<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?>
<rss version="2.0"
	xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"
	xmlns:wfw="http://wellformedweb.org/CommentAPI/"
	xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/"
	xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom"
	xmlns:sy="http://purl.org/rss/1.0/modules/syndication/"
	xmlns:slash="http://purl.org/rss/1.0/modules/slash/"
	xmlns:georss="http://www.georss.org/georss" xmlns:geo="http://www.w3.org/2003/01/geo/wgs84_pos#" xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/"
	>

<channel>
	<title>Biografia dos Santos</title>
	<atom:link href="http://biografiadossantos2.wordpress.com/feed/" rel="self" type="application/rss+xml" />
	<link>http://biografiadossantos2.wordpress.com</link>
	<description></description>
	<lastBuildDate>Sat, 20 Nov 2010 17:16:30 +0000</lastBuildDate>
	<language>pt-br</language>
	<sy:updatePeriod>hourly</sy:updatePeriod>
	<sy:updateFrequency>1</sy:updateFrequency>
	<generator>http://wordpress.com/</generator>
<cloud domain='biografiadossantos2.wordpress.com' port='80' path='/?rsscloud=notify' registerProcedure='' protocol='http-post' />
<image>
		<url>http://s2.wp.com/i/buttonw-com.png</url>
		<title>Biografia dos Santos</title>
		<link>http://biografiadossantos2.wordpress.com</link>
	</image>
	<atom:link rel="search" type="application/opensearchdescription+xml" href="http://biografiadossantos2.wordpress.com/osd.xml" title="Biografia dos Santos" />
	<atom:link rel='hub' href='http://biografiadossantos2.wordpress.com/?pushpress=hub'/>
		<item>
		<title>Beata Maria Anna Sala</title>
		<link>http://biografiadossantos2.wordpress.com/2010/08/24/beata-maria-anna-sala/</link>
		<comments>http://biografiadossantos2.wordpress.com/2010/08/24/beata-maria-anna-sala/#comments</comments>
		<pubDate>Tue, 24 Aug 2010 16:42:01 +0000</pubDate>
		<dc:creator>biografiadossantos2</dc:creator>
				<category><![CDATA[Beata Maria Anna Sala]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://biografiadossantos2.wordpress.com/?p=516</guid>
		<description><![CDATA[Biografia pelo Vaticano   SOLENE RITO DE BEATIFICAÇÃO DE TRÊS SERVOS DE DEUS: DON LUIGI ORIONE IRMÃ MARIA ANNA SALA BÁRTOLO LONGO HOMILIA DO PAPA JOÃO PAULO II Domingo, 26 de Outubro de 1980  Caríssimos Irmãos e Filhos &#8220;Gaudeamus omnes in Domino, hodie, diem festum celebrantes sub honore Beatorum nostrorum!&#8221; (Alegremo-nos todos no Senhor, hoje, [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=biografiadossantos2.wordpress.com&amp;blog=14156376&amp;post=516&amp;subd=biografiadossantos2&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://biografiadossantos2.files.wordpress.com/2010/08/maria-anna-sala.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-517" title="Maria Anna Sala" src="http://biografiadossantos2.files.wordpress.com/2010/08/maria-anna-sala.jpg?w=286&#038;h=600" alt="" width="286" height="600" /></a></p>
<h1 style="text-align:justify;"><span style="color:#99cc00;">Biografia pelo Vaticano</span></h1>
<h1 style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></h1>
<p style="text-align:center;"><span style="color:#000000;">SOLENE RITO DE BEATIFICAÇÃO<br />
DE TRÊS SERVOS DE DEUS:<br />
DON LUIGI ORIONE<br />
IRMÃ MARIA ANNA SALA<br />
BÁRTOLO LONGO</span></p>
<h2 style="text-align:center;"><span style="color:#000000;">HOMILIA DO PAPA JOÃO PAULO II</span></h2>
<p style="text-align:center;"><span style="color:#000000;"><em>Domingo, 26 de Outubro de 1980</em></span></p>
<p style="text-align:center;"><span style="color:#000000;"> </span><em><span style="color:#000000;">Caríssimos Irmãos e Filhos</span> </em></p>
<p style="text-align:justify;">&#8220;<span style="color:#000000;"><em>Gaudeamus omnes in Domino, hodie, diem festum celebrantes sub honore Beatorum nostrorum!</em>&#8221; (Alegremo-nos todos no Senhor, hoje, ao celebrarmos o dia de festa em honra dos nossos Beatos).</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">(&#8230;)</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">3. A Suor Maria Anna Sala ensina-nos a heróica fidelidade ao particular carisma da vocação.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Tendo entrado para as Irmãs Marcelinas aos 21 anos, compreendeu que o seu ideal e a sua missão deviam ser unicamente o ensino, a educação, a formação das meninas na escola e na família.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">A Irmã Maria Anna foi, simples e totalmente fiel ao carisma fundamental da sua Congregação. Três grandes lições brotam da sua vida e do seu exemplo: a necessidade da formação e da posse de um bom carácter, firme, sensível e equilibrado o valor santificante do empenho no dever assinalado pela obediência e a importância essencial da obra pedagógica.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">A Irmã Maria Anna quis adquirir aptidões do mais alto grau, convencida que tanto se pode dar quanto se possui; e apaixonou-se do seu cargo de mestra, santificando-se no cumprimento do próprio trabalho quotidiano. Pôs em prática a mensagem de Jesus: &#8220;Quem é fiel no pouco também é fiel no muito&#8221; (<em>Lc</em> 16, 10). Aprendam da nova Beata, sobretudo as Religiosas, a estarem alegres e serem generosas no seu trabalho, embora oculto, monótono e humilde. Aprendam, todos aqueles que se dedicam à obra educativa, a não se amedrontarem nunca com as dificuldades dos tempos, mas a empenharem-se com amor, paciência e preparação, na sua tão importante missão, formando as almas e elevando-as aos supremos valores transcendentes. Particularmente hoje a Escola precisa de educadores prudentes, sérios, preparados, sensíveis e responsáveis.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Fonte:</span><a href="http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/homilies/1980/documents/hf_jp-ii_hom_19801026_beatificazioni_po.html"><span style="color:#000000;">http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/homilies/1980/documents/hf_jp-ii_hom_19801026_beatificazioni_po.html</span></a></p>
<h1 style="text-align:justify;"><span style="color:#99cc00;">Biografia</span></h1>
<div style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">«Nesse momento, diante do Senhor, correu um vento impetuoso e forte que fendia as montanhas e quebrava as rochas; mas o Senhor não estava naquele vento; ascendeu-se um fogo, mas o Senhor não estava no fogo. Depois do fogo, ouviu-se uma voz calma e suave. E Deus estava nesta voz doce e serena». (1a R. 19,11-13)</span><span style="color:#000000;">O estilo de santidade de Ir. Marianna Sala nos sugere aquela voz calma e serena, na qual Deus estava presente. Para atingirmos tais alturas, para nos elevarmos a um alto nível espiritual, devemos começar pelos fundamentos da humildade. E, com humildade e confiança, irmos a Deus, que tudo pode! Eis a mensagem que Ir. Marianna Sala nos transmite com sua vida: um hino a Deus, urna oração contínua e um mergulho no mistério de Cristo que conheceu a humildade do sepulcro; um caminhar confiante, na certeza de ser amada por Deus, enquanto todo o seu ser possuía o Amor e cantava o Amor. </span></div>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">  Ir. Marianna deu o máximo de si, na observância religiosa e no apostolado, com um incomparável espírito de sacrifício, fazendo brilhar, porém sempre escondida, todos os dons da inteligência com que o Senhor a dotara, tornando-se educadora de valor. As alunas, ela deu não só a ciência necessária, num tempo em que a mulher se conservava afastada da cultura, mas deu também a sabedoria e o temor de Deus.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span><span style="color:#000000;">Sem ostensiva tomada de partido, trabalhou sabiamente pela promoção da mulher, procurando dar-lhe urna cultura adequada e urna piedade baseada em seguros conhecimentos teológicos.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span><span style="color:#000000;">Entre as alunas que deram testemunho dela, houve urna, Giuditta Alghisi, depois Montini, que foi a mãe de Paulo VI. Isto nos faz pensar no trabalho silencioso, porém grande, que as santas mães tiveram na formação de seus filhos. Ao lado das mães, as educadoras.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span><span style="color:#000000;">Card. Pietro Palazzini</span></p>
<h1 style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Os primeiros anos</span></h1>
<p style="text-align:justify;"><a href="grandi/pa-01.JPG"><span style="color:#000000;"> </span></a></p>
<div style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">As margens do rio Adda</span></div>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Em Brivio, antigo subúrbio da alta Brianza, às margens do rio Adda, no território de Lecco, no dia 21 de abril de 1829, nasceu Maria Anna, a quinta de 8 filhos de Giovanni Maria Sala e Giovannina Comi.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Seu pai, homem de grande fé e trabalhador, comerciante de madeiras, possuía, no centro da cidade, urna casa cômoda, com entrada ampla, um pátio vasto e barulhento.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Nesta casa, Marianna nasceu e cresceu, como seus irmãos, no afeto do lar, num clima de paz e serenidade, alicerçada na fidelidade às tradições cristãs da numerosa família bem inserida na comunidade paroquial onde Giovanni Sala era sábio e prudente colaborador.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><a href="grandi/pa-02.jpg"><span style="color:#000000;"> </span></a><span style="color:#000000;">Marianna foi levada à pia batismal, na paróquia vizinha, no dia do seu nascimento e ai recebeu aquele germe de vida divina, que amadureceu nela em fruto de santidade.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Na sua infância pura e simples, alimentou sua profunda piedade, com assíduo estudo das verdades da fé, sempre presentes em sua lúcida inteligência.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Particularmente caro à devoção de Marianna, quando criança, foi um pequeno santuário, oratório de São Leonardo, um pouco fora da cidade, onde se venerava urna imagem de Nossa Senhora, diante da qual os moradores de Brivio levavam as suas dores, as suas lágrimas, recébendo o conforto da esperança cristã e, não raro, graças importantes.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Diante desta imagem, Marianna e uma de suas irmãs se prostraram numa ardente prece, num momento de grande dor para o seu coração de criança: a enfermidade da mãe.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Enquanto as crianças rezavam &#8211; como mostra um quadro votivo da família Sala &#8211; a enferma se sentiu curada, com intima certeza de haver visto junto a si a Virgem Maria, abençoando-a.</span></p>
<h1 style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Aluna das Marcelinas</span></h1>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Os pais de Marianna, conscientes da responsabilidade com relação aos filhos, ao mesmo tempo que, com o exemplo de urna vida integralmente cristã, preparavam os cidadãos da cidade celeste, olhavam com sábia providência os caminhos difíceis da cidade terrena, e eram abertos às conquistas do progresso, rico de novidades, na metade do seculo XIX.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Corria em Brivio a fama da recente fundação de um Instituto feminino &#8211; o das <em><strong>Marcelinas</strong></em>, aberto em Cernusco sul Naviglio, em 1838, pelo diretor espiritual do Seminário, o <em><strong>beato Luiz Biraghi</strong></em>.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span><span style="color:#000000;"> </span><span style="color:#000000;">Cernusco sul Naviglio (Milão) primeiro Colégiodas Marcelinas</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Objetivo do Instituto: educar, à luz da fé cristã, segundo programas sólidos de ensino, sem deixar de lado as atividades domésticas, as jovens de urna burguesia que se firmava, irreversivelmente, na vida civil.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Obtendo, imediatamente, amplo consentimento, as Marcelinas abriram em 1841, um segundo Colégio em Vimercate, na baixa Brianza.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Neste Colégio, Giovanni Maria Sala quis que suas filhas mais aptas, Marianna (1842), em seguida Genoveffa e Lúcia, completassem seus estudos.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Marianna distinguiu-se como aluna exemplar e em 1846 conseguiu, com ótimos resultados, o diploma de professora primária.</span></p>
<h1 style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">A vocação religiosa</span></h1>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">No ativo recolhimento do Colégio, encontrou um tesouro superior àquele que os títulos de estudo lhe asseguravam: acolhera no coração o chamado de Cristo à vida consagrada, apostólica e evangelizadora, como suas educadoras, das quais admirara o zelo e a piedade, sob a orientação da <em><strong>Madre Videmari</strong></em>, fervorosa colaboradora do Fundador.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Ao chamado de Cristo, Marianna respondeu com o seu «SIM» de total devotamento, tendo, porém, que esperar dois anos antes de realizar seu desejo. A saúde da mãe, os afazeres do lar, a crise econômica, motivada pela falência do pai, exigiram de Marianna sua presença solicita e confortadora em casa. Sua mãe a considerava a melhor dos filhos; seu pai encontrava nela a força do perdão cristão e a coragem para retomar sua atividade. </span><a href="grandi/vr-01.jpg"><span style="color:#000000;"> </span></a></p>
<p><span style="color:#000000;"> </span><span style="color:#000000;">Vimercate (Milão). Colegio das Marcellinas em Vimercate.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">No dia 13 de fevereiro de 1848, Marianna voltou ao Colégio de Vimercate, como aspirante à vida religiosa.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Após o noviciado, teve a sorte de pronunciar os votos, por ocasião da aprovação canônica da Congregação: 13 de setembro de 1852.</span></p>
<h1 style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">O testemunho de vida</span></h1>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Começou, então, a vida da Irmã educadora, heróica na monótona fadiga do dia a dia, na observância regular que a levou, através de um exercício humilde e ininterrupto, às virtudes cristãs; à única e verdadeira realização da existência humana &#8211; a santidade. O campo de seu fecundo apostolado foram os Colégios de Cernusco, Milão, Via Amedei, Genova e, durante as férias de outono, Chambéry, na Savoia. Por fim Milão, na então casa geral de Via Quadronno.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">A perfeita obediência de Irmã Marianna Sala não se manifestou só no acolhimento dócil dessas transferências, mas também na total dependência das Superioras e das coirmãs -<em><strong> parecia haver feito voto de obediência a todas as Irmãs</strong></em>, disse uma testemunha, e era disponível às alunas e aos que dela se aproximavam.</span><em><br />
</em></p>
<p style="text-align:justify;"><a href="grandi/tdv-01.jpg"><span style="color:#000000;"> </span></a><span style="color:#000000;">Chambéry (Savoia-FR). Castelo dos Duques de Savóia.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"><em><strong>«Vou já»</strong></em> &#8211; é a expressão de sua vida votada ao serviço. Um <em><strong>«vou já»</strong></em> que a levava a interromper até as mais importantes de suas ocupações, até as lições escrupulosamente preparadas, que não lhe deixava espaço nem para prolongados encontros com Cristo, ardente desejo de sua alma contemplativa.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Com aquele <em><strong>«Vou já»</strong></em> irmã Marianna Sala responder seu «sim» amoroso a Deus na humildade e na pobreza de quem deu tudo.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Tinha sempre consigo o Senhor: <em><strong>vivia sempre da presença de Deus, como do ar que se respira</strong></em>.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Percebiam-no também as alunas, quando ouviam em classe suas explicações, sempre marcadas por um profundo espirito de fé, que lhes atraiam a atenção e as comoviam, quando dela se aproximavam, na capela, no tempo das orações comunitárias; quando a viam passar, solicita pelos corredores do Colégio, preocupada com suas inúmeras incumbências ou quando a viam ajoelhada ao lado da cama nos últimos colóquios com Jesus Crucificado.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"><em><strong>É uma Irmã extraordinária</strong></em>, diziam entre si;</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"><em><strong>É uma santa</strong></em>, ousavam afirmar alguns, naturalmente, depois de lhe haver <em><strong>notado</strong></em> a santidade, pondo-lhe à prova a paciência, a firmeza, a mansidão, a inexaurível capacidade de compreensão, de confiança, de esperança de amor, como costumam fazer as adolescentes de todos os tempos com professores e educadores. Irmã Marianna teve esses dons de verdadeira educadora, porque foi mansa na sua forte personalidade. E, dos mansos, teve a violência: a que conquista o reino.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Escrevia, em janeiro de 1869, à sua irmã, Ir. Genoveffa, também educadora Marcelina:</span></p>
<blockquote><p><span style="color:#000000;"> </span><span style="color:#000000;">Cara Genoveffa,</span></p></blockquote>
<div>
<p><span style="color:#000000;"> </span><span style="color:#000000;">Com a prontidão de sempre, respondo a sua cartinha que muito me agradou como também me agradou o santo que nela você incluiu. Agradeço muito a delicadeza que teve comigo. Lamento seu resfriado; espero que tenha juízo e procure livrar-se dele logo. Sim, mantenha-se com saúde, pois, com eia se cumpre melhor os deveres. Esteja sempre alegre e pense que Deus a ama verdadeiramente e ajudá-la-á, mais do que pensa, a instruir e educar bem suas alunas. Não considere inútil o cansaço sem fruto imediato; tenha paciência, que, com a ajuda de Deus, poderá ganhar muito, trabalhando na sua vinha. Quando acharmos que nosso trabalho supere nossas forças, não nos desanimemos, pois, então, teremos mais razões e quase um direito de esperar mais auxilio de Deus. Pois, se a vontade dos Superiores é para nós a vontade de Deus, devemos admitir que é Deus quem nos coloca naquela escola, naquela oficio, etc. Deus nunca no dará um peso superior às nossas forças; logo, é certo que, quanto major for a nossa insuficiência, major será também a sua ajuda, para que sua obra não fracasse. </span></p>
<p><span style="color:#000000;"> </span><span style="color:#000000;">Coragem, pois, e alegria; esforcemo-nos para cumprir nossos deveres e pensemos que Cristo há de fazer sua parte e a fará como sempre.</span><span style="color:#000000;">Eram as convicções profundas que sustentavam sua opção existencial, conhecia o peso do apostolado na escola, mas o amava porque ele a tornava colaboradora de Jesus Cristo. </span></p>
</div>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span><span style="color:#000000;">Escrevia a uma aluna:</span></p>
<blockquote>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span><span style="color:#000000;">Sou-lhe gratíssima pela linda cartinha que me escreveu. Considero-a um feliz prenúncio de que, na entrada do novo ano escolar, terei em você uma das alunas que melhor saberá tornar suave o já agradável dever de educar. E verdade que pouco valho, mas esperemos que o, Senhor considere a boa vontade de me dedicar inteiramente ao seu bem e ao de todas as minhas queridas alunas. (5.10.1880).</span></p>
</blockquote>
<div style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span><span style="color:#000000;">Irmã Marianna dedicava-se, incansavelmente, às suas alunas para que se tornassem não só cultas, mas também fortes na fé e em todas as virtudes cristãs, como a mulher forte, elogiada na Sagrada Escritura. E as encorajava nas dificuldades da vida:</span></div>
<p><span style="color:#000000;"> </span><span style="color:#000000;">Coragem, minha Virginia, coragem e grande confiança em Deus, que sempre vela sobre você com um olhar de Pai amoroso. Ele nunca Me faltará; ajudá-la-á educar bem os queridos filhinhos que lhe confiou, qual depósito sagrado, reservando-lhe contudo, grande prêmio pelo que deles fizer para o céu e para a sociedade. Deus a sustentará nos momentos da prova; (&#8230;) se-lhe-á pródigo em conceder-lhe aquelas graças que mais deseja o coração de uma boa e virtuosa mãe de família. (a Virginia Limonta, 29.7.1877).</span></p>
<div><span style="color:#000000;"> </span><span style="color:#000000;">Uma aluna declara no processo:</span></div>
<blockquote><p><span style="color:#000000;"> </span><span style="color:#000000;">Na educação das alunas tinha como único fim: formar verdadeiras cristãs que pudessem formar cristãmente as próprias famílias, difundindo o Reino de Deus.</span></p></blockquote>
<div><span style="color:#000000;"> </span><span style="color:#000000;">Urna outra acrescenta:</span></div>
<blockquote><p><span style="color:#000000;"> </span><span style="color:#000000;">O fim de todo seu ensinamento era formar as alunas, para que fossem mães de família verdadeiramente cristãs.</span></p></blockquote>
<div><span style="color:#000000;"> </span><span style="color:#000000;">Ir. Marianna tinha para com suas alunas um relacionamento de grande clareza, de lealdade, de sinceridade. Por ser verdadeira queria a verdade.</span></div>
<p><span style="color:#000000;"> </span><span style="color:#000000;">As alunas entendiam-no e nutriam por ela urna sincera afeição. Que a afeição, por elas, fosse simples e autêntica, declara-o, surpreendentemente, a própria Ir. Marianna, numa carta que podemos considerar a mais significativa de seu epistolário: a da despedida da Superiora do Colégio de Genova, depois de ter recebido a obediência que a transferia para Milão:</span></p>
<p><span style="color:#000000;"> </span><span style="color:#000000;">Milão, 1 de novembro de 1878</span></p>
<div>
<p><span style="color:#000000;"> </span><span style="color:#000000;">Querida Superiora Catarina</span></p>
<p><span style="color:#000000;"> </span><span style="color:#000000;">Recebi, ontem, a noticia da minha nova destinação. Eu estou ainda tão confusa que não sei exprimir o que ela produziu no meu espirito. Basta, o Senhor assim o quer; ele me ajudará.</span></p>
<p><span style="color:#000000;"> </span><span style="color:#000000;">E aquela santa indiferença de que falávamos, quanto me falta para consegui-la! Envergonho-me de mim mesma. Enquanto me considerava pronta a qualquer sacrifício, na prática, a natureza ainda se ressente vivamente.</span></p>
<p><span style="color:#000000;"> </span><span style="color:#000000;">Querida superiora, reze por mim (&#8230;).</span></p>
<p><span style="color:#000000;"> </span><span style="color:#000000;">Eu a lembrarei, diariamente, junto ao Senhor, como único meio que me resta para compensá-la pelas múltiplas atenções e caridade que usou para comigo, que trarei, uma por uma, escritas no coração. Quantas vezes, talvez, a desgostei, principalmente com meu caráter selvagem e seco! Peço perdão à senhora e a todas as minhas boas irmãs pelas faltas cometidas para com todas. Cumprimente-as e diga-lhes que guardarei uma doce lembrança de todas.</span></p>
<p><span style="color:#000000;"> </span><span style="color:#000000;">E as caras alunas? E as majores? Oh, se soubessem o quanto sinto a separação! Não sabia que as amava tanto! Querida Superiora, queira abraçá-las e dizer-lhes uma boa palavra por mim. Que o Senhor Me conceda um ano verdadeiramente abençoado, para a sua consolação e das Irmãs, especialmente das que se ocuparão mais delas.</span></p>
<p><span style="color:#000000;"> </span><span style="color:#000000;">Devo terminar, embora tenha muito a dizer-lhe ainda. Fica para uma outra vez.</span></p>
<p><span style="color:#000000;"> </span><span style="color:#000000;">Cumprimento-a e de novo Me agradeço. (&#8230;) recomendo-me às suas orações, para obter o auxilio no cumprimento da vontade de Deus.</span></p>
<p><span style="color:#000000;"> </span><span style="color:#000000;">Creia-me sempre afetuosa e grata.</span></p>
<p><span style="color:#000000;"> </span><span style="color:#000000;">Ir. Marianna Sala</span></p>
<p><span style="color:#000000;"> </span><span style="color:#000000;">P.S. &#8211; Relendo a carta pareceu-me dar-lhe a impressão de que sofro muito aqui. Não, sinto a separação, mas Deus me ajuda. A Madre Superiora me trata com uma bondade acima do que mereço e as Irmãs se mostram verdadeiramente Irmãs. Deus me ajude a corresponder a tudo. </span></p>
<h1><span style="color:#000000;">Seu sofrimento</span></h1>
<p><span style="color:#000000;">Após o desabafo, embora controlado, de seus sentimentos, o post scriptum foi, da parte de Irmã Marianna, como um voltar a si, para não deixar pesar sobre os outros os próprios sofrimentos.</span></p>
<p><span style="color:#000000;">Era sempre assim. Só quem a observou, confirmando-o no processo, pôde intuir algo de sua participação no mistério da Cruz, ao qual Cristo chama os mais fiéis.</span></p>
<p><a href="grandi/ss-01.jpg"><span style="color:#000000;"> </span></a></p>
<div><span style="color:#000000;">Milano, il Collegio di via Quadronno, dove mori la beata Maria Anna Sala.</span></div>
<p><span style="color:#000000;">Sem dúvida, foram-lhe causa de grandes sofrimentos não só as misérias humanas, diárias e inevitáveis da comunidade, sobre as quais passou sempre com<em><strong> inalterável paz</strong></em>, mas também as repreensões freqüentes e fortes da Madre Marina Videmari, de caráter forte e impulsivo, convencida, em boa fé, de que os santos devem ser provados.</span></p>
<p><span style="color:#000000;">Não lhe faltou o sofrimento físico. Uns oito anos antes da morte, quando Ir. Marianna estava na casa de Via Quadronno, em Milão, manifestou-se nela o mal que a levaria à morte: um tumor na garganta, externamente visível.</span></p>
<p><span style="color:#000000;">Uma echarpe preta, usada,. com desenvoltura, disfarçava as aparências, enquanto o sorriso imperturbável de seu rosto, após crises agudas de dor; que a constrangiam a interromper as aulas, fazia esquecer, a quem dela se avizinhasse, o quanto havia sofrido. Aliás, numa maravilhosa superação de si, ela se habituara a chamar, jocosamente, a horrível deformação do pescoço, seu <em><strong>colar de pérolas</strong></em>.</span></p>
<p><span style="color:#000000;">Nunca revelou angústia pelo mal, nem mesmo nos últimos meses de vida.</span></p>
<p><span style="color:#000000;"><em><strong>«Estou bem»</strong></em>, escreveu a uma irmã, em 26 de julho de 1891.</span></p>
<p><span style="color:#000000;">Vivia o que afirmara, anos antes, com a lógica dos apaixonados pela Cruz:</span></p>
<div>
<p><span style="color:#000000;">Sirvamos o Senhor, com coragem, minha boa Genoveffa, ainda quando nos pede algum sacrifício, se assim se podem chamar as pequenas dificuldades que encontramos no caminho da virtude. Realmente, o que é o que sofremos nós em confronto com o que por nosso amor sofreu nosso amado Esposo? Aliás, não deveríamos antes alegrar-nos e agradecer-lhe, quando nos envia alguma ocasião de provar-lhe nosso amor e nossa fidelidade? Entreguemo-nos ao Senhor em tudo e por tudo, e Ele nos ajudará a nos<br />
tornarmos santos (a Ir. Genoveffa, 16-10-1874).</span></p>
</div>
<p><span style="color:#000000;">Santificar-se foi, para Ir. Marianna, uma questão de verdade, de fidelidade, de coerência. Era seu compromisso de batizada e de consagrada, que viveu com aparente naturalidade, numa tensão ascética que se manifestou, não em atitudes extraordinárias, mas em exercícios contínuos das virtudes comuns.</span></p>
<p><span style="color:#000000;">Foi, porém, urna tensão atenuada pela alegre esperança do paraíso.<br />
O seu desejo do céu, no qual sempre envolvia as alunas, parece ter-se tornado mais vivo e freqüente ao pressentir o fim de sua vida.</span></p>
<p><span style="color:#000000;">No dia 10 de agosto de 1891 escrevia a Annunciata Crosti:</span></p>
<div>
<p><span style="color:#000000;">Coragem e confiança, esteja certa de que rezo realmente por você e por seus caros. Você também diga algumas palavras, por mim, à Virgem, especialmente nestes dias em que nos preparamos para a bela solenidade da Assunção. Sursum corda! Nunca é demais o que se faz para ganhar o céu.</span></p>
</div>
<p><span style="color:#000000;">No outono de 1891, Ir. Marianna retomara suas numerosas e absorventes atividades e o ensino nas classes das maiores. Mas, após os primeiros dias de aula, foi obrigada a interromper o trabalho, recolhendo-se na enfermaria do colégio.</span></p>
<p><span style="color:#000000;">A doença venceu sua resistência física e moral. Passou quinze dias de sofrimento atroz.</span></p>
<p><span style="color:#000000;">Em 24 de novembro, enquanto as co-irmãs rezavam, na Capela, a Ladainha de Nossa Senhora, ela sentiu o esplendor da invocação «Regina Virginum» e, no leito de morte, urna beleza nova resplandecia em sua fisionomia, havendo desaparecido qualquer sinal do tumor.</span></p>
<p><span style="color:#000000;">Irmãs, alunas e ex-alunas divulgaram a fama de sua santidade. Umas, reconhecendo nela a religiosa exemplar, na fidelíssima observância das Regras; outras, lembrando, com o ensinamento impregnado de fé, o exemplo de vida, decisivo na formação da juventude.</span></p>
<p><span style="color:#000000;">O encontro casual de seus despojos intactos, em 1920, fez com que se voltasse a falar na, já esquecida, Ir. Marianna Sala. As ex-alunas se uniram às Marcelinas para pedirem a introdução da causa de beatificação e muitas testemunharam, no processo informativo, a heroicidade das virtudes.</span></p>
<p><span style="color:#000000;">Fonte: </span><a href="http://www.marcelline.org/sito-testi/beata-maria-anna-sala/p-og.htm"><span style="color:#000000;">http://www.marcelline.org/sito-testi/beata-maria-anna-sala/p-og.htm</span></a></p>
</div>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/biografiadossantos2.wordpress.com/516/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/biografiadossantos2.wordpress.com/516/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/biografiadossantos2.wordpress.com/516/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/biografiadossantos2.wordpress.com/516/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/biografiadossantos2.wordpress.com/516/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/biografiadossantos2.wordpress.com/516/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/biografiadossantos2.wordpress.com/516/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/biografiadossantos2.wordpress.com/516/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/biografiadossantos2.wordpress.com/516/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/biografiadossantos2.wordpress.com/516/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/biografiadossantos2.wordpress.com/516/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/biografiadossantos2.wordpress.com/516/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/biografiadossantos2.wordpress.com/516/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/biografiadossantos2.wordpress.com/516/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=biografiadossantos2.wordpress.com&amp;blog=14156376&amp;post=516&amp;subd=biografiadossantos2&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://biografiadossantos2.wordpress.com/2010/08/24/beata-maria-anna-sala/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
	
		<media:content url="" medium="image">
			<media:title type="html">biografiadossantos2</media:title>
		</media:content>

		<media:content url="http://biografiadossantos2.files.wordpress.com/2010/08/maria-anna-sala.jpg" medium="image">
			<media:title type="html">Maria Anna Sala</media:title>
		</media:content>
	</item>
		<item>
		<title>Beato Luiz Biraghi</title>
		<link>http://biografiadossantos2.wordpress.com/2010/08/24/beato-luiz-biraghi/</link>
		<comments>http://biografiadossantos2.wordpress.com/2010/08/24/beato-luiz-biraghi/#comments</comments>
		<pubDate>Tue, 24 Aug 2010 16:27:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>biografiadossantos2</dc:creator>
				<category><![CDATA[Beato Luiz Biraghi]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://biografiadossantos2.wordpress.com/?p=511</guid>
		<description><![CDATA[Biografia pelo Vaticano PADRE LUÍS BIRAGHI (1801-1879) Fundador das religiosas de Santa Marcelina Nasceu em Vignate (Itália) a 2 de Novembro de 1801, quinto de oito filhos de Francisco e Maria Fini, agricultores. De 1813 a 1825 fez os estudos de humanidade, filosofia e teologia respectivamente nos seminários de Castello (Lecco), de Monza e de [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=biografiadossantos2.wordpress.com&amp;blog=14156376&amp;post=511&amp;subd=biografiadossantos2&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<h1><span style="color:#99cc00;"><a href="http://biografiadossantos2.files.wordpress.com/2010/08/biraghi20dottore.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-512" title="Biraghi%20dottore" src="http://biografiadossantos2.files.wordpress.com/2010/08/biraghi20dottore.jpg?w=400&#038;h=506" alt="" width="400" height="506" /></a></span></h1>
<h1><span style="color:#99cc00;">Biografia pelo Vaticano</span></h1>
<p style="text-align:justify;"><strong><span style="color:#000000;">PADRE LUÍS BIRAGHI (1801-1879) </span></strong></p>
<p style="text-align:justify;"><em><span style="color:#000000;">Fundador das religiosas de Santa Marcelina</span></em></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Nasceu em Vignate (Itália) a 2 de Novembro de 1801, quinto de oito filhos de Francisco e Maria Fini, agricultores.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">De 1813 a 1825 fez os estudos de humanidade, filosofia e teologia respectivamente nos seminários de Castello (Lecco), de Monza e de Milão, distinguindo-se sempre. Como diácono, foi encarregado do ensino de letras nos seminários menores, cargo que lhe foi confirmado depois da ordenação presbiteral (28 de Maio de 1825) que ele desempenhou com paixão.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Em 1833 foi nomeado director espiritual do seminário maior:  cargo a que se dedicou com incansável caridade, exemplo vivo, para os seus clérigos, de amor a Cristo e à sua Igreja, de total dedicação e de obediência incondicionada.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Em 1841 o Cardeal Gaisruck quis que ele fizesse parte dos fundadores e redactores do periódico eclesiástico <em>O Amigo Católico.</em> O Pe. Biraghi empenhou-se nesta obra com fervoroso espírito de apostolado, no desejo de conduzir a Cristo a sociedade moderna, atraída por falazes ideologias e pela ilusória confiança no progresso.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Convencido de que a base da sociedade civil é a família e que o coração da família é a mulher, em 1838 abriu um colégio feminino onde as filhas da burguesia emergente podiam receber uma formação cultural e uma sólida educação cristã. O método educativo proposto por ele teve tanto sucesso que em 1841 o Pe. Biraghi abriu um segundo colégio em Vimercate.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Em 1855 obteve o <em>placet</em> governativo para a nomeação a doutor da Biblioteca Ambrosiana. Transcorreu o último período da sua vida nesse cargo, residindo com os Barnabitas de Santo Alexandre. Em 1873, foi nomeado Prelado doméstico por Pio IX. Celebrou o 50º aniversário da ordenação sacerdotal em 1875. Faleceu no dia 11 de Agosto.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Fonte:<a href="http://www.vatican.va/news_services/liturgy/saints/ns_lit_doc_20060430_biraghi_po.html">http://www.vatican.va/news_services/liturgy/saints/ns_lit_doc_20060430_biraghi_po.html</a></span></p>
<p style="text-align:justify;"> </p>
<h2 style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></h2>
<table border="0" cellspacing="0" cellpadding="0" width="486">
<tbody>
<tr>
<td>
<h1><span style="color:#99cc00;">Biografia </span></h1>
</td>
</tr>
<tr>
<td width="1" height="28">
<h2><span style="color:#000000;"><img src="http://www.marcelinas.org.br/images/transp.gif" alt="" width="1" height="28" /></span></h2>
</td>
</tr>
<tr>
<td>
<table border="0" cellspacing="0" cellpadding="0">
<tbody>
<tr>
<td>
<h2 style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">O carisma de Santa Marcelina vive hoje na Congregação das Irmãs Marcelinas, fundada em 1838, em Cernusco sul Naviglio (Milão), pelo Beato Luis Biraghi. Ele, confiando àquelas ardorosas primeiras apóstolas a missão de “ENSINAR JESUS” na atividade educativa, quis que tivessem Marcelina como modelo, para serem, tal como sua protetora, sinal no tempo, de uma sede de Deus, que transfigura a vida e impele ao serviço dos irmãos. e educando mais com a força do amor e do exemplo, do que com muitas palavras. </span></h2>
<h2 style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">O Beato Luigi Biraghi, nascido em Vignate (Milão), a 2 de novembro de 1801, foi sacerdote exemplar, sempre fiel a Cristo e à Igreja. Espiritual nos Seminários da Diocese milanesa instruiu e guiou os jovens que lhe foram confiados. Doutor e vice-prefeito da Biblioteca Ambrosiana, dedicou seus estudos ao serviço da fé. Faleceu em Milão, aos 11 de agosto de 1879.</span></h2>
<div><span style="color:#000000;"></span></div>
<p><span style="color:#000000;"></p>
<h2 style="text-align:justify;">SEU SEGREDO: Um grande amor a JESUS, centro de sua vida.</h2>
<h2 style="text-align:justify;">SUA MENSAGEM: “Ensinar JESUS mais com a força do exemplo do que com uma multidão de preceitos”. Diretor Espiritual nos Seminários da Diocese milanesa instruiu e guiou os jovens que lhe foram confiados. Doutor e vice-prefeito da Biblioteca Ambrosiana, dedicou seus estudos ao serviço da fé.</h2>
<p> </p>
<p></span></td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p>Fonte:<a href="http://www.marcelinas.org.br/fundadores.asp?are_cod_id=1">http://www.marcelinas.org.br/fundadores.asp?are_cod_id=1</a></td>
</tr>
</tbody>
</table>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/biografiadossantos2.wordpress.com/511/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/biografiadossantos2.wordpress.com/511/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/biografiadossantos2.wordpress.com/511/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/biografiadossantos2.wordpress.com/511/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/biografiadossantos2.wordpress.com/511/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/biografiadossantos2.wordpress.com/511/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/biografiadossantos2.wordpress.com/511/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/biografiadossantos2.wordpress.com/511/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/biografiadossantos2.wordpress.com/511/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/biografiadossantos2.wordpress.com/511/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/biografiadossantos2.wordpress.com/511/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/biografiadossantos2.wordpress.com/511/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/biografiadossantos2.wordpress.com/511/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/biografiadossantos2.wordpress.com/511/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=biografiadossantos2.wordpress.com&amp;blog=14156376&amp;post=511&amp;subd=biografiadossantos2&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://biografiadossantos2.wordpress.com/2010/08/24/beato-luiz-biraghi/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
	
		<media:content url="" medium="image">
			<media:title type="html">biografiadossantos2</media:title>
		</media:content>

		<media:content url="http://biografiadossantos2.files.wordpress.com/2010/08/biraghi20dottore.jpg" medium="image">
			<media:title type="html">Biraghi%20dottore</media:title>
		</media:content>

		<media:content url="http://www.marcelinas.org.br/images/transp.gif" medium="image" />
	</item>
		<item>
		<title>Santa Marcelina</title>
		<link>http://biografiadossantos2.wordpress.com/2010/08/24/santa-marcelina/</link>
		<comments>http://biografiadossantos2.wordpress.com/2010/08/24/santa-marcelina/#comments</comments>
		<pubDate>Tue, 24 Aug 2010 16:14:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>biografiadossantos2</dc:creator>
				<category><![CDATA[Santa Marcelina]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://biografiadossantos2.wordpress.com/?p=507</guid>
		<description><![CDATA[   Marcelina nasceu em Roma, em 327, na ilustre família dos Ambrosiis, sob o Império de Constantino Magno. Em uma época de profundas mutações culturais, a família de Marcelina era aberta à religião cristã. Sua parente Santa Sotera, morreu mártir, sob o imperador Dioclesiano.   O pai Ambrósio era prefeito romano e governou as Gálias [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=biografiadossantos2.wordpress.com&amp;blog=14156376&amp;post=507&amp;subd=biografiadossantos2&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<table style="text-align:justify;" border="0" cellspacing="0" cellpadding="0" width="100%">
<tbody>
<tr>
<td width="20" height="1">
<h2><span style="color:#000000;"> </span></h2>
</td>
<td width="486">
<table border="0" cellspacing="0" cellpadding="0" width="486">
<tbody>
<tr>
<td>
<blockquote>
<h2><span style="color:#000000;"><img src="http://www.marcelinas.org.br/upload/ft_sta_marcelina.jpg" alt="" hspace="15" width="294" height="253" align="right" /></span></h2>
</blockquote>
</td>
</tr>
<tr>
<td width="1" height="13">
<h2><span style="color:#000000;"><img src="http://www.marcelinas.org.br/images/transp.gif" alt="" width="1" height="13" /></span></h2>
</td>
</tr>
<tr>
<td height="3" bgcolor="#e8e4f5">
<h2><span style="color:#000000;"><img src="http://www.marcelinas.org.br/images/transp.gif" alt="" height="3" /></span></h2>
</td>
</tr>
<tr>
<td width="1" height="13">
<h2><span style="color:#000000;"><img src="http://www.marcelinas.org.br/images/transp.gif" alt="" width="1" height="13" /></span></h2>
</td>
</tr>
<tr>
<td>
<table border="0" cellspacing="0" cellpadding="0">
<tbody>
<tr>
<td style="text-align:justify;">
<h2><span style="color:#000000;"> Marcelina nasceu em Roma, em 327, na ilustre família dos Ambrosiis, sob o Império de Constantino Magno. Em uma época de profundas mutações culturais, a família de Marcelina era aberta à religião cristã. Sua parente Santa Sotera, morreu mártir, sob o imperador Dioclesiano.</span></h2>
<div><span style="color:#000000;"> </span></div>
<div><span style="color:#000000;"></span></div>
<p><span style="color:#000000;"></p>
<h2>O pai Ambrósio era prefeito romano e governou as Gálias (França). Ao ser eleito Governador das Gálias, em Treviri, para lá se transferiu com a esposa e dois filhos, Marcelina e Sátiro. Nos anos 340, nasceu o terceiro filho Ambrósio.Marcelina desfrutou, em Treviri, dias serenos, mas aos 13 anos de idade, com a morte precoce do pai, voltou para Roma, com a família. Antes dos 20 anos, perde também a mãe, ficando com a total responsabilidade da educação dos irmãos. Em Roma, Sátiro e Ambrósio, foram confiados aos melhores mestres, dedicando-se com sucesso, a estudos jurídicos.Jovem, bonita, rica, nobre, Marcelina tem muitos pretendentes, mas&#8230; em seu coração nasce o desejo de se consagrar a Deus, permanecendo virgem.</h2>
<h2><span style="color:#000000;"> Na Roma corrupta e pagã, era muito difícil compreender que uma jovem renunciasse à sua principesca fortuna e a um ilustre casamento. O povo não estava acostumado a essas idéias de pureza, bem-aventurança, vida nova, que Jesus trouxera ao mundo&#8230; Agora isto era confessado publicamente.E bem ali, naquela época, em fase difícil da história, a semente de Cristo planta-se na vida de Marcelina: ela quer ser d&#8217;Ele.</span></h2>
<h2><span style="color:#000000;"> Para buscar coragem, visita muitas vezes as catacumbas dos cristãos que morreram pela Fé. Lá se sente consolada e compreendida. Marcelina tem a convicção de que Deus a quer para si. Deve ser coerente com a voz que fala mais forte dentro dela.Retira-se, então, para um lugar tranqüilo, na vila de Cernusco, perto de Milão e em contato com a natureza, decide: Farei o que Jesus disser&#8230; Na noite de Natal do ano 353, aos 25 anos, recebe, das mãos do Papa Libério, o véu da consagração total. Sua decisão abala os habitantes dos palácios. Seus amigos não conseguem captar toda a dimensão do mistério&#8230;E os espectadores descobrem que o novo tempo, iniciado por JESUS CRISTO, está vivo e palpitante nesta jovem. é chegado o tempo em que a liberdade se faz nova. é a história da Boa Nova, que renasce. Marcelina, entregando-se deste modo a Deus, demonstra que é livre de tudo. Os que se entregam a Deus, colocam-se imediatamente a serviço dos irmãos.Marcelina intensifica a oração e o estudo das Sagradas Escrituras e acolhe, em sua casa, muitas companheiras, desejosas de serem orientadas no conhecimento do Senhor e de participarem, com ela, do socorro aos pobres e sofredores. </span></h2>
<h2><span style="color:#000000;">Ao mesmo tempo, não descuidou da educação humana e cristã dos dois irmãos, logo solicitados para importantes cargos públicos.Em 372, Ambrósio foi eleito Governador em Milão. Sátiro foi nomeado para uma Prefeitura. Dois anos depois, chega a clamorosa notícia da eleição popular de Ambrósio para ser Bispo de Milão. Para auxiliar o irmão em sua nova missão, Marcelina não hesitou em acompanhá-lo na sede milanesa.Marcelina foi, para Ambrósio e Sátiro, conselheira e mestra e continuou sua vida comunitária com as companheiras virgens que, com ela, vieram de Roma.Embora no silêncio de sua vida recolhida, desenvolveu um apostolado eclesial participando das ansiedades e solicitudes do Bispo Ambrósio, orientando-o a lutar corajosamente em defesa da justiça e da fé, a descobrir no mundo, os sinais da esperança.</span></h2>
<h2><span style="color:#000000;">Ambrósio teve grande estima por ela e propôs seu exemplo a muitas jovens que eram também chamadas por Deus a uma dedicação total. Marcelina pôde assistir seu irmão até o fim, na rápida enfermidade que lhe abriu as portas do céu, na madrugada do sábado santo, no dia 4 de abril de 397. Ela morreu poucos meses depois, a 17 de julho e foi sepultada em Milão, na Basílica Santambrosiana. A voz do povo a proclamou santa.Na mesma vila de Cernusco, onde Marcelina partiu para a casa do Pai, teve início a Congregação das IRMãS MARCELINAS, fundada pelo Beato Luigi Biraghi, sob a proteção da Santa. </span></h2>
<h2><span style="color:#000000;">Conforme o seu exemplo, a nova Congregação propõe-se a orientar, formar, educar os jovens e todos os que lhe são confiados, no caminho do amor, “ensinando-lhes Jesus”.</span></h2>
<h2><span style="color:#000000;">Realizam-se assim as palavras do Papa Libério: “Muitas jovens te seguirão&#8230;”</span></h2>
<h2><span style="color:#000000;"><span style="color:#000000;"> Fonte:</span><a href="http://www.marcelinas.org.br/texto_dir.asp?are_cod_id=5"><span style="color:#000000;">http://www.marcelinas.org.br/texto_dir.asp?are_cod_id=5</span></a></span></h2>
<p> </p>
<p></span></td>
</tr>
</tbody>
</table>
</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/biografiadossantos2.wordpress.com/507/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/biografiadossantos2.wordpress.com/507/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/biografiadossantos2.wordpress.com/507/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/biografiadossantos2.wordpress.com/507/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/biografiadossantos2.wordpress.com/507/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/biografiadossantos2.wordpress.com/507/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/biografiadossantos2.wordpress.com/507/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/biografiadossantos2.wordpress.com/507/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/biografiadossantos2.wordpress.com/507/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/biografiadossantos2.wordpress.com/507/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/biografiadossantos2.wordpress.com/507/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/biografiadossantos2.wordpress.com/507/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/biografiadossantos2.wordpress.com/507/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/biografiadossantos2.wordpress.com/507/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=biografiadossantos2.wordpress.com&amp;blog=14156376&amp;post=507&amp;subd=biografiadossantos2&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://biografiadossantos2.wordpress.com/2010/08/24/santa-marcelina/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
	
		<media:content url="" medium="image">
			<media:title type="html">biografiadossantos2</media:title>
		</media:content>

		<media:content url="http://www.marcelinas.org.br/upload/ft_sta_marcelina.jpg" medium="image" />

		<media:content url="http://www.marcelinas.org.br/images/transp.gif" medium="image" />

		<media:content url="http://www.marcelinas.org.br/images/transp.gif" medium="image" />

		<media:content url="http://www.marcelinas.org.br/images/transp.gif" medium="image" />
	</item>
		<item>
		<title>Santa Rosa de Lima</title>
		<link>http://biografiadossantos2.wordpress.com/2010/08/22/santa-rosa-de-lima/</link>
		<comments>http://biografiadossantos2.wordpress.com/2010/08/22/santa-rosa-de-lima/#comments</comments>
		<pubDate>Sun, 22 Aug 2010 20:21:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>biografiadossantos2</dc:creator>
				<category><![CDATA[Santa Rosa de Lima]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://biografiadossantos2.wordpress.com/?p=487</guid>
		<description><![CDATA[     SECRETÁRIO DE ESTADO À REPÚBLICA DO PERU  HOMILIA DO CARDEAL TARCISIO BERTONE NA CELEBRAÇÃO EUCARÍSTICA NO SANTUÁRIO DE SANTA ROSA DE LIMA       Chimbote, 31 de Agosto de 2007  Queridos irmãos e irmãs! &#8220;O reino dos céus é semelhante a um grau de mostarda&#8230; é a mais pequena de todas as sementes, mas, [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=biografiadossantos2.wordpress.com&amp;blog=14156376&amp;post=487&amp;subd=biografiadossantos2&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:left;"><span style="color:#000000;"><a href="http://biografiadossantos2.files.wordpress.com/2010/08/santa-rosa-de-lima1.jpg"></a></span></p>
<p><span style="color:#000000;"><a href="http://biografiadossantos2.files.wordpress.com/2010/08/santa-rosa-de-lima2.jpg"></a><a href="http://biografiadossantos2.files.wordpress.com/2010/08/santa-rosa-de-lima3.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-503" title="Santa Rosa de Lima" src="http://biografiadossantos2.files.wordpress.com/2010/08/santa-rosa-de-lima3.jpg?w=450&#038;h=613" alt="" width="450" height="613" /></a> </span><span style="color:#000000;"> </span><span style="color:#000000;"> </span><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:center;"><span style="color:#000000;">SECRETÁRIO DE ESTADO<br />
À REPÚBLICA DO PERU</span></p>
<p style="text-align:center;"><strong><span style="color:#000000;"> </span><em><span style="color:#000000;">HOMILIA DO CARDEAL TARCISIO BERTONE<br />
NA CELEBRAÇÃO EUCARÍSTICA<br />
NO SANTUÁRIO DE SANTA ROSA DE LIMA</span></em></strong></p>
<div style="text-align:center;"><strong><span style="color:#000000;"> </span></strong></div>
<div><strong><span style="color:#000000;"> </span></strong><strong> </strong><strong> </strong></div>
<p style="text-align:center;"><span style="color:#000000;"><em>Chimbote, 31 de Agosto de 2007</em></span></p>
<p style="text-align:center;"><span style="color:#000000;"> </span><em><span style="color:#000000;">Queridos irmãos e irmãs! </span></em></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">&#8220;O reino dos céus é semelhante a um grau de mostarda&#8230; é a mais pequena de todas as sementes, mas, depois de crescer, torna-se a maior planta do horto&#8221; <em>(Mt</em> 13, 31-32). Na página evangélica, que a liturgia nos propõe na festa de Santa Rosa de Lima, Jesus compara o reino dos céus a um grão de mostarda, uma das sementes mais pequeninas, mas que, quando germina, se torna uma árvore frondosa e até alcança a altura de três metros. Não há proporção entre a pequenez da semente e o desenvolvimento sucessivo da planta com as flores e os frutos que produz, e não nos é difícil compreender, através desta metáfora, o ensinamento que o Senhor nos quer dar. De facto, assim como se observa uma clara desproporção entre uma árvore alta que cresce de uma semente muito pequena, também existe uma desproporção lógica entre os limites do homem e os prodígios de santidade que a Graça divina realiza nele. A vida dos santos e o caminho da Igreja ao longo dos séculos não são porventura um testemunho contínuo desta acção misteriosa do Senhor? Todos nós somos pequenas sementes a vicissitude humana e espiritual de Santa Rosa é muito eloquente a este propósito e Deus, dos nossos limites, pode fazer surgir prodígios maravilhosos de bondade e de amor. Eis a santidade: obra gratuita do Omnipotente Criador, quando encontra correspondência humilde e fiel na criatura humana.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Mas podemos acrescentar mais uma consideração. Nestes nossos tempos estamos justamente preocupados porque alguns cristãos abandonam a Igreja atraídos pelas chamadas das seitas ou seduzidos pela miragem do hedonismo moderno e por uma cultura que, acentuando a autonomia do homem, acaba por propor um humanismo sem Deus ou até contra Deus. Que fazer? O texto evangélico indica-nos um caminho a percorrer: cada instrumento pastoral e missionário é útil para uma acção apostólica mais incisiva, mas o que mais conta é que cada um de nós seja a semente boa que, graças à ajuda divina, é capaz de produzir certamente frutos abundantes.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Os cristãos são chamados a testemunhar com o seu exemplo a pertença convicta a Cristo e à sua Igreja. Assim tornam-se fermento de santidade. Afirma-o claramente Jesus que, no mesmo trecho do Evangelho de Mateus, identifica o reino dos céus, mais do que com uma pequena semente, com o fermento que faz levedar a massa. &#8220;O reino dos céus diz Ele é semelhante ao fermento&#8230; misturado em três medidas de farinha, até que tudo esteja fermentado&#8221; (13, 33). Para ter bom pão não serve simplesmente outro pão mesmo que seja fresco; é necessário o fermento que, quando se coloca na farinha, dá lugar a um fenómeno quase mágico: a massa cresce até sair do recipiente. É a força da vida, da qual o fermento é portador.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Um autor cristão dos primeiros séculos, de nome Orígenes, oferece um interessante comentário desta breve parábola. Identifica as &#8220;três medidas de farinha&#8221;, das quais o Evangelho fala, com os elementos da pessoa humana corpo, alma, espírito que para levedar, isto é, para se elevar, precisam do Espírito Santo. Também aqui podemos fazer uma aplicação muito actual. Hoje é frequente a tentação de um gnosticismo moderno que concebe a religião quase como uma opção individual e privada de modo intimista. Mas se é verdade que a fé é antes de tudo amizade íntima com Cristo, se é autêntica, esta fé só pode ser &#8220;contagiosa&#8221;, renovando a sociedade e até a criação, porque toda a criação pertence ao projecto da salvação. O cristão não deve contentar-se com ser &#8220;pão bom&#8221;, mas é necessário que seja fermento de santidade.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Foi esta a experiência de Isabel Flores y de Oliva, cognominada Rosa devido ao frescor do seu rosto. Mesmo sendo proveniente de uma família nobre de imigrantes espanhóis que se estabeleceram no Peru, não hesitou arregaçar as mangas quando os seus familiares, por uma série de desventuras, se encontraram em dificuldade económica. Desde a adolescência optou por seguir Jesus com íntimo arrebatamento, inscrevendo-se na Ordem Terciária dominicana e tomando como modelo e guia espiritual Catarina de Sena. Dedicada ao cuidado dos pobres e aos trabalhos ordinários que uma dona de casa é chamada a desempenhar quotidianamente, impôs-se um regime de vida austero que se distinguia por uma extraordinária penitência.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Com 23 anos fechou-se numa cela com apenas dois metros quadrados, que se fez construir pelo irmão no jardim de casa e da qual saía só para ir às funções religiosas. E era precisamente nesta angusta e voluntária prisão que transcorria a maior parte dos seus dias em contemplação, em intimidade com o seu Senhor. Como a Catarina de Sena, também a ela foi concedida a graça mística de participar fisicamente na paixão de Jesus, que tinha elegido como seu Esposo, e por 15 anos teve que atravessar a dura experiência interior da ausência de Deus, aquelas dores do espírito que São João da Cruz, o reformador do Carmelo, chama a &#8220;noite escura&#8221;.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Portanto, a vida de Rosa foi escondida e no sofrimento a qual, condescendendo ao Espírito Santo, alcançou o vértice alto da santidade. A mensagem que continua a comunicar aos devotos que a invocam como protectora não só peruanos e do continente latino-americano, mas de todo o mundo, expressa-se numa das misteriosas mensagens que recebeu do Senhor. &#8220;Todos sabemos confiou-lhe Jesus que a graça segue a tribulação; saibam que sem o peso das aflições não se alcança o vértice da graça; compreendam que tanto mais cresce a intensidade dos sofrimentos, tanto mais aumenta a medida dos carismas. Ninguém erre nem se engane; esta é a única verdadeira escada do paraíso, e sem a cruz não há outro caminho pelo qual subir ao céu&#8221;.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Palavras que fazem pensar imediatamente nas exigentes condições que o próprio Jesus apresenta aos seus discípulos: &#8220;Se alguém quiser vir após Mim, renegue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me&#8230; Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro se, depois, perde a sua alma? O que poderá o homem dar em troca da sua alma?&#8221; <em>(Mt</em> 16, 34-37). Encontra-se precisamente aqui o paradoxo evangélico, a verdadeira sabedoria da cruz, o escândalo da cruz. &#8220;Porque a linguagem da Cruz escreve São Paulo aos Coríntios é loucura para os que se perdem, e poder de Deus para os que se salvam, isto é, para nós&#8221; <em>(1 Cor</em> 1, 18). Ajude-nos Santa Rosa a abraçar com confiança a cruz como ela fez, também quando isto exige sofrimentos e aparentes insucessos. Num dos seus escritos lemos: &#8220;Ninguém se lamentaria da cruz dos sofrimentos, que o destino lhe dá, se conhecesse com que balanças são pesados na distribuição entre os homens&#8221;.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">A sua breve existência faleceu com apenas 32 anos foi marcada por numerosas provas e sofrimentos mas, ao mesmo tempo, foi toda permeada de amor a Cristo e de grande serenidade. Pode-se dizer que em Santa Rosa se manifestou o poder da Graça divina: quanto mais o homem é frágil e confia em Deus, tanto mais encontra n&#8217;Ele conforto e experimenta a força renovadora do seu Espírito. A primeira leitura do Livro do Eclesiástico convida-nos a viver no abandono humilde e confiante no Senhor: &#8220;Na tua actividade escreve o autor sagrado sê modesto, serás amado pelo homem e agradável a Deus&#8221;, e acrescenta: &#8220;É grande o poder do Senhor, mas é pelos humildes que ele é honrado&#8221; (3, 19-21). &#8220;No dia da tribulação Deus recordar-se-á de ti&#8221; (cf. 3, 17).</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">No dia da sua festa, Santa Rosa recorda-nos que Deus é bom e misericordioso, nunca abandona os seus filhos no momento da prova e da necessidade; convida-nos a ter sempre confiança n&#8217;Ele e a ser simples e humildes. A simplicidade e a humildade são virtudes que devemos aprender a praticar se quisermos seguir Jesus. Ele repete aos seus amigos: &#8220;Vinde a Mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e aliviar-vos-ei. Tomai sobre vós o Meu jugo, e aprendei de Mim, que sou manso e humilde de coração&#8221; <em>(Mt</em> 11, 28-29).</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Santa Rosa respondeu a este convite com uma consciência plena e disponível; deixou-se abraçar por Deus, na certeza de estar nas mãos de um Pai, amparada por uma intensa piedade eucarística e mariana. O amor à Eucaristia estimulou-a a permanecer abraçada ao tabernáculo para o defender das invasões dos calvinistas holandeses que assediavam a cidade de Lima. E recorria constantemente a Maria Santíssima, que invocava sobretudo sob o título de &#8220;Rainha do Rosário&#8221;.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Aliás, como sabeis, foi precisamente a virgem do Rosário que lhe indicou a forma de vida através da qual se teria consagrado para sempre a Jesus na Ordem terciária dominicana. De facto, aconteceu que quando a família se resignou à sua recusa do matrimónio, Rosa entrou no mosteiro de Santa Clara.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Contudo não tinha a certeza total de que esta fosse a opção justa e quando, acompanhada pelo irmão, deixou a casa para ir definitivamente para o mosteiro, deteve-se diante da &#8220;sua&#8221; Nossa Senhora. Rezou intensamente e apercebeu-se que se tornou pesada como o chumbo: nem o irmão, nem o sacristão a conseguiram erguer. E só quando prometeu a Nossa Senhora que voltava para casa, a Virgem sorriu-lhe e Rosa pôde erguer-se facilmente. Convenceu-se então que podia chegar a Jesus através do amor materno da Virgem Maria. Viveu assim consagrando-se toda a Jesus e a Maria; quando faleceu tinha sobre os lábios, como últimas palavras: &#8220;Jesus, Jesus, Jesus, esteja sempre comigo&#8221;.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Queridos irmãos e irmãs, agradeço ao Senhor que me oferece a possibilidade de terminar a minha permanência na República do Peru com esta peregrinação aos pés de Santa Rosa, excelsa filha da vossa Nação, nesta bonita Igreja na qual estão conservadas as suas relíquias. Depois de ter tido a honra de inaugurar o Congresso Eucarístico nacional no sábado passado, 25 de Agosto, pude presidir esta manhã à solene celebração de encerramento. O Congresso Eucarístico foi um acontecimento muito significativo e importante e de singular graça e bênção para todos. Por isto gostaria mais uma vez de dar graças ao Senhor. Sinto também a profunda necessidade de agradecer a Deus porque durante esta visita pude conhecer melhor a profundidade da fé das comunidades cristãs e o acolhimento cordial do povo peruano.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">No momento em que me despeço do vosso bonito País com esta Celebração Eucarística, invoco sobre todos e cada um a protecção de Santa Rosa e a ajuda materna de Maria, tão venerada em todas as partes do País. A vós peço uma recordação na oração por mim, mas sobretudo pelo Santo Padre Bento XVI, que segue com solicitude paterna e afecto a vida e o caminho da Igreja e da nação peruana. Possa a República do Peru perseverar e crescer numa fé firme e cheia de alegria, na concórdia e na paz, sob o olhar abençoador do <em>Señor de los milagros,</em> da Virgem Santa e de Santa Rosa.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"><em>El Señor de los milagros</em>, a Virgem Santa e Santa Rosa estejam particularmente próximos de quantos sofrem pelo terramoto que se verificou recentemente e cujas consequências ainda são muito vivas. Conservarei no coração as emoções e os sentimentos vividos nestes dias e continuarei a recordar-vos todos ao Senhor. No final desta minha visita, queridos irmãos e irmãs, rezemos pelos defuntos, pelos feridos, pelas famílias que ficaram sem casa; rezemos por todo o povo peruano para que saiba superar unido também esta prova para construir com esperança o próprio futuro, confiando sempre na ajuda divina. A palavra do Senhor repetiu-nos isto há pouco: &#8220;No dia da tribulação Deus recordar-se-á de ti&#8221; <em>(Ecli</em> 3, 17). Com esta esperança certa celebramos o sacrifício divino, fonte e ápice da vida da Igreja e do mundo remido pela cruz de Cristo.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Amém!</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Fonte:</span><a href="http://www.vatican.va/roman_curia/secretariat_state/card-bertone/2007/documents/rc_seg-st_20070830_s-rosa-lima_po.html"><span style="color:#000000;">http://www.vatican.va/roman_curia/secretariat_state/card-bertone/2007/documents/rc_seg-st_20070830_s-rosa-lima_po.html</span></a></p>
<h2 style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Vida de Santa Rosa de Lima</span></h2>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"><strong>Nascimento</strong></span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Era um dia de Julho na cidade de Lima. O sol escondia-se atrás do espesso lençol de névoa que cobre geralmente o litoral do Peru e do Chile, de Junho a Setembro. Maria de Oliva Flores arrepiou-se toda ao sair para o vasto jardim nos fundos de sua casa. Dias como aquele, sem o brilho do sol, não lhe agradavam. O ar estava pesado e úmido e ela se sentia sonolenta o dia todo. &#8211; Mariana! Você está aí? Do outro lado do jardim, fora do alcance da vista, dentre as árvores e as flores, veio uma voz de menina.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> - Si, senhora. Estou com Isabelinha.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> Maria de Oliva enveredou por uma estreita passagem, curvando a cabeça ao passar sob uma copada figueira. Já devia saber onde estavam. Depois do lanche, Mariana, a criadinha indígena, ia sempre para aquele sítio com a pequerrucha da família Flores. Desde os três meses de idade, Isabel se tornara definitivamente a favorita de Mariana. Maria apressou os passos ao avistar Mariana sentada ao lado do berço da criança. Com um sorriso de orgulho a iluminar-lhe o rosto, ela afastou a coberta rendada e contemplou a filhinha.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Mariana, já tive muitos filhos, mas creio que Isabel é o mais lindo de todos. Que lindos cabelos negros, e que olhos! E estas facezinhas tão rosadas!&#8230;</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">A indiazinha sorriu e seus dentes brancos fulguraram no bronzeado da face.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Isabel parece uma flor, senhora. É tão, boazinha! Nunca vi bebê tão amável.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Parece uma flor, Mariana? Que flor?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Uma rosa, senhora. Uma linda rosa. Olhe agora mesmo para ela, está sorrindo para nós como se compreendesse o que estamos dizendo. Maria de Oliva quedou um momento. <strong>Aquela criança nascera há três meses, a 30 de Abril, festa de S. Catarina de Sena.</strong> A 25 de Maio fora batizada pelo padre Antônio Polanco, na igreja de S. Sebastião, e recebera o nome de Isabel, para agradar a avó, Isabel de Herrera, mãe de Maria Oliva. Mas conviria esse nome realmente à criança? Não seria melhor chamá-la Rosa, conforme a flor a que tanto se assemelhava? Mariana vivia atarefada. A família Flores não era abastada, e, com vários filhos a alimentar e vestir, Gaspar Flores só podia manter uma criada. E isto, para Mariana, significava pouco tempo de folga. Para ela, isso era o menos e agora que a Isabelinha viera, era mesmo bom fazer parte da família Flores.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Quando este bebê crescer, será a moça mais bonita de Lima, &#8211; disse Mariana. &#8211; Ela nos trará felicidade.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Podemos aproveitar isso, &#8211; suspirou Maria. &#8211; As vezes é uma luta bem difícil chegar ao fim. Esperemos que Rosa despose um homem rico.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Rosa, senhora?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Isso mesmo. Não vou mais chamá-la Isabel. Rosa lhe calha muito melhor. Estou certa de que a avó não se há de importar se mudarmos o nome. Isabel Herrera, no entanto, importou-se. Seu orgulho fora extremamente lisonjeado, quando Maria batizara assim a linda filhinha, e ela recusou-se a ouvir falar em mudança.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Ela foi batizada Isabel, Maria. Por que você quer agora alterar as coisas?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Porque eu acho que o nome de Rosa lhe vai muito melhor. Mamãe, por favor, não oponha dificuldades!Isabel Herrera tinha um gênio inflamável.- Dificuldades? Que está você dizendo? O nome da menina é Isabel, e pronto.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- E&#8217; Rosa!</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- E&#8217; Isabel!</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Rosa, estou lhe dizendo!</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Isabel!</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Às vezes Gaspar Flores perdia a paciência com sua mulher e sua sogra.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Chamem a criança como quiserem &#8211; implorava mas deixem um homem ter um pouco de paz em sua própria casa. Por favor! Passou-se um ano, passaram-se dois, quatro e ainda a menina Flores continuava o centro de amarga contenda. &#8220;E&#8217; na verdade muita tolice &#8211; diziam os vizinhos. Esta pobre criança tem receio de responder quando a chamam Rosa porque desagrada à avó. E não sabe o que fazer quando alguém a chama Isabel, porque então é a mãe que fica zangada. Por que o Gaspar não impõe sua autoridade?&#8221; Mas Gaspar era impotente. Pouco podia fazer com sua esposa, e muito menos com a sogra.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Deus nos acuda, &#8211; implorava ele muitas vezes. Maria de Oliva era dada a súbitos impulsos de energia, e um dia resolveu ensinar a menina a ler e escrever.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Rosa, estás quase com cinco anos. Eu acho que podias aprender o alfabeto. Olha &#8211; esta letra é A. Esta aqui é B. E aqui está o C. E&#8217; muito simples.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Rosa achou uma folha de papel e uns pedaços de giz de cor. Ia ser muito bom! Bernardina, a irmã mais velha, sabia tudo a respeito da leitura e escrita. O mesmo se podia dizer de Joana, de André, de Antônio e de Mateus. Até o Fernando de sete anos sabia escrever seu nome muito bem. Talvez, pensou Rosa, ela pudesse pegar os irmãos e irmãs se trabalhasse com afinco. Entretanto, depois de meia hora a copiar letras, os dedos de Rosa começaram a ficar duros.- Estás cansada e eu também &#8211; decidiu Maria Oliva.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> - Amanhã teremos outra lição. Agora quero que me prometas uma coisa.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Sim, mamãe!</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Não vais atender a nenhum outro nome senão Rosa. Não&#8230; não importa que tua avó fique aborrecida. Teu nome é Rosa Flores e nenhum outro. Compreendeste? Rosa acenou com a cabeça. A discórdia por causa de seu nome sempre a entristecera. Detestava ver as pessoas- questionarem, especialmente sua mãe e sua avó. Desde que podia lembrar-se, entretanto, tinha sempre havido discussões entre as duas. Mesmo apesar de Maria insistir em ter tido certa vez urna visão, na qual lhe aparecera uma linda rosa escarlate sobre o berço de Rosa, Isabel Herrera não lhe dava crédito.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> - Essa rosa era um sinal do Céu, ordenando-me que mudasse o nome da menina &#8211; dizia Maria Oliva. &#8211; Estou absolutamente convencida disso.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Um sinal do céu, com efeito! &#8211; exclamava a velha senhora. – Não foi mais que produto da sua imaginação!</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Em breve Maria cansou-se de ensinar sua filha a ler e escrever. Não tinha muita paciência, nem mesmo nas melhores ocasiões. E ninguém havia que se interessasse pelo grande desejo de aprender que a criança demonstrava.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Você é apenas uma menininha &#8211; consolou-a um dia Mariana. – Há muito tempo para aprender leitura e escrita. Pelo que se aproveita, a gente pode ser bem feliz sem saber nenhuma das duas coisas. Só existe uma coisa realmente importante.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- O quê? &#8211; perguntou Rosa, interessada.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Saber o que é bom e fazê-lo. Você nunca terá verdadeira dificuldade se se lembrar disto, meu bem. As palavras de Mariana agradaram a Rosa e frequentemente revolvia-as na mente. Deus era bom. Quanto mais alguém pensava nele, tanto mais chegava a conhecê-lo. Depois disto, ser bom e fazer o bem era a coisa mais simples do mundo. Contudo seria bonito saber algumas coisas de modo a ser útil às outras pessoas.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Vou rezar &#8211; disse a si mesma a menina. &#8211; Já que ninguém tem tempo de me ensinar, vou pedir a Deus que me ensine. Ele pode fazer tudo, não pode?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Maria Oliva possuía em seu quarto uma imagem do Menino Jesus. Conforme o costume no Perú, a estatueta tinha um vestido próprio, de veludo vermelho orlado de ouro. Todos os dias Rosa ajoelhava-se diante da imagem e dizia uma oração.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> &#8221;Senhor, ajudai-me a conhecer-vos e amar-vos&#8221; &#8211; rezava ela, fervorosamente. &#8211; E, por favor, ensinai-me a ler e escrever&#8221;.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> Maria de Oliva nada sabia dessas oraçõezinhas de Rosa. Múltiplos afazeres a absorviam na direção daquela casa enorme, e às vezes o trabalho deixava-a fatigada e amargurada. &#8220;Não será sempre assim &#8211; pensava ela. &#8211; Algum dia a criança se há de casar, talvez muito bem. Então poderei fazer as coisas com mais sossego&#8221;. Uma manhã estava Maria amassando o pão. A cozinha estava quente e enfumaçada e o que ela não sentia era disposição para conversar. &#8211; Não me amoles agora &#8211; disse, ao ver Rosa escancarar a porta. Vai brincar com Fernando até à hora do jantar. &#8211; Mas, mamãe, a senhora não quer saber duma coisa maravilhosa? Eu sei ler e escrever!</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> Maria de Oliva bateu a enorme montanha de massa em sua frente. &#8211; Não deves andar inventando histórias &#8211; ralhou. Já não és um bebê, e deves saber que contar mentira é pecado.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Não estou contando mentira, mamãe. Eu sei ler e escrever. E&#8217; sério, de verdade. Olhei Maria deu uma olhadela ao papel que Rosa lhe estendia. Estava coberto de palavras, claramente escritas com letra grande e redonda. Para uma criança de cinco anos, a letra era muito boa.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Alguém andou te ajudando, &#8211; disse ela um pouco ríspida. &#8211; Teu pai ou tua avó.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Rosa sacudiu a cabeça:</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Ninguém me ajudou, mamãe. Só o pequeno Menino Jesus. A senhora está sempre tão ocupada e eu não queria aborrecê-la, então pedi a ele para me ajudar. E ele ajudou.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Um pouco do sangue fugiu do rosto aquecido de Maria.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Vai buscar-me um livro. &#8211; ordenou severamente. Qualquer livro. Veremos já se estás dizendo a verdade.Em poucos minutos Rosa estava de volta com um enorme volume verde.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Olhe, mamãe, há quatro palavras escritas em letras de ouro na capa.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Posso ler todas elas.Maria de Oliva olhou. Se esta sua filha estava dizendo mesmo a verdade&#8230;</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Bem, quais são estas quatro palavras?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Rosa sorriu. Era um dia esplêndido aquele, de que ela se lembraria enquanto vivesse. As quatro palavras douradas da capa do livro verde eram SANTA CATARINA DE SENA.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Dentro do livro havia muitas outras palavras, contando a história e a vida da grande santa italiana, cuja festa se celebrava no dia em que Rosa nascera. E ela sabia ler todas aquelas palavras.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Fonte:Mary Fabyan Windeatt. Santa Rosa de Lima. O anjo dos Andes.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Era um dia de Julho na cidade de Lima. O sol escondia-se atrás do espesso lençol de névoa que cobre geralmente o litoral do Peru e do Chile, de Junho a Setembro. Maria de Oliva Flores arrepiou-se toda ao sair para o vasto jardim nos fundos de sua casa. Dias como aquele, sem o brilho do sol, não lhe agradavam. O ar estava pesado e úmido e ela se sentia sonolenta o dia todo. &#8211; Mariana! Você está aí? Do outro lado do jardim, fora do alcance da vista, dentre as árvores e as flores, veio uma voz de menina.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Si, senhora. Estou com Isabelinha.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Maria de Oliva enveredou por uma estreita passagem, curvando a cabeça ao passar sob uma copada figueira. Já devia saber onde estavam. Depois do lanche, Mariana, a criadinha indígena, ia sempre para aquele sítio com a pequerrucha da família Flores. Desde os três meses de idade, Isabel se tornara definitivamente a favorita de Mariana. Maria apressou os passos ao avistar Mariana sentada ao lado do berço da criança. Com um sorriso de orgulho a iluminar-lhe o rosto, ela afastou a coberta rendada e contemplou a filhinha.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Mariana, já tive muitos filhos, mas creio que Isabel é o mais lindo de todos. Que lindos cabelos negros, e que olhos! E estas facezinhas tão rosadas!&#8230;</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">A indiazinha sorriu e seus dentes brancos fulguraram no bronzeado da face.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Isabel parece uma flor, senhora. É tão, boazinha! Nunca vi bebê tão amável.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Parece uma flor, Mariana? Que flor?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Uma rosa, senhora. Uma linda rosa. Olhe agora mesmo para ela, está sorrindo para nós como se compreendesse o que estamos dizendo. Maria de Oliva quedou um momento. Aquela criança nascera há três meses, a 30 de Abril, festa de S. Catarina de Sena. A 25 de Maio fora batizada pelo padre Antônio Polanco, na igreja de S. Sebastião, e recebera o nome de Isabel, para agradar a avó, Isabel de Herrera, mãe de Maria Oliva. Mas conviria esse nome realmente à criança? Não seria melhor chamá-la Rosa, conforme a flor a que tanto se assemelhava? Mariana vivia atarefada. A família Flores não era abastada, e, com vários filhos a alimentar e vestir, Gaspar Flores só podia manter uma criada. E isto, para Mariana, significava pouco tempo de folga. Para ela, isso era o menos e agora que a Isabelinha viera, era mesmo bom fazer parte da família Flores.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Quando este bebê crescer, será a moça mais bonita de Lima, &#8211; disse Mariana. &#8211; Ela nos trará felicidade.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Podemos aproveitar isso, &#8211; suspirou Maria. &#8211; As vezes é uma luta bem difícil chegar ao fim. Esperemos que Rosa despose um homem rico.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Rosa, senhora?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Isso mesmo. Não vou mais chamá-la Isabel. Rosa lhe calha muito melhor. Estou certa de que a avó não se há de importar se mudarmos o nome. Isabel Herrera, no entanto, importou-se. Seu orgulho fora extremamente lisonjeado, quando Maria batizara assim a linda filhinha, e ela recusou-se a ouvir falar em mudança.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Ela foi batizada Isabel, Maria. Por que você quer agora alterar as coisas?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Porque eu acho que o nome de Rosa lhe vai muito melhor. Mamãe, por favor, não oponha dificuldades!Isabel Herrera tinha um gênio inflamável.- Dificuldades? Que está você dizendo? O nome da menina é Isabel, e pronto.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- E&#8217; Rosa!</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- E&#8217; Isabel!</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Rosa, estou lhe dizendo!</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Isabel!</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Às vezes Gaspar Flores perdia a paciência com sua mulher e sua sogra.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Chamem a criança como quiserem &#8211; implorava mas deixem um homem ter um pouco de paz em sua própria casa. Por favor! Passou-se um ano, passaram-se dois, quatro e ainda a menina Flores continuava o centro de amarga contenda. &#8220;E&#8217; na verdade muita tolice &#8211; diziam os vizinhos. Esta pobre criança tem receio de responder quando a chamam Rosa porque desagrada à avó. E não sabe o que fazer quando alguém a chama Isabel, porque então é a mãe que fica zangada. Por que o Gaspar não impõe sua autoridade?&#8221; Mas Gaspar era impotente. Pouco podia fazer com sua esposa, e muito menos com a sogra.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Deus nos acuda, &#8211; implorava ele muitas vezes. Maria de Oliva era dada a súbitos impulsos de energia, e um dia resolveu ensinar a menina a ler e escrever.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Rosa, estás quase com cinco anos. Eu acho que podias aprender o alfabeto. Olha &#8211; esta letra é A. Esta aqui é B. E aqui está o C. E&#8217; muito simples.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Rosa achou uma folha de papel e uns pedaços de giz de cor. Ia ser muito bom! Bernardina, a irmã mais velha, sabia tudo a respeito da leitura e escrita. O mesmo se podia dizer de Joana, de André, de Antônio e de Mateus. Até o Fernando de sete anos sabia escrever seu nome muito bem. Talvez, pensou Rosa, ela pudesse pegar os irmãos e irmãs se trabalhasse com afinco. Entretanto, depois de meia hora a copiar letras, os dedos de Rosa começaram a ficar duros.- Estás cansada e eu também &#8211; decidiu Maria Oliva.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> - Amanhã teremos outra lição. Agora quero que me prometas uma coisa.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Sim, mamãe!</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Não vais atender a nenhum outro nome senão Rosa. Não&#8230; não importa que tua avó fique aborrecida. Teu nome é Rosa Flores e nenhum outro. Compreendeste? Rosa acenou com a cabeça. A discórdia por causa de seu nome sempre a entristecera. Detestava ver as pessoas- questionarem, especialmente sua mãe e sua avó. Desde que podia lembrar-se, entretanto, tinha sempre havido discussões entre as duas. Mesmo apesar de Maria insistir em ter tido certa vez urna visão, na qual lhe aparecera uma linda rosa escarlate sobre o berço de Rosa, Isabel Herrera não lhe dava crédito.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Essa rosa era um sinal do Céu, ordenando-me que mudasse o nome da menina &#8211; dizia Maria Oliva. &#8211; Estou absolutamente convencida disso.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Um sinal do céu, com efeito! &#8211; exclamava a velha senhora. – Não foi mais que produto da sua imaginação!</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Em breve Maria cansou-se de ensinar sua filha a ler e escrever. Não tinha muita paciência, nem mesmo nas melhores ocasiões. E ninguém havia que se interessasse pelo grande desejo de aprender que a criança demonstrava.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Você é apenas uma menininha &#8211; consolou-a um dia Mariana. – Há muito tempo para aprender leitura e escrita. Pelo que se aproveita, a gente pode ser bem feliz sem saber nenhuma das duas coisas. Só existe uma coisa realmente importante.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- O quê? &#8211; perguntou Rosa, interessada.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Saber o que é bom e fazê-lo. Você nunca terá verdadeira dificuldade se se lembrar disto, meu bem. As palavras de Mariana agradaram a Rosa e frequentemente revolvia-as na mente. Deus era bom. Quanto mais alguém pensava nele, tanto mais chegava a conhecê-lo. Depois disto, ser bom e fazer o bem era a coisa mais simples do mundo. Contudo seria bonito saber algumas coisas de modo a ser útil às outras pessoas.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Vou rezar &#8211; disse a si mesma a menina. &#8211; Já que ninguém tem tempo de me ensinar, vou pedir a Deus que me ensine. Ele pode fazer tudo, não pode?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Maria Oliva possuía em seu quarto uma imagem do Menino Jesus. Conforme o costume no Perú, a estatueta tinha um vestido próprio, de veludo vermelho orlado de ouro. Todos os dias Rosa ajoelhava-se diante da imagem e dizia uma oração.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">&#8220;Senhor, ajudai-me a conhecer-vos e amar-vos&#8221; &#8211; rezava ela, fervorosamente. &#8211; E, por favor, ensinai-me a ler e escrever&#8221;.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Maria de Oliva nada sabia dessas oraçõezinhas de Rosa. Múltiplos afazeres a absorviam na direção daquela casa enorme, e às vezes o trabalho deixava-a fatigada e amargurada. &#8220;Não será sempre assim &#8211; pensava ela. &#8211; Algum dia a criança se há de casar, talvez muito bem. Então poderei fazer as coisas com mais sossego&#8221;. Uma manhã estava Maria amassando o pão. A cozinha estava quente e enfumaçada e o que ela não sentia era disposição para conversar. &#8211; Não me amoles agora &#8211; disse, ao ver Rosa escancarar a porta. Vai brincar com Fernando até à hora do jantar. &#8211; Mas, mamãe, a senhora não quer saber duma coisa maravilhosa? Eu sei ler e escrever!</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Maria de Oliva bateu a enorme montanha de massa em sua frente. &#8211; Não deves andar inventando histórias &#8211; ralhou. Já não és um bebê, e deves saber que contar mentira é pecado.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Não estou contando mentira, mamãe. Eu sei ler e escrever. E&#8217; sério, de verdade. Olhei Maria deu uma olhadela ao papel que Rosa lhe estendia. Estava coberto de palavras, claramente escritas com letra grande e redonda. Para uma criança de cinco anos, a letra era muito boa.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Alguém andou te ajudando, &#8211; disse ela um pouco ríspida. &#8211; Teu pai ou tua avó.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Rosa sacudiu a cabeça:</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Ninguém me ajudou, mamãe. Só o pequeno Menino Jesus. A senhora está sempre tão ocupada e eu não queria aborrecê-la, então pedi a ele para me ajudar. E ele ajudou.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Um pouco do sangue fugiu do rosto aquecido de Maria.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Vai buscar-me um livro. &#8211; ordenou severamente. Qualquer livro. Veremos já se estás dizendo a verdade.Em poucos minutos Rosa estava de volta com um enorme volume verde.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Olhe, mamãe, há quatro palavras escritas em letras de ouro na capa.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Posso ler todas elas.Maria de Oliva olhou. Se esta sua filha estava dizendo mesmo a</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">verdade&#8230;</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Bem, quais são estas quatro palavras?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Rosa sorriu. Era um dia esplêndido aquele, de que ela se lembraria enquanto vivesse. As quatro palavras douradas da capa do livro verde eram SANTA CATARINA DE SENA.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Dentro do livro havia muitas outras palavras, contando a história e a vida da grande santa italiana, cuja festa se celebrava no dia em que Rosa nascera. E ela sabia ler todas aquelas palavras.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">II. VINDE, ESPIRITO SANTO</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Grande excitação produziu no lar dos Flores a notícia de que Rosa aos cinco anos aprendera a ler e escrever. Ninguém, entretanto, parecia inclinado a crer que o Menino Jesus fora o professor.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Algumas crianças têm imaginação demais, declarou Maria Oliva.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">-Receio que nossa Rosa seja uma delas.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Você quer dizer Isabel, não é? &#8211; disse sua mãe incisivamente.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> -Pois é este o seu nome verdadeiro. Quanto a mim, sinto que algo de verdade</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">pode haver no que ela diz. Afinal, quem pode dizer o que Deus fará por uma criança que o ama?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Com o passar dos meses o incidente foi ficando quase esquecido. Se alguém</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">o lembrava, diziam que era menos uma questão de oração que de habilidade natural. Rosa era uma criança inteligente. Ela pegara a leitura e a escrita simplesmente, por si mesma, do mesmo modo que aprendera música.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Não sabia ela tocar pequenas melodias na guitarra e na harpa? Não a tinham</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">ouvido cantar seus próprios versos, lá embaixo no fundo do jardim, quando ela julgava não haver ninguém por perto? Era tudo tão simples. Realmente, não houvera milagre nenhum. A menina era brilhante mesmo por natureza.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Rosa, no entanto, sabia a verdade. Por si ela nada era.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> - Deus é que era tudo. Nunca esqueceria isto. Pedir-lhe-ia o auxílio toda a vida. Ele havia de ouví-la, como o fizera no caso de aprender a ler e escrever, exatamente porque ela era tão fraca e desamparada. O tempo continuou a passar imperturbável. Rosa completou seu sexto aniversário, o oitavo, o nono, o décimo. Onze eram então os filhos da família Flores. A vasta casa, na rua de S. Domingos, era um lugar onde não havia solidão. Gaspar Flores, que viera de Porto Rico para Lima, havia alguns anos, estava achando difícil manter sua numerosa família.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Tinha, naturalmente, um emprego: por algum tempo fora encarregado de fazer armas de fogo e outras para os destacamentos do exército real da Espanha, estacionados em Lima. Era uma posição vantajosa, que lhe fora concedida por D. André Furtado de Mendoza, vice-rei do Peru. Mas que de cuidados não davam onze crianças! Quanto custava alimentá-las e vesti-las!</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Um dia em 1597, Gaspar chamou sua mulher. Tinham-Ihe oferecido uma oportunidade: ficar encarregado de uma mina de prata em Quivi, pequena cidade nas montanhas não longe de Lima.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Pode-se ganhar mais na mineração que em qualquer outra coisa, &#8211; disse ele a Maria. &#8211; Vou a Quivi e ficarei lá alguns meses para ver como vão as coisas. Se eu não gostar do trabalho, poderei sempre voltar ao antigo emprego.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Você está certo?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Gaspar riu-se.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Claro que estou certo. Todo mundo sabe que as espadas e espingardas que</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">faço são as melhores que se pode encontrar no Peru. Maria pensou muito tempo sobre a novidade. Por fim informou Gaspar que ela o acompanharia a Quivi.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Será esplêndido viver nas montanhas, &#8211; disse. &#8211; Estamos todos precisando uma mudança da vida na cidade. O homem franziu os sobrolhos:</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Suponha que este negócio não dê bom resultado?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Não acaba você de dizer que fabrica as melhores espingardas e espadas?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Que o vice-rei está satisfeito com o trabalho que você faz? Tolice, Gaspar. Vou tratar de arrumar as coisas. E assim sucedeu que a família Flores disse adeus à enorme casa solarenga em Lima, e partiu para Quivi. Rosa; então com onze anos, estava muito excitada com a mudança. Pela primeira vez na vida estava ela junto às grandes montanhas que se elevavam no fundo de sua cidade natal. Algumas milhas a oeste, o Pacífico rolava suas águas verdes, que vinham quebrar-se em branca espuma na extensão infindável de areia. A medida que se adiantavam na viagem, pequenas aldeias de índios surgiam à vista: casas feitas de barro marrom claro, cobertas de telhas vermelhas e amarelas.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Fernando, o irmão preferido de Rosa, estava também Interessado nos novos panoramas. Agradavam-lhe os esquisitos animais que os índios utilizavam &#8211; as lhamas com seus longos pescoços, as pequenas e sedosas vicunhas, as alpacas com seu pelo castanho. Esses estranhos animais podiam ser vistos por toda parte, pastando nos declives verdejantes dos Andes, ou levando carga para seus donos índios.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Eu gostava de ter uma lhama &#8211; disse Fernando à irmã. &#8211; Eu podia ensinar-lhe uns truques e Mariana cortar-lhe o pelo para tecer roupas bonitas e quentes. Com isso papai havia de poupar um pouco de dinheiro. Rosa concordou. Fernando sempre tinha boas idéias.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Talvez eu também pudesse fazer alguma coisa para ajudar. Que poderia ser?&#8230;</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">O garoto franziu a testa. Não havia muita coisa que uma menina peruana pudesse fazer. As filhas das melhores famílias ou se casavam ou entravam para um convento. Nunca se dispunham a um modo de vida pelos próprios recursos.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Por que preocupar-se com estas coisas? Mamãe diz que você, quando crescer, vai casar-se com um homem rico -afirmou ele, com a ponderação de seus treze anos. As lágrimas afluíram aos olhos escuros de Rosa.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Eu não quero casar-me, Fernando. O que eu quero é ficar em casa e ser útil a todos.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">O menino deu uma risada. Tinha orgulho daquela irmãzinha, mesmo quando ela dizia, às vezes, coisas sem pé nem cabeça. Quivi possuía uma igrejinha, e a família Flores foi visitá-la logo depois de sua chegada. Encontraram o pároco, padre Francisco Gonzales, muito agitado. Acabava de receber o aviso de que o Arcebispo de Lima viria para dar o sacramento da Crisma.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Eu gostava de ter uma lhama ,- disse Fernando à irmã.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Esplêndido &#8211; exclamou Maria de Oliva. &#8211; Tenho uma filhinha que ainda não foi crismada. Vamos começar a prepará-la.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Espero que ela saiba suas orações &#8211; disse Fernando. &#8211; Você sabe, Rosa?&#8230;</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Fernando, não apoquente sua irmã &#8211; ralhou Maria de Oliva. &#8211; E&#8217; claro que Rosa saberá seu catecismo. Eu mesma vou cuidar disso. Assim Rosa passou a estudar diariamente seu catecismo. Era um livrinho escrito pelo próprio Arcebispo, e impresso em 1584, o primeiro volume que saiu à luz do dia na América do Sul. O exemplar de Rosa era escrito em espanhol, mas o bondoso Arcebispo compilara também um em quichua e outro em aimará, dialetos comuns entre os indígenas.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Aqueles que conheciam o Arcebispo Turíbio estavam absolutamente certos de</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">que ele era um santo. Seu nome por extenso era Turíbio Afonso de Mogrovejo, e chegara a Lima em 1581 para ser o segundo Arcebispo da cidade. Como o primeiro Arcebispo, o famoso dominicano Jerônimo de Loaysa, Turibio era espanhol. A residência episcopal ficava perto da catedral, do outro lado da Praça das Armas. Esta praça constituía o mais belo parque de Lima. Aí o povo passava muitas horas apreciando as flores variegadas e gozando a sombra das graciosas palmeiras. Mas sempre que viam o Arcebispo sair do palácio, todos acorriam para receber a bênção. Mendigos e aleijados, principalmente, eram mais pressurosos, pois em tempos anteriores as orações do bom homem tinham operado maravilhas em favor dos pobres e doentes.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">&#8230;</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Francisco Pizarro chefiara esses recém-chegados, e com ele viera a desgraça para os nativos. Viram-se despojados de suas terras e forçados a trabalhar nas minas, percebendo salários miseráveis. Padres franciscanos e dominicanos seguiram as pisadas de Pizarro, trazendo o grande dom da fé, mas os índios não compreendiam que o soldado espanhol representava uma coisa e o padre, outra bem diferente. Para a maioria dos indígenas, um espanhol era algo a temer e desconfiar, fosse qual fosse o nome que exibisse.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Foi uma surpresa para Rosa ver que era ela a única menina na igreja no dia da Crisma. Havia, entretanto, dois garotinhos, e as três crianças ajoelharam-se no santuário aos pés do Arcebispo de Lima. O sol inundava o pequeno templo, rebrilhando na mitra dourada do Arcebispo e arrancando cintilações do magnífico anel que ele usava na mão direita. Que dia maravilhoso aquele! E que pena que o povo de Quivi não o compreendesse.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Pelo direito, pensava Rosa, a igreja devia estar repleta. O Arcebispo era de pequena estatura, delgado e contava cinqüenta e nove anos. Sentou-se numa cadeira em frente aos três pequerruchos ajoelhados e explicou o ato que ia realizar-se: O Espírito Santo, a terceira Pessoa da Santíssima Trindade, ia descer em suas almas. Aí permaneceria enquanto aquelas almas não ofendessem seriamente a Deus. E ficaria para sempre, não ficaria?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Para sempre, disseram os dois rapazinhos.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Para sempre, eternamente, disse Rosa.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">O Arcebispo sorriu, e o mesmo fez o padre Francisco Gonzales, que estava de pé ao lado deles, muito atento, revestido do hábito da Ordem dos mercedários. Então o Arcebispo rezou em latim, enquanto o padre Francisco foi a uma mesinha e trouxe um pratinho com óleo de oliva e bálsamo. Rosa ajoelhou-se perto do pratinho de óleo. Este santo óleo fora bento na última quinta-feira santa para ser usado na administração do sacramento da Confirmação. Era o crisma.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Fora da igreja rodavam as carroças nas ruas pedregosas. Vendedores ambulantes apregoavam suas mercadorias e as crianças indígenas riam e brincavam. No interior, porém, a cena era bem diferente. De pé, em frente do altar, o Arcebispo Turibio rezava em voz alta &#8220;Enchei-os com o espírito de vosso temor, e assinalai-os com o sinal da cruz de Cristo, em vossa misericórdia, para a vida eterna. Pelo mesmo Senhor nosso, Jesus Cristo, vosso Filho, que convosco vive e reina em unidade com o mesmo Espírito Santo, Deus, por todos os séculos dos séculos. Amém&#8221;.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Mergulhou, então, a ponta do polegar direito no Crisma e traçou o sinal da Cruz na fronte de cada um dos meninos: Rosa ergueu a cabeça quando se lhe aproximou o Arcebispo. O Espírito Santo estava prestes a vir sobre ela. Havia de trazer-lhe força e coragem para ser uma boa e verdadeira cristã.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">&#8220;Rosa, assinalo-te com o sinal da Cruz, e confirmo-te com o crisma da salvação. Em nome do Padre e do Filho e do Espírito Santo. Amém&#8221;. Terminara. A criança levantou os olhos para o rosto amável do Arcebispo. &#8220;A paz seja contigo&#8221;, murmurou ele, e deu-lhe um tapazinho, de leve, na face.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">III. O SEGREDO</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Havia uma eclosão de felicidade no coração de Rosa, quando ela finalmente deixou a igreja. Era, enfim, um soldado de Cristo. Daí em diante ela podia crescer, auxiliada por quatro maravilhosos sacramentos.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- E meu nome agora é mesmo Rosa, mamãe?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Maria de Oliva sorriu:</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- E&#8217; sim. O próprio Arcebispo acaba de dar-te este nome. Então, não seria mais Isabel, de modo algum. Rosa riu satisfeita e pegou a mão de sua mãe. Que bonito que era o mundo! Que bom estar viva, com as três Pessoas da Santíssima Trindade na alma! Mas, de repente, o sorriso desapareceu do rosto da menina. A seus pés na grande praça desabrigada de Quivi, dezenas de índios, com suas roupas de colorido brilhante, agrupavam-se ameaçadores, berrando imprecações.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Olha os cristãos! &#8211; gritavam. &#8211; Eles pensam que o Deus deles está na igreja!</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Cristãos, cristãos! &#8211; vociferam outros. &#8211; Cambada de loucos!</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Rosa fitou-os admirada. Seria possível que aquela gente estivesse zombando dela?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Eles estão falando a nosso respeito, mamãe?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Maria acenou que sim.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Pagãos excomungados! Não conhecem nada melhor. Vamos embora, Rosa, antes que eles comecem alguma desordem. Palavra que tal coisa nunca aconteceria em Lima! Pelo menos lá temos leis e ordem. Mãe e filha desceram apressadamente os degraus da igreja, mas, antes que atingissem o último, um grande clamor levantou-se da multidão. O Arcebispo Turíbio chegara á porta da igreja, e ai parara olhando a multidão aglomerada na praça. Seu rosto estava pálido e triste.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Meus filhos, por que agis desta maneira? &#8211; exclamou ele cheio de tristeza. -Não ouvistes que só os cristãos adoram o verdadeiro Deus?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Que ele está agora esperando por vós, aqui, nesta igreja? Que ele tornará vossas almas brancas e limpas como a neve nos Andes?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Qual! &#8211; berrou um velho. &#8211; És um espanhol! Um espanhol narigudo! Não gostamos de ti. Vai-te embora para tua cidade!</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Espanhol narigudo! &#8211; entoou um grupo de crianças, e a turba pegou o grito:</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Espanhol narigudo! Vai embora para a tua cidade!</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Rosa mal podia crer em seus ouvidos.A praça inteira regorgitava então de índios, que gargalhavam e faziam troça do bom Arcebispo. Uma mulher agarrou um cesto e o colocou na cabeça à guisa de mitra. Logo os que a rodeavam curvaram-se até ao chão, fazendo o sinal da cruz, à medida que ela fingia abençoá-los. De pé no alto da escadaria da igreja, o Arcebispo contemplava em silêncio aquele tumulto. O padre Francisco, que o seguira, sacudiu a cabeça.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> - Esforcei-me duramente por convertê-los, Excelência. Ah! que se vai fazer. Quivi nada mais é que uma cidadezinha perdida nestas montanhas. Há dezenas de outras, todas cheias de indígenas que insistem em que o seu deus é o sol, do qual fazem imagem de ouro e o adoram dia e noite. O Arcebispo fez um gesto de concordância. Suas feições tornaram-se subitamente severas e Rosa estremeceu ao vê-lo descer as escadas e avançar para a turba zombadora. Sua mão não se levantava na atitude usual de bênção, mas, ao contrário, apontava para o céu de um modo terrível.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Desgraçados! &#8211; bradou o Arcebispo. &#8211; Vossa cidade só será poupada à destruição durante três anos. Mais do que isso, não vivereis para insultar os servos de Deus!</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Ha, ha! &#8211; escarneceu o povo, fazendo roda para dançar em volta do Arcebispo. &#8211; Nosso Deus é o sol &#8211; cantaram; &#8211; nossa cidade santa é Cuzco. Vocês, espanhóis, nos roubaram nosso ouro e nossa prata. Não acreditamos no que vocês nos dizem!</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Rosa e sua mãe seguiram receosas esquivando-se à multidão, e entraram na rua que conduzia à sua casa. Podiam ainda ouvir os gritos e insultos dos índios, mas já não lhes viam as faces escarninhas. Ficava apenas a lembrança da cena, e as palavras assustadoras que o Arcebispo proferira. Semanas decorriam, e Rosa pensava freqüentemente no dia de sua Confirmação. Pouco a pouco enchia-lhe o coração o anseio de fazer alguma coisa pelas almas ignorantes dos indígenas. Mas o quê? Ela só tinha onze anos e era uma menina. Bem que Fernando tinha razão. Os homens e os rapazes podiam lançar-se ao mundo e ser úteis, mas que reservava o futuro para uma peruanazinha? Casamento, talvez&#8230; Ou a vida religiosa&#8230;&#8221;Não quero nenhum dos dois&#8221;, pensou Rosa.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Um dia acudiu-lhe uma idéia. Estivera, provavelmente, aninhada no fundo do cérebro desde os primeiros anos, e o problema dos índios pagãos fizera-a vir à tona.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">&#8220;Se não posso fazer grandes coisas, não custa tentar fazer bem as pequenas, &#8211; disse a si mesma &#8211; Posso ser paciente nas pequenas dificuldades, e oferecê-las a Deus em união com as que seu Filho teve neste mundo. Deste modo elas terão merecimento, e talvez até eu salve uma ou duas almas&#8221;.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Era uma idéia maravilhosa, e Rosa jamais a esqueceu. Se cortava o dedo, não se lamentava. Um corte no dedo pouca importância tem, mas podia significar muito se ela oferecesse a Deus a dor.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">&#8220;Dar-lhe-ei também toda a minha felicidade &#8211; pensou. &#8211; Dar-lhe-ei tudo&#8221;.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Assim escoaram-se os dias. A ninguém contou Rosa o seu segredo, mas Fernando, que, dos irmãos e irmãs, era-lhe o mais chegado, suspeitou alguma coisa.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- O que é que a torna tão feliz? &#8211; perguntou curioso.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Será porque você gosta de morar em Quivi, Rosa? Será por isto que está sempre cantando, quando pensa que ninguém a vê?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">O rubor afluiu ao rosto da menina.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Talvez, &#8211; sorriu ela.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Fernando lançou um olhar penetrante à irmã e começou a apontar um pedaço</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">de pau.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Se você gosta tanto de Quivi, talvez seja melhor eu não estragar seu prazer. Entretanto, ontem à noite, depois que papai chegou da mina, eu ouvi alguma coisa. Adivinhe o quê? Rosa sentou-se muito quieta. Aí estava uma ocasião de oferecer a Deus outro sacrifíciozinho. Curiosidade insatisfeita era em si pouca coisa, mas, junta aos sofrimentos de Jesus, assumia de repente grande valor.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Podia ajudar algum pecador ignorado; podia aliviar uma alma do Purgatório. Fernando parou de desgastar seu pedaço de pau.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Que há com você? &#8211; inquiriu ele. &#8211; Está com um olhar esquisito, assim como se estivesse rezando&#8230; Não está interessada no que papai disse?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Rosa sorriu.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Claro que estou interessada. Desculpe se fiz você pensar que eu não estava prestando atenção.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Ora, está bem. Eu só queria contar que nós vamos voltar para Lima.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">O pessoal todo.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Voltar para Lima?&#8230;</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Sim. Papal não está satisfeito na mina de prata. Ele diz que uma porção de índios morre todos os dias porque têm de trabalhar demais. Pior ainda, algumas das crianças estão morrendo de fome, porque os donos das minas não dão bastante comida ao povo. As coisas vão de mal , a pior. Foram as próprias palavras de papai. Os olhos da menina encheram-se de lágrimas.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">&#8230;</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">&#8220;Não podemos fazer algo&#8221; &#8211; pensava ela de vez em quando. &#8211; &#8220;Senhor, não posso ajudar de algum modo?&#8221;. Apesar, porém, de muito rezar, a, menina, na impotência de seus onze anos, não conseguia descobrir um meio material de socorrer os milhares de índios e negros desamparados. Tudo que podia fazer era continuar a oferecer a Deus Pai pequenos sacrifícios, unindo-os aos sofrimentos de Cristo na terra e pedindo-lhe que abençoasse os nativos tão pobres e ignorantes Uma manhã, pouco depois do regresso a Lima, estava Rosa no jardim, nos fundos da casa. Dias antes recebera licença dos pais de levar flores para vender no mercado. Isto rendia algum dinheiro, dissera a mãe, e o trabalho não era pesado demais. Rosa era dotada de notável perícia com plantas e flores, e o jardim de Gaspar floria como nunca.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Olá &#8211; irrompeu subitamente uma voz &#8211; esta atarefada senhorita é Rosa Flores?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- A menina ergueu os olhos dós molhos de violetas que estivera arrumando e ergueu-se.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Doutor João! Que prazer ver o senhor!</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">O Doutor João Pérez de Zumeta pôs no chão o volumoso embrulho que trazia.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Sua mãe disse que eu a encontraria aqui. Como vai a minha amiguinha depois da estada em Quivi?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Bem, obrigada, Doutor.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Com certeza?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Rosa deu uma risada alegre.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Oh! com toda a certeza. O senhor sabe, Doutor, que eu agora estou fazendo negócios? Negócio de flores. Ontem no mercado algumas de minhas rosas foram vendidas por um preço excelente. O Dr. João sorriu e sentou-se num pequeno banco de pedra.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Mariana já me deu estas boas noticias. Mas não foi por causa de negócios que eu vim vê-la, Rosa. Sua mãe chamou-me aqui para eu ter uma conversa com você. Parece que ela está um pouco preocupada. Rosa arregalou seus olhos escuros.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Preocupada? Por minha causa? Mas que fiz eu, Doutor João? Não posso imaginar&#8230;</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Ela me disse que você não come nem o bastante para manter um passarinho. Mais ainda, que você não dorme direito, pois todas as noites, quando pensa que ninguém está vigiando, você pula da cama para rezar.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Rosa corou.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Eu&#8230; eu sinto muito, &#8211; disse. &#8211; Pensei que ninguém soubesse disso.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">O Doutor João contemplou a menina à sua frente.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Você tem uma espécie de segredo, não é? &#8211; disse bondosamente.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">-Não quer contá-lo a mim? Você sabe que pode ter confiança. Não tenho sido seu amigo desde quando você era. um bebezinho?Rosa meneou a cabeça.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- O senhor é tão bom, &#8211; murmurou vagarosamente. Talvez me compreenderá.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Então o homem e a criança sentaram-se no vasto jardim, onde as borboletas multicores adejavam ao sol, e nos grossos ramos das oliveiras, as pombinhas</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">de Fernando arrulhavam docemente. . .</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Então, &#8211; disse o médico, &#8211; você vai contar-me o que há.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Rosa respirou fundo e revelou seu segredo.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Eu só quero salvar almas, centenas e centenas de almas, e o único meio que conheço é rezar e sofrer. Não está certo, Doutor João?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">IV. OUTRA VISITA</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">O Doutor João ouviu com interesse a sua amiguinha; nada, porém, do que ela dizia lhe mudaria a opinião. Salvar almas era sem dúvida. Uma belíssima obra, mas meninas de onze anos precisam bastante alimento e, pelo menos, dez horas de sono cada noite.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Você me faz lembrar alguém que encontrei há pouco tempo, &#8211; disse ele. -E&#8217; um rapazinho mais velho do que você, tem mais ou menos dezoito anos, suponho. Mas o caso é que ele tem a mesma idéia. Deseja salvar as almas dos pecadores: índios, pretos, gente branca, todo mundo. Rosa arregalou os olhos negros.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Um menino? &#8211; murmurou. &#8211; Eu não o conheço. Conheço?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">O Doutor meneou a cabeça.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Provavelmente não. Ele se chama Martim de Porres. Atualmente seu pai é governador do Panamá, mas a mãe dele é uma pobre preta, e mora com Dona Francisca Velez, perto da igreja de S. Lázaro.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Rosa ficou quieta. Martim! Ela tinha ouvido esse nome em algum lugar. Não tinha um dos padres da igreja dominicana?&#8230;</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Martim costumava servir de assistente ao meu velho amigo, o Dr. Marcelo de Rivero &#8211; continuou o Doutor João. Estes três últimos anos, entretanto, ele esteve ajudando os padres dominicanos em seu convento.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Ele é apenas um auxiliar terceiro, nem chega a ser Irmão leigo, mas muito</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">útil também, pelo que se conta.Rosa fez um sinal de aprovação.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Espero que ele salve muitas almas &#8211; disse suavemente.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">– Doutor João, o mundo precisa de tanta oração! Se o senhor tivesse visto aqueles pobres índios pagãos em Quivi&#8230;O médico levantou-se do rústico banco de pedra.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Esses índios devem ter impressionado profundamente a você, minha menina. Mas não pode estar a pensar neles todo o tempo. Olhe&#8230; trouxe-lhe um presentinho. Tinha que chegar-lhe às mãos um destes dias.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">O presente era um grande pacote que o Dr. João trouxera para o jardim. Rosa olhava ansiosa, enquanto ele desembrulhava. &#8211; E&#8217; uma roseirinha! &#8211; exclamou. &#8211; O&#8217; Doutor! E&#8217; branca?&#8230; quero dizer, dá rosas brancas&#8217;!&#8217;</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">O Doutor sorriu.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Assim me disseram. Uma amiga trouxe-ma ontem, de sua terra em Limatambo. Imaginei que você gostasse de possuí-la, pois vejo que está no negócio de flores.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Rosa exultou. O Doutor era mesmo o mais amável dos homens. Fora sempre um bom amigo para ela, até naquele dia terrível em que lhe cortara a unha do polegar porque estava se arruinando. Ela tinha então só três anos, mas a lembrança daquela faca afiada estava ainda fresca em sua memória. &#8211; Uma roseira branca era mesmo o que eu queria disse ela radiante.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">-Mariana sempre diz que as damas ricas mandam seus criados escolher rosas</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">brancas no mercado. Muito obrigada, Doutor João.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">O médico sorriu.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Não há de que, minha menina. E agora tudo que eu desejo de você é que me prometa cuidar de sua saúde. Promete? Vai deixar de pensar tanto nos pecadores, e mais em você mesma?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Rosa riu francamente.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Eu não fico doente, Doutor. Agora que eu tenho este jardim para cuidar, não há nem tempo para ficar doente. Além das flores, tenho as hortaliças e ervas para cuidar, e também as fruteiras. E&#8217; um bocado de trabalho. Mas sou tão feliz, Doutor João. Enfim encontrei um jeito de ser útil à família. Quando, entretanto, ficou outra, vez sozinha, Rosa suspirou acabrunhada. Então a mamãe estava preocupada por causa dela, mamãe achava que ela passava muito tempo rezando.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">&#8220;Não é&#8221;, &#8211; disse consigo a menina. &#8211; &#8220;Ninguém pode rezar demais&#8221;.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">E ela sentou-se pensativa no banco de pedra. O sol inundava de luz e calor o jardim e as pombinhas arrulhavam satisfeitas, mas no coração de Rosa começou a brotar uma leve tristeza. Ainda se alguém da família compreendesse&#8230; Mas nenhum deles se incomodava muito com salvar almas.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">E o que é pior: se bem que nada se dissera recentemente, Rosa sabia que o dinheiro proveniente da venda das flores era apenas o suficiente para .saldar algumas contas. Dentro de cinco ou seis anos, portanto, esperava-se que ela fizesse algo, mais. do que cultivar frutos e flores para vender em Lima: a. expectativa era que ela se casasse com um espanhol portador de bom nome e sólida fortuna. Muitos havia então na cidade &#8211; rapazes cujos pais tinham deixado a Espanha em busca de riquezas nas minas dos Andes.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Lima borboleta preta e branca adejou levemente sobre a roseira a seus pés e Rosa esqueceu seus pesares. Que linda criatura, essa borboleta alvinegra; cujas asas brilhantes como veludo cintilavam ao sol.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">&#8220;Talvez um dia eu possa usar também um vestido preto e branco&#8221;, -pensou. &#8211; &#8220;Esse menino de quem o Doutor João me falou &#8211; o Martim, ele deve usar uma roupa assim, se vive no convento dos dominicanos.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Mas uma menina não podia viver em .S. Domingos &#8211; só padres dominicanos e irmãos- leigos e auxiliares da ordem terceira como Martim. &#8220;Além disso, eu, não quero ser freira&#8221;, &#8211; pensou Rosa. &#8212; &#8220;O que eu desejo é viver aqui em casa e salvar almas, rezando&#8221;.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Subitamente, quebrou-se o silêncio no jardim. Os passos apressados de Mariana ressoaram na aléia, acompanhados do ranger de suas sandálias vermelhas.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Senhorita Rosa! Sua mãe quer que venha já para dentro. Há uma pessoa que quer vê-la. A menina sentiu o coração confranger-se-lhe no peito. Raro era o dia em que não aparecessem algumas senhoras em visita a Maria de Oliva, e sempre era exigida a presença de Rosa, para tocar guitarra, cantar algumas canções, e entreter os visitantes. Não seria mau, se ao menos aquelas damas fossem tão sensatas e compreendedoras como o Doutor João. Mas elas esgotavam o tempo conversando e tagarelando sobre as coisas mais tolas. E às vezes eram bem pouco amáveis a respeito de outras senhoras ausentes. &#8211; Eu ia mesmo plantar esta roseira, Mariana. Mas irei imediatamente, se mamãe realmente precisa de mim.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">A moça indígena, adivinhando-lhe os pensamentos, não disfarçou o riso:</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Não precisa sentir-se tão mal. A visita de sua mãe é Dona Maria de Quinhones.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Dona Maria?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Isso mesmo. Não faz muito tempo que ela esteve aqui.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Os olhos negros de Rosa iluminaram-se. Oh! isto era outra coisa! Dona Maria, a sobrinha do Arcebispo Turíbio, era uma pessoa amabilíssima.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Apesar de possuir uma bela casa e muitos servos, era muito humilde, e todos os dias, a despeito de todos os seus deveres sociais, conseguia tempo para fazer uma visita a Nosso Senhor no Santíssimo Sacramento.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Estou contente que seja ela, &#8211; disse Rosa simplesmente. – Irei logo; Mariana. Somente tenho que limpar-me um pouco primeiro. Estive plantando violetas, e minhas mãos estão sujas. Mariana concordou.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Trate de pôr seu vestido novo, o azul, &#8211; preveniu. E antes de apresentar-se a D. Maria, desça à cozinha. Tenho uma linda flor vermelha para lhe colocar nos cabelos.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Pouco depois Rosa entrava na sala de visitas, que era a da da frente. Seus longos cabelos negros tinham sido alisado cuidadosamente e presa ao lado ostentava-se uma papoula rubra. O vestido azul de seda era da última moda para meninas da sua idade: comprido até aos pés com um cinto estreito de prata das famosas minas de Potosi. Calçava sandálias entretecidas com pelo de lhama.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Maria de Oliva exultou de orgulho quando Rosa entrou na sala.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Ora, aqui está ela, por fim, Dona Maria. Que diz de sua aparência?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Dona Maria de Quinhones sorriu e abriu os braços.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Minha querida, acho que ela está maravilhosa!</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Rosa atravessou lentamente a sala em direção à grande cadeira perto da janela, onde D. Maria estava sentada. Trajava um vestido de seda cinzento e, protegendo-lhe os cabelos, um véu de rendas. Brilhavam-lhe nos dedos vários anéis e do pescoço pendia-lhe uma preciosa corrente de ouro com uma cruzinha de diamantes. Rosa sentou-se num banquinho perto da visitante.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Estou muito contente que a Sra. tenha .vindo &#8211; disse com simplicidade, olhando para o rosto bondoso da dama. Maria de Oliva fez um sinal de aprovação.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Dona Maria só pode dispensar-nos hoje alguns minutos, Rosa. Ela vai ao seminário levar algum mantimento para os estudantes.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Você gostaria de vir comigo, meu bem?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">A menina aquiesceu pressurosamente. Conhecia algo do seminário, se bem que nunca tivesse lá estado. Havia muitos anos que o Arcebispo Turíbio o fundara para os jovens que desejassem ser padres seculares. Fora os vários conventos, como o de S. Francisco e o de S. Domingos, não tinha havido até então, em toda a América do Sul, seminário algum para candidatos ao sacerdócio.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Eu gostaria de ir com a senhora, Dona Maria. Posso ir, mamãe?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Claro que sim, minha filha. Mas primeiro toca alguma coisa na tua guitarra para Dona Maria. Faz muito tempo que ela não te ouve. E enquanto tocas, vou ver se há um bolo para mandar ao seminário. A guitarra pendia da parede, no lugar de costume. Rosa foi buscá-la e afinou as cordas.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Compus um pequeno cântico outro dia &#8211; explicou com acanhamento à visitante. &#8211; Não é grande coisa. Dona Maria fez um sinal de aprovação.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Deixe-me ouvi-lo: Sempre gostei de suas canções, Rosa. A menina sentou-se, apoiou o instrumento no colo e começou a cantar.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Meu querido Senhor, quanto é bom ver nas flores, e no verde sombrio</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">da copada oliveira, Toda a vossa beleza. Como é doce saber Que abençoar-me quereis, E o meu coração De alegrias encher!</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Um sorriso aflorou aos lábios de Dona Maria. Que criança encantadora e tão bem educada: Não admira que todo mundo lhe predisse um grande futuro. Seria difícil encontrar em todo o Peru mocinha mais graciosa e prendada.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">&#8220;Ela não é só inteligente&#8221;, pensava Dona Maria. &#8220;Tem qualquer coisa que a distingue do comum das crianças. Posso vê-lo nos olhos. O que lhe reservará a vida?&#8221; Os dedinhos finos de Rosa feriram um acorde final. &#8211; Pronto. &#8211; disse à visitante. &#8211; É apenas um pequeno cântico, como os outros todos.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Uma pequena oração, talvez.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Acho que sim, Dona Maria. Reinava doce tranqüilidade na espaçosa sala de visitas. A mulher contemplou carinhosamente a menina e comentou:</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Você pensa muito em Nosso Senhor, não é, Rosa?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Penso, &#8211; concordou Rosa quase num murmúrio. Ele se interessa sempre por nós, jovens ou velhos, ricos ou pobres. Se nos esforçarmos por ser bons, Ele está sempre em nosso coração. Querida Dona Maria, as únicas horas em que sou realmente feliz, é quando me lembro de pensar n&#8217;Ele no fundo do meu coração, para que me ajude a chegar a Ele no céu.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">V. DUAS HISTÓRIAS</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">A visita ao seminário era interessante, dias Dona Maria de Quinhones não se demorou, pois, como fez saber a Rosa, tinha outros lugares aonde ir.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- As Irmãs do Convento da Encarnação?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Isso mesmo. Depois, talvez, teremos tempo de ir ao Convento da Conceição. E ao da Trindade também.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">A carruagem de Dona Maria rodou ligeira pelas ruas estreitas. Rosa seguia com interesse as cenas animadas que se, lhe deparavam; no entanto, não eram os edifícios majestosos nem os inúmeros jardins multicores que lhe chamavam em primeiro lugar a atenção. O que lhe prendia o olhar era o povo nas ruas &#8211; aleijados, mendigos e criancinhas esfarrapadas. Havia tantos! E parecia terem esquecido até de sorrir. Dona Maria lançou um olhar rápido à sua companheirazinha.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Adivinho o que está pensando, meu bem.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Os olhos escuros da menina brilharam.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Estava pensando que, se eu fosse um rapaz, iria amanhã para S. Domingos a fim de ser padre e fazer alguma coisa por toda essa pobre gente. Quantos deles nada sabem de Deus, Dona Maria. E não há padres bastante aqui no Peru, para ensinar-lhes. E&#8217; uma pena, não é?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">A dama concordou.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- E&#8217; mesmo, minha filha. Mas, diga-me, por que você gostaria de ser dominicana? Por que não franciscana, ou jesuíta, ou agostiniana?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Rosa sorriu. Tanta gente estava sempre perguntando a mesma coisa.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> - E&#8217; por causa de Santa Catarina de Sena, Dona Maria. Ela era terceira dominicana. E que pessoa extraordinária! Nós temos em casa um livro que conta a respeito dela. Já o li tantas vezes que acho que sei, de cor todas as palavras.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Eu também li sobre ela. Não há dúvida que era uma pessoa extraordinária. Mas era uma terciária e passava seus dias no mundo, nem nunca entrou para um convento.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Eu sei, Dona Maria. Ela pertencia à Ordem terceira. dominicana.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Deve ser uma vida encantadora, já que ela gostou tanto.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- É uma vida penosa, minha filha. E&#8217; necessária uma graça especial para tornar-se santa, vivendo no mundo.Rosa deu uma risada.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Eu vou experimentar, Dona Maria. Não quero casar-me nem entrar para um convento. Pedi a S. Catarina que me ajude a ser como ela. A senhora vê, quando eu tinha cinco anos&#8230;</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Que houve?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Ora, parece uma história muito tola, pois eu era então muito pequena.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Dona Maria animou-a com um sorriso.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Você me conta a sua história e depois eu lhe conto a minha. Enquanto</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">isso teremos chegado ao mosteiro da Encarnação. Mas, naturalmente, se</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">você quer guardar segredo&#8230;Rosa sacudiu a cabeça.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Não é tão importante. Além disso, quando eu ficar mais velha e toda gente esperar que eu me case, terei de explicar por que não posso. Portanto, eu conto primeiro à senhora. Sei que me compreende.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Obrigada, meu bem. Respeitarei sua confidência.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Foi numa tarde em que eu e Fernando estávamos brincando no jardim,</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> -começou Rosa. &#8211; Nesse tempo eu tinha cinco anos e ele, sete. Mariana tinha acabado de lavar-me os cabelos e eu estava satisfeita de ver como eles brilhavam ao sol. Eram mais sedosos e cheios de cachinhos. Eu estava orgulhosa de meus cachos, Dona Maria.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Não há dúvida de que eram bonitos. Mas Fernando começou a caçoar de mim. Fez de conta que era um padre pregando um sermão, e pôs-se a falar sobre a loucura de ser alguém orgulhoso de suas roupas e aparências. Dizia que, por essas coisas é que ia tanta gente para o inferno.. Eu , me sentara a ouvi-lo, e ele subitamente. apanhou um punhado de lixo e atirou-o sobre meus cabelos limpos. &#8220;Não precisa mais ficar tão orgulhosa&#8221;, exclamou.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">No primeiro momento fiquei mesmo zangada com Fernando. Depois, porém, meditei e conclui que ele tinha razão. Não devemos, realmente, ser tão convencidos por causa de nossa aparência, ou por termos dinheiro, saúde ou educação. E&#8217; claro que ele estava só brincando, nem nunca pensou que eu o levasse a sério. Mas eu o levei, e então toda gente ficou zangada comigo.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Por quê, minha filha?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Porque eu decidi cortar meus cachos, como fez S. Catarina quando era uma menina; assim eu não ficaria mais orgulhosa de minha aparência. Dona Maria não pôde deixar de rir.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Sua mãe nunca me falou nisso, e é com satisfação que vejo que o seu cabelo cresceu novamente. E&#8217; de fato uma cabeleira bonita.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Obrigada, Dona Maria. Há mais ainda na minha história. A senhora imagine, quando cortei meus cabelos, prometi a Nosso Senhor que o amaria sempre, mais do que a qualquer pessoa e qualquer coisa. Eu tinha só cinco anos, mas sabia que tudo que eu desejava na vida era servi-lo e trabalhar por sua glória aqui na terra. Eu não queria nem marido, nem lar, nem filhos &#8211; só Ele.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Compreendo&#8230;</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Mamãe, naturalmente, não sabe nada disso, e com certeza vai ficar muito zangada quando eu lho disser. Mas é assim, Dona Maria. E ninguém poderá fazer-me mudar de opinião. Pertenço a Deus, para sempre.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Dona Maria sorriu.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- E&#8217; uma história adorável &#8211; murmurou brandamente. &#8211; E estou certa de que, algum dia, terá um esplêndido final. Não fique, porém, surpreendida se for um pouco diferente do que você planejou.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Diferente?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Sim. Quando você .crescer, pode achar que sua vocação é para freira, e não terceira .dominicana como S. Catarina. Afinal, considerando os dons que Deus lhe concedeu, talvez seja mais acertado servi-lo na vida religiosa do que no mundo.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Talvez, Dona Maria. Mas agora eu acho que não. A nobre senhora contemporizou.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Bem, veremos. Agora vou eu contar-lhe a minha história. Estamos quase no convento da Encarnação e desejo que você a ouça antes de entrarmos. &#8211; Oh! sim, Dona Maria. Eu tinha quase esquecido que a senhora também tem uma história para contar. A dama recostou-se nas almofadas da carruagem e começou.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Foi a 6 de Janeiro de 1535, que D. Francisco Pizarro fundou nossa cidade de Lima. Você o sabe tão bem como eu, Rosa. E sabe também que; ele foi assassinado por seus inimigos em 1541. Pois bem, alguns anos depois as coisas andaram atrapalhadas no Peru. Alguns dos sequazes de Pizarro quiseram governar o país, e instigaram o povo a revoltar-se contra o dirigente legal, o rei da Espanha. Um desses rebeldes era o capitão Francisco Hernandez de Giron. No entanto, o prenderam finalmente e o executaram a 9 de Dezembro de 1554. Puseram-lhe o corpo num saco e, amarrado a um cavalo, o arrastaram pelas ruas de Lima.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Que coisa horrorosa!</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Isso mesmo. Queriam com isto escarmentar a outros que talvez quisessem revoltar-se contra o rei da Espanha. Entretanto, quem mais sofreu com esse espetáculo foi a esposa do capitão, Dona Mência. Ela assistiu a todo o terrível castigo &#8211; até ao dilaceramento do corpo de seu esposo pelas pedras das ruas. Passaram-se semanas inteiras até que se lhe atenuasse a lembrança daquelas cenas. Por fim comunicou a sua mãe, D. Leonor Portocarrero, que desejava passar o resto de seus dias rezando pela alma do capitão Francisco. Ainda que ele tivesse morrido como um criminoso comum, talvez a misericórdia divina o tivesse livrado do inferno. Ele podia estar até então no purgatório, sofrendo por seus pecados e clamando por orações de seus amigos.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Que fez ela, então, Dona Maria?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Dona Leonor concordou, pois ela também tinha desejado devotar-se à oração. Foram, portanto, visitar o Padre André, prior do convento dos agostinianos, que ficava perto. Contaram-lhe a respeito do infeliz capitão, e explicaram-lhe que desejavam ser freiras, e passar o resto de seus dias rezando pela alma de seu marido e genro. Rosa interrompeu sorrindo.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- E ele consentiu, Dona Maria? Ajudou-as a fundar em Lima o primeiro convento para senhoras?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Dona Maria mirou sua companheira.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Você sabe esta história tão bem como eu, Rosa! Por que não me disse?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Porque eu gosto de ouvir a senhora falar. A senhora torna tudo tão interessante. Realmente, eu não conheço a história toda. Essa parte do corpo do pobre capitão arrastado pelas ruas, por exemplo.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Bem, é verdade. Como é certo também que Dona Leonor e Dona</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Mência receberam o hábito agostiniano das mãos do padre André e iniciaram a vida religiosa em sua própria casa. Isto foi aí por 1558. Algumas pessoas não aprovaram de modo algum a idéia. Achavam que as duas senhoras deviam esperar até terem mais dinheiro e benfeitores. Mas, você compreende, era preciso não esquecer a alma do capitão.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Elas não tiveram de esperar muito tempo para terem um convento de verdade, não foi?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Três anos apenas. Lá está ele nesta rua, minha filha, &#8211; o Convento da Encarnação. Foi construido em 1561.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">As torres do mosteiro erguiam-se em frente das visitantes, e o carro seguia ao longo do muro de adobes que separava da rua o jardim. Rosa virou-se para sua companheira, enquanto o carro se dirigia para o portão principal. &#8211; Lima tem sido a primeira em muitas coisas, Dona Maria. No outro dia papai estava nos contando que nossa universidade é a primeira de toda a América, e foi fundada no convento dos dominicanos a 12 de Maio de 1551 pelo padre Tomás de San Martin.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Ha, ha, você gosta mesmo dos dominicanos, Rosa. Está sempre a cantar-lhes os louvores.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Mas é verdade, Dona Maria. A Universidade de S. Marcos foi a primeira&#8230;</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Não esqueça o seminário que acabamos de visitar. E&#8217; um pioneiro também. E temos o primeiro hospital Sant&#8217;Ana.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Fundado por um dominicano, Dona Maria, em 1549. A senhora não esqueceu que nosso primeiro Arcebispo, Jerônimo de Loaysa, pertencia à família de S. Domingos&#8230;</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">A dama levantou as mãos em cômico desespero.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Vamos, minha filha. Você sabe mais do que eu a respeito da história de Lima.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Rosa tomou o cesto de mantimentos que D. Maria trouxera para as freiras. Enquanto seguia sua amiga em direção ao pesado portão de madeira, acudiu-lhe uma idéia esplêndida. Quem sabe, Lima seria a primeira em mais alguma coisa &#8211; o primeiro lugar das Américas a possuir um santo canonizado!</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">&#8220;Talvez o próprio tio de D. Maria, o Arcebispo Turibio&#8221;, pensou ela. &#8220;E&#8217; um homem tão santo!&#8221;</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">VI. UM SANTO VEM A LIMA</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Passaram-se tempos. Na tarde de 23 de Agosto de 1601 vigília da festa de S. Bartolomeu &#8211; Mariana, a criada índia, voltava pela rua de S. Domingos, trauteando uma animada canção. De manhã, bem cedo, deixara ela a casa de seu amo Gaspar, com dois enormes cestos de flores. Os cestos voltavam vazios, e na bolsa tilintavam as moedas de prata. Fora um dia dos melhores no mercado. Cada uma das flores alcançara excelente preço.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> - Aposto que não há ninguém como a senhorita Rosa, quando se trata de cultivar flores, &#8211; pensava ela. &#8211; Sua mãe vai ficar bem satisfeita com o resultado de hoje. Quando, porém, Mariana abriu a porta de trás e percorreu a vasta habitação não viu sinal nem de Maria Oliva nem das crianças. Não havia em casa ninguém a quem pudesse contar as boas novas. &#8220;Agora me lembro&#8221;, resmungou, &#8220;a família toda foi à igreja dos franciscanos. Aquele novo pregador, padre Francisco Solano, prega lá hoje. Já começam a chamar o bom homem de &#8220;São Francisco&#8221;, por causa das coisas extraordinárias que tem feito&#8221;. Mariana tirou o largo chapéu de palha e dirigiu-se para a cozinha. Dai a poucos minutos ela teria de começar o jantar. O dia já ia declinando -aquele raro dia de sol, pois em Lima no mês de Agosto poucos dias de sol havia. Nisto a cidade não se parecia nada com Arequipa e Cuzco, outras cidades peruanas lá em cima, sobre os Andes. Em Agosto, geralmente, a costa é úmida e nevoenta, enquanto nas montanhas o sol brilha esplêndido dia após dia.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">&#8220;Faço fogo num instante e isso há de ajudar a livrar da friagem da noitinha&#8221;. &#8211; disse Mariana para si. &#8211; &#8220;Quanto a este dinheiro, é melhor colocá-lo num lugar seguro. E&#8217; a maior quantia que deram até hoje as flores da senhorita Rosa&#8221;.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Um canto melodioso interrompeu Mariana no seu cuidado de recontar e guardar as moedas de prata. Alguém estava cantando lá no fundo do jardim, e intercalando as notas suaves da canção percebia-se o trilo argentino de um rouxinol. Mariana largou o dinheiro e precipitou-se para a porta na ponta dos pés. Ouviam-se distintamente as palavras do cântico:</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Tu cantas a teu Criador,</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Eu canto ao meu Amor.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Para ambos nós é deleite</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Louvar do Céu o Senhor!</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">&#8220;Então a senhorita Rosa estava aqui o tempo todo&#8221; pensou Mariana. -&#8221;Eu devia ter adivinhado. Ela passa todo o tempo livre naquele nicho que construiu&#8221;.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Não levou muito tempo e o fogo brilhou na grande lareira. Mariana deu uma corrida ao poço perto da porta dos fundos, encheu de água a chaleira e pô-la ao fogo para ferver. Rosa ainda estava cantado, acompanhada pelo rouxinol, quando ela, finalmente, se meteu pelo caminho areento, em direção ao fundo do jardim. O céu estava escurecendo, e uma leve brisa soprava através dos galhos das árvores altas. Mariana teve u m arrepio.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- D. Rosa! Está na hora de aprontar a janta!</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Não houve resposta. A pobre mulher deu um suspiro e pôs-se a procurar o caminho na escuridão cada vez mais densa. O jardim da família Flores, cheio de arbustos e flores, era um lugar muito agradável de dia, mas à noite o caso era diferente. As grandes folhas pendentes das bananeiras pareciam torcidas e ameaçadoras. As oliveiras e figueiras apareciam sombrias e estranhas. Muitas vezes Maria de Oliva se queixara de que o jardim não era lugar seguro à noite.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Rosa, entretanto, não se amedrontava pela escuridão. Três anos antes, quando ela tinha apenas onze anos, construíra com suas próprias mãos um pequeno oratório num sítio distante o mais possível da casa. Era, na verdade, uma espécie de cabana feita de ramos e galhos curvados; no interior pusera um altarzinho com um crucifixo e velas. O oratoriozinho, dissera ela á família, era um bom lugar para se trabalhar e rezar.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">&#8220;A maior parte das meninas de quinze anos &#8211; pensava Mariana – andam ansiosas por se divertirem. D. Rosa é o contrário. Seu maior cuidado são ainda as almas, como salvá-las do inferno, como tornar-se mais agradável a Deus &#8211; aí está o que lhe enche os pensamentos&#8221;.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Estava tão escuro como úmido, quando, por fim, Mariana parou. Lá, escondido entre as bananeiras, descobriu ela o oratoriozinho de Rosa. Alarmado, o rouxinol soltou ainda uma nota. Mariana afastou para um lado a folhagem de um galho.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Senhorita Rosa! Não sabe que pode apanhar um resfriado mortal, sentada aí nesse lugar úmido? Então não pode rezar em outro lugar qualquer?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Da sombra de sua ermidazinha veio o riso claro de Rosa. Era um riso musical, quente e melodioso, e no mesmo instante Mariana se arrependeu de ter falado tão asperamente.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Estou muito bem, Mariana. O passarinho e eu&#8230;</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Bem que eu ouvi. Mas está na hora de jantar. Seria melhor guardar suas cantigas para amanhã.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Rosa abandonou o acanhado abrigo.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Acho que está esfriando, Mariana. Não o tinha percebido, pois estive tão ocupada a tarde toda. Primeiro costurei um pouco. Depois, quando ficou escuro demais, o passarinho veio e&#8230;</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Mariana deu uma olhadela no oratório. Uma cruz de madeira estava encostada na parede. Era da altura de Rosa. A boa criada sentiu calafrio, ao verificar que Rosa estivera fazendo outras coisas, além de costurar e cantar hinos. Uma parte da tarde ela passara carregando a pesada cruz pelo jardim, em lembrança da caminhada dolorosa de Nosso Senhor ao Calvário. Era um exercício que ela praticara alguns anos &#8211; um método especial de fazer a Via Sacra, quando se achava sozinha.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Vamos embora, D. Rosa. Eu preciso de ajuda no jantar.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">A menina acenou que sim e pegou um pano grande de linho. Era uma toalha de altar que Maria de Oliva lhe pedira para embainhar. O trabalho estava pronto desde cedo.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">No caminho para casa, Rosa notou alguém andando na cozinha, perto da janela.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Mamãe deve ter voltado já da igreja, &#8211; disse.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Não havia de me admirar, D. Rosa. Ela foi há tanto tempo.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Provavelmente o Padre Francisco pregou outro de seus lindos sermões.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Ele deve ser maravilhoso!</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Daqui a pouco saberemos. Mas não corra dessa maneira! Pode tropeçar numa pedra!</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Rosa aquiesceu. A escuridão, que enchia todo o jardim, pouco lhe importava. Conhecia palmo a palmo o lugar. Entretanto, diminuiu os passos. Não seria caridoso deixar Mariana descobrir sozinha o caminho naquelas trevas.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Eu gostaria de ter ido à igreja esta tarde, Mariana. Todo mundo em Lima fala sobre a santidade do Padre Francisco. Ele é missionário há onze anos, e dizem que tem convertido milhares de índios.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Então, por que não foi ouvi-lo?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Eu tinha que embainhar esta toalha para mamãe.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Ora, minha filha, isso podia esperar, e sua mãe só teria de ficar muito contente&#8230;</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Eu quis fazer um pequeno sacrifício.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Sacrifício! Dona Rosa, se eu escuto outra vez esta palavra . . .</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Não fique zangada, Mariana. Eu gosto de fazer sacrifícios. E&#8217; a minha maneira de ser útil aos outros. As vezes penso que é para isto que nasci -para que possa rezar e sofrer pelos outros.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Se fizer sacrifícios demais, não há de durar muito neste mundo.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Rosa esboçou um sorriso.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Não me importa. Sei que ficarei quanto tempo Deus quiser. E agora, Mariana, vou contar-lhe um segredo.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- O quê?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Amanhã é a festa de S. Bartolomeu&#8230;</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Isto não é segredo.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Não, mas o que vou dizer é. Quando eu morrer, acho que vai ser na festa de S. Bartolomeu. Todos os anos, quando se aproxima o 24 de Agosto, eu fico tão animada. O&#8217; Mariana, deve ser esplêndido viver no Céu e ver Deus para sempre.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Dona Rosa, não deve dizer tais coisas.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- E por que não? Muita gente fica esperando ansiosa o dia do aniversário, mas para mim acho mais grato prever e ansiar pelo dia da morte. E&#8217; com efeito um grande dia, Mariana. O dia em que começa a verdadeira vida.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">A índia fez um grande sinal da cruz.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Não deixe sua mãe ouvir essas esquisitices de morrer no dia de S. Bartolomeu. Não lhe agradaria nada, dona Rosa. Além disso, não é correto fazer a gente pensar que a senhora conhece o futuro. Isso compete a Deus.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Rosa acenou com a cabeça, concordando.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Foi ele quem me disse &#8211; explicou simplesmente.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">E era verdade. Muitas vezes, no âmago de sua alma, Rosa ouvia coisas espantosas. Uma vez era Nosso Senhor que lhe falava, outras era a Virgem Maria, ou então S. Catarina de Sena. E sempre davam-lhe a entender que os homens e mulheres devem fazer penitência por seus pecados. Pois uma alma com uma manchinha, embora insignificante, não pode entrar no Céu. Ou o pecador satisfaz por si mesmo, no purgatório ou neste mundo, ou alguém em lugar dele: e era isto que Rosa entendia com ser útil aos outros.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">&#8220;Eu quero satisfazer pelos pecados dos outros&#8221;, dizia ela; &#8220;Senhor, dizei-me o que quereis que eu faça&#8221;. Mariana e sua patroazinha atingiam já a porta dos fundos, quando um grito as fez estacar subitamente. Por cima do alto muro de tijolos que resguardava da rua o jardim dos Flores, viera o grito lamentoso de uma mulher oprimida pelo sofrimento. Rosa perscrutou ansiosa a escuridão.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Deve ser alguém ferido, Mariana. O grito veio exatamente do portão.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Mãe de Deus, filha, não vá ver o que é. Nada há que dizer, seja lá o que for.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Mas não podemos ficar aqui sem fazer nada.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Rosa pôs-se a correr em direção ao portão, e logo outro grito atravessou a noite. Ouvindo o distúrbio, Maria de Oliva abriu a janela da cozinha.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Que está acontecendo ai fora, Mariana? Por que não está aprontando o jantar?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">A criada juntou as mãos nervosamente.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Dona Rosa saiu à rua, senhora. Ela&#8230; ela pensa que há alguém ferido.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Saiu à rua! A esta hora?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">No mesmo instante o portão abriu-se rangendo nos gonzos e uns passinhos leves ecoaram na areia do caminho.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Está tudo bem, mamãe. Esta pobre mulher deu uma queda e feriu-se no joelho.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Maria de Oliva inclinou-se para fora da janela, e ficou quase sem fala ao ver Rosa caminhando vagarosamente para casa e ajudando uma índia que se lhe</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">apoiava ao ombro.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Ela está meio morta de fome, e machucada, mamãe. E está com frio, também.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Maria de Oliva olhou desalentada para o jardim escurecido. A maior parte dos índios em Lima era uma gente suja. Muitos eram doentes, e Rosa não só tocava com suas mãos num deles, mas, pelo visto, ia conduzir a criatura para dentro de casa. A índia estava ferida &#8211; vá lá, mas então que fosse para o hospital de Sant&#8217;Ana, no outro lado da cidade. Jerônimo de Loaysa, o primeiro Arcebispo, tornara-o acessível a qualquer índio doente.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Maria estava quase dominada de impaciência e aborrecimento. Algo, entretanto, a retinha no íntimo, e pela primeira vez na vida, ela não encontrava palavra para desabafar. Uma hora antes estivera ouvindo o sermão de um frade franciscano. Fora um sermão sobre a caridade. O padre Francisco Solano, de volta de seus recentes trabalhos missionários no Paraguai e na Argentina, não poupara os ouvintes. Não tinha palavras dulçorosas para o egoísmo.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">&#8220;Ou amais ou não amais o vosso próximo&#8221;, dissera ele. &#8220;Ou nele vedes Nosso Senhor Jesus Cristo ou vosso próprio orgulho. E aquilo que vedes é que indica se ides para o Céu ou para o Inferno. O&#8217; meus irmãos! Não vos desvieis jamais de um homem porque é pobre, porque é ignorante, porque tem a pele de outra cor que a vossa! Lembrai-vos, é bem possível que vos estejais desviando de Deus&#8221;.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Maria de Oliva saiu da janela e foi abrir a porta da cozinha. &#8211; Traz a mulher para dentro &#8211; murmurou. &#8211; Ao menos podemos dar-lhe uma boa refeição.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">VII. UM AMIGO NA NECESSIDADE</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Quando Rosa ficou mais crescida, obteve do pai permissão para cuidar de outras mulheres pobres e doentes. Uma sala especial foi reservada para essas infelizes. Recebeu o título de &#8220;Enfermaria&#8221;, e em pouco tempo tornou-se um verdadeiro refúgio para as pobres doentes de Lima. Passados meses, vários índios começaram a propalar que tinham sido curados na &#8220;Enfermaria&#8221;, especialmente depois de Rosa ter-lhes deixado segurar a estatuazinha do Menino Jesus. Aquela estatueta, insistiam eles, era milagrosa, e a própria Rosa referia-se a ela como ao &#8220;Doutorzinho&#8221;. Apesar da popularidade da filha entre os pobres de Lima, Maria de Oliva perdia às vezes a calma, quanto ao número de casos na &#8220;Enfermaria&#8221;.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Não haverá hospitais bastantes em Lima para que nossa casa se transforme também num? &#8211; perguntou certo dia a seu marido. &#8211; Há o de Sant&#8217;Ana, o de Santo André, o de São Lázaro! Com efeito, Gaspar, não vejo motivo por que Rosa há de manter aqui estas mulheres. Isto me põe doente!</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Gaspar Flores limitou-se a sorrir. Raro era o dia em que, sua enérgica esposa não se queixasse de alguma coisa.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Temos uma casa enorme, Maria. Certamente Rosa pode usar uma sala para sua caridade.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Caridade! Gaspar, podes compreender isto no ano de 1606? Rosa tem vinte anos e ainda não se casou. Então não tenho direito de reclamar, vendo-a gastar horas e horas com doentes índios e negros? Por que não há de ela interessar-se em travar conhecimento com algum jovem distinto? &#8211; Que adiantaria isso? Sabes o que ela nos disse.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">A sombra de um desgosto toldou o rosto de Maria. Então Gaspar acreditava realmente que sua filha não poderia casar-se nunca, porque se prometera a Deus quando tinha cinco anos. Que absurdo! Nenhuma criança de cinco anos</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">entende essas coisas.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Se Rosa não se casar, eu morrerei de vergonha, declarou ela, decisivamente. &#8211; Todo mundo já começa a falar. Dizem que há qualquer coisa de errado nela, que ela é esquisita&#8230;</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Gaspar soltou um suspiro. Rosa fora sempre diferente de seus outros filhos. Mesmo quando pequenina tinha coisas que o deixavam intrigado. As histórias que ela contava, por exemplo. Seria possível que o Menino Jesus lhe ensinara a ler e escrever? Que ela via o Anjo da Guarda? Que a Virgem Maria lhe aparecia freqüentemente, enquanto ela trabalhava no jardim?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Talvez seja a vontade de Deus que Rosa entre para um convento –disse ele, reatando a conversa. &#8211; Ao menos um de nossos onze filhos devemos à vida religiosa, Maria. Rosa está bem adequada, ao que me parece&#8230;</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- A menina entra para o convento, mas só passando sobre o meu cadáver &#8211; anunciou amargada a esposa. &#8211; Durante anos tenho colocado todas as minhas esperanças num bom casamento para ela. Achas que vou me deixar agora desapontar?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Ora, pensou Gaspar, que adianta discutir? Nos vinte e nove anos de vida conjugal Maria fizera sempre o que queria. Muitos havia em Lima, entretanto, que concordavam com Gaspar, declarando que Rosa possuía todas as qualidades de uma vocação religiosa. E por acaso, entre estes contava-se o tesoureiro da cidade, D. Gonçalo de Massa.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Natural de Burgos, na Espanha, D. Gonçalo chegara em Lima em 1601, e pouco depois travara conhecimento com a família Flores. A despeito de sua riqueza e alta linhagem, era um homem extremamente humilde, e seus servos negros e índios consideravam-se felizes de trabalhar em casa dele. Não ouvia D. Gonçalo cada manhã a missa numa das igrejas da cidade? E não dera ordens que nenhum pobre fosse jamais despedido de sua porta sem ter a fome saciada? E quanto a sua esposa, Dona Maria de Usátegui &#8211; onde se encontraria mais fiel cristã?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Na manhã em que Gaspar e sua mulher discutiam o futuro de Rosa, D. Gonçalo estava a caminho da igreja dos dominicanos para ouvir a missa. Era segunda-feira de Páscoa, uma brilhante e alegre manhã em fins de Março. Enquanto a carruagem rodava ligeira pelas ruas estreitas, D. Gonçalo ria-se, imaginando a recepção que o aguardava. Como sempre, era esperado por um bando de crianças, garotos esfarrapados, que sabiam que ele lhes trazia sempre, numa bolsa, um punhado de moedas de prata. Reboavam os gritos de boas-vindas, à aproximação do veículo, e ansiosos, os pequenos se precipitavam para o bom homem.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Deus vos abençoe, meus amiguinhos &#8211; gritava ele, espalhando pelo ar uma chuva de moedas. &#8211; João, cuidado com os cavalos, não atropeles a criançada.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Si, senhor &#8211; sorria o cocheiro índio.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Mas nem ele nem os cavalos precisavam de recomendação para andar com cautela. Já sabiam o que os esperava quando D. Gonçalo saía para a missa de manhã.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">A carruagem chegara quase à igreja, quando os grandes sinos da catedral começaram subitamente a soar. O dobre solene e pesado anunciava que a morte viera para alguma pessoa importante. Logo outros sinos juntaram suas vozes à fúnebre música. De todos os cantos da cidade ressoavam as graves badaladas, num contraste flagrante com os repiques exultantes de Páscoa, no</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">dia anterior.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">D. Gonçalo quedou-se atento nas almofadas de sua bela viatura. &#8220;E&#8217; o meu velho amigo, o Padre João de Lorenzana, que morreu!&#8221;, pensou ele. &#8220;Por que não fui vê-lo ontem como tinha planejado? Não me faltava tempo, ainda que fosse domingo de Páscoa&#8221;.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Agora era tarde. E, enquanto a carruagem enveredava por uma rua lateral, D. Gonçalo murmurou uma ligeira prece pelo bondoso Padre dominicano, que fora seu confessor. Aí brilharam-lhe os olhos ao divisar uma figura familiar que descia a rua &#8211; o santo negro, Martim de Porres.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Martim fora a princípio um simples terceiro auxiliar em S. Domingos. Três anos antes, contudo, em obediência aos pedidos de seus superiores, ele se tornara Irmão leigo. A maior parte de seus vinte e sete anos ele os despendera ajudando os desafortunados de Lima. Pouco importava se os infelizes eram ricos ou pobres, espanhóis, índios ou negros. A caridade do Irmão Martim desconhecia limites. Um dia não se passava, em que as maravilhas operadas por suas orações faltassem a algum indivíduo ou lar da cidade.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Deus seja louvado! &#8211; exclamou D. Gonçalo. &#8211; Justamente a pessoa que eu queria ver. João, deixa-me aqui, e conduz o carro para casa. Desejo falar ao Irmão Martim.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Si, senhor &#8211; concordou sorridente o índio.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">O Irmão dominicano vinha andando vagarosamente, a cabeça inclinada e movendo os lábios em oração. Vestia um hábito branco remendado sob um velho capote preto. Do braço pendia-lhe um cesto de mantimentos. Um cãozinho castanho, a cauda ereta, trotava-lhe satisfeito no encalço.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Espere um instante, Martim!</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">O religioso virou-se e olhou.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Bom dia, Excelência. Que as bênçãos desta santa Páscoa permaneçam convosco para sempre.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">D. Gonçalo estendia-lhe nervosamente a mão.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Irmão Martim, será que estes sinos estão dobrando pelo Padre João de Lorenzana? Terá o bom homem nos deixado?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Aos lábios do Irmão aflorou um sorriso.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Estive com o Padre João esta manhã. Ele já não está doente.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Não está mais doente? Mas não é possível! Semana passada ele estava às portas da morte.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Ele se levantará amanhã.Dom Gonçalo ficou estarrecido.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Então os sinos estão tocando por outra pessoa?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Sim, Excelência. Acaba de chegar uma mensagem de Sana. O Arcebispo Turíbio faleceu lá há quatro dias.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Não pode ser&#8230;</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Expirou na tarde de Quinta-feira Santa &#8211; informou calmamente o Irmão Martim. &#8211; Se bem que nenhuma mensagem pudesse ter chegado aqui, até hoje, muita gente já adivinhou a verdade. As Irmãs do convento da Encarnação, por exemplo, viram na quinta-feira passada uma cruz brilhante no</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">céu. Nessa noite havia, também, um eclipse da lua. As Irmãs acreditam que estes eram sinais de que o Senhor chamara a si o Arcebispo.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Nesse ínterim o contínuo badalar dos sinos trouxera para a rua centenas de pessoas. E quando a noticia se espalhou de que o querido Arcebispo estava morto, muitos romperam em pranto. Que fariam sem o bondoso homem que, durante vinte e cinco anos, fora o seu pastor espiritual? que partilhara com os pobres todos os seus bens mundanos?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">D. Gonçalo deixou escapar um suspiro.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Estive em Callao toda a semana passada, Martim. Estava lá um navio chegado da Espanha e eu tinha ordem de inspecionar a carga. Mas não tenho escusa para minha ignorância a respeito do Arcebispo. Hoje de manhã minha filha Micaela tentou dizer-me alguma coisa sobre aqueles sinais no céu.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Deus me perdoe! Eu estava muito apressado para ouvi-la.Martim sorriu. &#8211; Acho que sei por que, Excelência. Queríeis assistir à missa na igreja dos Dominicanos&#8230; Vejo, porém, que vos estou atrasando&#8230;</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">D. Gonçalo meneou a cabeça.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Não, Martim. Tenho algum tempo ainda. Mas você&#8230; vai a algum</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">lugar com este cesto de víveres?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">O religioso concordou com um gesto da cabeça.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Há na próxima rua uma pobre mulher leprosa. Quereis fazer uma oração para que ela melhore de saúde?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">D. Gonçalo não pôde deixar de achar graça. O Irmão Martim tinha um jeito especial de fazer suas obras de caridade, e sempre pedia aos outros que rezassem por seus protegidos doentes. Quando estes apareciam subitamente curados, atribuía o fato extraordinário à bondade das outras pessoas. As vezes até dizia que o caso era devido a algum novo remédio.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">&#8230;</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">&#8220;Ela estaria melhor num convento &#8211; pensou D. Gonçalo.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">-Provavelmente a única coisa que a impede é o fato de sua família ser pobre. Precisam do dinheiro que ela ganha na venda de flores. Além disso, Gaspar Flores é muito pobre para dar um dote à filha.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Subitamente uma idéia surgiu no espírito de D. Gonçalo. Não poderia ele ajudar? Como homem de alta influência política não lhe faltava dinheiro nem prestígio. Seria coisa de nonada para ele, providenciar para que Rosa tivesse um dote adequado e que a família recebesse uma espécie honrosa de auxílio.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">&#8220;Vou fazê-lo! &#8211; disse a si mesmo. &#8211; Será realmente um prazer ajudar a menina&#8221;.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">E, enquanto considerava a parte que estava para representar na vida daquela</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">jovem, D. Gonçalo sentiu-se inundado de uma grande onda de felicidade. Mas quando ele oferecesse a Rosa a possibilidade de ser freira, qual dos cinco conventos de Lima ela escolheria? divagava ele. &#8211; Talvez o mais recente, o convento franciscano de Santa Clara, que o bom Arcebispo (Deus tenha sua alma!) fundara dois meses antes&#8230;</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Quanto mais examinava a idéia, melhor lhe parecia. A vida de uma pobre clarissa era dura, mas Rosa com certeza sabia suportar o sofrimento. De acordo com sua esposa, raro era o dia em que a menina não tivesse algum sacrifício, aceito alegremente, a oferecer a Deus.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">&#8220;Uma vez no convento &#8211; devaneava o bom homem ao menos uma tribulação lhe será poupada. A mãe pode querer casa-la com alguém que não seja digno</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">dela&#8230; &#8220;</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">De repente soaram as campainhas, e D. Gonçalo olhou para o altar com ar de culpado. &#8220;Que se passa comigo? censurou-se. &#8211; Não prestei a menor atenção a esta Missa&#8230; &#8220;</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">VIII. ADEUS A S. DOMINGOS</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Dom Gonçalo não era o único a imaginar que seria bom para Rosa ser uma pobre clarissa. Sua velha amiga, Dona Maria de Quinhones, tivera a mesma idéia desde os tempos em que ajudara seu tio, o Arcebispo Turíbio, a fundar o convento franciscano de Santa Clara.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Por que não queres ser freira? &#8211; perguntou ela um dia, em que as duas conversavam sentadas no jardim de Gaspar. &#8211; Imaginas a paz que terias no convento! Pensa na felicidade de te dares inteiramente a Deus! Minha querida, D. Gonçalo contou-me tudo. Se é questão do dote, ou de como tua família se há de avir sem o dinheiro que rendem tuas flores, não te preocupes um momento. Dom Gonçalo providenciará sobre tudo.Rosa abanou a cabeça.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Ele quer que eu seja clarissa &#8211; disse ela lentamente. &#8211; E a senhora tem a mesma idéia. O&#8217; Dona Maria, não sei o que fazer! A dama sorriu, pois sabia qual era a dificuldade. Há muito tempo, Rosa dera seu coração à Ordem de S. Domingos e, no entanto, não havia em Lima freiras desta Ordem.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Tens agora vinte anos. Se estás realmente certa de que não queres casar-te&#8230;</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Estou bem certa, Dona Maria.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Então, por que esperar? Se fosse vontade de Deus que sejas dominicana, Ele teria, sem dúvida, providenciado a isto, fazendo que houvesse aqui um convento de dominicanas.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Santa Catarina não era freira. Talvez eu pudesse ser uma Terceira Dominicana, assim como ela.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- E viver no mundo? Põe de lado esses desentendimentos. Rosa, meu bem, há muito tempo de te fiz ver como é difícil levar no mundo vida de solteira. E&#8217; necessária uma graça especial. Com a inclinação que Deus te deu para a oração e o sacrifício&#8230; bem, não posso evitar de pensar que pertences ao convento.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- De Santa Clara?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Naturalmente o Convento de Santa Clara me é muito caro ao coração.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Mas há quatro outros em Lima. Não gostaria de ser agostiniana? O convento da Encarnação é o primeiro para mulheres do Novo Mundo. Seria grande honra ser lá aceita, Rosa.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">A mocinha suspirou. Realmente, não faria tanta diferença. Tão bem pode-se servir a Deus sob a Regra de S. Agostinho ou S. Clara como sob a de S. Domingos. Entretanto, por que todo o seu ser clamava para ser dominicana? Por que, desde sempre tomara S. Catarina por especial modelo? Até as alvinegras borboletas do jardim paterno</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">-sempre as preferira a quaisquer outras porque lhe lembravam as cores do hábito dominicano. Semanas passaram-se, e finalmente Rosa confiou a Fernando que tomara uma resolução. Se D. Gonçalo ainda quisesse proporcionar-lhe o dote, ela entraria para o convento agostiniano da Encarnação.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Agostiniana?! Mas o que fez você mudar de idéia, Rosa? Eu pensei que você não queria entrar para o convento.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Chiu&#8230; Fernando! Não precisa espalhar isso para ninguém.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Quer dizer que não disse a papai nem mamãe?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Rosa acenou afirmativamente.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Não, &#8211; disse pausadamente. &#8211; Até agora só o meu confessor em S. Domingos sabe da minha resolução, o Padre Alonso Velasquez.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- E que acha ele?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Não disse muita coisa; apenas me deu a bênção e algumas palavras de aviso.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">O jovem contemplou pensativo a irmã. Melhor do que ninguém na família, sabia ele quão fielmente ela se dedicara à oração e às boas obras. Fora sempre assim, mesmo quando eram pequeninos. E agora via-a prestes a fazer o maior de todos os sacrifícios.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Alguma coisa o entristece, Fernando.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Não é bem isso. Mas vou perdê-la, Rosa. Não posso imaginar o que será vir para casa e não encontrar você por aí. Você sempre esteve aqui quando eu precisava. Agora, quando eu quiser falar-lhe, haverá grades de permeio; outras freiras, quem sabe, estarão ouvindo o que eu disser. E&#8217; assim que é nos conventos, não é?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Chiu!&#8230; Alguém pode ouvir&#8230;</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- E o que tem isso? Afinal vai-se saber.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Eu quisera poder contá-lo a todo o mundo, agora mesmo – exclamou Rosa. &#8211; Mas o Padre Alonso me diz que guarde segredo. Até de papai e mamãe. A propósito, você quer fazer-me um favor?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- O quê?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- A Madre Abadessa espera-me no Convento, no domingo que vem, à tarde. Você quer me levar, Fernando? Eu não posso ir sozinha. O rapaz fez um gesto de aquiescência. O costume espanhol não permitia que moça alguma de boa família andasse pelas ruas desacompanhada. Muitas vezes tivera ele de acompanhar Rosa à igreja ou a algum convento.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Claro que levo &#8211; disse ele imediatamente. &#8211; Talvez seja uma boa ação</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">que vá ficar gravada na história. O resto da semana Rosa andou muito ocupada, e não foi só com flores. De vez em quando dedicava-se a trabalho de agulha e bordado. Algumas senhoras abastadas eram suas freguesas e o dinheiro que lhe rendiam estas atividades eram de grande auxilio à casa. &#8220;Não será muito diferente quando eu tiver ido embora&#8221;, dizia ela para si, &#8220;graças a D. Gonçalo. Que faria eu sem um amigo tão bom? Não só me deu um dote, mas ainda prometeu olhar pela família e cuidar que tudo continue normalmente. O&#8217; Senhor! eu vos agradeço por D. Gonçalo.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Abençoai todos os seus dias!&#8221;. Na hora combinada, domingo à tarde, Fernando e Rosa dirigiram-se para o Mosteiro da Encarnação. Difícil foi para a jovem sair sem despedir-se de seus pais, irmãos e irmãs, e de Mariana. Mas tinha de ser assim. O padre Alonso Velasquez receava os argumentos que haviam de chover se as intenções de Rosa fossem conhecidas pela família. Quando o portão de madeira se fechou atrás deles, Rosa virou-se para seu irmão preferido:</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Espero que tudo isto seja a vontade de Deus, Fernando.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- E o que mais podia ser?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Eu não estou tentando fugir a dificuldades.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Claro que não! Muito mais você está assumindo, com entrar para o convento.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">A jovem caminhava silenciosa pelas ruas, olhando pela última vez as acanhadas casas de adobe, os mendigos, os garotos indígenas brincando. Subitamente um cão branco e preto disparou brincalhão na direção dela. Fernando estendeu instintivamente o braço para protegê-la. &#8211; Cuidado, Rosa. Ele pode mordê-la&#8230; E não está muito limpo&#8230;</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Oh! ele não morderia ninguém, Fernando. E&#8217; apenas um cachorrinho. Mas, que interessante! ele é preto e branco.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Preto e branco! Lá começa você outra vez; ainda pensando nos dominicanos!</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Rosa deu uma risada.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Nem por isso, Fernando. Mas estou com vontade, se houver tempo bastante&#8230;</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- De que?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- De ir a S. Domingos para uma última visita.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">O rapaz concordou.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Está bem. Acho que podemos dispor de alguns minutos.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">No interior da igreja dos dominicanos os dois irmãos separaram-se. Fernando permaneceu no fundo do templo, enquanto sua irmã prosseguia pela ala direita até à capela do Rosário. Aí ajoelhou-se ante o altar dourado dedicado a Nossa Senhora e uma vez ainda ofereceu-se como serva à Bemaventurada Mãe e a Seu Filho.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Ajudai-me a ser boa &#8211; implorou ela. &#8211; Mãe queridíssima, tende piedade dos pobres, dos ignorantes, dos sofredores! Pedi a Santo Agostinho que rogue por mim, a fim de que eu possa salvar muitas almas, como freira em sua santa Ordem. À medida que os minutos passavam, Fernando se tornava inquieto. Rosa estava esquecendo que prometera ficar somente um pouco na igreja dos</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">dominicanos. A Madre abadessa das agostinianas dissera-lhe que estivesse no</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">convento a tempo das vésperas, e se quisessem chegar na hora, teriam. que</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">andar depressa.  Ele deslizou para fora do último banco em que estivera sentado e dirigiu-se rapidamente para a irmã.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Rosa, está na hora de sairmos.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">A jovem levantou os olhos para ele. Suas faces estavam quase descoradas e</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">uma expressão de espanto transparecia-lhe nos olhos arregalados:</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Fernando, alguma coisa aconteceu! Não posso mover-me. E&#8217; como se</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">meus joelhos estivessem colados ao chão.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- O quê!?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Sério! Desde que me ajoelhei tive que permanecer no mesmo lugar. Há uma força estranha retendo-me aqui.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">O rapaz olhou-a assombrado. Que acontecera? Estaria sua irmã atacada de</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">alguma doença esquisita? Ou estaria ela com alguma brincadeira? Um olhar, porém, a seu rosto empalidecido, convenceu-o de que ela dizia a verdade. Algo misterioso acontecera na capela de Nossa Senhora. Realmente, Rosa não podia levantar-se.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Eu a ajudo, &#8211; disse ele com voz trêmula. &#8211; Pegue aqui o meu braço. Mas anda depressa com isso. Algumas pessoas na igreja já estão esquecendo suas orações. Daqui a pouco estaremos rodeados de uma multidão para ver o que há.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Rosa agarrou-se ao braço do irmão, mas nem o esforço combinado dos dois adiantou. Diante do altar da Senhora do Rosário, cheio de flores e tremeluzentes círios, continuou Rosa presa, de joelhos. Fernando olhou em volta, como a procurar auxílio. Que haviam de fazer? Aquela hora as freiras já estariam no convento à espera da nova Irmã. Mandariam talvez até um recado à casa dos Flores para saber por que ela não teria vindo. Se tal acontecesse, os planos de Rosa deixariam de ser segredo.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Faça uma oração ou qualquer coisa, &#8211; disse o rapaz aflito. – Deve haver um jeito de livrar você. Rosa ergueu o olhar para a imagem de Nossa Senhora. Ocorreu-lhe subitamente que talvez Deus não a quisesse como agostiniana. Quem sabe fizera ele um milagre para provar a D. Gonçalo e aos outros que o lugar dela era no mundo e não num convento. Talvez &#8211; ó feliz idéia! –isso significava que, afinal, ela devia ser uma terciária dominicana!</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Querida Mãe, eu não serei freira se esta não é a vontade de Deus,</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">-disse com simplicidade. &#8211; Voltarei para casa e viverei com minha família. Lá farei o possível para bem servi-l&#8217;O. Somente, por favor, deixe-me levantar-me.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Bem não terminara estas palavras, Rosa sentiu que podia ficar de pé. Cheio de assombro, viu-a o irmão de pé a seu lado. &#8220;Mas que aconteceu, Rosa? Afinal, como pôde você levantar-se?&#8221; Os negros olhos da donzela brilhavam.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Foi ela, Fernando &#8211; a Mãe Santíssima! Ela não quer que eu vá para o mosteiro esta tarde. Ela quer que eu vá para casa. Ouvi sua voz em meu coração. O moço meneou a cabeça. Que havia de dizer a madre abadessa? E D. Gonçalo de Massa?&#8230;</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">IX. UMA FILHA DE S. DOMINGOS</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Foi poucas semanas depois, a 10 de Agosto, festa de S. Lourenço, que Rosa ingressou na Ordem dominicana como terciária. Seu rosto tinha uma expressão radiante, quando ela ajoelhou-se na capela do Rosário em S. Domingos e ouviu seu confessor, o padre Alonso Velasquez, iniciar a cerimônia da recepção:</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- &#8220;O&#8217; Senhor Jesus Cristo, que te dignaste revestir o aspecto mortal de nossa humanidade, suplicamos-te que, em tua grande misericórdia, te seja agradável abençoar estas vestes indicadas pelos santos Padres para serem usadas como sinal de inocência e humildade, a fim de que aquela revestida destas vestes seja digna de revestir-se de Ti, Cristo Nosso Senhor&#8221;.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Rosa contemplou o hábito que o padre Alonso abençoava. Era o hábito dominicano de lã branca, estendido então sobre o altar &#8211; o mesmíssimo modelo usado por Santa Catarina de Sena e outras santas almas. Daí a poucos minutos passaria ela a usar o alvo vestido ao invés das belas roupas escolhidas por sua mãe.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">O bom Deus abençoava uma pobre menina peruana com a vocação terciária</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">dominicana. Dai a pouco já não estaria ela sozinha na tarefa de salvar a sua alma e a alma dos outros. As orações dos dominicanos -padres, freiras, irmãos leigos, outros terciários &#8211; em toda parte se juntariam às suas de um modo especial.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Rosa fechou os olhos inundada de felicidade, enquanto o padre Alonso a aspergia com água benta e continuava a oração:</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- &#8220;Asperja-te também o Senhor com o hissopo, a ti que vais ser agora revestida com o nosso hábito, para que sejas purificada, e assim limpa e mais branca do que a neve possas aparecer externamente&#8221;.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Maria de Oliva, ajoelhada a poucos passos, enxugou as lágrimas. Não era aquilo exatamente que ela planejara para sua filhinha favorita &#8211; uma vida no mundo como membro leigo de uma Ordem religiosa. Entretanto, que podia ela fazer? A menina recusava-se absolutamente a qualquer idéia de casamento. O que lhe interessava era salvar almas.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">&#8220;Talvez ela mude de idéia daqui a algum tempo&#8221;, &#8211; disse a mãe para si, entre soluços. &#8211; Talvez depois de alguns meses ela achará muito dura a vida de terciária.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Mas Rosa de Santa Maria, a nova filha de S. Domingos, sentia-se mais feliz do que nunca. Por fim palmilhava a mesma senda escolhida por Santa Catarina de Sena cerca de duzentos e cinqüenta anos antes. Até D. Gonçalo estava satisfeito, à medida que os meses passaram, de que Rosa tivesse escolhido o caminho certo. Embora outros homens e mulheres fossem chamados à vida religiosa, sua vocação era para tornar-se uma santa no mundo. Jamais a instigaria ele a ser freira em qualquer dos cinco conventos de Lima.&#8221;Deus confiou a esta menina uma tarefa especial&#8221; pensou D. Gonçalo.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">-&#8221;Ela será um modelo para todos que devem alcançar a perfeição sem o auxílio do claustro&#8221;.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">A 10 de Agosto de 1607, Rosa voltou à capela do Rosário na igreja de S. Domingos. Terminara seu ano de prova como terciária. Quereria ela continuar aquela vida? perguntou o padre Alonso Velasquez. Queria ela fazer uma promessa de viver de acordo com as regras da Ordem dominicana, até à morte?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">A jovem, então com 21 anos, não teve a menor dúvida quanto à sua vocação, e, como Rosa de Santa Maria, fez a necessária promessa. Tornara-se efetivamente membro da Ordem dominicana. Tempos passaram-se. Quanto às aparências exteriores Rosa parecia ter mudado muito pouco: continuava a viver sossegadamente em casa, cultivando suas flores e fazendo os finos lavores de agulha para as ricas senhoras de Lima. Uma mudança, entretanto, surgira. Pouco a pouco, recebendo devotamente a santa Eucaristia, suportando com paciência dificuldades e aflições, a filha de Gaspar estava tornando-se lentamente mais semelhante a Cristo. As vezes, quando sua mãe ralhava, que ela tomava pouco cuidado com a saúde, ela respondia gentilmente:</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- A senhora e eu viveremos tanto tempo quanto Deus quiser, mamãe. Quando o trabalho que Ele nos deu estiver terminado então poderemos preocupar-nos com nossa saúde.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Quem então vai pensar sobre isto? &#8211; perguntou Maria rispidamente.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">-Será muito tarde!</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Rosa alisou as pregas de seu lanoso hábito branco.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Querida mamãe, a vida é, na verdade, muito simples, quando nos lembrarmos apenas que somos servas &#8211; servas de Deus e de nossos semelhantes.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Servas! Quem está querendo ser serva? Rosa, este modo de falar é desagradável. Se for assim, um negro ou um índio vale tanto como um homem branco. E uma pessoa rica e educada não é melhor do que um ignorante mendigo! E dizer que você fala deste modo, depois de tudo que fiz por você!&#8230;</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Rosa respirou.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Mamãe, por favor, não se zangue! Eu estou só tentando ajudar um pouco. Afinal, se nós realmente acreditamos que Deus é nosso Pai e Seu Filho, nosso Irmão&#8230;</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Chega de sermão, senhorita! Desde que você é terceira, ficou piedosa de mais para mim. Só quero que se lembre disto: Não me fale mais em ser serva. Seu pai pode ser pobre, mas pertence a uma boa família. E eu também!</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">O fracasso desta e outras conversações provaram a Rosa o que ela sempre soubera, isto é, que o consolo para um coração solitário pode ser encontrado na oração. Na oração, a fraca natureza humana eleva-se em busca de Deus e com seu auxílio torna-se forte. Aflições de toda espécie, quando a Ele oferecidas em união com os sofrimentos que seu Filho padeceu na terra, transformam-se em merecimentos de incalculável valor. Este era um dos motivos de haver na terra tanta tristeza: sem dores, bem poucas almas jamais pensariam em voltar-se para Deus.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">&#8220;Todo mundo quer ser feliz&#8221;, &#8211; pensava Rosa muitas vezes. &#8211; &#8220;Para isto fomos criados. Como é difícil, porém, lembrar-nos que só o maior dos bens &#8211; o próprio Deus &#8211; pode satisfazer-nos&#8221;. No Domingo de Ramos do ano de 1610, Rosa, então com vinte e quatro anos de idade, dirigiu-se à igreja de S. Domingos para assistir à S. Missa. A cerimônia era longa, com a bênção dos ramos e a procissão no interior do templo, antes do Santo Sacrifício. Enquanto dois irmãos leigos terminavam a distribuição das palmas bentas ao povo, o coro rompeu num hino triunfante e todos se apressaram para tomar parte na procissão. Rosa hesitou. Por um motivo ou outro ela fora esquecida na distribuição dos ramos viridentes. Somente ela, de toda gente na igreja, não recebera a palma benta.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">&#8220;Por quê?&#8221; &#8211; pensou ela. &#8211; Dar-se-á o caso de não ser eu digna de seguir com os outros?&#8221; Afastou, entretanto, essa idéia de desapontamento. Teria sido apenas um descuido. O Irmão estivera muito atarefado para notá-la. Não haveria também motivo por que ela não se reunisse à procissão. Embora não tivesse uma palma para levar, podia lembrar-se do primeiro domingo de ramos, quando Nosso Senhor entrara em Jerusalém entre aclamações de seus jubilantes seguidores. Quando o coro terminou o cântico e a longa fila de povo voltou aos lugares, Rosa lançou um rápido olhar à capela do Rosário. Como amava aquela imagem de Nossa Senhora com o Menino! Aqui, quatro anos antes, recebera da Mãe Bem-aventurada a aprovação à sua vocação para a Ordem Terceira dominicana.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Naquela tarde domingueira, em que ela se vira forçada a permanecer de joelhos, uma voz falara em seu coração, e a voz lhe dissera que o trabalho de sua salvação não devia ser feito num mosteiro. Pelo contrário, havia de ficar no mundo &#8211; havia de ser uma santa no ambiente cotidiano.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">&#8220;Querida Mãe, obrigada mais uma vez por deixar-me ser uma terciária dominicana&#8221;, &#8211; murmurou ela. &#8211; &#8220;E não estou triste porque o Irmão esqueceu-se de dar-me uma palma benta. A palma que eu na verdade desejo é uma que jamais murchará, aquela que dais aos bem-aventurados no céu&#8221;.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Enquanto Rosa suspirava esta pequena oração, viu maravilhada que a Mãe bendita sorria e virava-se .amorosamente para a Criança em seus braços. Ninguém mais na igreja apinhada viu o milagre, nem ouviu as palavras que o Menino então proferiu &#8211; palavras que ecoaram no coração da jovem como a mais doce música:</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">&#8220;Rosa de meu coração, sê minha esposa!&#8221;. Rosa, entretanto, viu e ouviu e seu coração encheu-se de pura alegria. Deus a abençoara novamente com outro dom maravilhoso! Na igreja que ela tanto amava Ele lhe dizia que ela estava realmente contada entre as eleitas!</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">&#8220;E&#8217; demais para mim!&#8221; &#8211; murmurou. &#8211; &#8220;Não sou digna de tanto amor!&#8221;.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Sabia, contudo, que não se enganara sobre a visão. Ela, uma pobre menina do Peru, escolhida desde a eternidade para pertencer a Deus, para ser uma de suas amigas bem amadas e para sempre! Já lera a respeito de favores tais concedidos a outros, incluindo sua amada padroeira, Santa Catarina de Sena. Agora, por um milagre da graça, a honra inigualável também lhe era dada.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">O resto do dia, Rosa não pôde pensar em outra coisa. Quando Fernando lhe observou que parecia felicíssima, ela concordou com um aceno. &#8211; E&#8217; bem verdade, estou felicíssima. E tenho outro favor a pedir. O rapaz riu-se francamente.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Aposto que você quer que eu a leve a algum lugar.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Não. Desejo somente que você mande fazer um anel para mim.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Um anel? Você quer uma jóia.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Isto mesmo. Mas não da loja. Apenas um anel simples, desenhado por você. Fernando, você fará isso para mim? E&#8217; de fato muito importante.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">O rapaz perscrutou a fisionomia ansiosa da irmã, e compreendeu que algo fora do comum acontecera. Durante anos e anos Rosa pensara constantemente nas outras pessoas rezando por elas, ajudando-as quando estavam doentes, cuidando que o pobre tivesse todas as flores e frutos que ela podia poupar do jardim. Chegara finalmente a vez em que ela desejava alguma coisa para si.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Naturalmente, eu arranjo um anel para você. Quer um de ouro ou de prata? E qual é a sua pedra preferida?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Rosa hesitou. Ambos aqueles metais eram comuns no Peru, como também diamantes e esmeraldas, que se encontravam em abundância nas minas dos Andes. Ela podia realmente possuir um lindo anel e sem muita despesa.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Eu gostaria de um anel de ouro, Fernando, mas sem pedra alguma. Só um aro simples.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- E que tal um lema gravado? Umas poucas palavras no lado externo, e isto pode ser feito facilmente.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Que palavras você sugere?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">O moço pensou um momento:</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Que acha destas: &#8220;Rosa de meu Coração, sê minha esposa&#8221;? O coração da moça transbordou. Ela nem podia conter sua grande emoção. Sem imaginá-lo, o irmão fora divinamente inspirado a escolher -as mesmas palavras que ela ouvira na igreja, as palavras que lhe dirigira naquela manhã o próprio Menino Jesus.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Então, o que há? Não gosta da minha idéia?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Admirável, Fernando! Não posso imaginar nada que mais me agrade.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Ora, viva! Teremos um anel bem simples feito especialmente para você, com aquelas palavras gravadas na face externa. Conheço também o joalheiro indicado para o trabalho &#8211; um velho amigo meu que não tem tido muitas encomendas ultimamente. Rosa sorriu agradecida.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Ele pode fazer o anel já?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Claro que pode. Em dois dias provavelmente. Vou vê-lo amanhã e levarei um esboço do que queremos.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Quando ficou novamente só, Rosa dirigiu-se a seu oratoriozinho nos fundos do jardim. Era um sitio sempre sossegado e aprazível. Só muito raramente passava alguém da família entre as bananeiras, pois havia muitas aranhas e mosquitos, diziam. Além disso o sol a custo penetrava o emaranhado da vegetação e galhadas, de modo que o lugar ficava escuro e sombrio. Rosa, no entanto, nada receava de aranhas e mosquitos. Nunca esses insetos a tinham incomodado, e pareciam antes pressurosos de demonstrar-lhe amizade. Sempre que ela recitava o rosário ou suas outras orações os mosquitos zumbiam amigavelmente. Era quase como se eles também rezassem:</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Quanto às aranhas, interrompiam suas vagueações e tecelagem para continuá-las quando a amiguinha dava por terminada sua conversa com Deus. Rosa, entretanto, nem cogitava desses insetos quando entrou em seu oratório. Pensava antes na graça maravilhosa que lhe fora dada aquela manhã na igreja dos dominicanos. E havia, naturalmente, o anel &#8211; o lindo anel de ouro que ela usaria sempre para lembrar-se que pertencia a Nosso Senhor. Como poderia esquecer isto?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">&#8220;E&#8217; domingo de Ramos, &#8211; pensou. &#8211; Se meu anel estiver pronto quarta-feira, talvez o padre Alonso possa colocá-lo no sacrário na Quinta-feira Santa. Seria esplêndido&#8221;.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Sim, seria esplêndido. Mas extraordinário também. Com certeza teria de haver um bocado de explicações para que o confessor entendesse. &#8220;Farei o que puder&#8221;, &#8211; resolveu ela consigo. &#8211; &#8220;Nosso Senhor está escondido no Sacrário na Quinta-feira Santa, e eu quero que meu anel esteja com ele nessa ocasião. No domingo de Páscoa, quando ele volta cheio de glória, eu receberei o anel e usá-lo-ei até à morte&#8221;.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">X. A EREMITA</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Na manhã de 14 de Julho, poucos meses depois de Rosa ter recebido o anel de ouro, os sinos de Lima plangiam sua música fúnebre pela cidade. O santo missionário franciscano, padre Francisco Solano, morrera. Maria de Oliva murmurou uma breve oração, ao ouvir os fúnebres sons.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Era melhor irmos logo ao convento dos franciscanos, Mariana. Estou certa de que haverá milagres por lá, hoje. Pegue todos os nossos rosários e medalhas. Poderemos tocar com eles o corpo do padre Francisco e guardá-los como relíquias. A índia concordou com um aceno. Tanto a ama como a serva avaliavam a perda. O padre Francisco era na verdade um santo. Anos atrás, em 1589, quando ele viera a primeira vez ao Novo Mundo, naufragara com seus companheiros nas costas da Colômbia. Durante semanas o pequeno grupo de náufragos vagueara pelas florestas litorâneas sem encontrar viva alma. Em breve alguns dos homens sucumbiram ao comer plantas venenosas, e o desespero apoderou-se do resto. Somente o padre Francisco conservou-se calmo. Insistiu com seus companheiros que permanecessem perto da costa. Outro barco, assegurou-lhes, chegaria em breve do Panamá e os levaria a salvo ao Peru.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Eu me lembro quando ele finalmente chegou a Lima, &#8211; disse Mariana vagarosamente, &#8211; Ficamos tão desapontadas quando ele insistiu em deixar-nos quase imediatamente&#8230; Ah, senhora, ele já estava debilitado de tanto labutar, e no entanto não vacilou em andar mil e quatrocentas milhas, através de montanhas e selvas, para ir em missão à Argentina.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- E fez essa caminhada duas vezes, Mariana. Não esqueça isto.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> - Sim, senhora; onze anos mais tarde, quando seu duro labor entre os índios terminara. Que boa alma ele era! Bem, vou buscar os rosários e medalhas.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Lá fora, no jardim, entre suas amadas arvores e flores, Rosa pensava também no padre Francisco. Jamais esqueceria aquele dia de Dezembro de 1604 em que o frade, revestido do burel pardo, pregara o famoso sermão na praça do mercado. Ela tinha então dezoito anos. Agora, seis anos depois, sua memória estava ainda vívida.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">&#8220;Ele disse ao povo que fizesse penitência. &#8211; lembrava-se. – Repetiu que Deus destruiria Lima se não cessassem de ofendê-lo. Havia, aquela noite, bastantes padres para ouvir quem quisesse confessar-se. Inimigos se reconciliavam, bens roubados eram restituídos aos donos, três mil casamentos se celebraram. Ah, querido padre Francisco, dá-me um pouco daquele zelo pelas almas, que tão sinceramente possuías!&#8221; Depois de dizer sua breve oração, Rosa encaminhou-se pela vereda que conduzia ao fundo do jardim. Aí esperava-a uma figura familiar.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Dona Maria! Oh! não esperava vê-la esta manhã!</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Dona Maria de Usátegui, esposa de D. Gonçalo, abraçou Rosa afetuosamente.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Minha querida, eu vim de mansinho pelo portão do lado. Sua mãe ainda não sabe que eu estou aqui. Quero dizer uma palavrinha a você somente.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- As crianças não estão outra vez doentes?&#8230;</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Não, não. Estão muito bem. Rosa, meu bem, você gostaria de morar com D. Gonçalo e eu? Ser como uma filha nossa&#8230;</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">A moça olhou com estranheza a visita.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Não compreendo&#8230;</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Claro que você não compreende. Mas meu marido e eu ternos certeza de que você seria mais feliz conosco. Pois que sua mãe não pode entender a espécie de vida que você deseja, e que ela não se sentiu feliz em ver você entrar na Ordem terceira de S. Domingos&#8230;</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">A jovem riu-se. Ninguém perceberia que as palavras de D. Maria feriram-na como uma faca. Era bem verdade! Maria de Oliva não perdia uma oportunidade para demonstrar sua reprovação a terciárias dominicanas.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Mamãe ainda não compreende. Acha difícil crer que eu continue a ser a mesma, debaixo deste hábito branco.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Exatamente. Eu e meu marido já lhe ouvimos algumas criticas. Querida amiguinha, nós temos uma casa enorme, e muitos bens deste mundo. Por que</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">não vem morar conosco? As crianças ficariam tão contentes!&#8230;</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">O resto daquele dia, e nos dias seguintes, Rosa ponderou o amável oferecimento de Dona Maria de Usátegui. Por fim decidiu recusar.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Embora Maria de Oliva freqüentemente achasse defeitos na vida de terciária</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">dominicana, com tantas orações e sacrifícios, à qual sua filha se dedicara, Rosa sabia que suas aflições podiam transformar-se em grandes méritos.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">&#8220;Há muito tempo &#8211; pensava &#8211; ofereci-me para rezar e sofrer pelos outros. Amado Senhor, não me deixeis fugir de qualquer pena agora. Que a falta de compreensão de Mamãe sirva para unir-me mais estreitamente a vós. Que isto contribua para fazer-me santa&#8221;.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Passaram-se semanas, com sua incessante rotina de atividades comuns. Sempre vestida com o imaculado hábito de terceira, coberta com o véu, Rosa cuidava de suas flores e ervas, e se aplicava em suas finas costuras e bordados. Andava completamente alheia aos rumores que se espalhavam pela cidade de que ela era tão santa como aqueles grandes servos de Deus, o Arcebispo Turíbio, o padre Francisco Solano e o irmão Martim de Porres.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Dificilmente se passava um dia em que homens e mulheres não viessem pedir-lhe orações, consultá-la sobre um ou outro assunto, tocar sua famosa imagem do Menino Jesus, o &#8220;Pequeno Doutor&#8221; como ela dizia.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Rosa é outra Santa Catarina de Sena, &#8211; dizia um ao outro.- Jejua o tempo todo. Dorme somente, duas horas por noite. Devotou-se inteiramente à salvação dos pecadores.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Casualmente, entretanto, algo de tudo isto chegou aos ouvidos da donzela. Foi logo procurar sua mãe com um estranho pedido. Queria permissão para ser uma eremita no jardim. Se ela se isolasse do mundo, se raramente aparecesse nas ruas, talvez o povo se esquecesse dela. Visto, porém, que o oratoriozinho que construíra quando criança, no fundo, entre as bananeiras, estava quase em ruínas, seria necessário fazer outro. E este segundo eremitério tinha de ser feito com material durável, com uma porta que se pudesse trancar.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Maria de Oliva recusou-se a ouvir qualquer sugestão. Já era bem desagradável ver sua linda filha num hábito religioso, saber que ela havia desprezado para sempre a oportunidade de ter um marido e filhos. Mas que fosse viver como eremita numa casinha de barro no fundo do jardim! – isso nunca!</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Quatro anos se passaram. Rosa não perdeu a esperança de possuir sua casinha de adobes. Finalmente, assediada pelos rogos do padre Alonso, Dona Maria de Usátegui e D. Gonçalo, Maria de Oliva deu o sim desejado. Sim &#8211; Rosa podia enclausurar-se como um eremita, se o padre Alonso achava isso um gesto adequado. Podia recusar as visitas. Podia arruinar a saúde passando horas num cubículo úmido.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Mamãe, como poderei jamais agradecer-lhe? &#8211; exclamou a jovem. – Eu o desejo há tanto tempo!</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Maria suspirou ao contemplar sua filha então com vinte e quatro anos. Ainda era bonita, mas tão magrinha&#8230; O hábito branco não conseguia ocultar que durante anos Rosa vinha levando uma vida dificílima.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- As vezes não posso compreender por que você não entrou para um convento, minha filha. Que outra moça em Lima reza tanto como você? Rosa sorriu, lembrando-se daquela tarde de domingo, quando uma força misteriosa a mantivera de joelhos em frente da Virgem do Rosário.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Nunca tive vocação para freira, mamãe. Peço-lhe que acredite. E por favor, reze para que eu sirva bem a Deus, como eremita.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Rezarei, &#8211; disse a mãe tristemente. &#8211; Mas lembre-se disto: se não fosse porque o padre Alonso achou que era direito, eu nunca teria dado consentimento. E&#8217;&#8230; é uma vida muito esquisita para uma moça.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Nos dias seguintes Rosa e Fernando estiveram muito ocupados. Escolheram um local para. o eremitério, desta vez pegado à casa e batido pelo sol. Uma área de um metro e meio por um metro e vinte, foi traçada no chão e perto, à mão, amontoaram grosseiros tijolos de adobe, de cor marrom clara e leves.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Fernando, que faria eu sem você? &#8211; disse a donzela, enquanto se aprestavam na construção da cela. &#8211; Você tem sido sempre tão bonzinho para mim, desde pequeninos.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Ora, não é lá grande trabalho construir este quartinho, Rosa. O que me preocupa é como você vai conseguir viver numa casinha tão acanhada. Não podíamos fazê-la um bocadinho maior?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">A jovem sacudiu a cabeça:</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Eu a quero bem pequena para não haver lugar para visitas. E só uma janelinha.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- E a porta? Como vai ser?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Meu plano para a porta é especial. Tem de ser bem baixa, o bastante para uma pessoa passar engatinhada. Você compreende, quanto menor e menos confortável fizermos esta cela, tanto menos pessoas quererão vir ver-me.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">O rapaz sorriu. Era verdade, sem dúvida. Quase nenhum dos conhecidos de</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">sua mãe, por exemplo, haviam de querer passar de joelhos, arrastando-se,</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">por uma portinhola.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Diga-me como você a quer, e será assim, Rosa. Quero que tenha felizes recordações de mim, quando vier morar neste eremiteriozinho.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Recordações? Você não vai embora, Fernando!?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Vou, sim. Vou para o Chile no mês que vem.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Negócios?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Não. Tenciono entrar para o exército. Afinal de contas, tenho trinta anos, e é tempo de fixar-me em algum lugar.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Rosa abafou sua surpresa e desapontamento. Esse irmão querido falava a verdade. Muitos homens da idade dele já estavam casados, tinham um lar e família próprios&#8230; No entanto ela teria saudades dele&#8230;</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Rezarei por você todos os dias &#8211; disse ela gentilmente.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">– Não importa onde você vá, minhas preces o seguirão. Tenho certeza que você gostará de viver no Chile. Você casar-se-á com uma bela moça&#8230; e terá uma linda filhinha&#8230;</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- De que está você falando? &#8211; perguntou Fernando incrédulo.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- E você vai dar o meu nome à meninazinha. Ela se chamará Maria Rosa.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Bem, &#8211; disse Fernando com uma risada cordial. Uma coisa está certa do que você diz: se eu tiver uma filha, há de se chamar como você. Quem sabe&#8230; talvez algum dia ela até visite esta ermida.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Rosa olhou-o sorrindo. Embora não estivesse adivinhando, seu irmão dizia a verdade. Um dia Maria Rosa viria, evidentemente, a Lima, e seria uma célebre menina.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Mais uns dias de trabalheira e o eremitério de adobe estava pronto. A criançada dos Flores divertiu-se um bocado engatinhando para dentro e para fora, pela portinhola, e trepando numa cadeira a fim de espiar pela janelinha que dava para o jardim. Amigos e vizinhos e até alguns padres vieram ver a casinha de adobe construida por Rosa e Fernando. Alguns chegaram a medir o</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">espaço ocupado, duvidando dos próprios olhos.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Metro e meio de comprimento, um metro e vinte de largura, nem dois metros de altura! &#8211; exclamou assombrado o padre Velasquez. &#8211; Rosa, isto é pequeno demais!</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Padre, é bastante grande para Nosso Senhor e eu. Acho que serei muito feliz aqui.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Dona Maria de Usátegui que, entre os visitantes, também examinava o eremitério, pôs afetuosamente a mão no ombro da donzela.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- O convite ainda está de pé &#8211; murmurou. &#8211; Eu e meu marido ainda desejamos que você venha morar conosco. Avise-nos se mudar de idéia.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Rosa acenou que sim. Dom Gonçalo e Dona Maria eram tão bons amigos&#8230; Ela sabia que ambos preocupavam-se com sua saúde, com a vida árdua a que se dedicara.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Não esquecerei vosso convite, &#8211; respondeu, -nem a vossa bondade. Agradeço a ambos por tudo, Dona Maria. Rosa começou a morar no eremiteriozinho, mas não abandonou sua costura, seu bordado e o cultivo de suas flores e ervas. Quando caía a noite encerrava-se no cubículo e entregava-se á oração. Aí, rodeada do silêncio e da escuridão do jardim, dava largas a seu coração em louvores e pedidos.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Estes atos estavam agradando a Deus, pois Ele inundou de inúmeras graças a alma da nova eremita. Aparecia-lhe freqüentemente como uma criancinha, encorajando-a a continuar em sua difícil vocação. Ensinou-lhe a nada recear enquanto depositasse n&#8217;Ele toda a confiança.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Nestas ocasiões Rosa pensava que morreria de pura felicidade. Que maravilha é a vida! dizia a si mesma. Qualquer alma, não importa a sua fraqueza, pode ser útil a seus semelhantes. Tudo necessário é pensar em Deus e em sua bondade. Virá, então, tal propensão de ser como Ele, de partilhar de sua verdade e beleza, que a alma não pode evitar que sua covardia se transforme em coragem, e começa a assemelhar-se a Deus. Devido a isto, arde em grande amor pelas outras almas, desejando que elas compartilhem também de sua felicidade.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">&#8220;E&#8217; como um mendigo que finalmente ficasse rico&#8221;, refletia Rosa.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Enquanto é pobre, arreceia-se das outras pessoas, tem de si próprio um baixo conceito, sabendo que não fará jamais alguma coisa de grande aos olhos do mundo. (Ama vez, porém, que enriquece, muda-se tudo. Seu corpo definhado pela fome torna-se forte. Verifica que os outros olham para ele, e encontra uma verdadeira felicidade em fazê-los participar de sua riqueza.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Numa tarde de verão, Maria de Oliva saiu à procura de sua filha. O sol estava ardente e o jardim ostentava o colorido das flores que Rosa cuidava carinhosamente. Mas o rosto da mulher ensombrava-se de aborrecimento, enquanto se encaminhava para a pequenina ermida de adobe.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Rosa! Estás aí?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Não houve resposta. Maria vislumbrou alguém movendo-se entre as fruteiras, e apressou-se naquela direção. Com certeza, Rosa estava colhendo laranjas que Mariana levaria ao mercado no dia seguinte. &#8211; Rosa! Estás surda? Não me ouviste chamar-te?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">A jovem descansou no chão um cesto quase cheio dos apetitosos frutos.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Quer alguma coisa, mamãe?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Naturalmente. Dona Isabel de Mejía veio ver-me e contou uma coisa</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">que me aborreceu terrivelmente.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Sua mãe não está doente outra vez?!</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Claro que não. Eu é que estou doente. Rosa, é verdade que disseste às pessoas que vai haver um convento de freiras dominicanas em Lima? E que dona Lúcia de la Daga será a primeira prioreza?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Um sorriso aflorou à face da moça.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Sim, mamãe. E ele se chamará Mosteiro de Santa Catarina, em louvor de Santa Catarina de Sena.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">A voz de Maria estava áspera.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Dona Lúcia é uma senhora casada e muito feliz, com cinco filhinhos adoráveis. Por que hás de andar espalhando esses rumores de que ela vai ser</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">freira?&#8230;</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Mas é verdade, mamãe. Vai haver um Mosteiro de Santa Catarina, e dona Lúcia irá para lá com sua irmã Clara. O padre Luís de Bilbao celebrará a primeira missa&#8230;</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Com que então, estás virando profeta, não é? Que sabes do futuro?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Estás é perdendo o senso, desde que te meteste nessa mal-aventurada ermida.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Rosa baixou os olhos. Como havia ela de fazer sua mãe compreender que as notícias a respeito de Santa Catarina lhe tinham sido dadas na oração?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Que sua amada amiga e padroeira, Santa Catarina de Sena, viera em pessoa contar-lhe do novo mosteiro?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Sinto muito, mamãe. Não imaginei que a senhora ficasse tão aborrecida com o que eu disse a Dona Isabel.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- E não havia de ficar aborrecida? Que é que Dona Lúcia vai pensar de mim? E seu marido? Vê bem, disseste afinal de contas que o bom homem vai morrer&#8230; e os cinco filhinhos também. De outro modo, como poderia Dona Lúcia entrar para um convento?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Rosa sorriu levemente.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Por favor, mamãe, não fique zangada. Tudo vai acontecer exatamente como eu disse.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Chega! &#8211; exclamou Maria. &#8211; Daqui a pouco estarás contando a todo mundo que tua própria mãe vai fundar um convento. E eu não quero estas conversas. E&#8217; bastante desagradável.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">A moça olhou o anel de ouro que Fernando lhe dera havia quatro anos.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Lágrimas brilharam-lhe nos olhos.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- A senhora não vai fundar um convento, mamãe, mas entrar num, algum dia. Dona Lúcia lhe dará o hábito dominicano em Santa Catarina. A senhora será muito feliz lá, e eu prometo-lhe vir buscá-la quando a senhora estiver pronta para morrer.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">XI. UM NOVO LAR</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Maria estava indignada às palavras de Rosa. Ela, uma freira dominicana? Nunca! Entretanto a jovem terciária recusava ouvir os protestos de sua mãe. Um dia, quando o mosteiro de Santa Catarina fosse uma realidade, Maria de Oliva iria até lá e pediria o hábito dominicano, e lá haveria de passar seus últimos anos no serviço do Senhor. Passaram-se meses e Rosa continuava sua vida de eremita. As vezes, entretanto, confiava a alguma de suas amigas que seu desejo maior era ser mártir.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">&#8220;Se eu fosse homem, não quereria outra coisa senão ser missionário&#8221;, confessou ela a Francisca de Montoya, uma moça de sua idade. &#8220;Imagine</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">quantos missionários têm ido diretamente para o céu só porque morreram às</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">mãos dos selvagens&#8221;.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Francisca sentiu um arrepio. Embora pertencesse também à Ordem terceira</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">de S. Domingos, sempre achara difícil a prática de mortificações, ainda as menores. Evidentemente suas visitas à Rosa afetavam-na bastante. Havia tanto mosquito no jardim de Gaspar Flores. Eles enchiam a acanhada ermida e Francisca sempre saia de lá crivada de dolorosas picadas.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Eu nunca serei bastante corajosa para desejar a morte de mártir,</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">-suspirou. &#8211; Nem posso suportar as picadas destes seus mosquitos.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Rosa sorriu.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- E não obstante você ainda vem ver-me, Francisca. Como explica isto, se tem tanto medo de sofrer?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Mas isto é diferente! Você não sabe como me sinto melhor depois de uma conversa com você. Sou tão grata que você me permita vir, Rosa, ainda que realmente você não queria aborrecer-se com visitas. Há uma coisa, porém, que me deixa maravilhada.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- O quê?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Por que os mosquitos não picam sua mãe? Nem dona Maria de Usátegui? Ou a você?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Porque nós prometemos nunca ofender estes pequeninos hóspedes.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Hóspedes? E&#8217; assim que vocês chamam esses insetos abomináveis. Rosa meneou a cabeça.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Suponhamos que você também faça esta promessa, Francisca. Então eles não a incomodarão mais.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">A visitante olhou desolada para seu braço. Lá estavam já três marcas vermelhas.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Se eu pudesse ter um pouco de paz quando venho ver você, eu prometeria</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">qualquer coisa.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Ora bem. Ofereça o sofrimento destas três picadas pelas pobres almas, em honra da Santíssima Trindade. E então faça a promessa.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Francisca não pôde deixar de rir.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Não matarei nunca mais nenhum de seus hóspedes, &#8211; disse ela com firmeza. &#8211; Espero que eles entendam o que estou dizendo.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Rosa sorriu. Claro que as criaturinhas entendiam. Dai em diante Francisca de Montoya seria outra pessoa que poderia visitar, sem tribulações, a ermida de adobe.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">A 30 de Abril de 1615, Rosa completava vinte e nove anos. Algumas semanas mais tarde ficou surpreendida ao encontrar seu jardinzinho rodeado por uma multidão excitada. Mulheres choravam; homens, maridos e filhos, estavam pálidos de medo. Chegara a notícia de que uma frota de piratas holandeses estava ancorada em frente ao porto de Calau. Este porto, a dez milhas de Lima, era então quase indefeso, e provavelmente os recém-chegados iniciariam a qualquer momento a invasão.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Rosa, você deve rezar muito, &#8211; exclamou D. Gonçalo de Massa. -</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Os holandeses querem apoderar-se de nosso ouro e prata, de nossos escravos e até de nossos filhos.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Eles são calvinistas &#8211; acrescentou sua mulher, Dona Maria.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> -Pensam que é seu dever matar todo católico que encontrem.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">O doutor João del Castilho, um dos melhores médicos de Lima,concordou:</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Primeiro, eles incendiarão as igrejas. Têm um verdadeiro ódio ao Santíssimo Sacramento, Rosa. Já cometeram terríveis ultrajes em outras cidades. Minha querida, você rezará como nunca, não é? Rosa saíra da ermida. O jardim estava repleto de gente, e o temor estampava-se em todas as faces.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- De certo que rezarei, &#8211; disse ela sossegada. &#8211; Mas não há motivo para alarmar-se. Os holandeses não tentarão desembarcar em Callao, nem tampouco incendiarão a cidade.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Em vão Dom Gonçalo descreveu os abomináveis feitos dos piratas no Panamá e outras colônias espanholas. Rosa insistia em que, durante a noite, a esquadra inimiga levantaria ferros e se afastaria de Callao. A multidão, porém, não podia crer em suas palavras, e por fim ela acedeu em rezar pela salvação de Lima, pedindo a proteção especial de Santa Maria Madalena, cuja festa ocorria no dia seguinte.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Toda a noite a cidade se preparou para o esperado ataque. Correios chegavam</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">de Callao com as últimas noticias. Ofícios especiais foram determinados às igrejas. O povo acorria ansioso aos confessionários. O acontecimento lembrava as mesmas cenas de onze anos atrás, quando, a um sermão do Padre Francisco, se tinham convertido inumeráveis pecadores. O medo e a ansiedade</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">enchiam todos os corações, espanhóis, negros, índios. Ninguém se lembrava de dormir aquela noite. Ao invés de ir para a cama dirigiam-se, como rebanhos, às igrejas, ou seguiam as várias procissões do Santíssimo Sacramento, que desfilavam pelas ruas sombrias.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Com permissão do Padre Alonso Velasquez, Rosa deixou sua ermida tranqüila, e apressou-se para São Domingos em companhia de algumas amigas. Seu coração oscilava entre dois desejos. Se aos holandeses fosse permitido saquear a cidade, ela poderia ter oportunidade de morrer mártir. Já que isto lhe era negado, milhares de vidas seriam salvas.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">A custo conseguiu um lugar na capela de S. Jerônimo na igreja dominicana, e aí ajoelhou-se, sorrindo ao pensamento de alcançar a. coroa do martírio e ir diretamente para o céu. Se os holandeses viessem, ela, certamente, não faria o menor esforço para esconder-se. Empunhando o rosário, daria a vida em defesa do Santíssimo Sacramento. Quando surgiu a cinzenta madrugada, a cena era bem diferente daquela da noite anterior. O povo cantava nas ruas, fora-se a ansiedade e o temor de algumas horas antes. A última mensagem de Callao anunciava que durante a noite os navios holandeses tinham levantado a âncora, e estavam fora de vista.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- E&#8217; um milagre! &#8211; disse a seu esposo dona Maria de Usátegui. &#8211; Estou certa que nossa Rosa é responsável. Dom Gonçalo, não acha também que ela possa ter oferecido sua vida a fim de poupar Lima à destruição?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Dom Gonçalo concordou.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Não me surpreenderia, &#8211; disse ele. &#8211; Ela tem mais coragem e caridade que qualquer outra moça que eu conheço.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Outros havia que partilhavam a mesma opinião. Naquele momento, como acompanhamento ao repicar festivo dos sinos, vibrava pelo ar um só grito:</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">&#8220;As orações de Rosa Flores nos salvaram da desgraça!&#8221;.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Em companhia de sua mãe e das amigas, Rosa seguiu vagarosamente para casa. Sentia-se cansada e um tanto confusa. Por que havia o povo de pensar que suas preces fossem tão poderosas. Não compreendiam que sua salvação era devida apenas à misericórdia de Deus? Ela, Rosa Flores, era menos que pó, e indigna de qualquer honra.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">&#8220;Alegro-me, porém, que tenhais salvado a cidade, Senhor!&#8221; – pensou ela. &#8211; &#8220;E não estou muito triste porque não me concedestes o martírio. Afinal de contas, dais a cada um urna espécie de martírio neste mundo. E&#8217; bastante uma sorte comum, sem espadas, sem balas, sem fogo &#8211; nada mais que nossas pequenas aflições e contrariedades. Se as suportarmos alegremente, podemos agradar-vos como os santos mártires&#8221;.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Foi poucos dias depois que o padre Alonso Velasquez veio ao eremitério de sua jovem amiga. Trazia algumas notícias muito especiais. Rosa estava para deixar a casa de seus pais &#8221; e ir morar com Dom Gonçalo e sua esposa. Dona Maria fora vê-lo recentemente e assegurara-lhe que a saúde de Rosa estava declinando, que a vida de eremita era excessivamente dura para ela.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Você tem sorte que Dona Maria e Dom Gonçalo pensem tanto em você, &#8211; disse o padre Alonso. &#8211; São gente muito rica e seu único desejo é ver você forte e bem. Terá um esplêndido lar em casa deles. Rosa não pôde ocultar sua perturbação.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Mas como posso deixar minha própria família, padre? &#8211; Meus pais já não são jovens. Eles precisam de mim.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">O sacerdote sorriu.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Você sabe o que é obediência, Rosa? E&#8217; meu desejo que você acabe com essa vida de dureza. Eu quero que vá para a casa dos Massas e tente recuperar a saúde.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Rosa permaneceu silenciosa. Como membro da família dominicana devia obediência a seus superiores. Se o padre Alonso achava melhor para ela viver em outra parte, não competia a ela escolher e sim fazer o que lhe era ordenado.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Irei, &#8211; respondeu. &#8211; Mas não estou realmente doente, padre. Nosso Senhor deu-me ainda dois anos mais para servi-lo.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Você viverá mais do que isto, minha filha, se tomar cuidado consigo. De agora em diante vai pensar mais em sua saúde.Assim Rosa foi morar com Dom Gonçalo e Dona Maria. Desde o começo ela declarou aos dois bondosos amigos que desejava apenas um simples quartinho e que era seu desejo ser útil, cuidando das crianças.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Micaela e Beatriz, as filhas mais velhas do casal, esforçaram-se para que a hóspede se sentisse como hóspede de honra, e que não era necessário ocupar-se em trabalho algum em seu novo lar. Pouco conseguiram, entretanto. Havia muito que Rosa se, apaixonara pela humildade.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Ela é na verdade uma santa &#8211; disse Micaela à sua irmã. &#8211; Não me surpreenderia vê-la canonizada logo após a morte.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> - Somos realmente felizes em tê-la aqui conosco, observou Beatriz.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">-Algum dia esta nossa casa será famosa. Virá gente de todo o mundo só para ver o quartinho em que Rosa viveu.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Dona Maria concordou.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Não se passa um dia sem que eu agradeça a Deus por permitir que ela entrasse em nossa intimidade. Contudo, ela me preocupa um pouco&#8230;</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Porque ela diz que vai morrer daqui a dois anos? No dia de S. Bartolomeu?&#8230;</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Exatamente. Ela terá então trinta e um anos. E&#8217; muito cedo para que ela nos deixe.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">D. Gonçalo animou a esposa:</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Com boa alimentação e bastante repouso, o caso será diferente, Maria. Olhe o seu pai. Tem noventa e três anos. Se Rosa puxar a ele, ficará conosco ainda muito, muito tempo..</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Assim escoaram-se o dias. Rosa tinha saudades de sua celazinha no umbroso jardim, mas andava sempre ocupada. Durante anos tinha-se apurado em trabalhos de agulha, e no solar dos Massa continuou essa atividade, fazendo roupas para as crianças pequenas e toalhas para os altares de várias igrejas. De vez em quando entretinha a família e os servos, tocando harpa, citara, ou guitarra. Sua voz bem timbrada, doce e clara, deixava todos enlevados.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">O padre Alonso insistira em que ela não se cansasse com excessos de orações e sacrifícios demasiados, de modo que Rosa levava agora uma vida mais aliviada. Nunca esqueceu, porém, que se dedicara à salvação de almas. Nem uma hora se passava, que não oferecesse uma curta oração pelos pecadores. Uma de suas favoritas era o inicio do Salmo 69: &#8220;Vinde, Senhor, em meu auxílio, apressai-vos em socorrer-me&#8221;. Numerosas eram também as jaculatórias que proferia, pois tomavam pouco tempo para dizer e eram ricas de indulgências.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">A maior, entretanto, era o Santo Sacrifício da Missa &#8211; a mais importante oração. Quando era uma eremita no jardim de seu pai, recebera uma graça maravilhosa: tivera o privilégio de assistir em espírito, através da janelinha de sua cela, a todas as missas celebras nas igrejas de Lima.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Transformada em membro da família de Dom Gonçalo, a preciosa graça continuava, e a jovem terceira dominicana sempre aplicava o mérito daquelas missas ao bem do próximo. Às vezes Dona Maria olhava sua hóspede um tanto assombrada. Era uma grande honra ter Rosa morando em sua casa, mas, também, um pouco amedrontador. A moça fazia milagres tão abertamente, conversava com os santos e os anjos, e as pessoas acorriam constantemente à porta, pedindo orações e anunciando curas de várias espécies, e esses clientes não eram só pobres e ignorantes. Havia entre eles, por exemplo, nada menos que o Prior do convento dominicano de Santa Maria Madalena, o padre Bartolomeu Martinez. Este santo sacerdote insistia em que fora curado de grave moléstia porque Rosa oferecera algumas preces por ele a S. Domingos. Havia também o caso de Maria Eufêmia de Pareja e seu filho Roderico. Embora a mãe tivesse sempre desejado que seu filho fosse padre jesuíta, Roderico mostrara pouca inclinação para a vida religiosa. A medida que o tempo passava, Maria Eufêmia se convencia tristemente da verdade: o que interessava ao rapaz eram os prazeres do mundo. Finalmente, ela foi ter com Rosa. Indubitavelmente, se a santa jovem rezasse nessa intenção, Roderico receberia a graça da vocação religiosa.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">&#8220;E foi o que aconteceu &#8211; rememorava Dona Maria. &#8211; De uma hora para outra o rapaz reformou-se, e decidiu ser padre, se bem que na Ordem Franciscana, e não na Companhia de Jesus. Hoje, é o orgulho de sua mãe. Creio que nunca deixará de ser grata pelas orações de Rosa&#8221;.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Decorriam os meses e Dona Maria observava de perto sua querida hóspede. A jovem apresentava boa aparência, mas havia nela qualquer coisa que preocupava a dona da casa. Estava-se então no ano de 1617. Seria certo que Deus a chamaria em breve para o Céu?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">&#8220;Não posso suportar a idéia de perdê-la&#8221;, pensava a boa mulher. &#8220;Ela tornou-se como filha para mim&#8221;. Rosa entristeceu-se ao pesar da sua mãe adotiva. Numa manhã de Abril aproximou-se dela humildemente:</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Dona Maria, quando eu estiver para morrer, serei atormentada por uma sede horrível. Quer dar-me água, então, quando eu a pedir?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">A velha senhora tremeu num arrepio.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Naturalmente, minha filha. Mas não falemos de morrer. Você está gozando muito mais saúde aqui, ultimamente.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Rosa sorriu.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Há mais uma coisa. Eu desejo que somente a senhora e minha mãe preparem meu corpo para a sepultura.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Dona Maria fitou-a estarrecida e logo desatou em pranto. A festa de S. Bartolomeu estava tão perto&#8230; Quatro meses apenas&#8230;</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Não diga tal coisa, &#8211; implorou. &#8211; A vida não será a mesma se você nos deixar, Rosa.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Os receios da boa senhora começaram, entretanto, a desvanecer-se com a chegada do verão. Rosa estava a personificação da saúde. Até o padre Alonso concordou em que ela parecia muito bem.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Eu a devia ter mandado para cá há muito tempo, disse a Dona Maria.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- A vida que ela levava em casa era por demais penosa. Dona Maria meneou a cabeça, confirmando.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- O sr. tem razão, padre Alonso. A criada dos Flores, Mariana, esteve aqui há dias. O que não me contou ela dos sacrifícios e orações de Rosa! Ainda não compreendo como alguém possa fazer tanto. O sacerdote sorriu.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Tem sido assim anos e anos, Dona Maria; desde que Rosa tinha onze anos e viu com seus próprios olhos o paganismo que reina entre os índios andinos. Nessa ocasião ela ouviu o arcebispo Turibio profetizar que Quivi seria destruída. Bem sei o que aquelas palavras significaram para ela. E depois, vieram o terremoto e as enchentes de 1601 e ela jamais esqueceu as centenas de pessoas que pereceram miseravelmente em Quivi como castigo pela zombaria ao Arcebispo e à fé que ele tentou levar-lhes. Desde então toda a vida ela tem dedicado à salvação das almas por meio de orações e sofrimentos.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Aconselhada pelo sacerdote dominicano a não se preocupar quanto à profecia de Rosa sobre a morte próxima, Dona Maria e toda a família respiraram mais aliviados. E quando, em fins de Julho, Rosa pediu permissão para visitar sua ermitagem no jardim, não acharam nada de extraordinário nisto.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Durante a noite de primeiro de Agosto, porém, toda a casa despertou sobressaltada pelos gritos dolorosos que vinham de seu quarto. Dona Maria precipitou-se e foi encontrar sua hóspede atacada de doença mortal. Mal podia respirar e todo o corpo estava paralisado.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Imediatamente a aflita mulher mandou chamar o doutor João del Castillo e vários sacerdotes conhecidos de Rosa. Dom Gonçalo tentou consolar a esposa, mas ela agarrou-se-lhe aos braços desnorteada.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Ela vai morrer, Gonçalo, e nada há que possamos fazer por ela! O tesoureiro da cidade de Lima, cuja fortuna e alta posição davam-lhe importância e notoriedade em todo o Peru, mal podia controlar sua própria aflição. Naqueles dois últimos anos, desde que viera morar com eles, Rosa parecia tão bem disposta e feliz. Vinha, agora, de súbito, esta calamidade, este espetáculo aflitivo, de uma mulher tão jovem, tão bela, a deixar este mundo tão precocemente.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Ela descansará melhor, agora que o padre João de Lorenzana a ungiu, -pensou ele. &#8211; Quem sabe, se cuidarmos dela com toda a solicitude&#8230; Rosa, porém, apenas sorriu levemente ao ver os inúmeros remédios que traziam no afã de salvar-lhe a vida.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Um dia úmido de Agosto sucedeu ao outro, e ela continuava repetindo que o dia de S. Bartolomeu seria o último para ela na terra. Os mortais sofrimentos que lhe afligiam o corpo não podiam ser mitigados. Eram parte do pagamento ainda requerido para salvar do inferno certas almas. Foi na véspera da festa do Apóstolo que ela estendeu a mão enfraquecida.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> - Posso ver meus pais, Dona Maria? Eu queria dizer-lhes adeus. E quero pedir perdão a todos desta casa, por qualquer dificuldade que eu tenha causado.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">A senhora acedeu pressurosamente. Maria de Oliva já lá estava, e os criados foram enviados com uma cadeira confortável a fim de trazerem o velho Gaspar Flores então com noventa e cinco anos.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Pelo dia em fora, toda sorte de visitantes desfilaram para dentro e para fora do quartinho de Rosa &#8211; homens e mulheres de quem fora tão amiga, outros médicos chamados na esperança de que a pudessem ajudar, sacerdotes das várias Ordens religiosas, todos impelidos pelo desejo de contemplar aquela jovem cuja fama de santa enchera toda a cidade. Somente Dona Maria de Usátegui, o rosto banhado em pranto, recusava-se a abandonar-lhe a cabeceira. Rosa começou a pedir água, porém os médicos disseram que ela não podia beber.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Mas eu prometi! Eu prometi! &#8211; exclamava Dona Maria, lembrando-se daquele dia de Abril em que Rosa profetizara que havia de sofrer sede.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">-Não posso faltar à minha promessa!</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Chiu!, &#8211; murmurou Dom Gonçalo. &#8211; Água pode fazê-la sofrer mais!</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Quando se aproximava a meia noite, Rosa lançou um olhar às pessoas ajoelhadas no quarto. O palor mortal de seu rosto desaparecera e assumira um</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">aspecto mais belo que nunca.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Por favor, não fiquem tristes porque vou deixa-los, murmurou.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> -Este é realmente um dia de felicidade!</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Rosa, minha querida, por que não me esforcei mais por compreender você? Perdoa-me, filha, a minha cegueira&#8230;</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">De um canto do quarto veio o murmúrio das vozes de Dom Gonçalo, sua mulher e das crianças que rezavam as orações pelos moribundos. Perto da porta aglomerava-se um grupo de negros, em cujas faces tisnadas rebrilhavam</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">as lágrimas. Rosa sorriu ainda uma vez a seus amigos; em seguida baixou os olhos para o crucifixo que o padre Alonso lhe dera.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Jesus, ficai comigo&#8230;, &#8211; disse baixinho.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Rapidamente, Maria de Oliva levantou-se e agarrou uma vela acesa. Por alguns instantes permaneceu contemplando a frágil figura estirada no leito, e então falou, e sua voz era surpreendentemente calma:</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Está&#8230; está tudo terminado.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Todos se precipitaram para frente, e como a sinal dado, ecoaram de longe os sons dos sinos através da tranqüila escuridão. Meia-noite! A festa de S. Bartolomeu! E em cada convento de Lima, padres e freiras iniciavam o novo dia, cantando as orações litúrgicas em honra do Apóstolo.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Maria virou-se para seus companheiros. Havia um estranho olhar de contentamento em seu rosto cansado.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Minha filhinha foi para o Céu! &#8211; disse tranqüilamente.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">XII. O ORGULHO DO PERU</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">A madrugada veio encontrar as ruas de Lima repletas de gente que se apressava para a casa de Dom Gonçalo. A notícia da morte de Rosa espalhara-se como um incêndio e havia uma corrida ansiosa para conseguir relíquias. Entre os primeiros a chegar estava Alfonsa Serrano, íntima amiga da morta.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Ontem à noite Rosa apareceu-me &#8211; declarou ela excitada. &#8211; Eu estava profundamente adormecida. De repente, pouco depois da meia noite, uma luz brilhante iluminou meu quarto. E no meio da luz vi Rosa, vestida como terceira dominicana, e brilhando como o sol. Ela disse-me que acabava de entrar no Paraíso.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">O padre Alonso Velasquez, juntamente com outros visitantes, ouviu interessado o que Alfonsa contava. A moça fora uma das mais íntimas amigas de Rosa, e tinham feito uma combinação anos antes: aquela que morresse primeiro apareceria à outra, a fim de encorajá-la a continuar a vida de orações e boas obras.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Parece que Rosa cumpriu a palavra, &#8211; disse sorrindo o padre. – Ela falecera poucos minutos antes de contar-lhe a respeito das belezas do Céu. Do mesmo modo apareceu também a várias outras pessoas, entre as quais, o doutor João del Castillo.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">A manhã toda foi uma peregrinação em fila ao quartinho em que Rosa falecera, e, o que é mais estranho, ninguém se sentia triste. A visita da jovem morta, seu rosto mais belo do que jamais o tinham visto, enchia todos de alegria. Pairava no ar um estranho perfume, como de rosas e lírios recentemente colhidos, e que se sentia em toda a casa, mas especialmente junto do corpo.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Não compreendo &#8211; disse Maria de Oliva ao padre Alonso. – Não vem, com certeza, daquela simples grinalda de flores que lhe pusemos sobre a cabeça!</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- E&#8217; um milagre, senhora &#8211; replicou o sacerdote. &#8211; E&#8217; este o modo que Deus está escolhendo para patentear-nos a santidade de Rosa. A medida que os homens passavam e a casa se apinhava de gente, Dona Maria era assediada de pedidos para que mostrasse o que pertencera à querida morta. Atendendo, pôs à vista dos visitantes a estatueta milagrosa do Menino Jesus, &#8220;O Doutorzinho&#8221;, juntamente com o rosário, alguns quadros de santos e outros objetos. Havia também uma carta que Rosa escrevera a Dona Maria alguns anos atrás. Estava assinada &#8220;Rosa de Santa Maria&#8221;, o nome tão querido à filha de Gaspar, e que ela tomara no dia em que se tornara terceira dominicana.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Ao olhar a carta, Maria de Oliva lembrava-se daquela noite em que encontrara sua filha desfalecendo de fome na celazinha do jardim. No momento quis mandar Mariana ao armazém próximo comprar chocolate e açúcar com que fazer uma bebida reconfortante, mas Rosa pediu que não o fizesse. Em poucos minutos, afirmava, uma criada da casa dos Massa chegaria com o chocolate quente, já preparado, pois ela pedira ao seu Anjo da guarda que avisasse Dona Maria do súbito ataque de fraqueza que a acometera. &#8220;E assim aconteceu&#8221;, pensava a mãe. &#8220;Daí a pouco, àquela hora da noite, bateram ao portão do jardim. Quando fui abri-lo, lá encontrei a criada com um bule de prata cheio de delicioso chocolate. No dia seguinte ela escreveu esta carta a Dona Maria, agradecendo a gentileza&#8221;.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Finalmente D. Gonçalo pediu permissão para falar.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Eu sempre soube que Rosa era uma santa, padre João, Agora quer ter a bondade de olhar isto?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">O sacerdote virou-se para pegar o papel que D. Gonçalo lhe apresentava. Era um documento assinado por Rosa no leito de morte, pedindo aos padres de S. Domingos que lhe concedessem uma esmola: ser enterrada dentro do claustro</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">do seu convento.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Estou certo que todas as Ordens religiosas em Lima desejariam possuir este santo corpo &#8211; apressou-se em explicar D. Gonçalo. &#8211; A fim de evitar dificuldades, eu disse a Rosa que seria um ato de humildade pedir ela a seus superiores na Ordem dominicana que lhe concedessem uma sepultura.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">O padre João de Lorenzana examinou cuidadosamente o papel. Não havia dúvida quanto à autenticidade da assinatura de Rosa. &#8211; São quase quatro horas, &#8211; disse ele. &#8211; Acho que seria melhor levar o corpo agora para S. Domingos. Há muita gente aglomerada aqui. Na igreja haveria mais espaço.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Assim, pela última vez, Rosa foi acompanhada pelas ruas de Lima. A multidão era tal, e tão ansiosa por obter relíquias, que os soldados do Vice-rei, que tinham estado de guarda à casa dos Massa, tiveram que abrir caminho para a procissão. Em toda parte &#8211; dos balcões, das janelas, do limiar das portas &#8211; homens, mulheres, tentavam uma última vista à santa filha de Gaspar. O ar ressoava de exclamações pedindo a bênção da jovem lá do seu lugar no Paraíso. Nem causou a menor estranheza que os seis homens que carregavam o esquife fossem membros da &#8220;Audiência&#8221;, esse importantíssimo grupo de homens que assistiam o Vice-Rei no governo.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Sabiam que nada era bom demais para &#8220;La Rosita&#8221;, a Rosinha de todos, que se tornara o orgulho não só de Lima mas de todo o Peru. Lentamente foi a procissão coleando pelas ruas em direção à igreja dos dominicanos. Desaparecera a distinção usual de classes e raças. Nobres espanhóis marchavam lado a lado com mendigos índios. Escravos negros acotovelavam ilustrados professores. Realmente, tão densa era a multidão que Bartolomeu Lobo Guerrero, sucessor de Turíbio como Arcebispo de Lima, vira-se impossibilitado de chegar à casa de D. Gonçalo para presidir a procissão. A carruagem teve de fazer uma volta e ele foi esperar o corpo na igreja.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Aí foram colocados os santos despojos, numa elevada plataforma perto do presbitério. Um pequeno espaço foi reservado para que os doentes pudessem aproximar-se e implorar a cura. Logo se espalhou a notícia de que o corpo estava quente e flexível, como se ainda conservasse vida. E um grito maravilhado levantou-se quando a capela do Rosário, onde Rosa tanto gostava de rezar, foi vista banhada duma luz gloriosa e sobrenatural. &#8220;Outro milagre&#8221;, pensou o padre Luís de Bilbao, confessor de Rosa durante catorze anos. &#8220;A própria Mãe de Deus presta homenagem à nossa amiguinha&#8221;.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Devido ao costume peruano de fazer o enterro poucas horas depois da morte, aprestaram-se os preparativos para conduzir Rosa ao claustro do convento onde já se preparara a sepultura. Tal, porém, foi o protesto do povo que ainda não conseguira uma relíquia, que o Arcebispo consentiu em protelar o funeral. Seria realizado no dia seguinte, disse ele. Entretanto, o corpo permaneceria onde estava, de modo que todos pudessem venerá-lo com a devida devoção. Ficaria em exposição toda a noite na capela do noviciado.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Os planos do Arcebispo sofreriam, porém, uma mudança. Quando veio a madrugada, e o corpo voltou à igreja pública, o povo de Lima recusou separar-se de Rosa. Tão alto foi o coro de lacrimosas orações que os celebrantes do funeral mal se podiam ouvir. O Bispo de Guatemala, D. Pedro de Valência; nem podia crer no que via. Como se poderia realizar as cerimônias se continuasse aquele borborinho?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Finalmente veio outra ordem: o funeral seria adiado por mais vinte e quatro horas. A esta boa nova uma onda de alívio percorreu a multidão reunida na igreja. O povo gritava de júbilo. Havia agora uma oportunidade de conseguir um pedaço do branco hábito de lã que revestia o corpo da querida morta, ou mesmo uma das belas rosas que lhe rodeavam a fronte. Com o perpassar das horas, a excitação atingia o máximo. Todo mundo sabia que vários inválidos tinham ficado curados ao tocar o santo corpo. Um deles, um rapaz negro de dom anos, estava especialmente em foco. Nascera com os pés tão aleijados que nunca lhe fora possível andar. O mais que podia era arrastar-se sobre os joelhos. Impelido por sua grande fé no poder da intercessão de Rosa junto de Deus, tentara uma vez e outra alcançar o elevado estrado em que jazia o corpo, e insinuara-se em baixo, atrás das dobras do negro estofo de veludo ricamente decorado. Nem rogos nem ameaças conseguiram afastá-lo de seu refúgio. Por fim, &#8220;La Rosita&#8221;, ouviu-lhe as preces. Concedeu-lhe o uso normal dos pés, de modo que ele podia andar, correr, saltar como os outros meninos de sua idade.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Olha o garoto agora! &#8211; dizia Dom Gonçalo à esposa. &#8211; Já viste tanta alegria no rosto de uma criança? Vê, está positivamente radiante. Está até ajudando outras pessoas a chegarem perto do corpo. Dona Maria concordou. Ela nunca duvidara que Rosa era uma santa. Agora, todo mundo concordava com ela, e no intimo de seu coração cantou um comovido Te Deum.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Entretanto o Arcebispo Bartolomeu Lobo Guerrero afligia-se, pois as horas passavam. Procurou, por fim, o prior de S. Domingos.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Quantas vezes já vestiu novo hábito no corpo? perguntou. &#8211; Quatro ou cinco?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Seis vezes, excelência. Tem havido incontáveis pedidos de pedaços do hábito como relíquia. Muita gente traz até tesouras escondidas na manga e nem os soldados do Vice-rei conseguem impedi-las de se aproximarem do corpo.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">&#8230;</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">XIII. HEROÍNAS DE PRETO E BRANCO</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Nos meses seguintes à sua morte, a fama de Rosa Flores espalhou-se por toda a América do Sul. Dia após dia, centenas de pessoas vinham a S. Domingos perdir-lhe orações. Visto terem os santos restos sido sepultados dentro do claustro solene do convento, mulher alguma tinha permissão de entrar para rezar à beira da sepultura. Afinal, incapaz de recusar os pedidos dos amigos da santa, o Arcebispo consentiu que o corpo fosse removido para a igreja pública. Nesta cerimônia, realizada a 19 de Março de 1619, cerca de dezenove anos depois da morte de Rosa, os restos mortais foram colocados numa urna dourada e depositados em um nicho próximo ao altar-mor.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">O novo sítio, porém, tinha muitos inconvenientes. O povo ia e vinha continuamente pelo santuário, mesmo durante o santo Sacrifício da Missa. Por fim, as relíquias foram outra vez removidas, para a capela de Santa Catarina de Sena uma capelinha do lado da epístola do altar-mor. Os anos passaram e Maria de Oliva considerava com admiração a mudança que se operava em sua posição social&#8230; Tornara-se uma pessoa importante; raro era o dia em que não viesse alguém tributar-lhe honra, congratular-se com ela pelo fato de ser a mãe de uma santa. Muitos até deixavam consideráveis esmolas em agradecimento por algum favor alcançado pela intercessão de Rosa.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">No entanto, não se tornou soberba. Seu caráter sofrera uma reforma notável desde a morte de Rosa, e era difícil crer que fosse a mesma pessoa que certa vez ridicularizara a Regra da Ordem terceira dominicana, e se deixara dominar pela raiva quando lhe fora dito que terminaria seus dias usando o hábito da família de S. Domingos.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">&#8220;Deus me perdoe meus inumeráveis pecados&#8221; &#8211; pensava ela muitas vezes.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">&#8220;Querida Rosa, roga por tua pobre mãe&#8221;.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">A 10 de Fevereiro de 1624, a população de Lima afluiu para assistir à dedicação de um novo convento de mulheres o sexto a ser construído na cidade. Era o mosteiro de Santa Catarina, anunciado por Rosa quando ainda vivia como eremita no jardim de seu pai. Era o primeiro convento de freiras dominicanas a ser fundado em Lima, e as lágrimas corriam livremente pelas faces de Maria, enquanto assistia à Missa oferecida na nova capela. Sua filha bem-aventurada tinha razão. O padre Luís de Bilbao estava celebrando a primeira missa, e daí a alguns minutos Dona Lúcia de la Daga, cujo marido e cinco filhos tinham morrido alguns anos antes, acompanhada de sua jovem irmã Clara, ajoelhar-se-ia para receber o hábito dominicano.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Quatro anos depois, o mosteiro de Santa Catarina abrigava cento e quarenta e cinco freiras, número que em breve elevou-se a trezentos. Muitos padres explicavam o grande número de vocações, dizendo que aquelas que já viviam dentro dos muros de Santa Catarina, acreditavam que Rosa Flores estava entre elas. Sentiam que ela as ajudava com suas orações, que as tornaria santas. Que admiração que o convento florescesse? Não era só Santa Catarina de Sena a amiga especial e protetora; Rosa também cuidava do bem-estar da casa.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Urna tarde, logo depois das vésperas cantadas pelas irmãs de Santa Catarina, uma jovem irmã leiga procurou a prioreza, outrora Dona Lúcia de la Daga, agora Madre Lúcia da Santíssima Trindade. A jovem religiosa tinha um ar aflito.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- A irmã Maria está pior, Madre. Está chamando pela senhora a tarde toda.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">A prioreza olhou-a surpreendida.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Mas ela estava muito melhor esta manhã, irmã. O doutor João de Tejada mo afirmou.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">A irmã leiga suspirou.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Ela já passou dos setenta, Madre, e não é muito forte. Acho melhor a senhora vir já.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Assim Madre Lúcia encaminhou-se para a pequena cela onde a velha irmã jazia doente. Famosa em todo o Peru como mãe de Rosa Flores, a irmã Maria de Santa Maria era freira em Santa Catarina desde 1629. Mas fazia apenas quatro anos, e certamente a boa senhora não ia morrer ainda. A irmã Maria, entretanto, pensava de outro modo. Quando a porta se abriu e a prioreza se dirigiu rapidamente para seu lado, ela ergueu-se fracamente sobre um braço:</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Querida Madre Lúcia, Rosa disse-me que viria buscar-me quando eu morresse. Acho que será hoje à noite. A prioreza tateou nervosamente seu rosário. A irmã leiga tinha razão; a irmã Maria piorara desde a manhã. Seu rosto enrugado estava pálido e a respiração ofegante.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Mas, querida irmã, não deve dizer tal coisa. Por que não pedir a Rosa que a cure? Ela já a ajudou antes tantas vezes.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- A cura? Para que havia eu de desejá-la? Estou velha, e pouco útil aos outros. Meu marido está morto, meu filho Fernando, minha Rosinha</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> - ah! só quero ir para o céu, ser feliz com esses meus queridos!</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Houve silêncio no quartinho, enquanto a doente reclinava novamente no travesseiro. Madre Lúcia contemplou-lhe as feições cansadas e mil lembranças lhe tumultuaram na memória. Os muros de Santa Catarina pareciam desfazer-se e ela voltava a ser uma jovem mulher, a esposa feliz de Antônio Perez de Monteja. Subitamente uma voz de menina ecoou-lhe aos ouvidos:</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">&#8220;Tudo isto passará, Dona Lúcia. Vosso esposo e filhos morrerão. Fundareis o mosteiro de Santa Catarina com vossa enorme fortuna. Minha própria mãe buscará e receberá de vossas mãos o hábito dominicano&#8221;. Como, então, estas palavras lhe pareceram impossíveis, naquele tempo distante em 1614. No entanto, tudo aquilo que Rosa havia predito era agora realidade. Antônio estava morto, bem como seus quatro filhos e sua filha. Gaspar Flores fora chamado para o descanso eterno e no mosteiro de Santa Catarina louvava-se a Deus, dia e noite.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">De repente a enferma abriu os olhos.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Rosa&#8230; Rosa&#8230; Onde estás?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Madre Lúcia estendeu a mão confortadora.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Está tudo bem, minha querida. Rosa está no Céu. Não se lembra?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Ela vai ser canonizada pelo Santo Padre.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">A irmã Maria meneou a cabeça.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Eu me refiro à minha neta, Madre Lúcia. Podia eu ver Maria Rosa outra vez? Ela&#8230; ela me faz lembrar tanto a minha Rosinha&#8230;</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">A prioreza acenou afirmativamente.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Claro que pode ver Maria Rosa. E chamarei também as outras, se quiser.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Para rezar um pouco? Ah, sim, eu gostaria. Daí a pouco as irmãs estavam reunidas. A maioria ajoelhou-se no corredor, do lado de fora do quarto da irmã Maria, enquanto algumas rodearam o leito da moribunda. Todas, exceto uma, traziam o hábito branco da Ordem dominicana. Era uma menina de quinze anos, trajada com um simples</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">vestido preto. Era Maria Rosa Flores, cujo pai, Fernando, falecera quando ela era ainda pequena. Ao morrer-lhe a mãe, D. Francisco Lasso de la Vega, governador do Chile, enviara-a à sua avó, e, quando esta entrara para o convento de Santa Catarina, acompanhara-a.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">A prioresa contemplou-a afetuosamente, quando ela entrou no quarto. Era uma linda menina, o retrato de sua santa tia, apenas com uma ligeira diferença, uma interessante marca de nascença em uma das faces  – uma minúscula rosa vermelha, o que sempre despertara grande curiosidade. Era como se Rosa Flores tivesse assinalado a filha de seu irmão preferido, um sinal que indicava ser a pequena sobrinha uma alma já escolhida de Deus.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Entre, minha querida. A irmã Maria deseja falar-lhe. Maria Rosa dirigiu-se vagarosamente para o leito, com os olhos abertos de súbito receio.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- A senhora não vai morrer, vovó!? Não vai deixar-me sozinha. . .A irmã Maria sorriu à expressão ansiosa da menina.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Acho que sim, meu bem. Mas não se preocupe. Estas boas religiosas cuidarão de você.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Maria Rosa caiu de joelhos. Não devia chorar. A vovó ia para o Céu.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Não sabiam todos em Lima que Rosa a guiaria diretamente ao trono de Deus?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- A senhora&#8230; a senhora não se esquecerá de mim?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Esquecer você? Claro que não.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Mas a senhora não podia viver um pouco mais, vovó? Não podia esperar até me ver vestida com o hábito dominicano?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">A moribunda sorriu.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Não, filhinha. Eu assistirei à feliz cerimônia lá do Céu. Ah!</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">não imagina que sorte a sua de ter, tão jovem, compreendido o valor de uma vocação religiosa. Sabe o que esta velha tola disse quando Rosa lhe anunciou que morreria como dominicana?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">A mocinha acenou que sim, pois ouvira a história muitas vezes. Maria de Oliva afirmara que entraria num convento só depois de ter visto um elefante voar.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Sim, vovó, eu me lembro. Mas a senhora não deve fatigar-se.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Experimente dormir um pouco. A senhora deu um profundo suspiro.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Você tem razão, criança. Estou fatigada. Mas não vá embora. Fique aqui a meu lado.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Maria Rosa pôs a mão sobre a mão da avó, e por algum tempo reinou profundo silêncio. Subitamente a irmã Maria fez um esforço para falar. A superiora deu logo um passo para a frente&#8230;</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Que é, minha querida irmã?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Peça às outras que comecem a rezar, sim? Eu . . . eu não tenho</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">mais muito tempo de vida.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">A fundadora do convento de Santa Catarina saiu na ponta dos pés e da porta toda aberta deu um sinal. Imediatamente as religiosas no corredor e dentro do quarto começaram a cantar o &#8220;Salve Regina&#8221;, o velho cântico entoado pelos dominicanos sempre que um confrade está morrendo. Assim que a doce melodia vibrou pelo ar, uma campainha tilintou à distância. Pela última vez o capelão trazia o Sagrado Viático à mãe de Rosa Flores. A irmã Maria sorriu. Seus olhos, nos quais fulgia um brilho diferente, estavam fixos em alguma distante visão.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">- Espere Rosa, &#8211; murmurou &#8211; ainda não.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Madre Lúcia reprimiu as lágrimas. Sentia-se, de repente, estranhamente feliz. Pairava no ar uma doce fragrância, aquele mesmo perfume que enchia a igreja de S. Domingos quando o corpo de uma santa descansava entre os altos e fúnebres círios. E embora não pudesse contemplar a visão, da qual gozava a velha irmã no limiar da morte, a prioresa não tinha a menor dúvida: uma santa viera cumprir uma santa promessa.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Fonte:</span>MARY FABYAN WINDEATT. SANTA ROSA DE LIMA. 1586 &#8211; 1617.O ANJO DOS ANDES</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/biografiadossantos2.wordpress.com/487/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/biografiadossantos2.wordpress.com/487/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/biografiadossantos2.wordpress.com/487/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/biografiadossantos2.wordpress.com/487/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/biografiadossantos2.wordpress.com/487/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/biografiadossantos2.wordpress.com/487/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/biografiadossantos2.wordpress.com/487/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/biografiadossantos2.wordpress.com/487/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/biografiadossantos2.wordpress.com/487/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/biografiadossantos2.wordpress.com/487/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/biografiadossantos2.wordpress.com/487/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/biografiadossantos2.wordpress.com/487/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/biografiadossantos2.wordpress.com/487/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/biografiadossantos2.wordpress.com/487/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=biografiadossantos2.wordpress.com&amp;blog=14156376&amp;post=487&amp;subd=biografiadossantos2&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://biografiadossantos2.wordpress.com/2010/08/22/santa-rosa-de-lima/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
	
		<media:content url="" medium="image">
			<media:title type="html">biografiadossantos2</media:title>
		</media:content>

		<media:content url="http://biografiadossantos2.files.wordpress.com/2010/08/santa-rosa-de-lima3.jpg" medium="image">
			<media:title type="html">Santa Rosa de Lima</media:title>
		</media:content>
	</item>
		<item>
		<title>São João Nepomuceno Neumann</title>
		<link>http://biografiadossantos2.wordpress.com/2010/08/22/sao-joao-nepomuceno-neumann/</link>
		<comments>http://biografiadossantos2.wordpress.com/2010/08/22/sao-joao-nepomuceno-neumann/#comments</comments>
		<pubDate>Sun, 22 Aug 2010 17:22:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>biografiadossantos2</dc:creator>
				<category><![CDATA[São João Nepomuceno Neumann]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://biografiadossantos2.wordpress.com/?p=479</guid>
		<description><![CDATA[  HOMILIA DO PAPA JOÃO PAULO II NO ENCONTRO COM OS FIÉIS DA PARÓQUIA ROMANA  DE SÃO JOÃO NEPOMUCENO NEUMANN 15 de Dezembro de 2002 1.  &#8221;Irmãos,  andai  sempre  alegres&#8221; (1 Ts 5, 16). Este convite do apóstolo Paulo aos fiéis de Tessalónica, há pouco ouvido na nossa assembleia, exprime bem o clima da liturgia [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=biografiadossantos2.wordpress.com&amp;blog=14156376&amp;post=479&amp;subd=biografiadossantos2&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:left;"><em><strong><span style="text-align:center; display: block;"><a href="http://biografiadossantos2.wordpress.com/2010/08/22/sao-joao-nepomuceno-neumann/"><img src="http://img.youtube.com/vi/apclxXzOmPk/2.jpg" alt="" /></a></span></strong></em></p>
<p style="text-align:justify;"><em><strong><a href="http://biografiadossantos2.files.wordpress.com/2010/08/so_joo1.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-480" title="SO_JOO~1" src="http://biografiadossantos2.files.wordpress.com/2010/08/so_joo1.jpg?w=480&#038;h=745" alt="" width="480" height="745" /></a></strong></em></p>
<p style="text-align:justify;"><strong><em> </em></strong></p>
<p style="text-align:justify;"><em><strong><span style="color:#000000;">HOMILIA DO PAPA JOÃO PAULO II<br />
NO ENCONTRO COM OS FIÉIS<br />
DA PARÓQUIA ROMANA<br />
 DE SÃO JOÃO NEPOMUCENO NEUMANN</span></strong></em></p>
<p style="text-align:justify;"><em><span style="color:#000000;">15 de Dezembro de 2002</span></em></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">1. <em> &#8221;Irmãos,  andai  sempre  alegres&#8221; </em>(1 <em>Ts</em> 5, 16). Este convite do apóstolo Paulo aos fiéis de Tessalónica, há pouco ouvido na nossa assembleia, exprime bem o clima da liturgia de hoje. De facto, hoje é o terceiro domingo do Advento, chamado tradicionalmente domingo &#8220;<em>Gaudete</em>&#8220;, da palavra latina com que começa a Antífona de Entrada.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">&#8220;<em>Alegrai-vos sempre no Senhor&#8221;. </em>Perante as inumeráveis dificuldades da vida, as incertezas e o medo para o futuro, a tentação do desencorajamento e da desilusão, a Palavra de Deus volta sempre a propor-nos o &#8220;<em>anúncio alegre&#8221; </em>da salvação:  o Filho de Deus vem curar &#8220;<em>as chagas dos corações despedaçados&#8221; </em>(cf. <em>Is </em>61, 1). Que esta alegria, prenúncio da alegria do Natal já próximo, possa encher o coração de cada um de nós e todos os âmbitos da nossa existência.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">2. Caríssimos Irmãos e Irmãs da Paróquia de São João Nepomuceno Neumann:  sede bem-vindos! É bom encontrar-vos ao aproximarem-se as festividades natalícias. O Natal, como nós sabemos, é um festa sentida de modo particular pelas famílias e pelas crianças, e vós sois uma Paróquia composta de muitas famílias jovens.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Dirijo-vos a todos vós a minha mais cordial saudação. Saúdo o Cardeal Vigário, o Bispo Auxiliar do Sector Oeste, o vosso Pároco, Padre Danilo Bissacco e os seus Vigários, aos quais está confiado o cuidado da comunidade. Agradeço a quantos, em vosso nome, quiseram exprimir-me sentimentos de afecto e de comunhão no início da celebração. Através de vós aqui presentes, desejo fazer chegar uma palavra de sentida proximidade aos cerca de dez mil residentes no território da Paróquia.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Reunidos à volta da Eucaristia, facilmente damos conta de que a missão de cada comunidade é a de levar a mensagem do amor de Deus a todos os homens. Eis a razão por que é importante que a Eucaristia seja o coração da vida dos fiéis, como acontece hoje para a vossa Paróquia, ainda que nem todos os membros tenham podido participar pessoalmente.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">3. Fundada há dois anos, a vossa comunidade não dispõe ainda de um centro de culto apropriado. Precisamente neste terceiro domingo do Advento, a diocese celebra o Dia de oração e de sensibilização para que todas as zonas da Cidade, especialmente as da periferia, tenham uma igreja com as estruturas necessárias para o desenrolar normal das actividades litúrgicas, de formação e pastorais.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Desejo que, o mais rápido possível, se possa realizar este projecto também para vós, sem, todavia, perder o estilo missionário que nestes anos tornou viva e dinâmica a vossa família paroquial.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Conheço as dificuldades com que, em cada dia, ela tem de se confrontar. A antiga Borgata Fogaccia, actualmente mais conhecida como Borgata Montespaccato, onde a Paróquia está situada, é uma zona densamente povoada, com construções feitas sem um plano regular, privada de estruturas sociais, onde é notável a presença de imigrados extra-comunitários assim como de pessoas à procura de uma ocupação estável.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">4. Todavia, não temos necessidade de perder a coragem. De resto, à vossa jovem comunidade não falta a iniciativa, graças também aos queridos Padres Redentoristas que, como verdadeiros filhos de Santo Afonso, no ano do Grande Jubileu, aceitaram ocupar-se de vós. Mas, na pobreza de estruturas e no cansaço de cada dia, vós já prestais atenção a quem se encontra em dificuldade.<br />
Continuai neste caminho, carísssimos Irmãos e Irmãs. Sobretudo, prestai atenção às crianças e adolescentes, não deixando faltar-lhes a atenção, amizade e confiança. Defendei as famílias, em particular as jovens e as pobres ou em dificuldade.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Proteja-vos, caríssimos, o vosso celeste Padroeiro, São João Nepomuceno Neumann, por muitos talvez menos conhecido do que o que ele merecia. Esta grande figura de Bispo missionário, extraordinãrio pioneiro do Evangelho na América do Norte em meados do século dezanove, nos breves anos da sua existência, gastou-se pelo Senhor, pela Igreja e pelo povo que lhe estava confiado. Imitai o seu zelo pelo anúncio do Evangelho e o ardente amor pela Igreja e pelo próximo necessitado.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">5. &#8220;<em>Preparai o caminho do Senhor&#8221; (Jo, </em>1, 23). Acolhamos este convite do Evangelista! A aproximação do Natal estimula-nos a uma atitude mais vigilante de espera do Senhor que vem, enquanto a liturgia de hoje nos apresenta João Baptista como exemplo a imitar.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Volvamos, por fim, o nosso olhar para Maria, &#8220;causa&#8221; da nossa verdadeira e profunda alegria, para que obtenha para cada um de nós a alegria que vem de Deus e que ninguém nos poderá tirar. Amen!</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Fonte: </span><a href="http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/homilies/2002/documents/hf_jp-ii_hom_20021215_parish-nepomuceno_po.html"><span style="color:#000000;">http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/homilies/2002/documents/hf_jp-ii_hom_20021215_parish-nepomuceno_po.html</span></a></p>
<p style="text-align:justify;">
<div style="text-align:justify;"><span style="font-size:medium;"><strong>1. O estudante na Europa</strong></span></div>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-size:medium;"></p>
<div><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">João Nepomuceno Neumann nasceu a 28 de março de 1811 — naquele ano Quinta-Feira Santa — em Prachatitz, cidade da Boêmia. Seu pai, natural da Baviera, tinha uma pequena fábrica de meias e sou-be conquistar um posto de honra na cidade por sua honradez e operosidade. Ocupou várias vezes car-gos públicos no município; especialmente recebeu gerais aplausos como &#8220;Pai dos pobres&#8221;. Como tal soube por meios acertados e brandos pôr termo á mendicidade pública.</span></span></div>
<p></span><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"></p>
<div><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">O Senhor abençoou com 6 filhos o seu lar de cristão zeloso. Três entre eles abraçaram o estado religioso. Um irmão do nosso Venerável fez-se Irmão leigo na Congregação do SS Redentor; uma irmã chegou a ser Superiora Geral do Instituto das Irmãs de Caridade de S Carlos Borromeu.</span></span></div>
<p></span></span><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"></p>
<div><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">&#8220;Nossa educação, dizia Neumann, foi feita segundo as antigas máximas católicas; nossos pais eram ótimos cristãos. O pai depois de feita a oração da manhã ocupava-se em vigiar e guiar os oficiais e operários durante o resto do dia. A mãe todos os dias ia á Missa, levando sempre consigo, ora um ora outro dos filhos. Comungava freqüentemente e aos jejuns da Igreja ajuntava os de sua devoção. O filho que a acompanhasse ao terço ou á Missa ganhava uma moeda ou qualquer outro mimo.&#8221;</span></span></div>
<p></span></span><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"></p>
<div><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">Vigiava a Providencia pela vida de nosso Joãozinho. Tendo apenas três anos caiu numa cova de quinze pés de profundidade sem sofrer a menor lesão.</span></span></div>
<p></span></span><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">Era rigorosa a educação que o Sr. Neumann dava aos seus filhos. Certa vez Joãozinho pregou-lhe uma pequena mentira. O castigo foi severo. &#8220;Este castigo me foi salutar — adverte o Venerável — por-que desde então guardei-me de faltar á verdade.&#8221; Muitos anos depois, sendo Bispo, ao visitar seus pais, lembrou-lhes o castigo sofrido e agradeceu ao velho Neumann o rigor que então usara.</p>
<p>Aos sete anos entrou nosso Joãozinho para a escola municipal. Devido a seu talento precoce e grande amor ao estudo aprendeu logo a ler e escre-ver. — Herdara de seu pai, diz ele, pronunciado a-mor pelos livros, a ponto de consagrar-lhes o tempo que outros passavam brincando ou caçando passa-rinhos.</p>
<div><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">&#8220;Minha mãe ralhava comigo chamando-me de maluco pelos livros.&#8221; Com o tempo os pais tiveram que lhe comprar um armário onde o diligente leitor ia enfileirando seus livros, como um general os seus soldados. Mas João não se contentava com o ler; refletia, procurava aprofundar o que havia lido. Vá o seguinte caso como prova. João dormia no mesmo quarto com Wenceslau. Certa noite vem este quei-xar-se com a mãe de que o irmão não o deixava dormir. E logo vai a mãe para o quarto resolvida a aplicar umas chineladas no pequeno desordeiro. Chega-se á cama do filho e este a desarma com uma pergunta á queima-roupa: &#8220;Mamãe, como é possível que a terra se sustente no ar sem cair?&#8221;</span></span></div>
<p></span></span><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"></p>
<div><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">A conduta do menino era, do contrario, exem-plar. O caminho mais curto da escola para casa a-travessava a praça publica. Para não ser testemu-nha dos jogos barulhentos dos meninos que por lá tumultuavam, tomava nosso Joãozinho outro trajeto mais comprido. Gostava de brincar, mas fazia-o com meninos escolhidos, no pátio de sua casa. Seu pro-fessor de religião passou-lhe o seguinte elogio:</span></span></div>
<p></span></span><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">&#8220;Desde criança João excitava minha admiração e muitas vezes lembrava-me das palavras: ‘O que virá a ser este menino um dia?’ Foi sempre um discípulo tão dócil que a conselho meu, lhe entregou o mestre, ainda na classe inferior, a vigilância dos pequenos alunos.&#8221;</p>
<p>Um rasgo formoso de caridade derrama luz sobre esta época. Encontrou-se um dia com um me-nino pobre que, de porta em porta, ia tirando esmo-las as quais depositava num saquinho de pano. Ao vê-lo assim enterneceu-se Joãozinho e disse com visíveis mostras de compaixão: &#8220;Oh! si eu tivesse um saquinho como este para ajudar o pobrezinho! Ga-nharia então o dobro da esmola&#8221;.</p>
<div><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">Com sete anos confessou-se pela primeira vez. Dois anos depois recebia o sacramento da Con-firmação e, com licença especial de seu catequista, aproximou-se no ano seguinte da santa mesa. Já então sabia todo o seu catecismo maior. Daí em di-ante desejava receber o pão dos anjos seguidamen-te, graça que lhe foi concedida pelo confessor. Nos últimos tempos de escola ajudava a Missa todos os dias. Fazia-o com muito respeito respondendo corre-tamente ao sacerdote. Nunca tomava café ao ir para a igreja. Assim não poucas vezes ficava em jejum até o meio dia.</span></span></div>
<p></span></span><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"></p>
<div><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">Aos doze anos foi João para Budweis afim de freqüentar o celebre liceu da cidade. Padeceu muito neste colégio. Vejamos como nô-lo conta: &#8220;Tínhamos um professor que, sobre ser o velho e bonachão, se dava muito á bebida. Não íamos adiante nos estu-dos; e, pior ainda, me ia esquecendo das cousas ensinadas pelo catequista (seu professor de latim). No terceiro ano o referido professor apresentou-se</span></span></span></span></div>
<p></span></span><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"></p>
<div><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"> </span></div>
<p></span></span></span><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">embriagado aos exames e foi dispensado do cargo. Pouco depois punha termo á vida. Seu sucessor era tão sábio como severo, querendo repetir num se-mestre as matérias de dois anos e meio. Cousa me-ramente impossível para a maioria dos alunos, vicia-dos pela vadiação nos tempos do predecessor! Mui-tos foram então os reprovados. Mais do que isso sofri com as exigências descabidas do professor de religião. Era o pedantismo e aridez em pessoa. Fazia questão de cada palavrinha e como não tivesse eu boa memória para guardá-las todas, eram-me mo-destíssimas as aulas de religião.&#8221;</span></span></p>
<p></span></span></p>
<p style="text-align:justify;">
<div><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">No fim do quarto ano João voltou para casa triste, desanimado. Pensava seriamente em largar dos estudos. Caro custou á sua boa mãe é ás irmãs convencê-lo para que os continuasse. Deixou-se persuadir, voltando para o colégio em Budweis. Houve então radical mudança em tudo; foram rápi-dos seus progressos nas ciências. São unânimes seus condiscípulos em afirmar que Neumann se des-tacava entre todos os outros. Ele próprio nos diz: &#8220;Durante os dois anos de filosofia operou-se em mim uma notável mudança. Havia uma dúzia de estudan-tes muito afeiçoados a diversas ciências, o que nos levava, nas horas e dias de recreio, a mutuas comu-nicações nos diversos ramos. De grande auxilio nos foi neste estudo a amável condescendência dos pa-dres Cistercienses, nossos professores de filosofia. Deixei-me arrastar demasiadamente nestes dois a-nos pelo amor ás ciências naturais. Preocupava-me com a história natural, física, geologia, astronomia, álgebra, geometria e trigonometria, matérias que antigamente me não sorriam muito.&#8221;</span></span></div>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"></p>
<div><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">Seus condiscípulos louvam sobre tudo seus conhecimentos, tão vastos como sólidos, na astro-nomia e botânica. Dedicava-se alem disso ao estudo das línguas modernas, particularmente da francesa e italiana. &#8220;Dotado de excelente talento, observa um dos seus colegas, era Neumann ao mesmo tempo mui estudioso. Nos passeios levava sempre um livro consigo; nunca o vi ocioso.&#8221; Outro fala-nos do ótimo microscópio, com que Neumann admirava na cre-mação visível a grandeza e onipotência de Deus, e das acertadas palavras que então usava para des-pertar os mesmos pensamentos nos outros.</span></span></div>
<p></span></span><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"></p>
<div><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">Neumann conhecia todos os clássicos, como nô-lo garantem eles.</span></span></span></span></div>
<p></span></span><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"></p>
<div><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"> </span></div>
<p></span></span></span><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">Escreve o apostolo S. Paulo que a piedade para tudo é útil; e que nos alcança as bênçãos do Senhor na presente e na vindoura vida. Nosso estu-dante compreendeu o alcance destas palavras e soube harmonizar a piedade com os estudos. São muitos e preciosos os testemunhos referentes a tal verdade. Impossível seria reuni-los todos na presen-te brochura. Conta um de seus colegas ter visto, numa das visitas que lhe fazia, o livro da Imitação de Cristo ao lado do globo celeste feito pelo dotado alu-no. Outro companheiro inseparável era o &#8220;Guia dos pecadores&#8221; de Luiz de Granada, que João lia com assiduidade. A oração, a leitura espiritual, a freqüên-cia dos sacramentos, eram os meios que empregava para livrar-se dos grandes perigos que ameaçam a mocidade.</span></span></span></span></p>
<p style="text-align:justify;">
<div><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">Ouçamos suas interessantes declarações: &#8220;Era meu cuidado tirar o maior proveito possível da Santa Comunhão. Lembrando-me da piedade pre-senciada em casa dos pais e da devoção com que minha mãe se preparava para recebê-la, procurava imitá-la no fervor. Assim livrei-me de muitos pecados e perigos geralmente fatais para tantos moços. Nes-te tempo ouvia missa todos os dias e, pela tarde, visitava alguma das igrejas, o que faziam também diversos dos meus companheiros.&#8221;</span></span></div>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">A isso juntava Joãozinho diversas mortifica-ções. &#8220;Desde muito cedo — escreve padre Berger, sobrinho do Venerável e autor de uma biografia sua — compreendeu ao clarão da graça ser de absoluta necessidade a mortificação dos sentidos para quem deseja progredir na virtude. Aos 16 anos alimentava-se só uma vez por dia; pela manhã e pela tarde con-tentava-se com um simples pedaço de pão seco.</p>
<div><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">Uma vez terminados os estudos em Budweis, precisava decidir-se nosso moço sobre a vocação que devia seguir. Desde pequeno pensava e deseja-va ser padre e unicamente neste intuito havia come-çado os estudos. Agora, porém, na hora de decisão veio-lhe a tentação. Refere-nos ele que, de 89 a 90 pretendentes ao estudo de teologia, somente 20 po-diam ser aceitos no seminário maior. O medo de ser rejeitado despertou-lhe o desejo de se dedicar á me-dicina. O pai concordava; não assim a mãe. Insistiu com o filho para que solicitasse a admissão no Se-minário.</span></span></div>
<p></span></span><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"></p>
<div><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">Neumann obedeceu e, contra toda a expecta-tiva, foi aceito mesmo na falta de qualquer recomen-dação alheia. &#8220;Daí em diante — escreve — sumiu a tentação de estudar medicina; renunciei até por completo e sem muito custo a diversos estudos favo-ritos, como física, astronomia, etc.&#8221;</span></span></div>
<p></span></span><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">Em novembro de 1831 começou Neumann o estudo de teologia, continuando-o com ótimos resultados.Andavam tão contentes com ele os professores, que logo no primeiro ano lhe fizeram conferir as ordens menores.</p>
<div><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">No principio do segundo ano Deus revelou a seu servo a vocação que o esperava no futuro. &#8220;No segundo ano de teologia — conta-nos o Venerável — comecei a ler publicações da sociedade de S. Leopoldo. As cartas do padre Barága, e de outros missionários na América do Norte, agradavam-me extraordinariamente. Passeando um dia ás margens do Moldava com um condiscípulo nos veio o pensa-mento de uma atividade apostólica na América, de-pois que houvéssemos terminado os estudos em Budweis. Minha resolução, a partir deste momento, era tão firme e decidida que já não pensava em ou-tras cousa.&#8221;</span></span></div>
<p></span></span><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"></p>
<div><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">Tudo quanto nosso seminarista empreendia tinha então em vista sua ida para América, sua vida de missionário nas remotas regiões do Novo Mundo. Para melhor aprender as línguas modernas, máxime o francês e inglês, pediu admissão no Seminário Ar-quiepiscopal de Praga, para onde costumava o Bis-po de Budweis mandar os seus melhores alunos. Lá acharia facilidade no estudo porque podia freqüentar ás aulas da Universidade. Alcançou o que pedira. Teve, no entanto, desiludidas suas esperanças. Na Universidade não se ensinava o inglês. Neumann teve que aprendê-lo sozinho. Sobre a pronuncia consultava alguns trabalhadores ingleses de certa fabrica. Alem disso proibira o exmo. sr. Arcebispo que os alunos assistissem ás aulas de francês. O único remédio era estudá-lo sem mestre. Foi o que fez. Continuava ao mesmo tempo o estudo do italia-no, traduzindo para o alemão o belo livro de S. Afon-10</span></span></div>
<p></span></span><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">so &#8220;Caminho da salvação&#8221;. Diz o padre Berger ter Neumann estudado também o espanhol, chegando a ler os escritos de Santa Teresa e as cartas de S Francisco Xavier; no original espanhol. Uma antolo-gia composta por ele naquele tempo enche 38 ca-dernos. Veja-se pois qual não devia ter sido a cultura de seu espírito e a grandeza de seus conhecimen-tos. Antes de embarcar para América Neumann en-tendia nada menos que oito línguas.</p>
<p>Mais uma dificuldade veio ajuntar-se ás que já existiam. Campeava na Universidade de Praga — como aliás nas outras também — o josefismo, irmão mais velho do galicanismo. Era justamente o mal reinante na infeliz Áustria. Já S Clemente Maria tive-ra seus atritos com a tal fiscalização do imperador sacristão.</p>
<p>— Eu não podia aceitar doutrinas que ao meu ver eram opostas aos ensinamentos da Santa Madre Igreja, escreve-nos Neumann. A maioria dos alunos seguia as opiniões dos professores daí resultando para nosso seminarista maus quartos de horas, fre-qüentes dissabores e contrariedades. Até desprezos e humilhações não lhe foram poupados. Nas suas &#8220;Memórias&#8221; lamenta-se ele do grande &#8220;isolamento em que vivia&#8221;.</p>
<div><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">— Todos me desprezam — são suas palavras — como realmente mereço; todos fogem de mim. Os maus, porque não posso concordar com seus pla-nos; os bons porque procuram os perfeitos. Estou só, desprezado pelos homens, cheio de pecados, em tua casa ó Senhor, Bem Supremo. Quisera abo-minar os prazeres do mundo e os celestes os não mereço. Minha vida é sem alegrias.&#8221; Mostram-nos estas palavras, e outras mais de seu diário, que</span></span></div>
<p><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"></p>
<div><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"> </span></div>
<p></span></span></span><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">Deus o experimentava com provas interiores, duvi-das, perplexidades. Para cúmulo dos males não ti-nha com quem se abrir. &#8220;Porque não me ouves quando te invoco? — escreve triste. Que farei, meu Deus, sem fé, sem caridade, sem esperança? A quem me dirigir, si Deus está irritado contra mim?&#8221; Eram terríveis os assaltos das tentações: &#8220;Meu Je-sus — exclama — si queres que me assaltem as horríveis tentações contra fé, derrama sobre mim toda sua amargura mas não permitas que eu caia.&#8221; Tais palavras lembram idênticos sofrimentos de S Francisco de Sales quando estudava em Paris.</span></span></p>
<p></span></span></p>
<p style="text-align:justify;">
<div><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">Suas &#8220;Memórias&#8221; revelam-nos a seriedade com que procurava chegar á perfeição cristã. É co-movedor o tom de humildade na acusação de suas mais insignificantes faltas. Predomina, como senti-mento, a dor dos pecados. Por causa deles derra-mava muitas lagrimas, impunha-se severas peniten-cias, buscava meios de oferecer satisfação a Deus pelas menores transgressões de sua santa lei.</span></span></div>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">Concordam com o referido os testemunhos de seus condiscípulos. &#8220;Era muito viva a sua fé — diz um — e como conseqüência disso admirávamos sua sincera piedade. Em segredo praticava muitas morti-ficações, principalmente nos últimos anos de seus estudos. Passava horas muitas em oração, mesmo nas noites frias de inverno. Sinceramente obedecia aos Superiores, sem contudo adulá-los ou aviltar-se.&#8221; Outro colega conta que Neumann passava noi-tes inteiras rezando, sobretudo nos dias de comu-nhão. Refere também que em 1835 o real e imperial governo perguntou si, entre os seminaristas de Pra-ga, não havia algum bom conhecedor de varias lín-guas que se prestasse a aceitar o posto de secretario numa importante embaixada. As vistas de todos caíram naturalmente sobre Neumann. Mas ele ne-nhum passo deu para alcançar a importante e hono-rifica colocação. O motivo — como o disse mais tar-de — era a firme resolução de ir quanto antes para América do Norte.</p>
<p>Aos 8 de julho de 1835 deixou Neumann o seminário de Praga e voltou para Prachatitz. Voltou desconsoladíssimo. Porque? Porque esperava cele-brar sua Missa Nova antes de embarcar para a Amé-rica e assim dar aos seus pais a benção de primici-ante. O céu havia determinado o contrario. Enquanto eram ordenados seus colegas, a ele adiaram a or-denação. Qual o motivo de tal excepcional medida? Claramente nô-lo não diz Neumann no seu diário. Verdade é que sua diocese de Budweis tinha muito clero naquela época. Parece, no entanto, não ter sido este o único motivo e que a principal razão se deva achar na prevenção do Reitor do seminário e de alguns professores do Seminário contra o semi-narista que não partilhava as idéias errôneas, em voga nas preleções. Também não aprovavam o pla-no de apostolado na América. Neumann resolvido a seguir sua vocação se decide a deixar a pátria mes-mo antes de ter recebido as ordens sacras. Todavia não pôde fazê-lo logo. Durante a semana que pre-cedeu a viagem multiplicou os exercícios de piedade e penitencia, fez devotas peregrinações aos santuá-rios de Nossa Senhora para obter a proteção de Deus e de sua Santíssima Mãe. Seu coração sensí-vel padeceu muito ao declarar o plano aos pais. A generosa mãe concordou logo; o pai, apesar de dar seu consentimento não se mostrou lá muito contente estabelecendo como condição que partisse o filho sem despedidas formais da família.</p>
<div><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">Angariada a soma necessária por uma coleta entre os sacerdotes — pois João não queria ser pe-sado aos seus — deixou Prachatitz a 8 de fevereiro de 1836. Sabe Deus os sentimentos que tumultua-vam no coração delicado de filho tão amoroso para com os seus. De outro lado a fé lhe mostrava as al-mas imortais que estavam á sua espera na América. De Budweis escreveu uma carta saudosa aos seus: &#8220;Minha partida rápida e prematura — escreve — não teve outro fim que o de diminuir a dor da separação. Suportai, queridos pais, com paciência o golpe que Deus desfere contra vós. Quanto maior é aqui neste mundo o sofrimento, tanto maior será também nosso gozo no céu.&#8221; Seu itinerário levou-o por Linz, Muni-que, Strassburg e Paris. Nesta cidade passou a Se-mana Santa, abismando-se nas meditações dos mis-térios da redenção. Desejava Neumann ter em mãos, antes de embarcar, um documento autentico que lhe garantisse a admissão em alguma diocese da América. Seria prolixo referir aqui todos os pas-sos que deu para alcançar tal documento. Suas es-peranças dirigiam-se para a diocese de Filadélfia. Ouviu falar que o Bispo desta diocese estava em viagem pela Europa. Durante a viagem, mais tarde, ficou sabendo que o exmo. sr. Bispo — Francisco Patrício Kenrick — não precisava de padres ale-mães. Estava longe de adivinhar que 15 anos depois seria também não padre, mas Bispo em Filadélfia.</span></span></div>
<p></span></span><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"></p>
<div><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">Suas vistas caíram então sobre a diocese de Vincennes, cujo Bispo viajava pela Europa. Esperou por três semanas em Paris a resposta do prelado. Mas esta nunca chegava. Vendo então que seus recursos financeiros se iam, não teve remédio senão seguir viagem. A 20 de abril, a bordo do veleiro &#8220;Eu-ropa&#8221; deixou o Havre com o coração mais tempestu-oso do que o mar. Duvidas, ânsias, temores, o agita-vam. Estava resolvido a viver na América como um ermitão para fazer penitencia pelos seus pecados e dos outros, caso nenhum Bispo o quisesse receber.</span></span></div>
<p></span></span><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"></p>
<div><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">Na travessia, que durou 40 dias, Neumann teve ocasião de ver como a Providencia zelava por ele. Num dia de tormenta quando todos os passagei-ros se achavam nos seus camarotes, ficou sozinho no convés do navio, recostado no parapeito, todo perdido nas suas meditações. De repente volta a si, como que impelido por força irresistível, deixa o lu-gar e eis que imediatamente cai com enorme estron-do uma trave sobre o sitio que havia deixado. Disso se aproveitou para renovar sua confiança e ganhar nova coragem para as dificuldades que o esperas-sem.</span></span></div>
<p></span></span><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"></p>
<div><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">O velho Horácio falava da &#8220;dura navis&#8221;, navio inco-modo, por causa das muitas privações a que estão sujeitos os passageiros. Neumann teve ensejo de isso constatar e sentir. O capitão nos seus modos era tudo, menos cortês e polido; os 200 passageiros na maioria protestantes divertiam-se á custa do po-bre padre. Nosso seminarista tinha de viajar de ter-ceira classe por serem poucos os recursos de que dispunha.</span></span></div>
<p></span></span><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"></p>
<div><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:medium;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:medium;">2. O missionário na América</span></span></div>
<p></span></span><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:medium;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:medium;"></p>
<div><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">No dia da Santíssima Trindade encostava o veleiro &#8220;Europa&#8221; no porto de Nova Iorque. Nosso passageiro só conseguiu desembarcar quatro dias depois. De-sejoso de saudar a Jesus Sacramentado pôs-se a percorrer as intermináveis ruas de Nova Iorque em busca de uma igreja católica, não ligando importân-cia ao aguaceiro que caía. Foram inúteis seus esfor-ços; só no dia seguinte pôde encontrar a catedral católica.</span></span></div>
<p></span></span><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">O sacerdote alemão Raffeiner apresentou-o ao Bispo Dubois, que fora de si de contente — pois precisava com urgência de um padre alemão — o recebeu de braços abertos, garantindo a Neumann ordena-lo brevemente, depois que vira os seus do-cumentos.</p>
<div><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">Realmente aos 19 de junho de 1836 foi orde-nado subdiácono, a 24 diácono e a 25 presbítero. Sua Missa Nova celebrou-a a 26 de junho na igreja dos alemães de S. Nicolau. Nela deu a primeira co-munhão a 30 meninos por ele mesmo preparados para esta solenidade. Dois dias depois partia o neo-sacerdote para seu posto na região do rio Niágara, não longe da celebre cachoeira do mesmo nome. Numa carta dirigida á sua família escrevia: &#8220;Ao ver antigamente o quadro representando a afamada ca-choeira de Niágara, nunca aí alguém se imaginou que eu havia de ser vigário nas suas vizinhanças. Estando bom o tempo chego a ouvir o seu soturno ruído com o fragor de uma saraivada distante.&#8221; Afir-ma-se que Neumann jamais foi ver o grandioso fe-nômeno da natureza, sacrifício voluntário tanto mai-or, quanto mais pronunciado era seu amor por seme</span></span></div>
<p></span><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">lhantes maravilhas. De viagem para sua paróquia parou nosso vigário alguns dias em Rochester para anunciar a palavra de Deus e administrar os sacra-mentos a alguns católicos alemães, havia tempo pri-vados de todo auxilio sacerdotal. Aí batizou a primei-ra criança em sua vida e logo escreveu no diário: &#8220;Si a criança que hoje batizei morrer na graça de Deus, oh, então minha viagem para a América tem sido abundantemente recompensada, ainda que não consiga eu realizar mais nada no futuro.&#8221;</span></span></span></span></p>
<p style="text-align:justify;">
<div><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">Dispôs a Providencia que em Rochester se encon-trasse pela vez primeira, com um redentorista, o pa-dre Prost, cuja amabilidade o deixou encantado. Em Búfalo encontrou-se com o virtuoso padre Alexandre Pax, que daí em diante foi sempre seu paternal ami-go. Somente a morte devia desatar os laços desta santa amizade entre tão zelosos sacerdotes.</span></span></div>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">Padre Pax acompanhou o novel vigário até Williamsville, sua nova residência, sita a umas qua-tro léguas ao norte de Búfalo. Largo, extenso campo se abria aos olhos do jovem vigário. Além de Willi-amsville, precisava atender a varias outras estações bem distantes uma da outra. A mais remota era Niágara a 17 léguas de sua residência.</p>
<p>Em todas essas estações não havia igreja. Um miserável galpão fazia suas vezes. A igreja de Williamsville estava em construção, não tinha ainda nem piso nem teto quando lá chegou Neumann. &#8220;A igreja de Lancaster é mais um galpão que um templo — escreve ele. Pregando depois da Missa ao con-templar a humildade de Jesus que se digna habitar numa choça mais que miserável, não pude conter as lagrimas e os soluços obrigaram-me a interromper o sermão.&#8221; 17</p>
<div><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">No começo de 1837 mudou-se Neumann para Nordbusch, onde havia uma capela de madeira e ao lado um pobre casebre do mesmo material. Era a residência do vigário, &#8220;o paço paroquial&#8221;. Aí recebeu a visita do seu Bispo no verão do mesmo ano. Vinha o Bispo acompanhado do padre Prost nosso conhe-cido. O prelado alegrou-se muito com o bem feito pelo zeloso vigário. Em verdade era bem difícil a a-ção pastoral naquelas paragens incultas. Aos do-mingos e dias de festa nosso vigário celebrava o santo sacrifício em duas estações.</span></span></div>
<p></span></span><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">O trajeto de uma a outra fazia-o a pé, levando nas costas os pertences necessários ao culto. Suce-dia freqüentes vezes ser chamado para doentes mal terminava as sagradas funções. Ao anoitecer voltava á casa, alquebrado de cansaço, em jejum não raras vezes. Hoje era o suor que o banhava como recom-pensa de uma caminhada no sol a pino, amanhã a chuva se encarregava de enlameá-lo e lavá-lo no seu aguaceiro. Numa dessas jornadas através de florestas e pântanos, teve os pés tão feridos que im-possível lhe foi continuar a viagem. Deitou-se triste e desanimado, rezando para que Deus mandasse seus anjos em seu auxilio. E Deus os mandou na forma de índios. Chegam-se a ele, inesperadamente, alguns índios. Padre Neumann começa a recear por sua vida. Mas os pobres índios vendo que se tratava do &#8220;roupeta negra&#8221;, aproximam-se com respeito, es-tendem diante dele a pele de búfalo, colocam-no em cima e levam-no assim até a casa paroquial.</p>
<div><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">Outra ocasião o surpreendeu nos pântanos uma horrível tempestade; noite escura cercava-o, perdido no lodaçal. Neumann não sabia para onde dirigir seus passos. Em transe tão doloroso encomenda-se a Deus e eis que divisa, ao longe, o bru-xulear de fraca luz. Para lá se dirige, chegando a uma pobre choça em que, estendido no chão, jazia agonizante um velhinho, sem outra companhia que a da pequena filha, a única que lhe restava no mundo. Foi grande o consolo do velho irlandês ao ver o pa-dre. Neumann deu-lhe os últimos sacramentos e confortou-o corporalmente com um trago de vinho de missa. Na manhã seguinte o enfermo estava fora de perigo. Deus havia ouvido as preces do seu servo a lhe pedir a saúde para o pobre pai, único arrimo para a inocência da filhinha que ficaria só no mundo, caso viesse ele a falecer.</span></span></div>
<p></span></span><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"></p>
<div><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">Diga-se de passagem que o zeloso vigário se condoia das privações a que estavam sujeitos os emigrantes europeus na América. Essa pobre gente ia fazer a vida e muitas vezes a perdia, sem falar do grande abandono religioso numa região tão grande e tão desprovida de sacerdotes. Por isso Neumann procurava ajuntar ervas, que conhecia medicinais, para curar os seus paroquianos. Chegou mesmo a manusear compendio de medicina para os casos mais urgentes. Queria valer ao próximo, aos colonos da América. Botânico como era, arrumou uma bela coleção de plantas medicinais, mandando outra para Munique.</span></span></div>
<p></span></span><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"></p>
<div><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">O sr. Schimidt, que hospedava o vigário con-seguiu, que aceitasse um cavalo para as suas lon-gas viagens. Foi isso o começo de uma serie de a-venturas para nosso vigário, novato na arte de mon-tar. O cavalo era novo, manhoso, mal amansado. Um dia o vigário vai montar. Por infelicidade põe o pé direito no estribo esquerdo, o cavalo parte logo, só restando ao cavaleiro o remédio de terminar a</span></span></span></span></div>
<p></span></span><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"></p>
<div><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"> </span></div>
<p></span></span></span><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">ginástica e assentar-se na sela de costas para a ca-beça do animal. Estranhando o cavaleiro, o cavalo dispara e tê-lo-ia atirado ao chão si não fosse a in-tervenção de uns viajantes que o cercaram. Falava-se da inteligência do animal que parecia estudar as ocasiões de envergonhar o vigário, expondo-o á ri-sada dos transeuntes. Muitas vezes empacava no meio da estrada sem que Neumann o pudesse tocar adiante. Apeava-se então no meio da lama e puxava o manhoso animal pela rédea. Encontrando um tron-co de arvore montava novamente e de novo o cavalo fazia suas artes. Por fim o vigário tomava o saco nas costas e caminhava na frente do animal indócil. As-sim mesmo louvava sempre o seu &#8220;companheiro de viagem&#8221;. Quando parava para tomar uma merenda qualquer, repartia-a com ele. Certa vez um ferreiro vendo as manhas do cavalo se ofereceu a curá-lo disso. &#8220;Não quero que judies do meu bom compa-nheiro, disse-lhe Neumann. Nós dois nos entende-mos muito bem.&#8221; Qual nada. O ferreiro pulou em ci-ma e mal dera uma voltas quando o cavalo o atira ao chão, quebrando-lhe um braço.</span></span></p>
<p></span></span></p>
<p style="text-align:justify;">
<div><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">Outra vez o atento botânico caminhava a ca-pricho do cavalo, olhando muito para as plantas á beira do caminho. De repente avista uma flor bem rara. Apeia-se e sem fazer caso do pântano, vai cui-dadosamente por cima de uns troncos e consegue apanhá-la. Volta radiante de contentamento, fazendo planos sobre o achado quando o cavalo, esticando o pescoço por sobre o ombro do vigário, lhe abocanha a flor. Muito mortificado com a gulodice do animal, nisso viu no entanto Neumann uma permissão da Providencia para exercê-lo na paciência.</span></span></div>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"></p>
<div><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">Prodigalizava especiais cuidados aos meni-nos. Nas estações levantava escolas para eles não contente com as igrejas que tinha de construir. Onde faltava professor ele mesmo se encarregava de en-siná-los, durante semanas ou meses inteiros. Apren-diam a ler, escrever e decoravam o Catecismo. Á semelhança do Divino Mestre atraía as crianças; quando o viam chegar corriam pressurosas a seu encontro com toda algazarra própria da idade. Os aplicados recebiam medalhas e terços.</span></span></div>
<p></span></span><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"></p>
<div><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">De quem menos cuidava o vigário era de sua própria pessoa. Particularmente sua cozinha sofria com este descuido. Não tendo criado, por ser pobre, atendia em pessoa ao serviço da casa. Em Nord-busch tomou um menino de dez anos para lhe vigiar a casa durante as ausências longas e freqüentes. É pois fácil de imaginar qual teria sido a cozinha do vigário em tais circunstancias. Apenas uma vez por semana se via sair a fumaça pela chaminé. Si algu-ma alma compassiva perguntava de que vivia, retru-cava Neumann: &#8220;Pão com queijo é alimento são e nutritivo&#8221;. O pequeno guarda era bem arguto para pregar peças ao vigário. Certa vez mandaram-lhe uma suculenta sopa. Enquanto comiam diz o peque-no: &#8220;Sr. vigário, si agora parar de comer, dormirá muito bem nesta noite.&#8221; Era isso alusão a uma frase que Neumann costumava repetir quando a fome o apertava. A saúde ressentiu-se das privações, cain-do bem doente o desamparado vigário. A caridade de uma boa alma valeu-lhe em tal transe.</span></span></div>
<p></span></span><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"></p>
<div><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">Muito melhorou a situação quando em 1839 veio seu irmão Wenceslau fazer-lhe companhia. Su-as voltas á casa eram então mais confortadas por-que encontrava o que comer e roupa fresca para mudar. Além disso seu irmão auxiliava-o no ensino dos meninos em três a quatro lugares.</span></span></div>
<p></span></span><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">Não pequenos dissabores causavam ao vigá-rio uns taverneiros que procurando só o dinheiro a-briam suas vendas para toda sorte de diversões. Teve que aturar insultos, maus tratos e mesmo a-meaças de morte por indivíduos dados aos vícios. Numa das localidades havia uma bodega perto da igreja. Musica e canto, danças e jogo formavam o acompanhamento ás palavras do vigário na igreja, distraindo e escandalizando os fieis. As freqüentes exortações, feitas com todo amor, de nada valeram. Porque anunciassem outra vez um grande baile para certa festa na referida casa, ameaçou Neumann de abandonar a localidade caso se realizasse o projeta-do baile. Realmente no dia aprazado, em frente á casa do vigário viram um carro para carregar seus livros e trastes. Não foi pequeno o susto do povo até então descrente que executasse sua ameaça. Pedi-ram-lhe para ficar, visto que se desistiria do baile escandaloso. O &#8220;digam ao povo que fico&#8221; prendeu-se desta vez á renuncia completa do divertimento. O taverneiro teve de retirar-se do lugar.</p>
<p>Da mesma forma as seitas tão numerosas na América exerceram a paciência do vigário. Por des-prezo e aludindo á sua pequena estatura chama-vam-no de &#8220;vigarinho&#8221;. Certo dia, em pleno vigor de inverno, precisava nosso homem ir a um lugar dis-tante para celebrar a Santa Missa. No caminho en-contra-se com um carro onde ia uma família menoni-ta. Os hereges convidaram-no a subir. Apenas o ti-nham lá dentro, começaram as tentativas de conver-tê-lo. Na despedida combinaram a realização de uma conferencia em casa do pregador da seita.</p>
<div><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">Chegado o dia e aberta a conferencia, perguntou Neumann si o Espírito Santo podia contradizer-se. Negaram-lhe tal possibilidade. Feito o que provou-lhes o vigário que as Bíblias se contradiziam. No de-curso da controvérsia os hereges afirmaram ter a iluminação do Espírito Santo. No auge da discussão levanta-se um deles e diz ser sua vida prova da ver-dade da afirmação feita. Pois antes de receber o Es-pírito Santo era um ladrão de cavalos e vacas, calo-teiro nos negócios, etc. Depois da conversão largara tudo isso.</span></span></div>
<p></span></span><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"></p>
<div><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">— Ouvistes, senhores — replica Neumann — o pregador confessa ter sido ladrão de cavalos. Per-gunto-vos agora: &#8220;Já restituiu ele os cavalos rouba-dos?&#8221;</span></span></div>
<p></span></span><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">— Não, não; nada restituiu até hoje — foi a resposta geral. Continua roubando como dantes.</p>
<p>Chegada a tal ponto a conferencia, optaram os protestantes pela retirada e abandonaram a sala, um após outro. Daí em diante o &#8220;vigarinho&#8221; teve sos-sego. A muitos dos hereges teve o consolo de con-verter para a religião católica, êxito que mais se deve atribuir ás suas penitencias e orações que a outras diligencias.</p>
<p>No meio de seus contínuos trabalhos pela salvação do rebanho do Senhor em nada se descu-rava-se de sua própria santificação. Demonstram-no os propósitos que então tomou.</p>
<p>1. Quero antes de tudo rezar o Breviário todos os dias &#8220;de joelho e com devoção&#8221;, o mais possível na hora marcada;</p>
<p>2. Quero fazer pontualmente a preparação para a Santa Missa, assim como a ação de graças;</p>
<p>3. Quero comer só uma vez por dia, ao meio dia ou á noite;</p>
<p>4. Farei a visita ao Santíssimo todas as tar-des;</p>
<p>5. Hei de preparar-me melhor para os ser-mões;</p>
<p>6. Não falarei nunca sem necessidade e pie-dosa intenção; o mais possível nunca perderei a pa-ciência;</p>
<p>7. Vigiarei bem sobre os meus sentidos e pensamentos.</p>
<p>Julgando descobrir em si alguma vestígio de avareza, fez na véspera da festa de S. Pedro de Al-cântara o voto de pobreza e mais adiante lemos nos seus apontamentos; &#8220;A construção da escola (em Williamsville) correrá por minha conta. Por teu amor, ó Jesus, não quero reservar-me nada. O voto de po-breza que fiz secundará meus intentos e verei si foi sincero o meu propósito&#8221;. Comprou também com seu dinheiro os moveis para a escola</p>
<p>Chorava sempre seus pecados. Só Deus sa-be quantas lagrimas derramou e quantas austerida-des praticou por penitencia. &#8220;Sem cessar quero cho-rar meus pecados, mesmo que perca a luz dos o-lhos&#8221; — são palavras suas.</p>
<p>Não o havia abandonado o pensamento de internar-se num longínquo deserto. &#8220;Para fugir a ter-rível responsabilidade a respeito do meu rebanho — diz ele — julgava meu dever retirar-me a alguma remota soledade, onde pudesse levar uma vida ocul-ta e penitente, ou trabalhar como desconhecido jor-naleiro.&#8221;</p>
<p>Ao lado deste zelo e fervor, andava sua alma em trevas de desolação e muito sentia o santo vigário tal abandono. Como sacerdote não podia tolerar esta falta de luz, fazendo-se a si mesmo as mais amargas acusações de ter deixado ao Senhor, cor-rendo atrás de Baal.</p>
<p>Julgava-se a causa de todos os males que se faziam na paróquia. Daí a força dos pensamentos sobre a retirada para um deserto.</p>
<p>No entanto Deus estava preparando aquela alma para altos planos de sua Providencia. Queria tirá-lo do mundo e depois elevá-lo ao trono de bispo.</p>
<div><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:medium;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:medium;">3. Missionário redentorista</span></span></div>
<p></span></span><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:medium;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:medium;"></p>
<div><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">As incessantes fadigas do apostolado haviam abalado a saúde de ferro do vigário. Pela Páscoa do ano de 1840 esteve durante três meses atacado por uma pertinaz febre intermitente. Logo que se resta-beleceu dirigiu-se a Rochester para passar alguns dias em companhia do Redentorista padre Senderl. Cada vez mais intimas iam se tornando essas rela-ções com os bons amigos Redentoristas. No outono do mesmo ano resolveu-se Neumann a entrar na Congregação.</span></span></div>
<p></span></span><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">Sobre a origem de sua vocação escreve ele o seguinte: &#8220;Durante quatro anos havia trabalhado pa-ra infundir nos meus paroquianos o mesmo fervor que havia notado nas paróquias de Rochester. De-balde. De um lado isso e de outro o natural desejo — ou melhor sobrenatural — de viver numa sociedade de sacerdotes, para não me achar tão sozinho entre os mil perigos do mundo, fizeram nascer em mim o desígnio de entrar na Congregação do Ss. Redentor. No mesmo dia 4 de setembro escrevi ao Superior padre Prost, pedindo a admissão. Recebi esta graça por carta do dia 16, na qual me vinha a ordem de partir para Pittsburg. Com a carta na mão participei ao exmo. sr. Bispo a resolução que tomara e pedi-lhe ao mesmo tempo a santa bênção. Com muito pesar e somente após demorados processos conce-deu-me finalmente as dimissórias.&#8221;</p>
<div><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">A 18 de outubro chegava padre Neumann a Pittsburg, recebendo a 29 de novembro o santo habi-to das mãos do padre Prost. Foi o primeiro noviço aceito na América do Norte. Feliz presságio! Um mês mais tarde batia á porta do convento um outro</span></span></span></span></div>
<p></span></span><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"></p>
<div><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"> </span></div>
<p></span></span></span><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">moço: queria ser irmão leigo. Era Wenceslau o já conhecido cozinheiro, mestre-escola e sacristão do nosso padre. Esse irmão faleceu em 1896 depois de uma vida bem edificante. Os redentoristas, enviados pelo padre Passerat, exerciam seu ministério no No-vo Mundo desde o ano de 1832. Longe levaria referir as peripécias do começo. Não conseguiram fundar uma casa canônica e já pensavam em regressar pa-ra a Europa. Animou-os todavia o venerável velhinho e homem de Deus, padre Passerat, garantindo-lhe para o ano da canonização de Santo Afonso a fun-dação da primeira casa americana. E foi profeta. De fato em 1839 era canonizado Afonso de Liguori em Roma, e na América estabelecia-se a primeira co-munidade redentorista em Pittsburg.</span></span></p>
<p></span></span></p>
<p style="text-align:justify;">
<div><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">Padre Neumann começou seu noviciado em Pittsburg e terminou em Baltimore. Não era possível a existência de um noviciado regular perante as ex-cepcionais condições, em que então se achava a Congregação na América. Seguidamente viam-se os Superiores obrigados a empregá-lo nos ministérios apostólicos. Seu Mestre tinha de se ausentar fre-qüente e demoradamente. Nos seus apontamentos diz-nos padre Neumann: &#8220;Naquele tempo não havia noviciado nem Mestre de noviços na América. Em troca havia muito trabalho. Eu fazia com os outros irmãos leigos as duas meditações de cada dia, os exames de consciência, a leitura espiritual, a visita ao Santíssimo e rezava o rosário: era tudo.&#8221; Mais tarde, como Bispo, escreveu a seu sobrinho recem-entrado para a Congregação: &#8220;Eu nunca fui um ver-dadeiro noviço. Pois quando entrei em nossa Con-gregação não havia nem noviciado nem Mestre de noviços na América do Norte. No entanto fiz as minhas experiências e fiquei conhecendo muitas tenta-ções com que o velho inimigo assalta os recrutas de Santo Afonso. As enfermidades da alma são tão numerosas como as do corpo e para perseverar não há meio melhor do que pedir á Senhora a santa per-severança, manifestando sempre, sem demora ao diretor espiritual as diversas tentações.&#8221;</span></span></div>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"></p>
<div><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">O fervor do noviço supria á falta de um bom noviciado. Chegava ao heroísmo seu amor á pobre-za. Em Rochester alojava-se debaixo da escada com uma mezinha e fragílima cama. Tratava-o com dure-za o padre Mestre e repetidas vezes lhe dizia: &#8220;Volte para as suas estações; o sr.. não agüenta os incô-modos conosco.&#8221; O fervoroso noviço padecia muito com tal linguagem, mas calava suportando com pa-ciência todos esses tratos. Aos 16 de janeiro de 1842 foi Neumann admitido aos votos. Em verdade um homem novo — observa o cronista da casa, fa-zendo alusão ao nome do neo-professo.</span></span></div>
<p></span></span><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">Feita a profissão permaneceu Neumann em Baltimore para atender juntamente com o jovem pa-dre Frey aos quatro mil católicos alemães espalha-dos pela populosa cidade. Pastoreavam ao mesmo tempo umas dez estações situadas nos Estados de Maryland, Virginia e Pensylvania. A distancia de Bal-timore regulava 20, 10 até 40 léguas. Acostumado a esse gênero de apostolado visitava padre Neumann com freqüência os pobres e bons católicos, despre-zando os mil incômodos e privações inerentes na-quela época ás viagens longas.</p>
<div><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">Em março de 1844 foi nosso padre nomeado Superior da comunidade de Pittsburg. Como tal diri-giu a construção da formosa igreja gótica dedicada á Santa Filomena. Arcou sozinho com as despesas. &#8220;O</span></span></span></span></div>
<p></span></span><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"></p>
<div><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"> </span></div>
<p></span></span></span><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">que então sofreu este santo homem — escreve pa-dre Seelos — só Deus sabe e no dia do juízo mani-festa-lo-á para gloria de seu servo. Aos sabidos era preciso fazer o pagamento dos operários, mas já nas sextas feiras não havia dinheiro algum, nem espe-rança de consegui-lo. E no entanto — cousa admirá-vel — sábado á noite estavam todos pagos.&#8221; No pri-meiro domingo de outubro de 1846, na festa do Ro-sário, foi solenemente inaugurada a magnífica igreja. Em seguida começou padre Neumann a construção de uma casa ampla para a comunidade.</span></span></p>
<p></span></span></p>
<p style="text-align:justify;">
<div><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">O fervoroso Superior era incansável no con-fessionário, no púlpito, nas escolas. Para poupar a seus confrades tomava sobre si as molestas visitas aos enfermos, sobre tudo á noite. De manhã apare-cia sem falta para a meditação, mesmo quando ha-via saído de noite para distantes confissões.</span></span></div>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">&#8220;Morávamos, padre Neumann e eu — escreve o citado padre Seelos — no mesmo quarto, separa-dos apenas por uma cortina. Assim podia ouvi-lo rezar em voz baixa até tarde da noite. Dormia tão pouco que não compreendo como pudesse viver. Consagrava especiais cuidados ás escolas sabendo que delas dependia o futuro da religião católica nos Estados Unidos. Gostava de assistir ás aulas. Por-que faltasse apropriado livro para o ensino da religi-ão, compôs ele mesmo dois catecismos, um elemen-tar para os principiantes e outro maior para as clas-ses superiores. Sacrificou á sua composição as ho-ras destinadas ao sossego e repouso noturno. De ambos os livros foram feitas varias edições. Escre-veu também uma História Bíblica para o uso das escolas.</p>
<p>Como Superior não perdia padre Neumann de vista o principal fim do Instituto: as santas missões. Tomava parte nelas com muita freqüência. Nessas missões eram abundantes os trabalhos e mortifica-ções de toda espécie. Refere padre Seelos que em viagem a S. Vicente, aonde iam pregar uma missão, entraram numa hospedaria para passar a noite. Fo-ram mal recebidos e caro lhes custou obter uma ceia muito ordinária. Depois do que nem cama lhes de-ram; os pobres missionários tiveram que passar a noite sobre um banco. Padre Neumann passou a noite em oração e os copiosos frutos alcançados na missão foram o fruto desta prece.</p>
<p>Não poucas vezes serviu-se a Providencia do nosso padre para realizar admiráveis conversões. Sirva de prova o seguinte caso. Um pobre homem reduzido a maior miséria resolveu-se a passar com sua família para a seita protestante. Queria fazê-lo só por fora, para receber auxilio da seita. E assim fez. Os remorsos, porém, foram tamanhos que lhe tiraram por completo o sossego. Passa um dia diante da igreja dos redentoristas quando justamente padre Neumann celebrava a santa Missa. O canto solene do Kyrie chega ao ouvido do infeliz e comove-o pro-fundamente. Entra na igreja e quase sem saber co-mo adianta-se até a mesa da comunhão. Aí perma-neceu apoiado sobre sua bengala, observando as cerimônias. No momento em que o sacerdote parte a sagrada hóstia dá um grito e cai de joelhos soluçan-do. Terminada a Missa confessou-se com padre Neumann e disse-lhe que havia visto umas gotas de sangue no momento acima referido e ouvira as pala-vras: &#8220;Tu por tua apostasia me fizeste derramar este sangue.&#8221;</p>
<p>Querendo o Senhor enriquecer seu servo com novos méritos mandou-lhe uma gravíssima enfermi-dade. Atormentava-o uma tosse continua acompa-nhada de vômitos de sangue. O medico constatou pulmão atacado e declarou que o padre devia deixar Pittsburg. Por isso no mês de janeiro de 1847 muda-va-se o doente para Baltimore. Seu descanso não devia durar muito tempo.</p>
<p>Em fevereiro recebe uma carta da Europa pe-la qual ficava nomeado Vice-Provincial das casas da América. Possuía então a Congregação dez casas nos diversos Estados da federação americana. O total dos padres era de trinta. Como Vice-Provincial trabalhou muito para consolidar as fundações exis-tentes e abriu uma casa em Cumberland e outra se-gunda em Nova Iorque. Muito zelou pelas casas de formação&#8221; O noviciado e estudentado são as semen-teiras da Ordem, dá onde devem sair os missioná-rios. Si aí forem os jovens educados no espírito de Santo Afonso poderá a Congregação dar conta do seu fim.&#8221; Nomeou Mestre de noviços ao padre See-los, homem de altos espíritos e sólidas virtudes. So-bre a sua atividade apostólica em Baltimore escreve o seguinte á sua família: &#8220;Atendemos aqui a 3 esco-las e sempre se apresentam protestantes desejosos de instrução religiosa e admissão na Igreja Católica. Muitos mostram depois sua gratidão para com Deus, levando uma vida bem fervorosa e edificante, cousa que dificilmente se encontra na Europa. No ano pas-sado foram recebidos em nossa igreja 85 adultos. Um terço deles eram negros. Em Nova Orleans te-mos agora uma casa e por isso o recomecei a estu-dar o espanhol. Volto a ser aluno com 36 anos. Nun-ca se lembrou de dizer nas cartas que era Superior.</p>
<p>Em 1847 construiu uma nova escola em frente á nossa casa de Santo Afonso. Uma religiosa professora nessa escola escreve: &#8220;Devendo dirigir a escola de meninas no tempo em que o padre Neumann era Superior, tive muita ocasião de apreciar seus dotes e belas virtudes. Era um sólido catequista e grande amigo das crianças. O que mais eu admirava era sua calma e mansidão, ao par da constância em por ao alcance das pequenas cabeças as verdades da religião e lhes incutir princípios religiosos. Pude ob-servar a salutar impressão que causava nos maus alunos. Os pequenos pecadores confessavam es-pontaneamente seus pequenos furtos e mentiras.&#8221;</p>
<div><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">Durante sua estadia em Baltimore chegou a ser um verdadeiro pai para as comunidades religio-sas. As Irmãs Pretas que trabalhavam entre as cri-anças de sua cor, estavam prestes a se dissolverem. Nosso padre tomou a direção do Instituto, trabalhou como capelão, fez-se mestre dos orfãozinhos e pro-porcionou ás religiosas toda espécie de socorros. A associação refloresceu; o número das Irmãs aumen-tou de 3 a 16. Era também confessor extraordinário das Carmelitas e soube entusiasmá-las pela perfei-ção religiosa. Novo campo de atividade abriu-se para nosso Superior com a chegada das Irmãs de Nossa Senhora de Munique em 1847. As primeiras dificul-dades foram vencidas com seu eficaz auxilio; entre-gou a essas Irmãs três escolas e muito as recomen-dou aos senhores Bispos.</span></span></div>
<p></span></span><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"></p>
<div><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">S. Paulo numa de suas cartas escreve que muito teve de sofrer por parte de falsos irmãos. O mesmo aconteceu a Neumann. Incluiu Deus ates sofrimentos em seus planos para mais e mais des-prender o seu servo das cousas deste vale de lagri</span></span></span></span></div>
<p></span></span><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"></p>
<div><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"> </span></div>
<p></span></span></span><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">mas. Padre Neumann foi exonerado de seu cargo de Vice-Provincial como há tempo o havia desejado. Seu sucessor foi o celebre padre Bernardo Hafkens-cheid, missionário de nomeada. O novo Superior chegou a América a nove de janeiro de 49. Padre Neumann ficou em Baltimore como simples religioso contentíssimo por se achar livre de responsabilida-des. Assim mesmo teve de substituir ao padre Ber-nardo no posto de Provincial durante os seis meses que este gastou na viagem a Europa. Em 1851 no-mearam-no Reitor da nossa casa de Santo Afonso em Baltimore e Consultor do Provincial. Em todo es-se tempo deu constantes provas de humildade. Um dia — sendo ainda Vice-Provincial — chegou muito cedo a uma das casas, sem ser esperado. O portei-ro, postulante ainda, desconhecendo-o recebe com maus modos o visitante e o condena a esperar no saguão. Imaginava lidar com qualquer sacristão que vinha pedir emprestados os paramentos da casa. E saiu resmungando alto contra a curiosidade do ho-mem, em querer lhe saber o nome. Ficou muito cor-rido quando viu o padre Reitor ajoelhar-se e beijar a mão ao desconhecido sacristão atrevido. Padre Neumann consolou paternalmente ao aflito porteiro.</span></span></p>
<p></span></span></p>
<p style="text-align:justify;">
<div><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">Sendo Reitor de Baltimore escolheu o quarto mais incomodo da casa, colocado em frente á porta de entrada. Queria estar logo ás ordens quando pre-cisassem de algum padre. Nas conversas nunca fez perceber a superioridade do seu talento ou de seu cargo. Nos assuntos de mais importância pedia sempre o parecer dos outros. Amante da observân-cia regular, traduziu do italiano as Regras do Instituto e as levava sempre consigo.</span></span></div>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"></p>
<div><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:medium;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:medium;">4. O Bispo incansável</span></span></div>
<p></span></span><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:medium;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:medium;"></p>
<div><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">No outono de 1851 assegurou o piedoso irmão Ata-násio que vivia na casa de Pittsburg ter visto a Neu-mann revestido de insígnias episcopais e rodeado de gloria. Padre Seelos então Reitor apressou-se em dar esta noticia ao padre Neumann que lhe respon-deu: &#8220;Diga ao bom irmão que si já não está louco, peça muito a Deus para que não chegue a tal ponto.&#8221;</span></span></div>
<p></span></span><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"></p>
<div><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">Mas o louco tinha razão. Não tardou muito e estava realizada a piedosa visão do humilde leigo.</span></span></div>
<p><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"></p>
<div><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"> </span></div>
<p></span></span></span><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">O exmo. sr. Kenrick, Bispo de Filadélfia, fora promovido para a sede arquiepiscopal de Baltimore e vinha todas as semanas ao convento dos padre redentoristas confessar-se com o Reitor Neumann. Numa dessas ocasiões disse a seu ilustre confessor: &#8220;Sei por informações particulares que o sr.. será no-meado Bispo da Filadélfia. Trate de arranjar uma mitra, meu padre.&#8221; Foi enorme o susto do confessor. Desejava sempre passar a vida num canto desco-nhecido e muito contra seu gosto o haviam feito Rei-tor e Vice-Provincial. Agora ainda mais essa; ser Bispo!</span></span></p>
<p></span></span></p>
<p style="text-align:justify;">
<div><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">Ajoelhou-se diante do Arcebispo e derraman-do lagrimas pediu-lhe que dele se compadecesse impedindo tal nomeação. O prelado ficou comovido e prometeu fazer o possível para livrá-lo da mitra. Pa-dre Neumann escreveu incontinenti ao Procurador Geral em Roma rogando que pusesse em jogo todos os recursos ao seu alcance. Muito rezou e fez rezar. Mandou ás comunidades que pedissem a Deus para afastar de uma diocese americana uma enorme ca-lamidade. Os padres de Santo Afonso rezavam os 34 salmos penitenciais para não perderem o querido Reitor.</span></span></div>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">Tudo inútil. &#8220;Todas as nossas diligencias — escreveu-lhe padre Quéloz — não deram resultado&#8221; O Santo Padre respondeu aos pedidos na seguinte forma: &#8220;Trago em meu coração a todos os padres Redentoristas. Fizeram no caso o que Deus deles exige. Mas tenho confiança em Deus que me não engano para conhecer o que o bem da Igreja recla-ma, e o que pede o bem de Congregação em parti-cular. Aprovo pois os votos dos Cardeais e ordeno ao padre Neumann que aceite o bispado de Filadél-fia sub oboedientia formali, sem mais apelação.&#8221;</p>
<p>Entrando certo dia em sua pobre cela viu pa-dre Neumann reluzir sobre a mesa um anel e uma cruz peitoral. Na sua ausência tinham sido estes ob-jetos colocados no quarto pelo Arcebispo D. Kenrick. Entendeu logo o sentido de tudo. Estava nomeado Bispo. Passou a noite em oração.</p>
<p>No dia seguinte — 20 de março de 1852 — entregou-lhe o prelado a bula pontifícia com a ordem formal do Santo Padre. Logo no dia 28, depois de um retiro de oito dias, foi consagrado Bispo, na igreja de Santo Afonso em Baltimore. A participação do povo católico não podia ser maior. D. Kenrick foi o sagrante. Como lema tomou o novo Bispo as pala-vras: &#8220;Passio Christi conforta me.&#8221; Dois dias após a sagração partiu para Filadélfia.</p>
<p>A recepção do novo Bispo na estação da ci-dade episcopal foi singela e modesta. Não queriam os padres sabedores que eram da humildade do pre-lado, vexá-lo com pompas ruidosas e acertadamente empregaram o dinheiro arrecadado para isso em escolas católicas. Muito agradou ao Bispo tão feliz idéia e logo deu a seus padres os mais calorosos parabéns.</p>
<p>Uma das primeiras cousas do prelado foi ir á cadeia onde se achavam dois condenados á morte por homicídio praticado. Os pobres nada queriam saber de penitencia e reconciliação com Deus. Neumann gastou muito tempo para convencê-los, ora com energia ora com bondade, a que se prepa-rassem para a morte. Conseguiu-o finalmente. Am-bos morreram reconciliados com Deus.</p>
<div><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">Vivia exclusivamente para o rebanho que Deus lhe havia confiado. Fazia tudo para todos afim de ganhá-los para Nosso Senhor. Todos os domin-gos e dias de festa pregava em uma ou mais igrejas. Sem tardar começou a visita de sua enorme diocese. Anualmente visitava os lugares maiores; os menores de dois em dois anos. Convertia essas visitas em verdadeiras missões. Pois pregava, ouvia confis-sões, dava catecismo, e estava á disposição de quantos o procurassem. Era conhecido que o Bispo ouvia confissões em seis a sete línguas. Só para confessar uns velhos irlandeses, diocesanos seus, mas que não falavam o inglês aprendeu também o irlandês. Uma velha irlandesa depois de confessar-se com o Bispo foi toda contente dizer em casa: &#8220;Graças a Deus que temos agora um bispo de nossa terra.&#8221;</span></span></div>
<p></span></span><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"></p>
<div><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">Pela iniciativa ou sob os auspícios do Prelado surgiram como por encanto novas igrejas e escolas em todos os cantos da diocese. Já no primeiro ano de governo pôde Neumann inaugurar e benzer cin-qüenta novas igrejas. Em 1857 podia escrever a seu velho pai: &#8220;Passei quase todo o verão em visitas pastorais que, apesar de todos os incômodos que</span></span></span></span></div>
<p></span></span><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"></p>
<div><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"> </span></div>
<p></span></span></span><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"></p>
<div><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">trazem, me deram muito consolo. Os católicos ga-nham cada vez mais coragem e mostram maior zelo pela nossa religião. Neste verão foram construídas 20 novas igrejas, custeadas todas pelas coletas nas respectivas freguesias. Há entre elas seis igrejas dos alemães. Aqui em Filadélfia estão construindo atu-almente quatro igrejas; a catedral é toda de pedra as outras são de tijolos. Em 1859 era inaugurada a be-líssima catedral. É uma das maiores dos Estados Unidos.Quanto ás escolas católicas declarou logo na sua primeira pastoral que formariam o objeto de sua solicitude principal. Somente duas escolas existiam quando chegou Filadélfia. Oito anos depois — ao fechar os olhos na morte — havia perto de cem es-colas. No ultimo ano de sua vida pôde dizer: &#8220;O céu tem abençoado visivelmente a obra das escolas pa-roquiais. Quase não há paróquia sem a sua. Para dirigi-las solicitou o concurso de varias Congrega-ções religiosas. Como não bastassem as então exis-tentes, fundou a conselho do Santo Padre, uma Congregação de Irmãs Terceiras de S. Francisco, dando-lhes para esse fim mui sabias constituições. Atualmente o Instituto conta com mais de quatro mil religiosas.</span></span></div>
<p></span></span><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"> </p>
<p></span></span></p>
<p style="text-align:justify;">
<div><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">Algumas vezes necessitava vencer resistências e desunimos por parte dos vigários. Assim um dos vi-gários da sede episcopal não podia resolver-se a abrir a desejada escola, apesar das reiteradas or-dens do seu Bispo. Julgava que não era oportuno o momento e impossível a ereção da escola.</span></span></div>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"></p>
<div><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">— Si tal vos parece, disse por fim o Bispo, saberei arranjar para a paróquia outro padre que julgue possível a realização do meu desejo.</span></span></div>
<p><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"></p>
<div><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"> </span></div>
<p></span></span></span><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">Foi quanto bastou. A escola foi aberta e em pouco tempo contava com milhares de alunos. As famílias católicas secundaram as intenções do Pre-lado e em breve tempo viram-se despovoadas as escolas oficiais. A debandada chamou a atenção da opinião publica. Um dos jornais escreveu: &#8220;Lastima-mos que uma das confissões mais estimadas da nossa cidade (a população católica) tenha retirado sua confiança em nossas escolas. Devem existir muitos erros no nosso sistema; o governo terá que abrir um inquérito sobre o caso e remediar as faltas.&#8221;</span></span></p>
<p></span></span></p>
<p style="text-align:justify;">
<div><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">Para meninas havia três colégios dirigidos pelas Irmãs da Visitação e pelas Damas do Sagrado Coração. Neumann conseguiu que fossem abertos mais outros três. Para meninos possuía a diocese três internatos. Fez abrir mais um. Gostava de visitar os alunos desses colégios e lhes falava do amor de Deus, da dedicação aos estudos. Tinha especial prezar em estimulá-los no estudo. Assim acontecia que cativos de sua afabilidade e sabedores dos seus profundos conhecimentos vinham os alunos expor ao &#8220;Bispo&#8221; problemas difíceis na solução. Um dia, ao entrar numa aula, deu com o professor e os alunos embaraçados por causa de uma afirmação feita pelo autor do compendio e o resultado obtido pela obser-vação no telescópio. Expuseram logo o caso ao Bis-po. Em poucas palavras e sorrindo lhes cortou o Bispo o nó da questão, dando-lhes o rumo a seguir. Outra vez era uma planta, da qual não se sabia des-cobrir o nome e a classificação. Monsenhor esclare-ceu a dificuldade e indicou o livro onde estava a indi-cação desejada.</span></span></div>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"></p>
<div><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">Ao lado da catedral edificou um asilo para as crianças pobres. Seguidamente ia ver suas orfãzinh</span></span></span></span></div>
<p></span></span><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"></p>
<div><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"> </span></div>
<p></span></span></span><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">as. Era isso um dia de festa, pois nunca vinha com as algibeiras vazias. Sua entrada punha aquela colméia de crianças em polvorosa. Cercado por elas falava-lhes do Pai que está nos céus, da sua bonda-de, das flores que criou para nossa alegria. E por aí começava. As crianças faziam-lhe uma infinidade de perguntas curiosas sobre o sol, a lua, as estrelas, as flores e os anjinhos. Neumann esquecia-se do mun-do e tornava a ser criança com aquele mundo infan-til.</span></span></p>
<p></span></span></p>
<p style="text-align:justify;">
<div><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">O Bispo saía para confessar os pobres doen-tes. Mesmo á noite o viam dirigir-se á casa de um pobre moribundo, levando auxilio para o corpo e pa-ra a alma. No hospital, onde era visitante assíduo, parava á cabeceira de cada cama consolando os enfermos e animando-os á paciência. Não se esque-cia de recomendar ás Irmãs que vissem nos doentes a Jesus padecendo.</span></span></div>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">Cônscio da utilidade das Missões, tratou de mandar pregá-las desde o primeiro ano de seu governo. As-sistia devotamente ás pregações e exercícios da Missão para assim atrair as bênçãos de Deus sobre o povo por seu exemplo e oração.</p>
<p>Especial cuidado votava á formação dos futu-ros sacerdotes. Por isso fazia freqüentes instruções aos seminaristas sobre a teologia pastoral. Guarda-se ainda no seminário de Filadélfia um manuscrito que contem a explicação do Novo Testamento, escri-ta pelo Bispo. Ao chegar á sede encontrou apenas 40 seminaristas e cem padres, número certamente insuficiente para a vasta extensão da diocese. Neu-mann dirigiu-se a seus amigos na Europa para, por intermédio deles, conseguir bons sacerdotes ou teó-logos. Só em 1859 viu a realização de um sonho de 39</p>
<p>muitos anos: pôde inaugurar o seminário menor, destinado a meninos que se julgassem chamados para o sacerdócio. Daí tirou um bom e numeroso clero. O históriador Clarke afirma: &#8220;O seminário al-cançou sob o governo de Neumann tão grande pres-tigio como nunca dantes tivera.&#8221; O Santo Padre con-cedeu-lhe o privilegio de conferir o grau de doutor.</p>
<div><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">Seguindo o exemplo de Santo Afonso consa-grava Neumann a mais profunda veneração aos sa-cerdotes e trazia-os todos bem dentro do coração. Era em verdade o amigo mais dedicado deles todos. Obrigava-os a se cuidarem quando doentes, respon-dia imediatamente ás suas cartas e não recuava di-ante qualquer sacrifício para tirá-los de algum emba-raço ou torná-los contentes. Sua casa era o hotel dos padres que passavam pela cidade. Mas a isso unia também zelo pela disciplina e pelo fiel desem-penho dos deveres. Principalmente exigia que an-dassem sempre com o habito eclesiástico e não fre-qüentassem as estações de banho.</span></span></div>
<p></span></span><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">Todos os grandes e celebres Bispos na Santa Igreja jamais deixaram de consagrar dedicado amor ás Ordens religiosas. Também Neumann não se es-queceu de seguir essa tradição. Membro de uma Congregação religiosa não podia negar suas prefe-rências para os religiosos. Guardou como armas do bispado as próprias armas da Congregação. Usou, até o momento de ser censurado por diversos sa-cerdotes, o habito redentorista. Mas quando ia pas-sar uns dias com os seus confrades vestia de novo o habito de Santo Afonso.</p>
<div><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">Certo dia alguém teve a imprudência de lhe dizer que já não era redentorista. Neumann afligiu-se muito e propôs sua duvida ao Santo Padre Pio IX. Este o sossegou dizendo que possuía as virtudes de um bom religioso e que tinha parte nos méritos de seus confrades.</span></span></div>
<p></span></span><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"></p>
<div><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">Seu amor não se limitava á Congregação de seus votos. Estendia-se a todas. Não se contentava com um interesse geral pela prosperidade dos insti-tutos religiosos, mas gostava de lhes mostrar essa grande afeição a cada passo, mesmo nas necessi-dades temporais. Ia muitas vezes presidir ás vesti-ções e profissões nos conventos. Era edificantíssima a piedade com que fazia todas as cerimônias. Suas palavras calavam nos corações e ainda mais acen-diam nas almas religiosas o amor pelo estado aben-çoado. Quando não podia assistir desculpava-se de moto tão atencioso que causava ótima impressão. Nas cartas ás Superioras de conventos repetia que nunca deviam deixar de recorrer a ele em qualquer embaraço. &#8220;Na hora em que a precisão bater em vosso convento — escrevia a uma Superiora — avi-sai-me sem demora. Pois ainda que pobre eu tam-bém saberei valer-vos, porque Deus não nos aban-donará.&#8221; Um dia, ao visitar um convento de irmãs, disse-lhe a Superiora: &#8220;Monsenhor, é-nos bem difícil a vida. Ora não temos carvão e ora temos carvão, mas não temos o que cozinhar.&#8221; O Bispo animou-a, mostrando-lhe o Crucifixo na parede e ajuntou riso-nhamente: &#8220;Sendo meu costume distribuir medalhas, quero hoje distribuir umas medalhas-yankees.&#8221; E dizendo assim, passou para as mãos da Superiora cinqüenta dólares ouro.</span></span></div>
<p></span></span><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"></p>
<div><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">Todavia era seu maior cuidado que reinasse nas comunidades o verdadeiro espírito religioso. Procedia meticulosamente na escolha dos confesso-res para religiosas. Como Santo Afonso queria que as Irmãs educadoras fossem bem instruídas no livro do Crucificado. &#8220;O livro que mais deveis conhecer é o de vossas Regras; sendo fieis a Deus ele abenço-ará vossos trabalhos. Estou convencido que fará maior bem na classe uma Irmã que, possuindo me-nos ciência, tiver mais espírito de fidelidade a Deus.&#8221;</span></span></div>
<p></span></span><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"></p>
<div><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">Por mais que Neumann trabalhasse para au-mentar o clero de sua diocese nunca diferiu por mui-to tempo a licença que algum padre pedia para en-trar num convento de religiosos. Estava convencido que Deus mandaria outro no lugar daquele que dei-xara o mundo para melhor servir a Nosso Senhor. Ia até mais longe. Muitas vezes nas conferencias aos jovens clérigos discorria sobre a sublimidade do es-tado religioso e animava-os a manifestarem algum desejo, que julgassem ter sobre este estado, prome-tendo de coração abençoar o eleito por Deus.</span></span></div>
<p></span></span><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"></p>
<div><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">Parece inútil dizer que Neumann como Bispo ficou sendo o mesmo homem virtuoso, como no tempo de simples sacerdote e religioso. Todas as semanas ia ao convento dos Redentoristas para confessar-se. Uma vez por mês fazia um dia de reti-ro no convento de seus confrades. Nunca perdia os dez dias de retiro impostos pela Regra da Congre-gação. Não quis aceitar criados para a sua pessoa. Ele mesmo punha em ordem o quarto, limpava os sapatos e escovava as vestes. Tomava o café na sala de jantar e quando se julgava despercebido to-mava um pouco de água com um pedaço de pão. E era tudo. Depois de sua morte o confessor manifes-tou o seguinte: &#8220;D. Neumann praticava sem cessar as virtudes da abnegação e mortificação, mas de modo tão prudente e discreto que a ninguém vexava ou causava admiração. Ocultamente levava sempre</span></span></span></span></div>
<p></span></span><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"></p>
<div><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"> </span></div>
<p></span></span></span><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">o cilício e macerava o corpo com uma disciplina de pregos as pontas. Graças a uma constante vigilân-cia dos sentidos e recolhimento de espírito, chegou a vedar ás paixões que lhe perturbassem a paz da alma cândida e pura. Alcançou alto grau de contemplação. Seguindo o exemplo de Santo Afonso fez o voto de não perder um momento de tempo e guar-dou-o fielmente até a morte. Mesmo nas viagens via-se-lhe com um livro nas mãos, ou então escutava-se-lhe falar de cousas divinas.&#8221; A piedade mostrava-se principalmente quando o Bispo celebrava a Santa Missa ou conferia algum sacramento.</span></span></p>
<p></span></span></p>
<p style="text-align:justify;">
<div><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">Não teve sossego enquanto não introduziu na sua diocese a adoração das Quarenta Horas, o que até então não era usado na América do Norte.Deus mesmo se encarregou de guiá-lo nesta empre-sa. Há tempo lutava Neumann para convencer seus padres das vantagens deste piedoso exercício. Eles porém opinavam que seria para se temer mais a pro-fanação e desrespeito do Santíssimo Sacramento. O servo de Deus flutuava entre o ditame de seus con-selheiros e as aspirações de sua piedade quando resolveu o caso. Uma noite já havia escrito muito tempo no seu gabinete, quando se apaga a luz. Neumann acende outro toco de vela e continua o trabalho. O cansaço venceu-o e adormeceu. Quando acorda vê queimados os papeis que despachava, mas com as letras bem legíveis. Comovido cai de joelhos e ouviu no interior uma voz que lhe dizia: &#8220;Assim como a chama arde sem destruir e prejudicar as letras, assim eu distribuirei minhas graças no Santíssimo Sacramento sem prejuízo de minha hon-ra. Não temas, pois, uma profanação de meu Sa-cramento e não adies a execução de teu desígnio.&#8221; No mesmo dia escreveu Neumann o decreto ordenando o exercício das Quarenta Horas nas pa-róquias.</span></span></div>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"></p>
<div><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:medium;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:medium;">5. Viagem a Roma e últimos anos de vida</span></span></div>
<p></span></span><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:medium;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:medium;"></p>
<div><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">A convite do Santo Padre Pio IX, embarcou o Bispo Neumann em outubro para Europa. Era isso o ano de 1854. Queria ele assistir á solene declaração do dogma da Imaculada Conceição, ato que teve lugar a oito de dezembro do mesmo ano.</span></span></div>
<p></span></span><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">Em Roma hospedou-se o Prelado na casa dos seus confrades, em Monterone. Todos edifica-ram-se com seu espírito de pobreza e humildade. Saía quase sempre sem as insígnias de sua digni-dade, a pé sem fazer caso do tempo que reinava.</p>
<div><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">Sua extrema modéstia não impediu que sobre ele caíssem as vistas dos cardeais e do Papa. Pio IX convidou-o diversas vezes para audiências privadas e distinguiu-o ainda com mais outras atenções. A primeira vez que foi falar ao Papa este recebeu-o cheio de amabilidade e disse-lhe: &#8220;Monsenhor Neu-mann, bispo de Filadélfia! Então a obediência não vale mais que sacrifícios?&#8221; Escutou em seguida a relação que Neumann lhe fez sobre a diocese, deci-diu diversos casos difíceis e por fim conferiu-lhe a dignidade de prelado domestico de Sua Santidade e diversas faculdades e privilégios.</span></span></div>
<p></span></span><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"></p>
<div><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">Aos 17 de dezembro escrevia monsenhor Neumann a um de seus padres: &#8220;É impossível des-crever-lhe a solenidade do dia oito deste mês. Não tenho nem tempo nem talento para tanto. Agradeço a Deus haver-me concedido, após tantas graças, esta de poder ser testemunha da festividade em Roma.&#8221; De Roma foi a Loreto celebrar a Santa Missa na Casa Santa. Fez a viagem á moda dos pobres peregrinos. Causou isso suma admiração a um se-nhor que o havia conhecido em Roma e agora o encontrava num pobre hotel de Ancona. Uma aventura esperava nosso homem. Não podendo ler o passa-porte escrito em inglês, queria um soldado austríaco levar a Neumann para o primeiro posto policial. Não teve ele outro recurso senão mostrar sua cruz de Bispo e o anel sagrado. Á vista disso declarou-se satisfeito o guarda da fronteira. Em Viena hospedou-se com os seus confrades na celebre igreja de Maria Stiegen.</span></span></div>
<p></span></span><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">Em Praga foi recebido pelo imperador Fer-nando que lhe fez o presente de mil florins para a construção da catedral em Filadélfia.</p>
<div><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">Seus padroeiros no céu não se esqueceram do humilde Bispo. Disso é prova o seguinte fato. Na viagem de Roma a Viena extraviara-se um cofrezi-nho que levava muitas e preciosas relíquias. Em vão mandou diversos telegramas da estação de Viena. Neste transe encomenda-se Neumann a Santo An-tônio, fazendo o voto de colocar sua imagem numa das igrejas de Filadélfia. Nem havia acabado a pro-messa quando se aproxima um jovem e lhe entrega amavelmente um volume, dizendo: &#8220;Aqui tem o ex-mo. sr. Bispo o procurado cofrezinho.&#8221; Neumann fi-cou algo admirado ao ouvir o titulo de Bispo porque viajava sem insígnia alguma. Quis recompensar o atencioso portador mas não o viu mais.</span></span></div>
<p></span></span><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"></p>
<div><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">De Praga foi a Prachatitz para saudar a seu velho pai. Tencionava chegar sem ser esperado. Enganou-se no entanto. Adivinhando essa intenção, mandaram seus concidadãos um espião na frente para denunciar a partida e prevenir a chegada do Bispo. Assim teve soleníssima recepção, sendo le-vado á igreja matriz ao repique de sinos e estourar de morteiros. Depois de cantar o Te-Deum dirigiu Neumann algumas palavras a seus conterrâneos. Comovedor foi o encontro com o velho pai que cho-rava de alegria. Como um dos presentes lamentasse a ausência da mãe, observou Neumann: &#8220;Ela nos vê do céu e alegra-se conosco.&#8221; Permaneceu seis dias com os seus concidadãos.</span></span></div>
<p></span></span><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">No dia 9 de fevereiro, bem de madrugada, deixou ás escondidas sua terra natal, voltando para América. Passou por Paris e Liverpool chegando a Filadélfia a 28 de março de 1855.</p>
<div><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">Não podemos deixar sem menção um fato ocorrido em Munique que mostra claramente a hu-mildade do venerável Bispo. Parando alguns dias naquela cidade recebeu o convite para assistir ás exéquias solenes do Arcebispo, há pouco falecido. Á hora marcada entrou na sacristia um sacerdote de pequena estatura, com uma valise na mão, retiran-do-se para um canto onde se pôs a rezar o rosário. Era o Bispo Neumann. Enquanto rezava ouviu dizer aos padres vizinhos que se esperava o Bispo de Fi-ladélfia, que havia aceitado o convite. Teve então que abrir a valise e vestir-se como Bispo causando admiração a todos pela modéstia de seu procedi-mento.</span></span></div>
<p></span></span><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"></p>
<div><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">De volta á sede episcopal continuou os traba-lhos com redobrado zelo. O peso da diocese já se lhe ia tornando cada vez mais sensível. Neumann queixa-se disso numa carta pelos fins de 1856: &#8220;Os trabalhos vão crescendo. Pois o numero dos católi-cos aumenta rapidamente e na mesma proporção me crescem os cuidados. Oxalá andassem todos os católicos fazendo progressos idênticos no amor de Deus. Estou sozinho nesse intrincado de tarefas. Por enquanto não estando a catedral em condições de </span></span></span></span></div>
<p></span></span><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">culto, não posso ocupar e sustentar a vários padres e por isso tenho que despachar pessoalmente as dispensas e atender a todos os negócios, a grandes e pequenos que me procuram, a clérigos e regula-res. Tudo isso me traz numa dobadoura desde sete da manhã até nova horas da noite. Á noite estou cansadíssimo, mas, graças a Deus, a saúde é boa e resistente. Penso também não andar muito longe o dia de me ver livre deste desterro.&#8221; Realmente seus pensamentos voltavam-se seguidos para solidão. Tinha saudades das viagens pelo ermo das florestas quando ia visitar os pobres católicos perdidos nas choupanas. Isso escreve numa carta. De fato ofere-ceu-se na reunião provincial dos Bispo em Baltimore para aceitar uma das novas dioceses então planeja-das. A Santa Sé não aceitou a oferta de Neumann e deu-lhe um Bispo coadjutor na pessoa de D. Frede-rico Jayme Wood. Dois anos mais tarde já sucedia ao servo de Deus na sede do bispado.</span></span></span></span></p>
<p style="text-align:justify;">
<div><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">Grande dor estava reservada ao bondoso co-ração do Bispo. E essa veio-lhe com a horrível ca-tástrofe de 17 de julho de 1856. Segundo o costume iam as crianças de uma paróquia da cidade fazer uma excursão pelos campos. Eram acompanhadas pelo vigário e pelos professores. Desde as cinco ho-ras da manhã setecentas crianças, num ruído de andorinhas nas manhãs de primavera, tomaram o trem que as devia levar á desejada estação. A morte estava de ronda naquela região. Em desabalada ve-locidade vem do lado oposto um outro trem dando-se um formidável encontro, trepando as maquinas uma por cima da outra. Os carros ficaram espatifa-dos e sobre o montão de tábuas rebentou apavoran-te incêndio. Gritos e gemidos de toda espécie saíam</span></span></span></span></div>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"></p>
<div><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"> </span></div>
<p></span></span></span><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">do meio das labaredas. Sessenta e quatro cadáve-res foram retirados dos escombros entre eles o do vigário, padre Sheridan. Os feridos eram oitenta e quatro. A cidade inteira caiu em profunda consterna-ção e muitas famílias vestiram luto pela morte de seus filhos. O pobre Bispo não o sentiu menos. Inter-rompeu imediatamente a visita pastoral para levar aos enlutados as palavras de consolo e conforto e aos feridos os socorros de seu ministério. Chorou com os desditosos pais e muito contribuíram suas palavras para alívio dos que Deus acabava de pro-var de modo tão rude.</span></span></p>
<p></span></span></p>
<p style="text-align:justify;">
<div><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">Entretanto chegava também o fim da vida pa-ra o servo de Deus. Os receios expostos nas suas cartas iam tornar-se realidade. Estava próxima a ho-ra de sua recompensa. Alguns dias antes de morrer foi o Bispo, como de costume, confessar-se no con-vento de seus confrades. Enquanto esperava pelo padre Reitor encetou uma prosa com o irmão portei-ro.</span></span></div>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">— Irmão, qual a morte que o sr. preferiria ter uma vez? — disse-lhe Neumann.</p>
<p>— Eu prefiro morrer depois de uma doença suportada com paciência; morte repentina é cousa arriscada, retorquiu o irmão.</p>
<p>— Um cristão deve no entanto estar pronto para morrer a qualquer hora e muito mais ainda um religi-oso. Estando preparado, ganha mais com a morte rápida e poupa aos outros muito trabalho e a si mesmo muita ocasião de impaciência. Em todo caso é sempre melhor o gênero de morte que Deus envi-ar.</p>
<p>A um sobrinho que o acompanhava numa sa-ída disse: &#8220;Meu padre chegará a ter muita idade; eu não chegarei aos cinqüenta.&#8221; E como o companheiro contestasse tal afirmação, repetiu-lhe: &#8220;Pois há de ver; eu não chegarei aos cinqüenta.&#8221;</p>
<div><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">Os prognósticos do santo Bispo deviam se cumprir. Aos cinco de janeiro, véspera dos Santos Reis, sentiu-se indisposto. Não obstante procurou divertir os comensais contando-lhes uma curiosa anedota de sua vida passada. De tarde saiu de casa para assinar um documento de certa propriedade da diocese. Ao voltar para casa caiu por terra numa das ruas da cidade, vitimado por violento ataque de apo-plexia. Levaram-no para a casa mais próxima esten-deram-no sobre um tapete e tentaram reanimá-lo. Em vão. Quando chegou o secretario do bispado com os Santos Óleos, quase ao mesmo momento, já era tarde. João Nepomuceno Neumann, Bispo de Filadélfia estava morto.</span></span></div>
<p></span></span><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"></p>
<div><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">O telegrafo espalhou célere a noticia pelos quatro cantos do país. Foi uma consternação geral e pro-funda. Todos sabiam que o Bispo se havia sacrifica-do pelo excesso de trabalho. O mesmo dizia o Vigá-rio Geral, testemunha ocular do continuo esforço do falecido. No começo não se queria dar credito á no-va tão triste, mas os contínuos dobres de sino e os anúncios nas igrejas convenceram o bom povo de Filadélfia. Na manhã da Epifania foi o corpo exposto na capela do bispado onde enorme multidão desfilou em visita ao querido prelado. No dia nove foi então o solene sepultamento. O corpo foi levado descoberto. Nunca Filadélfia vira cousa igual em grandiosidade. Na frente marchava um corpo de policia e uma com-panhia de soldados com a banda de musica. Vinham em seguida as sociedades literárias, vinte e sete confrarias e irmandades, treze sociedades vindas de</span></span></span></span></div>
<p></span></span><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"></p>
<div><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"> </span></div>
<p></span></span></span><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">Baltimore, depois as escolas e orfanatos da cidade, os alunos do seminário maior e menor e uma cente-nas de padres. O que mais chamava a atenção da compacta multidão ao longo das ruas era o aspecto calmo e tranqüilo do falecido que parecia dormir. Após a Missa de corpo presente, falou aos fieis o exmo. D. Kenrick e entre palavras disse ele: &#8220;Si saís para um negocio pensai que talvez não voltareis vi-vos; quando vos acomodais á noite refleti que o dia seguinte poderá encontrar-vos já sem vida!&#8221; Com as primeiras palavras descrevia a morte do seu grande amigo Neumann e com as ultimas fazia uma profecia sobre sua morte. Realmente três anos mais tarde era D. Kenrick encontrado morto na cama, pela ma-nhã.</span></span></p>
<p></span></span></p>
<p style="text-align:justify;">
<div><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">Colocaram o corpo do Bispo na cripta da igre-ja de S. Pedro. Até na morte ficou Neumann no meio de seus confrades, em cuja igreja se acha a referida cripta.</span></span></div>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"></p>
<div><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:medium;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:medium;">6. A glória depois da morte</span></span></div>
<p></span></span><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:medium;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:medium;"></p>
<div><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">Os grandes vultos da história profana morrem e levam sua grandeza. Com os santos de Deus co-meça a glória muitas vezes depois da morte. O mesmo se deu com Neumann. O povo fez justiça aos méritos do santo. Tornou-se celebre o seu se-pulcro, sendo muitos os que vinham pedir favores naquele lugar, e quis o céu atender a esses pedidos para mostrar a santidade do invocado.</span></span></div>
<p></span></span><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">Atesta um sacerdote altamente colocado que por diversas vezes se havia recomendado ao Servo de Deus sendo sempre atendido com prometido, mesmo nos negócios mais intrincados.</p>
<div><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">A Irmã Anselma da Congregação de Nossa Senhora era professora na escola paroquial de S. Pedro. Não podia continuar no cargo por causa da surdez. Mal ouvia suas co-irmãs quando falavam em voz alta e junto ao ouvido. Que fez? Apegou-se com o Servo de Deus. Sua classe era contígua á cripta de S. Pedro e todas as manhãs antes de começar a aula ia rezar diante do sepulcro de Neumann. E con-seguiu o que pedia. Durante cinco anos pôde dar as aulas, ouvindo perfeitamente as respostas das crian-ças. Mas (cousa curiosa) a surdez voltava logo de-pois das aulas, e quando a tiraram de professora por causa da idade perdeu a Irmã completamente a au-dição.</span></span></div>
<p></span></span><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"></p>
<div><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">Uma senhora de Filadélfia que sofria de cha-gas abertas nos pés livrou-se delas pela intercessão de Neumann.</span></span></div>
<p></span></span><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">Animada com isso recorreu também ao mes-mo protetor uma menina de doze anos ameaçada de perder a vista. Começou logo uma novena, visitando diariamente o sepulcro do Bispo. Repetia mui-tas vezes: &#8220;Meu santo e bondoso Bispo curai-me para que eu possa voltar á escola!&#8221; Seus rogos in-fantis não foram em vão; realmente desapareceu o perigo e deram os médicos permissão para a criança voltar para a escola.</p>
<p>Um professor que perdera a fala, em conse-qüência de um ataque nervoso, recobrou-a na cripta do Servo de Deus. Da mesma forma uma pobre viú-va paralítica e doente de cancro e que já se resigna-ra a morrer encontrou no mesmo lugar nova espe-rança e saúde.</p>
<p>Pelos fins de 1897 vários jornais americanos trouxe-ram a seguinte noticia: &#8220;A sepultura do Bispo Neu-mann é visitada todos os dias por centenas de pes-soas, mesmo acatólicas. De dia para dia cresce seu numero. Tuberculosos e outros doentes são cura-dos, cegos recuperam a vista e andam os paralíti-cos. O céu parece querer confirmar a fama de santi-dade do humilde Bispo.&#8221;</p>
<p>A 15 de dezembro de 1895 o Papa Leão XIII assinou o decreto pelo qual ordenava a introdução do processo de beatificação do Venerável Bispo Neumann. Um novo decreto de Santa Sé a 11 de dezembro de 1921 declara como heróicas as virtu-des do Venerável.</p>
<p>Esperamos que Deus, o glorificador dos hu-mildes, conceda logo a seu Servo a mais elevada honra que é permitido alcançar na terra: a honra dos altares.</p>
<p>Quando foi da declaração da heroicidade das virtudes do Servo de Deus Bento XV pronunciou um longo discurso do qual extraimos diversos pontos.</p>
<div><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">&#8220;Todos nossos amados filhos devem tirar pro-veito do presente decreto pelo motivo da índole pró-pria que apresentam as virtudes do Venerável Neu-mann. Sobre esta índole se exagerou talvez a sim-plicidade pelos que julgavam não se poder reconhe-cer o grau heróico na virtude deste Servo de Deus, porque a seus olhos, as boas e santas obras feitas por Neumann são aquelas que todo zeloso missioná-rio, todo bom Bispo devem praticar. Mas nós dize-mos que, mesmo as mais simples obras, feitas com constante perfeição no meio de dificuldades inevitá-veis podem atingir o grau de heroismo de virtude na vida de qualquer santo. Na simplicidade destas o-bras descobrimos um forte argumento para dizer a todos os fieis de todo sexo e idade: &#8220;Vós estais obri-gados a imitar o Venerável Neumann!&#8221; Não se exige para tanto que sejam todos missionários, que abra-cem a carreira sacerdotal, que sejam Bispos de Fila-délfia e governem uma diocese, não. Requer-se que cada um seja homem de seu dever.</span></span></div>
<p></span></span><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"></p>
<div><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">No meio desta simplicidade a admirável ativi-dade do homem de Deus! O extraordinário numero de igrejas erigidas e escolas abertas pelo missioná-rio e Bispo, unido ao numero muito maior de Missões pregadas de sacramentos administrados de visitas pastorais oportunamente realizadas: tudo isso fala muito alto em favor do humilde Neumann. Todavia se não mede o mérito de um homem de atividade, tanto pelo numero de suas ações, como na eficácia e estabilidade delas. Pois a verdadeira atividade não é um simples rumor, não é cousa de um dia; é obra que se desenvolve na hora presente sendo fruto do passado e devendo ser semente para o vindouro. Todos estes caracteres teve a atividade de Neumann. Antes de tudo preparou-a. Fale em seu favor o cuidado em aprender novas línguas, a insistência perante seu Bispo para trabalhar na América, a dili-gencia e paciência em se preparar e impressionar com o exemplo e palavra.</span></span></div>
<p></span></span><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">Não admira depois de tanta preparação o ex-traordinário resultado que conseguiu. Atribuíam-no ao desinteresse em procurar a gloria de Deus e a salvação das almas. Sua vida diz claramente em cada pagina qual foi a colheita que fez em todos os campos de atividade.</p>
<div><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">Em tudo isso não perdia de vista o futuro, tendo em mira a estabilidade das cousas. É claro que esta estabilidade depende do sentido pratico das cousas e das obras, de acordo e proporção com o valor objetivo de cada uma delas. É evidente que os bens espirituais merecem mais estima do que os bens materiais, merecendo portanto ser chamado mais ativo aquele que procura primeiro o progresso intelectual e moral em vez do bem estar físico e ma-terial do povo. A favor de Neumann falam as inuma-res escolas com que enriqueceu sua diocese. E es-colas abertamente católicas! Assim se mostrou ho-mem ativíssimo porque os meninos de hoje serão os homens de amanhã.</span></span></div>
<p></span></span><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"></p>
<div><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">Como prova de nobreza e generosidade aí fica seu oferecimento para aceitar a novel diocese de Pottsville.</span></span></div>
<p></span></span><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;"><span style="font-family:ALMNP L+ Helvetica,Helvetica;font-size:small;">&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..</p>
<p>Seja a simplicidade heróica da vida e das ações de Neumann, eficaz estimulo para os que com ele têm comum a vocação de missionários; seja-o para os Bispos, que com Neumann têm comuns a dignidade e responsabilidade do altíssimo cargo, e seja-o tam-bém para a aqueles que em nossos dias se chamam propagandistas da ação católica. Queremo-los ati-vos, mas com aquela atividade que teve o Venerável Neumann e que foi tão admirável que se preparou com o estudo, se nutriu do zelo e desinteresse, sabi-amente foi dirigida para o fim e fecundada com in-comparável generosidade de espírito.</p>
<p style="text-align:justify;">Sorri-nos a esperança de que será realizado esse nosso desejo pelos filhos de Santo Afonso que se apressarão em imitar o exemplo de seu Venerá-vel confrade, aumentando assim as glorias de sua benemérita Congregação.&#8221;</p>
<p style="text-align:justify;">Fonte:Vida de João Nepómuceno Neumann. Bispo Redentorista da Filadélfia. Aparecida. 2004.p.1-55.</p>
<p> </p>
<p></span></span></p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/biografiadossantos2.wordpress.com/479/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/biografiadossantos2.wordpress.com/479/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/biografiadossantos2.wordpress.com/479/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/biografiadossantos2.wordpress.com/479/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/biografiadossantos2.wordpress.com/479/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/biografiadossantos2.wordpress.com/479/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/biografiadossantos2.wordpress.com/479/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/biografiadossantos2.wordpress.com/479/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/biografiadossantos2.wordpress.com/479/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/biografiadossantos2.wordpress.com/479/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/biografiadossantos2.wordpress.com/479/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/biografiadossantos2.wordpress.com/479/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/biografiadossantos2.wordpress.com/479/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/biografiadossantos2.wordpress.com/479/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=biografiadossantos2.wordpress.com&amp;blog=14156376&amp;post=479&amp;subd=biografiadossantos2&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://biografiadossantos2.wordpress.com/2010/08/22/sao-joao-nepomuceno-neumann/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
	
		<media:content url="" medium="image">
			<media:title type="html">biografiadossantos2</media:title>
		</media:content>

		<media:content url="http://biografiadossantos2.files.wordpress.com/2010/08/so_joo1.jpg" medium="image">
			<media:title type="html">SO_JOO~1</media:title>
		</media:content>
	</item>
		<item>
		<title>São João de Deus</title>
		<link>http://biografiadossantos2.wordpress.com/2010/08/17/sao-joao-de-deus/</link>
		<comments>http://biografiadossantos2.wordpress.com/2010/08/17/sao-joao-de-deus/#comments</comments>
		<pubDate>Tue, 17 Aug 2010 21:56:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator>biografiadossantos2</dc:creator>
				<category><![CDATA[São João de Deus]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://biografiadossantos2.wordpress.com/?p=468</guid>
		<description><![CDATA[Biografia de São João de Deus MENSAGEM DO PAPA JOÃO PAULO II AO PRIOR-GERAL DA ORDEM HOSPITALEIRA DE SÃO JOÃO DE DEUS NO PRIMEIRO CENTENÁRIO  DO NASCIMENTO DE SÃO RICARDO PAMPURI  Ao Reverendíssimo FR. PASCUAL PILES FERRANDO Prior-Geral da Ordem Hospitaleira de São João de Deus 1. No centenário do nascimento de São Ricardo Pampuri, [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=biografiadossantos2.wordpress.com&amp;blog=14156376&amp;post=468&amp;subd=biografiadossantos2&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://biografiadossantos2.files.wordpress.com/2010/08/sao-joao-de-deus.jpg"><img title="SÃO JOÃO DE DEUS" src="http://biografiadossantos2.files.wordpress.com/2010/08/sao-joao-de-deus.jpg?w=220&#038;h=319" alt="" width="220" height="319" /></a></p>
<h1 style="text-align:left;"><span style="color:#99cc00;">Biografia de São João de Deus</span></h1>
<p style="text-align:center;"><strong><em><span style="color:#000000;">MENSAGEM DO PAPA JOÃO PAULO II<br />
AO PRIOR-GERAL DA ORDEM HOSPITALEIRA<br />
DE SÃO JOÃO DE DEUS NO PRIMEIRO CENTENÁRIO<br />
 DO NASCIMENTO DE SÃO RICARDO PAMPURI</span></em></strong></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span><em><span style="color:#000000;">Ao Reverendíssimo FR. PASCUAL PILES FERRANDO<br />
Prior-Geral da Ordem Hospitaleira de São João de Deus </span></em></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">1. No centenário do nascimento de São Ricardo Pampuri, desejo dar graças ao Senhor por este Santo que honra essa Família religiosa. A presença das suas Relíquias no hospital dos Fatebenefratelli, na Ilha Tiberina, constitui a ocasião oportuna para repropor, a quantos trabalham no âmbito dessa estrutura hospitalar, o testemunho eloquente da sua vida, inteiramente impregnada do programa ascético do «<em>ama nesciri et pro nihilo reputari</em>». Tive a alegria de proclamar Beato em 1981, e Santo em 1989, esta límpida figura de homem do nosso tempo. Nele refulgem os traços da espiritualidade laical delineada pelo Concílio Ecuménico Vaticano II.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">A sua existência terrena, contida no arco de apenas 33 anos, mostra como em breve tempo este jovem religioso soube alcançar o ápice da santidade. Nos primeiros anos de vida em Trivolzio e Torrino, durante os estudos secundários e universitários em Milão e Pavia, na frente ítalo-austríaca durante a primeira guerra mundial, e depois em Morimondo, como médico municipal, deixou em toda a parte vestígios de piedade e de amor pelos pobres. Sustentado pelo exemplo dos seus entes queridos e pelo convívio com piedosos e zelosos sacerdotes, empenhou-se em múltiplos campos de apostolado: foi sócio assíduo e generoso do Círculo Universitário e das Conferências de São Vicente de Paulo, presidente da Associação juvenil da Acção Católica, Terciário franciscano e animador incansável de iniciativas de formação espiritual e de caridade. Com a idade de 30 anos, entrou na Ordem dos Fatebenefratelli, de cujo carisma se tornou um dos intérpretes mais significativos.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">2. «Bom Mestre, que devo fazer para alcançar a vida eterna?» (<em>Mc</em> 10, 17). Parece ser esta a pergunta que atravessa os pensamentos deste jovem, sempre em busca da perfeição cristã. «Falta-te apenas uma coisa: Vai, vende tudo o que tens, dá o dinheiro aos pobres e segue- Me» (<em>Mc</em> 10, 21). Ao convite do Senhor ele, dotado de fé e caridade profunda, respondeu com alegria, doando-se completamente a Cristo pobre, humilde e casto e entrando na Ordem dos Fatebenefratelli. Vítima de uma doença contraída em zona de guerra, ao abraçar o carisma de São João de Deus, conseguiu dar plenitude ao seu desejo de anunciar e testemunhar aos doentes o Evangelho de Cristo crucificado e ressuscitado.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Como o divino Mestre, sentiu a urgência do «deserto» e da oração (cf. <em>Mc</em> 1, 35) para depois poder servir os irmãos, especialmente os doentes e os sofredores. «Tenho necessidade de me recolher um pouco em mim mesmo na presença do Senhor, para que a minha alma não se torne insensível nem se perca em estéreis e prejudiciais preocupações externas», escrevia numa sua carta. Essa necessidade levava-o a viver constantemente unido ao Senhor, a deter-se por longo tempo diante do tabernáculo e a nutrir uma terna devoção pela Virgem. Na escola do Evangelho, tornou-se para quantos o conheceram e, sobretudo, para os seus assistidos um sinal vivo da misericórdia de Deus, sempre disponível a ver nos doentes o Cristo que sofre, a ajoelhar-se na soleira das casas onde reinava a dor e a partir apressado sem esperar nenhuma recompensa.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Tendo escolhido cumprir profundamente a vontade do Pai, à imitação do seu Senhor, viveu como acto supremo de obediência e de amor também a doença e a morte.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">3. Como não acolher a mensagem contida no maravilhoso caminho de santidade de São Ricardo Pampuri, que essas celebrações centenárias repropõem de modo eloquente?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Aos Coirmãos da Ordem à qual pertencia, chamados a servir Cristo nos doentes, o testemunho deste jovem médico- cirurgião indica que a união com Deus deve alimentar constantemente a vida religiosa e a actividade apostólica. Aos leigos que trabalham nas estruturas hospitalares, São Ricardo Pampuri, médico apaixonado pela sua missão entre os doentes, propõe que amem a própria profissão e a vivam como vocação. Ele, que no cuidado dos que sofriam jamais separou ciência e fé, empenho civil e espírito apostólico, convida todos os agentes de saúde a terem sempre em conta a dignidade da pessoa humana, para exercerem o «dever quotidiano» com o espírito do bom Samaritano. O testemunho que deu na doença, que o levou à morte, encoraja todos os que sofrem a não perderem a confiança em Deus; antes, exorta-os a acolher também na prova o projecto de amor do Senhor.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Enquanto invoco a especial protecção de São Ricardo Pampuri, oro para que as celebrações jubilares do seu nascimento e o inteiro programa espiritual e cultural preparado para essa festividade, constituam para todos uma ocasião de renovado empenho na vida cristã, nas relações interpessoais e no serviço aos doentes.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Possam aqueles que visitam as Relíquias de São Ricardo Pampuri, com a radicalidade e generosidade por ele testemunhadas até à morte, seguir o exemplo de São João de Deus, Fundador dessa Ordem Hospitaleira.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Com estes bons votos, concedo-lhe, bem como aos Coirmãos, às Religiosas colaboradoras, aos Agentes de saúde e aos doentes uma especial Bênção Apostólica.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"><em>Vaticano, 22 de Outubro de 1997</em>.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><strong><span style="color:#000000;">JOÃO PAULO II</span></strong></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Fonte:</span><a href="http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/speeches/1997/october/documents/hf_jp-ii_spe_19971022_pampuri_po.html"><span style="color:#000000;">http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/speeches/1997/october/documents/hf_jp-ii_spe_19971022_pampuri_po.html</span></a></p>
<p style="text-align:justify;"><strong><em><span style="color:#000000;">DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II<br />
AOS CAPITULARES DA ORDEM HOSPITALEIRA<br />
 DE SÃO JOÃO DE DEUS</span></em></strong></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"><em>Quinta-feira, 13 de Dezembro de 1979</em></span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><em><span style="color:#000000;">Irmãos e filhos caríssimos</span></em></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Agradeço de coração ao vosso Prior-Geral as fervorosas palavras que me dirigiu, e todos saúdo com paternal afecto, dando-vos as boas-vindas. Tenho o prazer de me encontrar convosco, dignos representantes da Ordem Hospitaleira de São João de Deus, mais conhecida (em Itália) com o nome de &#8220;Fatebenefratelli&#8221;, que na sua existência de vários séculos praticou não raras benemerências, quer no plano dum testemunho evangélico e eclesial propriamente dito, quer no plano dum precioso contributo para uma qualificação mais humana da vida.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Nestes dias, estais vós na conclusão dum Capítulo Geral extraordinário, decretado para estudar e definir o carisma específico da vossa Família religiosa, os seus grandes princípios inspiradores e os problemas actuais, relacionados com o exercício do vosso ministério. Sei que encontrastes não poucas dificuldades internas e externas à Ordem, e que formulastes também claras perspectivas de compromisso religioso e assistencial. Pois bem, aos vossos louváveis esforços tenho o gosto de assegurar o sustentáculo da minha aprovação e da minha oração ao Senhor.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Sobretudo não posso deixar de expressar-vos claramente a minha sincera complacência e o meu apreço por tudo quanto forma já o conteúdo de todos os dias dos vossos compromissos quer religiosos quer profissionais, que nunca se podem aliás separar, porque uns realizam-se mediante os outros. A uma coisa vos animo, porque urgente e actual, e, por outro lado, sem dúvida presente à vossa consciência e ao vosso sentido de responsabilidade: num tempo em que a vida do homem está infectada por vários factores de desumanização, sede vós os promotores e a garantia de níveis melhores e mais altos de humanidade. Vale isto particularmente no sector característico dos doentes e em geral dos que sofrem, aos quais, por consagração e instituição, dedicais o melhor de vós mesmos. Em certo sentido, diria que não há nada de mais humano que a dor, que revela a dimensão criatural profunda da existência terrena e oferece ocasião privilegiada para nos inclinarmos com amorosa condescendência sobre as carências dos irmãos necessitados. A situação destes, na verdade, não é tida nunca como facto indiferente e descurável; menos ainda deve ser considerada ou incómoda para o nosso viver sossegado ou superior às nossas possibilidades de assistência desvelada. O princípio bíblico que nos leva a gozar com quem goza e sofrer com quem sofre (Cfr. <em>Sir</em> 7, 34: <em>Rom</em> 12, 15), é, primeiro que tudo, estímulo para um comportamento altamente humano, feito de natural e espontânea participação nas experiências alheias e portanto sinal duma comunhão que enriquece seja quem a recebe seja quem a oferta.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Além disto, animo-vos a cultivar um testemunho cristão sempre transparente e fecundo, especialmente nos ambientes do vosso apostolado próprio. Uma relação puramente humana, mesmo com os doentes, arrisca-se a ficar estéril por falta de raízes e motivações profundas. Também a vossa profissionalidade é facto muito importante, e deverá ser o mais possível séria e actualizada. Mas se o vosso trabalho não é filtrado através da fé, está sempre em perigo de materializar-se e até mesmo perder aqueles elementos humanos de que falei acima. Bem sabeis e sempre devereis ter presente que, segundo Evangelho, quem serve o doente entra em contacto com o próprio Jesus (Cfr. <em>Mt</em> 25, 36.40), cuja força se revela totalmente na fraqueza, segundo a expressão do Apóstolo Paulo (<em>2 Cor</em> 12, 9). De facto foi mediante os Seus sofrimento que todos nós obtivemos por graça a salvação (Cfr. <em>Heb</em> 2, 10.18). Ora, que melhor oportunidade de evangelização se vos oferece, senão exactamente o descobrir a quem sofre o valor profundo da sua condição, que sem dúvida adquire sentido, valor e fecundidade, precisamente graças à conformação alegre e abençoada com a Cruz de Cristo (Cfr. <em>Flp</em> 3, 10-11; <em>Rom</em> 8, 17; <em>2 Cor</em> 1, 5)? Assim o vosso trabalho, continuando a ser profissionalmente qualificado, pode transformar-se em autêntico apostolado.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Por meu lado, invoco de coração sobre vós copiosas graças celestiais. Seja o Senhor quem leve à plena maturidade tudo o que semeastes no vosso Capítulo, de maneira que produza frutos abundantes, dignos tanto do Evangelho que vos inspira, quanto do homem que servis.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Destes votos cordiais é penhor a especial Bênção Apostólica, que de boa vontade concedo a vós e a todos os beneméritos Religiosos da Ordem dos &#8220;Fatebenefratelli&#8221;.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Fonte:</span><a href="http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/speeches/1979/december/documents/hf_jp-ii_spe_19791213_fatebenefratelli_po.html"><span style="color:#000000;">http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/speeches/1979/december/documents/hf_jp-ii_spe_19791213_fatebenefratelli_po.html</span></a></p>
<h1 style="text-align:justify;"><span style="color:#99cc00;">Vida de São João de Deus</span></h1>
<p><span style="color:#000000;">CRONOLOGIA:</span></p>
<p><span style="font-family:book antiqua,palatino;"><span style="font-size:small;"><span style="color:#000000;"><strong>1495<br />
</strong>Nasce S. João de Deus (João Cidade) em Montemor-o-Novo &#8211; Évora. </span></span></span></p>
<p><span style="font-family:book antiqua,palatino;"><span style="font-size:small;"><span style="color:#000000;"><strong>1503</strong><br />
Deixa a sua casa e fixa-se em Oropesa (Espanha).</span></span></span></p>
<p><span style="font-family:book antiqua,palatino;"><span style="font-size:small;"><span style="color:#000000;"><strong>1520<br />
</strong>Morre o seu Pai num convento em Lisboa. </span></span></span></p>
<p><span style="font-family:book antiqua,palatino;"><span style="font-size:small;"><span style="color:#000000;"><strong>1523</strong><br />
Combate no Exército de Carlos V, na reconquista aos franceses de Fuenterrabia, nos Pirineus.</span></span></span></p>
<p><span style="font-family:book antiqua,palatino;"><span style="font-size:small;"><span style="color:#000000;"><strong>1524</strong><br />
Regressa a Oropesa. </span></span></span></p>
<p><span style="font-family:book antiqua,palatino;"><span style="font-size:small;"><span style="color:#000000;"><strong>1532</strong><br />
Novamente soldado. Agora em Viena contra os turcos.</span></span></span></p>
<p><span style="font-family:book antiqua,palatino;"><span style="font-size:small;"><span style="color:#000000;"><strong>1533<br />
</strong>Regressa a Montemor-o-Novo. Segue para Sevilha.</span></span></span></p>
<p><span style="font-family:book antiqua,palatino;"><span style="font-size:small;"><span style="color:#000000;"><strong>1535</strong><br />
Dirige-se a Ceuta (portuguesa); trabalha na fortificação da cidade e ajuda uma família em extrema necessidade.</span></span></span></p>
<p><span style="font-family:book antiqua,palatino;"><span style="font-size:small;"><span style="color:#000000;"><strong>1538<br />
</strong>Volta a Espanha e vende livros em Gibraltar. Transfere-se depois para Granada onde abre uma pequena livraria.</span></span></span></p>
<p><span style="font-family:book antiqua,palatino;"><span style="font-size:small;"><span style="color:#000000;"><strong>1539</strong><br />
Em 20 de Janeiro, durante o sermão da festa de S. Sebastião passa por uma crise de conversão que o leva ao hospital, dado como louco.</span></span></span></p>
<p><span style="font-family:book antiqua,palatino;"><span style="font-size:small;"><span style="color:#000000;"><strong>1539</strong><br />
No Outono funda um hospital na Rua Lucena.</span></span></span></p>
<p><span style="font-family:book antiqua,palatino;"><span style="font-size:small;"><span style="color:#000000;"><strong>1546<br />
</strong>Recebe os primeiros discípulos: Antão Martin e Pedro Velasco</span></span></span></p>
<p><span style="font-family:book antiqua,palatino;"><span style="font-size:small;"><span style="color:#000000;"><strong>1547</strong><br />
Transfere o seu hospital para um edifício maior, antigo convento, na Encosta de Los Gomeles.</span></span></span></p>
<p><span style="font-family:book antiqua,palatino;"><span style="font-size:small;"><span style="color:#000000;"><strong>1548<br />
</strong>Vai a Valladolid à corte pedir auxílio ao Príncipe Filipe (II).</span></span></span></p>
<p><span style="font-family:book antiqua,palatino;"><span style="font-size:small;"><span style="color:#000000;"><strong>1549<br />
</strong>Salva os doentes do Hospital Real incendiado.</span></span></span></p>
<p><span style="font-family:book antiqua,palatino;"><span style="font-size:small;"><span style="color:#000000;"><strong>1550<br />
</strong>A 8 de Março morre na Casa dos Pisas, em Granada.</span></span></span></p>
<p><span style="font-family:Book Antiqua;font-size:small;"><span style="color:#000000;">Fonte:</span><a href="http://www.isjd.pt/"><span style="color:#000000;">http://www.isjd.pt/</span></a></span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"><span style="color:#000000;">João nasceu na cidade de Montemor-o-Novo (Évora, Portugal), em 1495. Com oito anos de idade, juntamente com um clérigo que pernoitou em sua casa, foi para a Espanha e fixou-se em Oropesa (Toledo) ao serviço da família de Francisco Cid Maioral, que se dedicava à criação de gado. Acompanhado por essa família decorreu quase a metade da sua vida. João foi pastor durante quase vinte anos. Todos apreciavam o seu trabalho. Durante esse tempo foi amadurecendo o verdadeiro sentido da sua vida, passando pelas vicissitudes próprias da adolescência e juventude. Por duas vezes saiu de Oropesa e ambas para integrar contingentes militares. Em 1</span><a href="http://biografiadossantos2.files.wordpress.com/2010/08/sao-joao-de-deus.jpg"></a><span style="color:#000000;">523 deslocou-se até à fronteira com a França, em Fuenterrabía. Nesta experiência, porém, não se saiu muito bem e chegou a estar condenado a morte. Regressou a Oropesa, vencido. Em 1532 seguiu para Viena (Áustria) para combater os Turcos. E já não voltaria mais a Oropesa. Ao regressar de Viena, de barco, entrou na Espanha pela Galiza, visitou o santuário de S. Tiago de Compostela e dirigiu-se à sua terra natal, Montemor-o-Novo, onde teve notícia da morte dos pais e não encontrou quase ninguém conhecido. Sentiu então, fortemente o chamado a seguir Jesus Cristo, dedicando-se aos pobres e aos doentes. Convidado a ficar, preferiu seguir de novo para Espanha, sem rumo definido, mas inquieto. Ficou alguns meses em Sevilha, depois Ceuta e Gibraltar, finalmente, Granada, onde se estabeleceu como livreiro. </span></span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Vendia livros de cavalaria, mas também de conteúdo e caráter religioso, pelos quais cobrava mais barato. Em 1537, escutando um sermão de S. João de Ávila no eremitério dos Mártires, sentiu-se profundamente tocado&#8230; saiu do eremitério aos gritos, dizendo-se grande pecador, atirando-se no chão e, destruiu a sua livraria…  Escolheu como guia espiritual S. João de Ávila. Foi em peregrinação ao Santuário da Virgem de Guadalupe, onde aproveitou para aprender algumas técnicas para cuidados básicos de saúde na escola de medicina dos monges e no regresso, passou por Baeza, onde permaneceu com o seu Mestre durante algum tempo. Depois voltou novamente para Granada, onde iniciou a sua atividade de ajuda aos pobres, doentes e necessitados, fundando um hospital bem diferente dos existentes. Começou do nada. Na cidade, todos pensavam que se tratava de uma nova forma de loucura. Mas, aos poucos compreenderam a sua verdadeira sensatez. </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Trabalhava, pedia esmolas, recolhia os pobres, dedicava-se a eles… De início, sozinho; depois, progressivamente, foram unindo-se a ele outras pessoas, voluntários, benfeitores e os primeiros discípulos. Era muito original a maneira como pedia esmola, utilizando a expressão: “Irmãos fazei o bem a vós mesmos, ajudando aos pobres”. Foi pioneiro na história da humanidade ao separar os doentes por patologia e ao dar um leito para cada paciente. Foi um profeta da caridade. </span></p>
<blockquote>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Aos 43 anos vivia na cidade de Granada, tocado por Deus e pela situação de abandono e marginalização que viviam os pobres e os doentes, deu uma virada radical em sua vida e passou da compaixão à ação. Interiorizou a convicção de que qualquer mulher e qualquer homem eram seus irmãos e passou a viver para todos os que precisavam: &#8220;chagados, tolhidos, incuráveis, feridos, desamparados, tinhosos, loucos, prostitutas, mendigos, andarilhos, órfãos, pobres envergonhados&#8230; todos, aqui, tem um lugar&#8221; dizia João em uma de suas cartas.</span></p>
</blockquote>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> Por volta do ano 1539 fundou um hospital, inovador para a época, ao qual deu o nome de &#8220;Casa de Deus&#8221;, já que em cada paciente via o próprio Cristo. Nesta casa eram acolhidas todas as pessoas, sem distinção. Com a colaboração de alguns companheiros que se juntaram a ele, organizou a assistência conforme considerava que os pobres mereciam. O povo vendo tanta bondade nele começou a chamá-lo João de Deus, o Bispo de Tuy vendo que era verdade o que sobre João diziam, lhe mudou o nome de João Cidade para João de Deus. Convidava as pessoas a fazer o bem a si mesmas ajudando aos que mais precisavam, pois estava convicto de que quando alguém faz o bem aos outros é para si mesmo o bem maior. João de Deus pronunciava estas palavras com a autoridade de quem tinha feito a experiência. Ele se sentia o menor de todos e era feliz por sê-lo. Com a coragem dos profetas e uma postura de não-violência, denunciou as injustiças sociais, desmandos morais e a desumanização dos cuidados em hospitais. Foi voz para os fracos e excluídos em meio a uma sociedade marcada pelo egoísmo, fanatismo religioso e muitas injustiças. Resumimos a sua postura de acolhimento integral às pessoas com a palavra HOSPITALIDADE . </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Ela era misericodiosa, solidária, holística, criativa, profética e geradoras de seguidores. Sua hospitalidade não conhecia fronteiras. Seu estilo atraiu muitos discípulos. Estes, ajudados por muitos, continuaram e ainda continuam o seu trabalho. Fundaram outros hospitais, embarcaram em muitas missões. Em 1572 o Papa reconheceu-os como Instituto Religioso para o carisma da Hospitalidade, considerando que, &#8220;era a flor que faltava no jardim da Igreja&#8221;. Hoje, os Irmãos de São João de Deus estão presentes nos cinco continentes em 50 países, com cerca de 300 obras apostólicas. São João de Deus é o patrono dos doentes, dos hospitais e dos enfermeiros. No dia 8 de Março de 1550, de joelhos, entregou a sua alma a Deus. Tinha nas mãos um crucifixo. Morreu como tinha vivido: de joelhos perante Deus, abraçando a cruz redentora de Cristo. João de Deus soube arriscar tudo pela causa que servia. Arriscou a saúde, a fama, a vida! A sua festa celebra-se no dia 8 de Março. </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span><span style="color:#000000;">É sabido que São João de Deus fazia o bem a todos quanto pudesse e até o que não pudesse. Seus inscritos e suas cartas relatam que ele se endividou a fim de poder acolher a todos que necessitassem e não lhes deixar faltar nada. Pedia esmolas dia e noite e dedicava a sua vida inteiramente ao próximo. Algumas histórias são contadas por terem um teor inusitado.Estão a seguir: </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">O MENDIGO QUE NÃO ERA POBRE:</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> Ocorreu que um homem, desconfiado de João de Deus e da &#8220;loucura&#8221; com que dizia levar a sua vida &#8211; porque para muitos trata-se de verdadeira loucura abandonar a própria vida em favor dos outros &#8211; quis testar a João de Deus para saber se ele realmente usava as esmolas que conseguia para cuidar dos pobres. Ao ver João de Deus aproximar-se pelo caminho, deu-lhe uma esmola. Saiu dali apressadamente, vestiu-se de mendigo a fim de lhe testar a caridade e foi para a beira do caminho solicitar ajuda a São João de Deus. Qual não foi a surpresa do homem quando João de Deus tirou dos bolsos tudo o que tinha e entregou-lhe tudo sem hesitar. Com isso, o homem converteu-se, aderiu a causa do Santo e passou a ser Colaborador de sua obra. </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">AS CORTINAS QUE ALIMENTAM OS POBRES:</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Certo dia, chegando João de Deus a casa de um rico, percebeu ele que as janelas de sua casa possuiam belas cortinas. Todas elas aveludadas e grossas. É sabido que na Espanha, assim como em toda Europa, os invernos são muito rigorosos e milhares de pessoas acabavam morrendo de frio por serem muito pobres. Os mesmos pobres os quais cuidava São João de Deus. Observando aquilo, João de Deus disse ao homem que enquanto as janelas de sua casa eram cobertas por cortinas luxuosas, com tecidos finos, os seus pobres morriam de frio por falta de roupas. O homem sentiu-se tão envergonhado com tal comentário, que mandou que fossem retiradas todas as cortinas da casa e serem entregues a João de Deus. Ao recebê-las, João de Deus agradeceu-lhe. E imediatamente perguntou ao homem se não gostaria de comprar as tais cortinas, pois estava precisando de dinheiro para os pobres. </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">ORAÇÃO A SÃO JOÃO DE DEUS Senhor, que inflamastes São João de Deus no fogo da caridade para que fosse na terra o Apóstolo dos pecadores, Socorro dos pobres e Saúde dos doentes; no céu o constituístes Alívio dos que sofrem, Padroeiro e Modelo dos profissionais de saúde. Concedei-nos, por sua intercessão, a graça que neste momento vos pedimos, prometendo imitá-lo nas suas virtudes, na construção do Vosso Reino de Paz, Justiça, Amor e Misericórdia. Por nosso Senhor Jesus Cristo Vosso Filho na unidade do Espírito Santo. Amém.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"><span style="color:#000000;">Fonte:</span><a href="http://www.ohbrasil.org.br/index.php?id=6"><span style="color:#000000;">http://www.ohbrasil.org.br/index.php?id=6</span></a></span></p>
<p style="text-align:justify;"><strong><span style="color:#000000;">CARTA A LUÍS BAPTISTA</span></strong></p>
<p style="text-align:justify;"><strong><span style="color:#000000;"> </span></strong><span style="color:#000000;">1. Em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo e de Nossa Senhora, a Virgem Maria sempre intacta. Deus antes e acima de todas as coisas do mundo (1). Deus vos salve, meu irmão em Jesus Cristo e meu filho muito amado, Luís Baptista.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span><span style="color:#000000;">2. Recebi uma carta vossa que me enviastes de Jaén, a qual me deu muito prazer e me causou muita satisfação; contristou-me no entanto a vossa dor de dentes, pois me penaliza todo o vosso mal e me regozijo com o vosso bem.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span><span style="color:#000000;">3. Mandais-me dizer que não encontrastes aí o que procuráveis, e por outro lado dizeis-me que quereis ir a Valença ou não sei aonde. Não sei o que vos diga.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span><span style="color:#000000;">4. É tão urgente que vos envie esta carta que a estou a escrever à pressa e quase nem tenho tempo de encomendar o assunto a Deus; no entanto é necessário encomendá-lo muito a Nosso Senhor Jesus Cristo e com mais vagar do que tenho agora.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span><span style="color:#000000;">5. Vendo eu como sois muitas vezes tão fraco, particularmente no que respeita a mulheres, não sei que vos diga sobre mandar-vos vir para aqui; mesmo o Pedro não se foi embora,nem sei quando o fará; ele diz que quer ir, mas não sei ao certo quando será a partida.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span><span style="color:#000000;">6. Se eu tivesse a certeza de que aqui aproveitaríeis para a vossa alma e para a de todos, mandar-vos-ia vir imediatamente; mas tenho medo que se dê o contrário. Parece-me que por agora seria melhor sujeitar-vos durante algum tempo a uma vida austera, até poderdes vir bem acostumado a trabalhos e dias de grandes reveses e a outros mais bem sucedidos. Por outro lado, parece-me que, se nessa viagem vos haveis de ir perder, seria muito melhor que voltásseis. Mas nisto só Deus é que sabe o que é melhor e mais acertado.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span><span style="color:#000000;"> </span><span style="color:#000000;">7. Por isso me parece conveniente que, antes de deixar essa cidade, encomendeis muito o caso a Nosso Senhor Jesus Cristo e eu também aqui faça o mesmo. Para isso, escrevei-me muito a miúdo e pedi informações aos peregrinos que vão de um lado para o outro, e eles vos dirão como está essa terra de Valença. Se lá fordes, não deixeis de visitar o santo corpo de S. Vicente Ferrer.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span><span style="color:#000000;">8. Parece-me que andais como barco sem remos (2), de modo que muitas vezes me deixais também na dúvida e como que desorientado, pois ambos, eu e vós, ficamos sem saber o que fazer. Mas como Deus é quem tudo sabe e pode remediar, Ele nos dê remédio e entendimento a todos. 9. Ora, como a mim me parece que andais como pedra movediça, será conveniente que procureis mortificar um pouco a vossa carne, levando vida difícil, com fome e sede, humilhações e cansaços, angústias, trabalhos e contrariedades. Tudo isto o deveis sofrer por Deus, pois, se para cá vierdes,tereis de passar tudo isto  por amor de Deus, e por tudo lhe haveis de dar muitas graças, tanto pelo bem como pelo mal (3). 10. Lembrai-vos de Nosso Senhor Jesus Cristo e da sua bendita Paixão pois retribuía com o bem o mal que Lhe faziam.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span><span style="color:#000000;">Assim haveis de fazer vós, meu filho Baptista, para que, se vierdes para a casa de Deus, saibais conhecer o mal e o bem. Mas se vós de todo em todo soubésseis que com essa ida vos havíeis de perder, mais valeria voltar para aqui ou para Sevilha, para onde Nosso Senhor mais vos guiasse.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span><span style="color:#000000;">11. Mas se vierdes para aqui, haveis de obedecer muito e trabalhar muito mais do que tendes trabalhado, e tudo em coisas de Deus, e desvelar-vos no serviço dos pobres. A casa está aberta para vós. Queria ver-vos chegar o melhor possível, como filho e irmão.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span><span style="color:#000000;">12. É natural que me não compreendais bem nesta carta porque estou com muita pressa e não vos posso escrever mais longamente; mesmo não sei se o Senhor será servido que venhais já para esta casa ou se quererá que continueis a padecer por aí. Mas lembrai-vos de que, se vierdes, haveis de vir de verdade e vos haveis de guardar muito das mulheres (4) como do diabo.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">13. Vai-se aproximando o tempo de escolherdes um estado de vida. Se vierdes para aqui, tendes de oferecer algum fruto a Deus e haveis <em>de deixar a pele e as correias</em>. Lembrai-vos de S. Bartolomeu, a quem esfolaram e levou a pele às costas. Se para cá vierdes, não há-de ser senão para trabalhar e não para folgar (5), pois ao filho mais querido é que se confiam os trabalhos mais difíceis.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span><span style="color:#000000;">14. Quanto a virdes para aqui, fazei o que vos parecer melhor e Deus vos inspirar. Se por agora achardes melhor correr mundo, em busca de alguma acção em que melhor sirvais a Deus, falei tudo como Ele quiser e for servido, à semelhança daqueles que demandam as Índias à procura de fortuna. Mas fazei-o de modo que sempre me possais escrever de onde quer que vos encontreis.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span><span style="color:#000000;">15. Todos os dias da vossa vida tende Deus diante dos olhos (6); ouvi sempre Missa inteira; confessai-vos com frequência, se for possível; não durmais nenhuma noite em pecado mortal.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span><span style="color:#000000;"><em>CARTAS </em>132 <em>DE S. JOÃO DE DEUS</em></span></p>
<p style="text-align:justify;"><em><span style="color:#000000;"> </span></em><span style="color:#000000;">Amai a Nosso Senhor Jesus Cristo sobre todas as coisas do mundo (7), pois, por muito que O ameis, muito mais vos ama Ele. Tende sempre caridade (8), porque onde não há caridade não há Deus, embora Ele esteja em todo o lugar.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">16. Logo que possa, irei apresentar a Lebrija os vossos cumprimentos. Já entreguei a vossa carta ao Baptista que está na cadeia; ficou muito contente com ela. Eu disse-lhe que escrevesse logo a resposta, para vos mandar a carta. Agora vou ver se já a escreveu, para eu vo-la mandar.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span><span style="color:#000000;">Aceitai recomendações de todos. Apresentei os vossos cumprimentos a todos, grandes e pequenos, à Ortiza e ao Miguel. O Pedro diz que, se vierdes, ficareis com ele até se ir embora, e igualmente se voltar outra vez. 17. Nada mais tenho a dizer-vos, a não ser que Deus vos salve, vos guarde e encaminhe no seu santo serviço, a vós e a todas as pessoas do mundo. Termino a carta mas não as orações que dirijo a Deus por vós e por todos (9). Devo dizer-vos que me tenho dado muito bem com o Rosário e que espero em Deus rezá-lo quantas vezes puder e Deus quiser.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span><span style="color:#000000;">18. Já vos disse que, se virdes que vos haveis de perder com essa viagem,</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">façais o que vos parecer melhor. Antes de partir dessa cidade, mandai dizer algumas Missas ao Espírito Santo e aos Santos Reis, se tiverdes com quê; se não, basta a boa vontade; e se nem isso bastar, baste a graça de Deus (10). 19. O irmão menor de todos, João de Deus, se Deus quiser, morrendo, mas entretanto calando e em Deus esperando, escravo de Nosso Senhor Jesus Cristo, desejoso de O servir. Amém Jesus. Embora não seja tão bom escravo como outros, pois muitas vezes sou velhaco para com Ele e muitas vezes Lhe sou traidor, ainda que muito me pese disso e muito mais me devesse pesar, que Deus me queira perdoar a mim e a todos queira salvar.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span><span style="color:#000000;">20. Escrevei-me a dizer tudo o que se passar convosco por aí. Mando-vos dentro desta uma carta que me enviaram para eu vos entregar. Não a quis abrir para vos ser leal. Não sei se é para vós, se para o Baptista da cadeia. Se for para o da cadeia, lede-a e mandai-ma para lhe ser entregue. Se o Baptista já tiver escrito a sua carta, irá com estas duas. Agora ficai com Deus e andai com Deus (11).</span></p>
<p style="text-align:justify;"><em><span style="color:#000000;"> </span></em><span style="color:#000000;"><em>CARTAS </em>134 <em>DE S. JOÃO DE DEUS</em></span></p>
<p style="text-align:justify;"><em><span style="color:#000000;"> </span></em><strong><span style="color:#000000;">1.ª CARTA A GUTERRES LASSO</span></strong></p>
<p style="text-align:justify;"><strong><span style="color:#000000;"> </span></strong><span style="color:#000000;">21. Em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo e de Nossa Senhora, à Virgem Maria sempre intacta. Deus antes e acima de todas as coisas do mundo. Deus vos salve, meu irmão em Jesus Cristo, Guterres Lasso, a vós, a toda a vossa companhia e a quantos Deus quiser e for servido. Amém Jesus. 22. Serve a presente para vos fazer saber que cheguei muito bem de saúde, graças a Deus, e que trouxe mais de cinquenta ducados. Com o que aí tendes e o que trouxe creio que andarão por cem ducados. Desde que vim já me empenhei em trinta ducados ou mais, de modo que nem estes nem esses são suficientes, pois tenho mais de cento e cinquenta pessoas a sustentar, e a tudo Deus acorre cada dia. Se a esses vinte e cinco ducados que aí tendes pudésseis juntar mais alguma coisa, (bom seria), pois tudo é bem preciso. Mandai-me quantos pobres chagados aí houver; mas se não puder ser, paciência.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span><span style="color:#000000;">23. Mandai-me quanto antes os vinte e cinco ducados, pois esses e muitos mais já eu devo e estão à espera deles. Por sinal que vo-los entreguei numa taleiguinha de linho, no vosso jardim das laranjeiras, uma noite que lá entrámos a passear. Espero em Nosso Senhor Jesus Cristo que um dia passeareis no jardim celeste. 24. O recoveiro estava com muita pressa e por isso não pude escrever mais largamente, e também porque tenho tido aqui tanto trabalho que não tenho vago sequer o espaço dum Credo. Por amor de Nosso Senhor Jesus Cristo mandai-me sem demora esse dinheiro, pois estão sempre a insistir comigo por causa dele.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span><span style="color:#000000;">25. Por amor de Nosso Senhor Jesus Cristo, recomendai-me ,à muito nobre, virtuosa e generosa serva de Nosso Senhor Jesus Cristo, vossa mulher, a qual tanto deseja servir e agradar a Nosso Senhor Jesus Cristo e a Nossa Senhora, a Virgem Maria sempre intacta, e por amor de Deus obedecer e servir a seu marido, Guterres Lasso, servo de Nosso Senhor Jesus Cristo e desejoso de O servir. Amém Jesus.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> 2</span><span style="color:#000000;">6. Dai também os meus cumprimentos ao vosso filho, o Arcediago, que andou comigo a pedir a bendita esmola e que é o mais humilde servo dos servos de Nosso Senhor Jesus Cristo e de Nossa Senhora, a Virgem Maria sempre intacta, o qual sempre deseja servir e agradar a Nosso Senhor Jesus Cristo e à sua bendita Mãe, a Virgem Maria Nossa Senhora. Dizei-Lhe que me escreva sem demora, com a ajuda de Deus.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span><span style="color:#000000;">27. Escrevei-me também vós, bom cavaleiro e meu bom irmão em Jesus Cristo, Guterres Lasso, e dai recomendações minhas a todos os vossos filhos e filhas e a quantos entenderdes. Em Málaga saudareis em meu nome e apresentareis os meus cumprimentos ao Bispo e a todos aqueles que quiserdes e entenderdes, pois estou obrigado a rezar por todos (12).</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span><span style="color:#000000;">28. Quanto ao vosso filho, o bom cavaleiro que me parece ser o morgado, será como Deus quiser (13). Nosso Senhor Jesus Cristo o guie nos seus negócios, trabalhos e empreendimentos. Parece-me que, se for da vontade de Deus, será melhor casá-lo o mais depressa possível, se ele manifestar esse desejo (14). Embora eu vos diga o mais depressa possível, nem por isso vos deveis afligir, pois a maior preocupação que haveis de ter será a de pedir a Deus que lhe dê uma boa mulher. Ainda que por agora me pareça bastante jovem, praza a Nosso Senhor Jesus Cristo que na prudência seja homem maduro.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span><span style="color:#000000;">29. Cada um deve abraçar o estado que Deus lhe der (15). Nessas ocasiões, porém, os pais e as mães não se devem deixar tomar de excessivas preocupações e ansiedades, a não ser para pedir a Deus que conceda o estado de graça a todos e a todas.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><strong><span style="color:#000000;"> </span></strong><strong><span style="color:#000000;">2.ª CARTA À DUQUESA DE SESA</span></strong></p>
<p style="text-align:justify;"><strong><span style="color:#000000;"> </span></strong><span style="color:#000000;">71. Em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo e de Nossa Senhora, a Virgem Maria sempre intacta. Deus antes e acima de todas as coisas do mundo. Amém Jesus. Deus vos salve, minha irmã muito amada em Jesus Cristo, muito nobre, virtuosa, generosa e humilde Duquesa de Sesa. Jesus Cristo vos salve e guarde, a Vós, a toda a vossa companhia e a quantos Deus quiser e for servido. Amém Jesus.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span><span style="color:#000000;">72. Serve a presente para vos fazer saber como estou e para vos dar conta de todos os meus trabalhos, necessidades e angústias, que se me aumentam de dia para dia, e ainda mais agora, e cada vez muito mais, tanto pelas dívidas como pelos pobres que vão chegando, muitos dos quais sem roupa, descalços, chagados e cheios de piolhos, de modo que é forçoso que um ou dois homens não façam outra coisa senão escaldar piolhos numa caldeira a ferver. Este trabalho estender-se-á daqui em diante, por todo o Inverno, até ao próximo mês de Maio. Assim, minha Irmã em Jesus Cristo, os meus trabalhos vão aumentando cada dia muito mais.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span><span style="color:#000000;">73. Pois Nosso Senhor Jesus Cristo quis levar para si uma sua filha, a quem muito queria e amava, D. Francisca, filha de D. Bernardino, sobrinho do Marquês de Mondéjar. Nosso Senhor Jesus Cristo deu-lhe tanta graça que, enquanto viveu cá na terra, fez sempre muito bem aos pobres; e a todas as pessoas que lhe pediam por amor de Deus nunca lhe faltava uma bendita esmola para lhes dar, de modo que ninguém deixava a sua casa desconsolado, não só pelas suas palavras sempre boas, como ainda pelo bom exemplo que sempre dava e pela boa doutrina que ensinava esta bemaventurada donzela.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span><span style="color:#000000;">74. Eram tantas as coisas que ela fazia que, para as escrever, seria necessário um grande livro. Dentro em breve escreverei mais longamente sobre esta bem-aventurada donzela D. Francisca, que Nosso Senhor Jesus Cristo quis agora levar para Si, onde está bem e segura, com muita felicidade e descanso, de acordo com a nossa fé e com o que vimos todas as pessoas que a conhecíamos. Pela vontade de Deus, pelas boas obras que Jesus Cristo nela operava e pela graça que lhe dava, a todos fazia bem, tanto pelos conselhos como pela esmola, pois Jesus Cristo lhe dava graça para tudo. Por isso, de acordo com a nossa fé e com o que lhe vimos fazer cá na terra todos os que a conhecíamos, não podemos deixar de acreditar que ela goza agora o eterno descanso com Nosso Senhor Jesus Cristo e com todos os Anjos da Corte do Céu.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span><span style="color:#000000;">75. Muito sentiram a sua morte todos os que a conheciam, tanto pobres como ricos; e com muita razão, e muito mais, o havia de sentir eu mais que ninguém, pelo conforto e bom conselho que sempre me dava, pois, por mais desanimado que eu chegasse à sua casa, não saía de lá sem consolação e bom exemplo. Mas, uma vez que Nosso Senhor foi servido levar-nos tão grande bem, bendito seja Ele para sempre, pois melhor sabe o que faz e nos convém do que nós podemos pensar (57).</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span><span style="color:#000000;">76. Minha Irmã muito amada em Jesus Cristo, quis dar-vos conta dos meus trabalhos, angústias e necessidades porque sei que vos compadeceis de mim como eu faria a vosso respeito. Muito vos devo, boa Duquesa, e nunca o esquecerei, pelo tão bom acolhimento que me fizestes, melhor do que eu merecia. Nosso Senhor Jesus Cristo vo-lo pague no Céu e vos traga com saúde o bom Duque de Sesa, vosso muito humilde marido, e vos dê filhos de bênção, para que com eles O sirvais e ameis sobre todas as coisas do mundo. 77. Confiai só em Jesus Cristo (58), que o vosso marido virá muito brevemente e com saúde do corpo e da alma, e não estejais aflita nem desanimada, pois daqui em diante vos sentireis mais alegre do que tendes estado até aqui; e vereis que é verdade o que eu vos disse, se confiardes só em Jesus Cristo. Deus antes a acima de todas as coisas do mundo, pois eu não sei nada; Jesus Cristo é que tudo sabe (59), e com a sua ajuda haveis de ser consolada muito em breve com a presença do vosso muito humilde marido, a quem eu muito quero e estimo e a quem sou tão devedor, a ele e a todos os seus.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span><span style="color:#000000;">78. Muitas vezes me tem ele tirado de embaraços e me tem desempenhado e consolado com a sua bendita esmola, a qual já os Anjos assentaram no livro da vida, no Céu, onde tem acumulado um grande tesouro (60), para quando fordes para lá, boa Duquesa, poderdes gozar dele para sempre, vós e o vosso humilde marido, o bom Duque de Sesa. Praza a Nosso Senhor Jesus Cristo trazê-lo depressa diante dos vossos olhos e vos dê filhos de bênção, para que sempre deis graças a Nosso Senhor Jesus Cristo, como sempre lhe dais, por tudo o que Ele faz e nos dá. Pois, se algumas vezes nos dá trabalho e aflições, é para nosso proveito e para merecermos mais (61).</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span><span style="color:#000000;">79. Não encontro melhor remédio nem consolação, para quando me encontro aflito, do que olhar e contemplar a Jesus Cristo crucificado e meditar na sua santíssima Paixão e nos trabalhos e angústias que padeceu nesta vida; e tudo por nós, pecadores, maus, ingratos e mal-agradecidos. Ora, vendo nós como o Cordeiro sem mancha sofreu tantas humilhações sem as merecer, como ousaremos procurar descanso e prazer (62) numa terra onde tantos males e penas infligiram a Jesus Cristo que nos criou e remiu? Que esperamos nós ter?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">80. E assim, boa Duquesa, se bem repararmos, esta vida não é senão uma contínua guerra (63) em que sempre vivemos, enquanto estivermos neste desterro e vale de lágrimas, sempre combatidos por três inimigos mortais, que são o mundo, o demónio e a carne (64).</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span><span style="color:#000000;">81. O mundo procura atrair-nos com vícios e riquezas, prometendo-nos vida longa e dizendo: anda para a frente, que ainda és novo, goza a bom gozar, que na velhice te emendarás.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span><span style="color:#000000;">82. O demonio está sempre a armar-nos laços e a estender-nos redes, para neles tropeçarmos e cairmos (65) e deixarmos de fazer o bem e a caridade, metendo-nos nos cuidados dos bens temporais, para que não nos lembremos de Deus nem do cuidado que devemos ter com a nossa alma, purificando-a e revestindo-a de boas obras. Antes, saídos de um cuidado nos metemos noutro; ou então dizemos: agora, logo que acabe este serviço, quero emendar a minha vida. Assim, de agora em agora, nunca mais acabamos de nos livrar dos ardis do demónio, até que chega a hora da morte e vemos ser falso tudo o que o mundo e o demónio prometem. Ora, uma vez que, conforme nos achar o Senhor, assim nos há-de julgar (66), será bom que nos emendemos a tempo e não façamos como aqueles que dizem: amanhã, mais amanhã, e nunca mais começam (67).</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span><span style="color:#000000;">83. O outro inimigo, que é o maior, e que, como ladrão de casa e doméstico, procura, com boas palavras e bons modos, levar-nos sempre à perdição, é a carne (68), o nosso corpo, que não quer senão bom comer, bom beber e bem vestir, dormir muito e trabalhar pouco, luxúria e vaidade. 84. Para vencer estes três inimigos, muito precisamos da protecção (69), ajuda e graça de Jesus Cristo, de nos desprezarmos inteiramente a nós mesmos (70), pelo tudo que é Jesus Cristo, confiando só n&#8217;Ele e confessando a verdade e todos os pecados aos pés do confessor, cumprindo a penitência que ele nos impuser e propondo nunca mais pecar, só por amor de Jesus Cristo. E, se pecarmos, confessar-nos com frequência. 85. É deste modo que poderemos vencer os inimigos de que</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">A chamada (13) não é referenciada no original. Confirmar a marcação.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span><span style="color:#000000;">E não confiemos em nós mesmos, pois mil vezes ao dia cairemos em pecado se não confiarmos só em Jesus Cristo. Só por seu amor e bondade procuremos não pecar nem murmurar, não fazer mal nem causar dano ao próximo, antes querer para ele o que desejaríamos que nos fizessem a nós (71); desejar que todos se salvem e amar e servir só a Jesus Cristo, por Ele ser quem é e não pelo temor do Inferno.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span><span style="color:#000000;">Se for possível, seja o confessor bom e douto, de boa fama e vida exemplar. Tudo isto, minha irmã em Jesus Cristo, melhor o sabeis vós do que eu; por isso, quando me quiserdes mandar algum bom conselho, recebêlo- ei de muito boa vontade, como de minha irmã em Jesus Cristo. 86. E agora, minha muito amada e querida irmã, mandai-me dizer como estais e como passais, depois de terem partido D. Álvaro e D. Bernardino, vossos muito nobres, virtuosos e humildes tios e meus irmãos em Jesus Cristo, a quem eu muito estimo. Deus lhes pague o bom acolhimento que, onde quer que me encontrem, sempre me fazem e têm feito. Nosso Senhor receba um dia no Céu as suas almas e os faça agora chegar de boa saúde à presença da vossa humilde mãe, D. Maria de Mendoza, muito nobre, virtuosa e generosa, a qual sempre deseja agradar e servir a Nosso Senhor Jesus Cristo.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span><span style="color:#000000;">87. Mandai-me dizer como eles chegaram e como passam, e mandai-me igualmente algumas boas notícias do bom Duque, vosso muito humilde marido, pois de todo o seu bem muito me regozijo; como passa ele, como está e onde se encontra. Praza a Nosso Senhor Jesus Cristo trazê-lo em breve, e com saúde do corpo e da alma, a ele, a toda a sua companhia e a quantos Deus quiser e for servido. Amém Jesus.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span><span style="color:#000000;">88. Oh, minha irmã muito amada, boa e humilde Duquesa! Como estais só e isolada nesse castelo de Baena, rodeada das vossas muito virtuosas donzelas e damas muito honradas e honestas, a trabalhar e a bordar de noite e de dia, para não estardes ociosa nem gastardes o tempo inutilmente! Quereis seguir o exemplo de Nossa Senhora, a Virgem Maria sempre intacta, a qual, sendo Mãe de Deus, Rainha dos Anjos e Senhora do Mundo, tecia e bordava todo o dia para o seu sustento, e de noite, e parte do dia, orava no seu recolhimento, para dar a entender que, depois do trabalho, devemos dar graças a Nosso Senhor Jesus Cristo, por usar para connosco de tanta misericórdia, dandonos de comer, de beber e de vestir, e todas as coisas sem o merecermos. Se Ele não nos assistisse, que valor teria o nosso trabalho, habilidade e diligência?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">89. Assim, pois, continuai sempre a trabalhar ou a ocupar-vos em obras de misericórdia e fazendo com que todos e todas digam a doutrina cristã e rezem as quatro orações que manda a Santa Madre Igreja, e mandando-as ensinar a quem as não souber. Meditai sempre na Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo e nas suas preciosas Chagas, dizei que mais quereis só a Ele do que a todas as coisas do mundo (72) e que quereis e amais o que Ele quer e ama e detestais o que Ele detesta, e que, por seu amor e bondade e não por outro interesse, quereis fazer o bem e a caridade aos pobres e às pessoas necessitadas.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span><span style="color:#000000;">90. E agora, minha irmã, perdoai-me por ser sempre demasiado extenso ao escrever; e ainda não escrevo tudo o que desejaria, pois estou muito aflito e ainda mal dos olhos e em muita necessidade. Nosso Senhor Jesus Cristo vos faça compreender tudo isto. É que não posso (sozinho) dar conta desta obra que comecei, pois estou a renovar todo o hospital e são muitos os pobres e grande a despesa que aqui se faz, e a tudo se provê sem rendimentos; mas é Jesus Cristo que tudo remedeia, pois eu não faço nada. 91. Eu gostaria de partir já por essa Andaluzia até Zafra e Sevilha, mas não posso enquanto não acabar esta obra, para que não seja trabalho perdido. Por outro lado, estou tão empenhado e em tanta necessidade que nem sei o que fazer. Por isso, minha irmã muito amada em Jesus Cristo, mando-vos aí Angulo para que venda o trigo ou o traga para aqui, conforme vos parecer melhor. Mas, enfim, tenho muita necessidade de dinheiro para esta obra e para pagar algumas dívidas que me arrancam os olhos. Também não tenho com que pagar aos que vierem trazer o trigo, e a despesa é grande. Por isso, parece-me muito melhor vendê-lo. Vede vós, minha irmã, o que vos parece melhor.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span><span style="color:#000000;">92. Angulo leva a cédula do trigo e a minha procuração, que eu mandei fazer ao meu tabelião. Por amor de Nosso Senhor Jesus Cristo que não venha sem algum socorro, de uma maneira ou de outra, pois logo que Angulo chegar partiremos para Sevilha e para Zafra, para ir ter com o Conde de Féria e o Duque de Arcos, agora que lá está o Mestre Ávila, que os foi visitar. Pode ser que Nosso Senhor Jesus Cristo queira que eles me desempenhem de algumas dívidas.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">É melhor ir eu próprio do que mandar cartas, pois eles têm tantas ocupações e pobres a quem dar esmola que, se não estivermos em pessoa diante deles, logo lhes passa da memória o que lhes mandamos dizer. E não me admiro, porque os ricos são muito assediados pelos pobres, que muito os importunam. O Mestre Ávila mandou-me dizer por Angulo que fosse lá. 93. Minha irmã em Jesus Cristo: Jesus Cristo vos pague no Céu a esmola que destes a Angulo para aqueles pobres e para o seu caminho, que foram quatro ducados. Ele já me contou tudo e como vos compadeceis dos meus trabalhos. Perdoai-lhe por não ter podido vir por aí, por causa de umas cartas. Pois, minha irmã muito amada em Jesus Cristo, rogo-vos por amor de Nosso Senhor Jesus Cristo que tenhais dó dos meus trabalhos, angústias e necessidades, para que Deus tenha misericórdia de vós (73) e de tudo o que é vosso e de quantos Deus quiser e for servido. Amém Jesus.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span><span style="color:#000000;">94. Minha irmã, boa Duquesa, dai recomendações minhas à vossa muito virtuosa governanta; que ela rogue por mim, que eu farei o mesmo por ela, e a todas as muito humildes e virtuosas damas e donzelas da vossa nobre casa; que todas roguem a Deus por mim, pois me encontro em grande luta e batalha.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Dareis igualmente as minhas recomendações ao meu irmão muito querido <em>mosén </em>João, e que ele me escreva a dizer como está e como passa; e a todos os cavaleiros e criados da vossa muito nobre casa&#8230;</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span><span style="color:#000000;">96. Vai aí João de Ávila, que é o meu companheiro. Embora eu o trate sempre por Angulo, o seu verdadeiro nome é João de Ávila. Minha irmã muito amada, boa Duquesa de Sesa, mandai-me outro anel ou qualquer coisa do vosso uso, para eu poder empenhar. O outro está bem empregado, pois já o tendes no Céu. Dizei à muito humilde governanta e a todas as damas e donzelas que, se tiverem alguma coisita de ouro ou de prata para oferecer aos pobres e mandar para o Céu (74), ma enviem, para que eu me lembre delas.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span><span style="color:#000000;">Nosso Senhor Jesus Cristo vos salve e guarde, boa Duquesa, a vós e a toda a vossa companhia e a quantos Deus quiser e for servido. Amém Jesus. Sem essa oferta ou com ela, sinto-me muito obrigado a rogar a Deus por todas e por todos os da vossa casa e nobre morada.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">97. Vosso desobediente e mais pequeno irmão, João de Deus, se Deus quiser, morrendo, mas entretanto calando e em Deus esperando, o qual deseja a salvação de todos como a sua própria. Amém Jesus. Boa Duquesa, lembro-me muitas vezes dos presentes que me oferecíeis em Cabra e em Baena, e daqueles pãezinhos fofos que me dáveis. Deus vos dê o Céu e vos faça participante dos seus bens. Amem Jesus. Nota &#8211; O original desta carta encontra-se em Granada, no camarim da Basílica de S. João de Deus.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><em><span style="color:#000000;"> </span></em><span style="color:#000000;"><em>CARTAS </em>162 <em>DE S. JOÃO DE DEUS</em></span></p>
<p style="text-align:justify;"><strong><span style="color:#000000;">RECIBO DE UMA ESMOLA RECEBIDA POR S. JOÃO DE DEUS DE UM FIDALGO DA CIDADE DE GRANADA</span></strong></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">«Digo eu, João de Deus, que recebi de vós, Fernando de Castro, quatro ducados da esmola que vossa mulher, que esteja em glória, mandou que me </span><span style="color:#000000;">fossem dados de esmola para os pobres. Assinei-o com o meu nome e em Granada, a 6 de Dezembro de 1548 anos, com estas minhas três letras».</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Nota – O autógrafo deste recibo está guardado na igreja de S. Basílio na cidadede Córdova (Espanha).</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Fonte: http://www.isjd.pt/</span></p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/biografiadossantos2.wordpress.com/468/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/biografiadossantos2.wordpress.com/468/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/biografiadossantos2.wordpress.com/468/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/biografiadossantos2.wordpress.com/468/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/biografiadossantos2.wordpress.com/468/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/biografiadossantos2.wordpress.com/468/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/biografiadossantos2.wordpress.com/468/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/biografiadossantos2.wordpress.com/468/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/biografiadossantos2.wordpress.com/468/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/biografiadossantos2.wordpress.com/468/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/biografiadossantos2.wordpress.com/468/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/biografiadossantos2.wordpress.com/468/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/biografiadossantos2.wordpress.com/468/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/biografiadossantos2.wordpress.com/468/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=biografiadossantos2.wordpress.com&amp;blog=14156376&amp;post=468&amp;subd=biografiadossantos2&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://biografiadossantos2.wordpress.com/2010/08/17/sao-joao-de-deus/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
	
		<media:content url="" medium="image">
			<media:title type="html">biografiadossantos2</media:title>
		</media:content>

		<media:content url="http://biografiadossantos2.files.wordpress.com/2010/08/sao-joao-de-deus.jpg" medium="image">
			<media:title type="html">SÃO JOÃO DE DEUS</media:title>
		</media:content>
	</item>
		<item>
		<title>São Bernardo de Claraval</title>
		<link>http://biografiadossantos2.wordpress.com/2010/08/13/sao-bernardo-de-claraval/</link>
		<comments>http://biografiadossantos2.wordpress.com/2010/08/13/sao-bernardo-de-claraval/#comments</comments>
		<pubDate>Fri, 13 Aug 2010 16:25:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>biografiadossantos2</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://biografiadossantos2.wordpress.com/?p=461</guid>
		<description><![CDATA[                                                               CARTA ENCÍCLICA DO PAPA PIO XII DOCTOR MELLIFLUUS(*) SOBRE O VIII CENTENÁRIO DA MORTE DE  SÃO BERNARDO DE CLARAVAL  Aos veneráveis irmãos Patriarcas, Primazes, Bispos e outros Ordinários,  em paz e comunhão com a Sé Apostólica  INTRODUÇÃO 1. O doutor melífluo, &#8220;último dos padres, mas certamente não inferior aos primeiros&#8221;(1), distinguiu-se por tais [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=biografiadossantos2.wordpress.com&amp;blog=14156376&amp;post=461&amp;subd=biografiadossantos2&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><span style="color:#000000;"><span style="color:#663300;font-size:small;"><strong><a href="http://biografiadossantos2.files.wordpress.com/2010/08/sao-bernardo-de-claraval.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-462" title="São Bernardo de Claraval" src="http://biografiadossantos2.files.wordpress.com/2010/08/sao-bernardo-de-claraval.jpg?w=337&#038;h=443" alt="" width="337" height="443" /></a>                                                         </strong></span></span></p>
<p style="text-align:center;"><span style="color:#000000;"><span style="color:#663300;font-size:small;"><strong>     CARTA ENCÍCLICA DO PAPA PIO XII</strong></span> </span></p>
<p style="text-align:center;"><em><strong><span style="font-size:medium;"><span style="color:#663300;"><span style="color:#000000;">DOCTOR MELLIFLUUS</span><a name="fnref*"><span style="color:#000000;">(</span></a></span><a href="http://www.vatican.va/holy_father/pius_xii/encyclicals/documents/hf_p-xii_enc_24051953_doctor-mellifluus_po.html#fn*"><span style="color:#000000;">*</span></a><span style="color:#000000;">)</span></span></strong></em></p>
<p style="text-align:center;"><span style="color:#000000;">SOBRE O VIII CENTENÁRIO DA MORTE DE <br />
SÃO BERNARDO DE CLARAVAL</span></p>
<p style="text-align:center;"><span style="color:#000000;"> </span><em><span style="color:#000000;">Aos veneráveis irmãos Patriarcas, Primazes,<br />
Bispos e outros Ordinários, <br />
em paz e comunhão com a Sé Apostólica</span></em></p>
<p><span style="color:#000000;"> </span><strong><span style="color:#000000;">INTRODUÇÃO</span></strong></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">1. O doutor melífluo, &#8220;último dos padres, mas certamente não inferior aos primeiros&#8221;</span><a name="fnref1"><span style="color:#000000;">(</span></a><a href="http://www.vatican.va/holy_father/pius_xii/encyclicals/documents/hf_p-xii_enc_24051953_doctor-mellifluus_po.html#fn1"><span style="color:#000000;">1</span></a><span style="color:#000000;">), distinguiu-se por tais dotes de mente e de espírito, enriquecidos por Deus com dons celestes, que pareceu dominar totalmente nas múltiplas e turbulentas vicissitudes da sua era, por santidade, sabedoria, suma prudência e conselho na ação. Por isso, não só os romanos pontífices e escritores da Igreja católica, mas também não raramente os próprios hereges lhe tributam grandes louvores. E nosso predecessor de feliz memória Alexandre III, quando o inseriu, com universal júbilo, no catálogo dos santos, assim escreveu com veneração: &#8220;&#8230;Evocamos a santa e venerável vida do mesmo bem-aventurado: pois que ele, amparado por singular prerrogativa da graça, não só resplandeceu em santidade e religião, mas também irradiou, em toda a Igreja de Deus, a luz da sua fé e doutrina. Na verdade não há ninguém, por assim dizer, em toda a cristandade que ignore o fruto que ele produziu na casa de Deus com sua palavra e exemplo, visto que difundiu as instituições da nossa santa religião até às terras estrangeiras e bárbaras&#8230; e fez voltar uma infinita multidão de pecadores&#8230; à reta prática da vida espiritual&#8221;.</span><a name="fnref2"><span style="color:#000000;">(</span></a><a href="http://www.vatican.va/holy_father/pius_xii/encyclicals/documents/hf_p-xii_enc_24051953_doctor-mellifluus_po.html#fn2"><span style="color:#000000;">2</span></a><span style="color:#000000;">) &#8220;Ele foi com efeito como escreve o Cardeal Barônio &#8211; homem verdadeiramente apostólico, autêntico apóstolo enviado por Deus, poderoso em obras e palavras, tornando célebre em toda a parte e em todas as coisas o seu apostolado com os prodígios que o acompanhavam, de maneira que se deve dizer que em nada foi inferior aos grandes apóstolos&#8230; ornamento e ao mesmo tempo amparo de toda a Igreja católica&#8221;.</span><a name="fnref3"><span style="color:#000000;">(</span></a><a href="http://www.vatican.va/holy_father/pius_xii/encyclicals/documents/hf_p-xii_enc_24051953_doctor-mellifluus_po.html#fn3"><span style="color:#000000;">3</span></a><span style="color:#000000;">)</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">2. A esses testemunhos de sumo louvor, a que se podiam acrescentar outros sem-número, dirige-se o nosso pensamento, ao andar o oitavo século desde que o restaurador e fomentador da sagrada ordem cisterciense passou piamente desta vida mortal, que ilustrara com tanta luz de doutrina e fulgor de santidade, à suprema vida. E muito nos agrada meditar e escrever sobre seus grandes méritos, de modo que não só os seus seguidores mas todos quantos se deleitam em tudo o que é verdadeiro, belo e santo, sintam o estímulo de seguir os seus preclaros exemplos de virtude.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><em><strong><span style="color:#000000;">Fontes e orientação de sua doutrina</span></strong></em></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">3. A sua doutrina foi embebida quase toda nas páginas da Sagrada Escritura e dos santos padres, que dia e noite tinha à mão e meditava profundamente; não nas sutis disputas dos dialéticos e filósofos, que mais de uma vez parece menosprezar.</span><a name="fnref4"><span style="color:#000000;">(</span></a><a href="http://www.vatican.va/holy_father/pius_xii/encyclicals/documents/hf_p-xii_enc_24051953_doctor-mellifluus_po.html#fn4"><span style="color:#000000;">4</span></a><span style="color:#000000;">) Deve, todavia, notar-se que ele não rejeita a filosofia humana, a genuína filosofia que conduz a Deus, à vida honesta e à sabedoria cristã; mas aquela que, com vã verbosidade e falaz prestígio das cavilações, presume com temerária audácia subir às coisas divinas e sondar todos os segredos de Deus; de maneira a violar &#8211; como freqüentemente acontecia também então &#8211; a integridade da fé e miseravelmente cair na heresia.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">4. &#8220;Vês&#8230; &#8211; escreve ele &#8211; como (s. Paulo apóstolo</span><a name="fnref5"><span style="color:#000000;">(</span></a><a href="http://www.vatican.va/holy_father/pius_xii/encyclicals/documents/hf_p-xii_enc_24051953_doctor-mellifluus_po.html#fn5"><span style="color:#000000;">5</span></a><span style="color:#000000;">)) faz depender o fruto e a utilidade da ciência do modo de saber? Que quer dizer modo de saber? Que quer dizer senão que se saiba com que ordem, com que vontade, para que fim se deva saber? Com que ordem: em primeiro lugar o que mais convém para a salvação; com que vontade: mais ardentemente o que mais acende o amor; para que fim: não por vaidade, ou por curiosidade, ou coisa parecida, mas somente para edificação própria ou do próximo. Há alguns de fato que gostam de saber só por saber; e é curiosidade ignóbil. Outros há que desejam saber para serem conhecidos; e é indigna vaidade. E há também os que desejam saber para vender a sua ciência, por exemplo, por dinheiro, pelas honras; e é vergonhosa mercadoria. Mas há ainda os que querem saber, para edificar, e é caridade. E, finalmente, os que desejam saber para serem educados; e é prudência&#8221;.</span><a name="fnref6"><span style="color:#000000;">(</span></a><a href="http://www.vatican.va/holy_father/pius_xii/encyclicals/documents/hf_p-xii_enc_24051953_doctor-mellifluus_po.html#fn6"><span style="color:#000000;">6</span></a><span style="color:#000000;">)</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">5. A doutrina, ou melhor, a sabedoria que ele segue e ardentemente ama, bem a exprime com estas palavras: &#8220;Há o espírito de sabedoria e de inteligência que, à maneira da abelha que produz cera e mel, tem com que acender a luz da ciência e infundir o sabor da graça. Não espere, portanto, receber o beijo, nem o que compreende a verdade, mas não a ama; nem o que a ama, mas não a compreende&#8221;.</span><a name="fnref7"><span style="color:#000000;">(</span></a><a href="http://www.vatican.va/holy_father/pius_xii/encyclicals/documents/hf_p-xii_enc_24051953_doctor-mellifluus_po.html#fn7"><span style="color:#000000;">7</span></a><span style="color:#000000;">) &#8220;Que faria a ciência sem o amor? Envaideceria. Que faria o amor sem a ciência? Erraria&#8221;.</span><a name="fnref8"><span style="color:#000000;">(</span></a><a href="http://www.vatican.va/holy_father/pius_xii/encyclicals/documents/hf_p-xii_enc_24051953_doctor-mellifluus_po.html#fn8"><span style="color:#000000;">8</span></a><span style="color:#000000;">) &#8220;Só resplandecer é vão; só arder é pouco; arder e resplandecer é perfeito.&#8221;</span><a name="fnref9"><span style="color:#000000;">(</span></a><a href="http://www.vatican.va/holy_father/pius_xii/encyclicals/documents/hf_p-xii_enc_24051953_doctor-mellifluus_po.html#fn9"><span style="color:#000000;">9</span></a><span style="color:#000000;">) Donde nasça, porém, a verdadeira e genuína doutrina, e como deva unir-se com a caridade, assim explica: &#8220;Deus é sabedoria e quer ser amado não só suave mas também sapientemente&#8230; Aliás com muita facilidade o espírito do erro zombará do teu zelo, se desprezares a ciência; nem o astuto inimigo tem instrumento mais eficaz para arrancar do coração o amor, do que conseguir que no mesmo amor se ande incautamente, e não com a razão&#8221;. </span><a name="fnref10"><span style="color:#000000;">(</span></a><a href="http://www.vatican.va/holy_father/pius_xii/encyclicals/documents/hf_p-xii_enc_24051953_doctor-mellifluus_po.html#fn10"><span style="color:#000000;">10</span></a><span style="color:#000000;">)</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">6. Claramente se deduz dessas palavras que s. Bernardo, com o estudo e contemplação, procurou unicamente dirigir para a Suma Verdade os raios de verdade recolhidos de toda a parte, estimulado pelo amor, mais do que pela sutileza das opiniões humanas. Dessa Verdade impetrou luz para as inteligências, chama de caridade para os ânimos, as retas normas para o comportamento moral. É essa a verdadeira sabedoria, que supera todas as coisas humanas e tudo conduz à sua fonte, ou seja a Deus, para lhe converter os homens. O doutor melífluo, na verdade, não se dando na agudeza do seu engenho, procede lentamente através dos incertos e mal seguros meandros do raciocínio; não se baseia nos artifícios e hábeis silogismos, de que abusavam muitas vezes no seu tempo os dialéticos, mas, como águia que procura fitar o sol, com vôo rapidíssimo tende para o vértice da verdade. A caridade, com que agia, não conhece impedimentos e como que dá asas à inteligência. Para ele, a doutrina não é meta última, mas caminho que conduz a Deus; não é coisa fria, em que inutilmente o espírito possa deter-se, como se vagueasse enfeitiçado por flutuantes fulgores, mas é movido, impelido e governado pelo amor. Por isso são Bernardo, amparado por tal sabedoria, meditando, contemplando e amando, eleva-se ao supremo ápice da ciência mística, e une-se com o próprio Deus, gozando já nesta vida mortal a bem-aventurança infinita.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><em><strong><span style="color:#000000;">Seu estilo</span></strong></em></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">7. E depois o seu estilo vivaz, florido, abundante e sentencioso é tão suave e doce que atrai o espírito do leitor, deleita-o e eleva-o para as coisas do alto; excita, alimenta e dirige a piedade; força, enfim, o ânimo a procurar atingir os bens que não são caducos e passageiros, mas verdadeiros, certos e eternos. Por isso os seus escritos foram sempre tidos em grande consideração; e deles a própria Igreja tirou não poucas páginas celestiais e ardentes de piedade para a sagrada liturgia.</span><a name="fnref11"><span style="color:#000000;">(</span></a><a href="http://www.vatican.va/holy_father/pius_xii/encyclicals/documents/hf_p-xii_enc_24051953_doctor-mellifluus_po.html#fn11"><span style="color:#000000;">11</span></a><span style="color:#000000;">) Parecem vivificadas pelo sopro do Espírito Santo e resplandecentes de tal esplendor de luz que nunca se podem apagar no decurso dos séculos, pois nascem da alma de quem escreve, sequioso de verdade e caridade e desejoso de nutrir os outros e conformá-los com a sua imagem.</span><a name="fnref12"><span style="color:#000000;">(</span></a><a href="http://www.vatican.va/holy_father/pius_xii/encyclicals/documents/hf_p-xii_enc_24051953_doctor-mellifluus_po.html#fn12"><span style="color:#000000;">12</span></a><span style="color:#000000;">)</span></p>
<p style="text-align:justify;"><em><strong><span style="color:#000000;">Sua caridade para com Deus</span></strong></em></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">8. Apraz-nos, veneráveis irmãos, citar dos seus livros, para comum utilidade, algumas sentenças, entre as mais belas, acerca desta mística doutrina: &#8220;Ensinamos que toda alma, embora carregada de pecados, enredada nos vícios, escrava das paixões, prisioneira no exílio, encarcerada no corpo,.. ainda que, digo, de tal forma condenada e desesperada; ensinamos que ela pode, todavia, encontrar em si não só com que possa dilatar o espírito na esperança do perdão e da misericórdia; mas até com que ouse aspirar às núpcias do Verbo, não temer estreitar um pacto de aliança com Deus, nem ter receio de levar o suave jugo de amor com o Rei dos anjos. O que é que não pode ousar com segurança junto daquele cuja insigne imagem ela vê em si e cuja esplêndida semelhança ela conhece?&#8221;</span><a name="fnref13"><span style="color:#000000;">(</span></a><a href="http://www.vatican.va/holy_father/pius_xii/encyclicals/documents/hf_p-xii_enc_24051953_doctor-mellifluus_po.html#fn13"><span style="color:#000000;">13</span></a><span style="color:#000000;">) &#8220;Tal conformidade desposa a alma com o Verbo, visto que assim ela se torna semelhante por meio da vontade àquele a quem é semelhante por natureza e o ama como é amada. Portanto se ama perfeitamente, contraiu as núpcias. Que há de mais aprazível do que tal conformidade? Que há de mais desejável do que aquela caridade, que faz com que, tu, ó alma, não contente do magistério humano, por ti mesma te aproximes com confiança do Verbo, estejas sempre unida ao Verbo, interrogues familiarmente o Verbo e o consultes sobre todas as coisas, tanto capaz de compreender quanto és audaz no desejo? É isso realmente um contrato de espiritual e santo conúbio. Disse pouco, contrato: é um abraço, na verdade, em que querer ou não querer a mesma coisa faz de dois um só espírito. Nem há que recear que a diferença das pessoas torne de qualquer maneira imperfeito o acordo das vontades, porque o amor não conhece temor reverencial. De fato amor vem de amar, não de reverenciar&#8230; O amor transborda, o amor; quando chega, assimila e submete todas as outras afeições. Por isso quem ama, ama e mais nada sabe&#8221;.</span><a name="fnref14"><span style="color:#000000;">(</span></a><a href="http://www.vatican.va/holy_father/pius_xii/encyclicals/documents/hf_p-xii_enc_24051953_doctor-mellifluus_po.html#fn14"><span style="color:#000000;">14</span></a><span style="color:#000000;">)</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">9. Depois de ter observado que Deus quer ser amado pelos homens, muito mais que temido e reverenciado, acrescenta com agudeza e sagacidade: &#8220;Ele (o amor) basta por si só, agrada em si mesmo e por causa de si. É mérito e prêmio de si mesmo. O amor não procura motivo, nem fruto, fora de si. O seu fruto é o seu uso. Amo porque amo, amo para amar. Grande coisa é o amor, desde que recorra ao seu princípio, desde que voltando à sua origem, restituído à sua fonte, sempre dela tome o de que perenemente se alimentar. Entre todos os movimentos, sentimentos e afetos da alma, é só no amor que a criatura pode, embora não adequadamente, corresponder ao seu Autor, ou pagar com o mesmo amor&#8221;.</span><a name="fnref15"><span style="color:#000000;">(</span></a><a href="http://www.vatican.va/holy_father/pius_xii/encyclicals/documents/hf_p-xii_enc_24051953_doctor-mellifluus_po.html#fn15"><span style="color:#000000;">15</span></a><span style="color:#000000;">)</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">10. Visto que ele próprio várias vezes experimentou, na contemplação e na oração, esse divino amor com o qual nos podemos unir estreitamente a Deus, do seu espírito saem estas palavras abrasadas: &#8220;Feliz (a alma) que mereceu ser prevenida com a bênção de tão grande suavidade! Feliz, porque teve a graça de experimentar tão grande abraço de felicidade! Isso não é outra coisa senão amor santo e casto, suave e doce; amor tão sereno como sincero; amor mútuo, íntimo e forte, que une dois não numa carne só, mas num só espírito, faz com que dois já não sejam dois, mas um só, como disse s. Paulo:</span><a name="fnref16"><span style="color:#000000;">(</span></a><a href="http://www.vatican.va/holy_father/pius_xii/encyclicals/documents/hf_p-xii_enc_24051953_doctor-mellifluus_po.html#fn16"><span style="color:#000000;">16</span></a><span style="color:#000000;">) &#8216;Quem adora a Deus é um só espírito com ele&#8221;&#8216;.</span><a name="fnref17"><span style="color:#000000;">(</span></a><a href="http://www.vatican.va/holy_father/pius_xii/encyclicals/documents/hf_p-xii_enc_24051953_doctor-mellifluus_po.html#fn17"><span style="color:#000000;">17</span></a><span style="color:#000000;">)</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">11. Essa doutrina mística do Doutor de Claraval, que excede e pode satisfazer todos os desejos humanos, parece em nosso tempo ser desprezada e posta de parte, ou esquecida por muitos, que, impedidos pelos cuidados e negócios cotidianos, não procuram nem desejam outra coisa senão o que é útil e rendoso para esta vida mortal e quase nunca erguem os olhos e o espírito para o céu; quase nunca aspiram às coisas celestiais, aos bens imortais.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">12. Ora, embora nem todos possam atingir o cume de tal contemplação divina, de que fala s. Bernardo com sublimes pensamentos e palavras; embora nem todos possam unir-se tão intimamente a Deus, que se sintam unidos ao Sumo Bem como que pelos vínculos de arcano conúbio celestial; todavia, todos podem e devem elevar de vez em quando o espírito das coisas terrenas às celestes, e amar com vontade apaixonada o Supremo Doador de todos os bens.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><em><strong><span style="color:#000000;">Necessidade desta caridade para nossa época</span></strong></em></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">13. Por isso, enquanto hoje em muitas almas o amor de Deus ou insensivelmente arrefece, ou não raramente até extingue completamente, julgamos que se devem meditar atentamente esses escritos do doutor melífluo; pois da sua doutrina, que de resto brota do Evangelho, tanto na vida particular como na sociedade pode difundir-se uma nova energia sobrenatural, que governe a moralidade pública e a torne conforme com os preceitos cristãos; e possa, assim, proporcionar remédios oportunos a tantos e tão graves males que perturbam e afligem a sociedade. Quando de fato os homens não amam como devem o seu Criador, do qual receberam tudo o que têm, nem sequer entre si se podem amar; por isso &#8211; como muitas vezes acontece &#8211; separam-se e mutuamente se combatem no ódio e na inimizade. Deus, porém, é Pai amorosíssimo de todos; e nós irmãos em Cristo, que ele remiu com o seu sangue. Todas as vezes, portanto, que não correspondemos com o nosso amor ao amor de Deus para conosco, e não reconhecemos com reverência a sua divina paternidade, até os laços do amor fraterno se quebram miseramente, e por desgraça despontam &#8211; como infelizmente às vezes se vê &#8211; as discórdias, os litígios e as inimizades, que podem chegar a ponto de destruir e subverter os próprios alicerces da sociedade humana.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">14. É, portanto, necessário restituir a todos os ânimos esta divina caridade, que tão ardentemente abrasou o Doutor de Claraval, se quisermos que tornem a florescer por toda a parte os costumes cristãos, que a religião católica possa exercer eficazmente a sua missão, e que, sendo sedados os dissídios e restaurada a ordem na justiça e na eqüidade, ao gênero humano cansado e atormentado torne a brilhar serena a paz.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">15. Desta caridade, com que devemos sempre e com grande fervor estar unidos a Deus, sejam inflamados em primeiro lugar os que abraçaram a ordem do doutor melífluo, e todos os sacerdotes aos quais incumbe o dever especial de exortar e excitar os outros a reacenderem o amor divino. Deste divino amor &#8211; como dissemos &#8211; e nunca foi doutro modo, têm grande necessidade especialmente em nosso tempo os cidadãos, a sociedade e a humanidade inteira. Se ele arde e leva os espíritos para Deus, fim último dos mortais, as outras virtudes tornamse fortes; se pelo contrário, ele enfraquece e se extingue, também a tranqüilidade, a paz, a alegria e todos os outros verdadeiros bens pouco a pouco afrouxam e se extinguem completamente, pois que promanam daquele que &#8220;é caridade&#8221;.</span><a name="fnref18"><span style="color:#000000;">(</span></a><a href="http://www.vatican.va/holy_father/pius_xii/encyclicals/documents/hf_p-xii_enc_24051953_doctor-mellifluus_po.html#fn18"><span style="color:#000000;">18</span></a><span style="color:#000000;">)</span></p>
<p style="text-align:justify;"><em><strong><span style="color:#000000;">O contemplativo</span></strong></em></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">16. Desta divina caridade ninguém falou talvez com tal clareza, elevação e ardor como são Bernardo. &#8220;A causa para amar a Deus &#8211; assim diz &#8211; é o próprio Deus; a medida, amá-lo sem medida&#8221;.</span><a name="fnref19"><span style="color:#000000;">(</span></a><a href="http://www.vatican.va/holy_father/pius_xii/encyclicals/documents/hf_p-xii_enc_24051953_doctor-mellifluus_po.html#fn19"><span style="color:#000000;">19</span></a><span style="color:#000000;">) &#8220;Onde há amor, não há canseira, mas gosto&#8221;.</span><a name="fnref20"><span style="color:#000000;">(</span></a><a href="http://www.vatican.va/holy_father/pius_xii/encyclicals/documents/hf_p-xii_enc_24051953_doctor-mellifluus_po.html#fn20"><span style="color:#000000;">20</span></a><span style="color:#000000;">) Ele mesmo confessa que o experimentou, quando escreve: &#8220;Oh! amor santo e casto! Oh! doce e suave afeto!&#8230; Tanto mais doce e suave, porque é todo divino o sentimento que se prova. Experimentá-lo é divinizar-se&#8221;.</span><a name="fnref21"><span style="color:#000000;">(</span></a><a href="http://www.vatican.va/holy_father/pius_xii/encyclicals/documents/hf_p-xii_enc_24051953_doctor-mellifluus_po.html#fn21"><span style="color:#000000;">21</span></a><span style="color:#000000;">) E noutro lugar: &#8220;É melhor para mim, Senhor, abraçar-te na tribulação e estar contigo na fornalha, do que estar sem ti até mesmo no Céu&#8221;.</span><a name="fnref22"><span style="color:#000000;">(</span></a><a href="http://www.vatican.va/holy_father/pius_xii/encyclicals/documents/hf_p-xii_enc_24051953_doctor-mellifluus_po.html#fn22"><span style="color:#000000;">22</span></a><span style="color:#000000;">) Quando, porém, chegou à suma e perfeita caridade, que o uniu em íntimo conúbio com o próprio Deus, então goza de uma alegria e paz tal que não pode haver outra maior: &#8220;Oh! lugar do verdadeiro repouso&#8230; em que não se vê a Deus como que perturbado pela ira e ocupado em cuidados; mas nele se experimenta a sua vontade bondosa, benévola e perfeita. Essa visão não atemoriza, mas afaga; não excita curiosidade inquieta, mas acalma; não cansa os sentidos, mas tranqüiliza. Aqui realmente repousa-se. Deus tranqüilo dá tranqüilidade em tudo; e vê-lo pacífico é estar em paz&#8221;.</span><a name="fnref23"><span style="color:#000000;">(</span></a><a href="http://www.vatican.va/holy_father/pius_xii/encyclicals/documents/hf_p-xii_enc_24051953_doctor-mellifluus_po.html#fn23"><span style="color:#000000;">23</span></a><span style="color:#000000;">)</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">17. Todavia esse repouso total não é morte da alma, mas verdadeira vida: &#8220;Este sono vital e vigilante ilumina pelo contrário o sentido interior e, sendo repelida a morte, dá a vida eterna. É deveras um sono, que todavia não adormece, mas eleva. É também morte &#8211; não receio dizê-lo &#8211; visto que o apóstolo elogiando alguns ainda vivos na carne, assim diz: </span><a name="fnref24"><span style="color:#000000;">(</span></a><a href="http://www.vatican.va/holy_father/pius_xii/encyclicals/documents/hf_p-xii_enc_24051953_doctor-mellifluus_po.html#fn24"><span style="color:#000000;">24</span></a><span style="color:#000000;">) &#8220;Estais mortos, e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus&#8221;.</span><a name="fnref25"><span style="color:#000000;">(</span></a><a href="http://www.vatican.va/holy_father/pius_xii/encyclicals/documents/hf_p-xii_enc_24051953_doctor-mellifluus_po.html#fn25"><span style="color:#000000;">25</span></a><span style="color:#000000;">)</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">18. Esse total repouso do espírito, de que gozamos correspondendo com o nosso ao amor de Deus, e por meio do qual para ele nos voltamos e dirigimos com todo o nosso ser, não nos leva à preguiça nem à inércia, mas a uma álacre, solícita e operosa diligência, com que nos esforçamos por procurar, com a ajuda de Deus, não só a nossa salvação, mas também a dos outros. De fato, tal sublime meditação e contemplação, incitada e estimulada pelo amor divino, &#8220;governa os afetos, dirige as ações, corrige os excessos, regula os costumes, aformoseia e põe em ordem a vida, dá enfim a ciência das coisas divinas e humanas&#8230; É ela que distingue o que é confuso, une o que está dividido, recolhe o que está espalhado, investiga o que está escondido, procura a verdade, pondera o que é verossímil e descobre a ficção e o artifício. É ela que preordena o que se deve fazer, reflete sobre o que se fez, de maneira que nada fique na mente por corrigir. É ela que na prosperidade, nas contrariedades quase não as sente; uma é fortaleza, a outra prudência&#8221;.</span><a name="fnref26"><span style="color:#000000;">(</span></a><a href="http://www.vatican.va/holy_father/pius_xii/encyclicals/documents/hf_p-xii_enc_24051953_doctor-mellifluus_po.html#fn26"><span style="color:#000000;">26</span></a><span style="color:#000000;">)</span></p>
<p style="text-align:justify;"><em><strong><span style="color:#000000;">O homem de ação</span></strong></em></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">19. E com efeito, embora deseje ficar imerso em tão alta contemplação e suave meditação, que se nutre do espírito divino, todavia o Doutor de Claraval não se fecha na sua cela, que &#8220;guardada é suave&#8221;</span><a name="fnref27"><span style="color:#000000;">(</span></a><a href="http://www.vatican.va/holy_father/pius_xii/encyclicals/documents/hf_p-xii_enc_24051953_doctor-mellifluus_po.html#fn27"><span style="color:#000000;">27</span></a><span style="color:#000000;">), mas onde quer que se trate da causa de Deus e da Igreja, está imediatamente presente com o conselho, com a palavra e com a ação. Afirmava de fato que não &#8220;deve cada qual viver para si só, mas para todos&#8221;.</span><a name="fnref28"><span style="color:#000000;">(</span></a><a href="http://www.vatican.va/holy_father/pius_xii/encyclicals/documents/hf_p-xii_enc_24051953_doctor-mellifluus_po.html#fn28"><span style="color:#000000;">28</span></a><span style="color:#000000;">) De si mesmo, além disso, e dos seus, assim escrevia: &#8220;Também aos nossos irmãos, no meio dos quais vivemos, somos devedores, por direito de fraternidade e convívio humano, de conselho e de auxílio&#8221;.</span><a name="fnref29"><span style="color:#000000;">(</span></a><a href="http://www.vatican.va/holy_father/pius_xii/encyclicals/documents/hf_p-xii_enc_24051953_doctor-mellifluus_po.html#fn29"><span style="color:#000000;">29</span></a><span style="color:#000000;">) Quando, porém, com tristeza, via ameaçada ou perseguida nossa santa religião, não se poupava a canseiras, viagens e cuidados para a defender esforçadamente e ajudá-la segundo as suas forças. &#8220;Nada daquilo que se revele interesse de Deus &#8211; dizia &#8211; me é alheio&#8221;.</span><a name="fnref30"><span style="color:#000000;">(</span></a><a href="http://www.vatican.va/holy_father/pius_xii/encyclicals/documents/hf_p-xii_enc_24051953_doctor-mellifluus_po.html#fn30"><span style="color:#000000;">30</span></a><span style="color:#000000;">) E ao rei Luís de França escrevia estas corajosas palavras: &#8220;Nós, filhos da Igreja, não podemos de forma alguma dissimular as injúrias feitas à nossa mãe, o seu desprezo e os seus direitos conculcados&#8230; Certamente estaremos firmes, e combateremos até à morte, se for necessário, pela nossa mãe, com as armas convenientes; não com os escudos e as espadas, mas com as orações e lágrimas diante de Deus&#8221;.</span><a name="fnref31"><span style="color:#000000;">(</span></a><a href="http://www.vatican.va/holy_father/pius_xii/encyclicals/documents/hf_p-xii_enc_24051953_doctor-mellifluus_po.html#fn31"><span style="color:#000000;">31</span></a><span style="color:#000000;">) A Pedro, abade de Cluny: &#8220;Glorio-me nas minhas tribulações, se fui considerado digno de sofrer alguma coisa pela lgreja. Esta é na verdade a minha glória que exalta a minha cabeça, o triunfo da Igreja. Com efeito se fomos companheiros na dificuldade, sê-lo-emos também na consolação. Houve que trabalhar e sofrer juntamente com a nossa mãe&#8230;&#8221;. </span><a name="fnref32"><span style="color:#000000;">(</span></a><a href="http://www.vatican.va/holy_father/pius_xii/encyclicals/documents/hf_p-xii_enc_24051953_doctor-mellifluus_po.html#fn32"><span style="color:#000000;">32</span></a><span style="color:#000000;">)</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">20. Quando depois o corpo místico de Jesus Cristo foi perturbado por um cisma tão grave que até os bons estavam hesitantes entre uma e outra parte, ele entregou-se totalmente a compor os dissídios e à feliz reconciliação e união dos espíritos. Visto que os príncipes, por ambição do domínio terreno, estavam divididos por terríveis discórdias, de que podiam derivar graves prejuízos para os povos, fez-se artífice de paz e reconciliador de mútua concórdia. Enfim, pois que os lugares santos da Palestina, que o divino Redentor consagrou com o seu sangue, corriam grande perigo, e estavam expostos à pressão hostil de exércitos estrangeiros, por mandato do sumo pontífice excitou com altas palavras e mais elevada caridade os príncipes e os povos cristãos a uma nova cruzada; se ela não teve êxito feliz, não foi certamente por culpa sua.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">21. E quando a integridade da fé católica e dos costumes, transmitida pelos antigos como herança sagrada, estava exposta a gravíssimos perigos, sobretudo por obra de Abelardo, Arnaldo de Bréscia e Gilberto Porretano, ele, quer com a publicação de escritos cheios de doutrina, quer com laboriosas viagens, tentou tudo o que pode, amparado pela graça divina, para que os erros fossem debelados e condenados, e para que os errantes conforme as suas possibilidades voltassem ao reto caminho e se emendassem. </span></p>
<p style="text-align:justify;"><em><strong><span style="color:#000000;">O defensor da autoridade pontifícia</span></strong></em></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">22. Como bem sabia que nesta questão não importava tanto a doutrina dos doutores, como a autoridade especialmente do romano pontífice, tratou de interpor tal autoridade, que em dirimir tais questões reconhecia suprema e completamente infalível. Por isso ao nosso predecessor de feliz memória Eugênio III, que fora seu discípulo, escreve estas palavras, que revelam o seu amor e profunda reverência para com ele, unida com aquela liberdade de espírito, que convém aos santos: &#8220;O amor não conhece o patrão, conhece o filho mesmo com a tiara&#8230; Admoestar-te-ei, portanto, não como mestre, mas como mãe; certamente como alguém que te quer muito&#8221;.</span><a name="fnref33"><span style="color:#000000;">(</span></a><a href="http://www.vatican.va/holy_father/pius_xii/encyclicals/documents/hf_p-xii_enc_24051953_doctor-mellifluus_po.html#fn33"><span style="color:#000000;">33</span></a><span style="color:#000000;">) Dirige-se-lhe, em seguida, com estas ardentes palavras: &#8220;Quem és? O sumo sacerdote, o sumo pontífice. És o príncipe dos bispos, o herdeiro dos apóstolos&#8230; Pedro por poder, por unção Cristo. És aquele a quem foram entregues as chaves e confiadas as ovelhas. Há também outros porteiros do céu e pastores de rebanhos; mas tu és tanto mais glorioso, quanto maior é a diferença com que herdaste, em comparação dos outros, os dois nomes. Aqueles foram confiados os seus rebanhos, e a cada qual o seu: a ti foram confiados todos, a ti só, na unidade. E não só és pastor dos rebanhos mas único pastor de todos os pastores&#8221;.</span><a name="fnref34"><span style="color:#000000;">(</span></a><a href="http://www.vatican.va/holy_father/pius_xii/encyclicals/documents/hf_p-xii_enc_24051953_doctor-mellifluus_po.html#fn34"><span style="color:#000000;">34</span></a><span style="color:#000000;">) E de novo: &#8220;Devia sair deste mundo quem quisesse encontrar o que não pertence ao teu cuidado&#8221;.</span><a name="fnref35"><span style="color:#000000;">(</span></a><a href="http://www.vatican.va/holy_father/pius_xii/encyclicals/documents/hf_p-xii_enc_24051953_doctor-mellifluus_po.html#fn35"><span style="color:#000000;">35</span></a><span style="color:#000000;">)</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">23. Reconhece, porém, aberta e plenamente a infalibilidade do magistério do romano pontífice, quando se trata de coisas de fé e costumes. Quando combate, na verdade, os erros de Abelardo, o qual, &#8220;quando fala da Santíssima Trindade, sabe a Ario; quando da graça, sabe a Pelágio; quando sobre a pessoa de Cristo, sabe a Nestório&#8221;</span><a name="fnref36"><span style="color:#000000;">(</span></a><a href="http://www.vatican.va/holy_father/pius_xii/encyclicals/documents/hf_p-xii_enc_24051953_doctor-mellifluus_po.html#fn36"><span style="color:#000000;">36</span></a><span style="color:#000000;">); &#8220;ele que&#8230; põe graus na Santíssima Trindade, modos na majestade, sucessão numérica na eternidade&#8221;</span><a name="fnref37"><span style="color:#000000;">(</span></a><a href="http://www.vatican.va/holy_father/pius_xii/encyclicals/documents/hf_p-xii_enc_24051953_doctor-mellifluus_po.html#fn37"><span style="color:#000000;">37</span></a><span style="color:#000000;">); e no qual &#8220;a razão humana tudo chama a si, nada deixando à fé&#8221;</span><a name="fnref38"><span style="color:#000000;">(</span></a><a href="http://www.vatican.va/holy_father/pius_xii/encyclicals/documents/hf_p-xii_enc_24051953_doctor-mellifluus_po.html#fn38"><span style="color:#000000;">38</span></a><span style="color:#000000;">); não só discute, desfaz e refuta os seus ardis e sofismas, sutis e falazes, mas também escreve ao nosso predecessor de imortal memória Eugênio III, por tal motivo, estas graves palavras: &#8220;É mister referir à vossa autoridade apostólica todos os perigos&#8230; sobretudo os que dizem respeito à fé. Julgo, pois, justo que se remediem os prejuízos da fé sobretudo onde ela não pode faltar. É esta de fato a prerrogativa da Sé Apostólica&#8230; É tempo de reconhecerdes a vossa autoridade, Pai amantíssimo&#8230; Nisso realmente fazeis as vezes de Pedro, cuja cadeira ocupais, se confirmais com as vossas admoestações os espíritos hesitantes na fé e se com a vossa autoridade esmagais os seus corruptores&#8221;.</span><a name="fnref39"><span style="color:#000000;">(</span></a><a href="http://www.vatican.va/holy_father/pius_xii/encyclicals/documents/hf_p-xii_enc_24051953_doctor-mellifluus_po.html#fn39"><span style="color:#000000;">39</span></a><span style="color:#000000;">)</span></p>
<p style="text-align:justify;"><em><strong><span style="color:#000000;">Força e humildade</span></strong></em></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">24. Mas de onde esse monge humilde, quase sem recursos humanos, pôde receber a força para superar as mais árduas dificuldades, resolver os mais complicados problemas e dirimir as mais intricadas questões, só se pode compreender se se considera a exímia santidade de vida, que o ornava, unida a um grande amor da verdade. Ardia sobretudo, como dissemos, da mais ardente caridade para com Deus e para com o próximo, que é, como sabeis, veneráveis irmãos, o preceito principal e como que o compêndio de todo o Evangelho; de modo que não só vivia sempre misticamente unido ao Pai celeste, mas nada mais desejava do que lucrar os homens para Cristo, defender os sacrossantos direitos da Igreja e defender com invicta coragem a integridade da fé católica.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">25. No meio de tanta benevolência e estima de que gozava junto dos sumos pontífices, dos povos, não se envaidecia, nem corria atrás da transitória e vã glória dos homens, mas sempre nele resplandecia aquela humildade cristã, que &#8220;reúne as outras virtudes&#8230; depois de as reunir guarda-as&#8230; e conservando-as aperfeiçoa-as&#8221;</span><a name="fnref40"><span style="color:#000000;">(</span></a><a href="http://www.vatican.va/holy_father/pius_xii/encyclicals/documents/hf_p-xii_enc_24051953_doctor-mellifluus_po.html#fn40"><span style="color:#000000;">40</span></a><span style="color:#000000;">); de maneira que &#8220;sem ela&#8230; nem sequer parecem virtudes&#8221;.</span><a name="fnref41"><span style="color:#000000;">(</span></a><a href="http://www.vatican.va/holy_father/pius_xii/encyclicals/documents/hf_p-xii_enc_24051953_doctor-mellifluus_po.html#fn41"><span style="color:#000000;">41</span></a><span style="color:#000000;">) Por isso &#8220;a sua alma não foi tentada pelas honras que lhe ofereceram, nem o seu pé se moveu para procurar a glória; nem a tiara e o anel o atraíam mais do que o ancinho e a enxada&#8221;.</span><a name="fnref42"><span style="color:#000000;">(</span></a><a href="http://www.vatican.va/holy_father/pius_xii/encyclicals/documents/hf_p-xii_enc_24051953_doctor-mellifluus_po.html#fn42"><span style="color:#000000;">42</span></a><span style="color:#000000;">) E, sujeitando-se a tantas e tão grandes canseiras pela glória de Deus e proveito do nome cristão, professava-se &#8220;servo inútil dos servos de Deus&#8221;</span><a name="fnref43"><span style="color:#000000;">(</span></a><a href="http://www.vatican.va/holy_father/pius_xii/encyclicals/documents/hf_p-xii_enc_24051953_doctor-mellifluus_po.html#fn43"><span style="color:#000000;">43</span></a><span style="color:#000000;">), &#8220;desprezível inseto&#8221; </span><a name="fnref44"><span style="color:#000000;">(</span></a><a href="http://www.vatican.va/holy_father/pius_xii/encyclicals/documents/hf_p-xii_enc_24051953_doctor-mellifluus_po.html#fn44"><span style="color:#000000;">44</span></a><span style="color:#000000;">) , &#8220;árvore estéril&#8221;</span><a name="fnref45"><span style="color:#000000;">(</span></a><a href="http://www.vatican.va/holy_father/pius_xii/encyclicals/documents/hf_p-xii_enc_24051953_doctor-mellifluus_po.html#fn45"><span style="color:#000000;">45</span></a><span style="color:#000000;">), &#8220;pecador, cinza&#8230;&#8221;.</span><a name="fnref46"><span style="color:#000000;">(</span></a><a href="http://www.vatican.va/holy_father/pius_xii/encyclicals/documents/hf_p-xii_enc_24051953_doctor-mellifluus_po.html#fn46"><span style="color:#000000;">46</span></a><span style="color:#000000;">)Alimentava essa humildade cristã e as outras virtudes com a assídua contemplação das coisas celestes, com ardentes orações dirigidas a Deus, com as quais atraia a graça sobrenatural sobre si e sobre os seus empreendimentos e obras.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><em><strong><span style="color:#000000;">Seu amor a Jesus</span></strong></em></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">26. De modo muito especial amava tão ardentemente Jesus Cristo, divino Redentor, que sob sua moção e impulso escrevia belas e elevadas páginas, que ainda hoje causam a admiração de todos e fomentam a piedade do leitor. &#8220;O que é que enriquece a alma que medita&#8230; dá força às virtudes, faz prosperar os bons e honestos costumes, suscita puros afetos? É árido todo o alimento da alma, se não tiver esse azeite; e insípido, se não for temperado com este sal. Se escreves alguma coisa, não pinto gosto se não leio Jesus. Se discutes e falas, não me agrada, se não ouço Jesus. Jesus é mel na boca, doce melodia no ouvido, alegria no coração. Mas é também medicina. Há no meio de vós alguém triste? Jesus desça ao coração e depois suba aos lábios; e eis que à luz desse nome desaparecem todas as nuvens, volta a serenidade. Cometeu alguém um pecado? Corre desesperado ao laço da morte? Mas se invocar esse nome de vida, não há de sentir imediatamente o respiro vital?&#8230; A quem é que, agitado e hesitante nos perigos, a invocação desse nome de força não restituiu imediatamente a confiança e repeliu o medo?&#8230; Nada melhor refreia o ímpeto da ira, reprime o tumor da soberba e cura a ferida da inveja&#8230;&#8221;.</span><a name="fnref47"><span style="color:#000000;">(</span></a><a href="http://www.vatican.va/holy_father/pius_xii/encyclicals/documents/hf_p-xii_enc_24051953_doctor-mellifluus_po.html#fn47"><span style="color:#000000;">47</span></a><span style="color:#000000;">)</span></p>
<p style="text-align:justify;"><em><strong><span style="color:#000000;">O louvor da Mãe de Deus</span></strong></em></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">27. A esse ardente amor por Jesus Cristo unia-se uma devoção terna e suave à sua excelsa Mãe, que amava e venerava com filial ternura. Tinha tanta confiança no seu poderoso patrocínio, que não receou escrever: &#8220;Deus quis que nada recebêssemos que não passe pelas mãos de Maria&#8221;.</span><a name="fnref48"><span style="color:#000000;">(</span></a><a href="http://www.vatican.va/holy_father/pius_xii/encyclicals/documents/hf_p-xii_enc_24051953_doctor-mellifluus_po.html#fn48"><span style="color:#000000;">48</span></a><span style="color:#000000;">) E de novo: &#8220;Tal é a vontade daquele, que quis que nós tudo tivéssemos por meio de Maria&#8221;.</span><a name="fnref49"><span style="color:#000000;">(</span></a><a href="http://www.vatican.va/holy_father/pius_xii/encyclicals/documents/hf_p-xii_enc_24051953_doctor-mellifluus_po.html#fn49"><span style="color:#000000;">49</span></a><span style="color:#000000;">)</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">28. E agora apraz-nos, veneráveis irmãos, propor à meditação de todos aquela página, que, sobre os louvores à virgem Mãe de Deus, é talvez a mais bela, a mais ardente, a mais apta a excitar em nós o amor para com ela e a mais útil para fomentar a piedade e para imitar os seus exemplos de virtude: &#8220;&#8230;Chama-se estrela do mar, e o nome é bem apropriado à Virgem Mãe. Ela na verdade é comparada muito justamente a uma estrela; porque assim como a estrela emite os seus raios, sem se corromper, assim também a Virgem dá à luz o seu Filho sem lesar a sua integridade. Os raios não diminuem a claridade à estrela, nem o Filho à Virgem a sua integridade. Ela é, portanto, aquela nobre estrela que nasceu de Jacó, cujos raios iluminam todo o universo, cujo esplendor brilha no céu e penetra no inferno&#8230; É ela, digo, a estrela preclara e exímia, erguida necessariamente sobre este grande e largo mar, que ilumina com os seus méritos e ilustra com seus exemplos. Oh! tu, quem quer que sejas, que te vês mais flutuar à mercê das ondas neste mundo em tempestade do que andar sobre a terra; não tires os olhos do fulgor dessa estrela, se não queres ser submergido pelas tempestades. Se se levantarem os ventos das tentações, se topares nos escolhos das tribulações, olha para a estrela, invoca Maria. Se fores arremessado pelas ondas da soberba, da ambição, da murmuração e da inveja: olha para a estrela, invoca Maria. Se a ira, a avareza ou as atrações da carne sacudirem a barquinha da alma: olha para Maria. Se, perturbado pela enormidade do pecado, cheio de confusão pela fealdade da consciência, cheio de medo pelo horror do juízo, começares a ser devorado pelos abismos da tristeza e do desespero: pensa em Maria. Nos perigos, nas aflições, nas incertezas, pensa em Maria, invoca Maria. Que ela não se afaste da tua boca nem do teu coração; e para obter o auxílio da sua oração, nunca deixes o exemplo da sua vida. Se a segues, não te podes perder; se a invocas, não podes desesperar; se pensas nela, não te podes enganar. Se ela te ampara, não cais; se te protege, não tens que temer; se te guia, não te cansas; se te é propícia, chegas ao fim&#8230;&#8221;.</span><a name="fnref50"><span style="color:#000000;">(</span></a><a href="http://www.vatican.va/holy_father/pius_xii/encyclicals/documents/hf_p-xii_enc_24051953_doctor-mellifluus_po.html#fn50"><span style="color:#000000;">50</span></a><span style="color:#000000;">)</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><strong><span style="color:#000000;">CONCLUSÃO</span></strong></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">29. Julgamos, pois, que não podíamos terminar melhor esta carta encíclica do que convidando-vos a todos, com as palavras do doutor melífluo, a aumentar cada dia mais a devoção para com a santa Mãe de Deus, e imitar com o maior empenho suas excelsas virtudes, cada qual segundo as peculiares condições da sua vida. Se no século XII graves perigos ameaçavam a Igreja e a humanidade, não menos graves, sem dúvida, ameaçam a nossa época. A fé católica, que dá aos homens o supremo conforto, não raramente afrouxou nos espíritos, mas até em alguns países é áspera e publicamente combatida. E quando a religião cristã é desprezada ou combatida, vê-se infelizmente que a moralidade individual e pública se desvia do reto caminho, e até às vezes, através dos meandros do erro, cai miseramente nos vícios.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">30. À caridade, que é vínculo da perfeição, da concórdia e da paz, substituem-se os ódios, as inimizades e as discórdias.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">31. Há inquietação, angústia e trepidação no espírito humano; teme-se que, se a luz do Evangelho for pouco a pouco diminuindo e afrouxando em muitos, ou &#8211; pior ainda-for rejeitada completamente, desmoronem os próprios alicerces da civilização e da vida doméstica; e dessa forma venham tempos ainda piores e mais infelizes.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">32. Assim como o doutor de Claraval pediu o auxílio da santíssima Virgem e o alcançou para a sua época turbulenta, assim também nós todos, com a mesma constante piedade e oração, devemos alcançar da nossa Mãe divina que para estes graves males, que já avançam ou se temem, impetre de Deus os remédios oportunos; e conceda, com o auxílio divino, benigna e poderosa, que uma sincera, sólida e frutuosa paz brilhe finalmente para a Igreja, para os povos, para as nações.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">33. Sejam esses os abundantes e salutares frutos, que, sob a proteção de s. Bernardo, tragam as celebrações centenárias da sua pia morte; que todos se unam conosco nestas preces e súplicas, e, observando e meditando os exemplos do doutor melífluo, envidem todos os esforços para seguir com boa vontade e zelo as suas pegadas.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">34. Desses salutares frutos seja propiciadora a bênção apostólica que a vós, veneráveis irmãos, aos rebanhos que vos foram confiados, e especialmente àqueles que abraçaram a ordem de s. Bernardo, de todo o coração concedemos.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:center;"><em><span style="color:#000000;">Dado em Roma, junto de São Pedro, no dia 24 de maio, festa do Pentecostes, de 1953, XV ano do nosso pontificado.</span></em></p>
<p style="text-align:center;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:center;"><strong><span style="color:#000000;">PIO PP. XII</span></strong></p>
<p style="text-align:justify;"><strong><span style="color:#000000;">Fonte:<a href="http://www.vatican.va/holy_father/pius_xii/encyclicals/documents/hf_p-xii_enc_24051953_doctor-mellifluus_po.html">http://www.vatican.va/holy_father/pius_xii/encyclicals/documents/hf_p-xii_enc_24051953_doctor-mellifluus_po.html</a></span></strong></p>
<h2 style="text-align:center;"><span style="color:#000000;">PAPA BENTO XVI </span></h2>
<h3 style="text-align:center;"><span style="color:#000000;">AUDIÊNCIA GERAL</span></h3>
<h3 style="text-align:center;"><span style="color:#000000;">Praça de São Pedro<br />
Quarta-feira, 21 de Outubro de 2009  </span></h3>
<h3 style="text-align:center;"><span style="color:#000000;">Queridos irmãos e irmãs!</span></h3>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Hoje gostaria de falar de São Bernardo de Claraval, chamado &#8220;o último dos Padres&#8221; da Igreja, porque no século XII, mais uma vez, renovou e tornou presente a grande teologia dos Padres. Não conhecemos os pormenores os anos da sua infância; sabemos contudo que ele nasceu em 1090 em <em>Fontaines</em> na França, numa família numerosa e discretamente abastada. Ainda jovem, prodigalizou-se no estudo das chamadas artes liberais – especialmente da gramática, da retórica e da dialéctica – na escola dos Cónegos da igreja de <em>Saint-Vorles</em>, em <em>Châtillon-sur-Seine</em> e amadureceu lentamente a decisão de entrar na vida religiosa. Por volta dos vinte anos entrou em <em>Cîteaux</em>, uma fundação monástica nova, mais activa em relação aos antigos e veneráveis mosteiros de então e, ao mesmo tempo, mais rigorosa na prática dos conselhos evangélicos. Alguns anos mais tarde, em 1115, Bernardo foi enviado por Santo Estêvão Harding, terceiro Abade de <em>Cîteaux</em>, para fundar o mosteiro de Claraval (<em>Clairvaux</em>). Aqui o jovem Abade, tinha apenas vinte e cinco anos, pôde apurar a própria concepção da vida monástica, e empenhar-se em pô-la em prática. Olhando para a disciplina de outros mosteiros, Bernardo recordou com decisão a necessidade de uma vida sóbria e comedida, tanto à mesa como no vestuário e nos edifícios monásticos, recomendando o sustento e a atenção aos pobres. Entretanto a comunidade de Claraval tornava-se cada vez mais numerosa, e multiplicava as suas fundações.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Nestes mesmos anos, antes de 1130, Bernardo iniciou uma ampla correspondência com muitas pessoas, quer importantes quer de modestas condições sociais. Às muitas <em>Cartas</em> deste período é preciso acrescentar numerosos <em>Sermões</em>, assim como <em>Sentenças</em> e <em>Tratados</em>. Remonta sempre a este tempo a grande amizade de Bernardo com Guilherme, Abade de <em>Saint-Thierry</em>, e com Guilherme de <em>Champeaux</em>, figuras entre as mais importantes do século XII. A partir de 1130, começou a ocupar-se de muitas e graves questões da Santa Sé e da Igreja. Por este motivo teve que sair cada vez mais do seu mosteiro, e por vezes da França. Fundou também alguns mosteiros femininos, e foi protagonista de um vivaz epistolário com </span><a href="http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/audiences/2009/documents/hf_ben-xvi_aud_20091014_po.html"><span style="color:#000000;">Pedro o Venerável, Abade de Cluny</span></a><span style="color:#000000;">, sobre o qual falei na quarta-feira passada. Dirigiu sobretudo os seus escritos polémicos contra Abelardo, um grande pensador que iniciou um novo modo de fazer teologia, introduzindo sobretudo o método dialéctico-filosófico na construção do pensamento teológico. Outra frente contra a qual Bernardo lutou foi a heresia dos Cátaros, que menosprezavam a matéria e o corpo humano, desprezando, por conseguinte, o Criador. Ele, ao contrário, sentiu-se no dever de assumir a defesa dos judeus, condenando as manifestações de anti-semitismo cada vez mais difundidas. Devido a este aspecto da sua acção apostólica, algumas dezenas de anos mais tarde, Ephraim, rabino de Bonn, dirigiu a Bernardo uma vivaz homenagem. Naquele mesmo período o santo Abade escreveu as suas obras mais famosas, como os celebérrimos Sermões sobre o Cântico dos Cânticos. Nos últimos anos da sua vida – a sua morte verificou-se em 1153 – Bernardo teve que limitar as viagens, sem contudo as interromper totalmente. Aproveitou para rever definitivamente o conjunto das <em>Cartas</em>, dos <em>Sermões</em> e dos <em>Tratados</em>. Merece ser mencionado um livro bastante particular, que ele terminou precisamente neste período, em 1145, quando um seu aluno, Bernardo Pignatelli, foi eleito Papa com o nome de Eugénio III. Nesta circunstância, Bernardo, como Padre espiritual, escreveu a este seu filho espiritual o texto <em>De Consideratione</em>, que contém ensinamentos para poder ser um bom Papa. Neste livro, que permanece uma leitura conveniente para os Papas de todos os tempos, Bernardo não indica apenas como desempenhar bem o papel de Papa, mas expressa também uma visão profunda do mistério da Igreja e do mistério de Cristo, que no final se resolve na contemplação do mistério de Deus trino e uno:  &#8220;Deveria ainda prosseguir a busca deste Deus, que ainda não é bastante procurado&#8221;, escreve o santo Abade &#8220;mas talvez se possa procurar melhor e encontrar mais facilmente com a oração do que com o debate. Ponhamos então aqui um ponto final no livro, mas não na pesquisa&#8221; (XIV, 32:  <em>PL</em> 182, 808), no estar a caminho rumo a Deus.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Gostaria de me deter agora só sobre dois aspectos centrais da rica doutrina de Bernardo:  eles referem-se a Jesus Cristo e a Maria santíssima, sua Mãe. A sua solicitude pela participação íntima e vital do cristão no amor de Deus em Jesus Cristo não contribui com novas orientações para o estatuto científico da teologia. Mas, de modo mais do que decidido, o Abade de <em>Clairvaux </em>configura o teólogo com o contemplativo e com o místico. Só Jesus – insiste Bernardo diante dos complexos raciocínios dialécticos do seu tempo – só Jesus é &#8220;mel para os lábios, cântico para os ouvidos, júbilo para o coração&#8221; (<em>mel in ore, in aure melos, in corde iubilum</em>)&#8221;. Vem precisamente daqui o título, a ele atribuído pela tradição, de <em>Doctor mellifluus</em>:  de facto, o seu louvor de Jesus Cristo &#8220;escorre como o mel&#8221;. Nas extenuantes batalhas entre nominalistas e realistas – duas correntes filosóficas da época – o Abade de Claraval não se cansa de repetir que um só nome conta, o de Jesus de Nazaré. &#8220;Todo o alimento da alma é árido&#8221;, confessa, &#8220;se não for aspergido com este óleo; insípido, se não for temperado com este sal. Aquilo que escreves para mim não tem sabor, se nisso eu não ler Jesus&#8221;. E conclui:  &#8220;Quando discutes ou falas, para mim nada tem sabor, se eu não ouvir ressoar nisso o nome de Jesus&#8221; (<em>Sermones in Cantica Canticorum XV</em>, 6:  <em>PL</em> 183, 847). De facto, para Bernardo o verdadeiro conhecimento de Deus consiste na experiência pessoal, profunda de Jesus Cristo e do seu amor. E isto, queridos irmãos e irmãs, é válido para cada cristão:  a fé é antes de tudo encontro pessoal, íntimo com Jesus, é fazer a experiência da sua proximidade, da sua amizade, do seu amor, e só assim se aprende a conhecê-lo cada vez mais, a amá-lo e a segui-lo sempre mais. Que isto se verifique com cada um de nós!</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Noutro célebre <em>Sermão no domingo entre a oitava da Assunção</em>, o santo Abade descreve em termos apaixonados a íntima participação de Maria no sacrifício redentor do Filho. &#8220;Ó santa Mãe – exclama ele – deveras uma espada trespassou a tua alma!&#8230; A violência da dor trespassou de tal modo a tua alma, que justamente podemos chamar-te mais do que mártir, porque em ti a participação na paixão do Filho superou muito em intensidade os sofrimentos físicos do martírio&#8221; (14:  PL 183, 437-438). Bernardo não tem dúvidas:  &#8220;<em>per Mariam ad Iesum</em>&#8220;, através de Maria somos conduzidos até Jesus. Ele testemunha com clareza a subordinação de Maria a Jesus, segundo os fundamentos da mariologia tradicional. Mas o corpo do <em>Sermone</em> documenta também o lugar privilegiado da Virgem na economia da salvação, após a particularíssima participação da Mãe (<em>compassio</em>) no sacrifício do Filho. Não por acaso, um século e meio depois da morte de Bernardo, Dante Alighieri, no último canto da Divina Comédia, colocará nos lábios do &#8220;Doutor melífluo&#8221; a sublime oração a Maria:  &#8220;Virgem Mãe, filha do teu Filho, / humilde e nobre mais do que qualquer criatura, / termo fixo do eterno conselho,&#8230;&#8221; (<em>Paraíso</em> 33, vv. 1 ss.).</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Estas reflexões, características de um apaixonado por Jesus e Maria como São Bernardo, provocam ainda hoje de modo saudável não só os teólogos, mas todos os crentes. Por vezes pretende-se resolver as questões fundamentais sobre Deus, sobre o homem e sobre o mundo unicamente com as forças da razão. São Bernardo, ao contrário, solidamente fundado na Bíblia e nos Padres da Igreja, recorda-nos que sem uma fé profunda em Deus, alimentada pela oração e pela contemplação, por uma relação íntima com o Senhor, as nossas reflexões sobre os mistérios divinos correm o risco de se tornarem uma vã prática intelectual, e perdem a sua credibilidade. A teologia remete para a &#8220;ciência dos santos&#8221;, para a sua intuição dos mistérios do Deus vivo, para a sua sabedoria, dom do Espírito Santo, que se tornam ponto de referência do pensamento teológico. Juntamente com Bernardo de Claraval, também nós devemos reconhecer que o homem procura melhor e encontra mais facilmente Deus &#8220;com a oração do que com o debate&#8221;. No final, a figura mais verdadeira do teólogo e de cada evangelizador permanece a do Apóstolo João, que apoiou a sua cabeça no coração do Mestre.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Gostaria de concluir estas reflexões sobre São Bernardo com as invocações a Maria, que lemos numa sua bonita homilia. &#8220;Nos perigos, nas angústias, nas incertezas – diz ele – pensa em Maria, invoca Maria. Que ela nunca abandone os teus lábios, nem o teu coração; e para obteres a ajuda da sua oração, nunca esqueças o exemplo da sua vida. Se a segues, não te podes desviar; se lhe rezas, não te podes desesperar; se pensas nela não podes errar. Se ela te ampara, não cais; se ela te protege, nada temes; se ela te guia, não te cansas; se ela te é propícia, alcançarás a meta&#8230;&#8221; (<em>Hom. II super &#8220;Missus est&#8221;</em>, 17:  <em>PL</em> 183, 70-71).</span></p>
<p><span style="color:#000000;"><br />
<hr /></span></p>
<p style="text-align:justify;"><strong><span style="color:#000000;">Saudação</span></strong></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Amados brasileiros do Rio de Janeiro e demais peregrinos de língua portuguesa, com afecto a todos saúdo e abençoo, desejando que a vossa peregrinação até junto do túmulo dos Apóstolos Pedro e Paulo reforce, em cada um, a sua fé. Esta é, antes de tudo, encontro íntimo e pessoal com Jesus Cristo. Que esta experiência vos leve a conhecê-Lo, amá-Lo e segui-Lo cada vez mais! Ide com Deus!</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> Fonte:<a href="http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/audiences/2009/documents/hf_ben-xvi_aud_20091021_po.html">http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/audiences/2009/documents/hf_ben-xvi_aud_20091021_po.html</a></span></p>
<p><strong><span style="color:#000000;"> </span></strong></p>
<p style="text-align:justify;"><strong><span style="color:#000000;"> </span></strong></p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/biografiadossantos2.wordpress.com/461/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/biografiadossantos2.wordpress.com/461/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/biografiadossantos2.wordpress.com/461/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/biografiadossantos2.wordpress.com/461/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/biografiadossantos2.wordpress.com/461/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/biografiadossantos2.wordpress.com/461/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/biografiadossantos2.wordpress.com/461/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/biografiadossantos2.wordpress.com/461/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/biografiadossantos2.wordpress.com/461/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/biografiadossantos2.wordpress.com/461/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/biografiadossantos2.wordpress.com/461/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/biografiadossantos2.wordpress.com/461/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/biografiadossantos2.wordpress.com/461/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/biografiadossantos2.wordpress.com/461/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=biografiadossantos2.wordpress.com&amp;blog=14156376&amp;post=461&amp;subd=biografiadossantos2&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://biografiadossantos2.wordpress.com/2010/08/13/sao-bernardo-de-claraval/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
	
		<media:content url="" medium="image">
			<media:title type="html">biografiadossantos2</media:title>
		</media:content>

		<media:content url="http://biografiadossantos2.files.wordpress.com/2010/08/sao-bernardo-de-claraval.jpg" medium="image">
			<media:title type="html">São Bernardo de Claraval</media:title>
		</media:content>
	</item>
		<item>
		<title>Beato João XXIII</title>
		<link>http://biografiadossantos2.wordpress.com/2010/08/11/beato-joao-xxiii/</link>
		<comments>http://biografiadossantos2.wordpress.com/2010/08/11/beato-joao-xxiii/#comments</comments>
		<pubDate>Wed, 11 Aug 2010 20:52:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>biografiadossantos2</dc:creator>
				<category><![CDATA[Beato João XXIII]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://biografiadossantos2.wordpress.com/?p=444</guid>
		<description><![CDATA[  &#8220;Ser bom com todos e sempre”.                              Beato João XXIII PAPA JOÃO XXIII  Nasceu no dia 25 de Novembro de 1881 em Sotto il Monte, diocese e província de Bérgamo (Itália), e nesse mesmo dia foi baptizado com o nome de Angelo Giuseppe; foi o quarto de treze irmãos, nascidos numa família de camponeses [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=biografiadossantos2.wordpress.com&amp;blog=14156376&amp;post=444&amp;subd=biografiadossantos2&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:left;"><strong><em><a href="http://biografiadossantos2.files.wordpress.com/2010/08/papa_joao_23.jpg"><span style="color:#000000;"><img class="alignnone size-full wp-image-445" title="papa_joao_23" src="http://biografiadossantos2.files.wordpress.com/2010/08/papa_joao_23.jpg?w=269&#038;h=400" alt="" width="269" height="400" /></span></a></em></strong><strong><em><span style="color:#000000;"> </span></em></strong></p>
<h1 style="text-align:left;"><span style="color:#99cc00;">&#8220;Ser bom com todos e sempre”. </span></h1>
<h1 style="text-align:left;"><span style="color:#ff9900;">                            Beato João XXIII</span></h1>
<p style="text-align:center;"><strong><em><span style="color:#000000;">PAPA JOÃO XXIII </span></em></strong></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> Nasceu no dia 25 de Novembro de 1881 em Sotto il Monte, diocese e província de Bérgamo (Itália), e nesse mesmo dia foi baptizado com o nome de Angelo Giuseppe; foi o quarto de treze irmãos, nascidos numa família de camponeses e de tipo patriarcal. Ao seu tio Xavier, ele mesmo atribuirá a sua primeira e fundamental formação religiosa. O clima religioso da família e a fervorosa vida paroquial foram a primeira escola de vida cristã, que marcou a sua fisionomia espiritual.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Ingressou no Seminário de Bérgamo, onde estudou até ao segundo ano de teologia. Ali começou a redigir os seus escritos espirituais, que depois foram recolhidos no &#8220;Diário da alma&#8221;. No dia 1 de Março de 1896, o seu director espiritual admitiu-o na ordem franciscana secular, cuja regra professou a 23 de Maio de 1897.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">De 1901 a 1905 foi aluno do Pontifício Seminário Romano, graças a uma bolsa de estudos da diocese de Bérgamo. Neste tempo prestou, além disso, um ano de serviço militar. Recebeu a Ordenação sacerdotal a 10 de Agosto de 1904, em Roma, e no ano seguinte foi nomeado secretário do novo Bispo de Bérgamo, D. Giacomo Maria R. Tedeschi, acompanhando-o nas várias visitas pastorais e colaborando em múltiplas iniciativas apostólicas:  sínodo, redacção do boletim diocesano, peregrinações, obras sociais. Às vezes era também professor de história eclesiástica, patrologia e apologética. Foi também Assistente da Acção Católica Feminina, colaborador no diário católico de Bérgamo e pregador muito solicitado, pela sua eloquência elegante, profunda e eficaz.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Naqueles anos aprofundou-se no estudo de três grandes pastores:  São Carlos Borromeu (de quem publicou as Actas das visitas realizadas na diocese de Bérgamo em 1575), São Francisco de Sales e o então Beato Gregório Barbarigo. Após a morte de D. Giacomo Tedeschi, em 1914, o Pade Roncalli prosseguiu o seu ministério sacerdotal dedicado ao magistério no Seminário e ao apostolado, sobretudo entre os membros das associações católicas.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Em 1915, quando a Itália entrou em guerra, foi chamado como sargento sanitário e nomeado capelão militar dos soldados feridos que regressavam da linha de combate. No fim da guerra abriu a &#8220;Casa do estudante&#8221; e trabalhou na pastoral dos jovens estudantes. Em 1919 foi nomeado director espiritual do Seminário.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Em 1921 teve início a segunda parte da sua vida, dedicada ao serviço da Santa Igreja. Tendo sido chamado a Roma por Bento XV como presidente nacional do Conselho das Obras Pontifícias para a Propagação da Fé, percorreu muitas dioceses da Itália organizando círculos missionários.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Em 1925, Pio XI nomeou-o Visitador Apostólico para a Bulgária e elevou-o à dignidade episcopal da Sede titular de Areopolis.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Tendo recebido a Ordenação episcopal a 19 de Março de 1925, em Roma, iniciou o seu ministério na Bulgária, onde permaneceu até 1935. Visitou as comunidades católicas e cultivou relações respeitosas com as demais comunidades cristãs. Actuou com grande solicitude e caridade, aliviando os sofrimentos causados pelo terremoto de 1928. Suportou em silêncio as incompreensões e dificuldades de um ministério marcado pela táctica pastoral de pequenos passos. Consolidou a sua confiança em Jesus crucificado e a sua entrega a Ele.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Em 1935 foi nomeado Delegado Apostólico na Turquia e Grécia:  era um vasto campo de trabalho. A Igreja tinha uma presença activa em muitos âmbitos da jovem república, que se estava a renovar e a organizar. Mons. Roncalli trabalhou com intensidade ao serviço dos católicos e destacou-se pela sua maneira de dialogar e pelo trato respeitoso com os ortodoxos e os muçulmanos. Quando irrompeu a segunda guerra mundial ele encontrava-se na Grécia, que ficou devastada pelos combates. Procurou dar notícias sobre os prisioneiros de guerra e salvou muitos judeus com a &#8220;permissão de trânsito&#8221; fornecida pela Delegação Apostólica. Em 1944 Pio XII nomeou-o Núncio Apostólico em Paris.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Durante os últimos meses do conflito mundial, e uma vez restabelecida a paz, ajudou os prisioneiros de guerra e trabalhou pela normalização da vida eclesial na França. Visitou os grandes santuários franceses e participou nas festas populares e nas manifestações religiosas mais significativas. Foi um observador atento, prudente e repleto de confiança nas novas iniciativas pastorais do episcopado e do clero na França. Distinguiu-se sempre pela busca da simplicidade evangélica, inclusive nos assuntos diplomáticos mais complexos. Procurou agir sempre como sacerdote em todas as situações, animado por uma piedade sincera, que se transformava todos os dias em prolongado tempo a orar e a meditar.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Em 1953 foi criado Cardeal e enviado a Veneza como Patriarca, realizando ali um pastoreio sábio e empreendedor e dedicando-se totalmente ao cuidado das almas, seguindo o exemplo dos seus santos predecessores:  São Lourenço Giustiniani, primeiro Patriarca de Veneza, e São Pio X.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Depois da morte de Pio XII, foi eleito Sumo Pontífice a 28 de Outubro de 1958 e assumiu o nome de João XXIII. O seu pontificado, que durou menos de cinco anos, apresentou-o ao mundo como uma autêntica imagem de bom Pastor. Manso e atento, empreendedor e corajoso, simples e cordial, praticou cristãmente as obras de misericórdia corporais e espirituais, visitando os encarcerados e os doentes, recebendo homens de todas as nações e crenças e cultivando um extraordinário sentimento de paternidade para com todos. O seu magistério foi muito apreciado, sobretudo com as Encíclicas &#8220;<em>Pacem in terris</em>&#8221; e &#8220;<em>Mater et magistra</em>&#8220;.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Convocou o Sínodo romano, instituiu uma Comissão para a revisão do Código de Direito Canónico e convocou o Concílio Ecuménico Vaticano II. Visitou muitas paróquias da Diocese de Roma, sobretudo as dos bairros mais novos. O povo viu nele um reflexo da bondade de Deus e chamou-o &#8220;o Papa da bondade&#8221;. Sustentava-o um profundo espírito de oração, e a sua pessoa, iniciadora duma grande renovação na Igreja, irradiava a paz própria de quem confia sempre no Senhor. Faleceu na tarde do dia 3 de Junho de 1963.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> Fonte:</span><a href="http://www.vatican.va/news_services/liturgy/saints/ns_lit_doc_20000903_john-xxiii_po.html"><span style="color:#000000;">http://www.vatican.va/news_services/liturgy/saints/ns_lit_doc_20000903_john-xxiii_po.html</span></a></p>
<p style="text-align:center;"><span style="color:#000000;">HOMILIA DE JOÃO PAULO II </span></p>
<p style="text-align:center;"><em><strong><span style="color:#000000;">RITO DE BEATIFICAÇÃO SOLENE DE 5 SERVOS DE DEUS</span></strong></em></p>
<p style="text-align:center;"><span style="color:#000000;"><em>3 de Setembro de 2000</em><strong> </strong></span></p>
<p style="text-align:center;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">1. No contexto do Ano Jubilar, é com profundo júbilo que declaro beatos os Pontífices Pio IX e João XXIII, e outros três servidores do Evangelho no ministério e na vida consagrada:  o Arcebispo de Génova Tomás Reggio, o sacerdote diocesano Guilherme José Chaminade, e o monge beneditino Columba Marmion.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Cinco personalidades diferentes, tendo cada uma delas uma fisionomia e missão, mas todas com uma característica comum, o anseio pela santidade. É precisamente a sua santidade que hoje reconhecemos:  santidade que é relação profunda e transformadora com Deus, construída e vivida no empenho quotidiano de adesão à sua vontade. <em>A santidade vive na história </em>e nenhum santo é subtraído aos limites e condicionamentos próprios da nossa humanidade. Ao beatificar um filho seu a Igreja <em>não celebra particulares opções históricas por ele realizadas, </em>mas indica-o para que seja imitado e venerado <em>pelas suas virtude</em>s, em louvor da graça divina que nele resplandece.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Dirijo a minha deferente saudação às Delegações oficiais da Itália, França, Irlanda, Bélgica e Bulgária, que vieram aqui para esta solene circunstância. Saúdo também os familiares dos novos Beatos, juntamente com os Cardeais, os Bispos, as personalidades civis e religiosas que desejaram participar nesta celebração. Por fim, saúdo todos vós, queridos Irmãos e Irmãs, que viestes em grande número para prestar homenagem aos Servos de Deus que a Igreja hoje inscreve no Álbum dos Beatos.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">2. Ao ouvir as palavras da aclamação ao Evangelho:  <em>&#8220;Senhor, guia-nos pela recta via&#8221;, </em>o pensamento dirige-se espontaneamente para as vicissitudes humana e religiosa do Papa <em>Pio IX, </em>João Maria Mastai Ferretti. Perante os acontecimentos turbulentos do seu tempo, ele foi exemplo de incondicionada adesão ao depósito imutável das verdades reveladas. Fiel em qualquer circunstância aos empenhos do seu ministério, <em>soube dar sempre a primazia absoluta a Deus e aos valores espirituais. </em>O seu longuíssimo pontificado não foi deveras fácil e teve que sofrer muito no cumprimento da sua missão ao serviço do Evangelho. Foi muito amado, mas também muito odiado e caluniado.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Mas precisamente no meio destes contrastes <em>brilhou mais resplandecente a luz das suas virtudes:  </em>as prolongadas tribulações mitigaram a sua confiança na divina Providência, de cujo soberano domínio sobre as vicissitudes humanas ele jamais duvidou. Nascia aqui a profunda serenidade de Pio IX, mesmo no meio das incompreensões e dos ataques de tantas pessoas hostis. Gostava de dizer a quem lhe estava próximo:  &#8220;nas coisas humanas é necessário contentar-se em fazer o melhor que se pode e no resto abandonar-se à Providência, que curará os defeitos e as insuficiências do homem&#8221;.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Sustentado por esta convicção interior, ele convocou o <em>Concílio Ecuménico Vaticano I, </em>o qual esclareceu com magisterial autoridade algumas questões que naquele tempo eram debatidas, confirmando a harmonia entre fé e razão. Nos momentos de provações, Pio IX encontrou apoio em Maria, da qual era muito devoto. Ao proclamar o <em>dogma da Imaculada Conceição, </em>recordou a todos que nas tempestades da existência humana brilha na Virgem a luz de Cristo, mais forte que o pecado e a morte.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">3. <em>&#8220;Tu és bom e generoso no perdão&#8221; (Ant. de entrada). </em>Contemplamos hoje na glória do Senhor outro Pontífice, <em>João XXIII, </em>o Papa que conquistou o mundo pela afabilidade dos seus modos, dos quais transparecia a singular bondade de ânimo. Os desígnios divinos quiseram que a beatificação unisse dois Papas que viveram em contextos históricos muito diferentes, mas relacionados, além das aparências, por não poucas semelhanças a nível humano e espiritual. É conhecida <em>a profunda veneração que o Papa João tinha pelo Papa Pio IX, </em>do qual desejava a beatificação. Durante um retiro espiritual, em 1959, escrevia no seu Diário:  &#8220;Penso sempre em Pio IX de santa e gloriosa memória, e imitando-o nos seus sacrifícios, desejaria ser digno de celebrar a sua canonização&#8221; <em>(Jornal da Alma, </em>Ed. S. Paulo, 2000, p. 560).</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Do Papa João permanece na memória de todos a imagem de um rosto sorridente e de dois braços abertos num abraço ao mundo inteiro. Quantas pessoas foram conquistadas <em>pela simplicidade do seu ânimo, conjugada com uma ampla experiência de homens e de coisas! </em>A <em>rajada de novidade </em>dada por ele não se referia decerto à doutrina, mas ao modo de a expor; era novo o estilo de falar e de agir, era nova a carga de simpatia com que se dirigia às pessoas comuns e aos poderosos da terra. Foi com este espírito que proclamou <em>o Concílio Vaticano II, </em>com o qual iniciou uma nova página na história da Igreja:  os cristãos sentiram-se chamados a anunciar o Evangelho com renovada coragem e com uma atenção mais vigilante aos &#8220;sinais&#8221; dos tempos. O Concílio foi deveras uma intuição profética deste idoso Pontífice que inaugurou, no meio de não poucas dificuldades, uma nova era de esperança para os cristãos e para a humanidade.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Nos últimos momentos da sua existência terrena, ele confiou à Igreja o seu testamento:  &#8220;O que tem mais valor na vida é Jesus Cristo bendito, a sua Santa Igreja, o seu Evangelho, a verdade e a bondade&#8221;. Também nós hoje queremos receber este testamento, enquanto damos graças a Deus por no-lo ter dado como Pastor.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">4. &#8220;Sede praticantes da Palavra, e não apenas ouvintes&#8221; <em>(Tg </em>1, 22). Estas palavras do apóstolo Tiago fazem pensar na existência e no apostolado de <em>Tomás Reggio, </em>sacerdote e jornalista, que depois foi Bispo de Ventimiglia e por fim Arcebispo de Génova. Homem de fé e de cultura que, como Pastor, soube ser <em>guia atenta dos fiéis em todas as circunstâncias. </em>Sensível aos numerosos sofrimentos  e  pobrezas  do  seu  povo, empenhou-se  numa <em> ajuda  imediata em todas as situações de necessidade. </em>Precisamente nesta perspectiva deu início à Família religiosa das <em>Irmãs de Santa Marta, </em>confiando-lhes a tarefa de prestar assistência aos Pastores da Igreja, sobretudo no âmbito caritativo e educativo.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">A sua mensagem sintetiza-se em duas palavras:  <em>verdade e caridade. </em>Em primeiro lugar a <em>verdade, </em>que significa escuta atenta da palavra de Deus e ímpeto corajoso na defesa e difusão dos ensinamentos do Evangelho. E depois a <em>caridade, </em>que leva a amar a Deus e, por amor dele, a abraçar a todos, porque são irmãos em Cristo. Se houve uma preferência nas opções de Tomás Reggio, foi por quantos se encontravam em dificuldade ou no sofrimento. Eis por que hoje ele é proposto como modelo a Bispos, sacerdotes, leigos, e a todos os que fazem parte da sua Família espiritual.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">5. A beatificação, durante o ano jubilar, de <em>Guilherme José Chaminade, </em>fundador dos marianistas, recorda aos fiéis que é sua tarefa inventar continuamente <em>novas formas de testemunhar a fé, </em>sobretudo para alcançar quantos vivem afastados da Igreja e que não dispõem dos meios habituais para conhecer Cristo. Guilherme José Chaminade convida cada cristão a <em>enraizar-se no seu baptismo, </em>que o identifica com o Senhor Jesus e lhe comunica o Espírito Santo.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">O amor do Padre Chaminade por Cristo, que se inscreve na espiritualidade da Escola francesa, estimula-o a prosseguir incansavelmente a sua obra mediante fundações de famílias espirituais, numa época perturbada da história religiosa de França.<em> A sua dedicação filial a Maria </em>permitiu-lhe conhecer a paz interior em qualquer circunstância, ajudando-o a fazer a vontade de Cristo. A sua preocupação pela educação humana, moral e religiosa é para toda a Igreja uma chamada a <em>uma solicitude renovada pela juventude, </em>que tem necessidade quer de educadores quer de testemunhas, a fim de dirigirem o seu olhar para o Senhor e assumirem a sua responsabilidade na missão da Igreja.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">6. Hoje, a Ordem beneditina rejubila com a beatificação de um dos seus ilustres filhos, <em>Dom Columba Marmion, </em>monge e Abade de Maredsous. Dom Marmion deixou-nos um autêntico tesouro de ensino espiritual para a Igreja do nosso tempo. Nos seus escritos, ele ensina <em>um caminho de santidade, simples e portanto exigente, </em>para todos os fiéis que Deus, por amor, destinou para serem seus filhos adoptivos em Jesus Cristo (cf. <em>Ef </em>1, 5). Jesus Cristo, nosso Redentor, fonte de toda a graça, está no centro da nossa vida espiritual, é o nosso modelo de santidade.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Antes de entrar na Ordem Beneditina, Columba Marmion passou alguns anos na solicitude pastoral das almas como sacerdote da sua Arquidiocese de Dublin, sua cidade natal. Ao longo da sua vida, o beato Columba foi um <em>director espiritual excepcional </em>e prestou muita atenção à vida interior dos sacerdotes e dos leigos. Escreveu a um jovem que se preparava para a Ordenação:  &#8220;A melhor preparação para a vida sacerdotal é <em>viver todos os dias com amor onde a Providência e a Obediência nos colocam&#8221; (Carta, </em>27 de Dezembro 1915). Uma vasta redescoberta dos escritos espirituais do beato Columba Marmion ajude os sacerdotes, os religiosos e os leigos a crescer em união com Cristo e a dar um testemunho fecundo através do amor ardente de Deus e o serviço generoso aos próprios irmãos e irmãs.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">7. Aos novos beatos Pio IX, João XXIII, Tomás Reggio, Guilherme José Chaminade e Columba Marmion pedimos confiantes que nos ajudem a viver de maneira cada vez mais conforme com o Espírito de Cristo. O seu amor a Deus e aos irmãos seja luz para os nossos passos neste alvorecer do Terceiro Milénio!</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Fonte:</span><a href="http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/homilies/documents/hf_jp-ii_hom_20000903_beatification_po.html"><span style="color:#000000;">http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/homilies/documents/hf_jp-ii_hom_20000903_beatification_po.html</span></a></p>
<h1 style="text-align:justify;"><span style="color:#99cc00;">Biografia da Vida do Beato João XXIII</span></h1>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> <strong>Bondade</strong></span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> “Devo&#8230; continuar sempre fiel ao meu propósito: ser bom com todos&#8230;e sempre”. (p.48)</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> <strong>Misericórdia com as pessoas</strong></span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"><strong> </strong><strong>1.</strong>Nos primeiros tempos do pontificado&#8230;uma noite em que o rumor regular dos passos se juntavam aos acessos de tosse de um dos guardas, decidiu ir verificar&#8230;</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> E disse: “Não precisam preocupar-se comigo. Sou protegido pelo Espírito Santo”.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> Os guardas obedeceram, fizeram meia-volta e estavam a ponto de se afastar, quando o Papa chamou-os e pôs na mão de um deles uma caixinha: “Eis aqui pastilhas para a tosse. Boa noite!” (p.100)</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> <strong>2.</strong>Um dia, durante um passeio no jardim, um membro do serviço de protocolo veio adverti-lo que da cúpula alguns turistas acompanhavam de binóculo todos os seus movimentos&#8230;O Papa respondeu&#8230; “Deixem-nos à vontade. Afinal, não sou objeto de escândalo para que me obriguem a proibir de ser olhado”. (p.172)<strong> </strong></span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> <strong>A vocação Sacerdotal</strong></span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> Costumava afirmar que é o Espírito Santo que destina um homem ao sacerdócio; ao escolhido, contudo, resta a plena responsabilidade de ensinar o amor ao próximo e de dar exemplo ele mesmo em primeiro lugar, conforme esta regra. (p.106)</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"><strong> </strong><strong> Era muito pacífico </strong></span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"><strong> </strong><strong>1.</strong>Certa vez, &#8230;então núncio apostólico em Paris, não pôde evitar uma conversação com o líder comunista francês Maurice Thores. Depois dos cumprimentos iniciais, Thorez, com grande habilidade, levou a conversação para o lado dos padre operários. Ele insistia em querer conhecer o pensamento do núncio apostólico sobre o assunto&#8230;O núncio, com habilidade ainda maior, interrompeu o seu interlocutor e, levantando o copo, começou a fazer o elogio do delicioso vinho francês&#8230;. “Certo, certo”, apressou-se a rebater Thorez, no entanto pensava em como retornar ao assunto que o interessava bastante&#8230;Mas em vão&#8230;Thorez não conseguiu fazer outra coisa senão escutá-lo. Após algum espaço de tempo o núncio afastou-se do &#8230;líder comunista sem que este chegasse a arrancar-lhe da boca uma única palavra sobre o problema dos padres operários. (p.110)</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> <strong>2.</strong>Durante o Concílio Vaticano II defrontaram-se alguns agudos contrastes entre os grupos conservadores e progressistas&#8230;.alguns dignitários íntimos do Papa imploraram-lhe que interviesse e servisse de intermediário. João XXIII não aceitou e disse: “É mais do que natural que cada Padre conciliar queira manifestar a própria idéia. A liberdade é sagrada e a Igreja a respeita”. (p.164)</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> Quando alguém lhe perguntava se acreditava que o cristianismo encontraria a sua unidade, João XXIII respondia que sim.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> &#8230;“alguém deve ao menos iniciar em boa hora e remover os obstáculos que impedem a consolidação da obra gloriosa. De qualquer modo, uma tentativa deve ser feita. Quem quer superar os obstáculos deve antes aparar os ângulos e as arestas”. (p.163)</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"><strong> </strong><strong>3. </strong>Em sua residência de verão em Castelgandolfo, João XXIII foi testemunha de &#8230;reprimenda feita por um guarda pontifício a um subalterno&#8230;O Papa&#8230;não apreciava a severidade excessiva&#8230;</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> “É fácil a um superior aborrecer-se com um subalterno&#8230;” Quem grita não tem razão! É preciso sempre respeitar a dignidade de quem está à nossa frente&#8230;”. (p.168)</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"><strong> </strong><strong>Concílio Vaticano II</strong></span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> O Papa João recorreu a uma audiência pública para quebrar as resistências da cúria. Em uma audiência de 1961 declarou: “Às vezes se ouve até mesmo dizer que se passarão pelo menos quatro ou cinco anos para os preparativos do Concílio. Não é absolutamente verdade. O Concílio Vaticano II abrir-se-á em 1962”. (p.160)</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"><strong> </strong><strong>Generosidade com os pobres e necessitados</strong></span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"><strong> </strong>“Durante a audiência de Ano Novo de 1963, João XXIII dirigiu-se&#8230;com estas palavras: “Não vos esqueçais que, se Deus vos cumulou de riquezas com tamanha profusão, fê-lo dando-vos porém o encargo de administrar um tesouro e dividi-lo com os pobres e os necessitados. Um dia deverei prestar contas ao Criador de todas as riquezas desta terra. Daí, pois,hoje, ao invés de amanhã. Se hesitardes ainda por um só dia, outros poderão tomá-las a força”. (p.186)</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> <strong>Alegria nos últimos momentos de vida</strong></span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> Durante os últimos instantes de lucidez que precederam sua agonia, olhou em torno e se espantou por ver tanta gente em volta de si&#8230;João esforçou-se até o fim para dissipar a atmosfera triste&#8230;que reinava em seu quarto&#8230;Reunindo as ultimas energias, esforçou-se por sorrir ainda uma vez e repetir lentamente&#8230; “Não vos preocupeis demasiado comigo&#8230;Estou pronto para a grande viagem. As malas estão arrumadas. Posso partir de um momento para o outro&#8230;” (p.194)</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"><strong> </strong><strong>Fonte:</strong>O Bom humor de João XXIII. Kurt Klinger.Melhoramentos. São Paulo 1965.<strong></strong></span></p>
<blockquote>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"><strong> </strong><strong> </strong><strong>Oração</strong></span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"><strong> </strong>Animados pela esperança sólida, digamos com as próprias palavras do Beato João XXIII:  &#8220;Ó Espírito Santo Paráclito&#8230; torna forte e contínua a prece que recitamos em nome do mundo inteiro:  apressa para cada um de nós o tempo de uma profunda vida interior:  dá impulso ao nosso apostolado, que deseja alcançar cada homem e todos os povos&#8230; Mortifica em nós a presunção natural e eleva-nos às regiões da santa humildade, do verdadeiro temor de Deus e da coragem generosa. Que nenhum vínculo terrestre nos impeça de honrar a nossa vocação; nenhum interesse, por nossa ignorância, sacrifique as exigências da justiça; nenhum cálculo limite os imensos espaços da caridade dentro das angústias dos pequenos egoísmos. Tudo seja grande em nós:  a busca e o culto da verdade; a prontidão para o sacrifício, até à cruz e à morte; e tudo, enfim, corresponda à última oração do Filho ao Pai celeste; e àquela efusão que de ti, ó Espírito Santo de amor, o Pai e o Filho desejaram para a Igreja e as suas instituições, para cada alma e para todos os povos. Amen!&#8221; (Discursos, Mensagens&#8230; op. cit., pág. 350).</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> Fonte: </span></p>
<p style="text-align:justify;"><a href="http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/homilies/2001/documents/hf_jp-ii_hom_20010603_pentecoste_po.html"><span style="color:#000000;">http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/homilies/2001/documents/hf_jp-ii_hom_20010603_pentecoste_po.html</span></a></p>
</blockquote>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">A sua santidade e sabedoria humana são expressas muito bem no chamado &#8220;decálogo da quotidianidade do Papa João XXIII&#8221;:</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> 1. Somente hoje, procurarei viver o presente (em sentido positivo), sem querer resolver o problema da minha vida inteiramente de uma só vez.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">2. Somente hoje, terei o máximo cuidado pelo meu aspecto: vestirei com sobriedade; não levantarei a voz; serei gentil nos modos; ninguém criticarei; não pretenderei melhorar ou disciplinar alguém, a não ser eu mesmo.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">3. Somente hoje, serei feliz na certeza de que fui criado para ser feliz não só no outro mundo, mas também neste.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">4. Somente hoje, adaptar-me-ei às circunstâncias, sem pretender que as circunstâncias se adaptem aos meus desejos.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">5. Somente hoje, dedicarei dez minutos do meu tempo a uma boa leitura, lembrando que como o alimento é necessário para a vida do corpo, do mesmo modo a boa leitura é necessária para a vida da alma.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">6. Somente hoje, realizarei uma boa acção e não o direi a ninguém.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">7. Somente hoje, farei algo que não gosto de fazer, e se me sentir ofendido nos meus sentimentos, farei de modo que ninguém perceba.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">8. Somente hoje, organizarei um programa: talvez não o siga exactamente, mas o organizarei. E tomarei cuidado com dois defeitos: a pressa e a indecisão.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">9. Somente hoje, acreditarei firmemente, não obstante as aparências, que a boa providência de Deus se ocupa de mim como de ninguém no mundo.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">10. Somente hoje, não temerei. De modo particular, não terei medo de desfrutar do que é bonito e de acreditar na bondade. Posso fazer, por doze horas, o que me espantaria se pensasse em ter que o fazer por toda a vida.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Conclusão: um propósito totalitário: &#8220;Quero ser bom, hoje, sempre, com todos&#8221;.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> Fonte:http://www.vatican.va/roman_curia/secretariat_state/card-bertone/2006/documents/rc_seg-st_20061011_john-xxiii_po.html</span></p>
<p style="text-align:center;"><strong><span style="color:#000000;"><span style="color:#663300;font-size:small;">CARTA ENCÍCLICA DE JOÃO XXIII</span> </span></strong></p>
<p style="text-align:center;"><em><strong><span style="color:#000000;">AD PETRI CATHEDRAM</span></strong></em></p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;"><span style="color:#000000;">CONHECIMENTO DA VERDADE, <br />
RESTAURAÇÃO DA UNIDADE<br />
E DA PAZ NA CARIDADE</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span><span style="color:#000000;"><em><span style="font-size:small;">Aos Veneráveis irmãos patriarcas, primazes, arcebispos e bispos e outros ordinários do lugar em paz e comunhão com a Sé Apostólica e a todo o clero e fiéis do orbe católico</span></em><span style="font-size:small;">.</span></span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span><strong><span style="color:#000000;">INTRODUÇÃO</span></strong></p>
<p style="text-align:justify;"><em><strong><span style="color:#000000;"><span style="font-size:small;">A Igreja em perene juventude:</span> <span style="font-size:small;">motivos de consolação e esperança </span></span></strong></em></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">1. Desde que fomos elevado, não por mérito nosso, à Cátedra de São Pedro, constitui para nós lição e conforto recordar o sentimento geral, sem limites de raça ou ideologia, que se manifestou no mundo, por ocasião do falecimento do nosso imediato predecessor. E os mesmos efeitos produz em nós pensar no espetáculo que admiramos a seguir à nossa subida ao supremo pontificado, quando as multidões, cheias de confiante expectativa, voltaram para nós as suas almas e corações sem se deixarem impressionar com outros acontecimentos nem com as graves dificuldades e angústias da vida. O que mostra com toda a clareza que a Igreja Católica se perpetua com perene juventude e é bandeira levantada sobre as nações (cf. Is 11,12). É também fonte de viva luz e de suave amor para todos os povos.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">2. Há para nós outro motivo de consolação. Queremos referir-nos tanto aos vastos aplausos com que foi acolhido o anúncio da celebração do Concílio Ecumênico, do Sínodo Diocesano de Roma, da atualização do Código de Direito Canônico e da próxima promulgação do novo Código para a Igreja de rito oriental; referimo-nos também à esperança universal de que estes acontecimentos possam levar todos a maior e mais profundo conhecimento da verdade, a salutar renovação dos costumes cristãos e à restauração da unidade, da concórdia e da paz.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">3. Agora, esses três bens, isto é, a verdade, a unidade e a paz que devem ser promovidos e alcançados segundo o espírito da caridade, serão o argumento desta nossa primeira Carta Encíclica dirigida a todo o orbe católico, por nos parecer que é isso, no momento presente, o que mais pede de nós o mandato apostólico que recebemos. O Espírito Santo nos assista do alto ao escrevermos, e a vós ao lerdes. Dócil ao impulso da divina graça, possa cada um compreender o que queremos e conseguir o que é anelo de todos, apesar dos preconceitos e das não poucas dificuldades e obstáculos. </span></p>
<p style="text-align:justify;"><strong><span style="color:#000000;"><span style="font-size:small;">PRIMEIRA PARTE</span> </span></strong></p>
<p style="text-align:justify;"><strong><span style="color:#000000;"><span style="font-size:small;">A VERDADE<br />
</span> <span style="font-size:small;">O CONHECIMENTO DA VERDADE, ESPECIALMENTE A REVELADA</span> </span></strong></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"><span style="font-size:small;">4. A causa e a raiz de todos os males que, por assim dizer, envenenam os indivíduos, os povos e as nações, e tantas vezes perturbam o espírito de muitos, está na ignorância da verdade. E não só na ignorância, mas às vezes até no desprezo e no temerário afastamento dela. Daqui erros de toda a espécie, que penetram como peste nas profundezas da alma e se infiltram nas estruturas sociais, desorganizando tudo, com grave ruína dos indivíduos e da sociedade humana. Mas Deus dotou-nos duma razão capaz de conhecer as verdades naturais. Seguindo a razão, seguimos ao próprio Deus, que é o autor dela e</span> <span style="font-size:small;">ao mesmo tempo legislador e guia da nossa vida; mas, se por loucura ou preguiça, ou, pior ainda, por má vontade, nos afastamos do reto uso da razão, apartamo-nos ao mesmo tempo do sumo bem e da lei moral. </span></span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Como dissemos, ainda que possamos atingir com a razão as verdades naturais, contudo, este conhecimento &#8211; sobretudo no que se refere à religião e à moral &#8211; nem todos podem facilmente consegui-lo; e, se o conseguem, muitas vezes vem misturado com erros. Além disso, as verdades, que ultrapassam a capacidade natural da razão, não podemos de modo nenhum atingi-las sem a ajuda duma luz sobrenatural. Por isso o Verbo de Deus, que &#8220;habita a luz inacessível&#8221; (1Tm 6,16), com imenso amor e compação do gênero humano &#8220;fez-se carne e habitou entre nós&#8221; (Jo 1,14), para iluminar &#8220;todo o homem que vem a este mundo&#8221; (Jo 1,9) e conduzir todos, não só à plenitude da verdade, mas também à virtude e à eterna bem-aventurança. Todos estão, portanto, obrigados a abraçar a doutrina do Evangelho. Uma vez rejeitada, vacilam os próprios fundamentos da verdade, da honestidade e da civilização.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><em><strong><span style="color:#000000;">A verdade do Evangelho conduz à vida eterna </span></strong></em></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"><span style="font-size:small;">5. Como é evidente, trata-se duma questão gravíssima inseparávelmente ligada com a nossa salvação eterna. Aqueles que, como adverte o Apóstolo das gentes, estão &#8220;sempre aprendendo mas sem jamais poder atingir o conhecimento da verdade&#8221; (2 Tm 3,7), e negam à razão humana a possibilidade de chegar a qualquer verdade certa e segura, e rejeitam as verdades reveladas por Deus, necessárias para a salvação eterna: esses infelizes estão bem longe da doutrina de Jesus Cristo e do pensamento do mesmo Apóstolo das gentes, que exorta a &#8220;alcançar todos nós à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus..  Assim não seremos mais crianças, joguete das ondas, agitados por todo vento de doutrina,</span> <span style="font-size:small;">presos pela artimanha dos homens, e da sua astúcia que nos induz ao erro. Mas, seguindo a verdade em amor cresceremos em tudo em direção àquele que é a Cabeça, Cristo, cujo corpo, em sua inteireza, bem ajustado e unido por meio de toda junta e ligadura, com a operação harmoniosa de cada uma das suas partes, realiza o seu crescimento para a sua própria educação no amor&#8221; (Ef 4,13-l6).</span></span></p>
<p style="text-align:justify;"><em><strong><span style="color:#000000;">Os deveres da imprensa quanto à verdade </span></strong></em></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">6. Aqueles que, com temerária ousadia, impugnam de propósito a verdade conhecida, e, falando, escrevendo e atuando, usam as armas da mentira para atrair o favor do povo simples e plasmar a seu modo a alma dos jovens, ignaro e mole como a cera, que abuso enorme não cometem, que obra tão reprovável não realizam!</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"><span style="font-size:small;">7. Não podemos deixar de exortar a que apresentem a verdade com dilig</span>ê<span style="font-size:small;">ncia, cautela e prud</span>ê<span style="font-size:small;">ncia, especialmente todos aqueles que, por meio de livros, revistas e jornais, de que hoje há tanta abundância, exercem influxo tão grande na alma dos leitores, sobretudo dos jovens, e na formação das suas opiniäes e costumes. Esses têm o dever gravíssimo de propagar não a mentira, o erro, as imoralidades, não o que leva à desonestidade, mas sim somente o verdadeiro, e tudo o que leva ao bem e à virtude. </span></span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">8. Com grande tristeza vemos verificar-se hoje o que já deplorava o nosso predecessor de feliz memória Leão XIII, isto é, &#8220;serpear a mentira com audácia&#8230; em grossos volumes e em livrinhos, nas efêmeras páginas dos jornais e na publicidade teatral&#8221;; (1) e vemos também com grande tristeza &#8220;livros e jornais que se imprimem para mofar da virtude e nobilitar o vício&#8221;.(2)</span></p>
<p style="text-align:justify;"><em><strong><span style="color:#000000;"><span style="font-size:small;">O rádio, o cinema e a televisão</span> </span></strong></em></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">9. Hoje deve porém juntar-se a tudo isso, como bem sabeis, veneráveis irmãos e diletos filhos, o rádio, o cinema e a televisão, cujos espetáculos podem facilmente seguir-se mesmo dentro de casa. Destes meios podem surgir o estímulo ao bem e à honestidade, e até à prática da virtude cristã, mas infelizmente, sobretudo para a juventude, servem não raro de incentivo aos maus costumes, à corrupção, ao engano do erro e a uma vida licenciosa. Para neutralizar, pois, com todo o cuidado e diligência, o mau influxo destes meios perigosos, que se vai difundindo cada vez mais, é preciso recorrer às armas da verdade e da honestidade. À imprensa má e mentirosa ‚ preciso contrapor a boa e verdadeira.  Às transmissäes de rádio e aos espetáculos cinematográficos e televisivos, tornados instrumentos de erro e de corrupção, é preciso contrapor outros em defesa da verdade e dos bons costumes. Assim, estas invenções recentes, que tanto podem como incentivo ao mal, tornar-se-ão para o homem instrumentos de bem e ao mesmo tempo meios de honesta distração; e o remédio virá da mesma fonte donde muitas vezes nasce o veneno.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><strong><em><span style="color:#000000;"><span style="font-size:small;">O indiferentismo religioso</span> </span></em></strong></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"><span style="font-size:small;">10. Não faltam também os que, sem impugnarem de propósito a verdade, tomam uma atitude de negligência e sumo descuido, como se Deus não nos tivesse dado a razão para procurar e alcançar a verdade. Este reprovável modo de proceder conduz, quase espontâneamente, à afirmação absurda de que todas as religiões se equivalem, sem nenhuma diferença entre a verdade e o erro. &#8220;Este princípio &#8211; para usar palavras do mesmo nosso predecessor &#8211; leva necessariamente à ruína de todas as religiões, especialmente da católica, que, sendo a única verdadeira entre todas, não pode sem grandíssima ofensa ser colocada no</span> <span style="font-size:small;">mesmo plano que as outras&#8221;. (3) Além disso, negar toda a diferença entre coisas tão contraditórias, pode levar à ruinosa conclusão de excluir todas as religiões na teoria e na prática. Como poderia Deus, que </span>é<span style="font-size:small;"> a própria verdade, aprovar ou tolerar a indiferença, a negligência e a apatia daqueles que, em questões de que depende a salvação eterna de todos, não fazem nenhum caso nem se importam de procurar e encontrar as verdades necessárias, nem prestar a Deus o culto que lhe é devido?</span></span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">11. Hoje tanto empenho e diligência se põem no estudo e no progresso do saber humano, e a nossa época bem se pode gloriar das admiráveis conquistas alcançadas na investigação científica. Então, por que não se há de pôr igual empenho, até mesmo maior, na aquisição segura daquele saber que diz respeito, não já a esta vida terrena e caduca, mas à celeste que nunca terá fim? Só quando tivermos alcançado a verdade que deriva do Evangelho, e que deve traduzir-se na prática da vida, só então a nossa alma poderá gozar a tranqüila posse da paz e alegria; alegria imensamente superior à que pode vir dos descobrimentos da ciência e daquelas maravilhosas invenções de hoje, que todos os dias são exaltadas, e elevadas, por assim dizer, até às estrelas. </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span><strong><span style="color:#000000;"><span style="font-size:small;">SEGUNDA PARTE</span> </span></strong></p>
<p style="text-align:justify;"><strong><span style="color:#000000;"><span style="font-size:small;">UNIDADE, CONCÓRDIA E PAZ<br />
A VERDADE PRESTA NOTÁVEIS SERVIÇOS À CAUSA DA PAZ</span> </span></strong></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">12. Da consecução plena, íntegra e sincera da verdade deve necessariamente seguir-se a união dos espíritos, dos propósitos e das ações. De fato, qualquer contraste e desacordo encontra a sua primeira causa no fato de a verdade não ser conhecida ou, pior ainda, mesmo conhecida, ser rejeitada por causa das vantagens que muitas vezes se esperam das falsas opiniões, ou por causa daquela reprovável cegueira que leva os homens a justificar os próprios vícios e más ações.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">13. É pois necessário que todos, tanto os indivíduos como aqueles que têm nas mãos a sorte dos povos, amem sinceramente a verdade, se querem gozar aquela concórdia e aquela paz, as únicas que podem garantir a verdadeira prosperidade pública e particular.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">14. De modo especial exortamos à concórdia e paz os supremos chefes das nações. Colocados acima dos conflitos entre os Estados, nós que abraçamos todos os povos com igual caridade e não nos deixamos levar por nenhuma ambição de domínio político nem por qualquer desejo de bens terrenos, ao falarmos de assunto de tamanha importância, pensamos que merecemos ser julgados e ouvidos com serenidade pelos homens de todas as nações. </span></p>
<p style="text-align:justify;"><em><strong><span style="color:#000000;"><span style="font-size:small;">Deus criou os homens irmãos</span> </span></strong></em></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">15. Deus criou os homens, não inimigos, mas irmãos. Deu-lhes a terra para a cultivarem com o trabalho e suor, afim de que todos e cada um gozem dos seus frutos e tirem dela quanto precisam para o sustento e as necessidades da vida. As diversas nações não passam de comunidades de homens, isto é, de irmãos, que devem tender, unidos fraternalmente, não só para o fim próprio de cada uma, mas também para o bem comum de toda a família humana. </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"><span style="font-size:small;">16. De resto esta vida mortal não se há de considerar só em si mesma ou como se a finalidade dela fosse o prazer.</span> <span style="font-size:small;">Se ela leva à dissolução do corpo do homem, prepara e dispõe também para a vida imortal, para a pátria onde viveremos eternamente. </span></span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">17. Tiradas da alma do homem esta doutrina e esta consoladora esperança, desabam todas as razões de viver. Levantam-se nas almas, fatalmente, as paixões, as lutas e as discórdias, que ninguém poderá dominar eficazmente. Deixa de brilhar a oliveira da paz, mas chameja a chama da discórdia. A sorte do homem torna-se quase igual à dos seres privados de razão; e por vezes essa sorte é ainda pior, pois, sendo dotado do poder de raciocinar, tem também a possibilidade de, abusando desse poder, cair nos abismos do mal, o que infelizmente acontece muitas vezes; e pode chegar, como outrora Caim, a manchar a terra com sangue fraterno e com gravíssimo crime.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">18. Se portanto queremos &#8211; e quem não o há de querer? &#8211; reconduzir as ações humanas ao caminho da justiça, é necessário, primeiro que tudo, reconduzir a razão e a vontade a estes princípios. </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">19. Se nos dizemos e somos realmente irmãos, se temos todos a mesma sorte na vida presente e na futura, como é possível tratarmos os outros como adversários e inimigos? Por que os havemos de invejar, alimentar ódios e preparar armas de morte contra os nossos irmãos? Já se combateu demais entre os homens. Já demasiados jovens, na flor da idade, derramaram o próprio sangue. Já existem demasiados cemitérios de mortos nas guerras, a lembrar a todos, com voz severa, que estabeleçam por fim a concórdia, a unidade e a paz justa.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">20. Pense portanto cada um, não no que os divide, mas no que os pode unir na mútua compreensão e recíproca estima. </span></p>
<p style="text-align:justify;"><em><strong><span style="color:#000000;"><span style="font-size:small;">União e concórdia entre os povos</span> </span></strong></em></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">21. Somente se se procura deveras a paz e não a guerra &#8211; como se deve fazer &#8211; e se tende com comum e sincero esforço para a concórdia fraterna entre os povos, só então será possível compreender os interesses públicos e compor bem as divergências. E poder-se-á assim chegar, de comum acordo e com os meios oportunos, à suspirada e harmoniosa união, pela qual os direitos de cada Estado à liberdade, longe de serem conculcadas por outros, sejam perfeitamente garantidos. Aqueles que oprimem os outros e os despojam da sua liberdade, não podem sem dúvida contribuir para tal união. Como vem a propósito aqui o que afirmou o nosso sapientíssimo predecessor de feliz memória Leão XIII: &#8220;Para refrear a ambição, a cobiça dos bens alheios e a rivalidade, que são os maiores incentivos à guerra, nada vale mais que as virtudes cristãs, a justiça em primeio lugar&#8221;. (4) </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">22. E se os povos não chegam a esta união fraterna, fundada necessariamente na justiça e alimentada pela caridade, a situação mundial manter-se-á muito tensa. Por isso os homens sensatos deploram justamente uma situação tão incerta, que deixa em dúvida se nos encaminhamos para uma paz sólida e verdadeira, ou se corremos com extrema cegueira para nova e terrível guerra. Com extrema cegueira, dissemos; se de fato &#8211; o que Deus não queira &#8211; houver de rebentar nova guerra, tal ‚ o poder das armas monstruosas dos nossos dias, que não restaria para todos os povos &#8211; vencedores e vencidos &#8211; senão imensa devastação e universal ruína.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"><span style="font-size:small;">23. Por isso suplicamos a todos, mas em especial aos governantes, que meditem nisto com atenção diante de</span> <span style="font-size:small;">Deus juiz, e que procurem aplicar corajosamente todos os meios, que possam levar à necessária união. Esta unidade de intenções que, segundo dissemos, é indispensável também para o aumento da prosperidade de todos os povos, só poderá ser restaurada quando, pacificados os ânimos e salvaguardados os direitos de cada um, brilhar em toda a parte a liberdade devida aos cidadãos, às nações, aos Estados e </span>à<span style="font-size:small;"> Igreja.</span></span></p>
<p style="text-align:justify;"><em><strong><span style="color:#000000;"><span style="font-size:small;">União e concórdia entre as classes sociais</span> </span></strong></em></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"><span style="font-size:small;">24. Além disso, é absolutamente necessário restaurar também, entre as várias classes sociais, a mesma concórdia que se deseja entre os povos e as nações. Se isto não acontecer, podem surgir, como já se vai vendo, ódios e discórdias recíprocas; donde surgirão desavenças, desequilíbrios sociais e até por vezes excídios, e, acrescente-se a isso, uma progressiva diminuição da riqueza e uma crise da economia pública e particular. Já o mesmo predecessor nosso observava justamente: &#8220;Quis Deus que, na comunidade do convívio humano, houvesse desigualdade de classes, mas ao mesmo tempo relações amigáveis de equidade&#8221;. (5) Com efeito, &#8220;como no corpo os vários membros se conciliam entre si e formam aquela harmônica combinação que se chama simetria, do mesmo modo a natureza exige que, no convívio civil&#8230;, as classes se integrem mutuamente e pela colaboração levem a um justo equilíbrio. Uma não pode passar sem a outra; não pode subsistir o capital sem o trabalho, nem o trabalho sem o capital. A concórdia produz a beleza e a ordem das coisas&#8221;. (6) Quem ousa portanto negar a diversidade das classes sociais contradiz a própria ordem da natureza. Quem se opõe a esta amigável e indispensável cooperação entre as mesmas classes contribui para arruinar e dividir a sociedade humana, com grave perturbação e dano do bem público e particular. Observava com razão o nosso predecessor Pio XII de imortal memória: &#8220;Num povo digno deste nome, todas as desigualdades que não derivam do arbítrio, mas da própria natureza das coisas &#8211; desigualdades de cultura, de haveres e de posição social, sem prejuízo, é claro, da justiça e da caridade mútua &#8211; não se opõem à existência dum aut</span>ê<span style="font-size:small;">ntico espírito de fraternidade&#8221;.(7) Podem, cada classe e as várias categorias de cidadãos, defender os próprios direitos, conquanto que o façam não pela violência, mas legitimamente, sem invadir os direitos alheios também eles inderrogáveis. Todos são irmãos; portanto todas as questões devem compor-se amigavelmente e com mútua caridade fraterna.</span></span></p>
<p style="text-align:justify;"><em><strong><span style="color:#000000;"><span style="font-size:small;">Alguns sinais de apaziguamento</span> </span></strong></em></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">25. Devemos reconhecer, o que ‚ de bom auspício, que de algum tempo a esta parte vigora, aqui e além, uma situação menos tensa entre as várias categorias sociais, como já observava o nosso imediato predecessor falando deste modo aos católicos da Alemanha: &#8220;A tremenda catástrofe da última guerra, que desceu tão duramente sobre vós, trouxe pelo menos este benefício: em vários meios &#8211; vencidos os preconceitos e o egoísmo de grupo &#8211; os contrastes das classes estão mitigados, e os homens aproximaram-se mais uns dos outros. A miséria comum ‚ para todos mestra salutar, embora amarga, de disciplina&#8221;.(8) </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">26. Na realidade, hoje estão um pouco diminuídas as distâncias entre as classes; estas não podem já reduzir-se a um dualismo de blocos contrapostos, um do capital e outro do trabalho. Apresenta-se, pelo contrário, a multiplicidade de grupos, mais abertos a todos os cidadãos. Os mais preparados e hábeis têm a possibilidade de subir mesmo às primeiras posições. No que respeita mais diretamente o mundo do trabalho, é consolador pensar naqueles movimentos nascidos recentemente, que tornam mais humanas as condiçäes dos operários no âmbito da empresa e outros campos do trabalho, num plano não exclusivamente econômico mas mais elevado e mais digno.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><em><strong><span style="color:#000000;">Reflexões acerca de importantes problemas no campo do trabalho </span></strong></em></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"><span style="font-size:small;">27. Todavia falta ainda percorrer muito caminho. Existem desigualdades, demasiados motivos de atrito entre setor e setor, fundados às vezes no conceito imperfeito e nem sempre de todo justo do direito de propriedade, como o defendem aqueles que procuram desmedidamente satisfazer o próprio egoísmo. Acrescenta-se a isso o doloroso fenômeno do desemprego, que em muitos causa graves angústias, fenômeno que, ao menos de momento, os rápidos progressos da técnica moderna no campo da produção poderiam agravar ainda mais. Assunto este que levou o nosso predecessor de feliz recordação Pio XI a dizer com amargura: &#8220;Vemos forçados à inércia e reduzidos à indigência extrema, juntamente com as suas famílias, tantos e tantos trabalhadores honestos e ativos, que só desejam ganhar honradamente com o suor do rosto esse pão, que todos os dias pedem ao Pai do céu, segundo a ordem divina. Os seus gemidos comovem o nosso coração e fazem-nos repetir, com a mesma ternura de piedade, a queixa do coração amorosíssimo do Divino Mestre a</span> <span style="font-size:small;">respeito de tantos que desfalecem de fome: &#8216;Tenho compaixão da multidão&#8217;&#8221; (Mc 8,2). (9) </span></span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">28. Se, portanto, como é dever de todos, queremos e procuramos a mútua harmonia das classes, através do esforço público e particular e da coordenação de corajosas iniciativas, é preciso trabalharmos quanto possível para que todos, mesmo os de mais humilde condição, possam, com o trabalho e o suor da fronte, procurar o necessário para a vida e prover segura e honestamente ao futuro próprio e dos seus. Tanto mais que as condições dos nossos dias oferecem inúmeras comodidades, de que não é lícito excluir as classes menos abastadas.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"><span style="font-size:small;">29. Exortamos todos aqueles que têm maiores responsabilidades nas empresas e dos quais depende a sorte e às vezes até a própria vida dos operários, a que não avaliem o trabalhador só do ponto de vista econômico, nem se limitem ao reconhecimento de seus direitos relativos ao salário, mas respeitem também a dignidade de sua pessoa e mais ainda considerem como irmãos. Esforcem-se também por que os operários participem cada vez mais nos lucros da empresa e se sintam, não estranhos a ela, mas co-interessados na sua vida e progressos. Isto dizemos, movidos do desejo de que se institua uma harmonia sempre maior entre os direitos e os deveres recíprocos das categorias que formam o mundo do trabalho, e para que as respectivas organizações profissionais &#8220;não sejam tomadas como arma exclusivamente destinada à guerra defensiva e ofensiva, que provoca reações e represálias, não como inundação que alaga e divide, mas como ponte que une&#8221;.(10) Deve-se sobretudo prover a que ao progresso</span> <span style="font-size:small;">econômico corresponda não menor progresso no campo dos valores espirituais, como pede a dignidade de cristãos e até de simples homens. Que aproveitará ao trabalhador conseguir melhorias econômicas cada vez maiores e alcançar um nível de vida mais elevado, se houver de perder ou descurar os bens superiores da alma imortal? As perspectivas em vista só se poderão realizar pela aplicação da doutrina social da Igreja, e se todos &#8220;procurarem alimentar em si e acender nos outros, grandes e pequenos, a caridade, senhora e rainha de todas as virtudes. Pois a suspirada salvação deve ser principalmente fruto de grande efusão da caridade; daquela caridade cristã que resume em si todo o Evangelho, e que, pronta sempre a sacrificar-se pelo próximo, é o antídoto mais seguro contra o orgulho e o egoísmo do século; dela traçou São Paulo o divino retrato com estas palavras: &#8216;A caridade é paciente, é benigna: não busca os seus próprios interesses; tudo sofre; tudo suporta&#8221;&#8216; (l Cor 13,4-7).(11)</span></span></p>
<p style="text-align:justify;"><em><strong><span style="color:#000000;">União e concórdia no seio das famílias </span></strong></em></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"><span style="font-size:small;">30. Finalmente exortamos instante e paternalmente todas as famílias a que procurem alcançar e reforçar aquela união e concórdia, a que convidamos os povos, os governantes e todas as classes sociais. Se não há paz, união e concórdia nas famílias, como poderá havê-la na sociedade civil? Esta ordenada e harmônica união, que deve sempre reinar dentro das paredes domésticas, nasce do vínculo indissolúvel e da santidade própria do matrimônio cristão e contribui imensamente para a ordem, progresso e o bem-estar de toda a sociedade civil. O pai faça, por assim dizer, as vezes de Deus no lar e oriente, não só com a autoridade, mas também com o exemplo. A mãe, com a delicadeza da alma e a virtude, procure educar forte e suavemente os filhos; para com o marido seja boa e afetuosa; e com ele prepare os filhos, dom preciosíssimo de Deus, para uma vida honesta e religiosa. Os filhos, por sua vez, sejam sempre obedientes aos pais, como devem, amem-nos, consolem-nos e, sendo necessário, ajudem-nos. Dentro das paredes domésticas reine aquela caridade que abrasava a Sagrada Família de Nazar</span>é<span style="font-size:small;">, floresçam todas as virtudes cristãs, domine a união dos corações, e brilhe o exemplo duma vida honesta. Não aconteça nunca &#8211; como pedimos ardentemente a Deus &#8211; que seja perturbada tão bela, suave e necessária concórdia; quando a instituição cristã da família vacila, quando são negados ou violados os mandamentos do Divino Redentor sobre este ponto, então desabam os fundamentos da civilização, a sociedade civil corrompe-se e corre grave perigo com prejuízos incalculáveis para todos os cidadãos.</span></span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span><strong><span style="color:#000000;">TERCEIRA PARTE </span></strong></p>
<p style="text-align:justify;"><strong><span style="color:#000000;">UNIDADE DA IGREJA</span></strong><span style="font-size:small;"><strong><br />
<span style="color:#000000;">MOTIVOS DE ESPERANÇA BASEADOS NA ORAÇÃO DE JESUS CRISTO</span></strong><span style="color:#000000;"> </span></span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">31. Falemos agora daquela unidade que de modo especialíssimo nos toca e está intimamente relacionada com o oficio pastoral que Deus nos contou: referimo-nos à unidade da Igreja.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">32. Todos sabem que o nosso divino Redentor fundou uma sociedade que deverá ser una até ao fim dos séculos: &#8220;Eis que estou convosco todos os dias até à consumação dos séculos&#8221; (Mt 28,20), e que para o alcançar Jesus Cristo dirigiu ao Pai do Céu uma fervorosa oração, que foi sem dúvida aceita e ouvida pela sua reverência (cf. Hb 5,7). É a seguinte: &#8220;Sejam todos um como tu, ó Pai, o és em mim e eu em ti, para que sejam também eles um em nós&#8221; (Jo 17,21). Esta oração dá-nos e confirma-nos a doce esperança de que finalmente todas as ovelhas, que não pertencem a este redil, venham a sentir o desejo de a ele voltar; de maneira que, segundo as palavras do Divino Redentor, &#8220;haverá um só redil e um só Pastor&#8221; (Jo 10,16).</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">33. Profundamente animados por esta suavíssima esperança, anunciamos publicamente o nosso propósito de convocar um Concílio Ecumênico, em que hão de participar os sagrados pastores do orbe católico para tratarem dos graves problemas da religião, principalmente para se conseguirem o incremento da fé católica e a saudável renovação dos costumes no povo cristão e para a disciplina eclesiástica se adaptar melhor às necessidades dos nossos tempos. Sem dúvida constituirá maravilhoso espetáculo de verdade, unidade, e caridade; espetáculo que, ao ser contemplado pelos que vivem separados desta Sé Apostólica, os convidará, como esperamos, a buscar e conseguir a unidade pela qual Cristo dirigiu ao Pai do Céu a sua fervorosa oração. </span></p>
<p style="text-align:justify;"><em><strong><span style="color:#000000;"><span style="font-size:small;">Aspirações de unidade</span> <span style="font-size:small;">nas diversas comunidades separadas </span></span></strong></em></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"><span style="font-size:small;">34. Consola-nos saber que nestes últimos tempos se foi criando no seio de não poucas comunidades, separadas da Sé Apostólica, certo movimento de simpatia pela fé e pelas instituições católicas e se originou e foi sempre crescendo a estima para com esta Sé Apostólica, caindo os preconceitos com o estudo da verdade. Sabemos, além disso, que a maior parte dos cristãos, ainda que separados de nós e entre si, têm realizado congressos e organizado conselhos</span> <span style="font-size:small;">para se unirem: tudo isto mostra o veemente desejo que os impele a chegarem ao menos a certa unidade. </span></span></p>
<p style="text-align:justify;"><em><strong><span style="color:#000000;"><span style="font-size:small;">A unidade da Igreja desejada pelo Divino Redentor</span> </span></strong></em></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">35. Sem dúvida o nosso Divino Redentor fundou sua Igreja baseando-a e construindo-a em solidíssima unidade; e se &#8211; ponhamos a hipótese absurda &#8211; o não tivesse feito, teria realizado uma coisa caduca e contraditória pelo menos no futuro, à semelhança do que se dá com os sistemas filosóficos que, abandonados ao arbítrio das várias opiniäes humanas, com o decorrer dos tempos vão nascendo um dos outros, se transformam e desaparecem sucessivamente. Ninguém pode deixar de ver quanto isto repugna à doutrina de Jesus Cristo que &#8220;é o caminho, a verdade e a vida&#8221; (Jo 14,6). </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">36. Esta unidade, veneráveis irmãos e amados filhos, que, segundo dissemos, deve ser não coisa vã, incerta e instável, mas sólida, firme e segura, (12) se falta às outras comunidades cristãs, não falta à Igreja Católica, como pode ver quem diligentemente a contemplar. Esta unidade manifesta-se por três notas distintivas: unidade de doutrina, de governo e de culto; e é tal, que se torna visível a todos, de maneira que todos a podem reconhecer e abraçar; é tal esta unidade, que, por vontade do seu Divino Fundador, todas as ovelhas se podem nela reunir num só redil e sob um só Pastor. Desta maneira, todos os filhos serão chamados à única casa paterna, estabelecida sobre o fundamento de Pedro, pois ‚ preciso procurar reunir fraternalmente todos os povos, como no único Reino de Deus, reino, cujos súditos, unidos entre si na terra pela concórdia do espírito, gozarão um dia a eterna bemaventurança no céu.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><strong><em><span style="color:#000000;"><span style="font-size:small;">Unidade da fé</span> </span></em></strong></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"><span style="font-size:small;">37. A Igreja Católica manda crer fiel e firmemente tudo o que Deus revelou, isto é, o que está contido na Sagrada Escritura e na Tradição tanto oral como escrita e, no decurso dos séculos, desde o tempo dos apóstolos foi estabelecido e definido pelos Sumos Pontífices e pelos legítimos Concílios Ecumênicos. Sempre que algu‚</span>é<span style="font-size:small;">m se afastou desta verdade, a Igreja com a sua materna autoridade não deixou de o chamar repetidamente ao reto caminho. Pois sabe muito bem e defende que há uma só verdade e que não podem admitir-se &#8220;verdades&#8221; contrárias entre si; faz sua a afirmação do Apóstolo das gentes: &#8220;Nada podemos contra a verdade, mas pela verdade&#8221; (2Cor 13,8). 38. Há porém não poucos pontos em que a Igreja Católica deixa liberdade de discussão aos teólogos, porque se trata de coisas não de todo certas e também porque, como notava o celebérrimo escritor inglês, Cardeal João Henrique Newman, tais disputas não quebram a unidade da Igreja, mas pelo contrário levam a maior e mais profunda inteligência dos dogmas, pois aplanam e tornam mais seguro o caminho para este conhecimento; da oposição de várias sentenças sai sempre nova luz. (l3) Mas é preciso manter também a norma comum que, expressa com palavras diversas, se atribui a diferentes autores: nas coisas necessárias, unidade; nas duvidosas, liberdade; em todas, caridade. </span></span></p>
<p style="text-align:justify;"><em><strong><span style="color:#000000;"><span style="font-size:small;">Unidade de governo</span> </span></strong></em></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"><span style="font-size:small;">39. Haver na Igreja Católica unidade de governo é coisa que todos vêem. Como os fiéis estão sujeitos aos sacerdotes, e os sacerdotes aos Bispos &#8220;postos pelo Espírito Santo para reger a Igreja de Deus&#8221; (At 20,28); assim, todos e</span> <span style="font-size:small;">cada um dos sagrados pastores estão sujeitos ao romano pontífice, como a quem deve ser considerado sucessor daquele Pedro, que nosso Senhor Jesus Cristo pôs como pedra e fundamento da sua Igreja (cf. Mt 16,18), com o poder de desligar e ligar na terra (cf. Mt 16,19), de confirmar os seus irmãos (cf. Lc 22,32) e de apascentar o rebanho inteiro (Jo 21,15-17).</span></span></p>
<p style="text-align:justify;"><em><strong><span style="color:#000000;"><span style="font-size:small;">Unidade de culto</span> </span></strong></em></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">40. Quem ignora que a Igreja Católica, desde o tempo dos Apóstolos e pelo decurso dos séculos, teve sempre sete sacramentos, nem mais nem menos, recebidos de Jesus Cristo como herança sagrada, os quais ela distribui em todo o orbe católico, para alimento da vida sobrenatural dos fiéis? E quem ignora que nela se celebra um só sacrifício, o Eucarístico, em que o próprio Cristo, nosso Salvador e Redentor, de modo incruento mas real, como outrora pregado na cruz do Calvário, se imola cada dia por nós todos, e difunde misericordiosamente sobre nós os tesouros infinitos da sua graça? Por isso, com muita razão notou S. Cipriano: &#8220;Não é lícito estabelecer outro altar e um novo sacerdócio, além do único altar e do único sacerdócio&#8221;.(14) O que não impede, como todos sabem, que na Igreja Católica existam e estejam aprovados diversos ritos, por meio dos quais ela brilha mais bela, como filha do Sumo Rei, na variedade dos seus ornamentos (cf. Sl 44,15). 41. Para que todos cheguem a essa unidade verdadeira e concorde, o sacerdote católico, ao oferecer o sacrifício eucarístico, oferece a hóstia imaculada pedindo primeiramente a Deus clementíssimo: &#8220;pela tua Santa Igreja Católica&#8221;, suplicando que &#8220;a purifiques, guardes, unas e dirijas em toda a terra; juntamente com teu servo o nosso Papa e todos os que, fiéis à verdadeira doutrina, cultivam a fé‚ católica e apostólica&#8221;.(15)</span></p>
<p style="text-align:justify;"><em><strong><span style="color:#000000;"><span style="font-size:small;">Paterno convite à unidade</span> </span></strong></em></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">42. Oxalá este maravilhoso espetáculo de unidade, que honra e distingue a Igreja Católica, estas súplicas, com que pede a Deus a mesma unidade para todos, comovam e motivem salutarmente o vosso espírito, o vosso, dizemos, daqueles que estais separados desta Sé Apostólica. </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">43. Permiti que vos chamemos com viva saudade irmãos e filhos. Deixai-nos alimentar a esperança do vosso regresso que desejamos com afeto muito paternal. A vós nos dirigimos com a mesma solicitude pastoral e as mesmas palavras com que o Bispo de Alexandria, Teófilo, se dirigia aos seus irmãos e filhos quando um doloroso cisma dilacerava a túnica inconsútil da Igreja: &#8220;Caríssimos, participantes da mesma vocação celeste, imitemos cada um segundo as próprias possibilidades, imitemos a Jesus, guia e consumador da nossa salvação. Abracemos aquela humildade que eleva o espírito, aquela caridade que nos une a Deus e aquela fé sincera nos divinos mistérios. Fugi da divisão, evitai a discórdia&#8230; mantende-vos em mútua caridade: ouvi Cristo que diz: Conhecerão todos que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros&#8221;.(16)</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">44. Reparai: quando vos convidamos com amor para a unidade da Igreja não vos chamamos para casa alheia, mas para a própria, para a casa comum e paterna. Permiti-nos portanto esta exortação, que vos fazemos amando-vos a todos &#8220;nas entranhas de Jesus Cristo&#8221; (Fl 1,8). Recordai-vos dos vossos pais, &#8220;que vos disseram a palavra de Deus; e considerando o fim da sua vida, imitai a sua fé&#8221; (Hb 13,7). A gloriosa falange dos Santos, que cada um dos vossos povos transpôs para o céu, sobretudo aqueles Santos, que, por meio dos seus escritos, transmitiram abundantemente e explicaram a doutrina de Jesus Cristo, parecem convidar-vos, com o exemplo da própria vida, à unidade com esta Sé Apostólica, à qual a vossa comunidade cristã esteve por tantos séculos unida salutarmente.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">45. Dirigimo-nos pois como a irmãos a todos aqueles que estão separados de nós, usando as palavras de S. Agostinho que diz: &#8220;Queiram ou não, são nossos irmãos. Só deixarão de ser irmãos nossos se deixarem de dizer: Pai nosso&#8221;.(17) &#8220;Amemos Deus nosso Senhor, amemos a sua Igreja; ele como Pai, ela como mãe; ele como Senhor, ela como a sua escrava; pois somos filhos da mesma escrava. Mas este matrimênio encontra a sua coesão na grande caridade; ninguém ofende um e merece do outro. Que te aproveita não ofender o Pai se ele defende a mãe ofendida?&#8230; Conservai-vos, portanto, caríssimos, conservai-vos todos unanimemente unidos a Deus pai e à mãe Igreja&#8221;.(18)</span></p>
<p style="text-align:justify;"><em><strong><span style="color:#000000;"><span style="font-size:small;">Necessidade de orações especiais</span> </span></strong></em></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"><span style="font-size:small;">46. Nós, portanto, para conservação da unidade da Igreja e aumento do redil de Cristo e do seu reino elevamos súplicas à benegnidade divina, dispensadora da luz celeste e de todos os bens, e exortamos também a orarem com perseverança todos os nossos irmãos e filhos em Cristo. O bom êxito do futuro Concílio Ecumênico, mais que da humana atividade e diligência, depende das ardentes orações elevadas por todos à porfia. Para elevarem estas</span> <span style="font-size:small;">súplicas a Deus, convidamos com afeto também aqueles que, embora não sendo deste redil, prestam a Deus a devida honra e sinceramente procuram obedecer aos seus preceitos.</span></span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">47. Aumente e coroe esta esperança e estes nossos votos a oração sacerdotal de Cristo: &#8220;Pai Santo, guarda no teu nome aqueles que me deste, para que sejam uma só coisa, como nós&#8230; Santifica-os na verdade: a tua palavra ‚ verdade&#8230; Não peço por eles só, mas também por aqueles que por meio da sua palavra hão de crer em mim&#8230; para que sejam perfeitos na unidade&#8230;&#8221; (Jo 17,11.17.20.21.23).</span></p>
<p style="text-align:justify;"><em><strong><span style="color:#000000;">Da concorde união dos espíritos nascem a paz e a alegria </span></strong></em></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"><span style="font-size:small;">48. Esta oração renovamo-la juntamente com o mundo católico a nós unido; e fazemo-lo não só animados da viva chama de amor para com todos os povos, mas também com espírito de sincera humildade evangélica. Conhecemos a pequenez da nossa pessoa, que Deus, não pelos nossos méritos, mas por oculto desígnio seu, se dignou elevar à dignidade de Sumo Pontífice. Por isso, a todos os nossos irmãos e filhos separados desta Cátedra de Pedro, repetimos as palavras: &#8220;Eu sou José, vosso irmão&#8221; (Gn 45,4). Vinde; &#8220;compreendei-nos&#8221; (2Cor 7,2); não queremos outra coisa, não desejamos outra coisa, não pedimos a Deus outra coisa senão a vossa salvação, a vossa eterna felicidade. Vinde; desta suspirada unidade e concórdia, que deve ser alimentada pela caridade fraterna, nascerá grande paz; aquela paz &#8220;que supera todo o entendimento (Fl 4,7), porque desce do céu; aquela paz que, por meio do concerto angélico sobre o seu presépio, Cristo anunciou aos homens de boa vontade (cf. Lc 2,4), e que depois da instituição da Eucaristia como sacramento e sacrifício, deu com estas palavras: &#8220;Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como o mundo dá &#8221; (Jo 14,27). Paz</span> <span style="font-size:small;">e alegria; sim também a alegria porque aqueles que pertencem real e eficazmente ao corpo místico de Cristo, que é a Igreja Católica, participam daquela vida, que da Cabeça divina deriva para todos os membros. Esta fará que todos os que obedecem aos preceitos e mandamentos do nosso Redentor possam gozar já nesta existência mortal aquela alegria que </span>é<span style="font-size:small;"> o penhor e anúncio da eterna felicidade do céu.</span></span></p>
<p style="text-align:justify;"><em><strong><span style="color:#000000;">A paz na alma deve ser operosa </span></strong></em></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">49. Mas esta paz, esta felicidade, enquanto percorremos o árduo caminho nesta terra de exílio, é ainda imperfeita. Não é paz completamente tranqüila, de todo serena. É paz operosa, não ociosa nem inerte. Sobretudo é paz militante contra todo o erro, mesmo que dissimulado sob aparências de verdade, contra o atrativo e seduções do vício, e contra toda a espécie de inimigos da alma, que procuram enfraquecer, manchar e arruinar os bons costumes ou a nossa fé católica; e também contra os ódios, rivalidades, dissídios que a podem quebrar ou lacerar. Por isso, o Divino Redentor nos deu e recomendou a sua paz.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">50. A paz, portanto, que devemos procurar e esforçar-nos por conseguir, deve ser a paz que não cede ao erro, que não se compromete de nenhum modo com fautores do erro, que não se entrega aos vícios e que evita toda a discórdia. É paz que exige, da parte dos que a desejam, a pronta renúncia às comodidades e vantagens próprias por causa da verdade e da justiça, segundo a recomendação evangélica: &#8220;Procurai primeiro o reino de Deus e a sua justiça&#8230;&#8221; (Mt 6,33). </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"><span style="font-size:small;">51. A Bem-aventurada Virgem Maria, Rainha da paz, a cujo Coração Imaculado o nosso predecessor Pio XII, de imortal recordação, consagrou o gênero humano, consiga</span> <span style="font-size:small;">de Deus &#8211; como lhe pedimos fervorosamente &#8211; unidade concorde, paz verdadeira, operosa e militante, tanto aos nossos filhos em Cristo como a todos aqueles que, embora separados de nós, não podem deixar de amar a verdade, a unidade e a concórdia. </span></span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span><strong><span style="color:#000000;"><span style="font-size:small;">QUARTA PARTE</span> </span></strong></p>
<p style="text-align:justify;"><strong><span style="color:#000000;">EXORTAÇÕES PATERNAIS </span></strong></p>
<p style="text-align:justify;"><em><strong><span style="color:#000000;"><span style="font-size:small;">Aos bispos</span> </span></strong></em></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">52. Queremos agora com afeto paternal dirigir-nos a cada uma das várias categorias de pessoas na Igreja Católica. E em primeiro lugar &#8220;a nossa palavra dirige-se a vós&#8221; (2Cor 6,11), veneráveis irmãos no Episcopado, da Igreja Oriental e Ocidental, que, como guias do povo cristão, suportais juntamente conosco, &#8220;o peso do dia e do calor&#8221; (cf. Mt 20,12). Conhecemos a vossa diligência; conhecemos o zelo apostólico com que procurais cada um no seu território promover, fortalecer e estender a todos o Reino de Deus. Mas conhecemos tambêm as vossas angústias, conhecemos a tristeza que vos aflige por causa de tantos filhos que se afastam, enganados pelas falsas aparências dos erros; por causa da pobreza, que às vezes, impede às obras católicas de se desenvolverem entre vós; mas principalmente por causa da falta de sacerdotes, insuficientes em muitos lugares para as necessidades cada vez maiores. Confiai porém naquele, do qual vem &#8220;toda a dádiva excelente e todo o dom perfeito&#8221; (Tg 1,17); confiai em Jesus Cristo, dirigi-lhe súplicas fervorosas; sem ele &#8220;nada podeis fazer&#8221; (Jo 15,5); mas com a sua graça pode cada um de vós repetir aquela sentença do Apóstolo das gentes: &#8220;Tudo posso naquele que me conforta&#8221; (Fl 4,13). </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">&#8220;Satisfaça Deus todos os vossos desejos conforme as suas riquezas com a glória, em Cristo Jesus&#8221; (Fl 4,19), de modo que possais colher messe abundante e frutos copiosos do campo cultivado com o vosso trabalho e suor.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><em><strong><span style="color:#000000;">Ao clero </span></strong></em></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">53. Dirigimo-nos com ânimo paterno também àqueles que militam em cada uma das classes do clero; quer sejam vossos próximos colaboradores, veneráveis irmãos, nas cúrias diocesanas; quer nos seminários vos prestem o serviço tão importante de instruir e educar a juventude eleita, chamada ao serviço de Deus; quer nas grandes cidades, nas vilas ou nas aldeias longínquas e solitárias, exerçam o cargo de pároco, tão difícil hoje, tão árduo e tão pesado. Procurem os mesmos &#8211; perdoem-nos se lho recordamos, pois esperamos que não será necessário -  procurem mostrar-se respeitadores e obedientes ao seu Bispo, segundo as palavras de Santo Inácio de Antioquia: &#8220;Sujeitai-vos ao Bispo como a Jesus Cristo&#8230; É necessário, como já praticais, nada fazerdes sem o Bispo&#8221;; (19) &#8220;pois quem é de Deus e de Jesus Cristo está com o Bispo&#8221;.(20) Lembrem-se ainda de que não têm apenas um cargo público, mas de que são principalmente ministros das coisas sagradas; por isso não ponham limite nos trabalhos, nas perdas de tempo e de bens materiais, nos gastos e nas incomodidades próprias, quando se trata de ilustrar as mentes com a luz divina, de, com o auxílio do alto e da caridade fraterna, dobrar as vontades obstinadas, e finalmente de promover e propagar o pacífico Reino de Jesus Cristo. Mais que no seu próprio esforço e trabalho confiem na graça divina, implorando-a todos os dias com orações fervorosas e instantes.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><em><strong><span style="color:#000000;"><span style="font-size:small;">Aos religiosos</span> </span></strong></em></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"><span style="font-size:small;">54. Saudamos também com coração de pai os religiosos que, tendo abraçado os vários estados de perfeição evangélica, vivem segundo as leis peculiares dos seus Institutos e obedecem a seus Superiores. Exortamo-los a que se dêem com toda a dedicação e forças a realizar aquilo que os seus Fundadores se propuseram ao dar-lhes as regras; de modo especial os exortamos a que fervorosamente se dêem à oração, às obras de penit</span>ê<span style="font-size:small;">ncia, à formação e educação da juventude, e ao alívio daqueles que de qualquer modo se vêem a braços com necessidades ou angústias. </span></span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">55. Sabemos muito bem que não poucos desses estimados filhos, por causa das circunstâncias presentes, muitíssimas vezes são chamados ao trabalho pastoral, com vantagem da religião e da virtude cristã. A estes &#8211; embora esperemos que não precisem de nossa admoestação &#8211; exortamo-los insistentemente a que aos grandes méritos, que distinguiram as suas Ordens ou Institutos religiosos no passado, acrescentem a glória de corresponder de bom grado às necessidades presentes do povo, colaborando muito zelosamente com os outros sacerdotes, na medida das próprias possibilidades.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><em><strong><span style="color:#000000;">Aos missionários </span></strong></em></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">56. A nossa mente voa agora para junto daqueles que deixaram a casa paterna e a pátria amada, e, sofrendo graves incômodos e superando grandes dificuldades, partiram para terras estrangeiras, e agora labutam naqueles longínquos campos de trabalho, para ensinar aos gentios a verdade evangélica e a virtude cristã, a fim de que em todos os povos &#8220;se propague a palavra de Deus e seja glorificada&#8221; (2 Ts 3,1). A eles está confiada, sem dúvida, missão importante em que devem colaborar todos os cristãos segundo as suas forças, quer com orações, quer dando auxílio material. Talvez nenhuma iniciativa seja tão agradável a Deus como esta que está intimamente ligada com a obrigação comum de propagar o Reino de Deus. Estes arautos do Evangelho consagram inteiramente a sua vida a Deus, para que a luz de Jesus Cristo ilumine todo o homem que vem a este mundo (cf. Jo 1,9), para que a graça divina penetre e afervore as almas de todos e os leve sobrenaturalmente a viver vida digna, culta e cristã. Esses missionários não procuram os seus interesses, mas os de Jesus Cristo (cf. Fl 2,21) e, seguindo generosamente a voz do Divino Redentor, podem aplicar a si mesmos a sentença do Apóstolo das gentes: &#8220;Nós desempenhamos as funções de embaixadores de Cristo&#8221; (2Cor 5,20) e &#8220;embora vivendo na carne, não militamos segundo a carne&#8221; (2Cor 10,3). A região a que se dirigiram para levar a luz da verdade evangélica consideram-na como segunda pátria e estimam-na com amor operoso; e embora cada um ame muito a sua terra querida, a sua própria diocese ou Instituto religioso, compreende e tem por certo que a este deve ser preferido o bem da Igreja universal, que se há de servir em primeiro lugar e com todos os meios.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">57. Desejamos que todos estes amados filhos &#8211; e todos aqueles que naquelas regiões ajudam generosamente os missionários como catequistas ou de outro modo &#8211; saibam que estão presentes de modo especialíssimo ao nosso coração e que nós rezamos todos os dias por eles e pelas suas atividades; e que nós confirmamos também com a nossa autoridade e com igual amor tudo quanto os nossos predecessores de feliz memória, especialmente Pio XI (21) e Pio XII (22), oportunamente estabeleceram em suas Encíclicas.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><em><strong><span style="color:#000000;">Às religiosas</span></strong></em></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">58. Nem queremos passar aqui em silêncio a respeito das virgens que pelos votos se consagraram a Deus para a ele só servirem e pelas místicas núpcias estarem intimamente unidas ao esposo divino. Elas &#8211; ou se entreguem à vida retirada nos claustros rezando e fazendo penitência ou se dediquem às obras externas do apostolado &#8211; não só podem cuidar muito mais facilmente da sua salvação, mas podem ainda ajudar muito a Igreja, tanto nas nações cristãs, como nas terras longínquas onde não brilhou ainda a luz do Evangelho. Oh! quanto não fazem estas religiosas! Oh! quantas e quão altas coisas realizam, que ninguém mais pode levar a cabo com a mesma dedicação virginal e maternal! E isso não em um mas em muitos campos de atividade: no ensino e educação da juventude; nas catequeses paroquiais; nos hospitais, onde podem cuidar dos enfermos e elevar-lhes as almas até Deus; nos asilos de velhos que podem tratar com caridade paciente, alegre e misericordiosa, sugerindo-lhes de modo admirável e suave desejos da vida eterna; finalmente nos orfanatos e hospitais infantis, fazendo as vezes de mães e tratando com amor materno esses órfãos ou abandonados que não têm pai nem mãe que os alimente, beije e abrace. As religiosas prestam ótimos serviços à Igreja Católica, à educação cristã e à prática das obras de misericórdia, mas também à sociedade civil; e conquistam uma coroa incorruptível que lhes será dada um dia no céu. </span></p>
<p style="text-align:justify;"><em><strong><span style="color:#000000;">À Aç<span style="font-size:small;">ão Católica</span> <span style="font-size:small;">e a todos os colaboradores no apostolado </span></span></strong></em></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">59. Mas, como bem sabeis, veneráveis irmãos e diletos filhos, as necessidades dos homens no campo católico são hoje tão grandes e tão variadas, que o clero, os religiosos e as religiosas parecem insuficientes para as satisfazer. </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Além disso, aos sacerdotes, aos religiosos e às religiosas não está aberto o acesso a todas as categorias de pessoas, e nem todos os caminhos lhes são acessíveis, pois muita gente os desconhece ou os evita, ou até, infelizmente, os despreza e aborrece. </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">60. Também por este grave e doloroso motivo, já os nossos predecessores chamaram os leigos para as fileiras do pacífico exército da Ação Católica, com a providencial intenção de estes virem ajudar a jerarquia eclesiástica no apostolado; aquilo que esta não pode fazer nas circunstências atuais, estes homens e mulheres católicos fazem-no generosamente, colaborando com os sagrados pastores e obedecendo-lhes sempre. E para nós grande consolação considerar o trabalho realizado até agora, mesmo em terras de missões, por estes auxiliares dos Bispos e dos sacerdotes. Acorreram de todas as idades e condições sociais, e labutaram com zelo e boa vontade para tornar conhecida a todos a verdade e para fazer sentir a todos o convite e atração da virtude. </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"><span style="font-size:small;">61. Mas fica-lhes ainda vastíssimo campo de trabalho; são muitíssimos aqueles que precisam do seu exemplo luminoso, e do seu trabalho apostólico. Pretendemos tratar noutra ocasião, de modo mais amplo e completo, deste assunto que julgamos de gravíssima e suma importância. Entretanto alimentamos a esperança certa de que os militantes nas fileiras da Ação Católica ou nas inúmeras pias associações que florescem na Igreja, continuarão com toda a diligência tão necessária atividade: quanto maiores são as necessidades deste nosso tempo, tanto maiores devem ser os esforços, os cuidados, as diligências e o zelo. Estejam inteiramente unidos, porque, como muito bem sabem, a união faz a força; deixem de lado opiniäes particulares, sempre que se trate da causa da Igreja Católica, a qual deve ser a suprema e a mais importante de</span> <span style="font-size:small;">todas; e isto não somente no que diz respeito à doutrina sagrada, mas também às normas disciplinares da Igreja, normas que devem ser respeitadas sempre por todos. Em fileiras cerradas, e sempre unidos pela obediência à jerarquia católica, avancem para novas conquistas, sempre maiores; não se poupem a trabalhos, nem fujam de incômodos para fazer triunfar a causa da Igreja.</span></span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">62. Mas, para que isto se consiga, procurem antes de tudo &#8211; como sem dúvida já estão persuadidos que deve ser -  deixar-se impregnar da doutrina cristã, intelectual e moral. Só então serão capazes de dar aos outros aquilo que tiverem adquirido com o auxílio da graça divina. Dirigimos esta recomendação em primeiro lugar aos adolescentes e jovens. Eles têm generosidade que facilmente se inflama pelos nobres ideais, mas precisam mais do que ninguém de prudência, moderação e obediência aos Superiores. A estes amadíssimos filhos, esperança da Igreja, nos quais pomos tanta confiança, chegue a expressão viva da nossa gratidão e do nosso paternal afeto. </span></p>
<p style="text-align:justify;"><em><strong><span style="color:#000000;">Aos aflitos e atribulados</span></strong></em></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"><span style="font-size:small;">63. Agora parecem subir até nós os gemidos dos que sofrem no corpo ou no espírito, ou se encontram em tais angústias econômicas que nem possuem uma casa digna de homens, nem encontram trabalho para ganhar os meios de sustentação para si próprios e para os filhos. Estas lamentações impressionam vivamente e comovem</span> <span style="font-size:small;">nosso coração, e, em primeiro lugar, queremos comunicar aos doentes, aos entrevados e aos velhos aquele conforto que vem do alto. Lembrem-se de que não temos aqui idade permanente, mas que buscamos a futura (cf. Hb 3,14); lembrem-se que as dores desta vida mortal, que purificam, elevam, e nobilitam a alma, nos podem dar alegria eterna no céu; lembrem-se de que o Divino Redentor, para lavar-nos das manchas dos nossos pecados e purificar-nos, sofreu a morte de cruz e suportou de boa mente injúrias, suplícios e aflições crudelíssimas. Assim como ele, também nós todos somos chamados da cruz à luz, segundo a sua palavra: &#8220;Se alguém quiser vir após mim, abnegue-se a si mesmo, tome a sua cruz todos os dias, e siga-me&#8221; (Lc 9,23); e terá um tesouro imperecível no céu (cf. Lc 12,23).</span></span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">64. Desejamos além disso &#8211; e estamos convencidos de que esta nossa exortação terá bom acolhimento &#8211; que os sacrifícios espirituais e corporais constituam não só degraus para cada um dos que sofrem para subir ao céu, mas contribuam também para a expiação dos pecados alheios, para o regresso ao seio da Igreja daqueles que dela infelizmente se separaram, e para o triunfo do nome cristão. </span></p>
<p style="text-align:justify;"><em><strong><span style="color:#000000;">Aos pobres </span></strong></em></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">65. Os mais desprovidos de bens materiais, que se queixam de grande pobreza, saibam antes de mais nada que nós sentimos grande dor com esta sorte que têm. E isto não só porque desejamos com coração paterno que a virtude cristã da justiça tenha a devida aplicação na questão social, e dirija e informe as relações mútuas das classes, mas também porque muito nos custa que os inimigos da Igreja abusem facilmente das injustas condições das pessoas necessitadas para atraí-las do seu lado com promessas enganosas e ilusões falsas. </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"><span style="font-size:small;">66. Saibam estes nossos caríssimos filhos que a Igreja não é inimiga deles nem lhes desconhece os direitos; mas que os protege como mãe amorosa, e prega e inculca no campo social tal doutrina e tais normas que, se forem inteiramente postas em prática, farão desaparecer todo o gênero de injustiça e levarão a distribuição melhor e</span> <span style="font-size:small;">mais justa dos bens; (23) e também se fomentará uma colaboração amigável entre as várias classes, e cada indivíduo, poderá considerar-se e ser de fato concidadão duma mesma comunidade e irmão duma mesma família. E, se considerarmos com serenidade os melhoramentos que nos últimos tempos conseguiram os que vivem do trabalho diário, devemos confessar que isso se deve principalmente à eficaz atividade dos católicos na questão social, segundo as sábias normas e repetidas exortações dos nossos predecessores. Aqueles, portanto, que se dedicam a defender os direitos das classes mais abandonadas, já têm normas certas e seguras na doutrina social cristã; se estas se puserem devidamente em prática, oferecerão o meio de chegar a uma justa solução de todos os problemas. Nunca devem pois os cristãos dirigir-se aos propugnadores de doutrinas condenadas pela Igreja; é bem verdade que estes os atraem com falsas promessas, mas, onde quer que têm o governo na mão, tentam arrancar das mentes dos cidadãos o bem supremo das consciências &#8211; isto </span>é<span style="font-size:small;">, a fé cristã, a esperança cristã e os mandamentos cristãos &#8211; e debilitam ou destroem inteiramente aquilo que em nossos dias os homens civilizados justamente exaltam, a saber, a liberdade e a verdadeira dignidade devida à pessoa humana; e até procuram destruir os próprios fundamentos da civilização cristã. Portanto aqueles que querem permanecer fiéis a Cristo têm obrigação grave de consciência de evitar de todos os modos estes erros, já condenados pelos nossos predecessores, especialmente Pio XI e Pio XII de feliz recordação, e nós igualmente condenamos.</span></span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"><span style="font-size:small;">67. Sabemos que não poucos dos nossos filhos, menos favorecidos pela fortuna ou acabrunhados pela miséria,</span> <span style="font-size:small;">muitas vezes se queixam de nem todos os preceitos cristãos sobre a questão social terem sido até agora postos em prática. É pois necessário trabalharem com todo o empenho &#8211; não só os particulares, mas principalmente os governos &#8211; para que quanto antes, embora aos poucos, seja posta inteiramente em prática a doutrina social cristã, que os nossos predecessores tantas vezes, tão ampla e sapientemente, expuseram e estabeleceram e nós confirmamos. (24)</span></span></p>
<p style="text-align:justify;"><em><strong><span style="color:#000000;">Aos refugiados e emigrantes </span></strong></em></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">68. Não estamos menos preocupado com a sorte daqueles que, pela necessidade de procurar sustento ou pelas tristes condições de suas pátrias, e pelas perseguições contra a religião, foram obrigados a abandonar a terra natal. Quantos e quão grandes males e desventuras não devem estes sofrer, arrancados ao seu meio e à casa paterna e obrigados muitas vezes a viver na aglomeração das grandes cidades ou dos grandes centros industriais, com um teor de vida completamente novo e muitas vezes corruptor. Por causa dessas condições, freqüentemente acontece que muitos passam por crises perigosas e vão pouco a pouco afastando-se das sãs tradições religiosas da própria pátria. Acresce que muitas vezes os esposos são forçosamente separados um do outro, bem como os pais dos filhos, debilitando-se os laços e relaçäes da vida doméstica, não sem prejuízo da união da família. </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"><span style="font-size:small;">69. Acompanhamos com coração paterno o trabalho dedicado e operoso daqueles sacerdotes, que, inflamados no amor de Jesus Cristo e obedecendo às normas e aos desejos da Santa Sé, como exilados voluntários, não poupam esforços para atender quanto podem ao bem espiritual e</span> <span style="font-size:small;">social destes filhos, fazendo-lhes sentir em toda a parte a caridade da Igreja, tanto mais presente e eficaz, quanto mais eles precisam de seu cuidado e auxílio.</span></span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">70. De modo semelhante, temos presente e apreciamos os esforços realizados por várias nações nesta causa tão importante e também as iniciativas tomadas recentemente no campo internacional, para se resolver quanto antes este gravíssimo problema. Confiamos que tudo isso não só ajudará a conceder, com mais facilidade, maior entrada aos emigrantes, mas também a restabelecer a sociedade doméstica de pais e filhos; só esta poderá defender eficazmente o bem religioso, moral e econômico dos emigrantes, não sem benefício dos países que os recebem. </span></p>
<p style="text-align:justify;"><em><strong><span style="color:#000000;">À Igreja perseguida</span></strong></em></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">71. Enquanto exortamos todos os nossos filhos em Cristo a evitar os erros funestos, capazes de destruir a religião e a sociedade humana, vêm-nos à memória tantos veneráveis irmãos no episcopado, e diletos sacerdotes e fiéis, que se encontram no exílio, ou foram lançados em prisões ou campos de concentração, porque não quiseram faltar ao seu dever episcopal ou sacerdotal nem apostatar da fé católica. </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">72. Não queremos ofender a ninguém, antes pelo contrário queremos dar a todos o nosso perdão implorando o perdão de Deus. Mas a responsabilidade do nosso dever sagrado exige que protejamos, quanto podemos, os direitos desses irmãos e desses filhos, pedindo insistentemente que seja concedida a cada um a liberdade legítima, que é devida a todos, portanto também à Igreja de Deus. Os que seguem realmente a verdade e a justiça, e procuram o bem de todos os homens e países, não negam a liberdade, não a sufocam nem a oprimem; não precisam de recorrer a estes meios. Por isso, jamais se pode conseguir o verdadeiro progresso dos cidadãos por meio da força, da opressão dos espíritos e das consciências.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">73. Principalmente se deve ter por certo o seguinte: descurando ou oprimindo os sagrados direitos de Deus e da religião, cedo ou tarde tremem e desabam os fundamentos da sociedade humana. Já o notava com agudeza o nosso predecessor de imortal memória, Leão XIII: &#8220;Segue-se&#8230; que a força das leis diminui e toda autoridade enfraquece, se repudiamos a regra suprema e eterna dos preceitos e das proibições de Deus&#8221;. (25) Com essa sentença concorda a palavra de Cícero: &#8220;Vós, ó pontífices&#8230; cingis mais eficazmente a cidade com a religião do que com as muralhas&#8221;.(26)</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">74. Considerando tudo isto, com o coração cheio de tristeza abraçamos a todos e a cada um daqueles que são impedidos de praticar a religião e muitas vezes &#8220;são perseguidos por amor da justiça&#8221; (Mt 5,10) e por causa do reino de Deus. Compartilhamos as suas dores, angústias e sofrimentos, e dirigimos preces ao céu para que desponte finalmente para eles a aurora de tempos melhores. Unam-se a nós nesta prece todos os nossos irmãos e filhos; e suba a Deus misericordioso, de todos os ângulos da terra, um coro imenso de súplicas, que faça descer abundante chuva de graças sobre estes membros doloridos do corpo místico de Cristo. </span></p>
<p style="text-align:justify;"><em><strong><span style="color:#000000;">Exortações finais </span></strong></em></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"><span style="font-size:small;">75. Não pedimos somente orações aos nossos caríssimos filhos, pedimos-lhes também aquela renovação da vida cristã que, mais do que as próprias oraçäes, é capaz de nos tornar Deus propício, a nós e aos nossos irmãos. Com</span> <span style="font-size:small;">prazer repetimos a vós todos as palavras elevadas e belíssimas do Apóstolo das gentes: &#8220;&#8230;Tudo o que é verdadeiro, nobre, justo, puro, amável, honroso, virtuoso ou que de qualquer modo mereça louvor&#8230; o que aprendestes e herdastes, isso praticai&#8221; (Fl 4,8). &#8220;Revesti-vos do Senhor Jesus Cristo&#8221; (Rm 13,14). Isto é: &#8220;Vós, como eleitos de Deus, santos e amados, revesti-vos de sentimento de compaixão, de bondade, humildade, mansidão, longanimidade, suportando-vos uns aos outros e perdoando-vos mutuamente&#8230; Mas, sobre tudo isso, revesti-vos da caridade, que é o vínculo da perfeição. E reine nos vossos corações a paz de Cristo, à qual fostes chamados em um só corpo&#8221; (Cl 3,12-15).</span></span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">76. Se portanto alguém teve a desgraça de se afastar do Divino Redentor por causa de suas faltas e pecados, pedimos-lhe encarecidamente que volte àquele que é o &#8220;Caminho, a Verdade e a Vida&#8221; (Jo 14,6); e se alguém está tíbio, frouxo, remisso e negligente, renove a sua fé e com a ajuda da graça divina alimente e consolide a virtude; finalmente se alguém, com o auxílio de Deus &#8220;é justo, justifique-se mais: e se é santo, santifique-se mais&#8221; (Ap 22,11). </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">77. Uma vez que hoje são tantos os que precisam de conselho, bom exemplo e também de auxílio por causa das condições tristíssimas em que se encontram, praticai todos, segundo as vossas forças e meios, as obras de misericórdia, que são muito agradáveis a Deus. </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">78. Se todos vos esforçardes por fazer tudo isso, brilhará com nova luz na Igreja o que está escrito tão belamente dos cristãos na Carta a Diogneto: &#8220;Estão na carne, mas não vivem segundo a carne. Moram na terra, mas têm a pátria no céu. Observam as leis existentes, mas com o seu teor de vida superam as leis&#8230; São ignorados, e são condenados; levados à morte, recebem vida. São mendigos, e enriquecem a muitos; têm falta de tudo, e tudo lhes sobra. São desonrados, e nas desonras recebem glórias; perdem a fama, e recebem testemunho da própria justiça. São censurados e bendizem; são tratados afrontosamente, e prestam honras. Quando fazem o bem, são castigados como malfeitores; enquanto são castigados, alegram-se como quem recebe nova vida. Numa palavra: O que é a alma no corpo, isto são os cristãos no mundo&#8221;.(27) Nestas belíssimas frases, há coisas que se podem aplicar de modo especial aos cristãos da chamada Igreja do silêncio. Por eles devemos todos de modo especialíssimo pedir a Deus, como recomendamos insistentemente ainda há pouco nas alocuções na Basílica de S. Pedro no dia de Pentecostes e na solene adoração da festa do Sacratíssimo Coração de Jesus.(28)</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">79. Esta renovação da vida cristã, esta vida virtuosa e santa, desejamo-la a todos vós e pedimos constantemente a Deus que vo-la conceda não só aos que perseveram firmes na unidade da Igreja, mas também àqueles que se esforçam por entrar nela, trazidos pelo amor da verdade e pela vontade sincera. </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">84. Seja preparação e penhor das graças do céu a bênção Apostólica, que vos damos a cada um de vós, veneráveis irmãos e diletos filhos, com paternal e vivo afeto. </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> <em><span style="font-size:small;">Dado em Roma, junto de São Pedro, no dia 29 de junho, festa dos SS. Apóstolos Pedro e Paulo, no ano de 1959, primeiro do nosso Pontificado</span></em><span style="font-size:small;">.</span></span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"><span style="font-size:small;">Fonte:<a href="http://www.vatican.va/holy_father/john_xxiii/encyclicals/documents/hf_j-xxiii_enc_29061959_ad-petri_po.html"><span style="color:#000000;">http://www.vatican.va/holy_father/john_xxiii/encyclicals/documents/hf_j-xxiii_enc_29061959_ad-petri_po.html</span></a></span></span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span></p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/biografiadossantos2.wordpress.com/444/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/biografiadossantos2.wordpress.com/444/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/biografiadossantos2.wordpress.com/444/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/biografiadossantos2.wordpress.com/444/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/biografiadossantos2.wordpress.com/444/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/biografiadossantos2.wordpress.com/444/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/biografiadossantos2.wordpress.com/444/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/biografiadossantos2.wordpress.com/444/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/biografiadossantos2.wordpress.com/444/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/biografiadossantos2.wordpress.com/444/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/biografiadossantos2.wordpress.com/444/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/biografiadossantos2.wordpress.com/444/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/biografiadossantos2.wordpress.com/444/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/biografiadossantos2.wordpress.com/444/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=biografiadossantos2.wordpress.com&amp;blog=14156376&amp;post=444&amp;subd=biografiadossantos2&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://biografiadossantos2.wordpress.com/2010/08/11/beato-joao-xxiii/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
	
		<media:content url="" medium="image">
			<media:title type="html">biografiadossantos2</media:title>
		</media:content>

		<media:content url="http://biografiadossantos2.files.wordpress.com/2010/08/papa_joao_23.jpg" medium="image">
			<media:title type="html">papa_joao_23</media:title>
		</media:content>
	</item>
		<item>
		<title>São Vicente de Paulo</title>
		<link>http://biografiadossantos2.wordpress.com/2010/08/09/sao-vicente-de-paulo/</link>
		<comments>http://biografiadossantos2.wordpress.com/2010/08/09/sao-vicente-de-paulo/#comments</comments>
		<pubDate>Mon, 09 Aug 2010 13:01:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>biografiadossantos2</dc:creator>
				<category><![CDATA[São Vicente de Paulo]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://biografiadossantos2.wordpress.com/?p=432</guid>
		<description><![CDATA[ Biografia de São Vicente de Paulo pelo Vaticano CARTA DO PAPA JOÃO PAULO II AO SUPERIOR -GERAL DOS LAZARISTAS POR OCASIÃO DO 400º ANIVERSÁRIO DO NASCIMENTO DE SÃO VICENTE DE PAULO   Ao Reverendo Padre Richard McCULLEN Superior-Geral da Congregação da Missão Há quatrocentos anos — aos 24 de abril de 1581 na aldeia de [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=biografiadossantos2.wordpress.com&amp;blog=14156376&amp;post=432&amp;subd=biografiadossantos2&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><span style="color:#000000;"><a href="http://biografiadossantos2.files.wordpress.com/2010/08/pr_vida_svp.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-433" title="pr_vida_svp" src="http://biografiadossantos2.files.wordpress.com/2010/08/pr_vida_svp.jpg?w=480&#038;h=724" alt="" width="480" height="724" /></a></span></p>
<div><span style="font-family:Times New Roman;color:#663300;font-size:medium;"> </span><span style="font-family:Times New Roman;color:#663300;font-size:medium;"><span style="font-family:Times New Roman;color:#663300;font-size:medium;"><strong><em><span style="color:#000000;">Biografia de São Vicente de Paulo pelo Vaticano</span></em></strong></span></span></div>
<p style="text-align:justify;"><strong><em><span style="color:#000000;">CARTA DO PAPA JOÃO PAULO II<br />
AO SUPERIOR -GERAL DOS LAZARISTAS<br />
POR OCASIÃO DO 400º ANIVERSÁRIO<br />
DO NASCIMENTO DE SÃO VICENTE DE PAULO</span></em></strong></p>
<p style="text-align:justify;"> </p>
<p style="text-align:justify;"><em><span style="color:#000000;">Ao Reverendo Padre<br />
Richard McCULLEN<br />
Superior-Geral da Congregação da Missão</span></em></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Há quatrocentos anos — aos 24 de abril de 1581 na aldeia de Pouy, nas &#8220;Landes&#8221; — nascia São Vicente de Paulo. A Igreja deve tanto ao terceiro filho de Jean Depaul e Bertrande Demoras, que considera obrigação sua comemorar este aniversário. Os santos, com efeito, ainda em vida e, sobretudo depois de mortos, são no mundo, ao longo dos séculos, testemunhas da presença de Deus que ama e de sua ação salvadora. O quarto Centenário do nascimento de Vicente de Paulo é — para as famílias religiosas nascidas de seu carisma e para todo o povo cristão — preciosa oportunidade de meditar nas maravilhas de um Deus de ternura e misericórdia por meio de alguém que a Ele se entregou sem reserva através dos compromissos irrevogáveis do sacerdócio. Desejando vivamente manifestar à Congregação da Missão, à Companhia das Filhas da Caridade, às Conferências de São Vicente de Paulo e a todas as obras de inspiração vicentina, quanto a Igreja aprecia o trabalho apostólico por elas desenvolvido na trilha de seu Fundador, quero expressar-lhes, por seu intermédio, os pensamentos que o acontecimento me sugere e meu mais fervoroso estímulo para que acendam, por toda a parte e sempre, a chama da caridade evangélica (cf. <em>Lc</em> 12, 49) que ardia no coração do Padre Vicente.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Primeiramente, a vocação deste genial iniciador da ação caritativa e social ilumina ainda hoje a estrada de seus filhos e filhas, dos leigos que vivem de seu espírito, dos jovens que buscam a chave de uma existência útil e radicalmente consumida no dom de si. É fascinante o itinerário espiritual de São Vicente de Paulo. Depois da ordenação sacerdotal e de estranha aventura de escravidão em Túnis, ele parece voltar as costas ao mundo dos pobres, rumando a Paris na expectativa de adquirir um benefício eclesiástico. Conseguiu colocar-se como esmoler da rainha Margarida. Tal posto fê-lo aproximar-se da miséria humana, especialmente no novo Hospital da Caridade. É então que o Padre de Bérulle, fundador do Oratório na França, lhe proporciona — por meio de uma série de iniciativas aparentemente pouco coerentes — a oportunidade para as descobertas que foram a origem das grandes realizações da sua vida. Inicialmente, Bérulle o envia como Pároco a Clichy-la-Garenne, arrabalde de Paris. Quatro meses mais tarde, o faz entrar na família de Gondi como preceptor dos filhos do General das Galeras. Desígnios da Providência. Transitando continuamente com os Gondi por seus castelos e propriedades do interior, Vicente de Paulo descobriu a terrível realidade da miséria material e espiritual do &#8220;pobre povo do campo&#8221;. A partir de então; começa a interrogar-se: era justo dedicar à educação de crianças de importante família seu ministério sacerdotal, enquanto os camponeses viviam e morriam em tal abandono? Ouvidas as dúvidas de Vicente, Bérulle o encarrega da paróquia abandonada de Châtillon-des-Dombes, onde o novo pastor adquire uma experiência decisiva. Domingo de agosto, 1617. Chamado para atender a uma família, cujos membros estavam todos doentes, ele assume a organização da generosidade dos vizinhos e de pessoas de boa vontade: era o nascimento da primeira &#8220;Caridade&#8221; que ia servir de modelo a tantas outras. E, daquele momento até o último suspiro, não o abandonaria mais a convicção de que o serviço dos pobres era sua vida. Este resumo do &#8220;itinerário interior&#8221; de Vicente de Paulo nos vinte primeiros anos de sacerdócio mostra-nos um presbítero extremamente atento .a seu tempo, deixando-se guiar pelos acontecimentos ou, antes, pela Providência divina, sem jamais se lhe antecipar, sem &#8220;passar-lhe por cima&#8221;, como gostava de dizer. Hoje como ontem, não seria tal disponibilidade o segredo da paz e da alegria evangélica, assim como o caminho privilegiado da santidade?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Para melhor servir os pobres, Vicente decidiu-se a &#8220;reunir eclesiásticos que, livres de quaisquer compromissos, se aplicassem inteiramente, sob a orientação dos Bispos, à salvação do pobre povo do campo, por meio da pregação, da catequese, das confissões gerais, sem disso auferir retribuição alguma, qualquer que fosse sua natureza ou modalidade&#8221;. O Priorado de São Lázaro, adquirido por volta de 1632, motivou logo o apelido de &#8220;lazaristas&#8221; aos membros deste grupo sacerdotal que cresceu rapidamente, implantando-se em cerca de quinze dioceses para missões paroquiais e fundação de &#8220;Caridades&#8221;. A Congregação da Missão estendeu-se até à Itália, à Irlanda, à Polónia, à Argélia, a Madagáscar. Vicente não cessa de inculcar em seus companheiros &#8220;o espírito de Nosso Senhor&#8221;, que ele compendia em . cinco virtudes fundamentais: simplicidade, mansidão em relação ao próximo, humildade em relação a si mesmo, e, enfim, como condicionamento para estas três, a mortificação e o zelo, que seriam como seus aspectos dinâmicos. Cheias de sabedoria espiritual e realismo pastoral, as exortações por ele dirigidas aos que partiam para pregar o Evangelho: trata-se, não de se fazer amar, e sim de fazer amar Jesus Cristo. Num tempo de tantos pregadores de complicados sermões, com citações em grego e latim, ele exigia, em nome do Evangelho, a simplicidade, a linguagem imaginosa e convincente.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Possam os &#8220;lazaristas&#8221; de hoje, sempre fiéis ao Pai São Vicente, semear fartamente a Palavra de Deus pela pregação e contribuir incessantemente a &#8220;fortalecer a identidade sacerdotal e seu autêntico dinamismo evangélico&#8221; no povo de Deus, conforme lhes desejava eu mesmo em minha carta a todos os sacerdotes da Igreja, na Quinta-feira santa de 1979. Possa ainda o exemplo do Padre Vicente estimular a todos os que se acham revestidos da grande responsabilidade de preparar para as comunidades cristãs, urbanas e rurais, os ministros sagrados (ordenados) de que têm tanta necessidade!</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">No correr das missões, evidenciou-se igualmente que os frutos de tal método de evangelização dependiam da permanência de padres instruídos e zelosos nas paróquias missionadas. Assim, bem cedo, os &#8220;lazaristas&#8221; começaram a dar à formação sacerdotal a atenção que davam às missões, fundando, para isso, seminários em conformidade com os urgentes apelos do Concílio de Trento.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">O primeiro retiro de ordenados, animado pelo próprio São Vicente, em 1628, a pedido do Bispo de Beauvais, foi o ponto de partida, não apenas dos &#8220;exercícios preparatórios&#8221; à ordenação, mas também da formação permanente do clero, graças às &#8220;Conferências das Terças-feiras&#8221; para os Eclesiásticos, em São Lázaro. Tais iniciativas, que entusiasmaram o Padre Olier, forneceram à Igreja sacerdotes exemplares, vários deles, como Bossuet, chamados ao episcopado. A este clero de Paris e do interior, Vicente de Paulo comunicou espírito evangélico e ardor missionário, orientando-o para a exigência da fraternidade sacerdotal e da ajuda mútua no serviço dos pobres, sob filial dependência dos Bispos. &#8220;Como revelar ao mundo o amor de Deus, gostava de repetir, se os mensageiros deste amor não se unem entre si?&#8221;. Não seria, para todos os padres de hoje, um convite de São Vicente a viverem o sacerdócio em equipes fraternas, indissoluvelmente orantes e apostólicas; a um só tempo, abertas à colaboração com os leigos e penetradas do sentido do sacerdócio ministerial que vem do Cristo para o serviço das comunidades cristãs?</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Outro aspecto do dinamismo e do realismo de Vicente de Paulo foi dotar as &#8220;Caridades&#8221;, já numerosas, de uma estrutura de unidade e eficiência. Luísa de Marillac, viúva de António Le Gras, iniciada à vida espiritual por São Francisco de Sales, depois, sob a orientação do próprio São Vicente, foi por este enviada para visitar e estimular as &#8220;Caridades&#8221;. Cumpriu maravilhosamente a missão, cujos ecos contribuíram muito para que várias &#8220;boas moças do campo&#8221; que colaboravam com as &#8220;Caridades&#8221;, se decidissem a seguir-lhe o exemplo de oblação total a Deus e aos pobres. A 29 de novembro de 1633, nascia a Companhia das Filhas da Caridade, recebendo de Vicente de Paulo um regulamento original e exigente: &#8220;Tereis por mosteiros a sala dos doentes; por cela, um quarto de aluguer; como capela, a igreja paroquial; como claustro, as ruas da cidade; como clausura, a obediência; como grade, o temor de Deus; como véu, a santa modéstia&#8221;. O espírito da Companhia foi assim resumido: &#8220;Deveis fazer o que o Filho de Deus fez na terra; a estes pobres doentes, deveis dar a vida do corpo e a vida da alma&#8221;. No encalço de Luísa de Marillac, milhares e milhares de mulheres consumaram a vida no humílimo serviço dos sofredores, dos mendigos, dos prisioneiros, dos marginais, dos excepcionais, dos analfabetos, das crianças abandonadas. Como o Pai Vicente de Paulo elas são, após ele, o coração do Cristo no mundo dos pobres e também dos ricos, a quem procuram tornar generosos para com os pobres. Antes dos atuais movimentos feministas, o Padre Vicente soube encontrar, entre as mulheres de seu tempo, auxiliares inteligentes e generosas, fiéis e constantes. A história da Companhia ilumina de modo singular, o que é, indubitavelmente, o mais profundo aspecto da feminilidade: o do chamado à ternura e à misericórdia, de que sempre necessitará a humanidade, à qual estão sempre presentes os pobres. E as sociedades modernas até produzem novas formas de pobreza.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Este olhar contemplativo sobre a epopéia vicentina, levar-nos-ia facilmente a dizer que São Vicente é um santo moderno. Sem dúvida, se ele reaparecesse hoje, não teria o mesmo campo de ação. Foram superadas muitas doenças que nos ensinou a curar. Entretanto, ele encontraria infalivelmente, o caminho dos pobres, dos novos pobres, nas concentrações urbanas de nosso tempo, como outrora nos campos. Imagine-se o que este arauto da misericórdia e da ternura de Deus seria capaz de empreender, utilizando com sabedoria, todos os meios modernos à nossa disposição! Numa palavra, sua vida se assemelharia ao que sempre foi: um evangelho generosamente aberto, com o mesmo cortejo de pobres, de doentes, de pecadores, de crianças infelizes e, também, de homens e mulheres a se dedicarem ao amor e ao serviço dos pobres. Todos, famintos de verdade e de amor, tanto quanto de alimento material e de cuidados corporais! Todos, a escutar o Cristo que continua a lhes dizer: &#8220;Aprendei de mim que sou manso e humilde de coração!&#8221; (<em>Mt</em> 11, 29).</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Possa o quarto centenário do nascimento de São Vicente de Paulo iluminar profusamente o povo de Deus, reanimar o zelo de todos os seus discípulos e fazer ressoar no coração de numerosos jovens o chamado ao serviço exclusivo da caridade evangélica! Estes, os sentimentos e os votos que eu desejava expressar à grande e cara família dos Lazaristas e das Filhas da Caridade e a todos os movimentos vicentinos, acrescentando-lhes minha afetuosa Bênção Apostólica.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><em><span style="color:#000000;">Do Vaticano, aos 12 de maio de 1981</span></em></p>
<p style="text-align:justify;"><strong><span style="color:#000000;">JOANNES PAULUS PP. II</span></strong></p>
<h2 style="text-align:justify;"><span style="color:#ffcc00;">Biografia de São Vicente de Paulo por Guilherme Vaeessen </span></h2>
<h2 style="text-align:justify;"><span style="color:#ffcc00;">C.M. Mensageiro da Fé</span></h2>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">1. Nasceu a 24 de abril de 1581, na pequena aldeia de pouy, perto de Dax, ao pé dos Pirineus na França. Seu pai chamava-se João de Paulo sua mãe Bertranda de Moras. Cultivavam uma pequena propriedade de que tiravam a subsistência para a família, composta de seis filhos. A Vicente que era o terceiro filho, coube, como aos outros irmãos, o trabalho do campo, principalmente o pastoreio dos rebanhos paternos.(p.11).</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">2.Aos 23 de setembro de 1600, em Chateaul&#8217;Evêche, recebeu a ordenação sacerdotal&#8230;os assistentes, admirados e comovidos ante tanta piedade, dirão: Que padre santo! Como celebra bem a Santa Missa&#8230;.Em 1605, Vicente foi a Marselha para receber um pequeno legado de uma pessoa piedosa. Voltando por mar para Tolosa, foi o navio surpreendido por uma esquadrilha de piratas que cruzavam o Golfo de  Leão&#8230;.Lá, com a corda ao pescoço, foram expostos na feira para ser vendidos. &#8220;Os compradores, diz o santo, nos revistaram como a cavalos e bois, fazendo-nos abrir a boca para ver nossos dentes, sondando nossas feridas, fazendo-nos andar..levantar pesos para verem nossas forças&#8230;Vicente foi vendido a um pescador, depois a um médico e, afinal, a um renegado francês que o levou para o interior, onde tinha uma lavoura, lugar extremamente deserto e quente. Lá cavava a terra com uma corrente aos pés. Uma&#8230;curiosa, diz o Santo, de saber o modo de viver dos cristãos, apesar de muçulmana, frequentemente ia me visitar na terra em que eu trabalhava&#8230;ante as razões daquela mulher e ajudado pela graça de Deus, abriu os olhos o marido e tão comovido ficou que, no dia seuinte, disse a Vicente que, para voltar à França e a Deus só lhe faltava a ocasião favorável. Esta se lhe apresentou após dez longos meses de espera. Em junho de 1607 se meteram, só os dois, em um frágil batel, e com ventos que sopravam rumo à França, deixando a terra da infidelidade e da escravidão, passaram felizmente ao mediterrâneo. A 28 de junho aportaram à cidade de Águas Mortas, na foz do Ródano. Quando pôde pisar o solo de sua pátria, Vicente levantou os braços ao céu e entoou o &#8220;Te Deum laudamus&#8221;.(p.16-p.19)</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">3.Consta, porém, que, pelos fins de 1609, já estava em Paris, como capelão da Rainha Margarida, esposa repudiada de Henrique IV, a qual, depois de uma vida leviana, tinha se convertido sinceramente, dando provas de uma grande piedade e de uma caridade sem limites para com os pobres&#8230;Foi naquele tempo, enquanto capelão da rainha Margarida, que Vicente teve de passar por duas provações terríveis. Quem é destinado a grandes obras tem de passar por grandes tribulações, como já disse. Implorar a Deus, disse um santo religioso, é uma excelente obra de religião; trabalhar por Deus é uma obra ainda mais excelente; mas sofrer por Deus é, segundo São João Crisóstomo, uma obra mais gloriosa do que ressuscitar mortos.(p.20-21).</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">4.Vicente tinha por penitente um célebre eclesiástico que outrora tinha defendido o catolicismo contra os ataques dos hereges, com um sucesso exraordinário. Por isso, talvez para manter a humildade, Deus permitiu que o demônio o tentasse, de modo ter´rivel, contra a fé. Sofria tão grandes tentações de blasfemar contra Jesus Cristo e pensamentos de desespero&#8230;Chegou a tal ponto a pertuurbação que era incapaz de celebrar a Santa Missa e de rezar o Ofício Divino. Vendo seu penitente nesse estado deplorável e receando que cedesse ás sugestões do inimigo da salvação, tomou nosso santo uma resolução generosa e extraordinária. Pediu a Deus que a terível provação do outro passasse para ele. O Senhor aceitou a oferta heróica. O eclesiástico viu-se de repente livre da tentação e Vicente, ao mesmo tempo, alvejado pelos mais furiosos ataques do inferno. Foi uma luta horrível que durou quatro anos. Cansado, esgotado de amanha batalha, opondo repetidos  atos de fé, orações, mortificações, recorreu a um piedoso estratagema. Escreveu sua profissão de fé, o Credo, como um protesto contra os pensamentos de infidelidade, e a trouxe constantemente sobre o coração, tendo convencionado com Nosso Senhor que, cad avez que levasse a mão ao peito, seria com a intenção de renovar o seu protesto de fidelidade. Um dia em que a tentação lhe causava tormentos mais violentos do que de costume, sentiu-se a tomar a resolução irrevogável de consagrar toda a sua vida ao serviço dos aflitos. Logo a tentação desapareceu, as trevas se dissiparam e deram lugar a uma luz abundante. (p.22-23).</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"><span style="color:#000000;">5.</span><strong><span style="color:#000000;">Acusado</span></strong><span style="color:#000000;"> </span><strong><span style="color:#000000;">injustamente</span></strong><span style="color:#000000;"> &#8220;No bairro de S. Germano, talvez por economia, tomara Vicente por aposento a mesma casa&#8230;de um velho conhecido&#8230;o juiz de Sore. Esse guardava seu rico dinheiro num ármário cuja chave trazia sempre consigo&#8230;Pois, um dia, o doutor, antes de sair, se esqueceu de tirar a chave do cofre.Nesse interim veio o criado do farmacêutico trazer um remédio a Vicente, que então estava doente de cama, e oferecendo-se-lhe ocasião de ir buscar no armário um copo, levado pela cobiça, meteu o dinheiro na algibeira. Voltando o cavalheiro à casa e não achando o dinheiro, o reclamou de Vicente, como se este lho tivesse roubado.Respondeu este que nem o tirara, nem o vira tirar. Furioso, o homem acusa o santo desse furto e o cobre de inhúrias tão descomedidas que o servo de Deus para evitar maior barulho, mudou de aposento e de casa. Não cessou, porém a perseguição do juiz; antes cada vez crescia mais, porque publicamente lhe chamava de ladrão, até na  presença de pessoas de qualidade, como o Cardeal de Bérulle e outras pessoas. Vicente, humilde e inocente, sem culpar a outrem nem desculpar-se a si mesmo, somente dise: Deus sabe a verdade.Deus porém, acode aos inocentes que nele põem confiança, como acudiu a José e à casta Suzana&#8230;o criado da Farmácia, responsável pelo roubo, ao ver-se preso em Bordéus por outros delitos, atormentado pelos remorsos da consciência, mandou chamar à cadeia o tal juiz, pois o conhecia, e confessou que fora ele que furtara o dinheiro.Ficou atonito o juiz com esta noticia e, cheio de espanto por ter injuriado a Vicente, escreveu-lhe relatando o fato e dizendo-lhe que, se quisesse, iria a Paris e prostrado a seus pés, lhe pediria perdão. (p.23-24).</span></span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">6.O resto do seu tempo é repartido entre o confessionário, o catecismo, a oração e o estudo&#8230;Muitas famílias inteiras, que estavam infeccionadas de calvinismo, por sua diligência se reconciliaram com a Igreja e vários membros delas acabaram abraçando a vida religiosa. (p.27). </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">7.Trata-se de aproximar o rico do pobre, de se procurarem, de se julgarem lealmente, sem injusta severidade nem falsa complacência.Trata-se afinal de trazê-los a uma estima e amizade recíprocas&#8230;O pobre e o rico não tem igual necessodade um do outro? Para isso, para os aproximar, é preciso estabelecer uma obra fixa. Chamar-se-á &#8220;Confraria de Caridade&#8221;.Nela o rico e o pobre aprenderão seus deveres, o papel, o proveito social da caridade&#8230;Mandou, pois Vicente, chamar as senhoras De Chassaigne e De Brie: suas duas convertidas, e lhe expôs suas idéias: constituir uma associação com outras senhoras, com o fim de angariar e regularizar os socorros a serem distribuídos a todos os pobres doentes da localidade.(p.31).</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">O famoso pequeno método de S. Vicente</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Em que consiste? Em usar na pregação, uma linguagem capaz de ser compreendida pelo último dos ouvintes, linguagem adaptada ao seu modo de viver, com exemplos tirados de sua profissão, de seus trabalhos diários como fazia Jesus Cristo. Em dividir o sermão em três pontos bem definidos. No primeiro mostram-se os motivos de praticar tal virtude ou de evitar tal mal; no segundo explica-se em que consiste esta virtude ou este mal; e no terceiro indicam-se os meios de adquirir a virtude ou evitar o mal. Tais os três pontos principais que o missionário deve desenvolver simplesmente, com o próprio coração nas mãos&#8230;(p.39-40).</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Lazaristas</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Vicente viu seus filhos multiplicarem-se a ponto de o pobre &#8220;Asilo dos Bons Meninos&#8221; não poder mais os abrigar.  Deus, porém, providenciou a tempo. Adriano Bom, Prior de S.Lázaro ofereceu ao santo a casa e as terras do seu priorado, conhecido pelo nome de S. Lázaro, antigo hospital de leprosos e vasta construção onde permaneceram até o fim do século XVIII..Daqui vem o costume de se chamarem &#8220;Lazaristas&#8221; os padres congregados de S.Vicente. (p.42).</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Luiza de Marillac</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Viuva aos trinta e quatro anos, de Antônio Legras, secretário da rainha Maria de Médicis, Luíza &#8230;sentia uma inclinação irresistível de consagrar-se aos pobres e doentes&#8230;Vicente lembrou-se então de que, nas missões, tinha encontrado frequentemente moças piedosas, honestas, sem inclinação para o casamento nem recursos para poderem entrar na vida religiosa, mas dispostas a se dar a Deus, para o serviço dos pobres.Sucedeu que, logo nas primeiras missões, algumas se ofereceram voluntariamente. Vicente as confiou a Luíza para esta instruí-las.A primeira foi Margarida Nazeau, pobre camponesa que, pastoreando ovelhas, tinha aprendido a ler e escrever sozinha, e depois se tinha feito professora particular das meninas pobres&#8230;Foi a primeira &#8220;Filha de Caridade e Serva dos Pobres Doentes&#8221;. E este é o nome oficial das filhas de S. Vicente. (p.46). </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Se o mundo soubesse da suavidade e das vantagens da vida religiosa , ficaria vazio;(p.48).</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Filhas de Caridade</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">&#8220;As Filhas de Caridade precisam de mais virtudes do que as religiosas mais austeras. Não há comunidade de senhoras que tenha mais encargos: primeiro, trabalhar na sua própria santificação, como as Carmelitas; segundo, como as Religiosas Hospitaleiras, tratar os doentes; em terceiro lugar instruir as meninas pobres, como as Ursulinas.  (p.49).</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Visita aos presos</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Com uma dedicação sem limites visitava-os, levava-lhes alimento, remédios, prodigalizava-lhes consolações e exortações em nome d&#8217;Aquele que também foi condenado por amor dos pecadores. Não raro lhes beijava até as algemas. (p.59).</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Se ofereceu para ficar preso no lugar do condenado</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Encontrou um condenado mais infeliz do que culpado, que já caía em desespero, porque sua ausência reduzira a mulher e os filhos à última miséria. Se alguém o substituísse, podia ser posto em liberdade. Vicente não hesita em tomar-lhe as algemas e o lugar no banco dos remadores. Mas, sendo bem descoberta a substituição, bem depressa também o santo deixou a cidade para evitar o triunfo que semelhante ação lhe teria preparado.  (p.61-62).</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Caridade</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">&#8220;Quando os pintores querem representar a caridade, diz o primeiro biógrafo de Vicente, pintam-na geralmente com crianças nos braços. Assim deveriam pintar Vicente de Paulo.&#8221;(p.64).</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Limpeza</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Não só manda enterrar os mortos cujos cadáveres ficavam às vezes sem sepultura, dias e mais dias, nas cidades e pelos campos despovoados, mas também suscita, em toda parte, &#8220;companhias aéreas&#8221; que não são outra coisa senão sociedade de limpeza pública, para purificar o ar e o solo, das imundíces que os infeccionavam. </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">São Vicente de Paulo e São Francisco de Sales</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Em 1619, S. Franciswco de Sales veio a Paris. Logo que os dois santos se encontraram&#8230;Diz Abelly que Vicente ficou encantado pela expressão de pureza angélica e de sentimento cristão de Francisco e que, depois de o ter visto, declarou que lhe parecia ter visto o Filho de Deus conversando com os homens. Por sua vez, Francisco publicou que não tinha encontrado sacerdote tão caridoso, tão prudente e dotado de tamanho talento para dirigir as almas, no caminho da mais alta perfeição, como Vicente de Paulo. (p.81).</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Confiança na Providência Divina</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Quando faziam ver ao servo de Deus que a comunidade gemia sob o peso de tantos gastos, respondia, sorrindo, que a Providência havia de prover às suas necessidades e que eles deviam julgar-se felizes por serem instrumentos de Deus para operar tão grandes frutos de misericórdia.(p.83-84).</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Combate a heresia</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Um dia o Abade sustentou, diante de Vicente, um dos erros de Calvino, condenado pelo Concílio de Trento. O santo disse&#8230;&#8221;Como quer que acredite antes num doutor particular, como é o senhor, sujeito ao erro, do que em toda a Igreja, que é a coluna da verdade? Ao que Saint Cyran replicou: O senhor é um ignorante que não merece estar a frente de sua comunidade. &#8211; O Senhor tem razão, disse Vicente; sou realmente um ignorante, mais ignorante do que julgais.&#8221;(p.88). </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Fundação de obras sociais</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Falta-me espaço e tempo para enumerar todas as obras fundadas, organizadas, dirigidas por Vicente. Capelania da Corte&#8230;paroquiato&#8230;magistério dos pobres&#8230;fundação das Senhoras de Caridade&#8230;dos hospitais para os doentes&#8230;de asilos para os velhos&#8230;.de refúgios para as mulheres decaídas e para as donzelas em perigo&#8230;.da casa para os expostos&#8230;.conselhos de consciência&#8230;.reforma do clero&#8230;retiro eclesiásticos&#8230;fundação dos seminários&#8230;.socorro às províncias associadas&#8230;.missões aos camponeses&#8230;.os leprosos&#8230;os loucos&#8230;os refugiados de guerra&#8230;os mendigos&#8230;os condenados&#8230;a direção de muitas comunidades&#8230;(p.91).</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Humildade</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">&#8220;Quanto mais humilde for alguém, tanto mais caridoso será para com o próximo.&#8221;(p.95).</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">&#8220;Se nos livrarmos do amor próprio um quarto de hora antes de morrer, podemos dar graças a Deus.&#8221;(p.95).</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"><strong>Enfermidades</strong></span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">As graves e contínuas enfermidades que sofreu quase toda a vida bem podiam dispensar as terríveis penitências voluntárias que tanto infligiu ao seu pobre corpo. Mas longe disso considerava suas moléstias como favores especiais e por tais estimava&#8230;&#8221;Peço-vos a graça de conhecer o precioso tesouro, que está encoberto nas enfermidades. Estas purificam a alma, e servem de meio eficaz para adquirir as virtudes àqueles que não as têm, e abrem ao enfermo bem largo caminho para praticar a Fé, a Esperança, a conformidade com a divina vontade, e todas as mais virtudes. Devemos pois nos persuadir que elas não são males para fugir-se senão meios proporcionados para santificar nossas almas; e que querer lançá-los fora, quando Deus no-los manda não é outra coisa senão apartarmo-nos do nosso bem.(p.104-105).</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"><strong>Morte</strong></span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Foi na segunda-feira, 27 de setembro, às quatro e meia da manhã que Deus o atraiu a si no momento e que seus filhos espirituais, reunidos na igreja, começavam a oração&#8230;Morreu aos 84 anos de idade e 60 de sacerdócio. (p.108-109).</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Depois de, a 14 de julho de 1729, ter Bento XIII pronunciado o Decreto da beatificação, já a 16 de junho de 1737, Clemente XII expedia a bula de canonização de Vicente de Paulo&#8230;O corpo de S.Vicente, revestido dos paramentos sacerdotais, repousa num grande relicário de prata e cristal, acima do altar-mor da Casa Mãe dos Padres da Congregação da Missão, em Paris, rua de Seires, 95. (p.111).</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"><strong>Frases</strong></span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Devemos amar o próximo porque é imagem de Deus e o objeto do seu amor. Um coração animado do verdadeiro amor espalha, em redor de si, o seu incenso: respira e prega amor.(p.119).</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">A prova do amor, diz S. Bernardo, é a ação, são as obras. Dizer que amamos aos pobres sem lhes fazer o bem que está ao nosso alcance, é uma ilusão.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">O exercício da humildade consiste em desprezar-se a si mesmo. Quem conhece bem a si mesmo não acha nada mais natural do que desprezar-se. Quem se despreza sinceramente leva a bem que os outros conheçam seus defeitos e o desprezem também. Quem é criminoso e recorre à humildade torna-se justo.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Doçura e humildade são duas irmãs que andam sempre juntas. Aprendamos esta virtude com Jesus Cristo que dizia: Sou manso e humilde de coração. A doçura atrai e ganha os corações, conforme a palavra de Jesus, dizendo que os mansos de coração possuirão a terra; mas com severidade e frieza só se inspira medo e afastamento. &#8220;Umas tr<strong>ês vezes, em toda a minha vida repreendi com aspereza, mas sempre me arrependi, porque me saí mal; ao passo que, pela doçura, sempre alcancei tudo quanto desejava. </strong></span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Fonte: Padre Guilherme Vaessen. São Vicente de Paulo. Vida Breviada. 2. ed. 1958. Editora Mensageiro. Salvador. Bahia. </span></p>
<h2 style="text-align:justify;"><span style="color:#ffcc00;">Conferências de São Vicente de Paulo às Filhas de Caridade</span></h2>
<h3 style="text-align:justify;"><span style="color:#003366;">&#8220;O Vosso primeiro pensamento deve ser para Deus; dai-Lhe graças por vos ter conservado durante a noite, examinai atentamente se O não ofendestes, dai-Lhe graças ou pedi-Lhe perdão, oferecei-Lhe todos os vossos pensamentos, os movimentos do vosso coração as vossas palavras e obras, proponde-vos nada fazer que lhe desagrade; e tudo quanto fizerdes durante o dia receberá a sua força desta primeira oferta feita a Deus; porque reparai minhas Filhas, não oferecendo tudo a Deus perderei as recompensas das vossas ações.&#8221;(p.2).</span></h3>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"><strong>Santíssimo Sacramento</strong></span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">&#8220;Um outro meio de nos pormos na presença de Deus, é o imaginar-nos diante do Santíssimo Sacramento do altar. E aí, minhas queridas Filhas, que nós recebemos os mais caros testemunhos do Seu amor. Amemo-Lo muito e, lembremo-nos que Ele disse, estando no mundo: &lt;Se alguém Me ama, viremos a ele&gt;(S.João 14, 23), falando do Seu Pai e do Espírito Santo; e as almas serão assim conduzidas pela sua Santa Providência como um navio pelo seu piloto.(p.3).</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"><strong>Santa Missa</strong></span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">&#8220;Ide à Santa Missa todos os dias, mas ide com grande devoção, e conservai-vos na igreja com grande modéstia, e sêde exemplo de virtude para todos que vos virem&#8230;Não é só o sacerdote quem oferece o sacrifício, mas também os que a ela assistem; e estou certo de que, quando estiverdes bem instruídas, tereis nela grande devoção; pois é o centro da devoção.&#8221; (p.3)</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"><strong>Santa Missa e pobres</strong></span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">&#8220;Minhas Filhas, sabei que, quando deixardes a oração e a Santa Missa pelo pobres, nada perdereis, pois, servir aos pobres, é ir para Deus; e deveis ver a Deus nas suas pessoas. Sede portanto muito cuidadosas em tudo o que lhes for necessário, e velai particurlamente pelo auxílio que lhes podeis dar para a sua salvação: que eles não morram sem sacramentos&#8230;Sobretudo exortai-os a fazer a confissão geral, suportai as pequenas impertinências, animai-os a sofrer tudo por amor de Deus, não vos encolerizeis nunca contra eles, nem lhes figais palavras rudes; já é bastante terem de suportar a sua doença. Pensai que sois o seu anjo da guarda visível, o seu paio e a sua mãe, e não os contrarieis senão no que lhes for nocivo, porque então seria uma crueldade conceder-lhes o que pedissem. Chorai com eles; Deus vos constituiu para serdes a sua consolação.(p.4). </span><span style="color:#000000;"><br />
</span><span style="color:#000000;"><strong>Modéstia</strong></span></p>
<p> </p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">&#8220;Deveis ser muito modestas e recatadas, e mortificar a vista. Um olhar perdeu David que era tão bom homem. É quase impossível que uma pessoa imodesta no exterior seja modesta no interior. E se me perguntardes quanto tempo devereis conservar-vos numa mesma resolução, responder-vos-ei: enquanto vos sentirdes inclinadas ao vício que quereis combater.&#8221;(p.4)</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"><strong>Tempo</strong></span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">&#8220;O tempo que vos sobrar do serviço dos doentes, deveis empregá-lo bem; não estejais nunca sem fazer nada; aplicai-vos em aprender a ler, não para vossa utilidade particular, mas para estar em condições de serdes enviadas para lugares onde possais ensinar.(p.4)</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"><strong>Silêncio</strong></span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Guardareis o silêncio desde o exame da noite até o dia seguinte depois da oração, para que esse recolhimento que transparece no exterior favoreça o entretenimento dos vossos corações com Deus; guardai-o principalemnte depois da adoração feita a Deus, antes de vos deitardes e depois de terdes recebido a sua santa benção.(p.5).</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"><strong>Renunciar a si mesmo</strong></span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Ora, para ser verdadeira Filha de Caridade, deve-se ter deixado tudo: pai, mãe, bens, pretensão ao lar; é isto que o Filho de Deus ensina no Evangelho; deve também ter-se deixado a si mesmo; porque se se deixar tudo e se conservar a vontade própria, se se não deixa a si mesmo, nada se fez. (p.9).</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"><strong>Mortificação dos sentidos</strong></span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Um outro meio de vos aperfeiçoardes é a mortificação dos sentidos. Oh! Que grande segredo nos ensina S.Paulo numa das suas Epístolas, quando, falando ao povo que tinha instruido, lhe diz: &lt;Meus queridos Irmãos, tenho de vos falar de coisas muito baixas e humilhantes, mas é necessário mortificar os vossos memros, para que, como serviram à iniquidade, sirvam agora à justiça&gt;(Rm. 6, 19). O mesmo vos direi, minhas queridas Irmãs: mortificai os sentidos e depressa achareis em vós transformação e grande facilidade para o bem. Temos cinco sentidos exteriores e três interiores. Os exteriores são a vista, o olfacto, o ouvido, o gosto e o tacto&#8230;Por isso começareis pela vista; acostumai-vos a manter a vista moderadamente baixa, pois como sois para o serviço das pessoas seculares, é necessário que o excesso de vossa modéstia os não espante.Isto poderia impedir de fazerdes o bem que uma alegria moderada poderia conseguir. Mas abstende-vos unicamente desses olhares demorados para fitar de frente um homem ou uma mulher e de certos olhares afectados que são perigosíssimos e cuja ferida se não sente imediatamente. Podereis ainda mortificar este sentido na rua, na igreja e em muitas ocasiões de curiosidade, afastando, por amor de Deus, o vosso olhar desses objetos. O nosso olfato deve também ser mortificado, suportando de boa vontade os maus cheiors, quando se apresentarem, não vos mostrando esquisitas, particurlarmente com os vossos pobres doentes, e também abstendo-se dos bons, quando acontecer senti-los, mas sem que se dê por isso. Podemos mortificar também o gosto, ainda que ñão seja senão em tomar o bocado de pão que menos nos agrada, ir para a mesa sem mostrar apetite que às vezes possamos ter, abster-nos de comer fora das refeições, deixar o que é mais agradável ao nosso gosto, ou uma parte do que nos é permitido comer. O sentido do ouvido é ainda uma perigosa janela pela qual o que nos dizem entra algumas vezes tão fortemente no coração que, se seguem mil e mil desordens&#8230;Muitas vezes a caridade corre grande perigo por culpa dos sentidos. Não escuteis de boa mente, mas afastai-vos cortêsmente das maledicências, das más palavras e de tudo quanto possa ferir o vosso coração e até os vossos sentidos sem necessidade.O tacto é o quinto sentido. Mortificá-lo-emos abstendo-nos de tocar o próximo, e não permitindo aos outros tocarem, por deleitação sensual, não só as mãos, mas qualquer outra parte do corpo. (p.16).</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"><strong>Sono</strong></span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Minhas queridas Filhas, respondeu o Senhor Padre Vicente se era permitido a uma Irmã descansar de manhã, quando uma ligeira dor a acordasse de noite, bem como qualquer outra inquietação, ou quando, por sua culpa, se não tivesse à hora, ou ainda, por andar um pouco doente, não adormessece habitualmente senão de manhã. Minhas queridas Filhas, respondeu Padre Vicente, não é razoável que se levantem tarde aquelas que, por sua culpa, não tenham descansado de noite; isso seria uma desordem constante; seria sair da ordem que Deus quer que estejamos; devem sujeitar-se às horas fixadas pela regra. E depois seria de temer que a natureza se habituasse a esse sono matinal; isso dar-se-ia infalivelmente&#8230;levanto-me sempre às quatro horas, que é a hora da Comunidade, poruqe tenho a experiência de que facilmente me habituaria a levantar-me mais tarde. Eis a razão, minhas queridas Irmãs, poruqe deveis fazer um pouco de violência e depois encontrareis nisso uma grande facilidade, porque os nossos corpos são como jumentos: uma vez acostumados a um caminho, seguem sempre por ele. E para tornardes este hábito fácil, sede regulares no vosso deitar. (p.18-19).</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"><strong>Oração no início do dia</strong></span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">&#8220;Fazei sempre o que puderdes, minhas queridasd Irmãs, para que, sendo a oração a primeira das vossas ocupações, o vosso espírito esteja cheio de Deus o resto do dia&#8230;o demõnio faz tudo quanto pode para nos impedir de fazer oração, porque bem sabe que, se for o primeiro a encher-nos o espírito de vãos pensamentos, será o senhor dele todo o dia&#8230;por isso, minhas Filhas, que eu vos exorto&#8230; a que façais a vossa oração antes de sair.(p.22).</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"><strong>Discrição é não ser curioso</strong></span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Irmã Margarida Lauraine, que então servia os pobres de S. Lourenço, contou que, passando pela praça onde se faziam tolices e divertimentos, durante a feira, sentiu o desejo de se voltar para ver, mas, em vez de ceder a esse desejo, pegou na cruz do seu terço e disse:&lt;Ó meu Deus, vale mais olhar para vós que para as loucuras do mundo&gt;&#8230;É o prório Deus que o diz: &#8220;A oração curta e fervorosa penetra os céus(Ecl. 34, 21)&#8221;(p.24).</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"><strong>Não murmurar</strong></span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Ninguém desagrada tanto a Deus como um murmurador. Que faz um assassino? Mata o corpo duma pessoa cuja alma será bem-aventurada no céu. Mas, eu vos pergunto, que faz o murmurador?Muito pior. Não mata o corpo, mas mata talvez com uma só palavra grande número de almas.Sim, minhas Irmãs, uma Irmã que dissesse a outra o descontentamento que recebeu talvez do Superior ou da Superiora, que se lamentasse por estar num lugar onde não tem satisfação, que sentisse a tentação de se retirar e o dissesse, queixando-se daqueles que fossem a causa do seu desânimo; sim, minhas Filhas, digo-vos que essa pessoa seria  pior que um assassino. As pobres Irmãs que a escutam sentir-se-ão desedificadas com todas essas murmurações, começarão a murmurar aind amais, desgostar-se-ão com o seu estado, e deixarão enfiam a sua vocação, por meio da qual Deus as queria salvar e santificar. Esta pobre Irmã que primeiro murmurou não será a causa da perda de todas as outras?E que poderá fazer para restituir a essas almas a vida que lhes roubou? Não compreendeis vós que esta Irmã, se houvesse alguma aqui &#8211; o que Deus não permita!-seria pior que um assassino, pois a vida do corpo nada é comparada com a da alma. (p.26)</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"><strong> Efeitos do pecado</strong></span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Disse-vos que o pecado tem dois efeitos: o afastamento de Deus e a entrega à criatura. Pelas nossas confissões ordinárias apagamos o primeiro, que nos faz merecer o inferno. Pelas penas, doenças e aflições é rparada a conversão às criaturas.(p.31). </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"><strong>Nunca murmurar</strong></span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Um dia Noé, que tinha o espírito enfraquecido, por ter bebido um pouco de vinho a mais, deitou-se todo descoberto. Alguns dos seus filhos fizeram trça dele; mas um deles, sabendo o respeito que devia a seu pai, voltou-se de costas para o não ver, e cobriu-o com o manto. Sabeis o que aconteceu? Os que tinham murmurado foram amaldiçoados por Deus com toda a sua descendência e o filho respeitoso foi abençoado com toda a sua posteridade. Quando o mundo vos perguntar o que ganhais e pretender que perdeis o vosso tempo, oh! minhas queridas Irmãs, deveis fortalecer o vosso espírito contra todos os ditos e responder que vos considerais muito felizes por Deus se ter querido servir de vós nesta condição. Não tenhai receio; se vos virem assim resolutas, não vos dirão mais nada. E àqueles que vos chamam criadas e vos censuram de ganhar a vida com comodidade, respondei-lhes: &#8220;Muito desejaríamos servir a Deus e aos pobres à nossa custa; e se o pudesse, fá-lo-ia de muito bom grado; para testemunhar o amor e a honra que devemos aos pobres, com todo o prazer me tornaria pobre para o servir. (p.36-37)</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"><strong>Santa Providência</strong></span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">&#8220;A vossa firmeza é a Santa Providência.&#8221;(p.37).</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Motivos para servir aos pobres</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">O primeiro motivo, disse uma Irmãs, é que os pobres têm a honra de representar os membros de Jesus Cristo, que considera como feitos a Si próprio todos os serviços que a eles se prestam.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">O segundo é que a alma dos pobres tem em si a imagem de Deus, por consequeência, devemos honrar a Santíssima Trindade. </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">O terceiro é a recomendação que a este respeito nos fez o Filho de Deus por palavras e exemplos. para mostrar aos discípulos de S.João que Ele era o Messias, disse-lhes que os pobres eram evangelizados e os doentes curados.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">O quarto é que, ajudar uma alma a salvar-se, é cooperar na completa realização dos desígnios de Deus na morte de Jesus Cristo.(p.39-40)</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"><strong>Doença suportada com paciência paga as penas do purgatório</strong></span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Como vesdes, meu Irmão, esssa doença que Deus vos enviou, ajudar-vos-à talvez a evitar as penas do inferno, que hão de durar por toda a eternidade. Estai certo que essa doença diminuirá muito as que teríeis que sofrer no purgatório pelos vossos pecados, mas com uma condição: é fazer bom uso dela e suportá-la por amor de Deus. Se o doente testemunhar algum descontentamento, fazer-lhe ver que quando estamos doentes é com a permissão de Deus, e que, nestas condições, devemos perguntar-nos o que é que desejaríamos, à hora da morte, ter feito durante a vida, e procurar reparar todos os nosso pecados  por meio desta doença pela conformidade com a vontade de Deus, pela paciência em suportar a pobreza e as dores que sentimos e pela união dos nossos sofrimentos aos de Jesus na cruz. (p.42).</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"><strong>Santa Obediência</strong></span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">O Senhor Padre Vicente disse&#8230;Deveis obediência aos desígnios da Divina Providência, aceitando e recebendo da mão de Deus tudo o que vos for ordenado.Mas, minhas Filhas, vejamos que razões temos para obedecer. A primeira é que a obediência é tão agradável a Deus, que nos fez conhecer através do Santos Padres da Igreja, que tem mais valor que o sacrifício. Ora, minhas queridas Irmãs, não ignorais a grandeza do sacrifício, pois desde sempre, Deus mandou-o oferecer, para aplacar a sua divina justiça, justamente irritada contra os homens por causa de seus pecados&#8230;Uma outra razão, é que o Filho de Deus quis sujeitar-se a ela e praticou-a perfeitamente durante trinta anos, assim como a Santíssima Virgem, durante toda a vida, e S. Jose´&#8230;Um outro motivo ainda, para amar a obediência, é que, de ordinário, iludimo-nos a nós mesmos, e deixamo-los cegar pelas nossas paixões, de forma que, para praticar o bem, temos necessidade de uma direção&#8230;Mas como é que se deve obedecer, minhas Filhas? Pronta e aleremente, com discernimento e, o que é principal, para agradar a Deus. Quando obedecerdes pensai: &#8220;Agrado a Deus, ou, o que quer dizer o mesmo: &#8220;dou prazer a Deus&#8221;&#8230;A obediência deve ser pronta, porque, minhas Filhas, ir devagar ou não ir logo, diminui muito o mérito desta virtude, desidifica as vossas companheiras e desgosta os Superiores&#8230;Sede, portanto, muito prontas em obedecer, minhas queridas Irmãs. A ida da Santíssima Virge a Belém e a Sua fuga para o Egito, devem servir-vos de exemplo. A vossa obediência deve ser voluntária e não forçada nem pelo receio de desagradar ou de serdes repreendidas&#8230;Muitas vezes, minhas Filhas, o nosso juízo é cego, e o conhecimento do que é melhor está oculto, como as vezes acontece com os raios do sol, quando alguma nuvem se lhes opõe; não é que o raio não exista, mas desaparece por um tempo. Assim acontece que o conhecimento do melhor nos é velado pela preocupação de alguma paixão; o que bem nos faz ver que a maior segurança está em seguir a obediência&#8230;Acautelai-vos, minhas Irmãs, de que, quando uma Irmã vos manda fazer alguma coisa, as vossas repugnâncias vos não levem a dizer: &#8220;Fazei-a vós!&#8221; É uma expressão do demônio, de desordem e de desunião!..Esta frase jamais deve sair da boca duma Filha da Caridade&#8230;Por isso, minhas queridas Irmãs, deveis ser extremamente pontuais, fazer atenção a todos os avisos e ir na mesma ocasião ao lugar aonde vos chamar o sino para os exercícios; pois faltar a um exercício é faltar a tudo; como transgredir um mandamento é transgredir a todos. E fazei atenção; se hoje fordes negligentes na prática dum ponto das vossas regras, no dia seguinte faltareis a dois, depois a três, e por fim, retirará a sua graça&#8230;ide aonde a obediência lhes chamar. (p.45-48).</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Outra grande falta é que, quando tendes alguma dificuldade, em vez de a declarar a nós ou à Irmã da casa, ides lamentar-vos à companheira que talvez esteja tão descontente como vós ou incapaz de vos aliviar.(p.49).</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"><strong>As virtudes de Margarida de Nassau</strong></span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Era tão despreendida, que, em pouco tempo, mudou de boa vontade de três paróquias diferentes, de que saía com grande pena de todos. Nas paróquias mostrou-se tão caridosa como nos campos, dando tudo quanto tinha, quando se apresentava a ocasião; não sabia recusar nada, e desejaria receber todos em sua casa. Deve notar-se que entãoa ainda não estava formada a Comunidade, nem havia nenhuma regra que mandasse proceder de outro modo. Era muito paciente e nunca murmurava. Todos gostavam dela, tudo era amável nela. A sua caridade foi tão grande que morreu por ter deitado na sua própria cama uma pobre menina doente de peste. (p.51).</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"><strong>Não se julgar melhor que os outros</strong></span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">conhecereis se sois verdadeiras Filhas da Caridade, se fordes muito humildes, se não tiverdes ambição nem presunção, se não vos julgardes mais do que sois, nem mais do que os outros, quer quanto ao físico, quer quanto à inteligência, família ou bens, ou ainda quanto à virtude, que seria a mais perigosa ambição.Fazei uso dos bens de Deus na simplicidade. Se vos lembrardes de ter feito alguma coisa boa, atribuí a glória de Deus.(p.53).</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"><strong>Contentamento</strong></span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">As meninas da aldeia são muito sóbrias na sua alimentação minhas queridas Irmãs. A maior parte contenta-se muitas vezes com pão e sopa, apesar de trabalharem incessantemente e em trabalhos pesados&#8230;É assim que tendes de proceder se quiserdes ser verdadeiras Filhas da Caridade: não reparar no que se dá, e ainda menos se está bem feito, mas somente comer para viver.(p.54).</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">A obediência tira-me daqui; devo sair pronta e alegremente.(p.58).</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">è assim que devem ser as verdadeiras Filhas da Caridade. Regressam ao meio dia do serviço dos doentes para tomarem a sua refeição; se o médico ou a outra Irmã lhes dissessem: é preciso ir levar este remédio a um doente; não devem pensar em como estão, mas esquecerem-se a si para obedecerem, e preferirem a comodidade dos doentes à sua. (p.59).</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"><strong>Unidade</strong></span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">parece-me que a união produz a paz e a tranquilidade, e que a desunião produz a guerra e a inquietação&#8230;a união conserva as pesosas na sua vocação e a desunião a faz perder muitas vezes&#8230;A união é a imagem da Santíssima Trindade, que se compõe de três pessoas unids por amor&#8230;parece-me Senhor, que a união deve alegrar a Deus, pois onde está a paz, aí está Deus; e que, ao contrário, a desunião desgosta a Deus e alegra o demônio que só procura a discórdia e a desunião, para nos perder. </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"><strong>O contrário</strong></span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">&#8220;Reparai, minhas Irmãs&#8230;a desunião faz que, se uma quer uma coisa, a outra quererá o contrário;(p.65).</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"><strong>Desunião</strong></span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Um outra Irmã disse: &#8220;- Senhor, a desunião é uma coisa má, porque expulsa Deus da nossa alma, e nem mesmo deveríamos ir a Sagrada Comunhão estando em discórdia.&#8221;(p.65).</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"><strong>Unidade</strong></span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">&#8220;deveis viver sempre em tão perfeita união que não sejais nunca capazes, com a graça de Deus de vos zangares umas com as outras.(p.68).</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"><strong>Perdão</strong></span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Um dia falava com uma Superiora das Ursulinas de Gisors&#8230;e perguntei-lhe com admiração:&#8221;Ó minha Madre, que fazeis para manter uma tal tranquildade sem que jamais haja desarmonia? Respondeu-me: Senhor, assim que aparece algum motivo de discórdia, as nossas Irmãs têm o costume de se porem de joelhos e pedirem perdão umas às outras, de forma que a desunião não pode cá entrar.&#8221;(p.69)</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"><strong>Temperança</strong></span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Uma Irmã disse: Mas, Senhor, algumas vezes acontece que, se se quer pedir perdão a uma Irmã, escarnece disso, ou se irrita ainda mais; que se deve fazer então? Minhas Irmãs, se virdes que a Irmã, ou porque está muito zangada, ou porque não está de bom humor, ou ainda porque tem no espírito algum motivo de aborrecimento, não está capaz de receber bem a vossa humilhação, oh! não se deve pedir então perdão; pois seria lançar-lhe carvões; pô-la-íeis na contigência de se irritar mais. Esperai que se tranquilize um pouco e depois pedi-lhe perdão, com a maior humildade, reconhecendo-vos diante de Deus causa do mal que fez. (p.69)</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"><strong>Honrar os médicos</strong></span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Deveis proceder do mesmo modo para com os médicos. Ó minhas Filhas, não deveis criticar suas receitas, nem fazer os vossos remédios com outra composição, por exatamente o que vos disserem  tanto quanto à dose&#8230;disto depende a vida das pessoas&#8230;.Honrai os médicos pela necessidade(Ecl. 38, 1)&#8230;É por isso que deveis ter por ele um grande respeito.(p.77)</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"><strong>Silêncio</strong></span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Não deveis falar muito&#8230;sejais modestas..pois se vissem na rua uma Filha de Caridade imodesta, olhando para a esquerda e para a direita, imediatamente diriam: &#8220;Esta Irmã de Caridade desistirá&#8221;&#8230;(p.78).</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"><strong>Compreensão</strong></span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Deveis viver reciprocamente em grande união e não vos queixardes nunca uma das outras. Para se conseguir isso, minhas Filhas, deveis suportar-vos muito, porque não há ninguém que não tenha defeitos. Se não suportarmos a nossa Irmã, porque havemos de pensar que tem aobrigação de nos suportar?&#8230;Não devemos nós proceder do mesmo modo conosco, que não queremos sempre a mesma coisa; pois hoje queremos uma coisa e amanhã outra? E, senão nos suportarmos nestas mudanças, jamais teremos em nós paz e tranquilidade. Não vos queixeis umas das outras&#8230;e não vos demoreis voluntariamente nos pensamentos de aversão que às vezes possais ter. (p.79).</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"><strong>Humildade sabe ceder</strong></span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Não faleis nunca uma contra a outra, mas abandonai antes a vossa vontade, para fazerdes a de vossa Irmã; bem entendido, nas coisas que não constituam pecado nem transgridam a vossa regra&#8230;E deveis ainda, minhas Filhas, não ter apego algum, nem aos lugares, nem às pessoas, nem aos ofícios, e estardes sempre prontos a deixar tudo quando a obediência vos retirar de qualquer lugar, convencidas de que Deus assim o quer.(p.80).</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"><strong>Pedir a Deus as virtudes</strong></span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Um primeiro meio para bem tratar essas criancinhas é pensar que não somos capazes disso, manifestar muitas vezes a Deus a nossa incapacidade e pedir-Lhe a graça de nos ensinar a tratá-las com muita utilidade para a Sua glória e salvação delas&#8230;não mostrar mais afeição a uns do que a outros, pois as preferências causam ciúmes e inveja;(p.84).</span><span style="color:#000000;"> </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"><strong>Saudar o próximo</strong></span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Ó minhas Filhas, saudai-vos à vontade. O mundo já não vê em vós somente as meninas da aldeia&#8230;afirmo-vos que, entre as pessoas que têm vindo fazer o retiro, algumas se converteram menos pelas meditações do que pelo exemplo deste respeito cordial&#8230;Minha Irmã dizeis os vossos pensamentos. &#8211; Senhor, uma das razões de nos respeitarmos cordialmente, é que todas somos criadas à imagem de Deus, e que, produzindo esta cordialidade uma grande união, Nosso Senhor derramará as Suas graças com mais abundância sobre a companhia&#8230;Minhas Filhas, é a característica das filhas do demônio ter sempre o espírito de contradição, de desunião, de inimizade, deixar-se guiar sempre pelas máximas próprias, e não ser nunca da opinião das outras.(p.98;100).</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">São Vicente de Paulo</span><a href="http://biografiadossantos2.wordpress.com/wp-admin/post.php?post=432&amp;action=edit#_ftn1"><span style="color:#000000;">[1]</span></a><span style="color:#000000;"> nos ensina a importância da cordialidade:</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span><span style="color:#000000;">“Dizia-vos eu há pouco, que estar na Vossa Companhia, com união e cordialidade, era estar no paraíso&#8230;para a obter e para a conservar depois de a terdes obtido humilhai-voa muito, tende uma baixa opinião de vós mesmas e desejai ser consideradas sempre como as mais pequeninas&#8230;(p.102)</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span><span style="color:#000000;">São em grande número as faltas que cometem as que se deixam levar por essas demasiadas delicadezas consigo mesmas; desprezam as pessoas que lhes agradam e murmuram contra elas; são apegadas aos que lhe são simpáticos; não se submetem às determinações da divina Providência e não aceitam o que lhes acontece como sendo da vontade de Deus&#8230;.(p.110)</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span><span style="color:#000000;">Procurai desculpar-vos umas às outras.(p.153).</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span><span style="color:#000000;">Nada há melhor que possa transformar os corações mais irritados do que a mansidão; se queremos conseguir alguma coisa de alguém, pedimos-lha com respeito e mansidão, e desta forma estamos quase certos de a obter.(p.175)</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span><span style="color:#000000;">O respeito consiste em fazer de bom grado o que as nossas Irmãs nos ordenam, sem replicar, pois não poderíamos honrar melhor uma pessoa, do que fazendo o que ela pede de nós, não replicando, mas de boa vontade, com amor e cordialidade. A mansidão consiste em fazer às nossas Irmãs o que desejaríamos que nos fizessem e em suportar-lhes o que queríamos que suportassem em nós&#8230;Em sermos muito leais, ajudando e auxiliando as nossas Irmãs no que julgaremos poder aliviá-las, saudando-as e respeitando-as com um rosto alegre, que não esteja triste nem carrancudo&#8230;nunca se repreendendo com azedume umas as outras, mas sim em espírito de caridade.(p.177)</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span><span style="color:#000000;">Na vida dos santos observa-se que &#8230;quando notavam alguma falta em alguém, não os avisavam senão com grande modéstia e cordialidade, e se os seus avisos não eram bem recebidos, permaneciam neste espírito de mansidão e humilhavam-se diante de Deus, pensando que tinham sido eles talvez a causa de que se não aproveitasse da sua instrução.(p.178).</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span><span style="color:#000000;">Na conferência de São Vicente de Paulo</span><a href="http://biografiadossantos2.wordpress.com/wp-admin/post.php?post=432&amp;action=edit#_ftn2"><span style="color:#000000;">[2]</span></a><span style="color:#000000;"> às filhas de caridade(15 de janeiro de 1645) as irmãs elogiaram as virtudes da irmã Joana Dalmagne, colocando-a como belo exemplo. Vejamos as qualidades que as irmãs notaram nela:</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> </span><span style="color:#000000;"> “tinha uma grande modéstia&#8230;era muito mansa nas suas conversas, muito sóbria na alimentação e não tinha apego algum aos bens terrenos&#8230;ela compadecia-se muito dos pobres. Quando os não podia ajudar fisicamente, consolava-os, chorava com eles, animava-os a suportar a sua pobreza e as suas doenças e ensinava-os a fazer bom uso de tudo isso.Mesmo durante a sua doença falava-lhes com tanto fervor que nem parecia que estava doente&#8230;era muito prudente no seu falar&#8230;quando alguém lhe fazia alguma reflexão sobre a sua inferioridade, não se zangava por isso, mostrava-lhe boa cara, interpretava tudo bem e procurava todas as ocasiões para se humilhar&#8230;quando julgava ter-me praticado algum descontentamento, prostrava-se aos meus pés&#8230;Não receava o mau cheiro que os doentes exalavam&#8230;desejava revelar seus defeitos a toda gente&#8230;a sua caridade fazia-a considerar culpada das faltas do próximo, desculpava-o e atribuía-as a si e acusava-se delas.</span></p>
<hr size="1" />
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Fonte:S.Vicente de Paulo. COnferências às Filhas da Caridade. Lisboa. 1960. Imprimatur &#8211; Manuel, Arcebispo de Mitilene. </span></p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/biografiadossantos2.wordpress.com/432/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/biografiadossantos2.wordpress.com/432/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/biografiadossantos2.wordpress.com/432/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/biografiadossantos2.wordpress.com/432/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/biografiadossantos2.wordpress.com/432/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/biografiadossantos2.wordpress.com/432/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/biografiadossantos2.wordpress.com/432/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/biografiadossantos2.wordpress.com/432/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/biografiadossantos2.wordpress.com/432/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/biografiadossantos2.wordpress.com/432/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/biografiadossantos2.wordpress.com/432/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/biografiadossantos2.wordpress.com/432/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/biografiadossantos2.wordpress.com/432/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/biografiadossantos2.wordpress.com/432/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=biografiadossantos2.wordpress.com&amp;blog=14156376&amp;post=432&amp;subd=biografiadossantos2&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://biografiadossantos2.wordpress.com/2010/08/09/sao-vicente-de-paulo/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
	
		<media:content url="" medium="image">
			<media:title type="html">biografiadossantos2</media:title>
		</media:content>

		<media:content url="http://biografiadossantos2.files.wordpress.com/2010/08/pr_vida_svp.jpg" medium="image">
			<media:title type="html">pr_vida_svp</media:title>
		</media:content>
	</item>
		<item>
		<title>São Matias</title>
		<link>http://biografiadossantos2.wordpress.com/2010/07/29/sao-matias/</link>
		<comments>http://biografiadossantos2.wordpress.com/2010/07/29/sao-matias/#comments</comments>
		<pubDate>Thu, 29 Jul 2010 16:50:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>biografiadossantos2</dc:creator>
				<category><![CDATA[São Matias]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://biografiadossantos2.wordpress.com/?p=428</guid>
		<description><![CDATA[O Pentecostes foi o momento de efusão do Espírito Santo sobre Maria Santíssima e os apóstolos quando estavam reunidos no cenáculo em oração. Antes de o Espírito Santo descer acontece a escolha do discípulo que substituiria o lugar de Judas, o traidor. Matias é o escolhido. Deus é tão bom que quis que o novo [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=biografiadossantos2.wordpress.com&amp;blog=14156376&amp;post=428&amp;subd=biografiadossantos2&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<span style="text-align:center; display: block;"><a href="http://biografiadossantos2.wordpress.com/2010/07/29/sao-matias/"><img src="http://img.youtube.com/vi/r_eEDGdW4UU/2.jpg" alt="" /></a></span>
<p><a href="http://biografiadossantos2.files.wordpress.com/2010/07/s-matias.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-429" title="s-matias" src="http://biografiadossantos2.files.wordpress.com/2010/07/s-matias.jpg?w=350&#038;h=431" alt="" width="350" height="431" /></a></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">O Pentecostes foi o momento de efusão do Espírito Santo sobre Maria Santíssima e os apóstolos quando estavam reunidos no cenáculo em oração. Antes de o Espírito Santo descer acontece a escolha do discípulo que substituiria o lugar de Judas, o traidor. Matias é o escolhido. Deus é tão bom que quis que o novo discípulo recém chegado participasse da graça de receber o Espírito Santo em Pentecostes. É a própria parábola do pai de família que se concretiza. Todos os onze discípulos acompanharam Jesus em toda sua vida publica de evangelização. Estiveram fiéis, durante anos, com Jesus. A bondade de Deus é tão grande que lhes reservou a graça de receber o Espírito Santo. Jesus prometeu aos discípulos, após a Ressurreição: “porque João batizou na água, mas vós sereis batizados no Espírito Santo daqui há poucos dias.”(Atos 1, 5). Aos onze discípulos e a Maria Santíssima era esperado que fosse enviado o Espírito Santo, o paráclito, conforme o desígnio de Deus. No entanto, a infinita bondade de Deus sempre nos encanta com sua excelência no amor. Deus tem um desígnio especial para o Matias. Sim, ele que não era um dos doze, e, foi escolhido para o lugar de Judas, teve a graça de iniciar seu discipulado com a vinda do Espírito Santo sobre ele e os discípulos. Quão profundos são os desígnios de Deus e a quão abundante é sua bondade e misericórdia. Deus só esperou o momento de escolher Matias para logo em seguida enviar o seu Espírito Santo sobre Maria Santíssima e os discípulos. Esta misericórdia de Deus nos leva a refletir a parábola do pai de família. Em Mateus 20, 1-16, encontramos um belíssimo ensinamento sobre a Bondade de Deus:</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> Com efeito, o Reino dos céus é semelhante a um pai de família que saiu ao romper da manhã, a fim de contratar operários para sua vinha. Ajustou com eles um denário por dia e enviou-os para sua vinha. Cerca da terceira hora, saiu ainda e viu alguns que estavam na praça sem fazer nada. Disse-lhes ele: &#8211; Ide também vós para minha vinha e vos darei o justo salário. Eles foram. À sexta hora saiu de novo e igualmente pela nona hora, e fez o mesmo. Finalmente, pela undécima hora, encontrou ainda outros na praça e perguntou-lhes: &#8211; Por que estais todo o dia sem fazer nada? Eles responderam: &#8211; É porque ninguém nos contratou. Disse-lhes ele, então: &#8211; Ide vós também para minha vinha. Ao cair da tarde, o senhor da vinha disse a seu feitor: &#8211; <strong>Chama os operários e paga-lhes, começando pelos últimos até os primeiros.</strong> Vieram aqueles da undécima hora e receberam cada qual um denário. Chegando por sua vez os primeiros, julgavam que haviam de receber mais. Mas só receberam cada qual um denário. Ao receberem, murmuravam contra o pai de família, dizendo: &#8211; Os <strong>últimos só trabalharam uma hora&#8230; e deste-lhes tanto como a nós, que suportamos o peso do dia e do calor.</strong> O senhor, porém, observou a um deles: &#8211; <em>Meu amigo, não te faço injustiça. Não contrataste comigo um denário? Toma o que é teu e vai-te. Eu quero dar a este último tanto quanto a ti.</em> <em>Ou não me é permitido fazer dos meus bens o que me apraz? Porventura vês com maus olhos que eu seja bom? </em><strong>Assim, pois, os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos. </strong>[ Muitos serão os chamados, mas poucos os escolhidos.](Mateus 20, 1-16).</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> Deus é bom. a Sua Bondade e Misericórdia é infinita. O operário que trabalhou por último foi o primeiro a ser pago pelo trabalho que executara. Teve ainda o benefício de receber o mesmo que os outros receberam mesmo tendo trabalhado só uma hora. Deus revela neste ensinamento que: “<strong>os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos.” </strong>A escolha de Matias se encaixa perfeitamente nesta parábola. Foi o último discípulo a ser escolhido para substituir o lugar vago de Judas. Não tinha feito nenhum trabalho. Não tinha enfrentado mares tempestuosos, nem as perseguições dos fariseus. Matias conheceu em infinita abundância o beneplácito de Deus na sua escolha. Em toda atividade primeiro se realiza o trabalho e depois recebemos o pagamento merecido. Matias, sem merecer, nem ter iniciado a evangelização, recebeu como pagamento a amizade e companhia de Maria e os discípulos. Este pagamento já era suficiente para ser eternamente agradecido. A companhia de Maria já seria suficiente para eternamente louvar e bendizer a Deus. Mas Deus, em sua insondável misericórdia concedeu a Matias ainda a graça infinita de receber o Espírito Santo em Pentecostes. Matias é a obra prima da misericórdia e bondade de Deus. “<em>Assim, pois, os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos.”(Mateus 20, 16).</em> Em Atos 1, 13-26, podemos refletir esta misericordiosa escolha de Matias:</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> “Tendo entrado no cenáculo, subiram ao quarto de cima, onde costumavam permanecer. Eram eles: Pedro e João, Tiago, André, Filipe, Tomé, Bartolomeu, Mateus, Tiago, filho de Alfeu, Simão, o Zelador, e Judas, irmão de Tiago. Todos eles perseveravam unanimemente na oração, juntamente com as mulheres, entre elas Maria, mãe de Jesus, e os irmãos dele. Num daqueles dias, levantou-se Pedro no meio de seus irmãos, na assembléia reunida que constava de umas cento e vinte pessoas, e disse: Irmãos, convinha que se cumprisse o que o Espírito Santo predisse na escritura pela boca de Davi, acerca de Judas, que foi o guia daqueles que prenderam Jesus. Este homem adquirira um campo com o salário de seu crime. Depois, tombando para a frente, arrebentou-se pelo meio, e todas as suas entranhas se derramaram. (Tornou-se este fato conhecido dos habitantes de Jerusalém, de modo que aquele campo foi chamado na língua deles Hacéldama, isto é, Campo de Sangue.) Pois está escrito no livro dos Salmos: Fique deserta a sua habitação, e não haja quem nela habite; e ainda mais: Que outro receba o seu cargo (Sl 68,26; 108,8). Convém que destes homens que têm estado em nossa companhia todo o tempo em que o Senhor Jesus viveu entre nós, a começar do batismo de João até o dia em que do nosso meio foi arrebatado, um deles se torne conosco testemunha de sua Ressurreição. Propuseram dois: José, chamado Barsabás, que tinha por sobrenome Justo, e Matias. E oraram nestes termos: Ó Senhor, que conheces os corações de todos, mostra-nos qual destes dois escolheste para tomar neste ministério e apostolado o lugar de Judas que se transviou, para ir para o seu próprio lugar. <strong>Deitaram sorte e caiu a sorte em Matias, que foi incorporado aos onze apóstolos.”</strong>(Atos 1, 13-26).</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> Quão bonito é notar que, logo após, a escolha de Matias, Maria Santíssima e os discípulos recebem o Espírito Santo de Deus. Acontece o Pentecostes.(Atos 2, 1-15). Assim, também nós, ao regressarmos à Igreja Católica, recebemos a graça abundante de participar do serviço eclesial, pela infinita bondade de Deus.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> O Papa Bento XVI,</span><a href="http://biografiadossantos2.wordpress.com/wp-admin/post-new.php#_ftn1"><span style="color:#000000;">[1]</span></a><span style="color:#000000;"> na sua homilia em 14 de maio de 2010 nos ensina:</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> O escolhido foi Matias, que tinha sido testemunha da vida pública de Jesus e do seu triunfo sobre a morte, permanecendo-Lhe fiel até ao fim, não obstante a debandada de muitos. A «desproporção» de forças em campo, que hoje nos espanta, já há dois mil anos admirava os que viam e ouviam a Cristo. Era Ele apenas, das margens do Lago da Galiléia às praças de Jerusalém, só ou quase só nos momentos decisivos: Ele em união com o Pai, Ele na força do Espírito. E todavia aconteceu que por fim, pelo mesmo amor que criou o mundo, a novidade do Reino surgiu como pequena semente que germina na terra, como centelha de luz que irrompe nas trevas, como aurora de um dia sem ocaso: É Cristo ressuscitado. E apareceu aos seus amigos, mostrando-lhes a necessidade da cruz para chegar à ressurreição.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;">Uma testemunha de tudo isto, procurava Pedro naquele dia. Apresentadas duas, o Céu designou «Matias, que foi agregado aos onze Apóstolos» (Act 1, 26)</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> O papa Bento XVI</span><a href="http://biografiadossantos2.wordpress.com/wp-admin/post-new.php#_ftn2"><span style="color:#000000;">[2]</span></a><span style="color:#000000;"> em sua homilia em 12 de outubro de 2006 nos ensina:</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"> Em conclusão, queremos recordar também aquele que depois da Páscoa foi eleito no lugar do traidor. Na Igreja de Jerusalém a comunidade propôs dois para serem sorteados: &#8220;José, de apelido Barsabas, chamado justo, e Matias&#8221; (Act 1, 23). Foi precisamente este o pré-escolhido, de modo que &#8220;foi associado aos onze Apóstolos&#8221; (Act 1, 26). Dele nada mais sabemos, a não ser que também tinha sido testemunha de toda a vicissitude terrena de Jesus (cf. Act 1, 21-22), permanecendo-lhe fiel até ao fim.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#000000;"><br />
</span></p>
<p><span style="color:#000000;"><br />
<hr size="1" /></span></p>
<p style="text-align:justify;"><a href="http://biografiadossantos2.wordpress.com/wp-admin/post-new.php#_ftnref1"><span style="color:#000000;">[1]</span></a><span style="color:#000000;"> http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/homilies/2010/documents/hf_ben-xvi_hom_20100514_porto_po.html</span></p>
<p style="text-align:justify;"><a href="http://biografiadossantos2.wordpress.com/wp-admin/post-new.php#_ftnref2"><span style="color:#000000;">[2]</span></a><span style="color:#000000;"> http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/audiences/2006/documents/hf_ben-xvi_aud_20061018_po.html</span></p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/biografiadossantos2.wordpress.com/428/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/biografiadossantos2.wordpress.com/428/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/biografiadossantos2.wordpress.com/428/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/biografiadossantos2.wordpress.com/428/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/biografiadossantos2.wordpress.com/428/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/biografiadossantos2.wordpress.com/428/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/biografiadossantos2.wordpress.com/428/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/biografiadossantos2.wordpress.com/428/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/biografiadossantos2.wordpress.com/428/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/biografiadossantos2.wordpress.com/428/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/biografiadossantos2.wordpress.com/428/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/biografiadossantos2.wordpress.com/428/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/biografiadossantos2.wordpress.com/428/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/biografiadossantos2.wordpress.com/428/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=biografiadossantos2.wordpress.com&amp;blog=14156376&amp;post=428&amp;subd=biografiadossantos2&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://biografiadossantos2.wordpress.com/2010/07/29/sao-matias/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
	
		<media:content url="" medium="image">
			<media:title type="html">biografiadossantos2</media:title>
		</media:content>

		<media:content url="http://biografiadossantos2.files.wordpress.com/2010/07/s-matias.jpg" medium="image">
			<media:title type="html">s-matias</media:title>
		</media:content>
	</item>
	</channel>
</rss>
