Biografia dos Santos

São Vicente de Paulo

Posted on: agosto 9, 2010

 Biografia de São Vicente de Paulo pelo Vaticano

CARTA DO PAPA JOÃO PAULO II
AO SUPERIOR -GERAL DOS LAZARISTAS
POR OCASIÃO DO 400º ANIVERSÁRIO
DO NASCIMENTO DE SÃO VICENTE DE PAULO

 

Ao Reverendo Padre
Richard McCULLEN
Superior-Geral da Congregação da Missão

Há quatrocentos anos — aos 24 de abril de 1581 na aldeia de Pouy, nas “Landes” — nascia São Vicente de Paulo. A Igreja deve tanto ao terceiro filho de Jean Depaul e Bertrande Demoras, que considera obrigação sua comemorar este aniversário. Os santos, com efeito, ainda em vida e, sobretudo depois de mortos, são no mundo, ao longo dos séculos, testemunhas da presença de Deus que ama e de sua ação salvadora. O quarto Centenário do nascimento de Vicente de Paulo é — para as famílias religiosas nascidas de seu carisma e para todo o povo cristão — preciosa oportunidade de meditar nas maravilhas de um Deus de ternura e misericórdia por meio de alguém que a Ele se entregou sem reserva através dos compromissos irrevogáveis do sacerdócio. Desejando vivamente manifestar à Congregação da Missão, à Companhia das Filhas da Caridade, às Conferências de São Vicente de Paulo e a todas as obras de inspiração vicentina, quanto a Igreja aprecia o trabalho apostólico por elas desenvolvido na trilha de seu Fundador, quero expressar-lhes, por seu intermédio, os pensamentos que o acontecimento me sugere e meu mais fervoroso estímulo para que acendam, por toda a parte e sempre, a chama da caridade evangélica (cf. Lc 12, 49) que ardia no coração do Padre Vicente.

Primeiramente, a vocação deste genial iniciador da ação caritativa e social ilumina ainda hoje a estrada de seus filhos e filhas, dos leigos que vivem de seu espírito, dos jovens que buscam a chave de uma existência útil e radicalmente consumida no dom de si. É fascinante o itinerário espiritual de São Vicente de Paulo. Depois da ordenação sacerdotal e de estranha aventura de escravidão em Túnis, ele parece voltar as costas ao mundo dos pobres, rumando a Paris na expectativa de adquirir um benefício eclesiástico. Conseguiu colocar-se como esmoler da rainha Margarida. Tal posto fê-lo aproximar-se da miséria humana, especialmente no novo Hospital da Caridade. É então que o Padre de Bérulle, fundador do Oratório na França, lhe proporciona — por meio de uma série de iniciativas aparentemente pouco coerentes — a oportunidade para as descobertas que foram a origem das grandes realizações da sua vida. Inicialmente, Bérulle o envia como Pároco a Clichy-la-Garenne, arrabalde de Paris. Quatro meses mais tarde, o faz entrar na família de Gondi como preceptor dos filhos do General das Galeras. Desígnios da Providência. Transitando continuamente com os Gondi por seus castelos e propriedades do interior, Vicente de Paulo descobriu a terrível realidade da miséria material e espiritual do “pobre povo do campo”. A partir de então; começa a interrogar-se: era justo dedicar à educação de crianças de importante família seu ministério sacerdotal, enquanto os camponeses viviam e morriam em tal abandono? Ouvidas as dúvidas de Vicente, Bérulle o encarrega da paróquia abandonada de Châtillon-des-Dombes, onde o novo pastor adquire uma experiência decisiva. Domingo de agosto, 1617. Chamado para atender a uma família, cujos membros estavam todos doentes, ele assume a organização da generosidade dos vizinhos e de pessoas de boa vontade: era o nascimento da primeira “Caridade” que ia servir de modelo a tantas outras. E, daquele momento até o último suspiro, não o abandonaria mais a convicção de que o serviço dos pobres era sua vida. Este resumo do “itinerário interior” de Vicente de Paulo nos vinte primeiros anos de sacerdócio mostra-nos um presbítero extremamente atento .a seu tempo, deixando-se guiar pelos acontecimentos ou, antes, pela Providência divina, sem jamais se lhe antecipar, sem “passar-lhe por cima”, como gostava de dizer. Hoje como ontem, não seria tal disponibilidade o segredo da paz e da alegria evangélica, assim como o caminho privilegiado da santidade?

Para melhor servir os pobres, Vicente decidiu-se a “reunir eclesiásticos que, livres de quaisquer compromissos, se aplicassem inteiramente, sob a orientação dos Bispos, à salvação do pobre povo do campo, por meio da pregação, da catequese, das confissões gerais, sem disso auferir retribuição alguma, qualquer que fosse sua natureza ou modalidade”. O Priorado de São Lázaro, adquirido por volta de 1632, motivou logo o apelido de “lazaristas” aos membros deste grupo sacerdotal que cresceu rapidamente, implantando-se em cerca de quinze dioceses para missões paroquiais e fundação de “Caridades”. A Congregação da Missão estendeu-se até à Itália, à Irlanda, à Polónia, à Argélia, a Madagáscar. Vicente não cessa de inculcar em seus companheiros “o espírito de Nosso Senhor”, que ele compendia em . cinco virtudes fundamentais: simplicidade, mansidão em relação ao próximo, humildade em relação a si mesmo, e, enfim, como condicionamento para estas três, a mortificação e o zelo, que seriam como seus aspectos dinâmicos. Cheias de sabedoria espiritual e realismo pastoral, as exortações por ele dirigidas aos que partiam para pregar o Evangelho: trata-se, não de se fazer amar, e sim de fazer amar Jesus Cristo. Num tempo de tantos pregadores de complicados sermões, com citações em grego e latim, ele exigia, em nome do Evangelho, a simplicidade, a linguagem imaginosa e convincente.

Possam os “lazaristas” de hoje, sempre fiéis ao Pai São Vicente, semear fartamente a Palavra de Deus pela pregação e contribuir incessantemente a “fortalecer a identidade sacerdotal e seu autêntico dinamismo evangélico” no povo de Deus, conforme lhes desejava eu mesmo em minha carta a todos os sacerdotes da Igreja, na Quinta-feira santa de 1979. Possa ainda o exemplo do Padre Vicente estimular a todos os que se acham revestidos da grande responsabilidade de preparar para as comunidades cristãs, urbanas e rurais, os ministros sagrados (ordenados) de que têm tanta necessidade!

No correr das missões, evidenciou-se igualmente que os frutos de tal método de evangelização dependiam da permanência de padres instruídos e zelosos nas paróquias missionadas. Assim, bem cedo, os “lazaristas” começaram a dar à formação sacerdotal a atenção que davam às missões, fundando, para isso, seminários em conformidade com os urgentes apelos do Concílio de Trento.

O primeiro retiro de ordenados, animado pelo próprio São Vicente, em 1628, a pedido do Bispo de Beauvais, foi o ponto de partida, não apenas dos “exercícios preparatórios” à ordenação, mas também da formação permanente do clero, graças às “Conferências das Terças-feiras” para os Eclesiásticos, em São Lázaro. Tais iniciativas, que entusiasmaram o Padre Olier, forneceram à Igreja sacerdotes exemplares, vários deles, como Bossuet, chamados ao episcopado. A este clero de Paris e do interior, Vicente de Paulo comunicou espírito evangélico e ardor missionário, orientando-o para a exigência da fraternidade sacerdotal e da ajuda mútua no serviço dos pobres, sob filial dependência dos Bispos. “Como revelar ao mundo o amor de Deus, gostava de repetir, se os mensageiros deste amor não se unem entre si?”. Não seria, para todos os padres de hoje, um convite de São Vicente a viverem o sacerdócio em equipes fraternas, indissoluvelmente orantes e apostólicas; a um só tempo, abertas à colaboração com os leigos e penetradas do sentido do sacerdócio ministerial que vem do Cristo para o serviço das comunidades cristãs?

Outro aspecto do dinamismo e do realismo de Vicente de Paulo foi dotar as “Caridades”, já numerosas, de uma estrutura de unidade e eficiência. Luísa de Marillac, viúva de António Le Gras, iniciada à vida espiritual por São Francisco de Sales, depois, sob a orientação do próprio São Vicente, foi por este enviada para visitar e estimular as “Caridades”. Cumpriu maravilhosamente a missão, cujos ecos contribuíram muito para que várias “boas moças do campo” que colaboravam com as “Caridades”, se decidissem a seguir-lhe o exemplo de oblação total a Deus e aos pobres. A 29 de novembro de 1633, nascia a Companhia das Filhas da Caridade, recebendo de Vicente de Paulo um regulamento original e exigente: “Tereis por mosteiros a sala dos doentes; por cela, um quarto de aluguer; como capela, a igreja paroquial; como claustro, as ruas da cidade; como clausura, a obediência; como grade, o temor de Deus; como véu, a santa modéstia”. O espírito da Companhia foi assim resumido: “Deveis fazer o que o Filho de Deus fez na terra; a estes pobres doentes, deveis dar a vida do corpo e a vida da alma”. No encalço de Luísa de Marillac, milhares e milhares de mulheres consumaram a vida no humílimo serviço dos sofredores, dos mendigos, dos prisioneiros, dos marginais, dos excepcionais, dos analfabetos, das crianças abandonadas. Como o Pai Vicente de Paulo elas são, após ele, o coração do Cristo no mundo dos pobres e também dos ricos, a quem procuram tornar generosos para com os pobres. Antes dos atuais movimentos feministas, o Padre Vicente soube encontrar, entre as mulheres de seu tempo, auxiliares inteligentes e generosas, fiéis e constantes. A história da Companhia ilumina de modo singular, o que é, indubitavelmente, o mais profundo aspecto da feminilidade: o do chamado à ternura e à misericórdia, de que sempre necessitará a humanidade, à qual estão sempre presentes os pobres. E as sociedades modernas até produzem novas formas de pobreza.

Este olhar contemplativo sobre a epopéia vicentina, levar-nos-ia facilmente a dizer que São Vicente é um santo moderno. Sem dúvida, se ele reaparecesse hoje, não teria o mesmo campo de ação. Foram superadas muitas doenças que nos ensinou a curar. Entretanto, ele encontraria infalivelmente, o caminho dos pobres, dos novos pobres, nas concentrações urbanas de nosso tempo, como outrora nos campos. Imagine-se o que este arauto da misericórdia e da ternura de Deus seria capaz de empreender, utilizando com sabedoria, todos os meios modernos à nossa disposição! Numa palavra, sua vida se assemelharia ao que sempre foi: um evangelho generosamente aberto, com o mesmo cortejo de pobres, de doentes, de pecadores, de crianças infelizes e, também, de homens e mulheres a se dedicarem ao amor e ao serviço dos pobres. Todos, famintos de verdade e de amor, tanto quanto de alimento material e de cuidados corporais! Todos, a escutar o Cristo que continua a lhes dizer: “Aprendei de mim que sou manso e humilde de coração!” (Mt 11, 29).

Possa o quarto centenário do nascimento de São Vicente de Paulo iluminar profusamente o povo de Deus, reanimar o zelo de todos os seus discípulos e fazer ressoar no coração de numerosos jovens o chamado ao serviço exclusivo da caridade evangélica! Estes, os sentimentos e os votos que eu desejava expressar à grande e cara família dos Lazaristas e das Filhas da Caridade e a todos os movimentos vicentinos, acrescentando-lhes minha afetuosa Bênção Apostólica.

Do Vaticano, aos 12 de maio de 1981

JOANNES PAULUS PP. II

Biografia de São Vicente de Paulo por Guilherme Vaeessen

C.M. Mensageiro da Fé

1. Nasceu a 24 de abril de 1581, na pequena aldeia de pouy, perto de Dax, ao pé dos Pirineus na França. Seu pai chamava-se João de Paulo sua mãe Bertranda de Moras. Cultivavam uma pequena propriedade de que tiravam a subsistência para a família, composta de seis filhos. A Vicente que era o terceiro filho, coube, como aos outros irmãos, o trabalho do campo, principalmente o pastoreio dos rebanhos paternos.(p.11).

2.Aos 23 de setembro de 1600, em Chateaul’Evêche, recebeu a ordenação sacerdotal…os assistentes, admirados e comovidos ante tanta piedade, dirão: Que padre santo! Como celebra bem a Santa Missa….Em 1605, Vicente foi a Marselha para receber um pequeno legado de uma pessoa piedosa. Voltando por mar para Tolosa, foi o navio surpreendido por uma esquadrilha de piratas que cruzavam o Golfo de  Leão….Lá, com a corda ao pescoço, foram expostos na feira para ser vendidos. “Os compradores, diz o santo, nos revistaram como a cavalos e bois, fazendo-nos abrir a boca para ver nossos dentes, sondando nossas feridas, fazendo-nos andar..levantar pesos para verem nossas forças…Vicente foi vendido a um pescador, depois a um médico e, afinal, a um renegado francês que o levou para o interior, onde tinha uma lavoura, lugar extremamente deserto e quente. Lá cavava a terra com uma corrente aos pés. Uma…curiosa, diz o Santo, de saber o modo de viver dos cristãos, apesar de muçulmana, frequentemente ia me visitar na terra em que eu trabalhava…ante as razões daquela mulher e ajudado pela graça de Deus, abriu os olhos o marido e tão comovido ficou que, no dia seuinte, disse a Vicente que, para voltar à França e a Deus só lhe faltava a ocasião favorável. Esta se lhe apresentou após dez longos meses de espera. Em junho de 1607 se meteram, só os dois, em um frágil batel, e com ventos que sopravam rumo à França, deixando a terra da infidelidade e da escravidão, passaram felizmente ao mediterrâneo. A 28 de junho aportaram à cidade de Águas Mortas, na foz do Ródano. Quando pôde pisar o solo de sua pátria, Vicente levantou os braços ao céu e entoou o “Te Deum laudamus”.(p.16-p.19)

3.Consta, porém, que, pelos fins de 1609, já estava em Paris, como capelão da Rainha Margarida, esposa repudiada de Henrique IV, a qual, depois de uma vida leviana, tinha se convertido sinceramente, dando provas de uma grande piedade e de uma caridade sem limites para com os pobres…Foi naquele tempo, enquanto capelão da rainha Margarida, que Vicente teve de passar por duas provações terríveis. Quem é destinado a grandes obras tem de passar por grandes tribulações, como já disse. Implorar a Deus, disse um santo religioso, é uma excelente obra de religião; trabalhar por Deus é uma obra ainda mais excelente; mas sofrer por Deus é, segundo São João Crisóstomo, uma obra mais gloriosa do que ressuscitar mortos.(p.20-21).

4.Vicente tinha por penitente um célebre eclesiástico que outrora tinha defendido o catolicismo contra os ataques dos hereges, com um sucesso exraordinário. Por isso, talvez para manter a humildade, Deus permitiu que o demônio o tentasse, de modo ter´rivel, contra a fé. Sofria tão grandes tentações de blasfemar contra Jesus Cristo e pensamentos de desespero…Chegou a tal ponto a pertuurbação que era incapaz de celebrar a Santa Missa e de rezar o Ofício Divino. Vendo seu penitente nesse estado deplorável e receando que cedesse ás sugestões do inimigo da salvação, tomou nosso santo uma resolução generosa e extraordinária. Pediu a Deus que a terível provação do outro passasse para ele. O Senhor aceitou a oferta heróica. O eclesiástico viu-se de repente livre da tentação e Vicente, ao mesmo tempo, alvejado pelos mais furiosos ataques do inferno. Foi uma luta horrível que durou quatro anos. Cansado, esgotado de amanha batalha, opondo repetidos  atos de fé, orações, mortificações, recorreu a um piedoso estratagema. Escreveu sua profissão de fé, o Credo, como um protesto contra os pensamentos de infidelidade, e a trouxe constantemente sobre o coração, tendo convencionado com Nosso Senhor que, cad avez que levasse a mão ao peito, seria com a intenção de renovar o seu protesto de fidelidade. Um dia em que a tentação lhe causava tormentos mais violentos do que de costume, sentiu-se a tomar a resolução irrevogável de consagrar toda a sua vida ao serviço dos aflitos. Logo a tentação desapareceu, as trevas se dissiparam e deram lugar a uma luz abundante. (p.22-23).

5.Acusado injustamente “No bairro de S. Germano, talvez por economia, tomara Vicente por aposento a mesma casa…de um velho conhecido…o juiz de Sore. Esse guardava seu rico dinheiro num ármário cuja chave trazia sempre consigo…Pois, um dia, o doutor, antes de sair, se esqueceu de tirar a chave do cofre.Nesse interim veio o criado do farmacêutico trazer um remédio a Vicente, que então estava doente de cama, e oferecendo-se-lhe ocasião de ir buscar no armário um copo, levado pela cobiça, meteu o dinheiro na algibeira. Voltando o cavalheiro à casa e não achando o dinheiro, o reclamou de Vicente, como se este lho tivesse roubado.Respondeu este que nem o tirara, nem o vira tirar. Furioso, o homem acusa o santo desse furto e o cobre de inhúrias tão descomedidas que o servo de Deus para evitar maior barulho, mudou de aposento e de casa. Não cessou, porém a perseguição do juiz; antes cada vez crescia mais, porque publicamente lhe chamava de ladrão, até na  presença de pessoas de qualidade, como o Cardeal de Bérulle e outras pessoas. Vicente, humilde e inocente, sem culpar a outrem nem desculpar-se a si mesmo, somente dise: Deus sabe a verdade.Deus porém, acode aos inocentes que nele põem confiança, como acudiu a José e à casta Suzana…o criado da Farmácia, responsável pelo roubo, ao ver-se preso em Bordéus por outros delitos, atormentado pelos remorsos da consciência, mandou chamar à cadeia o tal juiz, pois o conhecia, e confessou que fora ele que furtara o dinheiro.Ficou atonito o juiz com esta noticia e, cheio de espanto por ter injuriado a Vicente, escreveu-lhe relatando o fato e dizendo-lhe que, se quisesse, iria a Paris e prostrado a seus pés, lhe pediria perdão. (p.23-24).

6.O resto do seu tempo é repartido entre o confessionário, o catecismo, a oração e o estudo…Muitas famílias inteiras, que estavam infeccionadas de calvinismo, por sua diligência se reconciliaram com a Igreja e vários membros delas acabaram abraçando a vida religiosa. (p.27).

7.Trata-se de aproximar o rico do pobre, de se procurarem, de se julgarem lealmente, sem injusta severidade nem falsa complacência.Trata-se afinal de trazê-los a uma estima e amizade recíprocas…O pobre e o rico não tem igual necessodade um do outro? Para isso, para os aproximar, é preciso estabelecer uma obra fixa. Chamar-se-á “Confraria de Caridade”.Nela o rico e o pobre aprenderão seus deveres, o papel, o proveito social da caridade…Mandou, pois Vicente, chamar as senhoras De Chassaigne e De Brie: suas duas convertidas, e lhe expôs suas idéias: constituir uma associação com outras senhoras, com o fim de angariar e regularizar os socorros a serem distribuídos a todos os pobres doentes da localidade.(p.31).

O famoso pequeno método de S. Vicente

Em que consiste? Em usar na pregação, uma linguagem capaz de ser compreendida pelo último dos ouvintes, linguagem adaptada ao seu modo de viver, com exemplos tirados de sua profissão, de seus trabalhos diários como fazia Jesus Cristo. Em dividir o sermão em três pontos bem definidos. No primeiro mostram-se os motivos de praticar tal virtude ou de evitar tal mal; no segundo explica-se em que consiste esta virtude ou este mal; e no terceiro indicam-se os meios de adquirir a virtude ou evitar o mal. Tais os três pontos principais que o missionário deve desenvolver simplesmente, com o próprio coração nas mãos…(p.39-40).

Lazaristas

Vicente viu seus filhos multiplicarem-se a ponto de o pobre “Asilo dos Bons Meninos” não poder mais os abrigar.  Deus, porém, providenciou a tempo. Adriano Bom, Prior de S.Lázaro ofereceu ao santo a casa e as terras do seu priorado, conhecido pelo nome de S. Lázaro, antigo hospital de leprosos e vasta construção onde permaneceram até o fim do século XVIII..Daqui vem o costume de se chamarem “Lazaristas” os padres congregados de S.Vicente. (p.42).

Luiza de Marillac

Viuva aos trinta e quatro anos, de Antônio Legras, secretário da rainha Maria de Médicis, Luíza …sentia uma inclinação irresistível de consagrar-se aos pobres e doentes…Vicente lembrou-se então de que, nas missões, tinha encontrado frequentemente moças piedosas, honestas, sem inclinação para o casamento nem recursos para poderem entrar na vida religiosa, mas dispostas a se dar a Deus, para o serviço dos pobres.Sucedeu que, logo nas primeiras missões, algumas se ofereceram voluntariamente. Vicente as confiou a Luíza para esta instruí-las.A primeira foi Margarida Nazeau, pobre camponesa que, pastoreando ovelhas, tinha aprendido a ler e escrever sozinha, e depois se tinha feito professora particular das meninas pobres…Foi a primeira “Filha de Caridade e Serva dos Pobres Doentes”. E este é o nome oficial das filhas de S. Vicente. (p.46).

Se o mundo soubesse da suavidade e das vantagens da vida religiosa , ficaria vazio;(p.48).

Filhas de Caridade

“As Filhas de Caridade precisam de mais virtudes do que as religiosas mais austeras. Não há comunidade de senhoras que tenha mais encargos: primeiro, trabalhar na sua própria santificação, como as Carmelitas; segundo, como as Religiosas Hospitaleiras, tratar os doentes; em terceiro lugar instruir as meninas pobres, como as Ursulinas.  (p.49).

Visita aos presos

Com uma dedicação sem limites visitava-os, levava-lhes alimento, remédios, prodigalizava-lhes consolações e exortações em nome d’Aquele que também foi condenado por amor dos pecadores. Não raro lhes beijava até as algemas. (p.59).

Se ofereceu para ficar preso no lugar do condenado

Encontrou um condenado mais infeliz do que culpado, que já caía em desespero, porque sua ausência reduzira a mulher e os filhos à última miséria. Se alguém o substituísse, podia ser posto em liberdade. Vicente não hesita em tomar-lhe as algemas e o lugar no banco dos remadores. Mas, sendo bem descoberta a substituição, bem depressa também o santo deixou a cidade para evitar o triunfo que semelhante ação lhe teria preparado.  (p.61-62).

Caridade

“Quando os pintores querem representar a caridade, diz o primeiro biógrafo de Vicente, pintam-na geralmente com crianças nos braços. Assim deveriam pintar Vicente de Paulo.”(p.64).

Limpeza

Não só manda enterrar os mortos cujos cadáveres ficavam às vezes sem sepultura, dias e mais dias, nas cidades e pelos campos despovoados, mas também suscita, em toda parte, “companhias aéreas” que não são outra coisa senão sociedade de limpeza pública, para purificar o ar e o solo, das imundíces que os infeccionavam.

São Vicente de Paulo e São Francisco de Sales

Em 1619, S. Franciswco de Sales veio a Paris. Logo que os dois santos se encontraram…Diz Abelly que Vicente ficou encantado pela expressão de pureza angélica e de sentimento cristão de Francisco e que, depois de o ter visto, declarou que lhe parecia ter visto o Filho de Deus conversando com os homens. Por sua vez, Francisco publicou que não tinha encontrado sacerdote tão caridoso, tão prudente e dotado de tamanho talento para dirigir as almas, no caminho da mais alta perfeição, como Vicente de Paulo. (p.81).

Confiança na Providência Divina

Quando faziam ver ao servo de Deus que a comunidade gemia sob o peso de tantos gastos, respondia, sorrindo, que a Providência havia de prover às suas necessidades e que eles deviam julgar-se felizes por serem instrumentos de Deus para operar tão grandes frutos de misericórdia.(p.83-84).

Combate a heresia

Um dia o Abade sustentou, diante de Vicente, um dos erros de Calvino, condenado pelo Concílio de Trento. O santo disse…”Como quer que acredite antes num doutor particular, como é o senhor, sujeito ao erro, do que em toda a Igreja, que é a coluna da verdade? Ao que Saint Cyran replicou: O senhor é um ignorante que não merece estar a frente de sua comunidade. – O Senhor tem razão, disse Vicente; sou realmente um ignorante, mais ignorante do que julgais.”(p.88).

Fundação de obras sociais

Falta-me espaço e tempo para enumerar todas as obras fundadas, organizadas, dirigidas por Vicente. Capelania da Corte…paroquiato…magistério dos pobres…fundação das Senhoras de Caridade…dos hospitais para os doentes…de asilos para os velhos….de refúgios para as mulheres decaídas e para as donzelas em perigo….da casa para os expostos….conselhos de consciência….reforma do clero…retiro eclesiásticos…fundação dos seminários….socorro às províncias associadas….missões aos camponeses….os leprosos…os loucos…os refugiados de guerra…os mendigos…os condenados…a direção de muitas comunidades…(p.91).

Humildade

“Quanto mais humilde for alguém, tanto mais caridoso será para com o próximo.”(p.95).

“Se nos livrarmos do amor próprio um quarto de hora antes de morrer, podemos dar graças a Deus.”(p.95).

Enfermidades

As graves e contínuas enfermidades que sofreu quase toda a vida bem podiam dispensar as terríveis penitências voluntárias que tanto infligiu ao seu pobre corpo. Mas longe disso considerava suas moléstias como favores especiais e por tais estimava…”Peço-vos a graça de conhecer o precioso tesouro, que está encoberto nas enfermidades. Estas purificam a alma, e servem de meio eficaz para adquirir as virtudes àqueles que não as têm, e abrem ao enfermo bem largo caminho para praticar a Fé, a Esperança, a conformidade com a divina vontade, e todas as mais virtudes. Devemos pois nos persuadir que elas não são males para fugir-se senão meios proporcionados para santificar nossas almas; e que querer lançá-los fora, quando Deus no-los manda não é outra coisa senão apartarmo-nos do nosso bem.(p.104-105).

Morte

Foi na segunda-feira, 27 de setembro, às quatro e meia da manhã que Deus o atraiu a si no momento e que seus filhos espirituais, reunidos na igreja, começavam a oração…Morreu aos 84 anos de idade e 60 de sacerdócio. (p.108-109).

Depois de, a 14 de julho de 1729, ter Bento XIII pronunciado o Decreto da beatificação, já a 16 de junho de 1737, Clemente XII expedia a bula de canonização de Vicente de Paulo…O corpo de S.Vicente, revestido dos paramentos sacerdotais, repousa num grande relicário de prata e cristal, acima do altar-mor da Casa Mãe dos Padres da Congregação da Missão, em Paris, rua de Seires, 95. (p.111).

Frases

Devemos amar o próximo porque é imagem de Deus e o objeto do seu amor. Um coração animado do verdadeiro amor espalha, em redor de si, o seu incenso: respira e prega amor.(p.119).

A prova do amor, diz S. Bernardo, é a ação, são as obras. Dizer que amamos aos pobres sem lhes fazer o bem que está ao nosso alcance, é uma ilusão.

O exercício da humildade consiste em desprezar-se a si mesmo. Quem conhece bem a si mesmo não acha nada mais natural do que desprezar-se. Quem se despreza sinceramente leva a bem que os outros conheçam seus defeitos e o desprezem também. Quem é criminoso e recorre à humildade torna-se justo.

Doçura e humildade são duas irmãs que andam sempre juntas. Aprendamos esta virtude com Jesus Cristo que dizia: Sou manso e humilde de coração. A doçura atrai e ganha os corações, conforme a palavra de Jesus, dizendo que os mansos de coração possuirão a terra; mas com severidade e frieza só se inspira medo e afastamento. “Umas três vezes, em toda a minha vida repreendi com aspereza, mas sempre me arrependi, porque me saí mal; ao passo que, pela doçura, sempre alcancei tudo quanto desejava.

Fonte: Padre Guilherme Vaessen. São Vicente de Paulo. Vida Breviada. 2. ed. 1958. Editora Mensageiro. Salvador. Bahia.

Conferências de São Vicente de Paulo às Filhas de Caridade

“O Vosso primeiro pensamento deve ser para Deus; dai-Lhe graças por vos ter conservado durante a noite, examinai atentamente se O não ofendestes, dai-Lhe graças ou pedi-Lhe perdão, oferecei-Lhe todos os vossos pensamentos, os movimentos do vosso coração as vossas palavras e obras, proponde-vos nada fazer que lhe desagrade; e tudo quanto fizerdes durante o dia receberá a sua força desta primeira oferta feita a Deus; porque reparai minhas Filhas, não oferecendo tudo a Deus perderei as recompensas das vossas ações.”(p.2).

Santíssimo Sacramento

“Um outro meio de nos pormos na presença de Deus, é o imaginar-nos diante do Santíssimo Sacramento do altar. E aí, minhas queridas Filhas, que nós recebemos os mais caros testemunhos do Seu amor. Amemo-Lo muito e, lembremo-nos que Ele disse, estando no mundo: <Se alguém Me ama, viremos a ele>(S.João 14, 23), falando do Seu Pai e do Espírito Santo; e as almas serão assim conduzidas pela sua Santa Providência como um navio pelo seu piloto.(p.3).

Santa Missa

“Ide à Santa Missa todos os dias, mas ide com grande devoção, e conservai-vos na igreja com grande modéstia, e sêde exemplo de virtude para todos que vos virem…Não é só o sacerdote quem oferece o sacrifício, mas também os que a ela assistem; e estou certo de que, quando estiverdes bem instruídas, tereis nela grande devoção; pois é o centro da devoção.” (p.3)

Santa Missa e pobres

“Minhas Filhas, sabei que, quando deixardes a oração e a Santa Missa pelo pobres, nada perdereis, pois, servir aos pobres, é ir para Deus; e deveis ver a Deus nas suas pessoas. Sede portanto muito cuidadosas em tudo o que lhes for necessário, e velai particurlamente pelo auxílio que lhes podeis dar para a sua salvação: que eles não morram sem sacramentos…Sobretudo exortai-os a fazer a confissão geral, suportai as pequenas impertinências, animai-os a sofrer tudo por amor de Deus, não vos encolerizeis nunca contra eles, nem lhes figais palavras rudes; já é bastante terem de suportar a sua doença. Pensai que sois o seu anjo da guarda visível, o seu paio e a sua mãe, e não os contrarieis senão no que lhes for nocivo, porque então seria uma crueldade conceder-lhes o que pedissem. Chorai com eles; Deus vos constituiu para serdes a sua consolação.(p.4).
Modéstia

 

“Deveis ser muito modestas e recatadas, e mortificar a vista. Um olhar perdeu David que era tão bom homem. É quase impossível que uma pessoa imodesta no exterior seja modesta no interior. E se me perguntardes quanto tempo devereis conservar-vos numa mesma resolução, responder-vos-ei: enquanto vos sentirdes inclinadas ao vício que quereis combater.”(p.4)

Tempo

“O tempo que vos sobrar do serviço dos doentes, deveis empregá-lo bem; não estejais nunca sem fazer nada; aplicai-vos em aprender a ler, não para vossa utilidade particular, mas para estar em condições de serdes enviadas para lugares onde possais ensinar.(p.4)

Silêncio

Guardareis o silêncio desde o exame da noite até o dia seguinte depois da oração, para que esse recolhimento que transparece no exterior favoreça o entretenimento dos vossos corações com Deus; guardai-o principalemnte depois da adoração feita a Deus, antes de vos deitardes e depois de terdes recebido a sua santa benção.(p.5).

Renunciar a si mesmo

Ora, para ser verdadeira Filha de Caridade, deve-se ter deixado tudo: pai, mãe, bens, pretensão ao lar; é isto que o Filho de Deus ensina no Evangelho; deve também ter-se deixado a si mesmo; porque se se deixar tudo e se conservar a vontade própria, se se não deixa a si mesmo, nada se fez. (p.9).

Mortificação dos sentidos

Um outro meio de vos aperfeiçoardes é a mortificação dos sentidos. Oh! Que grande segredo nos ensina S.Paulo numa das suas Epístolas, quando, falando ao povo que tinha instruido, lhe diz: <Meus queridos Irmãos, tenho de vos falar de coisas muito baixas e humilhantes, mas é necessário mortificar os vossos memros, para que, como serviram à iniquidade, sirvam agora à justiça>(Rm. 6, 19). O mesmo vos direi, minhas queridas Irmãs: mortificai os sentidos e depressa achareis em vós transformação e grande facilidade para o bem. Temos cinco sentidos exteriores e três interiores. Os exteriores são a vista, o olfacto, o ouvido, o gosto e o tacto…Por isso começareis pela vista; acostumai-vos a manter a vista moderadamente baixa, pois como sois para o serviço das pessoas seculares, é necessário que o excesso de vossa modéstia os não espante.Isto poderia impedir de fazerdes o bem que uma alegria moderada poderia conseguir. Mas abstende-vos unicamente desses olhares demorados para fitar de frente um homem ou uma mulher e de certos olhares afectados que são perigosíssimos e cuja ferida se não sente imediatamente. Podereis ainda mortificar este sentido na rua, na igreja e em muitas ocasiões de curiosidade, afastando, por amor de Deus, o vosso olhar desses objetos. O nosso olfato deve também ser mortificado, suportando de boa vontade os maus cheiors, quando se apresentarem, não vos mostrando esquisitas, particurlarmente com os vossos pobres doentes, e também abstendo-se dos bons, quando acontecer senti-los, mas sem que se dê por isso. Podemos mortificar também o gosto, ainda que ñão seja senão em tomar o bocado de pão que menos nos agrada, ir para a mesa sem mostrar apetite que às vezes possamos ter, abster-nos de comer fora das refeições, deixar o que é mais agradável ao nosso gosto, ou uma parte do que nos é permitido comer. O sentido do ouvido é ainda uma perigosa janela pela qual o que nos dizem entra algumas vezes tão fortemente no coração que, se seguem mil e mil desordens…Muitas vezes a caridade corre grande perigo por culpa dos sentidos. Não escuteis de boa mente, mas afastai-vos cortêsmente das maledicências, das más palavras e de tudo quanto possa ferir o vosso coração e até os vossos sentidos sem necessidade.O tacto é o quinto sentido. Mortificá-lo-emos abstendo-nos de tocar o próximo, e não permitindo aos outros tocarem, por deleitação sensual, não só as mãos, mas qualquer outra parte do corpo. (p.16).

Sono

Minhas queridas Filhas, respondeu o Senhor Padre Vicente se era permitido a uma Irmã descansar de manhã, quando uma ligeira dor a acordasse de noite, bem como qualquer outra inquietação, ou quando, por sua culpa, se não tivesse à hora, ou ainda, por andar um pouco doente, não adormessece habitualmente senão de manhã. Minhas queridas Filhas, respondeu Padre Vicente, não é razoável que se levantem tarde aquelas que, por sua culpa, não tenham descansado de noite; isso seria uma desordem constante; seria sair da ordem que Deus quer que estejamos; devem sujeitar-se às horas fixadas pela regra. E depois seria de temer que a natureza se habituasse a esse sono matinal; isso dar-se-ia infalivelmente…levanto-me sempre às quatro horas, que é a hora da Comunidade, poruqe tenho a experiência de que facilmente me habituaria a levantar-me mais tarde. Eis a razão, minhas queridas Irmãs, poruqe deveis fazer um pouco de violência e depois encontrareis nisso uma grande facilidade, porque os nossos corpos são como jumentos: uma vez acostumados a um caminho, seguem sempre por ele. E para tornardes este hábito fácil, sede regulares no vosso deitar. (p.18-19).

Oração no início do dia

“Fazei sempre o que puderdes, minhas queridasd Irmãs, para que, sendo a oração a primeira das vossas ocupações, o vosso espírito esteja cheio de Deus o resto do dia…o demõnio faz tudo quanto pode para nos impedir de fazer oração, porque bem sabe que, se for o primeiro a encher-nos o espírito de vãos pensamentos, será o senhor dele todo o dia…por isso, minhas Filhas, que eu vos exorto… a que façais a vossa oração antes de sair.(p.22).

Discrição é não ser curioso

Irmã Margarida Lauraine, que então servia os pobres de S. Lourenço, contou que, passando pela praça onde se faziam tolices e divertimentos, durante a feira, sentiu o desejo de se voltar para ver, mas, em vez de ceder a esse desejo, pegou na cruz do seu terço e disse:<Ó meu Deus, vale mais olhar para vós que para as loucuras do mundo>…É o prório Deus que o diz: “A oração curta e fervorosa penetra os céus(Ecl. 34, 21)”(p.24).

Não murmurar

Ninguém desagrada tanto a Deus como um murmurador. Que faz um assassino? Mata o corpo duma pessoa cuja alma será bem-aventurada no céu. Mas, eu vos pergunto, que faz o murmurador?Muito pior. Não mata o corpo, mas mata talvez com uma só palavra grande número de almas.Sim, minhas Irmãs, uma Irmã que dissesse a outra o descontentamento que recebeu talvez do Superior ou da Superiora, que se lamentasse por estar num lugar onde não tem satisfação, que sentisse a tentação de se retirar e o dissesse, queixando-se daqueles que fossem a causa do seu desânimo; sim, minhas Filhas, digo-vos que essa pessoa seria  pior que um assassino. As pobres Irmãs que a escutam sentir-se-ão desedificadas com todas essas murmurações, começarão a murmurar aind amais, desgostar-se-ão com o seu estado, e deixarão enfiam a sua vocação, por meio da qual Deus as queria salvar e santificar. Esta pobre Irmã que primeiro murmurou não será a causa da perda de todas as outras?E que poderá fazer para restituir a essas almas a vida que lhes roubou? Não compreendeis vós que esta Irmã, se houvesse alguma aqui – o que Deus não permita!-seria pior que um assassino, pois a vida do corpo nada é comparada com a da alma. (p.26)

 Efeitos do pecado

Disse-vos que o pecado tem dois efeitos: o afastamento de Deus e a entrega à criatura. Pelas nossas confissões ordinárias apagamos o primeiro, que nos faz merecer o inferno. Pelas penas, doenças e aflições é rparada a conversão às criaturas.(p.31).

Nunca murmurar

Um dia Noé, que tinha o espírito enfraquecido, por ter bebido um pouco de vinho a mais, deitou-se todo descoberto. Alguns dos seus filhos fizeram trça dele; mas um deles, sabendo o respeito que devia a seu pai, voltou-se de costas para o não ver, e cobriu-o com o manto. Sabeis o que aconteceu? Os que tinham murmurado foram amaldiçoados por Deus com toda a sua descendência e o filho respeitoso foi abençoado com toda a sua posteridade. Quando o mundo vos perguntar o que ganhais e pretender que perdeis o vosso tempo, oh! minhas queridas Irmãs, deveis fortalecer o vosso espírito contra todos os ditos e responder que vos considerais muito felizes por Deus se ter querido servir de vós nesta condição. Não tenhai receio; se vos virem assim resolutas, não vos dirão mais nada. E àqueles que vos chamam criadas e vos censuram de ganhar a vida com comodidade, respondei-lhes: “Muito desejaríamos servir a Deus e aos pobres à nossa custa; e se o pudesse, fá-lo-ia de muito bom grado; para testemunhar o amor e a honra que devemos aos pobres, com todo o prazer me tornaria pobre para o servir. (p.36-37)

Santa Providência

“A vossa firmeza é a Santa Providência.”(p.37).

Motivos para servir aos pobres

O primeiro motivo, disse uma Irmãs, é que os pobres têm a honra de representar os membros de Jesus Cristo, que considera como feitos a Si próprio todos os serviços que a eles se prestam.

O segundo é que a alma dos pobres tem em si a imagem de Deus, por consequeência, devemos honrar a Santíssima Trindade.

O terceiro é a recomendação que a este respeito nos fez o Filho de Deus por palavras e exemplos. para mostrar aos discípulos de S.João que Ele era o Messias, disse-lhes que os pobres eram evangelizados e os doentes curados.

O quarto é que, ajudar uma alma a salvar-se, é cooperar na completa realização dos desígnios de Deus na morte de Jesus Cristo.(p.39-40)

Doença suportada com paciência paga as penas do purgatório

Como vesdes, meu Irmão, esssa doença que Deus vos enviou, ajudar-vos-à talvez a evitar as penas do inferno, que hão de durar por toda a eternidade. Estai certo que essa doença diminuirá muito as que teríeis que sofrer no purgatório pelos vossos pecados, mas com uma condição: é fazer bom uso dela e suportá-la por amor de Deus. Se o doente testemunhar algum descontentamento, fazer-lhe ver que quando estamos doentes é com a permissão de Deus, e que, nestas condições, devemos perguntar-nos o que é que desejaríamos, à hora da morte, ter feito durante a vida, e procurar reparar todos os nosso pecados  por meio desta doença pela conformidade com a vontade de Deus, pela paciência em suportar a pobreza e as dores que sentimos e pela união dos nossos sofrimentos aos de Jesus na cruz. (p.42).

Santa Obediência

O Senhor Padre Vicente disse…Deveis obediência aos desígnios da Divina Providência, aceitando e recebendo da mão de Deus tudo o que vos for ordenado.Mas, minhas Filhas, vejamos que razões temos para obedecer. A primeira é que a obediência é tão agradável a Deus, que nos fez conhecer através do Santos Padres da Igreja, que tem mais valor que o sacrifício. Ora, minhas queridas Irmãs, não ignorais a grandeza do sacrifício, pois desde sempre, Deus mandou-o oferecer, para aplacar a sua divina justiça, justamente irritada contra os homens por causa de seus pecados…Uma outra razão, é que o Filho de Deus quis sujeitar-se a ela e praticou-a perfeitamente durante trinta anos, assim como a Santíssima Virgem, durante toda a vida, e S. Jose´…Um outro motivo ainda, para amar a obediência, é que, de ordinário, iludimo-nos a nós mesmos, e deixamo-los cegar pelas nossas paixões, de forma que, para praticar o bem, temos necessidade de uma direção…Mas como é que se deve obedecer, minhas Filhas? Pronta e aleremente, com discernimento e, o que é principal, para agradar a Deus. Quando obedecerdes pensai: “Agrado a Deus, ou, o que quer dizer o mesmo: “dou prazer a Deus”…A obediência deve ser pronta, porque, minhas Filhas, ir devagar ou não ir logo, diminui muito o mérito desta virtude, desidifica as vossas companheiras e desgosta os Superiores…Sede, portanto, muito prontas em obedecer, minhas queridas Irmãs. A ida da Santíssima Virge a Belém e a Sua fuga para o Egito, devem servir-vos de exemplo. A vossa obediência deve ser voluntária e não forçada nem pelo receio de desagradar ou de serdes repreendidas…Muitas vezes, minhas Filhas, o nosso juízo é cego, e o conhecimento do que é melhor está oculto, como as vezes acontece com os raios do sol, quando alguma nuvem se lhes opõe; não é que o raio não exista, mas desaparece por um tempo. Assim acontece que o conhecimento do melhor nos é velado pela preocupação de alguma paixão; o que bem nos faz ver que a maior segurança está em seguir a obediência…Acautelai-vos, minhas Irmãs, de que, quando uma Irmã vos manda fazer alguma coisa, as vossas repugnâncias vos não levem a dizer: “Fazei-a vós!” É uma expressão do demônio, de desordem e de desunião!..Esta frase jamais deve sair da boca duma Filha da Caridade…Por isso, minhas queridas Irmãs, deveis ser extremamente pontuais, fazer atenção a todos os avisos e ir na mesma ocasião ao lugar aonde vos chamar o sino para os exercícios; pois faltar a um exercício é faltar a tudo; como transgredir um mandamento é transgredir a todos. E fazei atenção; se hoje fordes negligentes na prática dum ponto das vossas regras, no dia seguinte faltareis a dois, depois a três, e por fim, retirará a sua graça…ide aonde a obediência lhes chamar. (p.45-48).

Outra grande falta é que, quando tendes alguma dificuldade, em vez de a declarar a nós ou à Irmã da casa, ides lamentar-vos à companheira que talvez esteja tão descontente como vós ou incapaz de vos aliviar.(p.49).

As virtudes de Margarida de Nassau

Era tão despreendida, que, em pouco tempo, mudou de boa vontade de três paróquias diferentes, de que saía com grande pena de todos. Nas paróquias mostrou-se tão caridosa como nos campos, dando tudo quanto tinha, quando se apresentava a ocasião; não sabia recusar nada, e desejaria receber todos em sua casa. Deve notar-se que entãoa ainda não estava formada a Comunidade, nem havia nenhuma regra que mandasse proceder de outro modo. Era muito paciente e nunca murmurava. Todos gostavam dela, tudo era amável nela. A sua caridade foi tão grande que morreu por ter deitado na sua própria cama uma pobre menina doente de peste. (p.51).

Não se julgar melhor que os outros

conhecereis se sois verdadeiras Filhas da Caridade, se fordes muito humildes, se não tiverdes ambição nem presunção, se não vos julgardes mais do que sois, nem mais do que os outros, quer quanto ao físico, quer quanto à inteligência, família ou bens, ou ainda quanto à virtude, que seria a mais perigosa ambição.Fazei uso dos bens de Deus na simplicidade. Se vos lembrardes de ter feito alguma coisa boa, atribuí a glória de Deus.(p.53).

Contentamento

As meninas da aldeia são muito sóbrias na sua alimentação minhas queridas Irmãs. A maior parte contenta-se muitas vezes com pão e sopa, apesar de trabalharem incessantemente e em trabalhos pesados…É assim que tendes de proceder se quiserdes ser verdadeiras Filhas da Caridade: não reparar no que se dá, e ainda menos se está bem feito, mas somente comer para viver.(p.54).

A obediência tira-me daqui; devo sair pronta e alegremente.(p.58).

è assim que devem ser as verdadeiras Filhas da Caridade. Regressam ao meio dia do serviço dos doentes para tomarem a sua refeição; se o médico ou a outra Irmã lhes dissessem: é preciso ir levar este remédio a um doente; não devem pensar em como estão, mas esquecerem-se a si para obedecerem, e preferirem a comodidade dos doentes à sua. (p.59).

Unidade

parece-me que a união produz a paz e a tranquilidade, e que a desunião produz a guerra e a inquietação…a união conserva as pesosas na sua vocação e a desunião a faz perder muitas vezes…A união é a imagem da Santíssima Trindade, que se compõe de três pessoas unids por amor…parece-me Senhor, que a união deve alegrar a Deus, pois onde está a paz, aí está Deus; e que, ao contrário, a desunião desgosta a Deus e alegra o demônio que só procura a discórdia e a desunião, para nos perder. 

O contrário

“Reparai, minhas Irmãs…a desunião faz que, se uma quer uma coisa, a outra quererá o contrário;(p.65).

Desunião

Um outra Irmã disse: “- Senhor, a desunião é uma coisa má, porque expulsa Deus da nossa alma, e nem mesmo deveríamos ir a Sagrada Comunhão estando em discórdia.”(p.65).

Unidade

“deveis viver sempre em tão perfeita união que não sejais nunca capazes, com a graça de Deus de vos zangares umas com as outras.(p.68).

Perdão

Um dia falava com uma Superiora das Ursulinas de Gisors…e perguntei-lhe com admiração:”Ó minha Madre, que fazeis para manter uma tal tranquildade sem que jamais haja desarmonia? Respondeu-me: Senhor, assim que aparece algum motivo de discórdia, as nossas Irmãs têm o costume de se porem de joelhos e pedirem perdão umas às outras, de forma que a desunião não pode cá entrar.”(p.69)

Temperança

Uma Irmã disse: Mas, Senhor, algumas vezes acontece que, se se quer pedir perdão a uma Irmã, escarnece disso, ou se irrita ainda mais; que se deve fazer então? Minhas Irmãs, se virdes que a Irmã, ou porque está muito zangada, ou porque não está de bom humor, ou ainda porque tem no espírito algum motivo de aborrecimento, não está capaz de receber bem a vossa humilhação, oh! não se deve pedir então perdão; pois seria lançar-lhe carvões; pô-la-íeis na contigência de se irritar mais. Esperai que se tranquilize um pouco e depois pedi-lhe perdão, com a maior humildade, reconhecendo-vos diante de Deus causa do mal que fez. (p.69)

Honrar os médicos

Deveis proceder do mesmo modo para com os médicos. Ó minhas Filhas, não deveis criticar suas receitas, nem fazer os vossos remédios com outra composição, por exatamente o que vos disserem  tanto quanto à dose…disto depende a vida das pessoas….Honrai os médicos pela necessidade(Ecl. 38, 1)…É por isso que deveis ter por ele um grande respeito.(p.77)

Silêncio

Não deveis falar muito…sejais modestas..pois se vissem na rua uma Filha de Caridade imodesta, olhando para a esquerda e para a direita, imediatamente diriam: “Esta Irmã de Caridade desistirá”…(p.78).

Compreensão

Deveis viver reciprocamente em grande união e não vos queixardes nunca uma das outras. Para se conseguir isso, minhas Filhas, deveis suportar-vos muito, porque não há ninguém que não tenha defeitos. Se não suportarmos a nossa Irmã, porque havemos de pensar que tem aobrigação de nos suportar?…Não devemos nós proceder do mesmo modo conosco, que não queremos sempre a mesma coisa; pois hoje queremos uma coisa e amanhã outra? E, senão nos suportarmos nestas mudanças, jamais teremos em nós paz e tranquilidade. Não vos queixeis umas das outras…e não vos demoreis voluntariamente nos pensamentos de aversão que às vezes possais ter. (p.79).

Humildade sabe ceder

Não faleis nunca uma contra a outra, mas abandonai antes a vossa vontade, para fazerdes a de vossa Irmã; bem entendido, nas coisas que não constituam pecado nem transgridam a vossa regra…E deveis ainda, minhas Filhas, não ter apego algum, nem aos lugares, nem às pessoas, nem aos ofícios, e estardes sempre prontos a deixar tudo quando a obediência vos retirar de qualquer lugar, convencidas de que Deus assim o quer.(p.80).

Pedir a Deus as virtudes

Um primeiro meio para bem tratar essas criancinhas é pensar que não somos capazes disso, manifestar muitas vezes a Deus a nossa incapacidade e pedir-Lhe a graça de nos ensinar a tratá-las com muita utilidade para a Sua glória e salvação delas…não mostrar mais afeição a uns do que a outros, pois as preferências causam ciúmes e inveja;(p.84). 

Saudar o próximo

Ó minhas Filhas, saudai-vos à vontade. O mundo já não vê em vós somente as meninas da aldeia…afirmo-vos que, entre as pessoas que têm vindo fazer o retiro, algumas se converteram menos pelas meditações do que pelo exemplo deste respeito cordial…Minha Irmã dizeis os vossos pensamentos. – Senhor, uma das razões de nos respeitarmos cordialmente, é que todas somos criadas à imagem de Deus, e que, produzindo esta cordialidade uma grande união, Nosso Senhor derramará as Suas graças com mais abundância sobre a companhia…Minhas Filhas, é a característica das filhas do demônio ter sempre o espírito de contradição, de desunião, de inimizade, deixar-se guiar sempre pelas máximas próprias, e não ser nunca da opinião das outras.(p.98;100).

São Vicente de Paulo[1] nos ensina a importância da cordialidade:

 “Dizia-vos eu há pouco, que estar na Vossa Companhia, com união e cordialidade, era estar no paraíso…para a obter e para a conservar depois de a terdes obtido humilhai-voa muito, tende uma baixa opinião de vós mesmas e desejai ser consideradas sempre como as mais pequeninas…(p.102)

 São em grande número as faltas que cometem as que se deixam levar por essas demasiadas delicadezas consigo mesmas; desprezam as pessoas que lhes agradam e murmuram contra elas; são apegadas aos que lhe são simpáticos; não se submetem às determinações da divina Providência e não aceitam o que lhes acontece como sendo da vontade de Deus….(p.110)

 Procurai desculpar-vos umas às outras.(p.153).

 Nada há melhor que possa transformar os corações mais irritados do que a mansidão; se queremos conseguir alguma coisa de alguém, pedimos-lha com respeito e mansidão, e desta forma estamos quase certos de a obter.(p.175)

 O respeito consiste em fazer de bom grado o que as nossas Irmãs nos ordenam, sem replicar, pois não poderíamos honrar melhor uma pessoa, do que fazendo o que ela pede de nós, não replicando, mas de boa vontade, com amor e cordialidade. A mansidão consiste em fazer às nossas Irmãs o que desejaríamos que nos fizessem e em suportar-lhes o que queríamos que suportassem em nós…Em sermos muito leais, ajudando e auxiliando as nossas Irmãs no que julgaremos poder aliviá-las, saudando-as e respeitando-as com um rosto alegre, que não esteja triste nem carrancudo…nunca se repreendendo com azedume umas as outras, mas sim em espírito de caridade.(p.177)

 Na vida dos santos observa-se que …quando notavam alguma falta em alguém, não os avisavam senão com grande modéstia e cordialidade, e se os seus avisos não eram bem recebidos, permaneciam neste espírito de mansidão e humilhavam-se diante de Deus, pensando que tinham sido eles talvez a causa de que se não aproveitasse da sua instrução.(p.178).

 Na conferência de São Vicente de Paulo[2] às filhas de caridade(15 de janeiro de 1645) as irmãs elogiaram as virtudes da irmã Joana Dalmagne, colocando-a como belo exemplo. Vejamos as qualidades que as irmãs notaram nela:

  “tinha uma grande modéstia…era muito mansa nas suas conversas, muito sóbria na alimentação e não tinha apego algum aos bens terrenos…ela compadecia-se muito dos pobres. Quando os não podia ajudar fisicamente, consolava-os, chorava com eles, animava-os a suportar a sua pobreza e as suas doenças e ensinava-os a fazer bom uso de tudo isso.Mesmo durante a sua doença falava-lhes com tanto fervor que nem parecia que estava doente…era muito prudente no seu falar…quando alguém lhe fazia alguma reflexão sobre a sua inferioridade, não se zangava por isso, mostrava-lhe boa cara, interpretava tudo bem e procurava todas as ocasiões para se humilhar…quando julgava ter-me praticado algum descontentamento, prostrava-se aos meus pés…Não receava o mau cheiro que os doentes exalavam…desejava revelar seus defeitos a toda gente…a sua caridade fazia-a considerar culpada das faltas do próximo, desculpava-o e atribuía-as a si e acusava-se delas.


Fonte:S.Vicente de Paulo. COnferências às Filhas da Caridade. Lisboa. 1960. Imprimatur – Manuel, Arcebispo de Mitilene.

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