar de um momento para o outro…

Oremos e sacrifiquemos-nos e não nos deixemos abater.

 

Com Deus nunca seremos pobres ou abandonados.

 

A nossa vida deverá ser um contínuo sofrimento em todas as coisas, e depois virá a plena satisfação em tudo;

 

O vendaval é enorme, parece que tudo se levanta contra nós…com paciência e tempo tudo se obtêm.

 

Tenha confiança no Senhor O qual saberá tornar doces as amarguras inerentes ao seu cargo de superiora, dessa casa.

 

Consolo-me com o pensamento que Deus vê tudo, sabe tudo e de que o sacrifício dará fruto a seu tempo para Sua glória e bem das almas.

 

Oh! Minhas Irmãs, que tempo de angustias e incertezas atravessamos!Mas tenhamos coragem, sejamos generosas, não temamos coisa alguma, porque tudo o que Deus permite é para o nosso bem.

 

Cruz! Não há lenho como o da cruz para acender na alma o fogo do amor de Jesus.

 

Muitas vezes penso que terei um purgatório bem longo, porque muito será pedido a quem muito recebeu e Ele foi tão generoso comigo!

 

Venha em meu auxílio, quanto mais se faz luz mais sinto a minha fraqueza.

 

Arranquemos um defeito, plantemos uma virtude para não deixar enfermar a alma.

 

O corpo não pensa, não ama, a alma é quem o valoriza.

 

A Misericórdia é a bondade que se inclina para a miséria.

 

Ao menos a humilhação do vazio de dentro me santifique, atirando-me para a confiança cega da misericórdia de Jesus.

 

Há um pensamento que me anima que é: tudo que Deus faz em nós é efeito de Sua misericórdia.

 

 

Se tivéssemos mais um bocadinho de fé, como estaríamos tranqüilas no meio das dificuldades presentes.

 

Pela confissão curamos as feridas abertas na alma pelo pecado.

 

A cruz é a chave que nos abrirá a porta do céu.

 

Jesus diz-nos o que é infiel nas coisas pequenas também o será nas grandes. Esta máxima…deve convencer-nos que a infidelidade habitual a certos deveres..considerados de pouca importância, pode ser-nos muito prejudicial…

 

Fonte: http://www.concepcionistas.pt/memoria.html

“Eis que Nosso Senhor Jesus Cristo me chama! Faze o que tens a fazer”

                                    Santa Catarina de Alexandria

Nascimento

 O rei Costus, da Cilícia, casou-se com Sabinela, mulher prudente e sábia, filha de um príncipe dos Samaritanos, que deu a Costus, como dote, terras do Egito, na região de Alexandria . Deste casamento nasceu Catarina, pelos fins do século III.

 Conversão

 Costus faleceu.Sabinela e Catarina foram residir na região da Montanha Negra, na Cilícia. Ali Sabinela conheceu o eremita Ananias que lhe revelou o Deus verdadeiro e a instruiu na fé. Sabinela aderiu a Jesus Cristo e recebeu o Batismo. Insistia com sua filha para que também ela se fizesse discípula de Cristo. Catarina resistia; defendia o paganismo e refutava todos os argumentos apresentados pela mãe, em favor de Jesus Cristo.

 Catarina estava em idade de contrair matrimônio. A mãe exortava-a para que recebesse um esposo. Os grandes do reino, do qual Catarina era herdeira, lhe pediam o mesmo, para que o reino não perecesse pela rebelião dos ambiciosos. Príncipes de diversas regiões ouviam falar de sua sabedoria e beleza e desejavam casar-se com ela. Catarina primava nas ciências profanas e respondia à mãe e aos pretendentes:

 – Encontrai-me um esposo que seja sábio, belo e nobre; em uma palavra, da mesma condição que eu, e, por amor a vós, estou pronta a recebê-lo por marido.

 Tal resposta entristecia a mãe e os príncipes. Sabinela acorria à ermida de Ananias e lhe pedia que orasse em favor de sua filha.

 O sonho revelador

 Certa noite, Catarina e Sabinela tiveram sonhos idênticos: uma senhora de extrema beleza, rodeada de príncipes, aproximou-se de Catarina e lhe disse:

– Todos estes são reis submissos a meu Filho, o Imperador da Glória. Se queres, escolhe para esposo o que mais te agrada. Catarina não quis nenhum deles. Apareceu, então, o Imperador da Glória, rodeado de uma multidão de seres celestes. A senhora perguntou:

– Queres este, para teu esposo?

Com grande fervor, Catarina disse sim, fosse ele quem fosse, e a nenhum outro.

Sabinela reprovou-a:

– Como ousas pedir para teu esposo aquele que tem tantos reis a seus pés? Que te baste um de seus príncipes, pois todos são poderosos.

A filha respondeu:

– Não me repreendais se desejo este. Não vejo aqui nenhum outro que me seja superior em tudo, a não ser ele. Implorai à sua Mãe, a fim de que lhe fira o coração para que me aceite por esposa. Se não, jamais me casarei. Sabinela dirigiu-se à Senhora e lhe ofereceu a filha para esposa do Imperador da Glória.

A senhora disse a seu Filho:

– Quereis esta jovem para vossa esposa?

Ele lhe respondeu:

– Não. Afastai-a. Não posso desposar uma idólatra. Se ela se batizar, prometo aceitá-la por esposa, dando-lhe um anel como sinal de aliança.

 Quando acordaram, Sabinela e Catarina relataram uma à outra o sonho. Parecia-lhes ser revelador. 

 Esposa do Imperador da Glória

 Catarina e Sabinela procuraram o eremita Ananias. Contaram-lhe o sonho. Esclarecido por Deus, o eremita lhes disse que a senhora é Maria, a Mãe de Deus; o Imperador da Glória é Jesus Cristo; os príncipes são os Patriarcas, os Profetas, os Apóstolos e os Santos; os seres celestes são os Anjos. Acrescentou, ainda, que se Catarina quisesse o Imperador da Glória por esposo, seria necessário que se fizesse cristã.

 O eremita a instruiu. Chorando e com fervor, recebeu o batismo. Catarina não conseguia esquecer o sonho. Desejava Cristo para seu esposo. Certo dia, rezando em seu quarto, o Senhor lhe apareceu. Em sinal de que a aceitava por esposa, colocou-lhe um anel verdadeiro no dedo e prometeu fazer por ela grandes coisas. E desapareceu. Catarina compreendeu que era uma visão espiritual. A Caridade Divina a abrasava e a envolvia por respeitosa ternura para com o Senhor Jesus, seu esposo. Ele a cumulava de graças. Catarina passou a dedicar seu tempo à contemplação, à oração, à leitura e meditação da Sagrada Escritura, especialmente dos textos dos Evangelhos. Costumava exclamar: – Ó pecadora, como perdi meu tempo nas trevas dos livros profanos!

 – Catarina, eis o Evangelho de teu esposo! Põe teu coração a estudá-lo cuidadosamente, a fim de que possas chegar à luz da Verdade.   

 Em Alexandria

Os grandes do reino pediam a Catarina que se casasse. Catarina respondeu:

– Sou esposa do Rei Altíssimo, o Salvador do mundo. Eis o anel pelo qual o Senhor Jesus me declarou sua esposa.

Os príncipes continuaram a insistir. Catarina, querendo servir unicamente a Deus, pediu à mãe para retornarem à Alexandria, ao patrimônio que lhe pertencia por herança. Confiaram o reino a um governador e partiram. Sabinela sentia-se feliz com as boas disposições da filha. Mas, por esse tempo, Sabinela morreu em paz. Catarina, em Alexandria, administrava cuidadosamente seus bens e cuidava dos servos. Distribuía víveres e vestimentas entre eles. Da abundância da fortuna de seu pai ela fazia esmolas aos pobres. Os príncipes da Cilícia ficaram desapontados. Acusaram Catarina de cristã, ao Imperador Maxêncio, que deu ouvidos aos mensageiros dos príncipes. Determinou que Catarina fosse vigiada secretamente. Em breve, ele mesmo iria a Alexandria. Ficou sabendo que a jovem era sobrinha de seu primo Constantino, seu inimigo mortal, que o expulsara de Roma. 

Perseguições

 Estamos por volta do ano 307. Dioclesiano e Maximiano haviam favorecido a idolatria e perseguido a Igreja. Maxêncio, filho de Maximiano, quis incrementar o poder da idolatria. Ordenou que a Igreja de Cristo fosse perseguida e arrasada. Para melhor identificar os cristãos, organizou pomposa festa. No dia determinado, Maxêncio, ao som de trombetas, fez convocar os habitantes de Alexandria a se reunirem no templo dos deuses, a fim de oferecerem sacrifícios segundo as posses: os ricos, touros e carneiros; os pobres imolariam pássaros.

Por toda cidade ouvia-se a voz dos animais que eram sacrificados. O sangue das vítimas escorria pelo chão.

 Catarina, ao ouvir o som das trombetas, os gritos dos animais e todo o alarido que se fazia no templo dos ídolos, enviou mensageiros para se informar sobre os acontecimentos. Ciente do que era, dirigiu-se ao templo. Encontrou cristãos a chorar, a gemer e a se queixar. Por medo da morte, viram-se constrangidos a participar dos sacrifícios aos ídolos. A jovem Catarina, tocada de dor e de zelo, enfrentou o olhar do imperador.

 Reprovou-o pela ingratidão para com Deus que o investira de poder; e ele, em vez de reconhecer o seu Criador, sacrificava aos ídolos, inventados pelos homens, e lhes rendia as homenagens devidas ao Deus verdadeiro.

– Além do mais, Deus não se alegra com o sacrifício de animais. O que Deus quer de seus filhos é a fé, a prática da justiça e da misericórdia.

Enquanto a jovem falava, o imperador fixou-lhe o olhar. Considerava a beleza irradiante do semblante da virgem, a coragem e a força de seus argumentos. Quando ela terminou de falar, ele procurou refutar suas afirmações… apoiando-se na tradição dos antepassados,… Maxêncio, vendo que não podia vencê-la na sabedoria, convidou-a a residir em seu palácio e submeter-se às suas ordens.

 Corajosa e sábia

 Maxêncio, vencido nos mestres de sua crença, enfurecido por ver demonstrada a falsidade dos deuses, mandou que os sábios fossem queimados vivos, em praça pública, no dia seguinte.O imperador Maxêncio convocou os eruditos. Quando souberam do motivo, ficaram decepcionados. Julgaram ser afronta à sua sabedoria, disputar com a jovem que eles qualificaram de feiticeira, atrevida e orgulhosa. O imperador prometeu-lhes presentes e honras se a convencessem de erro. Catarina, ciente do duelo intelectual que a esperava, não se perturbou.

 Recomendou-se ao Senhor dizendo:

– Senhor Jesus Cristo, que te dignaste reconfortar teus servos para que não tremessem ante às perseguições; que lhes disseste: “Quando estiverdes diante dos reis e presidentes, não vos inquieteis sobre o que haveis de responder. Eu vos darei uma sabedoria à qual vossos adversários não poderão resistir, nem vos contradizer”6 , sê presente a mim, tua serva, e dá à minha boca a palavra exata a fim de que aqueles que vieram para insultar Teu nome, não tenham força e poder contra mim, mas que, ao contrário, pela virtude de Tua palavra, seus sentidos endurecidos se abram à Tua luz e que eles rendam honra e glória ao Teu nome, Senhor, que com o Pai e o Espírito Santo, reinas sempre, pelos séculos. Amém.

 Apareceu-lhe o Arcanjo São Miguel e lhe disse:

 – Não tenhas medo, Catarina! És agradável a Deus! Continua neste caminho. Jesus Cristo, amigo verdadeiro e fiel, te recompensará pelas lutas que travas por amor a Ele. Teus adversários serão tocados pela Graça. Em breve tua provação chegará ao fim.

 Maxêncio, em seu trono, mandou que entrassem os sábios. Ordenou que Catarina se apresentasse. Grande número de alexandrinos acorreu para ouvir a disputa.

Os sábios expuseram sua doutrina em defesa da autoridade dos deuses. O auditório aplaudiu. Catarina falou da divindade eterna sem princípio, do Criador do céu e da terra e da humanidade do Verbo, para a redenção do mundo. Tal foi a força de suas razões e a evidência das afirmações, que abalou as convicções dos 50 sábios e todos confessaram a verdade do cristianismo. Muitos, dentre o povo, se converteram a Cristo. Maxêncio, vencido nos mestres de sua crença, enfurecido por ver demonstrada a falsidade dos deuses, mandou que os sábios fossem queimados vivos, em praça pública, no dia seguinte.

 A prisão

 Por ordem do tirano, Catarina foi encarcerada. No dia seguinte, Maxêncio mandou vir Catarina à sua presença. Estava apaixonado pela beleza da jovem. Procurou conquistá-la por meio de promessas e de adulações. Prometeu-lhe as honras devidas a uma deusa e dedicar-lhe um templo. A jovem insistia junto ao imperador para que deixasse de fazer tais propostas. Fiel a Jesus Cristo, dispôs-se a aceitar os sofrimentos e o martírio. O monarca enfurecido, deu ordens para que a jovem fosse flagelada. Catarina continuou condenada ao cárcere escuro, sem comer e sem beber. Maxêncio precisou viajar.

 Em sua ausência, a Imperatriz chamou o General Porfírio e contou-lhe:

– Nesta noite tive um sonho que me fez sofrer. Vi uma jovem encerrada num cárcere, rodeada de luz e de muitas pessoas vestidas de branco. A jovem se aproximou de mim e colocou-me uma coroa na cabeça dizendo: Ó imperatriz, eis a coroa que o céu te envia, em nome de Jesus Cristo, meu Deus e meu Senhor!” Peço-te, Porfírio, que me acompanhes à prisão em que se encontra Catarina.

 Porfírio já perdera a fé nos deuses e olhava com simpatia o Cristianismo. Chegaram ao cárcere às primeiras horas da noite. Estava iluminado por claridade indescritível. Rescendia suave odor. Apavorados, caíram por terra.

 – Levantai-vos! disse Catarina. Não vos assusteis! Cristo quer dar-vos a vitória.

Catarina conversou longamente com a imperatriz e o general Porfírio que aderiram a Cristo. Animou-os a se prepararem para as conseqüências, inclusive para o martírio que sua adesão a Cristo lhes traria. Porfírio comandava a primeira coorte dos guardas imperiais: 500 homens. Confirmado na fé, anunciou a seus soldados a Boa Nova de Jesus. Muitos se converteram.

Uma pomba branca trazia um alimento divino que sustentava Catarina, na prisão. No 12º dia de prisão, Cristo lhe apareceu e disse:

 – Alegra-te! Não tenhas medo! Estou contigo e não te abandonarei jamais. Muitos devem a ti a fé em meu nome! 

   Martírio

 Maxêncio retornou da viagem. Convocou Catarina a comparecer no tribunal. O imperador ficou surpreso ao vê-la mais bela do que antes, apesar do jejum e da flagelação. Ordenou que os guardas fossem castigados se não revelassem quem a havia socorrido na prisão. Para defender a vida dos guardas, Catarina declarou:

 – Se estou com boa aparência é porque Aquele que eu confessei diante de ti, dignou-se alimentar Sua serva com pão celestial. Mais irritado ainda, Maxêncio acusa-a de feiticeira. Ordena que seja torturada e assassinada. A caminho do suplício, Catarina converteu a muitos que insistiam com ela para que atendesse aos desejos do imperador.

 Chursates, alto funcionário da corte, homem diabólico, veio ter com o imperador e lhe propôs condenar Catarina ao suplício da máquina com facas e pontas de ferro nas quatro grandes rodas que, ao se movimentarem em sentidos inversos umas das outras, despedaçariam o corpo colocado no meio delas. A máquina foi colocada na praça pública e Catarina foi trazida para o local. Enquanto preparavam o suplício, Catarina permaneceu tranqüila e rezou:

 – Ó Deus, Pai Todo-Poderoso, que não cessas de vir com bondade em socorro daqueles que Te invocam em seus perigos e em suas necessidades, atende-me. Peço-Te que esta máquina de tortura seja destruída a fim de que aqueles que estão aqui, tocados pelo Teu poder, glorifiquem Teu santo nome. Tu sabes que não oro por medo dos sofrimentos, pois desejo, de coração, chegar a Ti por qualquer gênero de morte, mas rezo por aqueles que, através de mim, devem crer em Ti e perseverem na confissão de Teu nome. Apenas a jovem acabara a oração, eis que um Anjo descendo do céu, num turbilhão, quebrou a máquina com tal ímpeto que os pedaços se projetaram sobre os algozes. Alguns morreram atingidos pelos pedaços das rodas e, outros, pelo raio.

 A Imperatriz foi ter com seu marido e lhe disse:

– Por que lutas contra o Senhor meu Deus? Que loucura te ergueres contra o Criador! Pensas que terás êxito? Reconhece, ao menos agora, nas rodas quebradas, o poder do Deus dos cristãos!

Muitos pagãos, vendo o sinal do céu, converteram-se a Jesus Cristo e diziam:

– Verdadeiramente, o Deus dos cristãos é muito grande. Confessamos Sua glória e somos Seus servidores, pois os teus deuses, ó imperador, são ídolos vãos e inúteis que não podem ajudar em nada aos seus adoradores e nem a eles mesmos.

Irritado ao ver que sua esposa professava a fé em Jesus Cristo ordenou aos carrascos que a levassem ao lugar do suplício para ser martirizada.

A imperatriz se encontrou com Catarina e lhe disse:

– Ó virgem de Jesus Cristo, ora por mim ao Senhor Deus por cuja glória iniciei este combate. Pede-lhe que ele confirme minha coragem, que fortaleça meu coração a fim de que, por meio do martírio, como afirmaste, obtenha aquilo que Cristo prometeu a Seus servos.

Catarina respondeu:

– Não tenhas medo, ó Rainha, amada pelo Senhor Deus, mas age com coragem, pois hoje, em troca de teu reino passageiro, receberás um reino eterno; em lugar de teu esposo mortal, farás aliança com o esposo imortal. Os sofrimentos passageiros conduzir-te-ão ao repouso eterno. Uma morte rápida, conduzir-te-á à vida que não terá fim. Hoje, em verdade, verás o dia em que se realizará teu nascimento. Encorajada, a rainha exortou os algozes a cumprirem logo as ordens do tirano. Os carrascos conduziram-na para fora da cidade. Com tenazes de ferro lhe arrancaram os seios; e, depois de cruéis tormentos, lhe deceparam a cabeça.

 Na manhã seguinte o imperador ficou sabendo que o general Porfírio e seus soldados embalsamaram e sepultaram o corpo da imperatriz. Encolerizado, ordenou que Porfírio e seus soldados fossem martirizados e decapitados. Por um edito expresso ordenou que seus corpos fossem devorados pelos cães. 

 Morte Gloriosa

 Alguns dias depois, o imperador Maxêncio pediu que lhe trouxessem Catarina e lhe disse:

– Embora sejas mais culpada do que todos aqueles que, seduzidos por tua arte mágica, incorreram, por tua causa, à dura sentença de morte, todavia, se te arrependeres e ofereceres incenso às nossas divindades onipotentes, poderás reinar feliz conosco e ser nomeada a primeira em nosso reino.

Catarina desdenhou as promessas do tirano e preferiu ser fiel a Jesus Cristo.

Maxêncio ordenou que fizessem Catarina sair de sua presença e que fosse imediatamente decapitada.

Enquanto Catarina se apressava em direção ao lugar fixado para o martírio, viu a multidão que a seguia e muitos choravam. Disse-lhes:

– Se alguma piedade natural vos comove a meu respeito, peço-vos: alegrai-vos comigo, pois vejo Nosso Senhor Jesus Cristo que me chama. Ele é a soberana recompensa dos santos, a beleza e a coroa das virgens.

Pediu ao carrasco lhe desse tempo para orar:

– Ó bom Jesus, que és a alegria e a salvação de todos os que crêem em Ti, eu Te agradeço, meu Salvador, por Te haveres dignado admitir-me entre Teus servos.

Usa de misericórdia para com Tua humilde serva a fim de que todos aqueles que, em memória de meu martírio, Te louvarem e glorificarem, ou que me invocarem na hora da morte, ou em qualquer angústia, tribulação ou necessidade, sintam o poderoso efeito de Tua ajuda. Que toda peste e fome, toda doença e contágio, que a mortal violência das tempestades se afastem para longe deles. Que em seus campos e lavouras a colheita seja abundante. Que o ar, em seu clima, seja doce e salutar. Que todos os elementos lhes sejam amigos. Que eles obtenham abundância de bens corporais e espirituais.

Eis que meu combate chega ao fim, ó bom Jesus; mas, belo Senhor Deus, ordena que meu corpo, que agora será entregue à morte pelo gládio, seja guardado dos cães vorazes, pelas mãos de Teus anjos, e que ele espere em paz o dia em que se reunirá à minha alma, na companhia das virgens bem-aventuradas, no paraíso da felicidade eterna.

Catarina estendeu o pescoço e disse ao algoz:

– Eis que Nosso Senhor Jesus Cristo me chama! Faze o que tens a fazer.

O algoz, de um só golpe, decepou-lhe a cabeça. 

 Veneração a Santa Catarina de Alexandria

 Segundo a tradição, os Anjos (monges) transportaram o corpo de Catarina para o mais alto pico do monte Sinai  que passou a ter seu nome.Desde os primeiros tempos do cristianismo, muitos fiéis, para fugirem das perseguições de Roma, e viverem mais unidos a Deus, no silêncio e na solidão, retiraram-se nos desertos do Sinai. Já no século III depois de Cristo encontramos monges no Sinai formando comunidades junto aos lugares santos: ao redor do monte Horeb, junto à “sarça ardente”8 , ao oásis Faran e a outros lugares, ao sul do Sinai.

Os primeiros monges sofreram privações, quer pela hostilidade da natureza, quer pelos assaltos de tribos nômades. Nada os detinha de se adentrarem nos desertos sinaíticos. Muitos deles viviam eremiticamente, nas grutas e dedicavam-se à oração. Nos dias festivos reuniam-se perto da “sarça ardente” para ouvirem o mestre espiritual e receberem a Eucaristia.A liberdade religiosa concedida pelo imperador Constantino9  propiciou o florescimento da vida monástica do Sinai.O imperador bizantino Justiniano (527 a 565) ordenou a construção do Mosteiro de Santa Catarina10  e da Igreja,11  no Monte Sinai.

A veneração a Santa Catarina teve novo impulso quando seu corpo foi descoberto no Monte Katharin, no século VIII12 . Tornou-se objeto de freqüentes visitas .Sua veneração propagou-se nas cristandades do Oriente, em toda Igreja Grega, no Ocidente, especialmente, na Igreja Latina.A Biblioteca Nacional da França possui a Vida de Santa Catarina em dois manuscritos de redação latina anteriores às Cruzadas…Catarina é um nome comum de batismo. Numerosas Igrejas e Capelas, localidades , tanto no Oriente como no Ocidente, são colocadas sob sua proteção.

Ela é honrada como padroeira da Congregação das Irmãs de Santa Catarina, dos jovens, das faculdades de filosofia das universidades, das escolas cristãs, da corporação dos moleiros (donos de moinho) e dos fabricantes de carros. É um dos quatorze santos auxiliares. Sua festa é celebrada no dia 25 de novembro. 

 Oração

 Senhor, nosso Deus, nas tribulações Tu nos revelas o poder de Tua misericórdia. De Ti, Santa Catarina recebeu a graça de suportar o martírio. De Ti nos venha também a força de confiar em Teu auxílio em todas as necessidades. Isto Te pedimos por Jesus Cristo. Amém.

 Fonte: http://www.madreregina.com.br/vidascnw.html

  

 JOÃO PAULO II 

CERIMÓNIA DE BOAS-VINDAS


 NO AEROPORTO INTERNACIONAL DO CAIRO

24 de Fevereiro de 2000

A fama de Santa Catarina de Alexandria sobrevive na devoção crista e no nome de muitas igrejas em todas as partes do mundo.

Fonte:http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/travels/documents/hf_jp-ii_spe_20000224_egypt-arrival_po.html

Biografia de Santa Maria Madalena por Felipe Aquino

 Embora fosse apenas uma pecadora famosa de sua cidade, Maria Madalena, nascida em Magdala, na Galiléia, teve uma participação importantíssima na passagem de Jesus pela Terra. Ela foi perdoada publicamente por ele, que a tomou como exemplo de que seu Pai acolhia a todos, desde que chegassem ao arrependimento. Além disso, foi, ainda, a escolhida para ser a primeira testemunha da ressurreição.

Madalena ouvira falar de Jesus, pois a fama dos milagres dele corria entre o povo. Ele já ressuscitara mortos, devolvera a visão a cegos, colocara voz na boca de mudos e audição nos ouvidos de surdos, além de fazer andar paralíticos e curar doentes de todos os tipos. Assim, no dia em que Jesus participava de um banquete na casa de Simão, o fariseu, Maria Madalena resolveu fazer uma confissão pública de arrependimento, porque o seu pecado era público, como diz a Sagrada Escritura.

Invadindo o local da ceia, ela não ousou olhar para Jesus. Apenas ajoelhou-se na sua frente, banhou seus pés com lágrimas e enxugou-os com os cabelos, num pedido de perdão mudo. Impressionados, os presentes imaginavam que ela fosse ser repudiada pelo Mestre, que, todavia, disse à mulher: “Foram-lhes perdoados os seus muitos pecados, porque você muito amou”. Com o coração em paz, ela saiu dali ainda em prantos, mas feliz. A partir desse dia, tornou-se uma das mais fiéis seguidoras do Messias.

 

Está escrito: “No dia da Páscoa, Jesus apareceu a ela e a mandou ir anunciar a sua ressurreição aos discípulos”. Depois disso, segundo uma antiga tradição grega, Maria Madalena teria ido viver em Éfeso, onde morreu. Lá, tinham ido morar também João, o apóstolo predileto de Jesus, e Maria, Mãe de Jesus.

A liturgia bizantina celebra-a como “Apóstola dos Apóstolos”, para que continue a sua missão de anunciar a ressurreição do Senhor no seu rito apostólico. Festejada no dia 22 de julho, santa Maria Madalena tornou-se a padroeira de muitas ordens religiosas, sendo venerada até mesmo pelos padres predicadores.Ela estava ao lado de Maria quando da crucificação do Senhor e, na madrugada da Páscoa, era tanta a saudade que sentia de Jesus que foi chorar à porta do sepulcro. De repente, ouviu a voz, que jamais esqueceria, chamar seu nome. Assim, as profecias cumpriram-se diante de seus olhos. Jesus ressuscitara!

 http://www.cleofas.com.br/virtual/texto.php?doc=SANTODIA&id=scd0203

Biografia de Santa Maria Madalena pelo Vaticano

 Papa Bento XVI

 …O evangelista João narra que Pedro e ele mesmo, tendo ouvido a notícia dada por Maria Madalena, tinham corrido, quase em competição, ao sepulcro (cf. Jo 20, 3s). Os Padres da Igreja viram neste seu rápido apressar-se para o túmulo vazio uma exortação daquela única competição legítima entre crentes: a competição na busca de Cristo. E o que dizer de Maria Madalena?

Chorando, permanece ao lado do túmulo vazio unicamente com o desejo de saber para onde levaram o seu Mestre. Reencontra-o e reconhece-o quando Ele a chama pelo nome (cf. Jo 20, 11-18). Também nós, se procurarmos o Senhor com espírito simples e sincero, o encontraremos, aliás, será Ele mesmo que virá ao nosso encontro; far-se-á reconhecer, chamar-nos-á pelo nome, isto é, far-nos-á entrar na intimidade do seu amor.

 http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/audiences/2007/documents/hf_ben-xvi_aud_20070411_po.html

 João Paulo II

 Graças ao seu encontro com o Senhor, Maria Madalena supera o desânimo e a tristeza causados pela morte do Mestre (cf. Jo 20, 11-18). Na sua nova dimensão pascal, Jesus convida-a ir anunciar aos discípulos que Ele ressuscitou: « Vai a meus irmãos » (Jo 20, 17). É por isso que Maria Madalena pôde ser chamada « a apóstola dos apóstolos ».(14) Por sua vez, os discípulos de Emaús, depois de terem encontrado e reconhecido o Senhor ressuscitado, voltam para Jerusalém para contar aos apóstolos e aos outros discípulos o que lhes tinha acontecido (cf. Lc 24, 13-35). Jesus, « começando por Moisés, percorrendo todos os profetas, explicava-lhes o que dEle se achava dito em todas as Escrituras » (Lc 24, 27).

 http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/apost_exhortations/documents/hf_jp-ii_exh_22011999_ecclesia-in-america_po.html

 A liturgia de hoje oferece-nos um estímulo ulterior:  com efeito, no dia 22 de Julho celebra-se a memória de Santa Maria Madalena, discípula do Senhor e primeira testemunha da sua Ressurreição. A vicissitude de Maria de Magdala mostra como é decisivo que cada ser humano encontre Cristo pessoalmente.

 http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/angelus/2001/documents/hf_jp-ii_ang_20010722_po.html

 Citações de Maria Madalena no Evangelho

1.A primeira a ver Jesus Ressuscitado

 (Evangelho de Marcos)

 Passado o sábado, Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, e Salomé compraram aromas para ungir Jesus. E no primeiro dia da semana, foram muito cedo ao sepulcro, mal o sol havia despontado. E diziam entre si: Quem nos há de remover a pedra da entrada do sepulcro? Levantando os olhos, elas viram removida a pedra, que era muito grande. Entrando no sepulcro, viram, sentado do lado direito, um jovem, vestido de roupas brancas, e assustaram-se. Ele lhes falou: Não tenhais medo. Buscais Jesus de Nazaré, que foi crucificado. Ele ressuscitou, já não está aqui. Eis o lugar onde o depositaram. Mas ide, dizei a seus discípulos e a Pedro que ele vos precede na Galiléia. Lá o vereis como vos disse. Elas saíram do sepulcro e fugiram trêmulas e amedrontadas. E a ninguém disseram coisa alguma por causa do medo. Tendo Jesus ressuscitado de manhã, no primeiro dia da semana apareceu primeiramente a Maria de Magdala, de quem tinha expulsado sete demônios. Foi ela noticiá-lo aos que estiveram com ele, os quais estavam aflitos e chorosos. Quando souberam que Jesus vivia e que ela o tinha visto, não quiseram acreditar. Mais tarde, ele apareceu sob outra forma a dois entre eles que iam para o campo. Eles foram anunciá-lo aos demais. Mas estes tampouco acreditaram. Por fim apareceu aos Onze, quando estavam sentados à mesa, e censurou-lhes a incredulidade e dureza de coração, por não acreditarem nos que o tinham visto ressuscitado. E disse-lhes: Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura.(Mc 16, 1-15)

 (Evangelho de Mateus)

 Depois do sábado, quando amanhecia o primeiro dia da semana, Maria Madalena e a outra Maria foram ver o túmulo. E eis que houve um violento tremor de terra: um anjo do Senhor desceu do céu, rolou a pedra e sentou-se sobre ela. Resplandecia como relâmpago e suas vestes eram brancas como a neve. Vendo isto, os guardas pensaram que morreriam de pavor. Mas o anjo disse às mulheres: Não temais! Sei que procurais Jesus, que foi crucificado. Não está aqui: ressuscitou como disse. Vinde e vede o lugar em que ele repousou. Ide depressa e dizei aos discípulos que ele ressuscitou dos mortos. Ele vos precede na Galiléia. Lá o haveis de rever, eu vo-lo disse. Elas se afastaram prontamente do túmulo com certo receio, mas ao mesmo tempo com alegria, e correram a dar a boa nova aos discípulos. Nesse momento, Jesus apresentou-se diante delas e disse-lhes: Salve! Aproximaram-se elas e, prostradas diante dele, beijaram-lhe os pés. Disse-lhes Jesus: Não temais! Ide dizer aos meus irmãos que se dirijam à Galiléia, pois é lá que eles me verão. Enquanto elas voltavam, alguns homens da guarda já estavam na cidade para anunciar o acontecimento aos príncipes dos sacerdotes. Reuniram-se estes em conselho com os anciãos. Deram aos soldados uma importante soma de dinheiro, ordenando-lhes: Vós direis que seus discípulos vieram retirá-lo à noite, enquanto dormíeis. Se o governador vier a sabê-lo, nós o acalmaremos e vos tiraremos de dificuldades. Os soldados receberam o dinheiro e seguiram suas instruções. E esta versão é ainda hoje espalhada entre os judeus. Os onze discípulos foram para a Galiléia, para a montanha que Jesus lhes tinha designado. Quando o viram, adoraram-no; entretanto, alguns hesitavam ainda. Mas Jesus, aproximando-se, lhes disse: Toda autoridade me foi dada no céu e na terra. Ide, pois, e ensinai a todas as nações; batizai-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Ensinai-as a observar tudo o que vos prescrevi. Eis que estou convosco todos os dias, até o fim do mundo.(Mt 28, 1-20)

 (Evangelho de João)

 No primeiro dia que se seguia ao sábado, Maria Madalena foi ao sepulcro, de manhã cedo, quando ainda estava escuro. Viu a pedra removida do sepulcro. Correu e foi dizer a Simão Pedro e ao outro discípulo a quem Jesus amava: Tiraram o Senhor do sepulcro, e não sabemos onde o puseram! Saiu então Pedro com aquele outro discípulo, e foram ao sepulcro. Corriam juntos, mas aquele outro discípulo correu mais depressa do que Pedro e chegou primeiro ao sepulcro. Inclinou-se e viu ali os panos no chão, mas não entrou. Chegou Simão Pedro que o seguia, entrou no sepulcro e viu os panos postos no chão. Viu também o sudário que estivera sobre a cabeça de Jesus. Não estava, porém, com os panos, mas enrolado num lugar à parte. Então entrou também o discípulo que havia chegado primeiro ao sepulcro. Viu e creu. Em verdade, ainda não haviam entendido a Escritura, segundo a qual Jesus devia ressuscitar dentre os mortos. Os discípulos, então, voltaram para as suas casas. Entretanto, Maria se conservava do lado de fora perto do sepulcro e chorava. Chorando, inclinou-se para olhar dentro do sepulcro. Viu dois anjos vestidos de branco, sentados onde estivera o corpo de Jesus, um à cabeceira e outro aos pés. Eles lhe perguntaram: Mulher, por que choras? Ela respondeu: Porque levaram o meu Senhor, e não sei onde o puseram. Ditas estas palavras, voltou-se para trás e viu Jesus em pé, mas não o reconheceu. Perguntou-lhe Jesus: Mulher, por que choras? Quem procuras? Supondo ela que fosse o jardineiro, respondeu: Senhor, se tu o tiraste, dize-me onde o puseste e eu o irei buscar. Disse-lhe Jesus: Maria! Voltando-se ela, exclamou em hebraico: Rabôni! (que quer dizer Mestre). Disse-lhe Jesus: Não me retenhas, porque ainda não subi a meu Pai, mas vai a meus irmãos e dize-lhes: Subo para meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus. Maria Madalena correu para anunciar aos discípulos que ela tinha visto o Senhor e contou o que ele lhe tinha falado. Na tarde do mesmo dia, que era o primeiro da semana, os discípulos tinham fechado as portas do lugar onde se achavam, por medo dos judeus. Jesus veio e pôs-se no meio deles. Disse-lhes ele: A paz esteja convosco! Dito isso, mostrou-lhes as mãos e o lado. Os discípulos alegraram-se ao ver o Senhor. Disse-lhes outra vez: A paz esteja convosco! Como o Pai me enviou, assim também eu vos envio a vós. Depois dessas palavras, soprou sobre eles dizendo-lhes: Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos. (João 21, 1-23).

 (Evangelho de Lucas)

 No primeiro dia da semana, muito cedo, dirigiram-se ao sepulcro com os aromas que haviam preparado. Acharam a pedra removida longe da abertura do sepulcro. Entraram, mas não encontraram o corpo do Senhor Jesus. Não sabiam elas o que pensar, quando apareceram em frente delas dois personagens com vestes resplandecentes. Como estivessem amedrontadas e voltassem o rosto para o chão, disseram-lhes eles: Por que buscais entre os mortos aquele que está vivo? Não está aqui, mas ressuscitou. Lembrai-vos de como ele vos disse, quando ainda estava na Galiléia: O Filho do Homem deve ser entregue nas mãos dos pecadores e crucificado, mas ressuscitará ao terceiro dia. Então elas se lembraram das palavras de Jesus. Voltando do sepulcro, contaram tudo isso aos Onze e a todos os demais. Eram elas Maria Madalena, Joana e Maria, mãe de Tiago; as outras suas amigas relataram aos apóstolos a mesma coisa. Mas essas notícias pareciam-lhes como um delírio, e não lhes deram crédito. Contudo, Pedro correu ao sepulcro; inclinando-se para olhar, viu só os panos de linho na terra. Depois, retirou-se para a sua casa, admirado do que acontecera.(Lc 24, 1-12).

2.Estava junto de Jesus após sua morte

 Jesus de novo lançou um grande brado, e entregou a alma. E eis que o véu do templo se rasgou em duas partes de alto a baixo, a terra tremeu, fenderam-se as rochas. Os sepulcros se abriram e os corpos de muitos justos ressuscitaram. Saindo de suas sepulturas, entraram na Cidade Santa depois da ressurreição de Jesus e apareceram a muitas pessoas. O centurião e seus homens que montavam guarda a Jesus, diante do estremecimento da terra e de tudo o que se passava, disseram entre si, possuídos de grande temor: Verdadeiramente, este homem era Filho de Deus!Havia ali também algumas mulheres que de longe olhavam; tinham seguido Jesus desde a Galiléia para o servir. Entre elas se achavam Maria Madalena e Maria, mãe de Tiago e de José, e a mãe dos filhos de Zebedeu. À tardinha, um homem rico de Arimatéia, chamado José, que era também discípulo de Jesus, foi procurar Pilatos e pediu-lhe o corpo de Jesus. Pilatos cedeu-o. José tomou o corpo, envolveu-o num lençol branco e o depositou num sepulcro novo, que tinha mandado talhar para si na rocha. Depois rolou uma grande pedra à entrada do sepulcro e foi-se embora. Maria Madalena e a outra Maria ficaram lá, sentadas defronte do túmulo.(Mt 27 50-61)

3.Estava junto de Jesus no momento da Cruz

 Junto à cruz de Jesus estavam de pé sua mãe, a irmã de sua mãe, Maria, mulher de Cléofas, e Maria Madalena.(João 19, 25)

 4.Foi convertida por Jesus.

 Depois disso, Jesus andava pelas cidades e aldeias anunciando a boa nova do Reino de Deus. Os Doze estavam com ele, como também algumas mulheres que tinham sido livradas de espíritos malignos e curadas de enfermidades: Maria, chamada Madalena, da qual tinham saído sete demônios;(Lc 8, 2).

5.Observou com atenção onde fora colocado o corpo de Jesus para que fosse colocar Nele aromas, no dia de domingo.  

 Depois de ter comprado um pano de linho, José tirou-o da cruz, envolveu-o no pano e depositou-o num sepulcro escavado na rocha, rolando uma pedra para fechar a entrada. Maria Madalena e Maria, mãe de José, observavam onde o depositavam.(Mc 15, 46-47).

 Passado o sábado, Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, e Salomé compraram aromas para ungir Jesus. E no primeiro dia da semana, foram muito cedo ao sepulcro, mal o sol havia despontado.(Mc 16, 1-2)

 

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