Biografia dos Santos

Beata Helena Guerra

Posted on: junho 17, 2010

Que tudo seja amor

Que a fé seja o amor que crê

Que a esperança seja o amor que espera

Que a adoração seja o amor que se prostra

Que a oração seja o amor que te encontra

Que o cansaço seja o amor que trabalha

Que a mortificação seja o amor que se imola

Que somente o teu amor ó Deus, dirija os meus pensamentos, as minhas palavras e minhas obras.

 Vida de Beata Helena Guerra e encíclicas do Papa Leão XIII inspiradas nas suas cartas

ENCÍCLICA
DALL’ALTO DELL’APOSTOLICO SEGGIO
DO PAPA LEÃO XIII
SOBRE A MAÇONARIA NA ITÁLIA

Aos Bispos, ao Clero, e ao Povo da Itália.

Veneráveis Irmãos e Amados Filhos, Saúde e Bênção Apostólica.

1. Do alto do Trono Apostólico, aonde a Providência Divina Nos colocou para vigiar pela salvação de todas as nações, Nós olhamos sobre a Itália em cujo seio, por um ato de singular predileção, Deus estabeleceu a Sede de Seu Vigário, e da qual Nos vem no tempo presente muitas e amarguíssimas tristezas.Não é nenhuma ofensa pessoal que Nos entristece, nem as privações e sacrifícios impostos a Nós pela atual condição das coisas, nem os ultrajes e escárnios que uma imprensa insolente tem todo o poder para atirar todos os dias contra Nós. Se somente a Nossa pessoa estivesse envolvida, e não a ruína à qual a Itália ameaçada em sua fé está se atirando, Nós suportaríamos estas ofensas sem reclamar, alegrando-Nos até por repetir o que um de Nossos mais ilustres Predecessores disse de si mesmo: “Se o aprisionamento do meu país não aumentasse a cada momento e a cada dia, quanto ao desprezo e escárnio de mim mesmo eu alegremente silenciaria.”[1]Mas, além da independência e dignidade da Santa Sé, a própria religião e a salvação de toda uma nação estão envolvidas, de uma nação que desde os primeiros tempos abriu o seu seio à Fé Católica e sempre a tem zelosamente preservado. Por incrível que pareça, é verdade; a tal ponto chegamos, que devemos temer que esta nossa Itália perca até a fé.

Muitas vezes Nós soamos o alarme, para advertir do perigo; mas por este motivo Nós não pensamos que tenhamos feito o suficiente. Em face aos continuados e ainda mais furiosos assaltos que são feitos, Nós ouvimos a voz do dever chamando-Nos mais poderosamente do que antes para falar-vos novamente, Veneráveis Irmãos, aos seus Clérigos, e a todo o povo italiano.

Uma vez que o inimigo não dá trégua, então nem vós nem Nós podemos permanecer calados ou inertes. Pela Divina misericórdia Nós fomos constituídos guardiões e defensores da religião do povo confiado ao Nosso cuidado, Pastores e vigilantes sentinelas do rebanho de Cristo; e por este rebanho Nós devemos estar prontos, se necessário, a sacrificar tudo, até a própria vida. 

2. Nós não diremos nada de novo; pois os fatos não mudaram daquilo que eles eram, e Nós em outros tempos falamos sobre eles quando a oportunidade surgiu.
Mas Nós agora pretendemos recapitular estes fatos de algum modo, e agrupá-los em uma única imagem, de modo a deduzir para instrução geral as conseqüências que seguem deles. Os fatos são incontestáveis e aconteceram à clara luz do dia; não separados uns dos outros, mas tão conectados entre si em uma série de modo a revelar com a mais completa evidência um sistema do qual eles são a verdadeira operação e desenvolvimento. O sistema não é novo; mas a audácia, a fúria, e a rapidez

com as quais ele está sendo levado adiante agora, são novas. É o plano das seitas que está agora se desenrolando na Itália, especialmente no que se refere à religião Católica e à Igreja, com o propósito final e jurado, se isso fosse possível, de reduzi-la a nada.

Agora é desnecessário colocar as seitas Maçônicas em julgamento. Elas já estão julgadas; seus fins, seus meios, suas doutrinas, e sua ação, são todos conhecidos com indisputável certeza. Possuídos pelo espírito de Satanás, cujos instrumentos eles são, eles ardem como ele com um ódio mortal e implacável a Jesus Cristo e Sua obra; e eles se esforçam por todos os meios para derrubá-la e acorrentá-la. Esta guerra no momento presente se desenrola mais do que em qualquer outro lugar na Itália, na qual a religião Católica se enraizou mais profundamente; e acima de tudo em Roma, o centro da unidade Católica, e a Sede do Pastor Universal e Mestre da Igreja. 

3. É bom traçar desde o início as diferentes fases deste combate. 

4. A guerra começou pela derrubada do poder civil dos Papas, cuja queda, de acordo com as intenções secretas dos verdadeiros líderes, mais tarde abertamente declarada, era, sob um pretexto político, para ser o meio de pelo menos escravizar, se não destruir, o supremo poder espiritual dos Pontífices Romanos.

Para que nenhuma dúvida restasse quanto ao verdadeiro objetivo desta guerra, seguiu-se rapidamente a supressão das Ordens Religiosas; e portanto uma grande redução no número de operários evangélicos para a propagação da fé entre os pagãos, e para o ministério sagrado e serviço religioso nos países Católicos. 

Mais tarde, a obrigação do serviço militar foi estendida aos clérigos, com o necessário resultado de que muitos e graves obstáculos foram colocados no recrutamento e devida formação até do Clero secular. Lançaram mãos das propriedades eclesiásticas, em parte por absoluto confisco, e em parte taxando-as com enormes cargas, de modo a empobrecer o Clero e a Igreja, e privar a Igreja do que é necessário para seu suporte temporal e para levar adiante instituições e obras auxiliares ao seu divino apostolado. Isto os próprios sectários abertamente declararam. Para diminuir a influência do Clero e de corpos clericais, apenas um meio eficaz precisa ser usado: tirar deles todos os seus bens, e reduzi-los à absoluta pobreza. Assim também a ação do Estado é em si mesma toda dirigida para erradicar da nação seu caráter religioso e Cristão. Das leis, e de toda a vida oficial, toda inspiração e idéia religiosa é sistematicamente banida, quando não diretamente atacada. Cada manifestação pública de fé e de piedade Católica é ou proibida ou, sob pretextos vãos, de mil maneiras impedida.

Da família são tiradas sua fundação e constituição religiosa pela proclamação do casamento civil, como ele é chamado; e também pela educação inteiramente leiga que agora é exigida, dos primeiros elementos até o mais alto ensino das universidades, de modo que as gerações em crescimento, tanto quanto isto possa ser afetado pelo Estado, devem crescer sem qualquer idéia de religião, e sem as primeiras noções essenciais de seus deveres para com Deus. Isto é colocar o machado na raiz. Nenhum meio mais universal e eficaz poderia ser imaginado de retirar a sociedade, as famílias, e os indivíduos, da influência da Igreja e da fé. Demolir o Clericalismo (ou Catolicismo) até os seus fundamentos e em suas próprias fontes de vida, especificamente, na escola e na família: esta é a autêntica declaração dos escritores Maçons. 
5. Será dito que isto não acontece somente na Itália, mas é um sistema de governo que os Estados seguem de modo geral. Nós respondemos, que isto não refuta, mas confirma o que Nós estamos dizendo sobre os desígnios e ação da Maçonaria na Itália. Sim, este sistema é adotado e levado adiante aonde quer que a Maçonaria use sua ação ímpia e pervertida; e, como a sua ação é largamente difundida, do mesmo modo este sistema anti-Cristão é largamente aplicado. Mas a aplicação se torna mais veloz e geral, e é levada a maiores extremos, em países aonde o governo está mais sob o controle da seita e melhor promove os seus interesses. Infelizmente, no momento presente a nova Itália está entre estes países. Não apenas hoje ela está sujeita à pervertida e maligna influência das seitas; mas já por algum tempo eles a têm tiranizado como quiseram, com absoluto domínio e poder. Agora a direção dos assuntos públicos, no que diz respeito à religião, está totalmente em conformidade com as aspirações das seitas; e para atingir as suas aspirações, eles encontram auxiliadores declarados e instrumentos de prontidão naqueles que detém o poder público. Leis adversas à Igreja e medidas hostis a ela são primeiro propostas, decididas, e resolvidas, nos encontros secretos da seita; e se algo apresenta até a mínima aparência de hostilidade ou prejuízo à Igreja, é imediatamente recebido favoravelmente e levado adiante.

Entre os fatos mais recentes Nós podemos mencionar a aprovação do novo código penal, no qual o que era mais obstinadamente exigido, a despeito de todas as razões em contrário, eram os artigos contra o Clero, que forma para eles uma lei excepcional, e até condenam como criminosas certas ações que são deveres sagrados de seus ministros.

A lei quanto às obras de piedade, pela qual qualquer propriedade de caridade, acumulada pela piedade e religião de nossos ancestrais sob a proteção e a guarda da Igreja, foi retirada completamente da ação e controle da Igreja, foi por alguns anos levada adiante nos encontros da seita, precisamente porque iria infligir um novo ultraje à Igreja, diminuir sua influência social, e
suprimir imediatamente um grande número de doações feitas para o culto divino.

Então veio aquela obra eminentemente sectária, a ereção do monumento ao renomado apóstata de Nola, o qual, com a ajuda e favor do governo, foi promovido, determinado, e levado adiante pela Maçonaria, cujo mais autorizado porta-voz não se envergonhou de reconhecer o seu propósito e declarar seu significado. Seu propósito era insultar o Papado; seu significado que, ao invés da Fé Católica, deve agora haver em substituição a mais absoluta liberdade de examinação, de crítica, de
pensamento, e de consciência: e o que é entendido por tal linguagem na boca das seitas é bem conhecido.

O selo foi colocado pelas mais explícitas declarações feitas pelo chefe de governo, que eram no seguinte sentido: – Que o verdadeiro e real conflito, que o governo tem o mérito de entender, é o conflito entre a fé e a Igreja de um lado e a livre examinação e a razão do outro. Que a Igreja tente fazer como ela fez antes, acorrentar novamente a razão e o livre-pensar, e prevalecer; mas o governo neste conflito declara-se abertamente a favor da razão como contrária à fé, e toma sobre si mesmo a tarefa de fazer do Estado Italiano a expressão evidente desta razão e liberdade: uma triste tarefa, que agora há pouco foi enfaticamente reafirmada em uma ocasião semelhante. 

6. À luz de tais fatos e tais declarações como estas, é mais do que nunca claro que a idéia dominante que, em tudo que diz respeito à religião, controla o curso dos assuntos públicos na Itália, é a realização do programa Maçônico. Nós vemos quanto já foi realizado; nós sabemos quanto ainda resta a ser feito; e nós podemos prever com certeza que, enquanto os destinos da Itália estiverem nas mãos de governantes sectários ou de homens sujeitos às seitas, a realização do programa será forçada adiante, mais ou menos rapidamente de acordo com as circunstâncias, até o seu completo desenvolvimento.

A ação das seitas é no presente dirigida para atingir os seguintes objetivos, de acordo com os votos e resoluções passadas em suas mais importantes assembléias, – votos e resoluções inspirados por um ódio mortal à Igreja. A abolição nas escolas de qualquer tipo da instrução religiosa, e a fundação de instituições nas quais até as moças devem ser retiradas de toda influência clerical, qualquer que ela possa ser; porque o Estado, que deve ser absolutamente ateu, tem o inalienável direito e dever de formar o coração e os espíritos de seus cidadãos, e nenhuma escola deveria existir fora de sua inspiração e controle.

A aplicação rigorosa de todas as leis agora vigorando, que visam assegurar a absoluta independência da sociedade civil da influência clerical. A estrita observância de leis suprimindo corporações religiosas, e o emprego de meios para fazê-las efetivas. O controle de todas propriedades eclesiásticas, partindo do princípio que a sua propriedade pertence ao Estado, e a sua
administração ao poder civil. 

A exclusão de todo elemento Católico ou clerical de todas administrações públicas, de obras de caridade, hospitais, e escolas, dos conselhos que governam os destinos do país, de uniões acadêmicas e semelhantes, de companhias, comitês, e famílias, – uma exclusão de tudo, em qualquer lugar, e para sempre. Ao invés, a influência Maçônica deve ser sentida em todas as
circunstâncias da vida social, e se tornar mestra e controladora de tudo.

Por meio disto o caminho vai ser aplainado em direção à abolição do Papado; a Itália irá deste modo ser livre de seu implacável e mortal inimigo; e Roma, que no passado foi o centro da Teocracia universal no futuro será o centro da secularização universal, do qual a Carta Magna da liberdade humana deve ser proclamada à face do mundo inteiro. Estas são as autênticas declarações, aspirações, e resoluções, dos Maçons ou de suas assembléias. 

7. Sem exagero, esta é a presente condição e a futura perspectiva da religião na Itália. Encolher-se para não ver a gravidade disto seria um erro fatal. Reconhecer isto como é, confrontar isto com a prudência e fortaleza evangélicas, inferir os deveres que isto impõe sobre todos os Católicos, e sobre nós especialmente que como Pastores temos que vigiar sobre eles e guiá-los à salvação, é entrar nos olhares da Providência, fazer uma obra de sabedoria e zelo pastoral.

Tanto quanto diz respeito a Nós, o ofício Apostólico põe sobre Nós o dever de protestar em alta voz mais uma vez contra tudo que tem sido feito, está sendo feito, ou está sendo tentado na Itália para prejudicar a religião. Defendendo e guardando os direitos sagrados da Igreja e do Pontificado, Nós abertamente repelimos e denunciamos a todo o mundo Católico os ultrajes que a Igreja e o Pontificado estão continuamente recebendo, especialmente em Roma, e que nos atrapalham no governo da Igreja Católica, e adicionam dificuldade e indignidade à Nossa condição. Nós estamos determinados a não omitir nada de Nossa parte que possa servir para manter a fé viva e vigorosa entre o povo italiano, e para protegê-lo contra os assaltos de seus inimigos. Nós, portanto, fazemos um apelo, Veneráveis Irmãos, ao vosso zelo e vosso grande amor pelas almas, de modo que, possuídos com um sentido da gravidade e do perigo no qual elas incorrem, vós possais aplicar os remédios adequados e fazer tudo o que puderdes para dispersar este perigo. 

8. Nenhum meio que esteja em vosso poder deve ser neglicenciado. Todos os recursos da palavra, todo expediente na ação, todos os imensos tesouros de socorro e graça que a Igreja coloca em vossas mãos, devem ser usados, para a formação de um Clero instruído e cheio do espírito de Jesus Cristo, para a educação cristã dos jovens, para a extirpação de doutrinas malignas, para a defesa das verdades Católicas, e para a manutenção do caráter Cristão e do espírito de vida familiar. 

9. Quanto ao povo Católico, antes de mais nada é necessário que eles sejam instruídos quanto ao verdadeiro estado de coisas na Itália no que diz respeito à religião, o caráter essencialmente religioso do conflito na Itália contra o Pontífice, e os objetivos reais constantemente visados, para que eles possam ver pela evidência dos fatos os muitos modos pelos quais se conspira contra a sua religião, e possam se convencer do risco que eles correm de serem roubados e despojados do inestimável tesouro da fé.

Com esta convicção em suas mentes, e tendo ao mesmo tempo a certeza de que sem fé é impossível agradar a Deus e ser salvo, eles irão entender que o que agora está em jogo é o maior, para não dizer o único interesse, o qual cada um na terra está obrigado antes de todas as coisas, ao custo de qualquer sacrifício, a colocar fora de perigo, sob pena de miséria eterna.
Eles irão, ainda mais, facilmente entender que, neste tempo de aberto e furioso conflito, seria desgraçante para eles desertarem do campo e se esconderem. Seu dever é permanecer em seus postos, e abertamente mostrar serem verdadeiros católicos por suas crenças e ações, em conformidade com a sua fé. Isto eles devem fazer pela honra de sua fé, e a glória do Soberano Líder
cuja bandeira eles seguem; e para que eles possam escapar do grande infortúnio de serem repudiados no último dia, e de não serem reconhecidos como Seus pelo Supremo Juiz que declarou que qualquer um que não está com Ele está contra Ele.

Sem ostentação ou timidez, que eles dêem prova daquela verdadeira coragem que vem da consciência de cumprir um dever sagrado perante Deus e os homens. A esta franca profissão de fé os Católicos devem unir uma perfeita docilidade e amor filial para com a Igreja, um respeito sincero por seus Bispos, e uma absoluta devoção e obediência ao Pontífice Romano. Em uma palavra, eles irão reconhecer quão necessário é largar tudo que seja obra das seitas, ou que receba impulso ou favor da parte deles, como sendo sem dúvida alguma infectado pelo espírito anti-Cristão; e eles irão, ao contrário, devotar-se com atividade, coragem e constância, a obras Católicas, e às associações e instituições que a Igreja abençoou, e que os Bispos e o Pontífice Romano encorajam e mantêm. 

Além disso, vendo que o principal instrumento empregado por nossos inimigos é a imprensa, que em grande parte recebe deles sua inspiração e suporte, é importante que os Católicos se oponham à imprensa maligna por uma imprensa que seja boa, para a defesa da verdade, nascida do amor à religião, e para sustentar os direitos da Igreja. Enquanto a imprensa Católica estiver ocupada em deixar nus os desígnios pérfidos das seitas, em ajudar e defender as ações dos sagrados Pastores, e em defender a promover as obras Católicas, é dever os fiéis suportar eficazmente esta imprensa, – recusando ou cessando de favorecer de qualquer modo a imprensa maligna; e também diretamente, concorrendo, tanto quanto cada um possa, para ajudá-la a viver e florescer: e neste assunto Nós pensamos que até agora não foi feito o suficiente na Itália.

Finalmente, o ensinamento dirigido por Nós a todos os Católicos, especialmente nas encíclicas “Humanum genus” e “Sapientiae Christianae”, deveria ser particularmente aplicado aos Católicos da Itália, e ser imprimido sobre eles. Se eles têm algo a sofrer ou a sacrificar para permanecer fiéis aos seus deveres, que eles tomem coragem no pensamento de que o Reino dos Céus sofre violência e é ganhado somente fazendo violência a nós mesmos; e que aquele que ama a si mesmo e o que é seu mais do que Jesus Cristo, não é digno dEle. O exemplo dos muitos campeões invencíveis que, em todos os tempos, generosamente sacrificaram tudo pela fé, e os especiais auxílios da graça que fazem o jugo de Jesus Cristo suave e Seu fardo leve, devem animar poderosamente a sua coragem e sustentá-los no glorioso combate. 

10. Até agora Nós temos considerado apenas o lado religioso do presente estado de coisas na Itália, uma vez que este é para Nós o mais essencial, e o assunto que eminentemente diz respeito a Nós em razão do ofício Apostólico que Nós temos. Mas é valioso considerar também o lado social e político, para que os italianos possam ver que não apenas o amor pela religião, mas também o mais nobre e sincero amor à pátria deveria incitá-los a resistir às ímpias tentativas das seitas. – Como uma prova convincente disto, é suficiente notar o tipo de futuro, na ordem social e política, que está sendo preparado para a Itália por homens cujo objetivo é – e eles não fazem segredo disto – combater uma guerra sem trégua contra o Catolicismo e o Papado. 

11. Já o teste do passado fala eloqüentemente por si mesmo. O que a Itália se tornou neste primeiro Período de sua nova vida, quanto à moralidade pública e privada, segurança interna, ordem e paz, riqueza nacional e prosperidade, tudo isto é conhecido por vós pelos fatos, Veneráveis Irmãos, melhor do que Nós poderíamos descrever em palavras. Os próprios homens cujo interesse seria esconder tudo isto, são constrangidos pela verdade a admiti-lo. Nós apenas diremos que, sob as presentes condições, uma necessidade triste mas real, as coisas não poderiam ser de outro modo: a seita Maçônica, com toda a sua jactância de um espírito de beneficência e filantropia, pode apenas exercer uma influência maligna – uma influência que é maligna porque ataca e esforça-se por destruir a religião de Cristo, a verdadeira benfeitora da humanidade. 

12. Todos sabem com que efeito salutar e em quantos modos a influência da religião penetra a sociedade. Está além de disputa que a sólida moralidade pública e privada dá honra e força aos Estados. Mas é igualmente certo que, sem religião não há verdadeira moralidade, pública ou privada.

Da família, solidamente baseada em seus fundamentos naturais, vem a vida, o crescimento, e a energia da sociedade. Mas sem religião, e sem moralidade, a parceria doméstica não tem estabilidade, e os laços familiares se tornam mais fracos e se rompem.

A prosperidade dos povos e das nações vem de Deus e de Suas bênçãos. Se um povo não atribui a sua prosperidade a Ele, mas se levanta contra Ele, e no orgulho de seu coração tacitamente diz a Ele que não tem necessidade dEle, sua prosperidade é apenas uma imagem, certa a desaparecer tão logo agrade ao Senhor confundir a orgulhosa insolência de Seus inimigos.

É a religião que, penetrando no fundo da consciência de cada um, faz com que ele sinta a força do dever e incita-o a cumpri-lo. É a religião que dá aos governantes sentimentos de justiça e amor para com seus súditos; que faz os súditos fiéis e sinceramente devotados aos seus governantes; que faz legisladores retos e bons, magistrados justos e incorruptíveis, soldados bravos e heróicos, administradores conscienciosos e diligentes. É a religião que produz concórdia e afeição entre marido e esposa, amor e reverência entre os pais e seus filhos; que faz os pobres respeitarem as propriedades dos outros, e faz com que os ricos façam um uso justo de sua riqueza. Desta fidelidade ao dever, e deste respeito pelos direitos dos outros vem a ordem, a tranqüilidade, e a paz, que formam uma parte tão importante da prosperidade de um povo e de um Estado. Tire a religião, e com ela todos estes benefícios imensamente preciosos desaparecerão da sociedade. 

13. Para a Itália, além disso, a perda seria sensível. Todas as suas glórias e grandezas, que por um longo tempo deram a ela o primeiro lugar entre as mais cultas nações, são inseparáveis da religião, que ou as produziu ou as inspirou, ou certamente as favoreceu, ajudou, e aumentou. Suas comunas
nos falam de suas liberdades públicas: de suas glórias militares nós lemos em suas muitas memoráveis empresas contra os inimigos do nome Cristão. Suas ciências são vistas em suas universidades que, fundadas, mantidas, e privilegiadas pela Igreja, têm sido sua casa e teatro. Suas artes são mostradas nos inumeráveis monumentos de todo tipo com os quais a Itália está profusamente coberta. De suas instituições para auxílio dos sofredores, para os miseráveis e as classes trabalhadoras nós temos evidência em suas muitas fundações de caridade Cristã, nos muitos asilos estabelecidos para todo tipo de necessidade e infortúnio, e nas associações e corporações que cresceram sob a proteção da religião. A virtude e a força da religião são imortais porque a religião é de Deus. Ela tem tesouros de auxílio e eficacíssimos remédios, que podem ser maravilhosamente adaptados às necessidades de cada tempo e época. O que a religião tem sabido como fazer e tem feito em tempos passados,
ela pode fazer também agora com uma virtude sempre fresca e vigorosa. Retirar a religião da Itália, é secar imediatamente a mais abundante fonte de inestimável auxílio e benefícios. 

14. Além disso, um dos maiores e mais formidáveis perigos da sociedade de hoje, é a agitação dos Socialistas, que ameaçam levantá-la de seus fundamentos. Deste grande perigo a Itália não está livre; e embora outras nações possam estar mais infestadas do que a Itália por este espírito de subversão e desordem, não é entretanto menos verdadeiro que até aqui este espírito está se espalhando largamente e aumentando a cada dia em força. Tão criminosa é sua natureza, tão grande o poder de sua organização e a audácia de seus desígnios, que é necessário unir todas as forças conservadoras, se quisermos impedir seu progresso e evitar com sucesso o seu triunfo. Destas forças a principal, e sobre todas a chefe, é aquela que pode ser fornecida pela religião e a Igreja: sem isto, as mais estritas leis, os mais severos tribunais, e até a força das armas, vão se provar sem utilidade e insuficiente. Como, em tempos antigos, a força material não adiantou contra as hordas dos bárbaros, mas somente o poder da religião Cristã, que entrando em suas almas apagou sua ferocidade, civilizou suas maneiras, e os fez dóceis à voz da verdade e à lei do evangelho; do mesmo modo contra a fúria das multidões sem lei não haverá defesa efetiva sem o salutar poder da religião. É somente este poder que, derramando sobre suas mentes a luz da verdade, e instilando em seus corações os sagrados preceitos morais de Jesus Cristo, pode fazê-los ouvir a voz da consciência e do dever, e, antes de restringir suas mãos, restringir suas mentes e acalmar a violência da paixão. 

Atacar a religião, é portanto privar a Itália de seu mais poderoso aliado contra um inimigo que se torna a cada dia mais formidável. 

15. Mas isto não é tudo. Como, na ordem social, a guerra contra a religião está se tornando mais desastrosa e destrutiva para a Itália, do mesmo modo, na ordem política, a inimizade contra a Santa Sé e o Pontífice Romano é para a Itália uma fonte dos maiores males. Mesmo quanto a isto, a demonstração não é necessária; é suficiente, para a completa expressão de Nosso pensamento, declarar em poucas palavras as suas conclusões. A guerra contra o Papa é para a Itália, internamente, uma causa de profunda divisão entra a Itália oficial e a grande parte dos italianos que são verdadeiramente Católicos: e toda divisão é uma fraqueza. Esta guerra priva nossa terra do suporte e da cooperação do partido que é mais francamente conservador; ela mantém no seio da nação um conflito religioso que nunca trouxe até agora qualquer bem público, mas até mesmo traz dentro de si os germes fatais do mal e do mais pesado castigo.

Externamente, o conflito com a Santa Sé, além de privar a Itália do prestígio e esplendor que ela com certeza teria vivendo em paz com o Pontificado, atrai sobre ela a hostilidade dos Católicos de todo o mundo, é uma causa de imensos sacrifícios, e pode em qualquer ocasião fornecer aos seus inimigos uma arma para ser usada contra ela. 

16. Este é o assim chamado bem-estar e grandeza preparado para a Itália por aqueles que, tendo seus destinos em suas mãos, fazem tudo que podem, de acordo com as ímpias aspirações das seitas, para derrubar a religião Católica e o Papado. 

17. Suponhamos, ao invés disto, que todas as ligações e conspirações com as seitas fossem deixadas de lado; que à religião e à Igreja, como o maior poder social, fosse permitida verdadeira liberdade e completo exercício de seus direitos.

Que feliz mudança viria sobre os destinos da Itália! Os males e os perigos que nós temos lamentado, como o resultado da guerra contra a religião e a Igreja, cessariam com o término do conflito; e ainda mais, nós veríamos mais uma vez florescer no solo escolhido da Itália Católica a grandeza e glória que a religião e a Igreja tem sempre abundantemente produzido. De seus poderes divinos nasceria espontaneamente uma reforma da moralidade pública e privada; os laços familiares seriam fortalecidos; e sob as influências religiosas, o sentido de dever e de fidelidade em seu cumprimento seria despertado em todos os níveis do povo para uma nova vida.

As questões sociais que agora ocupam tanto as mentes dos homens encontrariam seu caminho para a melhor e mais completa solução, pela aplicação prática dos preceitos evangélicos de caridade e justiça. A liberdade popular, não permitida a degenerar em licenciosidade, seria dirigida somente para bons fins, e se tornaria verdadeiramente digna do homem. As ciências, através daquela verdade da qual a Igreja é senhora, se levantariam rapidamente para uma mais alta excelência; e do mesmo modo as artes, através da poderosa inspiração que a religião deriva do alto, e que ela sabe como transfundir às mentes dos homens.

A paz sendo feita com a Igreja, a unidade religiosa e a concórdia civil seriam grandemente fortalecidas; a separação entre a Itália e os Católicos fiéis à Igreja cessaria, e a Itália iria deste modo adquirir um poderoso elemento de ordem e estabilidade. As justas demandas do Pontífice Romano sendo satisfeitas, e seus direitos soberanos reconhecidos, ele seria restaurado a uma condição de verdadeira e efetiva independência; e Católicos de outras partes do mundo, que, não através da influência exterior da ignorância do que desejam, mas através de um sentimento de fé e sentido do dever, levantam suas vozes em defesa da dignidade e liberdade do supremo Pastor de suas almas, não teriam mais razão para considerar a Itália como inimiga do Pontífice. 

 

Ao contrário, a Itália ganharia um maior respeito e estima das outras nações por viver em harmonia com a Sé Apostólica; pois não somente tem esta Sé conferido especiais benefícios aos italianos por sua presença em meio a eles, mas também, pela constante difusão dos tesouros da fé deste centro de bênção e salvação, ela fez o nome italiano grande e respeitado entre todas as nações. A Itália reconciliada com o Pontífice, e fiel à sua religião, seria capaz de dignamente emular a glória de seus antigos tempos; e de qualquer progresso real que haja na época atual ela receberia um novo impulso para avançar em seu glorioso caminho. Roma, preeminentemente a cidade Católica, destinada por Deus para ser o centro da religião de Cristo e a Sede de Seu Vigário, tem tido nisso a causa de sua estabilidade e grandeza através das momentosas mudanças das muitas épocas que passaram. Colocada novamente sob o pacífico e paternal cetro do Pontífice Romano, ela se tornaria novamente o que a Providência e o curso das épocas a fizeram – não encolhida à condição de capital de um reino, nem dividida entre dois poderes soberanos diferentes em um dualismo contrário à toda sua história; mas a digna capital do mundo Católico, grande com toda a majestade da Religião e do supremo Sacerdócio, uma mestra e um exemplo para todas as nações da moralidade e da civilização.

18 Estas não são vãs ilusões, Veneráveis Irmãos, mas esperanças repousando sobre o mais sólido e verdadeiro fundamento. A sentença que tem sido por algum tempo comumente repetida, que os Católicos e o Pontífice são os inimigos da Itália, e aliados, por assim dizer, daqueles que derrubariam tudo, é um insulto gratuito e uma desavergonhada calúnia, ardilosamente espalhada por todos os lugares pelas seitas para disfarçar seus desígnios perversos, e para capacitá-los a continuar sem obstáculo sua odiosa obra de desnudar a Itália de seu caráter Católico. A verdade que é vista da maneira mais clara daquilo que nós dissemos até agora, é que os Católicos são os melhores amigos da Itália. Mantendo-se completamente distantes das seitas, renunciando ao seu espírito e às suas obras, lutando de todos os modos para que a Itália não perca a sua fé, mas a preserve em todo seu vigor – para que não lute contra a Igreja, mas seja sua fiel filha, – para que não ataque o Pontificado, mas se reconcilie com ele, – os Católicos dão prova por tudo isto de seu amor forte e verdadeiro pela religião de seus ancestrais e por sua terra.

Fazei tudo que puderdes, Veneráveis Irmãos, para difundir a luz da verdade entre o povo para que eles possam chegar finalmente ao entendimento de onde seu bem-estar e seu verdadeiro interesse se encontram; e para que se convençam que somente da fidelidade à religião e da paz com a Igreja e com o Pontífice Romano, eles podem esperar obter para a Itália um futuro digno de seu glorioso passado.

Para isto Nós chamaríamos a atenção, não daqueles afiliados às seitas, cujo propósito deliberado é estabelecer a nova edificação da Península Italiana sobre as ruínas da Religião Católica; mas de outros que, sem acolherem tais desígnios malévolos, ajudam estes homens em suas obras dando suporte à sua política; e especialmente dos jovens rapazes, que estão tão sujeitos a se extraviarem pela inexperiência e predominância do mero sentimento. Nós desejaríamos que todos se convencessem que o curso que agora é seguido não pode ser senão fatal para a Itália; e, em fazer este perigo mais uma vez conhecido, Nós somos movidos somente por uma consciência de dever e pelo amor à nossa terra. 

19. Mas, para a iluminação das mentes dos homens, nós devemos acima de tudo pedir pelo especial auxílio do céu. Portanto, à nossa unida ação, Veneráveis Irmãos, nós precisamos juntar a oração; e que seja uma oração geral, constante, e fervorosa: uma oração que irá oferecer gentil violência ao coração de Deus e fazê-lO misericordioso à Itália nosso país, para que Ele desvie dela toda calamidade, especialmente aquela que seria a mais terrível – a perda da fé. – Tomemos como nossa medianeira junto a Deus a gloriosíssima VIRGEM MARIA, a invencível Rainha do Rosário, que tem tão grande poder sobre as forças do inferno, e por tantas vezes fez a Itália sentir os efeitos de Seu amor maternal.

 Recorramos também com confiança aos santos Apóstolos PEDRO e PAULO, que sujeitaram esta terra abençoada à fé, santificaram-na por seus trabalhos, e a banharam em seu sangue. 

20. Como uma garantia enquanto isso do auxílio que Nós pedimos, e como símbolo de Nossa mais especial afeição, recebei a Bênção Apostólica, que do fundo de Nosso coração Nós vos concedemos, Veneráveis Irmãos, ao vosso Clero, e ao povo italiano. 

Dado em Roma, junto de São Pedro, a 15 de outubro de 1890, o décimo terceiro ano de Nosso Pontificado. 



Referências:

[1] S. Gregório o Grande: Carta ao Imperador Maurício, Reg. 5.

http://www.vatican.va/holy_father/leo_xiii/encyclicals/documents/hf_l-xiii_enc_18901015_apostolico-seggio_po.html

Oitava Carta – 18 de Dezembro de 1897 – Beata Helena Guerra

Contra a maçonaria

Santíssimo Padre, O porta-voz me disse que a Maçonaria está preparando para o Santo Natal os piores ultrajes contra o Divino Infante e à Virgem Imaculada, e que para vingar-se das piedosas reparações que os católicos fizeram no ano passado, este ano, a referida seita deseja fazer mais. Santo Padre, peça e recomende que os bons orem muito, a fim de que Deus não seja tão injuriado!…E o Espírito Santo? Por favor, clame que logo venha renovar a face da Terra!…Santíssimo Padre, imagine que eu esteja mesmo aos Seus pés, porque estou com o coração, e me abençoe. Aqui se ora sempre pela Vossa Santidade e pelos Seus santos desejos.(p.69)

 CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ

DECLARAÇÃO SOBRE A MAÇONARIA

 Foi perguntado se mudou o parecer da Igreja a respeito da maçonaria pelo facto que no novo Código de Direito Canónico ela não vem expressamente mencionada como no Código anterior.

Esta Sagrada CongregaçAo quer responder que tal circunstância é devida a um critério redaccional seguido também quanto às outras associações igualmente não mencionadas, uma vez que estão compreendidas em categorias mais amplas.

Permanece portanto imutável o parecer negativo da Igreja a respeito das associações maçónicas, pois os seus princípios foram sempre considerados inconciliáveis com a doutrina da Igreja e por isso permanece proibida a inscrição nelas.  Os fiéis que pertencem às associações maçónicas estão em estado de pecado grave e não podem aproximar-se da Sagrada Comunhão.

Não compete às autoridades eclesiásticas locais pronunciarem-se sobre a natureza das associações maçónicas com um juízo que implique derrogação de quanto foi acima estabelecido, e isto segundo a mente da Declaração desta Sagrada Congregação, de 17 de Fevereiro de 1981 (cf.  AAS 73, 1981, p. 240-241).

O Sumo Pontífice João Paulo II, durante a Audiência concedida ao subscrito Cardeal Prefeito, aprovou a presente Declaração, decidida na reunião ordinária desta Sagrada Congregação, e ordenou a sua publicação.

Roma, da Sede da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, 26 de Novembro de 1983.

  Biografia da Beata Helena Guerra

 Veni Sancte Spiritus!

           Elena Guerra nasceu em Lucca (Itália), no dia 23 de Junho de 1835. Viveu e cresceu em um clima familiar profundamente religioso. Durante uma longa enfermidade, se dedica à meditação da Palavra de Deus e ao estudo dos Padres da Igreja, o que determina seu orientamento da vida interior e de seu apostolado; primeiro na Associação das Amigas Espirituais, idealizada por ela mesma para promover entre as jovens a amizade em seu sentido cristão, e depois nas Filhas de Maria.

         Em Abril de 1870, Elena participa de uma peregrinação pascal em Roma juntamente com seu pai, Antônio. Entre outros momentos marcantes, a visita às Catacumbas dos Mártires confirmam nela o desejo pela vida consagrada. Em 24 de Abril, assiste na Basílica de São Pedro a terceira sessão conciliar do Vaticano I, na qual vinha aprovada a Constituição “Dei Filius” sobre a Fé. A visita ao Papa Pio IX a comove de tal maneira que depois de algumas semanas, já em Lucca, no dia 23 de Junho, faz a oferta de toda a sua vida pelo Papa.

         No ano de 1871, depois de uma grande noite escura, seguida de graças místicas particulares, Elena com um grupo de Amigas Espirituais e Filhas de Maria, dá início a uma nova experiência de vida religiosa comunitária, que em 1882 culminará na fundação da Congregação das Irmãs de Santa Zita, dedicada a educação cultural e religiosa da juventude. É neste período que Santa Gemma Galgani se tornará “sua aluna predileta”.

         Em 1886, Elena sente o primeiro apelo interior a trabalhar de alguma forma para divulgar a Devoção ao Espírito Santo na Igreja. Para isto, escreve secretamente muitas vezes ao Papa Leão XIII, exortando-o a convidar “os cristãos modernos” a redescobrirem a vida segundo o Espírito; e o Papa, amavelmente solicitado pela mística Luquese, dirige à toda Igreja alguns documentos, que são como uma introdução a vida segundo o Espírito e que podem ser considerados também como o início do “retorno ao Espírito Santo” dos tempos atuais: A breve “Provida Matris Charitate” de 1895; a Encíclica “Divinum Illud Munus” em 1897 e a carta aos bispos “Ad fovendum in christiano populo”, de 1902.

         Em Outubro de 1897, Elena é recebida em audiência por Leão XIII, que a encoraja a prosseguir o apostolado pela causa do Espírito Santo e autoriza também a sua Congregação a mudar de nome, para melhor qualificar o carisma próprio na Igreja: Oblatas do Espírito Santo.

         Para Elena, a exortação do Papa é uma ordem, e se dedica ainda com maior empenho à causa do Espírito Santo, aprofundando assim, para si e para os outros, o verdadeiro sentido do “retorno ao Espírito Santo”: Será este o mandato da sua Congregação ao mundo.

         Elena, em suas meditações com a Palavra de Deus, é profundamente impressionada e comovida por tudo o que acontece no Cenáculo histórico da Igreja Nascente: Ali, Jesus se oferece como vítima a Deus para a salvação dos homens; ali institui o Sacramento de Amor, a Eucaristia; ali, aparece aos seus discípulos depois da ressurreição e ali, enfim, manda de junto do Pai o Espírito Santo sobre a Igreja Nascente.

         A Igreja é chamada a realizar os Mistérios do Cenáculo, Mistérios permanentes, e, portanto, o Mistério Pascal: A Igreja é, por isto, prolongamento do Cenáculo, e, analogamente, é ela mesma como um Cenáculo Espiritual Permanente.

         É neste Cenáculo do Mistério Pascal, no qual o Senhor Ressuscitado reúne a comunidade sacerdotal real e profética, que também nós, e cada fiél em particular, fomos inseridos pelo Espírito mediante o Batismo e a Crisma, e capacitados a participar da Eucaristia, que é uma assembléia de confirmados, e, portanto, semelhante a primeira comunidade do Cenáculo depois da descida do Espírito Santo. É nesta prospectiva que Elena Guerra concebe e inicia o “Cenáculo Universal” como movimento de oração ao Espírito Santo.

         Elena morreu no dia 11 de Abril de 1914, sábado santo, com o grande desejo no coração de ver “os cristãos modernos” tomando consciência da presença e da ação do Espírito Santo em suas vidas, condição indispensável para um verdadeiro “renovamento da face da terra”.

         Elevada à honra dos altares em 26 de Abril de 1959, justamente o Papa a definiu “Apóstola do Espírito Santo dos tempos modernos”, assim como Santa Maria Madalena foi a apóstola da Ressurreição e Santa Maria Margarida Alacoque a apóstola do Sagrado Coração.

         O carisma profético de Elena é ainda atual, visto que a única necessidade da Igreja e do Mundo é a renovação contínua de um perene e “Novo Pentecostes” que por fim “renove a face da terra”.

   “A vinda do Espírito Santo no Cenáculo,

foi como o beijo da reconciliação dado

por Deus à humanidade redimida no sangue de Jesus”

(Elena Guerra)

 Pensamentos

  • “O amor e só o amor faz tudo!”



  • “O Espírito Santo é a tua vida e tu não podes fazer nada de bom sem Ele.”



  • “É necessário que o Espírito Santo forme em nós o homem novo, portanto precisamos lhe pedir com fervorosas súplicas que nos conceda esta graça; porque sem o Espírito Santo ficaremos sempre como somos!”



  • “Do Espírito Santo provem às almas todo o auxílio para a sua santificação. Do Espírito Santo procede a graça que faz brotar nos corações a preciosa semente da virtude. É dEle aquele divino fogo do amor que alimenta e faz crescer os bons desejos e os amadurece em obras de perfeição. Procede do Espírito Santo aquele ardor de bem querer que leva a trabalhar com santa generosidade. Do Espírito Santo emana aquela suave caridade que une o coração humano a Deus. Do Espírito Santo vem aquela paz necessária para progredir no bem. Do Espírito Santo provem as consolações que restauram e fortalecem o espírito, o suportam na dor e o impelem aos mais altos empreendimentos.”



  • “A alma necessita do Espírito Santo, sem o qual não se encontra em nós qualquer bem. A santa Igreja adverte-nos que não pode existir nada de inocente no homem que não tenha em si o Espírito Santo. E São Paulo ensina-nos que sem o auxílio do Espírito Santo não podemos sequer invocar o santo Nome de Jesus.”



  • “É o Espírito Santo que faz os santos. Aspirar a tão grande destino e não ser devotos do Espírito Santo é uma contradição.”



  • “Que coisa de melhor para nós do que ser guiados e sustentados pelo Amor?”



  • “A nossa alma, mesmo quando é ingrata e rebelde, não pode ter melhor amigo do que o Espírito de Deus.”



  • “O Pentecostes recorda aos cristãos a presença contínua do Espírito Santo sobre a terra. Portanto esta solenidade não é só a comemoração de um acontecimento realizado nos tempos passados, mas é a garantia de uma contínua realidade sempre viva entre nós, isto é, a presença do Espírito Santo: dado que Ele está entre nós não menos do que esteve no Cenáculo no dia de Pentecostes, embora esteja inacessível aos nossos sentidos. O Salvador assegura-nos esta presença e permanência.”



  • “As principais disposições para receber o Espírito Santo são quatro:
    - desejá-lo e invocá-lo com fervorosa e perseverante oração.
    - libertar o coração de todo o afeto que não se dirige para Deus.
    - humilhar-se e reconhecer o nosso nada e a necessidade que temos do Divino Mestre.

  • - prometer-lhe obediência e preparar-se para fazer e sofrer tudo o que agradar a Deus; para que Ele esteja em nós e seja por nós glorificado no tempo e na eternidade.”



  • “Eis os meios principais para que o Espírito Santo habite em nós:
    - abandono com docilidade à sua conduta;

- não resistir à luz interior das suas inspirações, mas aceitá-las;

- nunca permitir que as criaturas ocupem sequer uma pequena parte do nosso coração que é o seu templo.
- aproveitar as ocasiões para praticar as virtudes e fazer obras com santo fervor;

- alimentar um fervoroso e constante espírito de oração;
- conservar sempre acesa no coração a chama do amor celestial.”



  • “Deveres que temos para com o Amor Eterno:
    - procurar conhecê-lo melhor;

- adorá-lo – agradecê-lo – amá-lo;

- nunca o entristecer – rezar a ele continuamente.”



  • “O Espírito Santo é o Deus de todos; veio, vem e sobrevém para todos a fim que todos não só o conheçam, mas ainda o recebam em si, e sejam cheios dos seus preciosos dons.”



  • “O mistério de Pentecostes é um mistério permanente; o Espírito continua a vir sobre todas as almas que verdadeiramente o desejam.”



  • “Não foi somente sobre os Apóstolos que desceu o Espírito Santo, como mostrou também por meio de sucessivas aparições nos dias que se seguiram a Pentecostes, mas vem para todos os fiéis, em todos os lugares, em qualquer idade, basta que o queiram, que O invoquem, e lhe dêem lugar no próprio coração.”



  • “A solenidade de Pentecostes não é uma simples comemoração de tão grande mistério: é o verdadeiro renovamento porque o mesmo Espírito que visivelmente desceu sobre Igreja nascente, continua a descer invisivelmente sobre os fiéis para acender nos seus corações o fogo do divino Amor.”



  • “No dia de Pentecostes, o Espírito Santo desce como Santificador, e requer um forte desapego dos bens terrenos, como Mestre, portanto escuta-O na solidão, no recolhimento, e como Consolador, mas por isso deves renunciar a tudo o que não é de Deus.”



  • “A vinda do Espírito Santo no Cenáculo foi como o beijo da reconciliação dado por Deus à humanidade, redimida com o Sangue de Jesus Cristo.”



  • “Se o «Vem», aquele abençoado «Vem» que a partir do Cenáculo a santa Igreja não cessou nunca de repetir, se tornasse tão popular com o «Ave»!”



  • “O que é que pode faltar à alma que pode dizer ao Espírito: «Vem»?”



  • “Vem! Quer dizer: concede-Te as nós mesmos, ó Espírito Santo: dá – Te a nós! Com o «vem» pedimos mais que uma graça, antes a Fonte das Graças; pedimos o eterno Amor, pedimos Deus! Vem!

Às vezes a devoção ao Espírito Santo não é bem compreendida e poderia haver quem por um «Veni» ou sete «Pater» rezados todos os dias ao Espírito Santo, acredita ser seu devoto, enquanto entretanto não se preocupam de o entristecer levando uma vida tíbia e pecaminosa.”

 

http://www.elenaguerra.com/a3_pensamentos.htm

 MENSAGEM DO CARDEAL ANGELO SODANO
AO CONGRESSO SOBRE
«OS SINAIS DO ESPÍRITO NO SÉCULO XX»
REALIZADO NA CIDADE DE LUCA (ITÁLIA)

 

A Sua Ex.cia Rev.ma D. BENVENUTO ITALO CASTELLANI
Arcebispo de Luca
Excelência Reverendíssima

O Santo Padre, que com alegria tomou conhecimento da notícia do Congresso internacional sobre: Os sinais do Espírito no século XX. Uma releitura histórica: a narração das testemunhas, programado de 30 de Setembro a 2 de Outubro de 2005 na cidade de Luca, sente-se feliz por renovar a todos os participantes a sua cordial saudação e em particular a quantos o promoveram e organizaram: o Coordenador Nacional da Renovação do Espírito Santo, Sr. Salvatore Martinez; a Superiora-Geral da Congregação das Oblatas do Espírito Santo, Ir. Gemma Girolami; a fundadora do Movimento dos Focolares, Sra. Chiara Lubich; e o fundador da Comunidade de Santo Egídio, Prof. Andrea Riccardi. Ele transmite uma saudação especial a Vossa Excelência e ao Presidente da Câmara Municipal da Cidade, que generosamente abriu as portas aos congressistas.

Em Luca nasceu a Beata Madre Helena Guerra, fundadora do Instituto das Oblatas do Espírito Santo que, no início do século XX, pediu a Leão XIII que consagrasse o mundo ao Espírito Santo.

O Sumo Pontífice fê-lo no dia 1 de Janeiro de 1901. Retomando quanto Sua Santidade Bento XVI, durante a hodierna Audiência geral, desejou dirigir aos representantes do Congresso, gostaria de renovar o seu apreço por esta significativa iniciativa, destinada a resgatar a memória espiritual do século recém-terminado, constelado de tristes páginas de história, mas imbuído também de “maravilhosos testemunhos de renascimento espiritual e carismático em todos os âmbitos do saber e do agir humanos”. Precisamente a partir desta referência histórico-eclesial concreta, o vosso Congresso tem a intenção de realizar uma ampla releitura religiosa do século XX, sobretudo mediante significativos testemunhos de protagonistas; e uma oportuna revisitação histórica, animada por um sentido de gratidão religiosa ao Espírito Santo, que não cessa de acompanhar e orientar o caminho da Igreja e do mundo.

É precisamente no coração do século XX que se insere o Concílio Vaticano II, principal evento eclesial do século, inspirado e orientado pelo Espírito Santo. Na conclusão do Grande Jubileu do Ano 2000, o venerado Papa João Paulo II indicou-o como “a grande graça de que a Igreja beneficiou no século XX” e como “bússola segura para nos orientar no caminho do século que começa” (Carta Apostólica Novo millennio ineunte, 57). Todo o povo cristão continua a olhar para ele, enquanto avança no terceiro milénio, anunciando e proclamando com alegria o Evangelho da vida e do amor. O “pentecostes” conciliar, sentido em toda a sua força, não deixou de fazer experimentar o seu sopro benéfico no mundo inteiro. A uma humanidade às vezes preocupada e até mesmo amedrontada diante dos grandes desafios da época moderna, o Concílio Ecuménico Vaticano II lançou um corajoso convite à esperança, convite fundamentado não sobre ideologias ou utopias, mas sobre a presença viva de Cristo, morto e ressuscitado. Somente Ele é o Redentor do homem, o Senhor da história, capaz de satisfazer as expectativas mais profundas do coração humano. Só Cristo é a Verdade que ilumina a existência do homem, revelando os perigos e as insídias que a ameaçam e valorizandotodos os seus recursos positivos.

Sua Santidade deseja de coração que o Congresso de Luca, com a participação de ilustres personalidades do mundo inteiro, contribua para pôr em evidência a importância da missão dos cristãos neste nosso tempo, chamados a desempenhar em todos os âmbitos uma profética acção evangelizadora. A Igreja avança no tempo e, inspirando-se em Maria Santíssima, conserva a sábia memória do mistério de Cristo na mutável sucessão dos acontecimentos da história, para servir e apressar a plena instauração do Reino de Deus. O Santo Padre deseja unir a sua voz para exaltar as grandes obras realizadas pelo Espírito de Deus no século há pouco terminado e, enquanto acompanha os trabalhos congressuais com a garantia de orações especiais, invoca a protecção de Maria, Mãe de Cristo e Santuário do Espírito Santo e, de coração, renova a quantos prepararam o Congresso e a quantos nele participam, uma especial Bênção Apostólica.

É de bom grado que aproveito esta circunstância para me confirmar,
Seu, devotíssimo no Senhor,

28 de Setembro de 2005.

 

http://www.vatican.va/roman_curia/secretariat_state/2005/documents/rc_seg-st_20050928_sodano-lucca_po.html

A correspondência da Beata Helena Guerra para o Papa Leão XIII

Primeira Carta – 17 de Abril de 1895

“E se eu, miserável criatura que sou, posso arder para expor inteiramente este meu desejo, vos peço, Ó santidade. Solicite a todos os Bispos que nas paróquias de suas dioceses se faça este ano a Novena de Pentecostes, acompanhada onde for possível, da pregação da Divina Palavra e dos ensinamentos e exortações que iluminam as mentes para conhecerem o Espírito Santo e movem as vontades para corresponderem às suas inspirações….No Ano passado, tive a sorte de poder oferecer a Vossa Santidade, por meio de D.Vicenzo Tarozzi, um livrinho da Novena do Espírito Santo, intitulado “O Novo Cenáculo”, e Vossa Santidade, se designou a aceitá-lo e abençoá-lo, expri9mindo o desejo de que a união de orações propostas naquele pequeno livro para a Novena do Espírito Santo, produzisse uma salutar renovação nas mentes e nos corações.(p.18).

…Impulsionados por esta consideração, pensamos em convidar, com a nossa presente Exortação, a piedade dos católicos, para que a exemplo da Virgem Maria e dos Santos Apóstolos, na iminente Novena de Pentecostes em preparação, dirijamo-nos concordes e com particular fervor a Deus, insistindo naquela oração: “Manda Senhor, o teu Espírito Criador, e renovará a face da Terra”….Portanto, aos fiéis que por nove dias consecutivos, antes de Pentecostes, cada dia dirigirem, seja em público, seja em privado, particulares orações ao Espírito Santo, concedemos para cada dia uma indulgência de sete anos, e para todos os outros dias, quarenta anos, indulgência plenária uma só vez em um dos sete dias, no dia mesmo de Pentecostes ou em oito dias sucessivos, para os que confessados, comungarem segundo as nossas intenções. Além disto concedemos ainda, a quem rezar novamente nas mesmas condições nos oito dias depois de Pentecostes, que possam lucrar as mesmas indulgências. Tais indulgências, aplicáveis por sufrágio das almas santas do Purgatório, são válidas também para os anos futuros, salvo prescrições em contrário de costume e de direito. (Papa Leão XIII – Encíclica Provida Matris Charitate, trechos da encíclica retirados do Livro Escritos de Fogo. RCC Brasil – p.22 e 24).

Em resposta a esta Carta o Papa Leão XIII publicou a Encíclica Provida Matris Charitate convidando todos os católicos para a devoção da Novena de Pentecostes;

…Impulsionados por esta consideração, pensamos em convidar, com a nossa presente Exortação, a piedade dos católicos, para que a exemplo da Virgem Maria e dos Santos Apóstolos, na iminente Novena de Pentecostes em preparação, dirijamo-nos concordes e com particular fervor a Deus, insistindo naquela oração: “Manda Senhor, o teu Espírito Criador, e renovará a face da Terra”….Portanto, aos fiéis que por nove dias consecutivos, antes de Pentecostes, cada dia dirigirem, seja em público, seja em privado, particulares orações ao Espírito Santo, concedemos para cada dia uma indulgência de sete anos, e para todos os outros dias, quarenta anos, indulgência plenária uma só vez em um dos sete dias, no dia mesmo de Pentecostes ou em oito dias sucessivos, para os que confessados, comungarem segundo as nossas intenções. Além disto concedemos ainda, a quem rezar novamente nas mesmas condições nos oito dias depois de Pentecostes, que possam lucrar as mesmas indulgências. Tais indulgências, aplicáveis por sufrágio das almas santas do Purgatório, são válidas também para os anos futuros, salvo prescrições em contrário de costume e de direito. (Papa Leão XIII – Encíclica Provida Matris Charitate, trechos da encíclica retirados do Livro Escritos de Fogo. RCC Brasil – p.22 e 24).

Quarta Carta – Manifestação contra a maçonaria

Ouso dizer ao Santo Padre que o Senhor Deus deseja que Vossa Santidade ordene rapidamente uma reavivamento universal para tantos cristãos tíbios, como também a conversão dos transviados. É deste modo que o demônio, inimigo eterno de Deus, por meio da nefanda sociedade, estendeu sobre a terra uma seita infernal para prender muitas almas. O Papa – verdadeiro amigo de Deus – para a salvação das almas, alargue sempre a rede de São Pedro, abrindo um novo cenáculo, no qual investidos da suprema virtude, estejam os cristãos aptos a se oporem àquela corrente de mal que surge das leis tenebrosas da Maçonaria…Quanto mais rápido se começar uma santa união de católicos, que juntos com a divina Mãe Maria e os Santos Apóstolos, reúnam-se espiritualmente em um novo e permanente Cenáculo, sem cessar de suplicar ao Pai das Misericórdias que mande o Espírito Santo; tanto mais rápido cessarão as ofensas a Deus, as perseguições à Igreja e tanta perdição de almas.

 … “Depois que os homens mataram o Messias, os Apóstolos rezaram e, em vez de castigo, Deus mandou o Seu Espírito.”(p.32-34).

 Encíclica sobre o Espírito Santo, do papa Leão XIII em resposta as cartas da Beata Helena Guerra

 CARTA ENCÍCLICA

DIVINUM ILLUD MUNUS

DO SUMO PONTÍFICE

LEÃO XIII

SOBRE A PRESENÇA E

VIRTUDE ADMIRÁVEL DO ESPÍRITO SANTO

 

INTRODUÇÃO
 

1. Aquela divina missão que, recebida do Pai em benefício do gênero humano, tão santamente desempenhou Jesus Cristo, tem como último fim fazer que os homens cheguem a participar de uma vida bem-aventurada na glória eterna; e, como fim imediato, que durante a vida mortal vivam a vida da graça divina, que ao final se abre florida na vida celestial.

 Por isso, o Redentor mesmo não cessa de convidar com suma doçura a todos os homens de toda nação e língua para que venham ao seio de sua Igreja: Venham todos a mim; Eu sou a vida; Eu sou o bom pastor. Mas, segundo seus altíssimos decretos, não quis Ele completar por si só incessantemente na terra tal missão, mas que, como Ele mesmo a tinha recebido do Pai, assim a entregou ao Espírito Santo para que a levasse a perfeito término. Apraz, com efeito, recordar as consoladoras frases que Cristo, pouco antes de abandonar o mundo, pronunciou diante dos Apóstolos:
“Convém a vós que eu vá! Porque, se eu não for, o Paráclito não virá a vós; mas se eu for, vo-lo enviarei”. (1)

 E ao dizer assim, deu como razão principal de sua separação e de sua volta ao Pai o proveito que seus discípulos haveriam de receber com a vinda do Espírito Santo; ao mesmo tempo que mostrava com este era igualmente enviado por Ele e, portanto, que dEle procedia como do Pai; e que com advogado, como consolador e como mestre concluiria a obra por Ele iniciada durante sua vida mortal. A perfeição de sua obra redentora estava providencialmente reservada à múltipla virtude desse Espírito, que na criação adornou os céus (2) e encheu a terra (3).

 2. E Nós, que constantemente temos procurado, com o auxílio de Cristo Salvador, príncipe dos pastores e bispo de nossas almas, imitar seus exemplos, temos continuado religiosamente sua mesma missão, encomendada aos Apóstolos, principalmente a Pedro, cuja dignidade também se transmite a um herdeiro menos digno (4). Guiados por esta intenção, em todos os atos de nosso pontificado a duas coisas principalmente temos atendido e sem cessar atendemos. Primeiro, a restaurar a vida cristã tanto na sociedade pública como na familiar, tanto nos governantes como nos povos; porque somente de Cristo pode se derivar a vida para todos. Segundo, a fomentar a reconciliação com a Igreja daqueles que, por causa da fé ou por obediência, estão separados dela; pois a verdadeira vontade do mesmo Cristo é que haja só um rebanho sob um só Pastor. E agora, quando nos sentimos próximos do fim de nossa carreira mortal, apraz consagrar toda nossa obra, qualquer que tenha sido, ao Espírito Santo, que é vida e amor, para que a fecunde e a madure. Para cumprir melhor e mais eficazmente nosso desejo, em vésperas da solenidade de Pentecostes, queremos lhes falar da admirável presença e poder do mesmo Espírito; ou seja, sobre a ação que Ele exerce na Igreja e nas almas graças ao dom de suas graças e carismas celestiais. Resulte disso, como é nosso desejo ardente, que nas almas se reavive e se vigore a fé no augusto mistério da Trindade, e especialmente cresça a devoção ao divino Espírito, a quem de muito são devedores todos quanto seguem o caminho da verdade e da justiça; pois, como assinalou São Basílio, toda a economia divina ao redor do homem, se foi realizada por nosso Salvador e Deus, Jesus Cristo, tem sido levada a cumprimento pela graça do Espírito Santo (5).  

 O MISTÉRIO DA TRINDADE
 

3. Antes de entrar na matéria será conveniente e útil tratar algo sobre o mistério da sacrossanta Trindade.

 Este mistério, o maior de todos os mistérios, pois de todos é princípio e fim, é chamado pelos doutores sagrados substância do Novo Testamento; para conhecê-lo e contemplá-lo foram criados, no céu os anjos e na terra os homens; para ensinar com maior clareza o que foi prefigurado no Antigo Testamento, Deus mesmo desceu dos anjos aos homens: “Ninguém jamais viu Deus. O Filho único, que está no seio do Pai, foi quem o revelou” (6).

 Assim pois, quem escreve ou fala sobre a Trindade sempre deverá ter em vista o que prudentemente admonesta o Angélico: “Quando se fala da Trindade, convêm fazê-lo com prudência e humildade, pois – como diz Agostinho – em nenhuma outra matéria intelectual é maior o trabalho ou o perigo de equivocar-se ou o fruto uma vez alcançado” (7). Perigo que procede de confundir entre si, na fé ou na piedade, as pessoas divinas ou de multiplicar sua única natureza; pois a fé católica nos ensina a venerar um só Deus na Trindade e a Trindade em um só Deus.

 4. Por isso, nosso predecessor Inocêncio XII não atendeu a petição daqueles que solicitavam uma festa especial em honra do Pai. Se existem certos dias festivos para celebrar um dos mistérios do Verbo Encarnado, não existe uma festa própria para celebrar o Verbo tão somente segundo sua natureza; e ainda a mesma solenidade de Pentecostes, já tão antiga, não se refere simplesmente ao Espírito Santo por si, mas que recorda sua vinda ou missão externa. Tudo isso foi prudentemente estabelecido para evitar que ninguém multiplicasse a divina essência, ao distinguir as Pessoas. Mais ainda: a Igreja, a fim de manter em seus filhos a pureza da fé, quis instituir a festa da Santíssima Trindade, que logo João XXII mandou celebrar em todas as partes; permitiu que se dedicassem a este mistério templos e altares e, depois de celestial visão, aprovou uma Ordem religiosa para a redenção dos cativos, em honra da Santíssima Trindade, cujo nome a distinguia.

 Convém assinalar que o culto tributado aos Santos e Anjos, à Virgem Mãe de Deus e a Cristo, redunda todo e se termina na Trindade. Nas preces consagradas a uma das três pessoas divinas, também se faz menção das outras; nas litanias, assim que se invoca a cada uma das Pessoas separadamente, se termina por sua invocação comum; todos os salmos e hino tem a mesma doxologia ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo; as bênçãos, os ritos, os sacramentos, ou se fazem em nome da Santa Trindade, ou lhes acompanha sua intercessão. Tudo o que já havia anunciado o Apóstolo com aquela frase: “Dele, por ele e para ele são todas as coisas. A ele a glória por toda a eternidade! Amém” (8); significando assim a trindade das Pessoas e a unidade de natureza, pois por ser esta uma e idêntica em cada uma das Pessoas, procede que a cada uma se tribute, como a um e mesmo Deus, igual glória e coeterna majestade. Comentando aquelas palavras, diz Santo Agostinho: “Não se interprete confusamente o que o Apóstolo distingue, quando diz “Dele, por ele e para ele”; pois diz “dele” pelo Pai, “por ele” por causa do Filho; “para ele”, em relação ao Espírito Santo” (9).

 Apropriações
  

5. Com grande propriedade, a Igreja costuma atribuir ao Pai as obras de poder; ao Filho, as da sabedoria; ao Espírito Santo, as do amor. Não porque todas as perfeições e todas as obras ad extra não sejam comuns às três Pessoas divinas, pois indivisíveis são as obras da Trindade, como indivisa é sua essência (10), porque assim como as três Pessoas divinas são inseparáveis, assim obram inseparavelmente (11); mas que por uma certa relação e como afinidade que existe entre as obras externas e o caráter “próprio” de cada Pessoa, se atribuem a uma melhor que as outras, ou – como dizem – “se apropriam”. Assim como da semelhança do vestígio ou imagem existente nas criaturas nos servimos para manifestar as divinas Pessoas, assim fazemos também com os atributos divinos; e a manifestação deduzida dos atributos divinos se diz “apropriação” (12).
 

Desta maneira, o Pai, que é princípio de toda a Trindade (13), é a causa eficiente de todas as coisas, da Encarnação do Verbo e da santificação das almas: “De Deus são todas as coisas”; “de Deus”, por relação ao Pai: o Filho, Verbo e Imagem de Deus, é a causa exemplar pela qual todas as coisas têm forma e beleza, ordem e harmonia, ele, que é caminho, verdade e vida, tem reconciliado o homem com Deus; “por Deus”, por relação ao Filho; finalmente, o Espírito Santo é a causa última de todas as coisas, posto que, assim como a vontade e ainda toda coisa descansa em seu fim, assim Ele, que é a bondade e o amor do Pai e do Filho, dá forte impulso forte e suave e como a última mão ao misterioso trabalho de nossa eterna salvação: “em Deus”, por relação ao Espírito Santo.

 O Espírito Santo e Jesus Cristo
 

 6. Já precisados os atos de fé e de culto devidos à augustíssima Trindade, o qual tudo nunca se inculcará bastante ao povo cristão, nosso discurso agora se dirige a tratar do eficaz poder do Espírito Santo. Antes de tudo, dirijamos um olhar a Cristo, fundador da Igreja e Redentor do gênero humano. Entre todas as obras de Deus ad extra, a maior é, sem dúvida, o mistério da Encarnação do Verbo; nele brilha de tal modo a luz dos divinos atributos, que nem é possível pensar nada superior nem pode haver nada mais saudável para nós. Este grande prodígio, ainda quando realizado por toda a Trindade, sem embargo se atribui como “próprio” ao Espírito Santo, e assim diz o Evangelho que a concepção de Jesus no seio da Virgem foi obra do Espírito Santo (14), e com razão, porque o Espírito Santo é a caridade do Pai e do Filho, e este grande mistério da bondade divina (15), que é a Encarnação, foi devido ao imenso amor de Deus ao homem, como adverte São João: “Com efeito, de tal modo Deus amou o mundo, que lhe deu seu Filho único”. (16) Acrescenta-se que por dito ato a natureza humana foi levantada à união pessoal com o Verbo, não por mérito algum, mas somente por pura graça, que é dom próprio do Espírito Santo: “O admirável modo – diz Santo Agostinho – com que Cristo foi concebido por obra do Espírito Santo, nos dá a entender a bondade de Deus, posto que a natureza humana, sem mérito algum precedente, já no primeiro instante foi unida ao Verbo de Deus em unidade tão perfeita de pessoa que um mesmo fosse de uma vez Filho de Deus e Filho do homem (17).

 Por obra do Espírito Divino teve lugar não somente a concepção de Cristo, mas também a santificação de sua alma, chamada unção nos Sagrados Livros (18), e assim é como toda ação sua se realizava sob o influxo do mesmo Espírito (19), que também cooperou de modo especial a seu sacrifício, segundo a frase de São Paulo: “Cristo, que pelo Espírito eterno se ofereceu como vítima sem mácula a Deus” (20). Depois de tudo isto, já não se estranhará que todos os carismas do Espírito Santo inundassem a alma de Cristo. Posto que nEle houve uma abundância de graça singularmente plena, de maneira maior e com maior eficácia que se pudesse ter; nele, todos os tesouros da sabedoria e da ciência, as graças gratias datas, as virtudes, e plenamente todos os dons, já anunciados nas profecias de Isaías (21), já simbolizados naquela misteriosa pomba aparecida no Jordão, quando Cristo com seu batismo consagrava suas águas para o novo Testamento.
 

Com razão nota Santo Agostinho que Cristo não recebeu o Espírito Santo tendo já trinta anos, mas que quando foi batizado estava sem pecado e já tinha o Espírito Santo; então, ou seja, no batismos, não fez senão prefigurar o seu corpo místico, ou seja, a Igreja na qual os batizados recebem de modo peculiar o Espírito Santo (22). E assim a aparição sensível do Espírito sobre Cristo e sua ação invisível em sua alma representavam a dupla missão do Espírito Santo, visível na Igreja e invisível na alma dos justos.
 

 

O ESPÍRITO SANTO E A IGREJA
 

 

Nos Apóstolos, bispos e sacerdotes
 

 

7. A Igreja, já concebida e nascida do coração mesmo do segundo Adão na Cruz, se manifestou aos homens pela primeira vez de modo solene no célebre dia de Pentecostes com aquela admirável efusão, que havia sido vaticinada pelo profeta Joel (23); e naquele mesmo dia se iniciava a ação do divino Paráclito no místico corpo de Cristo, pousando sobre os Apóstolos, como novas coroas espirituais, formadas com línguas de fogo, sobre suas cabeças (24)    .
 

E então os Apóstolos desceram do monte, como escreve o Crisóstomo, não mais levando em suas mãos como Moisés tábuas de pedra, mas o Espírito Santo em sua alma, derramando o tesouro e fonte de verdade e de carismas (25). Assim, certamente se cumpria a última promessa de Cristo a seus Apóstolos, a de lhes enviar o Espírito Santo, para que com sua inspiração completara e de certo modo selar o depósito da revelação: “Muitas coisas ainda tenho a dizer-vos, mas não as podeis suportar agora. “Quando vier o Paráclito, o Espírito da Verdade, ensinar-vos-á toda a verdade” (26). O Espírito Santo, que é espírito da verdade, pois procede do Pai, Verdade eterna, e do Filho, Verdade substancial, recebe de um e outro, juntamente com a essência, toda a verdade que logo comunica à Igreja, assistindo-a para que não erre jamais, e fecundando os germes da revelação até que, no momento oportuno, cheguem à maturidade para a saúde dos povos. E como a Igreja, que é meio de salvação, há de durar até a consumação dos séculos, precisamente o Espírito Santo a alimenta e acrescenta em sua vida e em sua virtude: “E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Paráclito, para que fique eternamente convosco”. (27) Pois por Ele são constituídos os bispos, que engendram não só filhos, mas também pais, isto é, sacerdotes, para guiá-la e alimentá-la com aquele mesmo sangue com que foi redimida por Cristo: “O Espírito Santo vos constituiu bispos, para pastorear a Igreja de Deus, que ele adquiriu com o seu próprio sangue” (28); uns e outros, bispos e sacerdotes, por singular dom do Espírito têm poder de perdoar os pecados, segundo Cristo disse a seus apóstolos: “Recebei o Espírito Santo; àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos”. (29)

 

Nas almas
 

 8. Nada confirma tão claramente a divindade da Igreja como o glorioso esplendor de carismas que por todas as partes a circundam, coroa magnífica que ela recebe do Espírito Santo. Baste, por último, saber que se Cristo é a cabeça da Igreja, o Espírito Santo é sua alma: “O que a alma é em nosso corpo, o Espírito Santo é no corpo de Cristo, que é a Igreja” (30). Se é assim, não cabe imaginar nem esperar ainda outra maior e mais abundante manifestação e aparição do Divino Espírito, pois a Igreja tem já o máximo, que há de durar até que, desde o estado da milícia terrena, seja elevada triunfante ao coro feliz da sociedade celestial.
 

Não menos admirável, ainda que em verdade seja mais difícil de entender, é a ação do Espírito Santo nas almas, que se oculta a todo olhar sensível.

 

E esta efusão do Espírito é de abundância tanta que o mesmo Cristo, seu doador, a assemelhou a um rio abundantíssimo, como afirma São João: “Quem crê em mim, como diz a Escritura: Do seu interior manarão rios de água viva”; testemunho que glosou o mesmo evangelista dizendo: “Dizia isso, referindo-se ao Espírito que haviam de receber os que cressem nele”. (31)

 

No Antigo e no Novo Testamento
 

 9. Certo é que ainda nos mesmos justos do Antigo Testamento já habitou o Espírito Santo, segundo sabemos dos profetas, de Zacarias, do Batista, de Simeão e de Ana; pois não foi no Pentecostes quando o Espírito Santo começou a habitar nos Santos pela primeira vez: naquele dia aumentou seus dons, mostrando-se mais rico e mais abundante em sua generosidade (32). Também aqueles eram filhos de Deus, mas ainda permaneciam na condição de servos, porque tampouco o filho se diferencia do servo, enquanto está sob tutela (33); ainda que a justiça neles não era senão pelos previstos méritos de Cristo, e a comunicação do Espírito Santo depois de Cristo é muito mais copiosa, como a coisa pactuado vence em valor a garantia, e como a realidade excede em muito a sua figura. E por isso assim o afirmou João: “Pois ainda não fora dado o Espírito, visto que Jesus ainda não tinha sido glorificado” (34). Assim que Cristo, ascendendo ao alto, tomou posse de seu reino, conquistado com tanto trabalho, com divina munificência abriu seus tesouros, repartindo aos homens os dons do Espírito Santo (35): “E não é que antes não houvesse sido mandado o Espírito Santo, mas que não havia sido dado como o foi depois da glorificação de Cristo (36). E isto porque a natureza humana é essencialmente serva de Deus: “A criatura é serva, nós somos servos de Deus segundo a natureza” (37); mais ainda: pelo primeiro pecado toda nossa natureza caiu tão abaixo que se tornou inimiga de Deus: “Éramos como os outros, por natureza, verdadeiros objetos da ira (divina)” (38). Não existia força capaz de nos levantar de queda tão grande e nos resgatar da ruína eterna. Mas Deus, que nos criou, se moveu de piedade; e por meio de seu Unigênito restituiu ao homem à nobre altura de onde havia caído, e ainda lhe realçou com mais abundante riqueza de dons. Nenhuma língua pode expressar este trabalho da divina graça nas almas dos homens, pelo que são chamados, nas Sagradas Escrituras e nos escritos dos Padres da Igreja, regenerados, novas criaturas, participantes da divina natureza, filhos de Deus, deificados, e muito mais ainda. Agora bem: benefícios tão grandes propriamente os devemos ao Espírito Santo.
 

Ele é o Espírito de adoção dos filhos, no qual clamamos: “Abba”, “Pai”; inunda os corações com a doçura de seu paternal amor: dá testemunho a nosso espírito de que somos filhos de Deus (39). Para declarar o quão é oportuníssima aquela observação do Angélico, de que tem certa semelhança entre as duas obras do Espírito Santo; posto que pela virtude do Espírito Santo Cristo foi concebido em santidade para ser filho natural de Deus, e os homens são santificados para serem filhos adotivos de Deus (40). E assim, com tão grande nobreza ainda que na ordem natural, a geração espiritual é fruto do Amor incriado.

 

 

 

Nos Sacramentos
 

 10. Esta regeneração e renovação começa para cada um no batismo, sacramento no qual, arrancado da alma o espírito imundo, desce a ela pela primeira vez o Espírito Santo, tornando-a semelhante a si: “O que nasceu do Espírito é espírito” (41). Com mais abundância nos é dado o mesmo Espírito na confirmação, pela qual nos infunde fortaleza e constância para viver como cristãos; é o mesmo Espírito que venceu nos mártires e triunfou nas virgens sobre as bajulações e perigos. Temos dito que “nos é dado o mesmo Espírito”: “Porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (42). E em verdade, não só nos enche de dons divinos, mas que é autor dos mesmos e ainda Ele mesmo é o dom supremo porque, ao proceder do mútuo amor do Padre e do Filho, com razão é dom do Deus altíssimo. Para melhor entender a natureza e efeitos deste dom, convém recordar quanto, depois das Sagradas Escrituras, ensinaram os doutores sagrados, isto é, que Deus se faz presente em todas as coisas e que está nelas: por potência, enquanto se fazem sujeitas a sua potestade; por presença, enquanto todas estão abertas e patentes a seus olhos; por essência, porque em todas se faz como causa de seu ser (43). Mas na criatura racional se encontra Deus ainda de outra maneira; isto é, enquanto é conhecido e amado, já que segundo natureza é amar o bem, desejá-lo e buscá-lo. Finalmente, Deus, por meio de sua graça, está na alma do justo na forma mais íntima e inefável, como em seu templo; e disso se segue aquele mútuo amor pelo que a alma está intimamente presente a Deus, e está nele mais do que possa suceder entre os amigos mais queridos, e goza dele com a mais agradável doçura.
 

 

Na habitação
 

 

11. E esta admirável união, que propriamente se chama habitação, e que somente na condição ou estado, mas não na essência, difere-se do que constitui a felicidade no céu, ainda que realmente cumpre-se por obra de toda a Trindade, pela vinda e morada das três Pessoas divinas na alma amante de Deus, “viremos a ele e nele faremos nossa morada” (44), se atribui, sem embargo, como peculiar ao Espírito Santo. E é certo que até entre os ímpios aparecem vestígios do poder e sabedoria divinos; mas da caridade, que é como “nota” própria do Espírito Santo, tão somente o justo participa.
 

Acrescente-se que a este Espírito se dá o apelativo de Santo, também porque, sendo o primeiro e eterno Amor, nos move e excita a santidade, que em resumo não é senão o amor de Deus. E assim, o Apóstolo, quando chama aos justos ‘templo de Deus’, nunca lhe chama ‘templos do Pai’ ou ‘do Filho’, mas ‘do Espírito Santo’: “Ou não sabeis que o vosso corpo é templo do Espírito Santo, que habita em vós, o qual recebestes de Deus?” (45). À habitação do Espírito Santo nas almas justas segue a abundância dos dons celestiais. Assim ensina Santo Tomás: “O Espírito Santo, ao proceder como Amor, procede em razão do dom primeiro; por isto diz Agostinho que, por meio deste dom que é o Espírito Santo, muitos outros dons se distribuem aos membros de Cristo” (46). Entre estes dons estão aqueles ocultos avisos e convites que se fazem sentir na mente e no coração pela moção do Espírito Santo; deles depende o princípio do bom caminho, o progresso nele e a salvação eterna. E posto que estas vozes e inspirações nos chegam bem ocultamente, com toda razão nas Sagradas Escrituras alguma vez se dizem semelhantes ao sussurro do vento; e o Angélico Doutor sabiamente as compara com os movimentos do coração, cuja virtude toda se faz oculta: “O coração tem uma certa influência oculta, e por isso ao coração se compara o Espírito Santo que invisivelmente vivifica a Igreja e a une” (47).
  

Nos sete dons e nos frutos
  

12. E o homem justo, que já vive a vida da divina graça e opera por congruentes virtudes, como a alma por suas potências, tem necessidade daqueles sete dons que se chamam próprios do Espírito Santo. Graças a estes a alma se dispõe e se fortalece para seguir mais fácil e prontamente as divinas inspirações: é tanta a eficácia destes dons, que a conduzem ao topo da santidade; e tanta sua excelência, que preservam intactos, ainda que mais perfeitos, no reino celestial. Graças a esses dons, o Espírito Santo nos move e realça a desejar e conseguir as bem-aventuranças evangélicas, que são como flores abertas na primavera, como indício e presságio da eterna bem-aventurança. E muito prazerosos são, finalmente, os frutos enumerados pelo Apóstolo (48) que o Espírito Santo produz e comunica aos homens justos, ainda durante a vida mortal, cheios de toda doçura e gozo, pois são do Espírito Santo que na Trindade é o amor do Pai e do Filho que enche de infinita doçura as criaturas todas (49).
 

E assim o Divino Espírito, que procede do Pai e do Filho na eterna luz de santidade como amor e como dom, depois de ter-se manifestado através de imagens no Antigo Testamento, derrama a abundância de seus dons em Cristo e em seu corpo místico, a Igreja; e com sua graça e saudável presença levanta os homens dos caminhos do mal, transformando-lhes de terrenas e pecadores em criaturas espirituais e quase celestiais. Pois tantos e tão assinalados são os benefícios recebidos da bondade do Espírito Santo, a gratidão nos obriga a voltar-nos a Ele, cheios de amor e devoção.
 
 

EXORTAÇÕES
 

 

Fomente-se o conhecimento e amor do Espírito Santo
 

 

13. Seguramente farão isto muito bem e perfeitamente os homens cristãos se cada dia se empenharem mais em conhecê-lo, amá-lo e lhe suplicar; a esse fim tem esta exortação dirigida aos mesmos, tal como surge espontânea de nosso paternal ânimo.
 

Acaso não faltem em nossos dias alguns que, ao serem interrogados como em outro tempo foram alguns por São Paulo “se haviam recebido o Espírito Santo”, responderiam por sua vez: “Não, nem sequer ouvimos dizer que há um Espírito Santo!” (50). Que se a tanto não chega a ignorância, em uma grande parte deles é muito escasso seu conhecimento sobre Ele; talvez até com freqüência tem seu nome nos lábios, enquanto sua fé está cheia de crassas trevas. Recordem, pois, os pregadores e párocos que lhes pertencem ensinar com diligência e claramente ao povo a doutrina católica sobre o Espírito Santo, mas evitando as questões árduas e sutis e fugindo da néscia curiosidade que presume indagar os segredos todos de Deus. Cuidem recordar e explicar claramente os muitos e grandes benefícios que do Divino Doador nos vêm constantemente, de forma que sobre coisas tão altas desapareça o erro e a ignorância, impróprios dos filhos da luz. Insistimos nisto não só por tratar-se de um mistério, que diretamente nos prepara para a vida eterna e que, por isso, é necessário crer firme e expressamente, mas também porque, quanto mais clara e plenamente se conhece o bem, mais intensamente se quer e se ama. Isto é o que agora queremos lhes recomendar: Devemos amar o Espírito Santo, porque é Deus: “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todas as tuas forças” (51). E há de ser amado, porque é o Amor substancial eterno e primeiro, e não há coisa mais amável que o amor; e depois tanto mais lhe devemos amar quanto que nos tenha enchido de imensos benefícios que, se atestam a benevolência do doador, exigem a gratidão da alma que os recebe. Amor este que tem uma dupla utilidade, certamente não pequena. Primeiramente nos obriga a ter nesta vida um conhecimento cada dia mais claro do Espírito Santo: O que ama, diz Santo Tomás, não se contenta com um conhecimento superficial do amado, mas se esforça por conhecer uma das coisas que lhe pertencem intrinsecamente, e assim entra em seu interior, como do Espírito Santo, que é amor de Deus, se diz que examina até o profundo de Deus (52). Em segundo lugar, que será maior ainda a abundância de seus dons celestiais, pois como a frieza faz fechar a mão do doador, o agradecimento a faz alargar-se. E cuide-se bem de que dito amor não se limite a áridas disquisições ou a externos atos religiosos; porque deve ser operante, fugindo do pecado, que é especial ofensa contra o Espírito Santo. Quanto somos e temos, tudo é dom da divina bondade que corresponde como própria ao Espírito Santo; sem dúvida o pecador o ofende ao mesmo tempo que recebe seus benefícios, e abusa de seus dons para ofender-lhe, ao mesmo tempo que, porque é bom, se levanta contra Ele multiplicando incessantemente suas culpas.

 

 

Não o entristeçamos
 

 

14. Acrescente-se, ademais, que, então o “Espírito Santo é espírito de verdade”, se alguém falta por debilidade ou ignorância, talvez tenha alguma desculpa diante do tribunal de Deus; mas aquele que por malícia se opõe à verdade ou a evita, comete gravíssimo pecado contra o Espírito Santo. Pecado tão freqüente em nossa época que parecem ter chegado os tristes tempos descritos por São Paulo, nos quais, obcecados os homens por justo juízo de Deus, reputam como verdadeiras as coisas falsas, e ao príncipe deste mundo, que é mentiroso e pai da mentira, o crêem como mestre da verdade: “Por isso, Deus lhes enviará um poder que os enganará e os induzirá a acreditar no erro” (53): “O Espírito diz expressamente que, nos tempos vindouros, alguns hão de apostatar da fé, dando ouvidos a espíritos embusteiros e a doutrinas diabólicas” (54): E já que o Espírito Santo, segundo temos dito antes, habita em nós como em seu templo, repitamos com o Apóstolo: “Não contristeis o Espírito Santo de Deus, com o qual estais selados para o dia da Redenção” (55). Para isto não basta fugir de tudo que é imundo, mas que o homem cristão deve resplandecer em toda virtude, especialmente em pureza e santidade, para não desagradar a tão grande hóspede, posto que a pureza e a santidade são próprias do templo. Por isso exclama o mesmo Apóstolo: “Não sabeis que sois o templo de Deus, e que o Espírito de Deus habita em vós? Se alguém destruir o templo de Deus, Deus o destruirá. Porque o templo de Deus é sagrado – e isto sois vós” (56); tremenda ameaça, porém justíssima.

 

 

 

Peçamos o Espírito Santo
 

 

15. Por último, convêm rogar e pedir ao Espírito Santo, cujo auxílio e proteção todos necessitamos em extremo. Somos pobres, débeis, atribulados, inclinados ao mal: então recorramos a Ele, fonte inesgotável de luz, de consolo e de graça. Sobretudo, devemos lhe pedir perdão dos pecados, que tão necessário nos é, posto que é o Espírito Santo dom do Pai e do Filho, e os pecadores são perdoados por meio do Espírito Santo como por dom de Deus (57), o qual se proclama expressamente na liturgia quando ao Espírito Santo lhe chama remissão de todos os pecados (58).

 

Qual seja a maneira conveniente para invocá-lo, aprendamo-la da Igreja, que suplicante se volve ao mesmo Espírito Santo e o chama com os nomes mais doces de pai dos pobres, doador dos dons, luz dos corações, consolador benéfico, hóspede da alma, aura de refrigério; e lhe suplica encarecidamente que limpe, cure e regue nossas mentes e nossos corações, e que conceda a todos os que nEle confiamos o prêmio da virtude, o feliz final da vida presente, o perene gozo na futura. Nem cabe pensar que essas preces não sejam escutadas por aquele de quem lemos que roga por nós com gemidos inefáveis (59). Em resumo, devemos suplicar-lhe com confiança e constância para que diariamente nos ilustre mais e mais com sua luz e nos inflame com sua caridade, dispondo-nos assim pela fé e pelo amor a que trabalhemos com denodo para adquirir os prêmios eternos, posto que Ele é a garantia de nossa herança (60).
 

 

 

Novena do Espírito Santo
 

 

16. Vede, veneráveis irmãos, os avisos e exortações nossas sobre a devoção ao Espírito Santo, e não duvidamos que por virtude principalmente de vosso trabalho e solicitude, se produzirão saudáveis frutos no povo cristão. Certo que jamais faltará nossa obra em coisa de tão grande importância; mais ainda, temos a intenção de fomentar esse tão belo sentimento de piedade por aqueles modos que julgaremos mais convenientes a tal fim. Entretanto, posto que Nós, há dois anos, por meio do breve Provida Matris, recomendamos aos católicos para a solenidade de Pentecostes algumas orações especiais a fim de suplicar pelo cumprimento da unidade cristã, nos apraz agora acrescentar aqui algo a mais. Decretamos, portanto, e mandamos que em todo mundo católico neste ano, e sempre no porvir, à festa de Pentecostes preceda a novena em todas as igrejas paroquiais e também ainda nos demais templos e oratórios, a juízo dos Ordinários.

 

Concedemos a indulgência de sete anos e outras tantas quarentenas por cada dia a todos os que assistirem a novena e orarem segundo nossa intenção, acrescida da indulgência plenária em um dia de novena, ou na festa de Pentecostes e ainda dentro da oitava, sempre que confessados e comungados orarem segundo nossa intenção. Queremos igualmente também que gozem de tais benefícios todos aqueles que, legitimamente impedidos, não possam assistir aos ditos cultos públicos, e isto ainda nos lugares onde não puderem celebrar-se comodamente – a juízo do Ordinário – no templo, com tal que privadamente façam a novena e cumpram as demais obras e condições prescritas. E nos apraz acrescentar do tesouro da Igreja que possam lucrar novamente uma e outra indulgência todos os que em privado ou em público renovem segundo sua própria devoção algumas orações ao Espírito Santo cada dia da oitava de Pentecostes até a festa inclusive da Santíssima Trindade, sempre que cumpram as demais condições acima indicadas. Todas essas indulgências são aplicáveis também ainda às benditas almas do Purgatório.
 

 O Espírito Santo e a Virgem Maria

 

17. E agora nosso pensamento se volta aonde começou, a fim de obter do divino Espírito, com incessantes orações seu cumprimento. Uni, pois, veneráveis irmãos, a nossas orações também as vossas, assim como as de todos os fiéis, interpondo a poderosa e eficaz mediação da Santíssima Virgem. Bem sabeis quão íntimas e inefáveis relações existem entre ela e o Espírito Santo, visto que é sua Esposa imaculada. A Virgem cooperou com sua oração muitíssimo assim ao mistério da Encarnação como à vinda do Espírito Santo sobre os apóstolos. Que Ela continue, pois, realçando com seu patrocínio nossas comuns orações, para que no meio das aflitas nações se renovem os divinos prodígios do Espírito Santo, celebrados já pelo profeta Davi: “Se enviais, porém, o vosso sopro, eles revivem e renovais a face da terra” (61).

 

Dado em Roma, junto a São Pedro, no dia 9 de maio de 1897, vigésimo de nosso pontificado.

Notas
 

     1.Jn 16,7.

2. Job 26,13.
     3. Sab 1,7.
     4. S. León M., Sermo 2 in anniv. ass. suae.
     5. De Spiritu Sancto 16,39.
     6. Jn 1,18.
     7. I q.31 a.2; De Trin. 1,3.
     8. Rom 11,36.
     9. De Trin. 6 10; 1,6.
     10.S. Agustín, De Trin., 1,4 y 5.
     11. S. Agustín, ibíd.
     12. S. Th., I q.39 a.7.
     13. S. Agustín, De Trin. 4,20.
     14. Mt 1,18.20.
     15. 1 Tim 3,16.
     16. Jn 3,16.
     17. Enchir. 30. S. Thom., II q.32 a.l.
     18. Hech 10,38.
     19. S. Basil., De Sp. S. 16.
     20. Heb 9,14.
     21. 4,1; 11,2.3.
     22. De Trin. 15,26.
     23. 2,28.29.
     24 Cir. Hierosol., Catech. 17.
     25. In Mat, hom.l; 2 Cor 3,3.
     26. Jn 16,12.13.
     27. Ibíd. 14.16,17.
     28. Hech 20,28.
     29. Jn 20,22.23.
      30. S. Agustín, Serm. 187 de temp.
      31. 7,38.39.
      32. S. León M., Hom. 3 de Pentec.
      33. Gál 4,1.2.
      34. 7,39.
      35 Ef 4,8.
      36, Agustín, De Trin. 1,4, c.20.
      37. S. Cir. Alex., Thesam. 1,5, c.5.
      38. Ef 2,3.
      39. Rom 8,15.16.
      40. III q.32, a.l
      41. Jn 3,7.
      42. Rom 5,5.
      43. S. Th., I q.8, a.3.
      44. Jn 14,23.
      45. 1 Cor 6,19.
      46. I q.38, a.2. S. Agustín, De Trin. 15,19.

47. II q.8, a.l.

48. Gál v.22.

49. S. Agustín, De Trin. 5,9.

50. Hech 19,2

51. Deut 6,5.

52. 1 Cor 2,10; I-II q.28, a.2.

53. 2 Tes 2,10.

54. 1 Tim 4,1

55. Ef 4,30.

56.1 Cor 3, 16, I 7.

57. S. Th. III q.3, a.8 ad 3.

58. In Miss. Rom. fer. 3 post Pent.

59. Rom 8,26.

60. Ef 1,14.

61. Sal 103,30.

 

 

 

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