Biografia dos Santos

NOSSA SENHORA DE GUADALUPE

Posted on: junho 27, 2010

Aparição de Nossa Senhora de Guadalupe

SANTA MISSA NO 450º ANIVERSÁRIO DAS APARIÇÕES
DE NOSSA SENHORA DE GUADALUPE

HOMILIA DO PAPA JOÃO PAULO II

Altar da Cátedra – Basílica Vaticana
Sábado, 12 de Dezembro de 1981

 Senhores Cardeais
queridos Irmãos no Episcopado,
muito amados irmãos e irmãs

1. Com a celebração desta Eucaristia quis participar convosco, junto do altar do Senhor, num acto de homenagem filial à Mãe de Cristo e da Igreja, de quem o povo mexicano se aproxima especialmente nestes dias, ao comemorar os 450 anos da presença de Maria Santíssima de Guadalupe, no Tepeyac.

Volto assim, peregrino de fé, como naquela manhã de 27 de Janeiro de 1979, para continuar o acto mariano que realizei no Santuário do povo do México e de toda a América Latina, no qual desde há séculos se mostra a maternidade de Maria. Por isso, sinto que este lugar sagrado onde nos encontramos, a Basílica de São Pedro, se prolonga, com a ajuda da imagem televisada, até à Basílica guadalupana, sempre coração espiritual do México e de modo especial nesta singular circunstância.

Mas não só aí, e nem sequer apenas em toda a Nação mexicana, ressoa este brado de fé cristã, mariana e eclesial; são tantíssimos os corações que, de todas as Nações da América, de Norte a Sul, convergem em peregrinação devota para a Mãe de Guadalupe. Prova disso é a significativa participação neste acto, em uníssono com as gentes dos seus respectivos Povos, dos Representantes dos Países latino-americanos e da Península Ibérica, unidos por comuns laços de cultura e devoção mariana.

Bem desejaria que a minha presença entre vós fosse também física; mas não sendo possível, enviei-vos como Legado meu o Cardeal Secretário de Estado Agostino Casaroli, para ser uma prolongação minha durante estas celebrações e sinal da minha particular benevolência.

2. A mensagem guadalupana e a presença da venerada Imagem de Nossa Senhora que preside, ao seu novo Templo, como o fizera cerca de três séculos na anterior basílica, é um facto religioso de primeira, grandeza, que de maneira determinante marcou os caminhos da evangelização no continente americano e selou a configuração do catolicismo do povo mexicano e as suas expressões vitais.

Essa presença de Maria na vida do povo, foi característica inseparável da arraigada religiosidade dos mexicanos. Boa prova disso têm sido as multidões incessantes que, no decorrer dos séculos passados, foram rodeando os pés da Mãe e Senhora, e ali se renovaram no seu propósito de fidelidade à fé cristã. Prova evidente são também os quase oito milhões de pessoas que anualmente peregrinam a caminho do seu Templo, assim como a presença de Maria em tantos lares, fábricas, caminhos, igrejas e montanhas do País.

Esse facto guadalupano encerra elementos construtivos e expressivos que abarcam profundos valores religiosos, que é preciso saber reforçar a fim de que sejam, cada vez mais, canais de evangelização futura. Limitar-me-ei a indicar três aspectos que revestem particular significado.

3. Na mensagem guadalupana sobressai com singular energia a constante referência à maternidade virginal de Maria. O povo fiel, na verdade, sempre teve viva consciência de que a boa Mãe do céu de quem, implorante, se aproxima, é a “perfeita sempre Virgem” da antiga tradição cristã, a “aeiparthénos” dos Padres gregos, a donzela virgem do Evangelho (cf. Mt 1, 18-25; Lc 1, 26-38), a “cheia de graça” (Lc 1, 28), objecto de uma singularíssima benevolência divina que a destina a ser a Mãe do Deus encarnado, a Theotókos do Concílio de Éfeso, a Deípara venerada na continuidade do Magistério eclesial até aos nossos dias.

Diante dessa realidade tão rica e profunda, ainda captada às vezes de maneira simples ou incompleta, mas em sincero espírito de fé e obediência à Igreja, esse mesmo povo, católico na maioria e guadalupano na totalidade, reaccionou com entusiástica manifestação de amor mariano, que o uniu num mesmo sentimento colectivo e tornou para ele mais simbólica ainda a colina de Tepeyac. Porque ali se encontrou a si mesmo, na profissão da sua fervorosa religiosidade mariana, a mesma dos outros povos da América, cultivada também em distintos santuários, como pude verificar pessoalmente durante a minha visita ao Brasil.

4. Outro aspecto fundamental na mensagem guadalupana é a maternidade espiritual de Maria sobre todos os homens, tão intimamente unida à maternidade divina. Com efeito, na devoção guadalupana, aparece desde o princípio esse traço característico, que os Pastores inculcaram sempre e os fiéis viveram com firme confiança. Traço aprendido ao contemplarem Maria, no seu papel singular dentro do magistério da Igreja, derivado da sua missão de Mãe do Salvador.

Precisamente porque Ela aceita colaborar livremente no plano salvífico de Deus, participa de maneira activa, unida ao seu Filho, na obra de salvação dos homens. Sobre esta função expressa-se de modo luminoso o Concílio Vaticano II: Maria, “concebendo Cristo, gerando-O, alimentando-O, apresentando-O ao Pai no templo e padecendo com o seu Filho quando este morria na cruz, cooperou, de forma inteiramente sem igual, na obra do Salvador com a obediência, a fé, a esperança e a ardente caridade, com o fim de restaurai’ a vicia. sobrenatural. das almas. Por isso é nossa mãe na ordem da graça” (Lumen gentium, 61).

É ensinamento que, ao assinalar a cooperação da Virgem Santíssima para restaurar a vida sobrenatural das almas, fala da sua missão como Mãe espiritual dos homens. Por isso lhe tributa a Igreja a sua homenagem de amor ardente “quando considera a Maternidade espiritual de Maria para com todos os membros do Corpo Místico” (Marialis cultus, 22). Nesta mesma linha, de ensinamento, o Papa Paulo VI declarará coerentemente Maria como “Mãe da Igreja” (cf. AAS 1964, 1007). Por isto mesmo quis eu confiar também à Mãe de Deus todos os povos da terra (7 de junho e 8 de Dezembro de 1981).

Estes conteúdos doutrinais foram íntima vivência, repetida até hoje na história religiosa latino-americana, e mais em concreto do povo mexicano, sempre animado nessa linha pelos seus Pastores. Tarefa começada pela significativa figura episcopal de Frei Juan de Zumárraga e continuada zelosamente por todos os seus irmãos e sucessores. Tratou-se de um empenho manifestado porfiadamente em todas as partes, e realizado de maneira singular no Santuário guadalupano, ponto de encontro comum. Assim foi também neste ano centenário, que indica precisamente o quadringentésimo quinquagésimo aniversário da arquidiocese do México. Uma vez mais, o povo fiel experimentou a presença, consoladora, e alentadora da mãe, como a sentiu sempre no decorrer da sua história.

5. Guadalupe e a sua mensagem são, finalmente, o acontecimento que cria e expressa da maneira mais cabal os traços salientes da cultura própria do povo mexicano, não como alguma coisa que se impusesse de fora, mas em harmonia com as suas tradições culturais.

Com efeito, na dominadora cultura azteca, penetra, dez anos depois da conquista, o facto evangelizador de Maria de Guadalupe, entendida como o novo sol, criador de harmonia entre os elementos em luta e iniciador doutra era. Essa presença evangelizadora, com a imagem mestiça de Maria que une em si duas raças, constitui um marco histórico de criatividade conatural de uma nova cultura cristã num País e, paralelamente, num continente. Por isso poderá dizer justamente a Conferência de Puebla, que “O Evangelho encarnado nos nossos povos os congrega numa originalidade histórica cultural a que chamamos América Latina. Essa identidade simboliza-se muito luminosamente no rosto mestiço de Maria, de Guadalupe que se ergue no princípio da Evangelização” (Puebla, 446). Por isso, na minha visita ao Santuário guadalupano afirmei que “a partir do momento em que o índio Juan Diego falou da doce Senhora de Tepéyac, Tu, Mãe de Guadalupe entras de modo determinante na vida cristã do povo do México” (Homilia, 27 de Janeiro de 1979). Efectivamente, a coesão à volta dos valores essenciais da cultura da Nação mexicana realiza-se à roda de um valor fundamental, que para o mexicano — assim como para o latino-americano em geral — foi Cristo, trazido de modo apreciável por Maria de Guadalupe. Por isso Ela, com óbvia referência a seu Filho, foi o centro da religiosidade popular do mexicano e da sua cultura, e esteve presente nos momentos decisivos da sua vida individual e colectiva.

6. Esta realidade cultural, com a presença tão sentida da Mãe e Senhora, é elemento potencial que deve ser aproveitado em todas as suas virtualidades evangelizadoras diante do futuro, a fim de conduzir o povo fiel, por mão de Maria, até Cristo, centro de toda a vida cristã. De tal maneira que a piedade não deixe de colocar cada Vez mais em relevo “o vínculo indissolúvel e a essencial referência da Virgem ao Salvador divino (Marialis cultus, 25).

Não há dúvida que — desde a raiz religiosa, que inspira todas as outras ordens de cultura; desde a própria vinculação de fé em Deus, e desde a nota mariana — haverá que buscar no México, assim como nas outras Nações, as condutas de comunhão e participação que levem a que se evangelizem os diversos sectores da sociedade.

Daí haverá que tirar inspiração para um urgente compromisso em favor da justiça, para tratar seriamente de preencher os graves desníveis existentes nos campos económico, social e cultural; e para construir essa unidade na liberdade que façam do México e de cada um dos Países da América, uma sociedade solidária e responsavelmente participada, uma autêntica e inviolável comunidade de fé, fiel à sua essência e dinamicamente aberta à conveniente integração — desde a comunhão de credo — no nível nacional, latino-americano e universal.

Nessa ampla perspectiva, guiado por Nossa Senhora de Guadalupe, padroeira da América Latina, dirijo o meu pensamento e simpatia a todos os povos da área, especialmente aos que sofrem maiores privações, e de maneira particular aos da América Central, aqueles sobretudo provados hoje por duras e dolorosas situações que tanta preocupação despertam, no meu ânimo e no mundo, pelas suas consequências negativas para uma pacífica convivência e pelo risco que encerram mesmo para a ordem internacional.

É necessário e urgente que a própria fé mariana e cristã leve à acção generalizada em favor da paz para uns povos que tanto estão sofrendo; é necessário pôr em prática medidas eficazes de justiça, que ultrapassem a crescente distância entre os que vivem na opulência e aqueles que estão destituídos do mais indispensável; há-de vencer-se, com procedimentos que o ataquem na sua raiz mesma, o fenómeno subversão-repressão que alimenta a espiral de uma funesta violência; há-de restabelecer-se, na mente e nas acções de todos, a estima do valor supremo e tutela da sacralidade da vida; há-de eliminar-se todo o tipo de tortura que degrada o homem, respeitando pelo contrário integralmente os direitos humanos e religiosos da pessoa; é necessário cuidar com diligência a promoção das pessoas, sem imposições que impeçam a sua realização livre como cidadãos, membros de uma família e comunidade nacional.

Não pode omitir-se a devida reforma de certas estruturas injustas, evitando ao mesmo tempo métodos de acção que obedeçam a concepções de luta de classes; há-de promover-se a educação cultural de todos, assegurando a dimensão humana e religiosa de cada cidadão ou pai de família.

Um compromisso de moralidade pública há-de ser o primeiro requisito na implantação de uma sólida moralidade particular; e se é certo que devem salvaguardar-se as exigências de uma ordenada convivência, nunca a pessoa humana e os seus valores hão-de ficar sujeitos a outras exigências ou finalidades, nem ser também vítimas de ideologias materialistas — de qualquer tipo — que sufocam no ser humano a sua dimensão transcendente.

O amor ao homem imagem de Deus, a opção preferencial pelo mais pobre — sem exclusivismos nem ódios —, o respeito pela sua dignidade e vocação terrestre e eterna, devem ser o parâmetro que guie todo aquele que diga inspirar-se nos valores da fé.

Nesse espírito de serviço ao homem, incluindo o seu reflexo naciónal e internacional, aceitei — poucos dias antes da minha visita ao santuário guadalupano — a obra de mediação entre as Nações irmãs da Argentina e do Chile.

Tratava-se de evitar imediatamente, e evitou-se, um conflito bélico que parecia iminente e teria funestas consequências. Há quase três anos que se está a trabalhar nessa obra, sem poupar esforços nem tempo.

Todos convido a que peçam à Mãe de Guadalupe depressa se resolva essa longa e penosa controvérsia. As vantagens serão grandíssimas para os dois povos interessados — assim como para toda a América Latina e mesmo para o mundo — que desejam ardentemente esse resultado. Prova disso são as numerosas assinaturas recolhidas entre os jovens, às quais vão ser depositadas diante deste altar. Oxalá sejam estes jovens os arautos da paz.

Sejam pesados serenamente os sacrifícios que implica a concórdia. Ver-se-á então que vale a pena enfrentá-los, olhando para os bens superiores.

7. Aos pés de Nossa Senhora de Guadalupe depósito estas intenções, junto com as riquezas e dificuldades da América Latina inteira.

Sê tu, Mãe, aquela que guarde os Bispos, sacerdotes, religiosos e religiosas para que, imbuídos de um profundo amor à Igreja e generosamente fiéis à sua missão, procedam com o devido discernimento no serviço eclesial que desempenham, e edifiquem na verdade e na caridade o povo de Deus. Sê tu quem inspire os governantes, para que, respeitando escrupulosamente os direitos de cada cidadão e em espírito de serviço ao seu povo, busquem sempre a paz, a justiça, a concórdia, o verdadeiro progresso e a moralidade em toda a vida pública. Sê tu quem ilumine com propósitos de equidade e rectidão todos os que têm nas suas mãos o poder económico e social, para não esquecerem as exigências da justiça nas relações comunitárias, sobretudo com os menos favorecidos. Ajuda os jovens e estudantes, a fim de que se preparem bem para infundir novas forças de honestidade, competência e generosidade nas relações sociais. Olha com bondade para os trabalhadores do campo, a fim de que se lhes procure um nível de vida mais justo e decoroso. Protege os irmãos de Juan Diego, os indígenas, para que se lhes conceda lugar digno na sociedade, sem marginalizações nem discriminações. Cuida das crianças, para que tenham sempre o bom exemplo e amor de seus pais. Conserva na unidade as famílias, para que sejam fortes e perseverantes no amor cristão.

E unia vez que és Imperatriz das Américas, faz chegar a tua protecção a todas as Nações do Continente americano e às que aí levaram a fé e o amor a Ti.

Faz por último, Mãe, que esta celebração centenária do povo mexicano, a qual assinala a sua fidelidade mariana nos passados 450 anos, seja, em Ti, princípio de uma renovada fidelidade a Cristo e à Sua Igreja. Assim seja.

Fonte:http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/homilies/1981/documents/hf_jp-ii_hom_19811212_guadalupe_po.html

 A aparição da Virgem de Guadalupe  – (Vaticano)

JUAN DIEGO nasceu em 1474 em Cuauhtitlan (México). O seu nome era Cuauhtitlantoadzin; baptizado em 1524, com 50 anos de idade, mudou o nome para Juan Diego segundo o hábito dos missionários que davam o nome de João a todos os baptizados, acrescentando-lhe outro particular, neste caso Diogo, conservando entretanto o nome indígena.

O seu baptismo foi fruto de uma convicção profunda, mudando o seu pensamento, o seu ser e o seu modo de vida. Também se baptizaram alguns dos seus parentes, entre os quais um tio a quem foi dado o nome de João Bernardino e sua esposa recebeu o nome de Maria Lúcia. O missionário responsável pela evangelização e catequização desta tribo foi o franciscano Frei Toríbio de Benavente. Juan Diego tornou-se um cristão fervoroso e fazia um percurso de vinte quilómetros, na ida e volta, para participar na santa Missa em Tlatelolco. Aproveitava estas celebrações para aumentar a sua instrução religiosa e, ao mesmo tempo, venerar a Virgem Mãe de Jesus. Isto revela a profundidade da sua fé e Juan Diego começou a ser conhecido como homem piedoso, de intensa espiritualidade, amigo da oração e concentrado na meditação dos mistérios religiosos.

Tido como peregrino e, ao mesmo tempo, solitário, a sua fé era vivida com fervor até ao sacrifício. Pobre e humilde, fugindo às honras, nada amigo da confusão, demonstrou sempre uma atitude positiva perante os novos valores cristãos, onde a pureza de vida ganhou uma forma original, pois casou com Maria Lúcia, outra cristã, de quem ficou viúvo pouco depois. Constava que viviam como irmãos, fruto da sua livre escolha.

Nesta ocasião, vivia em Tulpetlac, perto do seu tio, com quem permaneceu após a morte da sua esposa, ajudando-o nos trabalhos do campo.

A 9 de Dezembro de 1531, Juan Diego dirigia-se como de costume à celebração eucarística quando, em Tepeyac, ouviu uma voz que o chamava como se há muito o conhecesse e o esperasse, convidando-o para lhe falar e confiar uma missão. Ouviu:  “Juanito, Juan Dieguito!”. Olha o céu azul e vê uma Senhora que o convida a aproximar-se e entre eles estabelece-se um pequeno diálogo.

“Juanito, o mais pequeno dos meus filhos, onde vais?”.

“Senhora, minha pequena, vou a tua casa, na cidade, para participar nas coisas divinas e aprender os ensinamentos que nos dão os nossos sacerdotes, delegados do nosso Senhor”.

“Quero que tu, o mais pequeno dos meus filhos, saiba que eu sou a sempre Virgem Maria, Mãe do verdadeiro Deus, Aquele que cria todas as coisas, dá a vida e é Senhor do céu e da terra. Eu sou também a vossa Mãe, cheia de misericórdia, e por isso desejo vivamente que aqui me seja construído um templo, para que nele possa mostrar o meu amor, a minha compaixão, dar-te ajuda e defesa a ti, aos habitantes deste lugar, a todos os meus devotos que me invocam e têm confiança em mim. Neste lugar, quero ouvir os seus lamentos, vir ao encontro de todas as suas misérias, sofrimentos e dores. Agora, para realizar quanto deseja a minha benignidade, deves ir à casa do prelado do México para lhe dizer que sou Eu que te envio. Manifestar-lhe-ás o meu desejo de ter aqui um templo na esplanada. Presta atenção para lhe dizer tudo quanto viste e ouviste. Prometo-te a minha protecção, far-te-ei feliz e dar-te-ei uma grande recompensa por este dever difícil que te confio. Agora que conheces a minha vontade, meu filho tão pequenino, vai e põe nisto toda a tua diligência”.

Ele inclinou-se diante da Senhora e disse-lhe: 

“Minha Senhora, vou fazer já o que me mandas. Eu sou o teu humilde servo. Vou-me embora”.
Juan Diego chega à casa do bispo, a quem expõe as palavras da Senhora, mas ele, desconfiando da ingenuidade destas palavras, pede um sinal daquilo que aconteceu. Volta ao lugar da visão e expõe à Senhora o seu conflito interior: 

“Senhora, minha pequena, a mais pequena das minhas filhas, fui cumprir as tuas ordens e cheguei com algumas dificuldades a falar com o homem indicado, expondo-lhe a tua vontade como me tinhas ordenado. Não o posso negar:  fui recebido dignamente e ouvido com atenção, mas pelas palavras de resposta, tive a impressão de não ter sido acreditado. Ele recomendou-me que voltasse, para indagar sobre as intenções da minha visita. Compreendi, porém, claramente que ele considera a proposta da construção de uma igreja mais como uma minha invenção do que uma ordem tua. E agora eu peço-te, minha Senhora e minha pequena, para que ele nos acredite, que Tu dês esta missão a outra pessoa, a alguém que seja uma personalidade conhecida, respeitada e bem vista. Eu sou um pobre homem, um ser que nada vale, alguém insignificante, uma simples folha, e Tu, Senhora, minha pequena, a mais pequena das minhas filhas, mandas-me a um lugar aonde eu não tenho o costume de ir e muito menos de permanecer. Senhora, minha patroa, assim, sou um peso e nada poderei fazer”.

Sempre sorridente e amável, a Senhora respondeu-lhe: 

“Escuta meu filho, o mais pequeno de todos, e sabe que muitos são os meus devotos e servidores, a quem eu poderia confiar o encargo de levar a minha mensagem para realizar o desígnio que tenho em mente. Mas a minha escolha já foi feita. Eu quero que sejas tu mesmo a colaborar comigo, para atingir a minha finalidade. Então, meu filho, o mais pequeno de todos, eu recomendo-te e até te ordeno categoricamente que tu, já amanhã, voltes a ver o prelado. Fala-lhe em meu nome e diz-lhe com franqueza que é minha vontade que o templo se construa. Repete-lhe, ainda, que sou Eu mesma a mandar-te, a sempre Virgem Maria, Mãe de Deus”.

Juan Diego volta à casa do prelado, Frei João de Zumárraga, que lhe pede um sinal. Fez-lhe várias perguntas, a que ele respondeu com exactidão, não deixando dúvidas de que era verdadeiramente a Santíssima Virgem que lhe tinha falado.

Juan Diego não perdeu a coragem e perguntou-lhe: 

“Senhor, se me dás a saber que sinal queres, eu corro já a pedi-lo à Senhora do Céu que me enviou aqui”.

Logo que ele saiu, Frei João de Zumárraga mandou que alguns dos seus criados o seguissem, vissem por onde andava e com quem se encontrava para falar, mas a uma certa altura Juan Diego desapareceu e eles não o puderam encontrar.

É  então  que  acontecerá  o  dia dos “sinais”.

Chegando à casa do tio, encontrou-o muito doente, deitado na sua rede, em estado febril e com a pele cheia de manchas vermelhas e toda banhada de sangue. Era a peste. Foi à procura de um médico. Encontrou-o no dia seguinte, mas quando lhe explicou como estava o tio, ouviu uma palavra “Cocolitzi”, a terrível peste dessa época.

Humanamente, era incurável, dado o estado em que o enfermo se encontrava. João Bernardino piorava a olhos vistos e, como bom cristão, pediu ao sobrinho que fosse a Tlatelolco para procurar um sacerdote, a fim de que o confessasse e com ele rezasse.

Juan Diego partiu dividido entre dois deveres:  encontrar-se com a Senhora e chamar o sacerdote. Os dois compromissos estavam em colisão nesse momento. Que fazer? Qual deles escolher? E pensava:  “Se vou encontrar a Senhora, para receber o sinal prometido, sem dúvida será preciso algum tempo, enquanto o meu tio permanece à espera, e não pode aguardar muito tempo. Penso que o meu principal dever, agora, é chamar o sacerdote”.

Mas olha para a montanha, pensando no tio e na Senhora. Eis que Ela vem ao seu encontro e diz: 
“O que é, meu filho tão pequeno, onde vais?”.

“Senhora, minha filha, a mais pequena das minhas filhas, vejo que te levantaste muito cedo e desejo que estejas bem. Como desejaria que estivesses contente! Mas devo dar-te uma má notícia:  o meu tio, teu servo, está muito mal, ferido pela peste e já em agonia. Devo ir a toda a pressa à casa da tua cidade, para chamar um dos sacerdotes amados pelo nosso Senhor, para que vá consolá-lo e ajudá-lo a morrer bem. Cada um de nós, desde que nasce, é destinado à morte. Agora, minha Senhora e minha pequena, devo ir primeiro cumprir esta obrigação. Depois, voltarei aqui para receber a tua mensagem. Perdoa-me, tem paciência comigo! Eu não te engano, minha Filha pequenina.  Logo  que  for  possível, voltarei, amanhã”.

A Senhora fixava nele o seu olhar com particular intensidade. Juan Diego estava ajoelhado, de rosto voltado para Ela, com o seu manto branco envolvendo o seu ombro direito, com as mãos juntas, em atitude de súplica.

A Senhora disse-lhe amavelmente: 

“Escuta, meu filho, o mais pequenino dos meus filhos e procura compreender bem. O teu coração está perturbado mas não te aflijas por uma coisa de nada. Nenhum deste género de males deve ser para ti um motivo de preocupação. Estou aqui, sou a tua Mãe. Estás sob a sombra da minha protecção. Eu sou a tua salvação. Tu estás no meu coração. De que tens, ainda, necessidade? Não sofras mais por isto. Quanto ao teu tio, sabe uma coisa:  ele não morrerá desta doença. Assim, não há nenhuma necessidade de médico, já está curado”.

Ao ouvir estas palavras, Juan Diego sentiu o seu coração cheio de felicidade. Não duvidou de modo algum, sentindo-se como uma criança, abandonada nos braços da sua mãe. Nem sequer lhe pediu para ir ver o seu tio. Ficou à sua completa disposição.

A Senhora mandou que fosse à montanha, onde se tinham dado as primeiras três aparições, e disse-lhe: 

“No píncaro da colina, encontrarás a surpresa de flores desabrochadas. Só tens de as colher e de mas trazer aqui. Vai, espero por ti!”.

Juan Diego enfrentou a subida como se tivesse asas nos pés, dominado como estava pela alegria e por uma luz que invadia o seu coração e tinha dissipado todas as nuvens de tristeza. Ficou arrebatado com o espectáculo maravilhoso que se apresentava diante dele. Conhecia bem o lugar de rochas áridas, onde só cresciam cactos, espinhos, figos da Índia e moitas, talvez pudessem nascer alguns tipos de ervas daninhas na Primavera ou no Verão, mas não agora, quando o frio queimava todo o germe de vida.

Era o dia 12 de Dezembro. Ele olhou e viu o espectáculo de muitas flores desabrochadas e intenso perfume. Conhecia o índio aquelas rosas, rainha das flores, como naturais das culturas mexicanas? Eram as rosas, hoje conhecidas como a “beleza espanhola”, a que os mexicanos chamavam “rosa de Castela”, havia pouco chegada de além-mar.

Juan Diego colheu as rosas, pô-las no seu manto e decidiu caminhar para a casa do Bispo, levando consigo o “sinal” pedido. Levava ainda uma recomendação:  “Não mostres a ninguém o que tens no manto!”.

À chegada ao palácio episcopal, o mordomo e outro criados a quem expôs o pedido para falar com o Bispo, receberam-no como se não o tivessem ouvido, para ele desanimar e ir embora. Ele ali ficou à espera de ser recebido, sempre com o seu manto dobrado, para que ninguém visse o que trazia. Mas o perfume das flores acabou por complicar a situação. Todos queriam saber de onde vinha, e quando reconheceram as rosas de Castela, todos deitaram a mão ao manto para obter pelo menos uma flor. Momento difícil para Juan Diego, que tinha de defender o seu tesouro. Finalmente, foi recebido pelo bispo, a quem disse: 

“Senhor, exprimiste o desejo de receber um sinal para poderes acreditar em mim e dares início à construção do templo. Levei o pedido à minha Senhora, Santa Maria, Mãe de Deus, que não teve dificuldade em acolhê-lo. Hoje de manhã, mandou-me subir ao cimo da colina, onde a tinha visto noutras vezes, com o encargo de colher ramos de flores. Mesmo sabendo que aquilo não era um jardim, mas um lugar cheio de espinhos, fui da mesma forma. E encontrei como que um jardim do paraíso, muitas flores cintilantes, molhadas pelo orvalho. Ela recomendou-me que voltasse aqui, para as trazer só a ti, como o sinal que pediste, para que te convenças de que vim por sua ordem, e decidas fazer a sua vontade. As flores estão aqui comigo:  ei-las!”.

Naquele instante, todos abriram a boca de espanto e o Bispo ajoelhou-se, juntou as mãos diante do índio que, por sua vez, se tinha levantado. Parecia que se invertiam as posições.

Para surpresa de todos, o “sinal” das flores colhidas fora da estação era ultrapassado por um prodígio impensável. No manto simples (“tilma”) de Juan Diego aparecia impressa em todo o seu comprimento a imagem da Virgem Santa com o seu rosto de mansidão, mãos juntas, com a túnica cor de rosa até aos pés, o manto azul e dois grandes olhos brilhantes que pareciam vivos.

A exemplo do Bispo todos ajoelharam, perturbados e, ao mesmo tempo, cheios de alegria, com o sentido de viva devoção, acompanhados pelas lágrimas de muitos. Foi o próprio prelado a interromper o silêncio, para pedir perdão a Maria por ter sido tão hesitante em acolher o sinal da sua vontade. Depois, levantou-se e, desatando o nó do manto no ombro de Juan Diego, tirou-lhe a túnica onde até hoje está impressa a imagem sagrada, para a colocar num lugar de honra, no seu oratório particular.

A partir de então, Juan Diego teve de aceitar o convite para permanecer no palácio episcopal como hóspede de honra.

Em breve, começaram as obras de construção de uma pequena ermida, que foi sendo sempre renovada até chegar à actual Basílica, inaugurada em 1976. Na inauguração da ermida primitiva, participaram muitos fiéis, inclusivamente Hernán Cortés, então governador espanhol, também ele curado (de uma mordedura de um escorpião) por intercessão de Maria. O entusiasmo arrastou idosos e jovens, que participaram com alegria na celebração.

Era como se um povo novo nascesse de um império destruído e, de repente, acordado de um sono profundo que durou dez anos, mas sintoma de uma tomada de consciência social muito válida para construir um futuro diferente. Juan Diego morreu no dia 3 de Junho de 1548, com 74 anos de idade.

Considerava-se como propriedade da Virgem Maria, com Ela percorrendo os caminhos da santidade. Em 1566, esse lugar começou a chamar-se Guadalupe, da raiz etimológica indígena Cuatlaxupeh. Hoje a devoção à Senhora corre o mundo; por toda a parte é conhecida a Senhora de Guadalupe, Padroeira do México e do Continente americano. A sua imagem esteve presente na batalha de Lepanto. Maria começa, então, a ser invocada como Rainha da Vitória e Auxílio dos Cristãos, assumindo um significado de esperança e de promessa. João Paulo II chamou-lhe “Mãe da América”, na oração final da Exortação apostólica pós-sinodal “Ecclesia in America”.

Juan Diego foi beatificado pelo Papa João Paulo II em 6 de Maio de 1990, no México, e ali será canonizado pelo mesmo Pontífice em 31 de Julho de 2002, celebração esta que é aguardada ansiosamente,  sobretudo  pelo  povo mexicano.

Fonte:http://www.vatican.va/news_services/liturgy/saints/ns_lit_doc_20020731_juan-diego_po.html

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